quarta-feira, 20 de junho de 2012

Harry Potter e o Cálice de Fogo - Capítulo 25




— CAPÍTULO VINTE E CINCO —
O Ovo e o Olho



UMA VEZ QUE HARRY NÃO FAZIA IDÉIA de quanto tempo deveria gastar no banho para decifrar o segredo do ovo de ouro, ele resolveu tomá-lo à noite, quando poderia demorar o quanto quisesse. Embora relutasse em aceitar mais favores de Cedrico, ele resolveu também usar o banheiro dos monitores-chefes, muito menos gente tinha permissão de entrar lá, por isso era muito menos provável que ele fosse incomodado.
Harry planejou sua excursão cuidadosamente, porque já fora uma vez apanhado por Filch, o zelador, no meio da noite, fora da cama e dos limites estabelecidos, e não tinha vontade de repetir a experiência. A Capa da Invisibilidade seria, naturalmente, essencial, e como precaução extra, Harry pensou em levar o Mapa do Maroto, que, depois da capa era o recurso mais útil para infringir regulamentos que Harry possuía. O mapa mostrava toda a propriedade de Hogwarts, inclusive seus muitos atalhos e passagens secretas e, o que era mais importante, mostrava as pessoas no interior do castelo como minúsculos pontinhos identificados por legendas que se deslocavam pelos corredores, de modo que Harry seria alertado se alguém se aproximasse do banheiro.
Na noite de Quinta-Feira, ele subiu discretamente ao dormitório, vestiu a capa, voltou à sala, e, exatamente como fizera na noite em que Hagrid lhe mostrara os dragões, esperou que o buraco do retrato se abrisse. Desta vez foi Rony quem esperou do lado de fora para dar a senha à Mulher Gorda (Pastéis de Banana).
— Boa sorte — murmurou Rony, entrando pelo buraco comunal na mesma hora em que Harry saía.
Estava incômodo andar coberto pela capa hoje, porque Harry levava debaixo de um braço o ovo de ouro e, com o outro, segurava o mapa diante do nariz.
No entanto, os corredores banhados de luar estavam desertos e silenciosos, e, consultando o mapa a intervalos estratégicos, Harry pôde ter certeza de não encontrar ninguém que quisesse evitar. Quando chegou à estátua de Bons, o Pasmo, um bruxo com cara de desorientado com as luvas nas mãos trocadas, ele localizou a porta certa, encostou-se nela e murmurou a senha Frescor de Pinho, conforme Cedrico o instruíra. A porta se abriu com um rangido. Harry entrou, trancou-a ao passar e despiu a Capa da Invisibilidade, olhando ao redor.
Sua reação imediata foi que valia a pena ser monitor-chefe só para poder usar aquele banheiro. Tinha uma iluminação suave fornecida por um esplêndido lustre de muitas velas e tudo era feito de mármore branco, inclusive o que parecia ser uma piscina retangular e vazia rebaixada no meio do piso. Tinha umas cem torneiras de ouro em volta da borda, cada uma com uma pedra preciosa de cor diferente engastada na parte superior. Havia também um trampolim.
Longas cortinas de linho protegiam as janelas, havia uma montanha de toalhas brancas e macias a um canto e um único quadro com moldura de ouro na parede. Era uma sereia loura, profundamente adormecida sobre um rochedo, cujos longos cabelos esvoaçavam sobre o rosto toda vez que ela ressonava.
Harry pôs a capa, o ovo e o mapa de lado e avançou, olhando para os lados, seus passos ecoando nas paredes. Por mais magnífico que o banheiro fosse, e por mais desejoso que estivesse de experimentar algumas daquelas torneiras, agora que estava ali, ele não pôde reprimir de todo a sensação de que Cedrico podia estar gozando a cara dele. Como é que aquilo poderia ajudá-lo a resolver o mistério do ovo?
Mesmo assim, ele deixou uma das toalhas macias, a capa, o mapa e o ovo a um lado da banheira, que mais parecia uma piscina, depois se ajoelhou e abriu algumas torneiras. Percebeu imediatamente que havia diferentes tipos de espuma de banho misturados à água, embora não fosse um banho de espuma que Harry já tivesse experimentado.
Uma torneira jorrava bolhas rosas e azuis do tamanho de bolas de futebol; outra, uma espuma branca gelada tão densa que Harry achou que poderia sustentar seu peso se ele a quisesse experimentar; uma terceira despejava nuvens perfumadíssimas na superfície da água. Harry divertiu-se durante algum tempo abrindo e fechando torneiras, curtindo particularmente o efeito de uma, cujo jorro ricocheteava na superfície da água e subia em grandes arcos.
Então, quando a piscina funda se encheu de água, espuma e bolhas (que considerando seu tamanho duravam pouquíssimo tempo), Harry fechou todas as torneiras, despiu o pijama, os chinelos e o roupão e entrou na água.
Era tão funda que seus pés mal tocavam o piso, e ele chegou a nadar duas vezes o comprimento da piscina antes de voltar à borda, pingando água, e examinar atentamente o ovo. Por mais prazeroso que fosse nadar na água quente e espumosa com nuvens de vapor de cores variadas fumegando a toda volta, nenhuma intuição genial lhe ocorreu, nenhum súbito clarão de compreensão.
Harry esticou os braços, ergueu o ovo nas mãos molhadas e abriu-o.
O som agudo do choro encheu o banheiro, ecoou, ressoou no mármore, mas continuou a lhe parecer tão incompreensível quanto antes, se não até mais incompreensível com todos os ecos que produzia. Ele tornou a fechá-lo com um estalido, preocupado que o som pudesse atrair Filch, se perguntando se aquilo não teria sido o que Cedrico planejara, e então, alguém falou, dando-lhe um susto tão grande que ele deixou cair o ovo que saiu quicando pelo chão do banheiro.
— Eu tentaria colocá-lo dentro da água, se fosse você.
Harry engoliu uma quantidade considerável de bolhas com o choque. Ficou em pé, cuspindo água, e viu o fantasma de uma garota de aspecto muito tristonho sentado de pernas cruzadas em cima de uma das torneiras.
Era a Murta Que Geme, cujos soluços em geral eram ouvidos na tubulação de um vaso sanitário em um banheiro três andares abaixo.
— Murta! — exclamou Harry indignado — Eu... eu não estou usando nada!
A espuma era tão densa que isso não fazia a menor diferença, mas ele teve a sensação desagradável de que a Murta o estivera espionando de uma das torneiras desde que ele chegara.
— Fechei os olhos quando você entrou — disse ela, pestanejando para ele por trás dos grossos óculos — Faz séculos que você não vai me ver.
— Tá... bem... — disse Harry, dobrando ligeiramente os joelhos, só para ter certeza absoluta de que Murta não pudesse ver nada além da sua cabeça — Não posso ficar entrando no seu banheiro, não é? É de garotas.
— Você não costumava se importar — respondeu a Murta, infeliz — Você costumava passar um tempão lá.
Era verdade, mas apenas porque ele, Rony e Hermione tinham descoberto que o banheiro interditado da Murta era um lugar conveniente para preparar em segredo a Poção Polissuco, uma poção proibida que transformara Harry e Rony em réplicas vivas de Crabbe e Goyle durante uma hora, para que eles pudessem entrar escondidos na Sala Comunal da Sonserina.
— Fui repreendido por entrar lá — disse Harry, o que era uma meia-verdade, certa vez Percy o apanhara saindo do banheiro da Murta — Depois disso, achei melhor não voltar.
— Ah... entendo... — disse a Murta, cutucando uma pinta no queixo de um jeito tristonho — Bom... em todo o caso... eu experimentaria pôr o ovo na água. Foi o que Cedrico Diggory fez.
— Você andou espionando ele também? — indignou-se Harry — Que é que você faz, entra aqui à noite para ver os monitores tomarem banho?
— Às vezes — disse a Murta com um ar sonso — Mas nunca apareci para falar com ninguém antes.
Que grande honra! — disse Harry aborrecido — Fica de olhos fechados!
Ele verificou se Murta tampara bem os óculos antes de se içar para fora do banho, enrolando bem a toalha no corpo e indo apanhar o ovo. Depois que ele entrou de novo na água, a Murta espiou entre os dedos e disse:
— Anda, então... abre ele debaixo da água!
Harry mergulhou o ovo sob a superfície espumosa e abriu-o...
E desta vez, não ouviu nenhum grito. Saía dele um som gorgolejante, uma música cujas palavras ele não conseguia distinguir através da água.
— Você precisa mergulhar a cabeça também — disse a Murta, que parecia estar adorando a idéia de dar ordens ao garoto — Anda!
Harry tomou fôlego e escorregou para dentro da água, e agora, sentado no fundo da banheira de mármore cheia de espuma, ouviu um coro inquietante de vozes que cantavam para ele e que vinham do ovo em suas mãos:

Procure onde nossas vozes parecem estar,
Não podemos cantar na superfície,
E enquanto nos procura, pense bem:
Levamos o que lhe fará muita falta,
Uma hora inteira você deverá buscar,
Para recuperar o que lhe tiramos,
Mas passada a hora, adeus esperança de achar.
Tarde demais, foi-se, ele jamais voltará.

Harry soltou o corpo e emergiu à superfície espumosa, sacudindo os cabelos para longe dos olhos.
— Ouviu? — perguntou a Murta.
— Ouvi...
“Procure onde nossas vozes parecem estar...”
— Agüenta aí, preciso ouvir de novo...
Ele voltou a afundar na água. Foi preciso ouvir a música do ovo mais três vezes para decorá-la, depois Harry caminhou um pouco dentro da piscina, concentrando o pensamento, enquanto a Murta continuava sentada a observá-lo.
— Preciso procurar pessoas que não podem usar a voz na superfície... — disse o garoto lentamente — Hum... quem poderia ser?
— Você é meio devagar, não é não?
Harry nunca vira a Murta tão animada, a não ser no dia em que a dose da Poção Polissuco de Hermione deixara a garota com a cara coberta de pêlos e um rabo de gato.
Harry deixou seu olhar vagar pelo banheiro, refletindo... Se as vozes só podiam ser ouvidas embaixo da água, então fazia sentido que pertencessem a criaturas sub-aquáticas. Ele passou essa teoria para Murta que riu dele.
— Bem, isso foi o que o Diggory pensou. Ficou deitado aí falando sozinho um tempão. E põe tempão nisso... quase até a espuma toda desaparecer...
— Sub-aquáticas... — disse Harry lentamente — Murta... quem mais mora no lago, além da lula gigante?
— Ah, todo o tipo de coisa. Às vezes eu vou até lá... às vezes não tenho escolha, quando alguém puxa a descarga do meu vaso sem eu estar esperando...
Fazendo força para não pensar na Murta Que Geme descendo veloz por um cano até o lago, misturada ao conteúdo de um vaso, Harry falou:
— Bem, alguma coisa lá tem voz humana? Calma aí...
Os olhos de Harry tinham pousado sobre o quadro da sereia sonolenta na parede.
— Murta, tem sereias lá?
— Aaah, muito bem — disse ela, com os grossos óculos cintilando — Diggory levou muito mais tempo para sacar! E olha que ela estava acordada — a Murta acenou com a cabeça em direção à sereia, com uma expressão de grande desagrado no rosto tristonho — Dando risadinhas, se exibindo e fazendo cintilar as barbatanas...
— É isso então, não é? — perguntou Harry excitado — A Segunda Tarefa é ir procurar as sereias no lago e... e...
Mas ele subitamente percebeu o que estava dizendo e sentiu a excitação se esvair como se alguém tivesse acabado de puxar uma tomada de sua barriga. Ele não era bom nadador, nunca pudera praticar muito. Duda recebera aulas quando os dois eram menores, mas Tia Petúnia e Tio Válter, sem dúvida na esperança de que Harry um dia se afogasse, não tinham se incomodado de lhe ensinar. Nadar duas vezes essa banheira não era problema, mas aquele lago era muito grande e muito fundo... e as sereias com certeza viviam lá em baixo...
— Murta — perguntou Harry, lentamente — Como é que eu vou respirar?
Ao ouvir isso, os olhos da Murta se encheram de lágrimas inesperadas.
— Que falta de tato! — resmungou ela, procurando um lenço nas vestes.
— Que é que é falta de tato? — perguntou Harry espantado.
— Falar de respirar na minha frente! — disse ela com uma voz aguda que ecoou muito alta pelo banheiro — Quando eu não posso... quando eu não respiro... há séculos... — ela escondeu o rosto no lenço e fungou alto.
Harry se lembrou como a Murta sempre fora sensível com essa questão de estar morta, mas nenhum dos outros fantasmas que ele conhecia criava caso por isso.
— Desculpe — disse com impaciência — Eu não quis... me esqueci...
— Ah, é, é muito fácil esquecer que a Murta está morta — disse ela, engolindo em seco e fitando o garoto com os olhos inchados — Ninguém nunca sentiu falta de mim, nem quando eu estava viva. Levou horas para encontrarem o meu corpo, eu sei, fiquei sentada lá dentro esperando alguém aparecer. Olívia Hornby entrou no banheiro e perguntou: “Você está aí emburrada outra vez, Murta? Porque o Prof. Dippet me pediu para a procurar...” Ai ela viu o meu corpo... aaaah, isso ela não esqueceu até o dia da morte, eu fiz questão de garantir... eu a seguia para todo o lado para lembrar, me lembro de que no dia do casamento do irmão dela...
Mas Harry não estava escutando, voltara a pensar na música das sereias:
“Levamos o que lhe fará muita falta”.
Pelo jeito elas iam roubar alguma coisa dele, alguma coisa que ele ia precisar recuperar. Que é que elas iam levar?
—... então, é claro, ela foi ao Ministério da Magia para me obrigar a parar de persegui-la, então tive que voltar para cá, viver no meu banheiro.
— Ótimo — disse Harry vagamente — Bem, já cheguei bem mais longe do que estava... quer fechar os olhos outra vez, eu vou sair da água — ele apanhou o ovo no fundo da banheira, saiu, se enxugou e tornou a vestir o pijama e o roupão.
— Você vai vir um dia desses me visitar no meu banheiro? — perguntou a Murta Que Geme em tom lamurioso, quando Harry apanhou a Capa da Invisibilidade.
— Hum... vou tentar — prometeu Harry, embora intimamente pensasse que a única maneira de tornar a visitar o banheiro da Murta seria se os outros banheiros do castelo estivessem interditados — Até outro dia, Murta... obrigado pela ajuda.
— Tchauzinho — disse ela tristonha, e quando Harry se cobriu com a capa ele a viu disparar de volta à torneira.
Já do lado de fora no corredor escuro, Harry examinou o Mapa do Maroto para verificar se o caminho continuava livre. Sim, os pontinhos que pertenciam a Filch e à Madame Nor-r-ra estavam seguros na sala do zelador... nada mais parecia estar se mexendo à exceção do Pirraça, que andava saltitando pela Sala de Troféus no andar de cima...
Harry acabara de dar o primeiro passo de volta à Torre da Grifinória, quando uma outra coisa no mapa chamou sua atenção... uma coisa decididamente estranha.
Pirraça não era a única coisa que estava se mexendo. Um pontinho isolado esvoaçava por uma sala no canto inferior à esquerda, a sala de Snape. Mas o ponto não estava identificado como “Severo Snape”...
Era Bartolomeu Crouch.
Harry arregalou os olhos para o ponto. Todos supunham que o Sr. Crouch estava doente demais para trabalhar ou vir ao Baile de Inverno, então, que é que ele estava fazendo secretamente em Hogwarts à uma hora da manhã?
Harry observou com atenção o ponto se mexer para um lado e outro da sala, detendo-se aqui e ali... o garoto hesitou, pensando...
Então, sua curiosidade levou a melhor. Ele deu meia-volta e saiu na direção oposta, para a escada mais próxima. Ia ver o que Crouch andava aprontando. Harry desceu as escadas o mais silenciosamente que pôde, embora os rostos em alguns quadros se virassem cheios de curiosidade ao ouvir o rangido do soalho, o atrito do pijama no seu roupão. Ele seguiu, sorrateiro, pelo corredor, empurrou uma tapeçaria mais ou menos a meio caminho, e desceu por uma escada estreita, um atalho que o levaria dois andares abaixo.
Harry mantinha os olhos no mapa, pensando... Não parecia coisa do Sr. Crouch, um homem correto e cumpridor das leis andar xeretando a sala de alguém a essa hora da noite...
Então, no meio da escada, sem pensar no que estava fazendo, sem se concentrar em nada exceto no estranho comportamento do Sr. Crouch, sua perna de repente afundou pelo degrau defeituoso que Neville sempre se esquecia de pular. Ele se desequilibrou, e o ovo de ouro, ainda molhado do banho, escorregou de baixo do seu braço, ele se atirou à frente para tentar agarrá-lo, mas tarde demais: o ovo caiu pela longa escada batendo e ecoando como um tambor em cada degrau — a Capa da Invisibilidade escorregou — Harry agarrou-a, mas o Mapa do Maroto escapuliu de sua mão e escorregou seis degraus, onde, com a perna enterrada até o joelho, o garoto não pôde alcançá-lo.
O ovo de ouro atravessou a tapeçaria ao pé da escada, se abriu e soltou o seu lamento alto no corredor em baixo. Harry puxou a varinha e se esticou para bater com ela no Mapa do Maroto, para apagá-lo, mas o pergaminho estava fora do seu alcance...
Cobrindo-se de novo com a capa, Harry se endireitou, escutando com atenção, os olhos apertados de medo... e, quase imediatamente...
— PIRRAÇA!
Era o inconfundível grito de Filch caçando o poltergeist. Harry ouviu os passos rápidos e arrastados se aproximarem cada vez mais, a voz asmática berrando de fúria.
— Que estardalhaço é esse? Quer acordar o castelo inteiro? Vou pegar você Pirraça, vou pegar, você vai... e o que é isso?
Os passos de Filch pararam, ouviu-se um estalido metálico e o lamento parou: Filch apanhara o ovo e o fechara.
Harry ficou muito quieto, a perna ainda entalada no degrau mágico, à escuta. A qualquer momento agora, Filch iria afastar a tapeçaria, esperando ver Pirraça... e não haveria Pirraça algum... e se ele subisse as escadas, encontraria o Mapa do Maroto... e com ou sem Capa da Invisibilidade, o mapa mostraria “Harry Potter” parado exatamente onde estava.
— Ovo? — exclamou Filch baixinho ao pé da escada — Minha queridinha! — Madame Nor-r-ra obviamente o acompanhava — Isto é uma pista do Tribruxo! Isto pertence a um campeão de escola!
Harry se sentiu enjoado, seu coração batia forte e depressa...
— PIRRAÇA! — rugiu Filch com satisfação — Você andou furtando!
O zelador empurrou a tapeçaria embaixo e Harry viu seu rosto balofo e feio, seus olhos claros esbugalhados espiarem para o alto da escada escura (e para Filch) deserta.
— Se escondendo, é? — perguntou baixinho — Estou indo pegar você, Pirraça... você foi roubar uma pista do Tribruxo, Pirraça... Dumbledore vai expulsar você daqui por isso, seu poltergeist gatuno e mau caráter...
Filch começou a subir a escada, a gata magricela, cor de serragem, em seus calcanhares. Os olhos de Madame Nor-r-ra iguais a lanternas, tão semelhantes aos do dono, estavam fixos diretamente em Harry. O garoto já tivera antes ocasião de se perguntar se a Capa da Invisibilidade funcionava para os gatos...
Doente de apreensão, ele observou Filch se aproximar cada vez mais, trajando seu velho roupão de flanela, tentou desesperadamente soltar a perna entalada, mas só conseguiu que ela afundasse mais alguns centímetros, a qualquer segundo agora, Filch iria ver o mapa ou pisar bem em cima dele...
— Filch? Que é que está havendo?
O zelador parou a poucos degraus abaixo de Harry e se virou. Ao pé da escada estava a única pessoa que poderia piorar a situação de Harry: Snape.
Estava usando um longo camisão cinzento e parecia lívido.
— É o Pirraça, professor — murmurou Filch maldosamente — Ele atirou este ovo escada abaixo.
Snape galgou depressa os degraus e parou ao lado de Filch.
Harry cerrou os dentes, convencido de que as marteladas do seu coração o denunciariam a qualquer minuto...
— Pirraça? — exclamou Snape baixinho, olhando para o ovo nas mãos de Filch — Mas Pirraça não poderia ter entrado na minha sala...
— Esse ovo estava na sua sala, professor?
— Claro que não — retorquiu Snape — Ouvi batidas e lamentos...
— Foi, professor, isso foi o ovo...
—... Vim investigar...
—... Pirraça atirou o ovo, professor...
—... E quando passei pela minha sala, vi que os archotes estavam acesos e a porta de um armário estava entreaberta! Alguém a andou revistando!
— Mas Pirraça não poderia...
— Eu sei que não poderia, Filch! — respondeu Snape com rispidez — Lacro a minha sala com um feitiço que somente um bruxo poderia desfazer!
Snape olhou para o alto da escada, diretamente através de Harry, depois para o corredor embaixo.
— Quero que você venha me ajudar a procurar o intruso, Filch.
— Eu... claro, professor... mas...
Filch mirou as escadas, o olhar desejoso atravessando Harry, e o garoto percebeu claramente que o homem relutava em deixar passar uma oportunidade de encurralar Pirraça.
Vai, suplicou Harry a ele silenciosamente, Vai com o Snape... vai...
Madame Nor-r-ra espiava em volta das pernas do dono... Harry teve a nítida impressão de que a gata o farejava... por que ele enchera aquela banheira com tanta espuma perfumada?
— A questão, professor, é que — disse Filch com voz queixosa — O diretor vai ter que me escutar desta vez, Pirraça andou furtando de um estudante, talvez seja a minha chance de o ver expulso do castelo para sempre...
— Filch, estou me lixando para esse desgraçado desse poltergeist, é a minha sala que...
Toque. Toque. Toque.
Snape parou de falar muito abruptamente. Ele e Filch, os dois, olharam para o pé da escada.
Harry viu Olho-Tonto Moody aparecer mancando pela estreita abertura entre as cabeças deles. Moody estava usando sua velha capa de viagem por cima do camisão e se apoiava na bengala como sempre.
— É uma festa em que todos vão de pijama? — rosnou ele para os dois na escada.
— O Prof. Snape e eu ouvimos ruídos, professor — informou Filch imediatamente — Pirraça, o poltergeist, atirando coisas pelo castelo, como sempre, e Prof. Snape descobriu que alguém tinha invadido a sala...
— Cale a boca! — sibilou Snape.
Moody deu mais um passo em direção à escada. Harry viu seu olho mágico passar por Snape e, depois, inconfundivelmente, por ele. O coração de Harry deu um solavanco horrível. Moody via através das Capas da Invisibilidade... somente ele era capaz de compreender toda a estranheza da cena... Snape de camisão, Filch agarrado ao ovo e ele, Harry, entalado na escada às costas dos dois.
A boca torta e rasgada de Moody se abriu com a surpresa. Por alguns segundos ele e Harry se encararam nos olhos. Então, Moody fechou a boca e tornou a virar seu olho azul para Snape.
— Eu ouvi isso direito, Snape? — perguntou ele lentamente — Alguém invadiu sua sala?
— Não tem importância — disse Snape com frieza.
— Muito ao contrário — rosnou Moody — É muito importante. Quem iria querer invadir sua sala?
— Um estudante, eu diria — Harry podia ver uma veia latejar medonhamente na têmpora gordurosa de Snape — Já aconteceu antes. Desapareceram ingredientes para poções do meu estoque particular... sem dúvida estudantes tentando fazer misturas ilegais...
— Acha que eles andavam atrás de ingredientes para poções, eh? — perguntou Moody — Não está escondendo mais nada em sua sala, está?
Harry viu o contorno do rosto macilento de Snape ficar cor de tijolo, a veia em sua têmpora pulsar mais rápida.
— Você sabe que não estou escondendo nada, Moody — respondeu ele em um tom de voz suave e perigoso — Porque você revistou pessoalmente a minha sala, e exaustivamente.
O rosto de Moody se contorceu em um sorriso.
— Privilégio de Auror, Snape. Dumbledore me mandou ficar vigilante...
— Acontece que Dumbledore confia em mim — disse Snape por entre os dentes cerrados — Recuso-me a acreditar que tenha dado ordens para revistar minha sala!
— Claro que Dumbledore confia em você — rosnou Moody — Ele é um homem de boa fé, não é? Acredita em dar uma segunda oportunidade. Mas eu... eu digo que certos traços de uma pessoa não mudam nunca, Snape. Traços que não mudam nunca, entende o que eu quero dizer?
Snape subitamente fez uma coisa muito estranha. Segurou o braço esquerdo convulsivamente com a mão direita, como se alguma coisa nele o incomodasse.
Moody deu uma risada.
— Volte para a cama, Snape.
— Você não tem autoridade para me mandar a lugar algum! — sibilou Snape, soltando o braço como se estivesse zangado consigo mesmo — Tenho tanto direito de andar por esta escola depois do anoitecer quanto você!
— Então ande o quanto quiser — disse Moody, mas sua voz estava carregada de ameaça — Espero um dia desses encontrá-lo num corredor escuro... a propósito, você deixou cair uma coisa...
Com uma pontada de horror, Harry viu Moody apontar para o Mapa do Maroto, que continuava caído na escada, uns seis degraus abaixo dele. Quando Snape e Filch se viraram para olhar, Harry mandou para o ar toda a cautela, ergueu os braços por baixo da capa e acenou furiosamente para atrair a atenção de Moody, falando sem emitir nenhum som: “É meu! Meu!”.
Snape estendera a mão para apanhar o mapa, uma medonha expressão de compreensão se desenhando em seu rosto...
— Accio pergaminho!
O mapa voou para o alto, escapando dos dedos estendidos de Snape, e mergulhou em direção à mão de Moody.
— Me enganei — disse ele calmamente — É meu, devo ter deixado cair hoje mais cedo...
Mas os olhos negros de Snape correram do ovo nos braços de Filch para o mapa na mão de Moody e Harry percebeu que o professor estava somando dois mais dois, como só ele era capaz de fazer...
— Potter — disse ele baixinho.
— Que foi que você disse? — perguntou Moody calmamente, dobrando o mapa e embolsando-o.
— Potter! — rosnou Snape e ele chegou mesmo a virar a cabeça para o lugar em que Harry estava, como se de repente pudesse vê-lo — Esse ovo é o ovo de Potter. Esse pergaminho pertence ao Potter. Já o vi antes e estou reconhecendo! Potter está aqui! Potter está coberto pela Capa da Invisibilidade!
Snape estendeu as mãos para frente como um cego e começou a subir a escada, Harry poderia jurar que as narinas enormes do professor estavam se dilatando, tentando farejá-lo. Com a perna presa, o garoto se deitou para trás, tentando evitar as pontas dos dedos de Snape, mas a qualquer momento...
— Não há nada aí, Snape! — disse Moody com rispidez — Mas terei prazer em contar ao diretor como os seus pensamentos rapidamente voaram para Harry Potter!
— Está querendo dizer o quê com isso? — rosnou Snape, voltando-se mais uma vez para encarar Moody, as mãos ainda estendidas, a centímetros do peito de Harry.
— Quero dizer que Dumbledore está muito interessado em saber quem é que está querendo acabar com aquele garoto! — respondeu Moody, mancando mais para junto da escada — E eu também estou Snape... muito interessado...
A luz dos archotes iluminou brevemente seu rosto mutilado, de modo que as cicatrizes e o pedaço que faltava do seu nariz pareceram mais fundos e mais escuros que nunca.
Snape estava olhando para baixo, para Moody, e Harry não pôde ver a expressão do seu rosto. Por um instante, ninguém se mexeu nem disse nada.
Então Snape lentamente baixou as mãos.
— Eu meramente pensei — disse Snape, com uma voz de forçada calma — Que se Potter anda outra vez passeando por aí a altas horas da noite... é um hábito indesejável que ele tem... deviam obrigá-lo a parar. Para... para sua própria segurança.
— Ah, entendo — disse Moody brandamente — Você sempre tem em mente o que é melhor para Potter, não é mesmo?
Houve uma pausa. Snape e Moody continuaram a se encarar.
Madame Nor-r-ra miou alto, ainda espiando por trás das pernas de Filch, procurando a fonte do banho de espuma de Harry.
— Acho que vou voltar para a cama — disse Snape secamente.
— A melhor idéia que você já teve esta noite — comentou Moody — Agora Filch, se me fizer o favor de me entregar este ovo...
— Não — exclamou Filch agarrando o ovo como se fosse um filho primogênito — Prof. Moody, ele é a prova do comportamento traiçoeiro do Pirraça!
— É a propriedade do campeão de quem ele o roubou — disse Moody — Entregue-o, agora.
Snape desceu com arrogância e passou por Moody sem dizer mais nada.
Filch fez um som de chilreio para Madame Nor-r-ra, que continuou vidrada em Harry por mais alguns segundos antes de se virar para acompanhar o dono.
Ainda ofegando, Harry ouviu Snape se afastar pelo corredor; Filch entregou o ovo a Moody e também desapareceu de vista, resmungando para a gata:
— Tudo bem, doçura... veremos Dumbledore amanhã de manhã... contaremos a ele o que o Pirraça andou fazendo...
Uma porta bateu.
Harry ficou olhando para Moody, que apoiou a bengala no primeiro degrau da escada e começou a subida em direção ao garoto, penosamente, uma batida surda a cada segundo passo.
— Essa foi por pouco, Potter.
— Foi... eu... hum... obrigado — disse Harry com a voz fraca.
— Que é isso? — perguntou o professor, tirando o Mapa do Maroto do bolso e desdobrando-o.
— Mapa de Hogwarts — respondeu o garoto, desejando que Moody não demorasse muito a soltá-lo da escada, sua perna estava realmente doendo.
— Pelas barbas de Merlin! — sussurrou Moody, examinando o mapa, seu olho mágico endoidando — É um senhor mapa, Potter!
— É, é... muito útil.
Os olhos de Harry estavam começando a marejar de dor.
— Hum... Prof. Moody, o senhor acha que poderia me dar uma mãozinha...?
— Quê? Ah! É... claro...
Moody segurou os braços de Harry e puxou-o, a perna do garoto se soltou do degrau defeituoso e ele subiu para o degrau acima. Moody continuou observando o mapa.
— Potter... — perguntou ele lentamente — Não lhe aconteceu, por acaso, ver quem invadiu a sala de Snape? Neste mapa, quero dizer?
— Hum... vi, vi sim... — admitiu Harry — Foi o Sr. Crouch.
O olho mágico de Moody perpassou toda a superfície do mapa. De repente ele pareceu assustado.
— Crouch? Você... você tem certeza, Potter?
— Absoluta.
— Bem, ele não está mais aqui — disse o professor, seu olho ainda percorrendo o mapa — Crouch... isso é muito... muito interessante...
O professor ficou calado quase um minuto, ainda fitando o mapa. Harry percebeu que aquela notícia significava alguma coisa para Moody, e quis muito saber o quê. Ficou em dúvida se teria coragem de perguntar. Moody lhe dava um pouco de medo... no entanto, acabara de ajudá-lo a evitar uma grande confusão...
— Hum... Prof. Moody... por que o senhor acha que o Sr. Crouch queria dar uma olhada na sala de Snape?
O olho mágico de Moody abandonou o mapa e se fixou, trêmulo, em Harry.
Era um olhar penetrante e o garoto teve a impressão de que Moody o avaliava, pensando se deveria lhe responder ou o quanto lhe dizer.
— Vamos pôr a coisa desta maneira, Potter — murmurou ele finalmente — Dizem que o velho Olho-Tonto é obcecado em apanhar bruxos das trevas... mas Olho-Tonto não é nada, nadinha, comparado a Bartô Crouch.
Ele continuou a examinar o mapa.
Harry estava ardendo de vontade de ouvir mais.
— Prof. Moody? — perguntou ele outra vez — O senhor acha... isso poderia ter alguma ligação com... talvez o Sr. Crouch pense que tem alguma coisa acontecendo...
— O quê, por exemplo? — perguntou Moody energicamente.
Harry se perguntou o quanto se atreveria a dizer. Não queria que Moody adivinhasse que tinha uma fonte de informação fora de Hogwarts, isto poderia levar a perguntas perigosas sobre Sirius.
— Não sei — murmurou Harry — Tem coisas estranhas acontecendo ultimamente, não é? Tem saído no Profeta Diário... a Marca Negra na Copa Mundial, os Comensais da Morte e todo o resto...
Os dois olhos desiguais de Moody se arregalaram.
— Você é um menino perspicaz, Potter — seu olho mágico voltou a percorrer o Mapa do Maroto — Crouch poderia estar pensando mais ou menos nesse sentido — disse ele lentamente — Muito possível... tem havido boatos esquisitos circulando por aí ultimamente, com a ajuda de Rita Skeeter, é claro. Eu reconheço que isso está deixando muita gente nervosa.
Um sorriso amargo torceu sua boca enviesada.
— Ah, se tem uma coisa que detesto — murmurou ele, mais para si mesmo do que para Harry, e seu olho mágico se fixou no canto inferior esquerdo do mapa — É um Comensal da Morte que continuou em liberdade...
Harry encarou o professor. Seria possível que Moody estivesse dizendo o que Harry achava que estava dizendo?
— E agora sou eu que quero fazer a você uma pergunta, Potter — disse Moody, num tom mais profissional.
Harry sentiu o coração encolher; tinha achado que aquilo não iria demorar. Moody ia perguntar onde ele arranjara o mapa, que era um objeto mágico muito duvidoso, e a história de como o mapa viera ter às suas mãos incriminava não somente a ele, mas ao seu próprio pai, a Fred e Jorge Weasley e ao Prof. Lupin, seu professor anterior de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Moody agitou o mapa diante de Harry, que se preparou...
— Posso pedir isso emprestado?
— Ah! — exclamou Harry. Gostava muito do mapa, mas, por outro lado, sentia-se extremamente aliviado de que Moody não estivesse perguntando onde o obtivera e não havia dúvida de que ele ficara devendo um favor ao professor — Claro, tudo bem.
— Bom menino — rosnou Moody — Posso fazer bom uso disso... pode ser exatamente do que eu estava precisando... certo, para a cama, Potter, vamos, agora...
Os dois subiram juntos a escada, Moody ainda examinando o mapa como se fosse um tesouro como ele jamais vira igual. Seguiram em silêncio até a porta da sala de Moody, onde o professor parou e encarou Harry.
— Você já pensou em seguir a carreira de auror, Potter?
— Não — respondeu Harry surpreso.
— Devia pensar nisso — disse Moody, acenando a cabeça e mirando Harry pensativo — Sem dúvida devia... e incidentalmente... estou achando que você não estava simplesmente levando esse ovo para passear hoje à noite?
— Hum... não — respondeu Harry sorrindo — Estive tentando decifrar a pista.
Moody piscou para o garoto, seu olho mágico endoidando outra vez.
— Nada como um passeio noturno para se ter idéias, Potter... vejo você amanhã de manhã...
E entrando na sala, voltou sua atenção para o Mapa do Maroto e fechou a porta ao passar.
Harry caminhou lentamente até a Torre da Grifinória, perdido em pensamentos sobre Snape, Crouch e o que significava tudo aquilo...
Por que Crouch estava fingindo estar doente, se podia vir a Hogwarts quando quisesse? Que é que ele achava que Snape estava ocultando no escritório?
E Moody achando que ele, Harry, devia ser auror! Que idéia interessante...
Mas quando Harry se enfiou silenciosamente em sua cama de colunas, dez minutos mais tarde, o ovo e a capa já guardados em segurança em seu malão, por alguma razão ele achou que gostaria de ver se os outros aurores também eram cheios de cicatrizes, antes de escolher essa carreira.










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