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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 37





DEZENOVE ANOS DEPOIS



O OUTONO PARECEU CHEGAR de repente naquele ano. A manhã do dia primeiro de Setembro estava revigorante e dourada como uma maçã, e, quando a pequena família atravessou saltitante a rua, em direção à grande estação encardida, a fumaça que os carros expeliam e a respiração dos pedestres cintilavam como teias de aranha no ar frio. Duas grandes gaiolas sacudiam em cima dos carrinhos cheios que os pais empurravam, as corujas dentro delas piavam indignadas, e a menina ruiva acompanhava chorosa os irmãos, agarrada à mão do pai.
— Não vai demorar muito, e você também irá — disse-lhe Harry.
— Dois anos — fungou Lílian — Quero ir agora!
Os passageiros olharam curiosos para as corujas quando a família se encaminhou em ziguezague para a barreira entre as plataformas nove e dez. A voz de Alvo chegou aos ouvidos de Harry apesar do barulho reinante, seus dois filhos tinham retomado a discussão começada no carro.
— Não quero ir! Não quero ir para Sonserina!
— Tiago, dá um tempo! — pediu Gina.
— Eu só disse que ele talvez fosse — defendeu-se Tiago, rindo do irmão mais novo — Não vejo problema nisso. Ele talvez vá para Sons...
Tiago, porém, viu o olhar da mãe e se calou. Os cinco Potter se aproximaram da barreira. Lançando ao irmão um olhar ligeiramente arrogante por cima do ombro, Tiago apanhou o carrinho que a mãe levava e saiu correndo. Um instante depois tinha desaparecido.
— Vocês vão escrever para mim, não vão? — perguntou Alvo aos pais, capitalizando imediatamente a ausência momentânea do irmão.
— Todo dia, se você quiser — respondeu Gina.
— Todo dia não — replicou Alvo, depressa — O Tiago diz que a maioria dos alunos recebe carta de casa mais ou menos uma vez por mês.
— Escrevemos para Tiago três vezes por semana no ano passado — contestou Gina.
— E você não acredite em tudo que ele lhe disser sobre Hogwarts — acrescentou Harry. — Ele gosta de brincar, o seu irmão.
Lado a lado, eles empurraram o segundo carrinho e ganharam velocidade. Ao alcançarem a barreira, Alvo fez uma careta, mas a colisão não ocorreu. Em vez disso, a família emergiu na Plataforma Nove e Meia, que estava encoberta pela densa fumaça clara que saía do Expresso de Hogwarts. Vultos indistintos pululavam na névoa, em que Tiago já desaparecera.
— Onde eles estão? — perguntou Alvo, ansioso, espiando os vultos brumosos pelos quais passavam ao avançar pela plataforma.
— Nós os acharemos — tranquilizou-o Gina.
Mas o vapor era denso, e estava difícil distinguir os rostos das pessoas. Separadas dos donos, as vozes ecoavam anormalmente altas. Harry pensou ter ouvido Percy discursar sonoramente sobre o regulamento para uso de vassouras, e ficou feliz de ter um pretexto para não parar e cumprimentar...
— Acho que são eles, Al — disse Gina, de repente.
Um grupo de quatro pessoas que estava parado ao lado do último vagão emergiu da névoa. Seus rostos só entraram em foco quando Harry, Gina, Lílian e Alvo estavam quase em cima deles.
— Oi — disse Alvo, parecendo imensamente aliviado.
Rosa, que já estava usando as vestes de Hogwarts recém-compradas, deu-lhe um grande sorriso.
— Afinal, conseguiu estacionar direito? — perguntou Rony a Harry — Eu consegui. Hermione não acreditou que eu pudesse passar no exame de motorista dos trouxas, não é mesmo? Achou que eu ia precisar confundir o examinador.
— Não pensei, não — replicou Hermione — Fiz a maior fé em você.
— Pois eu o confundi, mesmo — sussurrou Rony para Harry, quando, juntos, embarcaram o malão e a coruja de Alvo no trem — Só me esqueci de olhar pelo retrovisor externo, e, cá entre nós, posso usar um Feitiço Supersensorial para isso.
De volta à plataforma, eles encontraram Lílian e Hugo, o irmão mais novo de Rosa, entretidos em uma animada discussão sobre a Casa para a qual seriam selecionados, quando finalmente fossem para Hogwarts.
— Se você não for para a Grifinória, nós o deserdaremos — ameaçou Rony — Mas não estou pressionando ninguém.
— Rony!
Lílian e Hugo riram, mas Alvo e Rosa ficaram muito preocupados.
— Ele não está falando sério — disseram Hermione e Gina, mas Rony já não estava prestando atenção.
Atraindo o olhar de Harry, ele acenou discretamente com a cabeça para um ponto a uns cinquenta metros. O vapor tinha rareado por um momento, e três pessoas estavam paradas destacando-se contra a névoa em movimento.
— Veja só quem está ali.
Draco Malfoy estava parado com a mulher e o filho, um sobretudo escuro abotoado até o pescoço. Seus cabelos já revelavam entradas que salientavam o seu queixo fino. O novo aluno parecia com Draco tanto quanto Alvo parecia com Harry. Draco viu Harry, Rony, Hermione e Gina olhando para ele, deu um breve aceno com a cabeça e se afastou.
— Então aquele é o pequeno Escórpio — comentou Rony em voz baixa — Não deixe de superá-lo em todos os exames, Rosa. Graças a Deus você herdou a inteligência da sua mãe.
— Rony, pelo amor de Deus — o tom de Hermione mesclava seriedade e vontade de rir — Não tente indispor os dois antes mesmo de entrarem para a escola!
— Você tem razão, desculpe — mas, incapaz de se conter, ele acrescentou — Mas não fique muito amiga dele, Rosa. Vovô Weasley nunca perdoaria se você casasse com um Sangue Puro.
—Ei!
Tiago reaparecera, tinha se livrado do malão, da coruja e do carrinho e, evidentemente, estava fervilhando de novidades.
— Teddy está lá atrás — disse ele, sem fôlego, apontando por cima do ombro para as gordas nuvens de vapor — Acabei de ver! E adivinhe o que ele está fazendo? Se agarrando com a Victoire!
Ele ergueu os olhos para os adultos, visivelmente desapontado com a falta de reação.
— O nosso Teddy! Teddy Lupin! Agarrando a nossa Victoire! Nossa prima! E perguntei a Teddy que é que ele estava fazendo...
— Você interrompeu os dois? — indagou Gina — Você é igualzinho ao Rony...
—... e ele disse que tinha vindo se despedir dela! E depois me disse para dar o fora. Ele está agarrando ela! — acrescentou Tiago, preocupado que não tivesse sido suficientemente claro.
— Ah, seria ótimo se os dois se casassem! — sussurrou Lílian enlevada — Então o Teddy ia realmente fazer parte da nossa família!
— Ele já aparece para jantar quatro vezes por semana — disse Harry — Por que não o convidamos para morar de uma vez conosco?
— É! — concordou Tiago, entusiasmado — Eu não me importo de dividir o quarto com o Alvo... Teddy poderia ficar com o meu!
— Não — disse Harry, com firmeza — Você e Al só dividirão um quarto quando eu quiser ter a casa demolida.
Ele consultou o velho relógio arranhado que, no passado, tinha pertencido a Fábio Prewett.
— São quase onze horas, é melhor embarcar.
— Não se esqueça de transmitir a Neville o nosso carinho! — recomendou Gina a Tiago ao abraçá-lo.
— Mamãe! Não posso transmitir carinho a um professor!
— Mas você conhece Neville...
Tiago girou os olhos para o alto.
— Aqui fora, sim, mas, na escola, ele é o Professor Longbottom, não é? Não posso entrar na aula de Herbologia falando em carinho...
E, balançando a cabeça para a tolice da mãe, ele sapecou um pontapé em Alvo.
— A gente se vê, Al. Cuidado com os testrálios.
— Pensei que eles fossem invisíveis. Você disse que eram invisíveis!
Tiago, porém, riu apenas, permitiu que a mãe o beijasse, deu no pai um rápido abraço e saltou para o trem que se enchia rapidamente. Eles o viram acenar e sair correndo pelo corredor à procura dos amigos.
— Não precisa se preocupar com os testrálios — disse Harry a Alvo — São criaturas meigas, não têm nada de apavorante. E, de qualquer modo, você não irá para a escola de carruagem, irá de barco.
Gina deu um beijo de despedida em Alvo.
— Vejo vocês no Natal.
— Tchau, Al — disse Harry, e o filho o abraçou — Não esqueça que Hagrid o convidou para tomar chá na próxima sexta-feira. Não se meta com o Pirraça. Não duele com ninguém até aprender como se faz. E não deixe Tiago enrolar você.
— E se eu for para Sonserina?
O sussurro foi apenas para o pai, e Harry percebeu que só o momento da partida poderia ter forçado Alvo a revelar como o seu medo era grande e sincero.
Harry se abaixou de modo a deixar o rosto do menino ligeiramente acima do dele. Dos seus três filhos, apenas Alvo herdara os olhos de Lílian.
— Alvo Severo — disse Harry, baixinho, para ninguém mais, exceto Gina, poder ouvir, e ela teve tato suficiente para fingir que acenava para Rosa, que já estava no trem — Nós lhe demos o nome de dois diretores de Hogwarts. Um deles era da Sonserina, e provavelmente foi o homem mais corajoso que já conheci.
— Mas me diga...
—... então, a Sonserina terá ganhado um excelente estudante, não é mesmo? Não faz diferença para nós, Al. Mas, se fizer para você, poderá escolher a Grifinória em vez da Sonserina. O Chapéu Seletor leva em consideração a sua escolha.
— Sério?
— Levou comigo.
Ele jamais contara isso a nenhum dos filhos, e notou o assombro no rosto de Alvo ao ouvi-lo. Agora, entretanto, as portas estavam começando a se fechar ao longo do trem vermelho, e os contornos indistintos dos pais se aglomeravam ao avançar para os beijos finais, as recomendações de última hora.
Alvo pulou para o vagão, e Gina fechou a porta do compartimento dele.
Os estudantes estavam pendurados nas janelas mais próximas. Um grande número de rostos, tanto dentro quanto fora do trem, parecia estar virado para Harry.
— Por que eles estão todos nos encarando? — perguntou Alvo, enquanto ele e Rosa se esticavam para olhar os outros estudantes.
— Não se preocupe — disse Rony — É comigo. Sou excepcionalmente famoso.
Alvo, Rosa, Hugo e Lílian riram.
O trem começou a se deslocar, e Harry acompanhou-o, olhando o rosto magro do filho já iluminado de excitação. Continuou a sorrir e acenar, embora tivesse a ligeira sensação de ter sido roubado ao vê-lo se distanciando dele...
O último vestígio de vapor se dispersou no ar de outono. O trem fez uma curva, a mão erguida de Harry ainda acenava adeus.
— Ele ficará bem — murmurou Gina.
Ao olhá-la, Harry baixou a mão distraidamente e tocou a cicatriz em forma de raio em sua testa.
— Sei que sim.
A cicatriz não incomodara Harry nos últimos dezenove anos.
Tudo estava bem.




FIM DO SÉTIMO E ÚLTIMO VOLUME




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SAGA HARRY POTTER





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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 36





— CAPÍTULO TRINTA E SEIS —
A FALHA NO PLANO



HARRY ESTAVA NOVAMENTE DEITADO com o rosto no chão. O cheiro da Floresta enchia suas narinas. Ele sentia a terra dura e fria sob sua face, e a dobradiça dos seus óculos, deslocados para um lado durante a queda, cortando sua têmpora. Cada centímetro do seu corpo doía, e, no ponto em que a Maldição da Morte o atingira, parecia ter levado um murro de punho de ferro. Ele não se mexeu, manteve-se exatamente onde caíra, com o braço esquerdo dobrado em um ângulo estranho e a boca aberta.
Esperara ouvir vivas de triunfo e júbilo por sua morte, mas, em vez disso, o ar se encheu de passos apressados, sussurros e murmúrios solícitos.
— Milorde... milorde...
Era a voz de Belatriz, como se falasse a um amante. Harry não ousou abrir os olhos, deixou seus outros sentidos explorarem a situação. Sabia que a varinha continuava guardada sob suas vestes porque a sentia espremida entre seu peito e o chão. Um fino acolchoamento na área do estômago lhe informava que a Capa da Invisibilidade também estava ali, escondida.
— Milorde...
— Agora chega — ele ouviu a voz de Voldemort.
Mais passos: várias pessoas estavam retrocedendo do mesmo lugar. Desesperado para ver o que estava acontecendo, e por quê, Harry entreabriu os olhos um milímetro.
Aparentemente, Voldemort estava se levantando. Vários Comensais da Morte se afastavam depressa dele, reintegrando a multidão à volta da clareira. Somente Belatriz continuou ali, ajoelhada ao lado de Voldemort.
Harry fechou os olhos e considerou o que vira. Os Comensais da Morte tinham se aglomerado em torno de Voldemort, que, pelo visto, caíra ao chão. Algo havia ocorrido quando atingira Harry com a Maldição da Morte. Teria tombado também? Parecia provável. Ambos teriam caído, momentaneamente desacordados, e agora ambos recobravam os sentidos...
— Milorde, me deixe...
— Não preciso de sua ajuda — respondeu Voldemort, friamente, e, embora não pudesse ver, Harry visualizou Belatriz, solícita, afastando a mão — O garoto... está morto?
Fez-se absoluto silêncio na clareira. Ninguém se aproximou de Harry, mas ele sentiu que os olhares se concentravam nele, pareciam empurrá-lo mais fundo no chão, e apavorou-se que uma pálpebra ou um dedo seus pudessem mexer.
— Você — disse Voldemort, e houve um estampido e um gritinho de dor — Examine-o. Me diga se está morto.
Harry não sabia quem ele mandara verificar. Só lhe restava ficar parado, com o coração batendo forte, traindo-o, e aguardar ser examinado, mas, ao mesmo tempo, registrando, embora isso não fosse grande consolo, que Voldemort tomava a precaução de não se aproximar dele, que Voldemort suspeitava que tivesse havido uma falha no plano...
Mãos, mais leves do que imaginara, tocaram o seu rosto, ergueram uma pálpebra, se introduziram sob sua camisa e sentiram seu coração. Ele ouvia a respiração rápida da mulher, seus longos cabelos fizeram cócegas em seu rosto. Harry sabia que ela ouvia a pulsação ritmada da vida contra suas costelas.
— Draco está vivo? Está no castelo?
O sussurro era apenas audível, os lábios dela estavam a meros centímetros do seu ouvido, sua cabeça tão curvada que a cabeleira protegia seu rosto dos espectadores.
— Está — sussurrou ele em resposta.
Harry sentiu a mão em seu peito se contrair, suas unhas o espetaram. Então, ela retirou a mão. Sentara.
— Está morto! — anunciou Narcisa Malfoy para os Comensais.
E agora eles gritaram, agora deram berros de triunfo e bateram com os pés no chão, e, entre as pálpebras, Harry viu clarões vermelhos e prateados subirem ao ar, comemorando.
Ainda fingindo-se de morto, ele compreendeu. Narcisa sabia que a única maneira de lhe permitirem entrar em Hogwarts e procurar o filho era participar do exército conquistador. Ela já não se importava se Voldemort venceria ou não.
— Viram? — guinchou Voldemort, sobrepondo-se ao tumulto — Harry Potter foi morto por minha mão, e agora nenhum homem vivo poderá me ameaçar! Vejam! Crucio!
Harry estivera esperando aquilo: sabia que não deixariam o seu corpo descansar intocado no chão da Floresta, teria que ser humilhado para comprovar a vitória de Voldemort. Ele foi erguido no ar, e precisou de toda a sua força de vontade para continuar inanimado. Entretanto, a dor que previra não ocorreu. Foi atirado uma, duas, três vezes no ar, seus óculos voaram do rosto e ele sentiu a varinha escorregar um pouco sob suas vestes, mas continuou mole e sem vida e, quando caiu no chão pela última vez, a clareira ressoou com insultos e risadas agudas.
— Agora — disse Voldemort — Vamos ao castelo lhes mostrar o que restou do seu herói. Quem arrastará o corpo? Não... esperem...
Houve nova explosão de risadas e, transcorridos alguns instantes, Harry sentiu o chão tremer sob seu corpo.
— Você o carrega — ordenou Voldemort — Ficará bem visível em seus braços, não é mesmo? Apanhe o seu amiguinho, Hagrid. E os óculos... reponha os óculos... ele precisa ficar reconhecível.
Alguém chapou os óculos no rosto de Harry com intenção de machucá-lo, mas as mãos enormes que o ergueram no ar foram extremamente gentis. Harry sentiu os braços de Hagrid tremendo com a violência dos seus profundos soluços, grossas lágrimas choveram sobre ele quando Hagrid o aninhou nos braços, e Harry não ousou, por movimento ou palavra, insinuar ao amigo que nem tudo estava perdido, ainda.
— Ande — ordenou Voldemort, e Hagrid avançou aos tropeços, abrindo passagem entre as árvores muito juntas, em direção à saída da Floresta.
Os galhos prenderam nos cabelos e nas vestes de Harry mas ele continuou inerte, a boca aberta molemente, os olhos fechados, e no escuro, enquanto os Comensais da Morte se aglomeravam ao seu redor, e enquanto Hagrid soluçava às cegas, ninguém se preocupou em verificar se pulsava uma veia no pescoço nu de Harry Potter...
Os dois gigantes acompanharam com estrondo os Comensais da Morte, Harry ouvia as árvores partindo e tombando à sua passagem, faziam tanto barulho que os pássaros levantavam voo, aos gritos, abafando até as caçoadas dos Comensais. A procissão da vitória marchou para campo aberto, e depois de algum tempo, Harry percebeu, pelo clareamento da escuridão através de suas pálpebras fechadas, que as árvores estavam começando a rarear.
— AGOURO!
O inesperado berro de Hagrid quase forçou Harry a abrir os olhos.
— Estão felizes agora por não ter lutado, seu bando covarde de mulas velhas? Satisfeitos de ver Harry Potter... m-morto...?
Hagrid não pôde continuar, sucumbiu às lágrimas. Harry ficou imaginando quantos centauros estariam assistindo à procissão passar, não se atreveu a abrir os olhos para avaliar. Alguns Comensais da Morte gritaram insultos para as criaturas, à medida que as deixavam para trás. Pouco depois, Harry sentiu, pelo refrescamento do ar, que tinham chegado à orla da Floresta.
— Pare.
Harry achou que Hagrid devia ter sido forçado a obedecer, porque ele cambaleou ligeiramente. Agora baixava uma frialdade sobre o lugar em que haviam parado, e Harry ouviu os arquejos roucos dos dementadores que patrulhavam as árvores naquele ponto da Floresta. Não o afetariam agora. A realidade de sua sobrevivência abrasava-o por dentro, um talismã contra eles, como se tivesse no coração o cervo Patrono de seu pai a guardá-lo.
Alguém passou perto de Harry e ele percebeu que era Voldemort, porque ele falou em seguida, sua voz magicamente amplificada de modo a se propagar pelos terrenos da escola, retumbando nos tímpanos do garoto.
“Harry Potter está morto. Foi abatido em plena fuga, tentando se salvar enquanto vocês ofereciam as vidas por ele. Trazemos aqui o seu cadáver como prova de que o seu herói deixou de existir. A batalha está ganha. Vocês perderam metade dos seus combatentes. Os meus Comensais da Morte são mais numerosos que vocês, e O Menino Que Sobreviveu está liquidado. A guerra deve cessar. Quem continuar a resistir, homem, mulher ou criança, será exterminado, bem como todos os membros de sua família. Saiam do castelo agora, ajoelhem-se diante de mim e serão poupados. Seus pais e filhos, seus irmãos e irmãs viverão e serão perdoados, e vocês se unirão a mim no novo mundo que construiremos juntos”.
Houve silêncio nos jardins e no castelo.
Voldemort estava tão perto que Harry não se atreveu a abrir os olhos.
— Venha — ordenou Voldemort.
Harry ouviu-o avançar e Hagrid foi forçado a segui-lo. Harry abriu minimamente os olhos e viu Voldemort caminhando à frente, levando em torno dos ombros sua grande cobra, agora, livre da gaiola encantada. Harry, porém, não tinha possibilidade de sacar a varinha guardada dentro das vestes sem ser visto pelos Comensais da Morte que o ladeavam, marchando na escuridão que gradualmente se dissipava...
— Harry — soluçava Hagrid — Ah, Harry... Harry...
O garoto tornou a fechar os olhos com força. Sabia que estavam se aproximando do castelo, e apurou os ouvidos para distinguir, acima das vozes alegres dos Comensais da Morte e dos seus passos pesados, sinais de vida em seu interior.
— Parem.
Os Comensais pararam: Harry os ouviu debandar, para formar uma linha em frente às portas abertas da escola. Via, mesmo através das pálpebras fechadas, a claridade avermelhada indicando que a luz que o iluminava saía do Saguão de Entrada. Ele aguardou.
A qualquer momento, as pessoas por quem ele tentara morrer o veriam, deitado aparentemente morto, nos braços de Hagrid.
— NÃO!
O grito foi ainda mais terrível porque jamais esperara ou sonhara que a Profª. McGonagall pudesse emitir tal som. Ouviu uma risada de mulher ali perto, e percebeu que Belatriz exultava com o desespero de McGonagall.
Ele tornou a espreitar por um segundo, e viu a entrada começar a se encher de gente, à medida que os sobreviventes da batalha saíam aos degraus, para encarar os seus vencedores, e constatar, com os próprios olhos, a realidade da morte de Harry. Viu Voldemort parado um pouco à frente dele, acariciando a cabeça de Nagini com um dedo branco. Ele fechou os olhos outra vez.
— Não!
— Não!
— Harry! HARRY!
As vozes de Rony, Hermione e Gina foram piores que as de McGonagall, tudo que Harry queria era gritar em resposta, manteve-se, porém, deitado e calado, e os gritos dos amigos tiveram o efeito de um gatilho, a multidão de sobreviventes se uniu a eles, gritando e berrando insultos para os Comensais da Morte até...
— SILÊNCIO! — exclamou Voldemort. Em seguida, um estampido, um forte clarão, e o silêncio se impôs a todos — Acabou! Ponha-o no chão, Hagrid, aos meus pés, que é o lugar dele!
Harry sentiu que Hagrid o pousava na grama.
— Estão vendo? — disse Voldemort, e Harry sentiu-o andando de um lado para outro, paralelamente ao lugar em que ele jazia — Harry Potter está morto! Entenderam agora, seus iludidos? Ele não era nada, jamais foi, era apenas um garoto, confiante de que os outros se sacrificariam por ele!
— Ele o derrotou! — berrou Rony, e o feitiço se rompeu, e os defensores de Hogwarts voltaram a gritar e a insultar até que um segundo estampido mais forte tornou a extinguir mais uma vez suas vozes.
— Ele foi morto tentando sair escondido dos terrenos do castelo — disse Voldemort, e, na sua voz, havia prazer com a mentira — Morto tentando se salvar...
Voldemort, no entanto, foi interrompido: Harry ouviu uma movimentação e um grito, em seguida mais um estampido, um clarão e um gemido de dor; ele abriu infinitesimalmente as pálpebras. Alguém se destacara da multidão e investira contra Voldemort: Harry viu o vulto bater no chão, desarmado, Voldemort atirar a varinha do desafiante para o lado e rir.
— E quem é esse? — perguntou com o seu silvo suave de ofídio — Quem está se voluntariando para demonstrar o que acontece com os que insistem em lutar quando a batalha está perdida?
Belatriz deu uma gargalhada prazerosa.
— É Neville Longbottom, Milorde! O garoto que andou dando tanto trabalho aos Carrow! O filho dos aurores, lembra?
— Ah, sim, lembro — disse Voldemort, baixando os olhos para Neville, que fazia força para se pôr de pé, sem arma nem proteção, parado na terra de ninguém entre os sobreviventes e os Comensais da Morte — Mas você tem sangue puro, não tem, meu bravo rapaz? — perguntou Voldemort a Neville, que o encarava, as mãos vazias fechadas em punhos.
— E se tiver? — respondeu Neville em voz alta.
— Você demonstra vivacidade e coragem, e descende de linhagem nobre... você dará um valioso Comensal da Morte. Precisamos de gente como você, Neville Longbottom.
— Me juntarei a você quando o inferno congelar. Armada de Dumbledore! — gritou ele e, da multidão, ouviram-se vivas em resposta, que os Feitiços Silenciadores de Voldemort pareceram incapazes de conter.
— Muito bem — disse Voldemort, e Harry detectou um perigo maior na suavidade de sua voz do que no feitiço mais poderoso — Se essa é a sua escolha, Longbottom, revertemos ao plano original. A culpa será toda sua — disse ele, calmamente.
Ainda observando por trás das pestanas, Harry viu Voldemort acenar com a varinha. Segundos depois, das janelas estilhaçadas do castelo, algo semelhante a um pássaro disforme voou na semiobscuridade e pousou na mão de Voldemort. Ele sacudiu o objeto mofado pelo bico e deixou-o pender vazio e roto: o Chapéu Seletor.
— Não haverá mais Seleção na Escola de Hogwarts — disse Voldemort — Não haverá mais Casas. O emblema, escudo e cores do meu nobre antepassado, Salazar Slytherin, será suficiente para todos, não é mesmo, Neville Longbottom?
Ele apontou a varinha para Neville, que ficou rígido e calado, então forçou o chapéu a entrar na cabeça do garoto, fazendo-o escorregar abaixo dos seus olhos.
A multidão que assistia à porta do castelo se movimentou e, sincronizados, os Comensais da Morte ergueram as varinhas, acuando os combatentes de Hogwarts.
— Neville agora vai demonstrar o que acontece com quem é suficientemente tolo para continuar a se opor a mim — anunciou Voldemort e, com um aceno da varinha, fez o Chapéu Seletor pegar fogo.
Gritos cortaram o amanhecer, e Neville ardeu em chamas, pregado ao chão, incapaz de se mexer, e Harry não pôde suportar: tinha que agir...
Então, muitas coisas aconteceram no mesmo instante.
Ouviu-se um clamor nas distantes divisas da escola, dando a impressão de que centenas de pessoas escalavam os muros fora do campo de visão de todos e corriam em direção ao castelo, proferindo retumbantes brados de guerra.
Nessa hora, Grope apareceu contornando a quina do castelo e berrou “HAGGER!”. Seu grito foi respondido por urros dos gigantes de Voldemort: eles avançaram para Grope como elefantes estremecendo a terra.
Depois vieram os cascos, a vibração de arcos distendendo e flechas começaram repentinamente a chover entre os Comensais da Morte, que romperam fileiras, gritando, surpresos.
Harry tirou a Capa da Invisibilidade de dentro das vestes, cobriu-se e ergueu-se de um salto, ao mesmo tempo que Neville. Com um único movimento rápido e fluido, Neville se libertou do Feitiço do Corpo Preso que o imobilizava, o chapéu em chamas caiu de sua cabeça e, do fundo dele, o garoto puxou um objeto prateado com um punho cravejado de rubis.
O ruído da espada de prata cortando o ar não pôde ser ouvido acima do vozerio da multidão que se aproximava, ou o estrépito dos gigantes se enfrentando, ou a cavalgada dos centauros, contudo, pareceu atrair todos os olhares.
Com um único golpe, Neville decepou a cabeça de Nagini, que girou no alto, reluzindo à luz que vinha do Saguão de Entrada, e a boca de Voldemort se abriu em um berro de fúria, que ninguém pôde ouvir, e o corpo da cobra bateu com um baque surdo aos seus pés...
Oculto pela Capa da Invisibilidade, Harry lançou um Feitiço Escudo entre Neville e Voldemort antes que este pudesse erguer a varinha.
Então, sobrepondo-se aos gritos, rugidos e ao pesado sapateio dos gigantes em luta, ouviu-se o berro de Hagrid mais alto que tudo.
— HARRY! — gritou ele — HARRY... ONDE ESTÁ HARRY?
Reinou o caos.
A investida dos centauros dispersava os Comensais da Morte, todos fugiam das pisadas dos gigantes, e, cada vez mais próximos, estrondeavam os reforços que ninguém sabia de onde tinham vindo.
Harry viu grandes criaturas aladas, os testrálios e Bicuço, o hipogrifo, rodeando as cabeças dos gigantes de Voldemort, gadunhando seus olhos, enquanto Grope os esmurrava, e agora os bruxos, defensores de Hogwarts, bem como os Comensais de Voldemort, estavam sendo empurrados para dentro do castelo.
Harry lançava feitiços contra cada Comensal da Morte à vista, e eles caíam sem saber o que ou quem os atingira, e seus corpos eram pisoteados pela multidão em retirada.
Ainda sob a capa, Harry foi empurrado para dentro do saguão: procurou Voldemort e viu-o do lado oposto, a varinha disparando feitiços para todo lado enquanto recuava para dentro do Salão Principal, ainda berrando ordens para os seus seguidores. Harry lançou mais Feitiços Escudos, e as supostas vítimas de Voldemort, Simas Finnigan e Ana Abbott, passaram por ele correndo e entraram no Salão Principal, onde se uniram à luta que já se desenvolvia ali.
E agora havia mais, muito mais gente irrompendo pela escadaria da entrada, e Harry viu Carlinhos Weasley alcançar Horácio Slughorn, que ainda usava o pijama verde-esmeralda. Pareciam ter reassumido a liderança dos familiares e amigos de cada estudante de Hogwarts que ficara para lutar, acompanhados dos lojistas e habitantes de Hogsmeade.
Os centauros Agouro, Ronan e Magoriano invadiram o saguão em um forte tropel, no momento em que a porta que levava à cozinha era arrancada das dobradiças.
Uma enxurrada de elfos domésticos de Hogwarts adentrou o saguão, gritando e brandindo seus trinchantes e cutelos, e à frente deles, com o medalhão de Régulo Black pendurado ao peito, vinha Monstro, sua voz de rã audível, apesar da zoeira:
— À luta! À luta! À luta pelo meu senhor, defensor dos elfos domésticos! À luta contra o Lorde das Trevas, em nome do corajoso Régulo! À luta!
Eles cortavam e furavam os tornozelos e canelas dos Comensais da Morte, seus pequenos rostos brilhando de malícia, e, por onde quer que Harry olhasse, os Comensais estavam se dobrando à superioridade dos números, vencidos pelos feitiços, arrancando flechas dos ferimentos, esfaqueados na perna pelos elfos, ou, simplesmente, tentando fugir, mas engolidos pela horda invasora.
A batalha, contudo, ainda não terminara: Harry disparou entre os duelistas, passou por prisioneiros que se debatiam e entrou no Salão Principal.
Voldemort estava no centro da luta e atacava e fulminava tudo ao seu alcance. Harry não conseguiu um ângulo desimpedido para mirar, então lutou para se aproximar, ainda invisível, e o Salão Principal foi lotando sempre mais, pois todos que podiam andar entravam à força.
Harry viu Yaxley ser nocauteado por Jorge e Lino Jordan, viu Dolohov cair com um grito às mãos de Flitwick, viu Walden Macnair ser atirado do outro lado do salão por Hagrid, bater na parede de pedra e escorregar, inconsciente, para o chão. Viu Rony e Neville abaterem Fenrir Greyback, Aberforth estuporar Rookwood, Arthur e Percy derrubarem Thicknesse, e Lúcio e Narcisa Malfoy correndo entre a multidão, sem sequer tentar lutar, chamando, aos berros, pelo filho. Voldemort agora duelava com McGonagall, Slughorn e Kingsley ao mesmo tempo, e seu rosto transparecia um ódio frio ao vê-los trançar e se proteger ao seu redor, incapazes de acabar com ele...
Belatriz também continuava a lutar, a uns cinquenta metros de Voldemort e, como seu senhor, ela duelava com três de uma vez: Hermione, Gina e Luna, todas empenhadas ao máximo, mas Belatriz valia por todas juntas, e a atenção de Harry foi desviada quando uma Maldição da Morte passou tão perto de Gina que por menos de três centímetros não a matou...
Ele mudou de rumo, avançando para Belatriz em lugar de Voldemort, mas dera apenas alguns passos quando foi empurrado para o lado.
— A MINHA FILHA NÃO, SUA VACA!
A Sra. Weasley atirou sua capa para longe enquanto corria, deixando os braços livres. Belatriz girou nos calcanhares, às gargalhadas, ao ver quem era sua nova desafiante.
— SAIAM DO MEU CAMINHO! — gritou a Sra. Weasley às três garotas, e, fazendo um gesto largo com a varinha, começou a duelar.
Harry observou com terror e animação a varinha de Molly Weasley golpear e girar, e o sorriso de Belatriz Lestrange vacilar e se transformar em um esgar. Jorros de luz voavam de ambas as varinhas, o chão em torno dos pés das bruxas esquentou e fendeu, as duas mulheres travavam uma luta mortal.
— Não! — gritou a Sra. Weasley quando alguns estudantes correram, em seu auxílio — Para trás! Para trás! Ela é minha!
Centenas de pessoas agora se encostaram às paredes observando as duas lutas, Voldemort e seus três oponentes, e Belatriz e Molly, e Harry parado, invisível, dilacerado entre as duas, querendo atacar e ao mesmo tempo proteger, incapaz de garantir que não iria atingir um inocente.
— Que vai acontecer com seus filhos depois que eu matar você? — provocou Belatriz, tão desvairada como o seu senhor, saltando para evitar os feitiços de Molly que dançavam ao seu redor — Quando a mamãe for pelo mesmo caminho que o Fredinho?
— Você... nunca... mais... tocará... em... nossos... filhos! — gritou a Sra. Weasley.
Belatriz deu uma gargalhada, a mesma gargalhada exultante que seu primo Sirius dera ao tombar para trás e atravessar o véu, e de repente Harry previu o que ia acontecer. O feitiço de Molly voou por baixo do braço esticado de Belatriz e atingiu-a no peito, diretamente sobre o coração.
A risada triunfante de Belatriz congelou, seus olhos pareceram saltar das órbitas: por uma mínima fração de tempo, ela percebeu o que ocorrera e, então, desmontou, e a multidão que assistia bradou, e Voldemort deu um grito.
Harry sentiu como se estivesse virando em câmera lenta: viu McGonagall, Kingsley e Slughorn serem arremessados para trás, debatendo-se e contorcendo-se no ar, quando a fúria de Voldemort, face à queda de sua última e melhor tenente, explodiu com a força de uma bomba.
Voldemort ergueu a varinha e apontou-a para Molly Weasley.
— Protego! — berrou Harry, e o Feitiço Escudo expandiu-se no meio do Salão Principal, e Voldemort olhou admirado ao redor, procurando de onde viera, ao mesmo tempo que Harry despia, finalmente, a Capa da Invisibilidade.
O berro de choque, os vivas, os gritos de todos os lados de “HARRY!”, “ELE ESTÁ VIVO!” foram imediatamente sufocados. A multidão se amedrontou, e o silêncio caiu brusca e completamente quando Voldemort e Harry se encararam e começaram no mesmo instante a se rodear.
— Não quero que mais ninguém tente ajudar — disse Harry em voz alta e, no silêncio total, sua voz ecoou como o toque de uma trompa — Tem que ser assim. Tem que ser eu.
Voldemort sibilou.
— Potter não está falando sério — disse ele, arregalando os olhos vermelhos — Não é assim que ele age, é? Quem você vai usar como escudo hoje, Potter?
— Ninguém — respondeu Harry, com simplicidade — Não há mais Horcruxes. Só você e eu. Nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver, e um de nós está prestes a partir para sempre...
— Um de nós? — caçoou Voldemort, e todo o seu corpo estava tenso e seus olhos vermelhos atentos, uma cobra armando o bote — Você acha que vai ser você, não é, o garoto que sobreviveu por acaso e porque Dumbledore estava puxando os cordões?
— Acaso, foi? Quando minha mãe morreu para me salvar? — desafiou Harry. Eles continuaram a se movimentar de lado, os dois, em um círculo perfeito, mantendo a mesma distância entre si, e para Harry só existia um rosto, o de Voldemort — Acaso, quando decidi lutar naquele cemitério? Acaso, quando não me defendi hoje à noite e, ainda assim, sobrevivi e retornei para lutar?
— Acasos! — berrou Voldemort, mas ainda assim não atacou, e os circunstantes permaneceram imóveis como se estivessem petrificados, e, das centenas de pessoas no salão, ninguém parecia respirar, exceto os dois — Acaso e sorte e o fato de você ter se escondido e choramingado atrás das saias de homens e mulheres superiores a você, e me permitido matá-los em seu lugar!
— Você não matará mais ninguém hoje à noite — disse Harry, enquanto se rodeavam e se encaravam nos olhos, verdes e vermelhos — Você não será capaz de matar nenhum deles, nunca mais. Você não está entendendo? Eu estive disposto a morrer para impedir que você ferisse essas pessoas...
— Mas você não morreu!
—... mas tive intenção, e foi isso que fez a diferença. Fiz o que minha mãe fez. Protegi-os de você. Você não reparou que nenhum dos feitiços que lançou neles são duradouros? Você não pode torturá-los. Você não pode atingi-los. Você não aprende com os seus erros, Riddle, não é?
— Você se atreve...
— Me atrevo, sim. Sei coisas que você ignora, Tom Riddle. Sei muitas coisas importantes que você ignora. Quer ouvir algumas, antes de cometer outro grande erro?
Voldemort não respondeu, continuou a rondá-lo em círculo, e Harry percebeu que o mantivera temporariamente hipnotizado e acuado, detido pela tênue possibilidade de que Harry pudesse, de fato, conhecer o segredo final...
— É o amor de novo? — disse Voldemort, a zombaria em seu rosto ofídico — A solução favorita de Dumbledore, amor, que ele alegava conquistar a morte, embora o amor não o tivesse impedido de cair da Torre e se quebrar como uma velha estátua de cera? Amor, que não me impediu de matar sua mãe Sangue-Ruim como uma barata, Potter, e ninguém parece amá-lo o suficiente para se apresentar desta vez e receber a minha maldição. Então, o que vai impedir que você morra agora quando eu atacar?
— Só uma coisa — respondeu Harry, e eles continuavam a se rodear, absortos um no outro, separados apenas por aquele último segredo.
— Se não for o amor que irá salvá-lo desta vez — retrucou Voldemort — Você deve acreditar que é dotado de uma magia que não tenho, ou, então, de uma arma mais poderosa do que a minha?
— Creio que as duas coisas — replicou Harry e observou o choque perpassar aquele rosto de cobra e instantaneamente se dispersar.
Voldemort começou a rir, e o som era mais apavorante do que os seus gritos, desprovido de humor e sanidade, o riso ecoou pelo salão silencioso.
— Você acha que conhece mais magia do que eu? Do que eu, do que Lord Voldemort, capaz de magia com que o próprio Dumbledore jamais sonhou?
— Ah, ele sonhou, sim, mas sabia mais do que você, sabia o suficiente para não fazer o que você fez.
— Você quer dizer que ele era fraco! — berrou Voldemort — Fraco demais para ousar, fraco demais para se apoderar do que poderia ser dele, do que será meu!
— Não, ele era mais inteligente do que você, um bruxo melhor e um homem melhor.
— Eu causei a morte de Alvo Dumbledore!
— Você pensa que causou, mas se enganou.
Pela primeira vez a multidão que assistia se moveu quando as centenas de pessoas em torno das paredes unanimemente prenderam o fôlego.
— Dumbledore está morto! — Voldemort atirou as palavras para Harry como se pudessem lhe causar uma dor insuportável — O corpo dele está apodrecendo no túmulo de mármore nos jardins deste castelo, eu o vi, Potter, e ele não irá retornar!
— Dumbledore está morto, sim — respondeu Harry, calmamente — Mas não foi você que mandou matá-lo. Ele escolheu como queria morrer, escolheu meses antes de morrer, combinou tudo com o homem que você julgou que era seu servo.
— Que sonho infantil é esse? — exclamou Voldemort, mas, ainda assim, ele não atacou, e seus olhos vermelhos não se afastaram dos de Harry.
— Severo Snape não era homem seu. Snape era de Dumbledore, desde o momento em que você começou a caçar minha mãe. E você nunca percebeu, por causa daquilo que não pode compreender. Você nunca viu Snape conjurar um Patrono, viu, Riddle?
Voldemort não respondeu. Eles continuaram a se rodear como dois lobos prestes a se estraçalhar.
— O Patrono de Snape era uma corça — disse Harry — O mesmo que o de minha mãe, porque ele a amou quase a vida toda, desde que eram crianças. Você devia ter percebido — disse Harry quando viu as narinas de Voldemort incharem — Ele lhe pediu para poupar a vida dela, não foi?
— Ele a desejava, nada mais — desdenhou Voldemort — Mas, quando ela se foi, ele concordou que havia outras mulheres, de sangue mais puro, mais dignas dele...
— Naturalmente foi o que Snape lhe disse, mas ele se tornou espião de Dumbledore a partir do momento em que você a ameaçou, e dali em diante trabalhou contra você! Dumbledore já estava morrendo quando Snape o matou!
— Não faz diferença! — guinchou Voldemort, que acompanhara cada palavra com extasiada atenção, mas, em seguida, soltou uma gargalhada demente — Não faz diferença se Snape era meu seguidor ou de Dumbledore, ou que mesquinhos obstáculos ele tentou colocar em meu caminho! Eu os esmaguei como esmaguei sua mãe, o pretenso grande amor de Snape! Ah, mas tudo isso faz sentido, Potter, e de modos que você não compreende! Dumbledore tentou me impedir de possuir a Varinha das Varinhas! Queria que Snape fosse o verdadeiro senhor da varinha! Mas passei à sua frente, garotinho: cheguei à varinha antes que você pudesse pôr as mãos nela, compreendi a verdade antes que você a percebesse. Matei Severo Snape há três horas, e a Varinha das Varinhas, a Varinha da Morte, a Varinha do Destino é realmente minha! O último plano de Dumbledore falhou, Harry Potter!
— É, falhou. Você tem razão. Mas, antes de você tentar me matar, eu o aconselharia a pensar no que fez... pensar, e tentar sentir algum remorso, Riddle...
— Que é isso?
De tudo que Harry lhe dissera, acima de qualquer revelação ou zombaria, nada chocara tanto Voldemort. Harry viu suas pupilas se contraírem até virarem finos traços, viu a pele em torno dos seus olhos embranquecer.
— É a sua última chance — continuou o garoto — E é só o que lhe resta... vi em que se transformará se não aproveitá-la... seja homem... tente sentir algum remorso...
— Você ousa...
— Ouso, sim, porque o último plano de Dumbledore não saiu às avessas para mim. Saiu às avessas para você, Riddle.
A mão de Voldemort estava tremendo em torno da Varinha das Varinhas e Harry apertou a de Draco com força. O momento, ele sabia, estava apenas à segundos de distância.
— A varinha não está funcionando corretamente para você, porque você matou a pessoa errada. Severo Snape jamais foi o verdadeiro senhor da Varinha das Varinhas. Ele jamais derrotou Dumbledore.
— Ele matou...
— Você não está prestando atenção? Snape nunca derrotou Dumbledore! A morte de Dumbledore foi planejada pelos dois! Dumbledore pretendia morrer sem ser derrotado, o último e verdadeiro senhor da varinha! Tudo correu conforme ele planejou, o poder da varinha morreria com ele, porque jamais foi arrebatada de suas mãos!
— Mas, então, Potter, Dumbledore praticamente me entregou a varinha! — a voz de Voldemort tremeu de malicioso prazer — Roubei a varinha do túmulo do seu último senhor! Retirei-a, contrariando o desejo do seu último senhor! O seu poder é meu!
— Você ainda não entendeu, não é, Riddle! Possuir a varinha não é o suficiente! Empunhá-la, usá-la, não a torna realmente sua. Você não escutou o que Olivaras disse? A varinha escolhe o bruxo... a Varinha das Varinhas reconheceu um novo senhor antes de Dumbledore morrer, alguém que jamais tinha posto a mão nela. O novo senhor tirou a varinha de Dumbledore contra sua vontade, sem perceber exatamente o que tinha feito, ou que a varinha mais perigosa do mundo lhe dedicara a sua fidelidade...
O peito de Voldemort subia e descia rapidamente, e Harry sentiu a maldição a caminho, sentiu-a crescer no cerne da varinha apontada para o seu rosto.
— O verdadeiro senhor da Varinha das Varinhas era Draco Malfoy.
Absoluto aturdimento surgiu no rosto de Voldemort por um momento, mas logo desapareceu.
— Que diferença faz? — perguntou, brandamente — Mesmo que você tenha razão, Potter, não faz a menor diferença para você nem para mim. Você não possui mais a varinha de fênix: duelaremos apenas com a perícia... e depois de tê-lo matado, posso cuidar de Draco Malfoy...
— Mas é tarde demais. Você perdeu sua chance. Cheguei primeiro. Subjuguei Draco faz semanas. Arrebatei a varinha dele.
Harry girou a varinha de pilriteiro e sentiu convergirem sobre ela todos os olhares no salão.
— Então, a questão se resume nisso, não é? — sussurrou Harry — Será que a varinha em sua mão sabe que o seu último senhor foi desarmado? Porque se sabe... eu sou o verdadeiro senhor da Varinha das Varinhas.
Um brilho ouro-avermelhado irrompeu subitamente no céu encantado e incidiu sobre eles, quando um retalho ofuscante de sol surgiu no parapeito da janela mais próxima. A luz iluminou o rosto dos dois ao mesmo tempo, de modo que Voldemort se tornou subitamente um borrão chamejante. Harry ouviu o seu grito agudo quando ele próprio berrou sua grande esperança para o céu, apontando a varinha de Draco:
— Avada Kedavra!
— Expelliarmus!
O estampido foi o de um tiro de canhão e as chamas douradas que jorraram entre as duas, no centro absoluto do círculo que eles tinham descrito, marcaram o ponto em que os feitiços colidiram.
Harry viu o jato verde da maldição de Voldemort ir de encontro ao seu próprio feitiço, viu a Varinha das Varinhas voar para o alto, escura contra o nascente, girar pelo céu encantado como a cabeça de Nagini, girar pelo ar em direção ao senhor que se recusava a matar e que viera, enfim, tomar legitimamente posse dela.
E Harry, com a habilidade infalível de um apanhador, agarrou a varinha com a mão livre ao mesmo tempo que Voldemort caía para trás de braços abertos, as pupilas ofídicas dos olhos vermelhos virando para dentro.
Tom Riddle bateu no chão com uma finalidade terrena, seu corpo fraco e encolhido, as mãos brancas vazias, o rosto de cobra apático e inconsciente.
Voldemort estava morto, atingido pelo ricochete de sua própria maldição, e Harry ficou parado com as duas varinhas na mão, contemplando o invólucro do seu inimigo.
Um segundo arrepiante de silêncio, o choque do momento suspenso no ar: então sobreveio o tumulto em torno de Harry, quando os gritos e vivas e brados dos circunstantes rasgaram o ar. O intenso nascente ofuscou as janelas, e eles correram com estardalhaço para ele, e os primeiros a alcançá-lo foram Rony e Hermione, e foram os seus braços que o envolveram, seus gritos incompreensíveis que o ensurdeceram. Depois Gina, Neville e Luna estavam ali, e todos os Weasley e Hagrid e Kingsley e McGonagall e Flitwick e Sprout, e Harry não conseguia ouvir uma palavra do que cada um deles gritava nem dizer de quem eram as mãos que o agarravam, puxavam, tentavam abraçar alguma parte do seu corpo, centenas de pessoas se empurrando, todas decididas a tocar n’O Menino Que Sobreviveu, a razão de aquilo ter finalmente terminado...
O sol subiu gradualmente sobre Hogwarts, e o Salão Principal resplandecia de vida e luz. Harry era uma parte indispensável da mescla de manifestações de júbilo e luto, de pesar e comemoração. Todos o queriam ali, seu líder e símbolo, seu salvador e guia, e que ele não tivesse dormido, que desejasse a companhia de apenas uns poucos, não parecia ocorrer a ninguém. Ele devia falar aos consternados, apertar suas mãos, testemunhar suas lágrimas, receber seus agradecimentos, ouvir as notícias que agora chegavam aos poucos de todos os lados ao longo da manhã, que os que estavam sob o efeito da Maldição Imperius no país tinham voltado a si, que os Comensais da Morte estavam fugindo ou sendo capturados, que os inocentes de Azkaban estavam sendo libertados naquele exato momento, e que Kingsley Shacklebolt fora nomeado Ministro da Magia Interino...
O corpo de Voldemort foi retirado e posto em uma câmara ao lado do Salão Principal, longe dos corpos de Fred, Tonks, Lupin, Colin Creevey e cinquenta outros que tinham morrido, combatendo-o.
McGonagall havia reposto as mesas no salão, mas ninguém estava sentado de acordo com as Casas: todos estavam misturados, professores e alunos, fantasmas e pais, centauros e elfos domésticos, e Firenze convalescia deitado a um canto, e Grope espiou para dentro, por uma janela quebrada, e as pessoas estavam atirando comida em sua boca sorridente.
Depois de algum tempo, exausto — física e emocionalmente — Harry se viu sentado em um banco ao lado de Luna.
— Se fosse eu, iria querer um pouco de paz e sossego — comentou ela.
— Eu adoraria — respondeu ele.
— Eu os distrairei. Use a sua capa.
E, antes que Harry pudesse falar, ela exclamou:
— Aaah, vejam que máximo aquele bliberente! — e apontou para as janelas.
Todos que a ouviram olharam, e Harry escorregou a capa por cima do corpo e se levantou. Ele pôde, então, andar pelo salão sem interferências. Localizou Gina a duas mesas de distância, estava sentada com a cabeça no ombro da mãe: haveria tempo para conversarem depois, horas e dias e talvez anos. Ele viu Neville, a espada de Gryffindor pousada ao lado do seu prato enquanto comia, cercado por um grupinho de fervorosos admiradores.
Ao longo dos corredores entre as mesas, ele caminhou e viu os três Malfoy juntinhos, como se não soubessem se deviam ou não estar ali, mas ninguém lhes dava a menor atenção. Para todo lado que se virava, Harry via famílias reunidas, e, por fim, viu os dois cuja companhia ele mais desejava.
— Sou eu — murmurou, agachando-se entre os amigos — Podem me acompanhar?
Eles se levantaram imediatamente e juntos, ele, Rony e Hermione deixaram o Salão Principal. Faltavam grandes pedaços da escadaria de mármore, parte da balaustrada desaparecera e, a intervalos, havia entulho e manchas de sangue nos degraus que subiam.
Em algum lugar distante ouviam Pirraça disparando pelos corredores, cantando o hino da vitória que ele compusera:

Vencemos, esmagamos a fera, Potter é o Máximo,
Voldy já era, então agora vamos nos divertir à vera!

— Realmente passa o sentimento da amplitude e tragédia da coisa, não é mesmo? — comentou Rony, abrindo uma porta para deixar Harry e Hermione passarem.
A felicidade viria, pensou Harry, Mas, no momento, estava anuviada pela exaustão e a dor de perder Fred, Lupin e Tonks o atravessava pelo caminho como se fosse uma dor física. E, principalmente, ele sentia um estupendo alívio e um grande desejo de dormir.
Primeiro, porém, devia uma explicação a Rony e Hermione, que o tinham apoiado por tanto tempo, e que mereciam ouvir a verdade. Meticulosamente, narrou o que vira na Penseira e o que acontecera na Floresta, e eles nem sequer tinham começado a expressar todo o seu choque e assombro quando, finalmente, chegaram ao lugar a que estavam se dirigindo, embora nenhum deles tivesse mencionado esse destino.
Desde que a vira pela última vez, a gárgula que guardava a entrada para o gabinete do diretor tinha levado um tranco, estava inclinada para um lado, parecendo meio bêbada, e Harry ficou em dúvida se ela ainda seria capaz de distinguir senhas.
— Podemos subir? — perguntou ele à gárgula.
— À vontade — gemeu a estátua.
Eles passaram por cima dela para chegar à escada em espiral, que subiu lentamente como uma escada rolante.
Harry abriu a porta no alto. Deu uma única olhada na Penseira de pedra que deixara sobre a escrivaninha, e um barulho de estourar os tímpanos o fez gritar, pensando em maldições e no retorno dos Comensais da Morte e no renascimento de Voldemort...
Eram, porém, aplausos. A toda volta das paredes, os diretores e diretoras de Hogwarts lhe ofereciam uma vibrante ovação, acenavam com os chapéus e, em alguns casos, com as perucas, esticavam-se através das molduras para se cumprimentarem, dançavam para cima e para baixo das cadeiras em que tinham sido pintados. Dilys Derwent chorava sem constrangimento, Dexter Fortescue agitava a corneta acústica, Fineus Nigellus gritava com sua voz fina e esganiçada: “E que se registre que a Casa da Sonserina fez a sua parte! Que a nossa contribuição não seja esquecida!”.
Harry, entretanto, só tinha olhos para o homem pintado no maior retrato logo atrás da cadeira do diretor. As lágrimas escorriam por trás dos oclinhos de meia-lua e penetravam nas longas barbas prateadas, e o orgulho e gratidão que emanavam do bruxo inundaram Harry com o mesmo bálsamo do canto da fênix.
Por fim, o garoto ergueu as mãos e os retratos respeitosamente silenciaram, sorrindo, enxugando os olhos e aguardando, ansiosos, que ele falasse. O garoto, porém, dirigiu-se a Dumbledore, e escolheu suas palavras com enorme cuidado. Exausto e com a vista turva como estava, precisava fazer um último esforço, para buscar um último conselho.
— A coisa que estava escondida no pomo — começou ele — Deixei-a cair na Floresta. Não sei exatamente onde, mas não vou sair procurando. O senhor concorda?
— Meu caro rapaz, concordo — respondeu Dumbledore, enquanto seus colegas retratados se mostravam confusos e curiosos — Uma decisão sábia e corajosa, mas eu não esperava menos de você. Alguém mais sabe onde caiu?
— Ninguém mais — disse Harry, e Dumbledore assentiu satisfeito — Mas vou guardar o presente de Ignoto — acrescentou Harry, e Dumbledore abriu um largo sorriso.
— Naturalmente, Harry, será sua para sempre até você passá-la adiante!
— E tem mais isto.
Harry ergueu a Varinha das Varinhas, e Rony e Hermione a olharam com uma reverência que, mesmo em seu estado de tonteira e falta de sono, Harry não gostou de ver.
— Não a quero — disse Harry.
— Quê? — exclamou Rony em voz alta — Você é maluco?
— Eu sei que é poderosa — continuou Harry, extenuado — Mas eu era mais feliz com a minha. Portanto...
Ele procurou na bolsa pendurada ao pescoço e retirou as duas metades do azevinho ainda ligadas apenas por um fio de pena de fênix. Hermione tinha dito que não poderia ser consertada, que o dano era sério demais. Tudo que ele sabia era que, se isso não resolvesse, nada mais resolveria. Ele colocou a varinha partida sobre a escrivaninha do diretor, tocou-a com a ponta da Varinha das Varinhas e disse:
— Reparo!
E, enquanto sua varinha se emendava, faíscas vermelhas subiram de sua ponta. Harry percebeu que conseguira. Apanhou a varinha de azevinho e fênix, e sentiu um repentino calor em seus dedos, como se a varinha e a mão se rejubilassem com a sua reunião.
— Estou devolvendo a Varinha das Varinhas — comunicou ele a Dumbledore, que o contemplava com enorme afeição e admiração — Ao lugar de onde veio. Ela pode continuar lá. Se eu morrer de morte natural como Ignoto, o seu poder será rompido, não é? O senhor anterior nunca foi vencido. E será o fim dela.
Dumbledore assentiu.
Eles sorriram um para o outro.
— Você tem certeza? — perguntou Rony.
Havia um levíssimo vestígio de desejo em sua voz ao olhar para a Varinha das Varinhas.
— Acho que Harry está certo — disse Hermione em voz baixa.
— A varinha não vale a confusão que provoca — respondeu Harry — Sinceramente — deu as costas aos retratos, pensando na cama de dossel à sua espera na Torre da Grifinória, e imaginando se Monstro lhe levaria um sanduíche lá em cima — Já tive problemas suficientes para a vida inteira.




Continua...





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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 35





— CAPÍTULO TRINTA E CINCO —
KING’S CROSS



ELE ESTAVA DE BRUÇOS, escutando o silêncio. Absolutamente sozinho. Ninguém o observava. Ninguém mais estava ali. Nem tinha absoluta certeza de que ele próprio estivesse ali.
Muito tempo depois, ou talvez tempo algum, ocorreu-lhe que devia existir, devia ser mais do que pensamento incorpóreo, porque estava deitado, decididamente deitado, sobre alguma superfície. Portanto, possuía tato, e a coisa sobre a qual deitava também existia. Quase no instante em que chegou a esta conclusão, Harry tomou consciência de que estava nu. Convencido de sua total solidão, isso não o preocupou, mas deixou-o ligeiramente intrigado. Perguntou-se se, uma vez que podia sentir, também seria capaz de ver. Ao abrir os olhos, descobriu que os possuía.
Estava deitado em meio a uma névoa brilhante, embora não se parecesse com névoa alguma que já tivesse visto. O espaço que o rodeava não estava toldado, pelo contrário, a névoa vaporosa ainda não se formara ao seu redor. O chão em que estava deitado parecia ser branco, nem quente nem frio, existia apenas, algo plano, vazio sobre o qual estar. Ele se sentou. Seu corpo parecia ileso. Apalpou o rosto. Não estava mais usando óculos.
Então, do nada informe que o cercava, chegou-lhe aos ouvidos um barulho: as batidinhas suaves de algo que adejava, se açoitava e se debatia. Era um barulho que inspirava piedade, mas também era ligeiramente obsceno. Teve a desconfortável sensação de que estava bisbilhotando alguma coisa furtiva, vergonhosa.
Pela primeira vez, desejou estar vestido.
Mal acabara de formular mentalmente esse desejo, apareceram vestes a uma pequena distância. Apanhou-as e vestiu-as: eram macias, limpas e quentes. Era extraordinário como tinham aparecido, instantaneamente, no momento em que as desejara...
Ele se levantou e relanceou ao redor. Estaria em alguma ampla Sala Precisa? Quanto mais olhava, mais havia para ver. Um enorme domo de vidro faiscava ao sol, lá no alto. Talvez fosse um palácio. Tudo era imóvel e silencioso, exceto por aquelas estranhas lamúrias e pancadas surdas que vinham dali perto em meio à névoa...
Harry se virou lentamente no mesmo lugar, e o ambiente pareceu se reinventar diante de seus olhos. Um grande vão, claro e limpo, um salão muito maior do que o Salão Principal com aquele teto abobadado de vidro. Vazio. Ele era a única pessoa ali, exceto por...
Encolheu-se. Localizara a coisa que estava produzindo os ruídos. Tinha a forma de uma criancinha nua, enroscada no chão, a pele em carne viva e grossa, parecendo açoitada, e tremia embaixo de uma cadeira onde fora deixada, indesejável, posta fora de vista, tentando respirar. Teve medo. Pequena, frágil e ferida como estava, Harry não quis se aproximar dela.
Contudo, ele foi se acercando devagar, pronto para saltar para trás a qualquer momento. Logo estava perto o suficiente para tocá-la, ainda que não conseguisse se obrigar a isso. Sentiu-se um covarde. Devia consolá-la, mas ela lhe causava repugnância.
— Não há nada que você possa fazer.
Ele virou-se depressa. Alvo Dumbledore vinha ao seu encontro, animado e aprumado, trajando amplas vestes azul-escuras.
— Harry — ele abriu bem os braços, e suas mãos estavam, ambas, inteiras, brancas e ilesas — Garoto maravilhoso! Homem corajoso, muito corajoso. Vamos caminhar.
Aturdido, Harry acompanhou-o. Dumbledore se afastou da criança flagelada que choramingava, e o conduziu a duas cadeiras em que Harry não reparara antes, dispostas a alguma distância sob aquele teto alto e cintilante. Dumbledore sentou-se em uma delas e Harry se largou na outra, fitando o seu antigo diretor. Os longos cabelos e barbas prateadas de Dumbledore, os olhos azuis penetrantes por trás dos oclinhos de meia-lua, o nariz torto: exatamente como ele lembrava. Contudo...
— Mas você está morto — disse Harry.
— Ah, sim — respondeu Dumbledore, sem rodeios.
— Então... eu estou morto também?
— Ah — disse o diretor com um sorriso ainda maior — Essa é a dúvida, não é? De modo geral, meu caro rapaz, acho que não.
Eles se encararam, o velho ainda sorrindo.
— Não? — repetiu Harry.
—Não.
— Mas... — Harry levou instintivamente a mão à cicatriz em forma de raio. Aparentemente sumira — Mas eu deveria ter morrido... não me defendi! Deliberadamente deixei que me matasse!
— E isso, acho eu, terá feito toda a diferença.
A felicidade parecia se irradiar de Dumbledore como luz, como fogo: Harry jamais vira um homem tão absoluta e palpavelmente satisfeito.
— Explique — pediu Harry.
— Mas você já sabe.
E Dumbledore girou os polegares.
— Eu deixei que me matasse. Não foi?
— Foi — assentiu Dumbledore — Continue!
— Então a parte da alma dele que estava comigo...
Dumbledore assentiu ainda mais entusiasticamente, instando Harry a prosseguir, um amplo sorriso de incentivo no rosto.
—... se foi?
— Ah, sim! Ele a destruiu. A sua alma é inteira e totalmente sua, Harry.
— Mas então...
Harry espiou por cima do ombro, para onde a pequena criatura mutilada tremia embaixo da cadeira.
— Que é aquilo, professor?
— Uma coisa além da nossa possibilidade de ajudar.
— Mas se Voldemort usou aquela Maldição da Morte — recomeçou Harry — E desta vez ninguém morreu por mim... como posso estar vivo?
— Acho que você sabe. Faça uma retrospectiva. Lembre o que ele fez em sua ignorância, cobiça e crueldade.
Harry pensou. Deixou o seu olhar vaguear pelo ambiente. Se de fato fosse um palácio o lugar em que estavam, era estranho, com cadeiras em pequenas fileiras e gradis aqui e ali, e Dumbledore e a criatura atrofiada embaixo da cadeira eram os únicos seres presentes.
Então a resposta aflorou aos seus lábios facilmente, sem esforço.
— Ele tirou o meu sangue — respondeu Harry.
— Exato! — exclamou Dumbledore — Ele tirou o seu sangue e usou-o para reconstruir o próprio corpo vivente! O seu sangue nas veias dele, Harry, a proteção de Lílian nos dois! Ele prendeu você à vida enquanto ele viver!
— Eu vivo... enquanto ele viver? Mas pensei... pensei que fosse o contrário! Pensei que nós dois tínhamos que morrer? Ou dá no mesmo?
Harry foi distraído pelo choro e as batidas da criatura angustiada às suas costas, e tornou a se virar para vê-la.
— Tem certeza de que não podemos fazer nada?
— Não há ajuda possível.
— Então me explique... melhor — pediu Harry, e Dumbledore sorriu.
— Você foi a sétima Horcrux, Harry, a Horcrux que ele nunca pretendeu criar. Voldemort deixou a alma tão instável que ela se fragmentou quando ele cometeu aqueles atos de indizível maldade, o assassinato dos seus pais, a tentativa de matar uma criança. Mas o que escapou daquele quarto foi ainda menos do que ele percebeu. Voldemort deixou ali mais do que o seu corpo. Deixou uma parte de si mesmo presa a você, a pretensa vítima que sobrevivera. E o conhecimento dele permaneceu lamentavelmente incompleto, Harry! Aquilo a que Voldemort não dá valor ele não se dá sequer o trabalho de compreender. De elfos domésticos e contos infantis, amor, lealdade e inocência, Voldemort não entende nada. Nadinha. Que todos tenham um poder que supere o dele, um poder que supere o alcance da magia, é uma verdade que ele jamais compreendeu. Ele tirou o seu sangue acreditando que isto o fortaleceria. Integrou ao próprio corpo uma parte mínima do encantamento com que sua mãe o recobriu quando morreu para salvá-lo. O corpo dele guarda vivo o sacrifício de Lílian, e enquanto esse encantamento sobreviver, você também sobreviverá, assim como a última esperança de Voldemort.
Dumbledore sorriu para Harry, e o garoto o encarou.
— E o senhor sabia disso? Sabia... o tempo todo?
— Tive um palpite. Mas os meus palpites normalmente têm sido muito bons — respondeu ele, feliz, e os dois ficaram sentados em silêncio por um tempo que pareceu muito longo, enquanto a criatura continuava a choramingar e tremer.
— Tem mais — disse Harry — Tem mais coisas. Por que a minha varinha partiu a que ele pediu emprestada?
— Quanto a isso, não tenho muita certeza.
— Dê um palpite, então — pediu Harry, fazendo Dumbledore rir.
— O que você precisa entender, Harry, é que você e Lord Voldemort empreenderam juntos uma jornada ao reino de uma magia até agora desconhecida e não comprovada. Imagino, porém, que tenha acontecido o seguinte, e não há precedentes, nem fabricante de varinha algum, acho eu, que pudesse jamais ter predito ou explicado isso a Voldemort. Sem querer, como você agora sabe, Lord Voldemort duplicou o vínculo entre vocês quando retomou a forma humana. Uma parte de sua alma já estava presa a você, e, pensando em se fortalecer, ele incorporou uma parte do sacrifício de sua mãe. Se pudesse ter compreendido o poder exato e terrível daquele sacrifício, talvez não tivesse ousado tocar no seu sangue... mas se ele fosse capaz de compreender, não seria Lord Voldemort, e, talvez, nunca tivesse matado ninguém. Tendo garantido essa dupla vinculação, tendo amarrado os seus destinos juntos, mais seguramente do que dois bruxos jamais fizeram em toda a História, Voldemort atacou você com uma varinha que possuía o mesmo núcleo que a sua. Então, ocorreu algo muito estranho, como sabemos. Os núcleos reagiram de uma forma que Lord Voldemort, que nunca soube que a sua varinha era gêmea da dele, não poderia prever. Ele sentiu mais medo do que você naquela noite, Harry. Você tinha aceitado, e até considerado bem-vinda, a ideia da morte, coisa que Lord Voldemort jamais foi capaz de fazer. Sua coragem venceu, sua varinha dominou a dele. E ao fazer isso, aconteceu entre as duas varinhas uma coisa que refletiu a relação entre os seus donos. Acredito que a sua varinha tenha absorvido parte do poder e das qualidades da varinha de Voldemort naquela noite, ou seja, o objeto captou um pouco do próprio Voldemort. Então, a sua varinha o reconheceu enquanto ele o perseguia, reconheceu um homem que era, ao mesmo tempo, parente e inimigo mortal, e regurgitou contra Voldemort um pouco de sua própria magia, magia muito mais poderosa do que qualquer coisa que a varinha de Lúcio pudesse realizar. Sua varinha passou a conter simultaneamente o poder de sua enorme coragem e da perícia letal de Voldemort: que chance teria aquela mísera varinha de Lúcio Malfoy?
— Mas, se a minha varinha ficou tão poderosa, como Hermione pôde quebrá-la? — perguntou Harry.
— Meu caro rapaz, seus efeitos excepcionais eram dirigidos apenas a Voldemort, que mexeu de forma tão imprudente com as mais profundas leis da magia. Apenas contra ele aquela varinha era anormalmente poderosa. Nos demais casos, era uma varinha como outra qualquer... embora, sem dúvida, fosse boa — concluiu Dumbledore bondosamente.
Harry parou refletindo um longo tempo, ou talvez segundos. Ali, era muito difícil ter certeza de dimensões.
— Ele me matou com a sua varinha.
— Ele não conseguiu matar você com a minha varinha — corrigiu-o Dumbledore — Acho que podemos concordar que você não está morto... embora, é claro — acrescentou ele, como se receasse ser indelicado — Eu não esteja minimizando os seus sofrimentos que, seguramente, foram rigorosos.
— Mas estou me sentindo ótimo no momento — replicou Harry, olhando para suas mãos limpas e intactas — Exatamente onde estamos?
— Bem, eu ia lhe perguntar isso — disse Dumbledore, olhando ao redor — Onde você diria que estamos?
Até Dumbledore perguntar, Harry não fazia ideia. Então, descobriu que tinha uma resposta pronta para lhe dar.
— Parece — disse, lentamente — A estação de King’s Cross. Exceto que muito mais limpa e vazia, e, pelo visto, não há trens.
— A estação de King’s Cross! — Dumbledore estava dando gargalhadas — Valha-me Deus, sério?
— Bem, onde o senhor acha que estamos? — perguntou Harry, um pouco na defensiva.
— Meu caro rapaz, não faço a menor ideia. Como costumam dizer, a festa é sua.
Harry não entendeu o que isso queria dizer. Dumbledore estava aborrecendo-o. Olhou carrancudo para o diretor, então se lembrou de uma pergunta muito mais urgente do que a presente localização.
— As Relíquias da Morte — disse, e ficou satisfeito ao ver que as palavras tinham apagado o sorriso do rosto de Dumbledore.
— Ah, sim — disse ele, parecendo até um pouco preocupado.
— Então?
Pela primeira vez desde que Harry conhecera Dumbledore, ele pareceu menos que um homem idoso, muito menos. Pareceu, por um momento fugaz, um garoto apanhado em uma travessura.
— Será que pode me perdoar? Será que pode me perdoar por não ter confiado em você? Por não ter lhe dito? Harry, eu só receei que você fracassasse como eu. Só temi que repetisse os meus erros. Imploro o seu perdão, Harry. Já faz algum tempo que sei que você é um homem melhor do que eu.
— Do que está falando? — perguntou o garoto, assustado com o tom de Dumbledore, com as lágrimas repentinas em seus olhos.
— As Relíquias, as Relíquias — murmurou Dumbledore — O sonho de um homem desesperado!
— Mas elas são reais!
— Reais e perigosas, além de uma sedução para os tolos. E eu próprio fui um tolo. Mas você sabe disso, não é? Não tenho mais segredos para você. Você sabe.
— Que é que eu sei?
Dumbledore virou-se de frente para Harry e as lágrimas ainda cintilavam em seus olhos muito azuis.
— Senhor da Morte, Harry, Senhor da Morte! Em última análise, terei sido melhor que Voldemort?
— Claro que foi. Claro... como pode fazer essa pergunta? O senhor nunca matou quando pôde evitar!
— Verdade, verdade — e ele parecia uma criança precisando de reafirmação — Contudo, eu, também, busquei um modo de vencer a morte, Harry.
— Não como ele — depois de toda a sua raiva por Dumbledore, era estranho sentar ali, sob aquele teto abobadado, e defendê-lo de si mesmo — Relíquias, não Horcruxes.
— Relíquias — murmurou Dumbledore — Não Horcruxes. Exatamente.
Houve uma pausa. A criatura choramingou, mas Harry não se virou.
— Grindelwald as estava procurando também? — perguntou ele.
Dumbledore fechou os olhos por um momento e assentiu.
— Foi isso, acima de tudo, que nos aproximou — disse ele, em voz baixa — Dois rapazes inteligentes e arrogantes com uma obsessão em comum. Ele quis ir a Godric’s Hollow, como você certamente adivinhou, por causa do túmulo de Ignoto Peverell. Queria explorar o local em que o terceiro irmão falecera.
— Então, é verdade? A história toda? Os irmãos Peverell...
—... eram os três irmãos do conto — confirmou Dumbledore — Ah, sim, acho que sim. Agora, se encontraram a Morte em uma estrada deserta... acho mais provável que os irmãos Peverell fossem simplesmente bruxos talentosos e temerários que conseguiram criar esses objetos poderosos. A história de que seriam as próprias Relíquias da Morte me parece o tipo de lenda que pode ter surgido em torno de suas criações. A capa, como você agora sabe, passou durante séculos de pai para filho, de mãe para filha, até o último descendente vivo de Ignoto, que nasceu na aldeia de Godric’s Hollow.
Dumbledore sorriu para Harry.
Eu?
— Você. Você conjecturou, eu sei, por que a capa estava em meu poder na noite em que seus pais morreram. Tiago a mostrara a mim poucos dias antes. Ela explicava muitos dos seus malfeitos, na escola, que passavam despercebidos! Mal consegui acreditar no que via. Pedi a capa emprestada para examiná-la. Havia muito tempo que desistira do meu sonho de juntar as Relíquias, mas não pude resistir, não pude deixar de vê-la de perto... era uma capa como eu jamais vira, imensamente velha, perfeita sob todos os aspectos... então seu pai morreu, e eu tinha finalmente duas Relíquias só para mim!
Seu tom era insuportavelmente amargurado.
— A capa não teria ajudado meus pais a sobreviver — apressou-se Harry a dizer — Voldemort sabia onde meu pai e minha mãe estavam. A capa não os tornaria à prova de maldição.
— Verdade — suspirou Dumbledore — Verdade.
Harry aguardou, mas o diretor não disse mais nada, então, ele o instigou.
— Então, desistiu de procurar as Relíquias quando viu a capa?
— Ah, sim — respondeu Dumbledore, com a voz fraca. Ele parecia fazer força para fitar Harry — Você sabe o que aconteceu. Você sabe. Você não pode me desprezar mais do que eu me desprezo.
— Mas eu não o desprezo...
— Então deveria — Dumbledore inspirou profundamente — Você conhece o segredo da precária saúde da minha irmã, o que aqueles trouxas fizeram, no que a transformaram. Você sabe como o meu pobre pai buscou vingança e pagou por isso, morrendo em Azkaban. Você sabe como minha mãe abriu mão da própria vida para cuidar de Ariana. Tive raiva disso, Harry.
Dumbledore confessou abertamente, friamente. Olhava agora por cima da cabeça de Harry, para longe.
— Eu era talentoso, era brilhante. Queria fugir. Queria brilhar. Queria a glória. Não me entenda mal — disse ele, e a dor perpassou o seu semblante, fazendo-o parecer novamente muito idoso — Eu os amava. Amava meus pais. Amava meu irmão e minha irmã, mas era egoísta, Harry, mais egoísta do que você, que é uma pessoa extraordinariamente generosa, poderia imaginar. Então, quando minha mãe morreu, e me deixou a responsabilidade de uma irmã incapacitada e um irmão rebelde, voltei para minha aldeia enraivecido e amargurado. Preso e desperdiçado, pensei! Então, naturalmente, ele chegou...
Dumbledore tornou a fitar Harry nos olhos.
— Grindelwald. Você não pode imaginar como as suas ideias me contagiaram, Harry, me inflamaram. Trouxas forçados à submissão. Nós, bruxos, vitoriosos. Grindelwald e eu, os jovens líderes gloriosos da revolução. Ah, eu tinha alguns escrúpulos. Aliviava a minha consciência com palavras vãs. Tudo seria para o Bem Maior, e qualquer dano causado seria compensado cem vezes em benefícios para os bruxos. Se eu sabia, no fundo do meu coração, quem era Gerardo Grindelwald? Acho que sim, mas fechei os olhos. Se os planos que estávamos fazendo viessem a frutificar, todos os meus sonhos se concretizariam. E, no cerne dos nossos projetos, as Relíquias da Morte! Como elas o fascinavam, como fascinavam a nós dois! A varinha invencível, a arma que nos conduziria ao poder! A Pedra da Ressurreição significava para ele, embora eu fingisse não saber, um exército de Inferi! Para mim, confesso, significava o retorno dos meus pais e a remoção de toda a responsabilidade dos meus ombros. E a Capa da Invisibilidade... por alguma razão, nunca a discutimos muito, Harry. Nós dois éramos capazes de nos ocultar muito bem sem a capa, cuja magia, naturalmente, é poder ser usada para proteger e escudar outros, além do seu dono. Pensei que, se algum dia a encontrássemos, ela poderia ser útil para ocultar Ariana, mas o nosso interesse na capa era apenas completar o trio, porque, dizia a lenda, o homem que reunisse os três objetos seria verdadeiramente o Senhor da Morte, e, para nós, invencível. Senhores invencíveis da Morte, Grindelwald e Dumbledore! Dois meses de insanidade, de sonhos cruéis e descaso com os dois únicos membros da família que me restavam. Então... você sabe o que aconteceu. A realidade retornou, na forma do meu irmão rude, iletrado e infinitamente mais admirável. Eu não quis ouvir as verdades que ele atirou na minha cara. Não quis ouvir que não poderia partir em busca das Relíquias levando comigo uma irmã frágil e instável. A discussão virou uma briga. Grindelwald se descontrolou. Aquilo que eu sempre percebera nele, embora fingisse não existir, revelou-se de um modo terrível. E Ariana... depois de todo o cuidado e a cautela de minha mãe... jazia morta no chão.
Dumbledore ofegou e começou a chorar profusamente. Harry estendeu a mão, e ficou contente de constatar que podia tocá-lo: apertou seu braço com força, e Dumbledore gradualmente recobrou o controle.
— Bem, Grindelwald fugiu, como todo o mundo, exceto eu, poderia ter previsto. Sumiu com os seus planos de tomar o poder e seus projetos de torturar trouxas, e seus sonhos com as Relíquias da Morte, sonhos em que eu o encorajara e ajudara. Ele fugiu, me deixando sozinho para enterrar minha irmã e aprender a viver com a minha culpa e o meu terrível pesar, o preço da minha vergonha. Os anos passaram. Correram boatos a respeito dele. Diziam que obtivera uma varinha de imenso poder. Entrementes, me ofereceram o posto de Ministro da Magia, não uma, mas várias vezes. Naturalmente, recusei. Aprendera que não seria confiável se tivesse o poder em minhas mãos.
— Mas o senhor teria sido melhor, muito melhor do que o Fudge ou o Scrimgeour! — exclamou Harry.
— Teria? — perguntou Dumbledore, abatido — Não estou muito seguro. Na adolescência, eu tinha comprovado que o poder era a minha fraqueza e a minha tentação. É uma coisa curiosa, Harry, mas talvez os que têm maior talento para o poder sejam os que nunca o buscaram. Pessoas, como você, a quem empurram a liderança e que aceitam o manto do poder porque devem, e descobrem, para sua surpresa, que lhes cai bem. Eu estava mais seguro em Hogwarts. Acho que fui um bom professor...
— O senhor foi o melhor...
— É muita bondade sua, Harry. Mas, enquanto eu me ocupava com o ensino de jovens bruxos, Grindelwald estava reunindo um exército. Diziam que tinha medo de mim, e talvez fosse verdade, mas teria menos do que eu tinha dele... Ah, não de morrer — explicou Dumbledore em resposta ao olhar indagador de Harry — Não do que ele pudesse me fazer usando a magia. Eu sabia que nos equiparávamos, talvez eu fosse até um tantinho mais talentoso. Eu temia a verdade. Entende, eu nunca soube qual de nós, naquela última luta horrenda, havia realmente lançado o feitiço que matara minha irmã. Você pode me chamar de covarde: e teria razão. Harry, eu temia mais que tudo o conhecimento de que fora eu o causador de sua morte, não apenas por causa da minha arrogância e estupidez, mas que eu, de fato, tivesse dado o golpe que lhe tirara a vida. Acho que ele sabia disso, acho que sabia o que me apavorava. Adiei o confronto com ele até que finalmente fosse demasiado vergonhoso resistir por mais tempo. As pessoas estavam morrendo, e ele parecia irrefreável, e tive que fazer o que pude. Bem, você sabe o que aconteceu a seguir. Ganhei o duelo. Ganhei a varinha.
Novo silêncio. Harry não perguntou se algum dia Dumbledore havia descoberto quem matara Ariana. Não queria saber, e menos ainda que o diretor se visse obrigado a lhe dizer. E, finalmente, ele soube o que Dumbledore teria visto no Espelho de Ojesed, e por que compreendera tão bem a fascinação que o objeto exercia sobre Harry.
Eles se sentaram em silêncio por muito tempo, e o choro da criatura às suas costas praticamente deixou de incomodar Harry.
Por fim, o garoto disse:
— Grindelwald tentou impedir que Voldemort fosse atrás da varinha. Mentiu, sabe, fingindo que nunca a tivera em seu poder.
Dumbledore assentiu, olhando para o colo, as lágrimas brilhando em seu nariz torto.
— Dizem que ele demonstrou remorso nos últimos anos, sozinho em sua cela em Nurmengard. Espero que seja verdade. Gostaria de pensar que ele percebeu o horror e a vergonha do que tinha feito. Talvez aquela mentira a Voldemort fosse a sua tentativa de compensar... de impedir que Voldemort se apossasse da Relíquia...
—... ou violasse o seu túmulo, talvez? — arriscou Harry, e Dumbledore secou as lágrimas.
Após mais um breve intervalo, Harry disse:
— O senhor tentou usar a Pedra da Ressurreição.
Dumbledore fez que sim.
— Quando a descobri, depois de tantos anos, enterrada na casa abandonada dos Gaunt, a Relíquia mais desejável de todas, embora na minha juventude eu a quisesse possuir por razões muito diversas, perdi a cabeça, Harry. Esqueci que fora transformada em Horcrux, que o anel certamente carregaria um feitiço. Apanhei-o e coloquei-o no dedo, e, por um segundo, imaginei que estava prestes a ver Ariana, minha mãe e meu pai e lhes dizer o muito que eu lamentava... fui muito tolo, Harry. Depois de tantos anos, eu não aprendera nada. Eu era indigno de unir as Relíquias da Morte, evidenciara isso repetidamente, e ali estava a prova final.
— Por quê? Era natural! Queria rever sua família. Que há de errado nisso?
— Talvez um homem em um milhão possa unir as Relíquias, Harry. Eu só merecia possuir a mais mesquinha delas, a menos extraordinária. Eu merecia possuir a Varinha das Varinhas, e não me gabar disso, e não usá-la para matar. Tinha permissão de domar e usar a varinha, porque a conquistara, não para meu ganho pessoal, mas para salvar outros do seu poder. Mas a capa, eu a tomei por mera curiosidade, por isso nunca poderia ter funcionado para mim como funciona para você, seu verdadeiro dono. A pedra, eu a teria usado na tentativa de trazer de volta aqueles que estão em paz, e não para permitir o sacrifício da minha vida, como você fez. Você é o digno possuidor das Relíquias.
Dumbledore deu uma palmadinha afetuosa na mão de Harry, e o garoto ergueu os olhos para o velho e sorriu, não pôde se conter. Como poderia continuar zangado com Dumbledore, agora?
— Por que precisou dificultar tanto as coisas?
O sorriso de Dumbledore foi trêmulo.
— Receio que tenha contado com a Srta. Granger para refreá-lo, Harry. Tive medo que sua cabeça quente pudesse dominar o seu bom coração. Senti pavor que, se lhe apresentasse logo os fatos sobre esses objetos tentadores, você pudesse se apoderar das Relíquias, como fiz, no momento errado, pelos motivos errados. Se pusesse as mãos nelas, eu queria que fossem suas sem perigo. Você é o verdadeiro Senhor da Morte, porque o verdadeiro senhor não busca fugir da morte. Ele aceita que deve morrer, e compreende que há coisas piores, muito piores do que a morte no mundo dos viventes.
— E Voldemort nunca ouviu falar nas Relíquias?
— Acho que não, porque ele não reconheceu a Pedra da Ressurreição quando a transformou em Horcrux. Mas, mesmo que tivesse ouvido falar, Harry, duvido que se interessasse por qualquer delas, exceto a primeira. Não iria achar que precisasse da capa e, quanto à pedra, quem ele iria querer ressuscitar? Ele teme os mortos. Ele não ama.
— Mas o senhor esperava que ele saísse em busca da varinha?
— Tive certeza de que tentaria, desde que a sua varinha derrotou Voldemort no cemitério de Little Hangleton. A princípio, ele receou que você o tivesse vencido por possuir maior perícia. Uma vez que sequestrou Olivaras, porém, ele descobriu a existência dos núcleos gêmeos. Achou que isso explicava tudo. Entretanto, a varinha emprestada não apresentou melhor resultado contra a sua! Então, Voldemort, em vez de se perguntar que qualidade havia em você que tornava sua varinha tão forte, que dom você possuía que lhe faltava, naturalmente saiu à procura da única varinha que, diziam, derrotaria qualquer outra. Para ele, a Varinha das Varinhas se tornara uma obsessão que rivalizava à que tinha por você. Ele acredita que a Varinha das Varinhas elimina sua última fraqueza e o torna verdadeiramente invencível. Coitado do Severo...
— Se o senhor planejou morrer nas mãos de Snape, pretendia que ele acabasse dono da varinha, não?
— Admito que tive essa intenção, mas não se realizou como eu pretendi, não é?
— Não. Essa parte saiu diferente.
A criatura às costas deles estremeceu e gemeu, e Harry e Dumbledore continuaram sentados, sem falar, fazendo a pausa mais demorada até aquele momento. A compreensão do que aconteceria a seguir foi pouco a pouco se consolidando em Harry, nesses longos minutos, como a neve caindo suavemente.
— Tenho que voltar, não é?
— Isto depende de você.
— Tenho opção?
— Ah, sim — Dumbledore sorriu — Estamos em King’s Cross, não foi o que você disse? Acho que, se decidir não voltar, você poderia... digamos... tomar um trem.
— E aonde ele me levaria?
— Em frente — respondeu Dumbledore, com simplicidade.
Novo silêncio.
— Voldemort tem a Varinha das Varinhas.
— Verdade. Voldemort tem a Varinha das Varinhas.
— Mas o senhor quer que eu volte?
— Acho que se você escolher voltar, há uma chance de que ele seja liquidado para sempre. Não posso prometer. Mas de uma coisa eu sei, Harry, você tem menos a temer do que ele ao retornarem para cá.
Harry tornou a relancear a coisa em carne viva que tremia e engasgava na sombra, sob a cadeira distante.
— Não tenha piedade dos mortos, Harry. Tenha piedade dos vivos e, acima de tudo, dos que vivem sem amor. Ao regressar, você poderá assegurar que menos almas serão mutiladas, menos famílias serão destroçadas. Se isso lhe parecer um objetivo meritório, então, por ora, diremos adeus.
Harry assentiu e suspirou. Deixar esse lugar não seria tão difícil quanto fora entrar na Floresta, mas ali era quente, claro e tranquilo, e ele sabia que estaria voltando à dor e ao temor de outras perdas. Ele se ergueu, Dumbledore o acompanhou, e os dois se fitaram demoradamente.
— Me diga uma última coisa — disse Harry — Isso é real? Ou esteve acontecendo apenas em minha mente?
Dumbledore lhe deu um grande sorriso, e sua voz pareceu alta e forte aos ouvidos de Harry, embora a névoa clara estivesse baixando e ocultando seu vulto.
— Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isto significaria que não é real?







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