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sábado, 18 de janeiro de 2014

[SESSÃO PREMIER] O Poderoso Chefão




Sessão Premier apresenta:
O Poderoso Chefão

FICHA TÉCNICA
Título OriginalThe Godfather
DireçãoFrancis Ford Coppola
Roteirobaseado na obra de Mario Puzzo.
GêneroDrama / Suspense
Ano de Lançamento: 1972


SINOPSE: Don Vito Corleone parece ser apenas um italiano muito bem sucedido que é tão amado pelos que o rodeiam, que eles o chamam carinhosamente de Padrinho. Mas na verdade, Don Corleone é chefe de uma máfia que comanda jogos clandestinos e outros negócios escusos na cidade de Nova York.

O filme trata da vida de Don Corleone e de seus filhos enquanto tentam sobreviver em mundo dominado por roubos, assassinatos e mentiras. Baseado na obra de Mario Puzzo, o espectador irá conhecer o submundo do crime americano dos anos de 1945 a 1955.



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sábado, 15 de setembro de 2012

[FILME] O Poderoso Chefão [The Godfather]




DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora na Sessão Premier:
Os Melhores do Cinema


Um dos maiores clássicos do cinema: imortalizou Marlon Brando no papel de Don Corleone, e Al Pacino no papel de Michael Corleone. Além disso, quase cem por cento dos filmes de máfia posteriores a esse filme, são nostalgicamente parecidos, como se "O Poderoso Chefão" fosse a forma mais aceita de falar da máfia.

Sinopse: Em 1945, Don Corleone (Marlon Brando) é o chefe de uma mafiosa família italiana de Nova York. Ele costuma apadrinhar várias pessoas, realizando importantes favores para elas, em troca de favores futuros. Com a chegada das drogas, as famílias começam uma disputa pelo promissor mercado. Quando Corleone se recusa a facilitar a entrada dos narcóticos na cidade, não oferecendo ajuda política e policial, sua família começa a sofrer atentados para que mudem de posição. É nessa complicada época que Michael (Al Pacino), um herói de guerra nunca envolvido nos negócios da família, vê a necessidade de proteger o seu pai e tudo o que ele construiu ao longo dos anos.




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quinta-feira, 15 de março de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 32



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS


 ÚLTIMO CAPÍTULO

LIVRO
X



CAPÍTULO
32


A
 SANGRENTA VITÓRIA da Família Corleone só se tomou completa quando, após um ano de delicadas manobras políticas, Michael Corleone conseguiu firmar-se como o chefe da Família mais poderosa dos Estados Unidos. Durante doze meses, Michael dividiu seu tempo igualmente entre o seu quartel-general na alameda de Long Beach e o seu novo lar em Las Vegas. Mas no fim daquele ano resolveu encerrar as operações em Nova York e vender as casas e a propriedade da alameda. Para esse fim, levou toda a família para o leste para uma última visita. Ficariam lá um mês, liquidando os negócios, Kay cuidaria da embalagem e embarque dos objetos caseiros da família. Havia um milhão de outros pequenos detalhes.
Agora a Família Corleone estava absoluta, e Clemenza tinha a sua própria Família. Rocco Lampone era o caporegime dos Corleone. Em Nevada, Albert Neri era o chefe de todo o serviço de segurança dos hotéis controlados pela Família. Hagen, também, fazia parte da Família oriental de Michael.
O tempo ajudava a sarar as velhas feridas. Connie Corleone reconciliou-se com o irmão Michael. De fato, não mais do que uma semana depois de suas terríveis acusações, ela pediu desculpas a Michael pelo que dissera e garantiu a Kay que não havia qualquer verdade em suas palavras, que aquilo fora apenas um ataque de histeria de uma viúva jovem.
Connie Corleone achou facilmente um segundo marido; de fato, ela não esperou que se passasse o ano tradicional de respeito para partilhar a sua cama com um distinto rapaz que viera trabalhar na Família Corleone como secretário. Um jovem de uma boa família italiana formado por uma das melhores escolas de comércio da América.
Kay Adams Corleone proporcionou grande satisfação aos parentes afins, ao procurar instruir-se sobre a religião católica e converter-se a essa fé. Os seus dois meninos foram também, naturalmente, educados no catolicismo, como era de desejar. Michael pessoalmente, porém, não ficou muito contente. Ele preferia que os filhos fossem protestantes, isso era mais americano.
Para sua surpresa, Kay passou a gostar de viver em Nevada. Ela adorava o cenário, os montes e gargantas da rocha espalhafatosamente vermelha, os desertos escaldantes, os inesperados e venturosamente refrescantes lagos, e até o calor. Os dois meninos montavam em seus próprios pôneis. Ela tinha criados verdadeiros, não guarda-costas. E Michael levava uma vida mais normal. Possuía um negócio de construção; pertencia aos clubes dos homens de negócios e aos comitês cívicos; tinha um sadio interesse pela política local, sem interferir publicamente. Era uma vida boa. Kay sentia-se feliz porque estavam acabando com a casa de Nova York e passariam a morar definitivamente em Las Vegas. Ela detestava voltar a Nova York. E assim, nessa última viagem, ela providenciara toda a embalagem e embarque dos objetos caseiros com a máxima eficiência e rapidez, e agora no último dia sentia a mesma premência de partir que sentem os pacientes que recebem alta depois de passar um longo período no hospital.
Nesse último dia, Kay Adams Corleone acordou muito cedo. Ouvia o ronco dos motores dos caminhões fora da alameda. Os caminhões que esvaziariam todas as casas, levando toda a mobília. A Família Corleone voltaria de avião para Las Vegas de tarde, inclusive a Sra. Corleone.
Quando Kay saiu do banheiro, Michael estava sentado na cama com a cabeça apoiada no travesseiro fumando um cigarro.
— Por que diabo você tem de ir à igreja toda manhã? — perguntou ele — Não digo aos domingos, mas por que diabo durante a semana? Você é tão má quanto minha mãe.
Ele estendeu a mão no escuro e acendeu a lâmpada da mesinha-de-cabeceira.
Kay sentou-se na beira da cama para calçar as meias.
— Você sabe como são os católicos convertidos — respondeu ela — Levam a coisa muito a sério.
Michael estendeu a mão para pegar na coxa dela, na pele quente onde terminava a extremidade superior de sua meia de nylon.
— Não faça isso — pediu ela — Vou fazer comunhão.
Ele não procurou segurá-la, quando ela se levantou da cama. Michael perguntou então com um leve sorriso nos lábios:
— Se você é uma católica tão fervorosa, por que é que deixa os meninos se esquivarem tanto de ir à igreja?
Ela não gostou da pergunta, mas foi bastante cautelosa. Ele a estava estudando com o que ela pensava ser o olho “do Don”.
— Eles têm bastante tempo — respondeu ela — Quando voltarmos para casa, eu os farei freqüentar mais.
Kay deu-lhe um beijo de despedida antes de partir. Fora da casa, o ar já estava esquentando. O sol de verão levantando-se no nascente era vermelho. Kay andou até onde o seu carro estava estacionado perto dos portões da alameda. A Sra. Corleone, trajando o seu vestido preto de viúva, já estava sentada no carro, esperando por ela. Tornara-se uma verdadeira rotina a missa todas as manhãs, juntas.
Kay beijou a face enrugada da sogra, depois sentou-se atrás do volante. A sra. Corleone perguntou, desconfiada:
— Você tomou o seu desjejum?
— Não — respondeu Kay.
A Sra. Corleone acenou com a cabeça, aprovando. Kay uma vez se esquecera de que era proibido ingerir qualquer alimento a partir da meia-noite antes de receber a santa comunhão. Isso fora há muito tempo, mas a sra. Corleone nunca mais confiara nela depois disso e sempre pedia confirmação.
— Você se sente bem? — perguntou a sra. Corleone.
— Sinto-me — respondeu Kay.
A igreja era pequena e estava deserta à luz do sol matinal. Seus vitrais protegiam o interior contra o calor; era fresco ali, um lugar de descanso. Kay ajudou a sogra a subir os degraus de pedra branca e deixou-a ir na frente. A velha senhora preferia um banco lá na frente, perto do altar. Kay esperou na escadaria durante um minuto. Sempre se sentia relutante nesse último momento, sempre se sentia um pouco temerosa.
Finalmente, entrou na escuridão fresca da igreja. Molhou as pontas dos dedos na água benta e fez o sinal-da-cruz, tocando ligeiramente com os dedos úmidos seus lábios ressequidos. Velas tremulavam, com uma luz vermelha diante das imagens dos santos, com o Cristo na cruz. Kay fez uma genuflexão antes de entrar na sua fileira, depois ajoelhou-s na grade de madeira dura do banco para esperar que fosse chamada para a comunhão. Baixou a cabeça como se estivesse rezando, mas não estava exatamente pronta para isso.
Era apenas ali, na penumbra da igreja, que ela se permitia pensar na outra vida do marido. Naquela terrível noite, há um ano passado, ele premeditadamente usara a confiança e o amor que um tinha pelo outro para fazê-la acreditar na mentira de que ele não matara o marido da irmã.
Kay o deixara por causa daquela mentira, não por causa do ato em si. Na manhã seguinte, ela levara os filhos para a casa dos pais em New Hampshire. Sem dizer uma palavra a ninguém, sem saber realmente que atitude iria tomar. Michael compreendera imediatamente. Telefonara-lhe no primeiro dia, e depois deixara-a em paz. Uma semana depois, a limusine de Nova York parou em frente à casa dela, trazendo Tom Hagen.
Kay passou uma longa e terrível tarde com Tom Hagen, a tarde mais terrível de toda a sua vida. Foram dar uma volta nos bosques fora de sua cidadezinha, e Hagen não foi nada gentil.
Ela cometeu o erro de tentar ser cruelmente petulante, um papel que não lhe assentava bem.
— Será que Mike mandou você aqui para me ameaçar? — perguntou ela — Eu esperava ver alguns dos “rapazes” saltarem do carro com suas metralhadoras para me fazer voltar.
Pela primeira vez desde que o conhecia, ela viu Hagen zangado. Ele respondeu asperamente:
— Isso foi a bobagem mais infantil que já ouvi na minha vida, Não esperava isso de uma mulher como você. Vamos, Kay.
— Está bem — disse ela.
Eles caminhavam pela estrada de campo verde.
Hagen perguntou calmamente:
— Por que você fugiu?
— Porque Michael mentiu para mim — respondeu Kay — Porque me fez de boba, quando serviu de padrinho para o filho de Connie. Ele me traiu. Não posso amar um homem como ele. Não posso deixar que ele seja o pai de me filhos.
— Não sei de que você está falando — retrucou Hagen.
Ela virou-se para ele com uma fúria agora justificada.
— Quero dizer que ele matou o marido da irmã. Você compreende isto? — fez uma pausa e arrematou — E ele mentiu para mim!
Continuaram a andar por um longo tempo em silêncio. Finalmente Hagen falou:
— Você não tem meios de saber realmente se tudo isso é verdade. Mas, apenas como argumento, vamos admitir que seja verdade. Não estou dizendo que seja, lembre-se. Mas e se eu lhe desse o que poderia ser uma justificação para o que ele fez? Ou, antes, algumas justificações possíveis?
Kay olhou para ele desdenhosamente.
— É a primeira vez que vejo o seu lado de advogado, Tom. Não é o seu melhor lado.
Hagen arreganhou os dentes.
— Está bem. Mas quero que você me ouça. E se Carlo pôs Sonny na alça de mira, se deu a sua pista? Se Carlo bateu em Connie daquela vez apenas com o propósito deliberado de fazer Sonny sair de casa e expor-se ao perigo, pois eles sabiam que ele tomaria o caminho da pista elevada da Jones Beach? Se Carlo tivesse sido pago para ajudar a matar Sonny? Então, que é que você diz? — ela não respondeu. Hagen prosseguiu — E se o Don, o grande homem não se sentisse com coragem bastante para fazer o que devia, vingar a morte do filho, matando o marido de sua filha? E se, finalmente, ele fez de Michael seu sucessor, sabendo que Michael tiraria esse peso de seus ombros, ficaria com essa culpa?
— Tudo já tinha passado — respondeu Kay, as lágrimas correndo-lhe dos olhos — Todos estavam felizes. Por que Carlo não podia ser perdoado? Por que tudo não podia continuar, e todo mundo esquecer?
Eles atravessaram uma campina e chegaram a um riacho à sombra de uma árvore. Hagen caiu na grama e deu um suspiro. Olhou em volta, deu outro suspiro e disse:
— Neste mundo você poderia fazer isso.
— Ele não é o homem com quem casei — retrucou Kay.
Hagen deu uma pequena gargalhada e replicou:
— Se ele fosse, estaria morto agora. Você seria uma viúva.
— Que diabo quer dizer isso? — retrucou Kay furiosamente — Vamos, Tom, fale claramente pelo menos uma vez na vida. Sei que Michael não pode, mas você não é siciliano, você pode dizer a verdade a uma mulher, pode tratá-la como um ser igual, como um ser humano semelhante a você.
Houve outro longo silêncio. Hagen balançou a cabeça.
— Você está interpretando Mike mal. Está danada porque ele mentiu para você. Bem, ele a avisou para nunca lhe fazer perguntas sobre negócios. Você ficou danada porque ele foi padrinho do filho de Carlo. Mas foi você quem o fez ser padrinho. Na verdade, era a coisa certa a fazer, se ele queria tomar atitude contra Carlo. O gesto tático clássico para adquirir a confiança da vítima — Hagen deu um sorriso horrendo e perguntou — Isso é falar bem claramente para você?
Mas Kay baixara a cabeça.
— Vou-lhe dar mais um pouco de conversa clara — prosseguiu Hagen — Depois que o Don morreu, Mike estava marcado para morrer. Você sabe quem o marcou? Tessio. Assim Tessio teve de ser morto. Porque a traição não pode ser perdoada. Michael poderia perdoá-lo, mas as pessoas nunca perdoam a si mesmas e assim são sempre perigosas. Michael gostava mesmo de Tessio. Ele adora a irmã. Mas estaria faltando ao seu dever para com você e seus filhos, para com toda a Família, para comigo e minha família, se deixasse Tessio e Carlo irem embora livremente. Eles seriam um perigo para todos nós.
Kay ouvira tudo isso com as lágrimas nos olhos.
— Foi isso o que Michael mandou você aqui me dizer?
Hagen olhou para ela com verdadeira surpresa.
— Não — respondeu Tom — Ele me pediu que eu lhe dissesse que você é o Don dele. Isto é apenas uma brincadeira.
Kay pôs a mão no braço de Hagen e perguntou:
— Ele não mandou você me dizer todas as outras coisas?
Hagen hesitou por um momento como se estivesse se debatendo se devia contar a ela uma última verdade.
— Você ainda não compreende — disse ele — Se você contasse a Michael o que eu lhe disse hoje, aqui, eu seria um homem morto — ele fez nova pausa e arrematou — Você e os filhos são as únicas pessoas neste mundo a quem ele não pode fazer mal.
Passaram-se uns longos cinco minutos para que Kay se levantasse da grama e eles começassem a caminhar de volta para casa. Quando já estavam chegando, Kay perguntou a Hagen:
— Depois do jantar, você pode levar a mim e as crianças para Nova York no seu carro?
— Foi para isso que eu vim — respondeu Hagen.
Uma semana depois que voltou para a companhia de Michael, Kay foi a um padre instruir-se para se tornar católica.
Do recesso mais profundo da igreja o sino soou o toque de arrependimento. Como lhe haviam ensinado a fazer, Kay bateu ligeiramente no peito com a mão fechada, a batida de arrependimento. O sino soou novamente e ouviu-se o arrastar de pés, quando os comungantes deixaram seus assentos para ir até a grade do altar. Kay levantou-se para se juntar a eles. Ajoelhou-se perante o altar, e do fundo da igreja veio novamente o som do sino tocando. Com a mão fechada, ela bateu outra vez no coração. O padre estava diante dela. Kay inclinou a cabeça para trás e abriu a boca para receber a hóstia. Foi o momento mais terrível de todos. Até que se derreteu e ela pôde engolir e fazer o que viera ali realmente fazer.
Lavada do pecado, uma suplicante atendida, ela baixou a cabeça e cruzou as mãos na grade do altar. Mudou a posição do seu corpo para aliviar o peso que incidia sobre os seus joelhos.
Livrou a mente de todos os pensamentos a respeito de si mesma, de seus filhos, de todo rancor, de toda rebelião, de todas as dúvidas. Depois, com um desejo profundo e realmente espontâneo de crer, de ser ouvida, como fazia todos os dias desde a morte de Carlo Rizzi, ela pronunciou as necessárias orações pela alma de Michael Corleone.



Fim!

  




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quarta-feira, 14 de março de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 31



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS


 


CAPÍTULO
31




N
AQUELE MESMO DIA, duas limusines achavam-se estacionadas na alameda de Long Beach. Um dos carros grandes esperava para levar Connie Corleone, sua mãe, seu marido e seus dois filhos ao aeroporto. A família de Carlo Rizzi ia passar umas férias em Las Vegas, a fim de se preparar para mudar-se definitivamente para aquela cidade. Michael dera a ordem a Carlo, sob protestos de Connie. Michael não quis explicar que queria todo mundo fora da alameda antes do encontro das Famílias Corleone e Barzini. Na verdade, o próprio encontro era um grande segredo. As únicas pessoas que estavam informadas sobre ele eram os capos da Família.
A outra limusine era para Kay e seus filhos, que seriam levados para New Hampshire em visita aos pais dela. Michael teria de ficar na alameda; tinha assuntos muito importantes para resolver e não podia viajar.
Na noite anterior, Michael mandara avisar a Carlo Rizzi que precisava da sua presença na alameda por alguns dias, que ele iria juntar-se à mulher e aos filhos depois, lá para o fim. Connie ficou furiosa. Tentou falar com Michael pelo telefone, mas ele fora à cidade. Agora ela percorria com os olhos toda a alameda em busca de Michael, mas ele estava fechado na sala com Tom Hagen e não podia ser perturbado. Connie deu um beijo de despedida em Carlo quando ele a pôs na limusine.
— Se você não aparecer lá dentro de dois dias, eu volto para apanhar você — ameaçou ela.
Ele sorriu malicioso, na linguagem muda de marido para mulher.
— Estarei lá — retrucou.
Ela meteu a cabeça para fora da janela e perguntou:
— Para que você acha que Michael lhe quer aqui?
Sua fisionomia preocupada fê-la parecer velha e feia.
Carlo deu de ombros.
— Ele vem-me prometendo um grande negócio. Talvez seja sobre isso que queira falar. De qualquer maneira, foi o que ele deu a entender.
Carlo nada sabia a respeito da reunião marcada para aquela noite com a Família Barzini.
— É verdade, Carlo? — insistiu Connie ansiosamente.
Carlo acenou a cabeça de modo afirmativo. A limusine atravessou os portões da alameda e foi embora.
Somente depois que a primeira limusine partiu foi que Michael apareceu para despedir-se de Kay e de seus próprios filhos. Carlo também veio apresentar a Kay seus votos de boa viagem e boas férias. Finalmente, a segunda limusine arrancou e atravessou o portão.
— Lamento ter sido obrigado a mantê-lo aqui, Carlo — disse Michael Será apenas por uns dois dias.
— Não tem importância alguma — respondeu Carlo.
— Ótimo — tornou Michael — Apenas fique perto do telefone que eu o chamarei quando precisar de você. Tenho de obter mais algumas informações antes. Está bem?
Certamente, Mike, certamente — concordou Carlo.
Em seguida, Carlo foi para a sua própria casa, deu um telefonema para a amante que ele mantinha discretamente em Westbury, prometendo que tentaria visitá-la mais tarde, naquela noite. Depois acomodou-se com uma garrafa de uísque do lado e esperou. Esperou um tempão. Carros começaram a chegar e a atravessar o portão logo depois do meio.dia. Ele viu Clemenza saltar de um, e um pouco mais tarde Tessio saiu de outro. Ambos foram introduzidos na casa de Michael por um dos guarda-costas. Clemenza partiu algumas horas depois, mas Tessio não reapareceu.
Carlo deu um passeio pela alameda, para tomar um pouco de ar fresco, que não durou mais de dez minutos. Conhecia todos os guardas que davam serviço na alameda, era até quase amigo de alguns deles. Pensou que pudesse bater um papo para passar o tempo. Mas para sua surpresa, nenhum dos guardas daquele dia era algum dos homens que ele conhecia. Todos eram estranhos para ele. Mais surpreendente ainda era que o homem encarregado do portão era Rocco Lampone, e Carlo sabia que Rocco ocupava uma posição muito alta na Família para exercer uma tarefa tão servil, a não ser que algo extraordinário estivesse ocorrendo.
Rocco deu-lhe um sorriso amistoso e cumprimentou-o. Carlo estava desconfiado. Rocco exclamou:
— Ué, pensei que você tivesse ido gozar férias com a sua família.
Carlo deu de ombros.
— Mike quis que eu ficasse aqui alguns dias. Ele tem alguma coisa para eu fazer.
— É verdade — retrucou Rocco Lampone — Eu também. Então ele me pediu para ficar de olho aqui no portão. Bem, que diabo, ele é o chefe.
O tom de sua voz insinuava que Michael não era um homem igual ao que tinha sido o pai, falou um pouco depreciativamente.
Carlo fingiu não perceber aquele tom.
— Mike sabe o que está fazendo — disse ele.
Rocco aceitou a reprimenda em silêncio. Carlo se despediu e voltou para a sua casa. Alguma coisa estava no ar, mas Rocco não sabia o que era.
Michael estava postado na janela de sua sala de estar e viu Carlo passear pela alameda. Hagen trouxe-lhe uma bebida, um conhaque forte. Michael bebeu-a prazerosamente. Por trás dele, Hagen disse, gentilmente:
— Mike, você precisa começar a se movimentar. Está na hora.
Michael deu um suspiro.
— Eu queria que não fosse tão cedo. Esperava que o velho tivesse durado um pouco mais.
— Nada sairá errado — afirmou Hagen — Se eu não entendi, então ninguém entendeu. Você armou a coisa muito bem.
Michael afastou-se da janela.
— O velho planejou uma boa parte dela. Nunca cheguei a compreender bem quão esperto ele era. Acho que você sabe.
— Ninguém como ele — retrucou Hagen — Mas isso está lindo. Isso é a melhor coisa que já vi. Portanto, você não pode ser assim tão ruim.
— Vamos ver o que acontece — disse Michael — Tessio e Clemenza estão na alameda?
Hagen acenou com a cabeça afirmativamente, Michael terminou de beber o seu conhaque.
— Mande Clemenza falar aqui comigo. Vou instruí-lo pessoalmente. Não quero ver Tessio. Diga-lhe apenas que estarei pronto para ir com ele à reunião com Barzini dentro de meia hora. O pessoal de Clemenza cuidará dele depois disso.
— Não há meio de se deixar Tessio escapar? — perguntou Hagen numa voz cautelosa.
Não respondeu Michael.
Enquanto isso, na cidade de Buffalo, uma pequena pizzaria numa rua lateral estava fazendo um negócio movimentado. Quando passou a hora do almoço, o movimento caiu e o balconista tirou da janela a bandeja redonda com os pedaços que haviam sobrado e pôs na prateleira do enorme forno de tijolos. Em. seguida, deu uma espiada dentro do forno para ver como ia uma pizza que estava assando ali. A mozzarela ainda não começara a fazer bolhas. Quando voltou para o balcão que lhe permitia atender o pessoal da rua, encontrou ali de pé um rapaz mal-encarado, que lhe falou:
— Me dê um pedaço de pizza.
O balconista pegou a sua pá de madeira e apanhou um dos pedaços frios da pizza para metê-lo no forno a fim de esquentá-lo. O freguês, em vez de esperar lá fora, resolveu atravessar a porta para ser atendido. A casa agora estava vazia. O balconista abriu o forno e tirou o pedaço de pizza quente e serviu-o num prato de papel. Mas o freguês, em vez de dar-lhe o dinheiro da pizza, estava olhando fixamente para ele.
— Ouvi dizer que você tem uma tatuagem grande no peito — disse o freguês — Estou vendo a parte superior dela por cima de sua camisa, quer-me deixar ver o resto dela?
O balconista ficou gelado. Parecia paralisado.
— Abra a camisa — ordenou o freguês.
O balconista balançou a cabeça.
— Não tenho tatuagem — respondeu, num inglês carregadamente acentuado — O homem que trabalha de noite é que tem.
O freguês deu uma gargalhada soturna, forçada.
— Vamos, desabotoe a camisa, deixe-me ver..
O balconista começou a recuar para o fundo da casa, procurando contornar o enorme forno. Mas o freguês ergueu a mão acima do balcão. Havia um revólver nela. Ele atirou. A bala atingiu o balconista no peito e jogou-o contra o forno. O freguês atirou novamente no corpo do balconista e este tombou no chão. O freguês deu a volta pelo balcão, abaixou-se e abriu violentamente a camisa, arrancando-lhe os botões. O peito do balconista estava coberto de sangue, mas a tatuagem se mostrava bem visível: os amantes entrelaçados e a faca transfixando-os. O balconista levantou debilmente um dos braços como que para se proteger.
O pistoleiro falou então:
— Fabrizzio, Michael Corleone manda-lhe lembranças.
Estendeu o braço de forma que o revólver ficasse a poucos centímetros do crânio do balconista e puxou o gatilho. Depois saiu da pizzaria. A poucos metros, um carro esperava por ele com a porta aberta. Ele saltou para dentro e o carro arrancou velozmente.
Rocco Lampone atendeu ao telefone instalado numa das colunas de ferro do portão e ouviu alguém dizer:
— A sua encomenda está pronta — e em seguida desligou.
Rocco entrou no seu carro e saiu da alameda. Atravessou a pista elevada de Jones Beach, a mesma na qual Sonny fora assassinado, e seguiu até a estaçâo ferroviária de Wantagh. Estacionou seu carro ali. Outro carro estava esperando por ele com dois homens no seu interior. Foram até a um motel situado a dez minutos de distância na Estrada Sunrise e estacionaram em seu pátio. Rocco Lampone, deixando os dois homens no carro, dirigiu-se para um dos pequenos bangalôs tipo chalé. Um só pontapé fez a porta saltar das dobradiças e Rocco pulou dentro do quarto.
Phillip Tattaglia, com 70 anos de idade e nu como um bebê, estava em pé numa cama na qual se achava deitada uma mulher jovem. A basta cabeleira de Philhip Tattaglia estava completamente preta, mas o pêlo de seu púbis era totalmente branco. O seu corpo tinha a suave forma roliça de uma ave. Rocco despejou-lhe quatro balas, todas na barriga. Depois virou-se e voltou correndo para o carro. Os dois homens deixaram-no na estação de Wantagh. Ele apanhou o seu carro e retornou à alameda. Foi lá dentro falar com Michael Corleone por um momento e depois saiu e reassumiu seu posto no portão.
Albert Neri, sozinho em seu apartamento, terminou de aprontar seu uniforme. Vagarosamente começou a se vestir: calças, camisa, gravata, paletó, coldre e cinturão. Ele devolveu o seu revólver quando foi suspenso da polícia, mas, por qualquer negligência administrativa, não o fizeram devolver o escudo. Clemenza fornecera-lhe um revólver regulamentar da polícia, de calibre 38, cuja origem não podia ser identificada. Neri desmontou-o, lubrificou-o, examinou o canhão, montou-o novamente, experimentou o gatilho. Carregou o tambor e a arma estava pronta para funcionar.
Neri meteu o boné de polícia num saco de papel grosso e vestiu um sobretudo civil por cima de seu uniforme. Olhou as horas no seu relógio. Faltavam quinze minutos para que o carro viesse apanhá-lo lá embaixo. Passou os quinze minutos examinando-se no espelho. Não havia dúvida. Ele parecia um verdadeiro policial.
O carro o aguardava com dois homens de Rocco Lampone na frente. Neri entrou no assento traseiro. Quando o carro partiu para o centro da cidade, depois que eles deixaram as proximidades do seu apartamento, Neri tirou o sobretudo e colocou-o no piso do carro. Rasgou o saco de papel e pôs o boné de oficial da polícia na cabeça.
Na esquina na Rua 55, na Quinta Avenida, o carro parou no meio-fio e Neri saltou. Começou a descer a pé a avenida. Tinha um sentimento estranho ao ver-se novamente uniformizado, patrulhando as ruas como tinha feito tantas vezes, O movimento de pedestres era intenso àquela hora. Foi caminhando até chegar em frente ao Rockefeller Center, no lado oposto a quem vem da Catedral de Saint Patrick. No seu lado da Quinta Avenida, ele localizou a limusine que procurava. Estava estacionada, completamente isolada entre uma série enorme de sinais vermelhos indicando ESTACIONAMENTO PROIBIDO e PARADA PROIBIDA.
Neri diminuiu o passo. Ainda era muito cedo. Parou para escrever alguma coisa em seu caderninho e depois continuou a andar. Estava à frente da limusine. Bateu no pára-lama com o seu cassetete. O motorista olhou surpreso para ele. Neri apontou com o cassetete para o sinal de PARADA PROIBIDA e acenou para o motorista que movimentasse o carro. O motorista virou a cabeça para o outro lado.
Neri desceu para a rua e se postou ao lado da janela aberta do motorista. O sujeito era mal-encarado, exatamente o tipo que ele gostava de enfrentar. Neri falou de modo deliberadamente insultuoso:
— Como é, seu espertinho, você vai querer que eu lhe pregue um talão de multa na bunda ou prefere andar?
O motorista respondeu impassivelmente:
— É melhor você perguntar aos seus superiores. Me dê o talão de multa se isso vai-lhe fazer sentir-se feliz.
— Vai caindo fora daqui — gritou Neri — Ou o arranco desse carro e lhe arrebento a bunda a pontapés!
O motorista fez aparecer uma nota de dez dólares como que por um passe de mágica, dobrou-a, formando um pequeno quadrado, com uma das mãos, e tentou enfiá-la na blusa de Neri. Este voltou para a calçada e chamou o motorista com o dedo. O motorista saiu do carro
— Deixe-me ver os documentos do carro — disse Neri.
Ele esperava poder levar o motorista a contornar o quarteirão, mas isso já não era possível. Com o canto do olho, Neri viu três homens baixos, fortes, descendo a escada do edifício Plaza e vindo na direção da rua. Era o próprio Barzini e seus dois guarda-costas a caminho para encontrar-se com Michael Corleone. Imediatamente, um dos guarda-costas destacou-se do grupo e veio ver o que é que havia com o carro de Barzini. O homem perguntou ao motorista:
— Que é que há?
— Estou sendo multado, não há problema. Esse sujeito deve ser novo aqui na zona.
Nesse momento, Barzini aproximou-se, acompanhado do outro guarda-costas, e gritou:
— Que diabo há agora?
Neri acabou de escrever no seu caderninho e devolveu os documentos ao motorista. Depois enfiou o caderninho no bolso traseiro da calça e quando trouxe a mão para a frente tinha o revólver de calibre 38 na mão.
Ele meteu três balas no peito de Barzini antes que os outros dois homens se recuperassem do choque para poder defendê-lo. Nessa altura, Neri já saíra correndo por entre a multidão e dobrara a esquina onde o carro estava esperando por ele. O veículo saiu velozmente pela Quinta Avenida e virou para o centro da cidade. Perto do Chelsea Park, Neri, que já havia tirado o boné, vestido o sobretudo e mudado a roupa, transferiu-se para outro carro que o aguardava. Deixara o revólver e o uniforme de polícia no outro carro. Eles dariam sumiço a essas coisas. Uma hora depois, estava são e salvo na alameda de Long Beach falando com Michael Corleone.
Tessio esperava na cozinha da casa do velho Don, bebendo uma xícara de café, quando Tom Hagen veio procurá-lo.
— Mike está à sua disposição agora — disse Hagen — É melhor você telefonar para Barzini e dizer que ele pode começar a se dirigir para o encontro.
Tessio levantou-se e foi até o telefone da parede. Discou o número do escritório de Barzini em Nova York e disse laconicamente:
— Estamos a caminho do Brooklyn — desligou e sorriu para Hagen dizendo — Espero que Mike possa arranjar um bom negócio para nós esta noite
— Estou certo de que ele arranjará — respondeu Hagen com gravidade. Ele acompanhou Tessio para fora da cozinha e através da alameda. Foram caminhando até a casa de Michael.
Na porta, foram detidos por uns dos guarda-costas.
— O chefe diz que vai num carro separado. Mandou vocês dois irem andando.
Tessio franziu as sobrancelhas, virou-se para Hagen e exclamou:
— Diabo, ele não pode fazer isso; isso vai atrapalhar toda a minha combinação.
Naquele momento, outros três guarda-costas o cercaram. Hagen disse cortesmente:
— Eu tampouco posso ir com você, Tessio.
O caporegime compreendeu tudo numa fração de segundo. E aceitou a situação. Houve um momento de fraqueza física, depois ele se recuperou e disse a Hagen:
— Diga a Mike que isso era apenas negócio, sempre gostei dele.
Hagen acenou com a cabeça.
— Ele compreenderá.
Tessio fez uma pausa rápida e depois perguntou suavemente:
— Tom, você pode me tirar dessa situação? Em homenagem aos velhos tempos?
Hagen balançou com a cabeça.
— Não — respondeu.
Tom viu os guarda-costas cercarem Tessio e o conduzirem para um carro que estava esperando. Sentiu-se um pouco triste. Tessio fora o melhor soldado da Família Corleone; o velho Don confiara nele mais do que em qualquer outro homem com exceção de Luca Brasi. Era lamentável que um homem tão inteligente cometesse tal erro fatal de julgamento tão tarde na vida.
Carlo Rizzi, ainda esperando pela entrevista com Michael, ficou nervoso com todas aquelas chegadas e partidas. Obviamente algum grande acontecimento estava ocorrendo e parecia que ele ia ficar de fora. Impacientemente, chamou Michael ao telefone. Um dos guarda-costas da casa atendeu, foi buscar Michael e voltou com o recado de que Michael queria que ele ficasse de sobreaviso, que ele o chamaria dali a pouco.
Carlo telefonou para a amante novamente e disse-lhe que tinha a certeza de que poderia levá-la para cear mais tarde e passar a noite com ela. Michael dissera que o mandaria chamar dali a pouco, o que quer que ele planejasse não podia levar mais que uma ou duas horas. Depois gastaria cerca de 40 minutos para chegar a Westbury. Isso poderia ser feito. Ele prometeu-lhe que faria isso e conversou-a maciamente, pedindo que ela não se zangasse. Quando desligou, resolveu vestir-se convenientemente para ganhar tempo depois. Tinha acabado de enfiar uma camisa limpa quando bateram na porta. Ele raciocinou rapidamente que Mike tentara falar com ele pelo telefone e encontrara a linha ocupada, assim resolvera simplesmente mandar um mensageiro chamá-lo.
Carlo foi até a porta e abriu-a. Sentiu o corpo todo enfraquecer invadido por um terrível medo. Postado no vão da porta estava Michael Corleone, com a cara que parecia exatamente a daquela morte que Carlo Rizzi via freqüentemente em seus sonhos.
Por trás de Michael Corleone estavam Hagen e Rocco Lampone. Eles pareciam solenes, como pessoas que tinham vindo com a maior relutância dar más notícias a um amigo. Os três homens entraram na casa e Carlo Rizzi levou-os para a sala de estar. Restabelecido do primeiro choque, ele pensou que tivesse sofrido um ataque de nervos. As palavras de Michael fizeram-no sentir-se realmente doente, fisicamente enjoado.
— Você tem de responder pela morte de Santino — disse Michael.
Carlo não respondeu, fingindo não entender. Hagen e Lampone separaram-se, indo para paredes opostas da sala. Carlo e Michael encararam-se.
— Você entregou Sonny ao pessoal de Barzini — disse Michael categoricamente — Aquela pequena farsa que você desempenhou com minha irmã, será que Barzini o enganou dizendo que isso tapearia um Corleone?
Canto Rizzi respondeu apavorado, sem dignidade, sem qualquer vestígio de orgulho:
— Juro que sou inocente. Juro pela cabeça de meus filhos que sou inocente. Mike, não me faça isso, por favor, Mike, não me faça isso.
— Barzini está morto — retrucou Michael tranqüilamente — Phillip Tattaglia também. Quero ajustar todas as contas da Família esta noite. Portanto, não me diga que você é inocente. Seria melhor que você admitisse que é culpado.
Hagen e Lampone olharam para Michael com espanto. Estavam pensando que Michael ainda não era o homem que o pai fora. Por que tentar fazer esse traidor confessar-se culpado? Tal culpa já estava tão provada quanto uma coisa como essa podia sê-lo, A resposta era evidente. Michael ainda não tinha tanta confiança em sua razão, ainda receava ser injusto, ainda se preocupava com aquela fração de incerteza que apenas uma confissão de Carlo Rizzi podia apagar.
Ainda não houve resposta. Michael disse quase bondosamente:
— Não fique tão assustado. Você pensa que vou tornar minha irmã viúva? Você pensa que vou tornar meus sobrinhos órfãos de pai? Afinal de, contas, sou padrinho de um dos seus filhos. Não, o seu castigo será que você não poderá trabalhar com a Família. Vou-lhe pôr num avião para Las Vegas para você se unir á sua mulher e filhos e quero que você fique por lá. Mandarei uma mesada para Connie. Só isso. Mas não diga que você é inocente, não insulte minha inteligência e não me irrite. Quem o procurou,Tattaglia ou Barzini?
Carlo Rizzi em sua angustiosa esperança de salvar a vida, em seu suave alívio de que não iria ser morto, murmurou:
— Barzini.
— Ótimo, ótimo — disse Michael brandamente. Fez um sinal com a mão direita dizendo — Quero que você parta agora. Há um carro esperando para levar você ao aeroporto.
Carlo saiu pela porta, seguido de perto pelos três homens. Era noite agora, mas a alameda como de costume estava iluminada pelos holofotes. Um carro parou. Carlo viu que era o seu próprio carro. Não reconheceu o motorista. Havia alguém sentado atrás, mas do lado oposto. Lampone abriu a porta da frente e fez sinal para Carlo entrar. Michael disse:
— Vou telefonar para sua mulher e dizer que você está a caminho.
Carlo entrou no carro. A sua camisa de seda estava ensopada de suor.
O veículo partiu, movendo-se rapidamente na direção do portão.
Carlo começou a virar a cabeça para ver se conhecia o homem que estava sentado atrás dele. Naquele momento, Clemenza, tão ardilosa e graciosamente como uma menina colocando uma fita na cabeça de um gatinho, lançou o garrote em volta do pescoço de Carlo Rizzi. A corda lisa começou a cortar-lhe penetrantemente a pele à medida que Clemenza o estrangulava puxando a corda com toda a força; o corpo de Rizzi saltou no ar como um peixe numa linha de pesca, mas Clemenza segurava-o firme, apertando o garrote até que o corpo ficou mole. De repente, sentiu um mau cheiro no interior do carro. O corpo de Carlo, com o esfíncter solto pela morte que se aproximava, descarregou os excrementos. Clemenza continuou a apertar o garrote por mais alguns minutos por medida de segurança, depois soltou a corda e enfiou-a no bolso. Recostou-se no assento acolchoado, enquanto o corpo de Carlo tombava de encontro à porta. Após alguns momentos, Clemenza abaixou o vidro da janela para deixar sair o fedor.


* * *

A vitória da Família Corleone foi completa.
Durante esse mesmo período de 24 horas, Clemenza e Lampone soltaram os seus regimes e puniram os infiltradores dos domínios dos Corleone. Neri foi enviado para assumir o comando do regime de Tessio. Os bookmakers de Barzini foram postos fora de ação; dois dos maiores valentões dos Barzini foram assassinados a tiros quando jantavam tranqüilamente num restaurante italiano da Mulberry Street. Um famoso amolecedor de páreos das corridas de trote foi abatido ao voltar para casa depois de uma noite em que ganhou bastante nas corridas. Dois dos maiores agiotas do cais do porto desapareceram, sendo encontrados meses depois nos pântanos de Nova Jersey.
Com esse único ataque selvagem, Michael Corleone fez a sua reputação e repôs a Família Corleone no seu lugar de destaque entre as Famílias de Nova York. Tornou-se respeitado não somente pelo seu brilhantismo tático, mas porque alguns dos mais importantes caporegimes das Famílias Barzini e Tattaglia imediatamente se passaram para o seu lado.
Foi um triunfo perfeito para Michael Corleone, com exceção da demonstração de histeria dada por sua irmã.
Connie voltou de avião para casa em companhia da mãe, deixando as crianças em Las Vegas. Ela conteve a sua dor de viúva até a limusine entrar na alameda. Então, antes de poder ser contida pela mãe, ela saiu correndo pela rua calçada da alameda em direção à casa de Michael Corleone. Atravessou furiosamente a porta e encontrou Michael e Kay na sala de estar.
Kay partiu para ir de encontro a ela, para confortá-la e tomá-la nos braços num amplexo de irmã, mas parou logo quando Connie começou a gritar pragas e insultos para o irmão.
— Seu patife nojento! — gritou ela — Você matou meu marido! Você esperou que nosso pai morresse, para que ninguém pudesse detê-lo, e matou meu marido! Você o matou! Você o culpou pela morte de Sonny, você sempre o culpou, todo mundo o culpou. Mas nunca pensou em mim. Você nunca ligou para mim. Que é que vou fazer agora, que é que vou fazer?
Ela estava gemendo. Dois dos guarda-costas de Michael tinham vindo atrás dela e esperavam ordens dele.
Mas Michael permaneceu ali impassível, esperando que a irmã terminasse o seu desabafo.
— Connie, você está perturbada, não diga essas coisas — atalhou Kay com voz emocionada.
Connie recuperou-se da histeria. Com a voz cheia de veneno, falou:
— Por que você pensa que ele sempre estava tão frio comigo? Por que você pensa que ele conservou Carlo aqui na alameda? Durante todo o tempo, ele sabia que ia matar meu marido. Mas não se atreveu, enquanto meu pai estava vivo. Meu pai o teria detido. Ele sabia disso. Estava apenas esperando. Então serviu de padrinho para o nosso filho só para nos despistar. O patife sem coração! Você pensa que conhece seu marido? Você sabe quantos homens ele matou como meu Carlo? Basta ler os jornais. Barzini e Tattaglia e os outros. Meu irmão matou todos eles.
Ela teve novo ataque de histeria.
Tentou cuspir no rosto de Michael, mas não tinha saliva.
— Leve-a para casa e consiga um médico para ela — disse Michael.
Os dois guarda-costas imediatamente agarraram os braços de Connie e puxaram-na para fora de casa.
Kay ainda estava chocada, sentia-se horrorizada. Perguntou ao marido:
— Que foi que fez Connie dizer todas aquelas coisas, Michael, que é que a faz acreditar naquilo?
Michael deu de ombros e respondeu:
— Ela é histérica.
Kay olhou dentro dos olhos dele.
— Michael, não é verdade, por favor diga que não é verdade!
Michael balançou a cabeça com um ar cansativo.
— Claro que não é verdade. Acredite em mim, desta vez estou deixando você me fazer perguntas sobre meus negócios, e estou respondendo. Não é verdade.
Ele nunca foi mais convincente. Olhou diretamente dentro dos olhos da mulher. Estava usando toda a confiança mútua que haviam criado em sua vida conjugal para fazê-la acreditar nele. E ela não podia duvidar mais. Kay sorriu para ele pesarosamente e atirou-se em seus braços para beijá-lo.
— Nós dois precisamos de um trago — disse ela.
Kay foi para a cozinha buscar gelo e enquanto estava lá ouviu a porta da frente se abrir. Saiu da cozinha e viu Clemenza, Neri e Rocco Lampone entrarem com os guarda-costas. Michael estava de costas para ela, mas ela se moveu para poder vê-lo de perfil. Naquele momento Clemenza dirigiu-se ao marido dela, saudando-o formalmente.
— Don Michael — disse Clemenza.
Kay pôde ver como Michael estava ali pronto para receber a homenagem daqueles homens. Ele lembrou a ela as estátuas de Roma, estátuas daqueles imperadores da antiguidade, que, por direito divino, mantinham o poder de vida e morte sobre os seus semelhantes.
Michael estava com a mão na cintura, o perfil de seu rosto mostrava um poder orgulhoso, frio, seu corpo estava descuidadamente, arrogantemente, à vontade, o peso repousando num pé levemente por trás do outro. Os caporegimes postados diante dele.
Naquele momento Kay compreendeu que aquilo tudo de que Connie acusara Michael era verdade. Ela voltou para a cozinha e chorou.

  



 Continua...





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terça-feira, 13 de março de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 30



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS


 


LIVRO
VIII




CAPÍTULO
30


A
LBERT NERI estava sentado em seu apartamento do Bronx escovando cuidadosamente o seu antigo uniforme de sarja azul de policial. Tirou o distintivo e o pôs em cima da mesa para poli-lo. O coldre e o revólver regulamentares estavam colocados em cima de uma cadeira. Essa antiga e minuciosa rotina fazia-o feliz de um modo estranho, era uma das poucas vezes em que ele sentia satisfação desde que a mulher o abandonara, há quase dois anos.
Ele casara com Rita quando ela era ainda aluna do curso secundário e ele um policial recruta. Ela era tímida, tinha cabelo escuro e pertencia a uma família de italianos puritanos que nunca a deixara ficar na rua depois das dez horas da noite. Neri se achava completamente apaixonado por ela, por sua inocência, por sua virtude, como também por sua beleza morena.
A princípio, Rita estava fascinada pelo marido. Ele era imensamente forte e ela via muita gente ter medo dele por causa de sua força e de sua atitude inflexível quanto ao que era certo e errado. Raramente ele era habilidoso. Se discordava da atitude de um grupo ou da opinião de um indivíduo, conservava a boca fechada ou externava grosseiramente a sua discordância. Jamais apresentava um assentimento cortês. Tinha também um temperamento verdadeiramente siciliano e os seus acessos fúria eram terríveis. Mas nunca se zangava com a esposa.
Neri no espaço de cinco anos se tornara um dos policiais mais temidos da corporação da cidade de Nova York. Também um dos mais honestos. Mas tinha os seus meios próprios de cumprir a lei. Ele detestava delinqüentes juvenis e quando via um grupo de rapazes desordeiros promovendo agitação na rua, à noite, perturbando os transeuntes, ele tomava uma atitude rápida e decisiva. Empregava sua força física verdadeiramente extraordinária, o que ele próprio não apreciava totalmente.
Uma noite, no Central Park, ele saltou do carro-patrulha e deteve seis rapazes de jaqueta de seda preta. O seu companheiro ficou no assento do motorista, não querendo envolver-se, conhecendo Neri. Os rapazes, todos eles já beirando os vinte anos, estavam parando as pessoas para pedir cigarro de modo ameaçador, mas sem causar realmente qualquer mal físico a ninguém. Aborreciam também as garotas que passavam, fazendo um gesto obsceno mais francês do que americano.
Neri os enfileirou no muro de pedra que separa o Central Park da Oitava Avenida. Era a hora crepuscular, mas Neri levava consigo a sua arma preferida, uma enorme lanterna. Ele nunca se preocupava em puxar o revólver; nunca era necessário. O seu rosto, quando se zangava, era tão ameaçador, combinado com seu uniforme, que os rapazes em geral se acovardavam. Esses não foram exceção.
Neri perguntou ao primeiro rapaz de jaqueta de seda preta:
— Como é seu nome?
O rapaz em resposta deu um nome irlandês.
— Saia da rua — ordenou ao rapaz — Se eu o encontrar novamente esta noite, você se arrependerá.
Ele fez sinal com a lanterna e o rapaz se afastou a passos rápidos. Neri seguiu o mesmo processo com os dois rapazes seguintes, deixando-os ir em seguida. Mas o quarto rapaz deu um nome italiano e sorriu para Neri como que para invocar certo parentesco. Neri era indiscutivelmente de descendência italiana. Neri olhou para o rapaz por um momento e perguntou:
— Você é italiano?
O rapaz sorriu confiantemente.
Neri vibrou-lhe uma pancada violenta na testa com a lanterna, fazendo-o cair de joelhos. A pele da testa do rapaz se abriu e o sangue começou a jorrar-lhe pelo rosto. Mas era apenas um ferimento superficial. Neri disse-lhe asperamente:
— Você, seu filho da pula, é uma vergonha para os italianos. Você difama todos nós. Ponha-se de pé.
Deu um pontapé na anca do rapaz, nem muito fraco, nem muito forte:
— Vá para casa e não fique na rua. Que eu também não o apanhe mais usando essa jaqueta. Eu o mandarei para o hospital. Agora vá para casa. Você está com sorte por eu não ser seu pai.
Neri nem se incomodou com os outros dois rapazes. Apenas deu-lhes um pontapé nas nádegas, enxotando-os e dizendo-lhes que não os queria ver mais na rua aquela noite.
Em tais encontros, tudo era feito com tamanha rapidez que não havia tempo para que juntasse gente ou para que alguém protestasse contra as atitudes do policial. Neri entrava logo no carro-patrulha e o seu companheiro arrancava imediatamente Ë claro que de vez em quando apareciam sujeitos valentes que queriam brigar e às vezes até puxavam faca. Coitados deles! Neri, agindo rapidamente com terrível ferocidade, batia neles impiedosamente jogava-os dentro do carro-patrulha. Eles recebiam voz de prisão sob a acusação de agressão a uma autoridade policial. Mas geralmente só iam para a cadeia algum tempo depois, isto é, após saírem do hospital.
Finalmente, Neri foi transferido para a zona em que se encontrava o edifício das Nações Unidas, principalmente porque faltou com o devido respeito ao sargento de seu distrito O pessoal das Nações Unidas, com sua imunidade diplomática, estacionava suas limusines em todas as ruas sem qualquer obediência aos regulamentos do trânsito. Neri deu queixa no distrito policial e disseram-lhe para não fazer onda, que não tomasse conhecimento do fato. Mas uma noite aconteceu que uma rua lateral ficou intransitável devido aos automóveis negligentemente estacionados. Já passava da meia-noite, por conseguinte Neri tirou sua enorme lanterna do carro-patrulha e foi rua abaixo reduzindo pára-brisas a estilhaços. Não era fácil, mesmo para diplomatas de alto posto, ter os pára-brisas consertados rapidamente, tinham de esperar alguns dias. Choveram protestos no distrito policial exigindo providência contra esse ato de vandalismo. Depois de uma semana de quebra-quebra de pára-brisas, a verdade sobre o que estava realmente acontecendo chegou ao conhecimento de uma autoridade superior e Albert Neri foi transferido para o Harlem.
Num domingo, pouco tempo depois, Neri, acompanhado da esposa, foi visitar a irmã viúva no Brooklyn. Albert Neri tinha pela irmã a profunda afeição protetora comum a todos os sicilianos e sempre a visitava pelo menos uma vez em cada dois meses para se assegurar de que ela estava bem. Ela era muito mais velha do que ele e tinha um filho de 20 anos de idade. O rapaz, de nome Thomas, sem a autoridade paterna, estava dando aborrecimentos. Tinha-se metido em algumas pequenas enrascadas, e estava ficando um pouco selvagem. Neri certa vez usara os seus contatos na organização policial para livrar o rapaz da acusação de furto. Nessa ocasião, ele conseguira controlar a sua raiva, mas avisou ao sobrinho:
— Tommy, se você fizer sua mãe chorar novamente por sua causa, quem vai ajustar contas com você sou eu.
Isso, porém, foi dito num tom de tio camarada, não constituindo realmente uma ameaça. Mas, mesmo sendo Tommy o pior elemento de todos os rapazes daquela zona “braba” do Brooklyn, ele tinha medo do tio Al.
Por ocasião dessa visita, Tommy chegara em casa muito tarde da noite de sábado e estava ainda dormindo em seu quarto. A mãe fora acordá-lo, dizendo que se vestisse para fazer a refeição domingueira em companhia do tio e da tia. A voz do rapaz fez-se ouvir asperamente através da porta do quarto parcialmente aberta:
— Que se danem, deixem-me dormir!
E a mãe voltou para a cozinha rindo e desculpando-se.
Assim tiveram de fazer a refeição sem ele. Neri perguntou à irmã se Tommy estava causando-lhe algum aborrecimento, e ela balançou a cabeça.
Neri e a mulher estavam quase para ir embora quando Tommy finalmente se levantou. Ele mal pronunciou um “olá” e foi para a cozinha. Finalmente gritou de lá para a mãe:
— Alô, mãe, quer preparar alguma coisa para eu comer?
Mas não era um pedido. Era a queixa manhosa de uma criança mimada.
A mãe respondeu estridentemente:
— Levante-se na hora da refeição para poder comer. Não vou cozinhar novamente só para você.
Era o tipo da cena horrorosa, aliás muito comum, mas Tommy ainda um pouco irritado do seu sono cometeu um erro.
— Ah, então, foda-se você e o seu mau humor, eu vou sair e comer lá fora!
Tão logo disse isso, Tommy se arrependeu.
O tio Al pulou sobre ele como um gato em cima de um rato. Não tanto pelo insulto à irmã naquele dia especial, mas porque era evidente que ele freqüentemente falava com a mãe daquele jeito quando os dois estavam a sós. Tommy nunca se atrevia a dizer tal coisa na presença do irmão da mãe. Mas naquele domingo ele se distraiu. Azar dele.
Ante os olhos apavorados das duas mulheres, Al Neri deu no sobrinho uma tremenda surra cautelosa e impiedosa. A princípio, o rapaz fez uma tentativa para se defender, mas logo desistiu e pediu misericórdia. Neri esbofeteou-lhe o rosto até que os seus lábios ficaram inchados e sangrando. Sacudiu a cabeça do rapaz para trás e jogou-o de encontro à parede. Socou-lhe o estômago, depois deitou-o de bruços no chão e bateu-lhe com o rosto no tapete. Pediu às duas mulheres que esperassem e fez Tommy descer para a rua e entrar em seu carro. Então, disse o diabo ao rapaz.
— Se a minha irmã alguma vez me contar que você falou com ela novamente desse jeito, a surra que você levou hoje vai parecer uns beijinhos de mulher — avisou a Tommy — Quero ver você proceder como gente. Agora suba para casa e diga à minha mulher que estou esperando por ela.
Foi dois meses depois disso que Al Neri voltou para casa de um trabalho até tarde da noite na polícia e verificou que a mulher o tinha abandonado. Ela havia arrumado todas as suas coisas e retornado para a casa da família. O pai dela informou-o que Rita tinha medo dele, que tinha medo de viver com ele por causa do seu gênio. Al ficou assombrado e não acreditou. Nunca batera na mulher, nunca a ameaçara de forma alguma, nunca sentira outra coisa a não ser amor por ela. Mas ficou tão atordoado com a atitude da esposa que resolveu deixar passar alguns dias para ir até a casa da família dela para falar com a mulher.
Deu azar porque na noite seguinte ele teve uma complicação no seu turno de trabalho, O carro dele recebeu um chamado do Harlem, uma comunicação de um assalto com morte. Como de costume, Neri saltou do carro-patrulha ainda em movimento. Já passava da meia-noite e ele levava a sua enorme lanterna. Foi fácil localizar a ocorrência. Havia uma multidão reunida do lado de fora da porta de uma casa de cômodos. Uma preta disse a Neri:
— Há um homem aí cortando uma mocinha.
Neri entrou no corredor. Havia uma porta aberta lá no fundo com a luz muito fraca e ele ouviu alguém gemendo. Ainda segurando a lanterna, foi andando pelo corredor e atravessou a porta aberta.
Quase caiu quando tropeçou em dois corpos estirados no chão. Um era de uma moça preta de cerca de 25 anos de idade. O outro era de uma menina preta que não tinha mais de 12. Ambas estavam sangrando de cortes de navalha no rosto e no corpo. Na sala da frente, Neri viu o homem responsável pelo crime. Ele o conhecia bem.
O homem era Wax Baines, um conhecido cafetão, traficante de entorpecentes e valentão. Seus olhos estavam inchados, sob o efeito de entorpecentes; a faca ensangüentada que ele segurava na mão balançava. Neri o prendera duas semanas antes por agredir violentamente uma de suas prostitutas na rua. Baines lhe dissera:
— Escute, homem, você não tem nada com isso aqui.
E o companheiro de Neri também falara algo a respeito de deixar os pretos se cortarem uns aos outros, se assim o desejassem, mas Neri arrastou Baines para o distrito. Logo no dia seguinte, Baines foi solto sob fiança.
Neri jamais gostara de pretos, e trabalhar no Harlem o fez gostar ainda menos deles. Os pretos viviam tomando entorpecentes ou se embriagando enquanto as mulheres trabalhavam ou pegavam homem. Ele não tinha a menor consideração por qualquer desses salafrários. Assim a descarada infração da lei cometida por Baines o enfureceu. E a visão da menina toda cortada a navalha deixou-o doente. Completamente frio, em seu próprio íntimo, ele resolvera não levá-lo preso.
Mas as testemunhas já se estavam aglomerando no apartamento atrás dele, algumas pessoas que viviam no prédio e o seu companheiro do carro-patrulha.
— Largue essa faca, você esta preso! — ordenou Neri.
Baines deu uma gargalhada.
— Homem, você vai ter de usar o seu revólver para me prender — levantou a faca e falou: — Ou talvez você queira isso!
Neri moveu-se muito depressa para que o seu companheiro não tivesse tempo de puxar o revólver. O preto atacou com a faca, mas os reflexos extraordinários de Neri permitiram-lhe aparar o golpe com a palma da mão esquerda. Com a mão direita, vibrou a lanterna descrevendo um semicírculo no ar. O golpe pegou na parte lateral da cabeça de Baines e o fez dobrar-se sobre os joelhos comicamente como se estivesse bêbedo. A faca caiu-lhe da mão. Ele estava completamente indefeso. Portanto, o segundo golpe foi indesculpável, como o inquérito do departamento de polícia e o julgamento a que Neri foi posteriormente submetido provaram com o auxilio do testemunho das pessoas ali presentes e do seu companheiro da polícia. Neri baixou a lanterna no alto do crânio de Baines com uma violência incrível que fez esmigalhar o vidro; o escudo de esmalte e a própria lâmpada despregaram-se da lanterna e voaram pelo quarto. O pesado cilindro de alumínio do corpo da lanterna envergou e só as pilhas em seu interior impediram-no de se dobrar sobre si mesmo. Um observador horrorizado, um preto que morava no prédio e que mais tarde depôs contra Neri, comentou:
— Homem, que negro de cabeça dura!
Mas a cabeça de Baines não era tão dura assim. O golpe atingiu-lhe violentamente o crânio. Ele morreu duas horas depois no hospital do Harlem.
Albert Neri foi a única pessoa a ficar surpresa quando abriram inquérito no Departamento de Polícia para apurar as acusações contra ele de usar força excessiva. Foi suspenso de suas funções, sendo apresentadas acusações criminais contra ele. Depois de indiciado por homicídio, foi condenado à pena de um a dez anos de prisão. Naquela época, ele estava tão cheio de fúria frustrada e ódio contra toda a sociedade que não ligava para nada. Ousaram julgá-lo como um criminoso! Ousaram mandá-lo para a prisão por matar um animal como aquele preto cafetão! Não deram a menor importância à mulher e à menina que tinham sido talhadas a navalha, desfiguradas para o resto da vida, e que ainda se encontravam no hospital.
Ele não tinha medo da prisão. Sentia que, em virtude de ter sido um policial e especialmente em virtude da natureza de seu delito, seria bem tratado. Diversos colegas da polícia já lhe tinham garantido que falariam com os amigos. Somente o pai de sua mulher, um astuto italiano antiquado que possuía um mercado de peixe no Bronx, compreendia que um homem como Albert Neri tinha pouca possibilidade de sobreviver um ano atrás das grades. Um dos seus companheiros de prisão o mataria; se não era quase certo que ele mataria um deles. Sentindo-se responsável por ter sua filha abandonado um bom marido por alguma bobagem de mulher, o sogro de Neri recorreu aos seus contatos com a Família Corleone (ele pagava um tributo de proteção a um de seus representantes e fornecia à própria família Corleone o melhor peixe disponível, a título de presente), e pediu a intervenção da Família.
A Família Corleone conhecia Albert Neri. Ele era algo como uma lenda na sua qualidade de polícia legalmente duro; adquirira certa fama como um homem com quem não era fácil de lidar, como um homem que podia inspirar medo por sua própria pessoa, independentemente do uniforme e do revólver autorizado que ele usava. A Família Corleone sempre se interessava por tais homens. O fato de ser ele um policial não significava grande coisa. Muitos rapazes começavam trilhando uma trajetória falsa para chegar ao seu verdadeiro destino. O tempo e a sorte geralmente o punham no caminho certo.
Foi Pete Clemenza, com seu faro agudo para gente boa, que levou o caso de Neri ao conhecimento de Tom Hagen. Este estudou a cópia do dossiê oficial da polícia e ouviu Clemenza.
— Talvez tenhamos outro Luca Brasi aqui — comentou ele.
Clemenza acenou vigorosamente com a cabeça. Embora ele fosse muito gordo, o seu rosto nada tinha da usual bonacheirice do homem robusto.
— Penso exatamente assim. O próprio Mike devia cuidar disso.
E foi assim que, antes de Albert Neri ser transferido da prisão provisória para o que seria a sua residência permanente no interior do Estado, foi informado de que o juiz reconsiderara o seu caso com base em novas informações e depoimentos apresentados por altos funcionários da polícia. A sua sentença foi suspensa e ele foi solto.
Albert Neri não era bobo nem o seu sogro era tão altruísta. Neri soube do que acontecera e pagou a dívida ao sogro, concordando em se divorciar de Rita. Depois fez uma viagem até Long Beach para agradecer a seu benfeitor. Tudo foi combinado de antemão, é claro. Michael recebeu-o em sua biblioteca.
— Diabo, eu não podia deixar que se fizesse isso com um patrício siciliano — declarou Michael — Deviam dar-lhe era uma boa medalha. Mas esses malditos políticos não ligam para nada a não ser grupos de pressão. Escute, eu não teria dado um passo nesse negócio, se não tivesse apurado tudo direitinho e verificado que injustiça lhe fizeram. Um dos meus homens falou com sua irmã e ela nos contou como você estava sempre preocupado com ela e com o filho dela, como você deu uma lição no garoto, para evitar que ele se tornasse um mau elemento. O seu sogro diz que você é o sujeito mais formidável do mundo. Isso é uma coisa rara.
O habilidoso Michael nada mencionou a respeito de ter a mulher de Neri o abandonado.
Bateram um papo demorado Neri sempre fora um homem taciturno, mas de repente se abriu todo com Michael Corleone. Michael tinha apenas mais uns cinco anos de idade do que ele, mas Neri falava como se Michael fosse muito mais velho, bastante mais velho para ser seu pai.
— Não tem cabimento tirar você da prisão e depois deixá-lo ao deus-dará — disse Michael finalmente — Posso arranjar um trabalho para você. Tenho interesses em Las Vegas; com a sua experiência, você podia ser agente de segurança num hotel. Ou se pretende entrar em algum negócio pequeno, posso falar com os bancos para lhe fornecerem um empréstimo.
Neri ficou totalmente embaraçado com tamanha gentileza. Recusou a oferta orgulhosamente e depois acrescentou:
— Tenho de ficar, contudo, sob a jurisdição do tribunal em virtude do sursis que me concederam.
Michael retrucou animadamente:
— Tudo isso são detalhes sem importância, posso arranjar as coisas. Esqueça essa supervisão, e para que os bancos não se tornem muito exigentes, vou mandar limpar a sua folha amarela.
A folha amarela era um registro policial dos delitos criminais cometidos por um indivíduo. Geralmente era submetida a um juiz, quando ele estava considerando a sentença que daria a um criminoso condenado. Neri estivera bastante tempo na organização policial para saber que muitos criminosos aguardando sentença eram tratados indulgentemente pelo juiz porque uma folha amarela limpa fora apresentada pelo funcionário subornado do Departamento de Cadastros da Polícia. Portanto, não ficou surpreso ao saber que Michael Corleone pudesse fazer tal coisa; ficou, porém, surpreso ao verificar que tal providência seria tomada em seu favor.
— Se eu precisar de ajuda, procurarei entrar em contato com vocês — disse Neri.
— Ótimo, ótimo — respondeu Michael.
Ele olhou para o seu relógio, e Neri interpretou isso como uma despedida. Levantou-se para ir embora. Mas ficou novamente surpreso.
— Está na hora do almoço — disse Michael — Venha comer comigo e minha família. Meu pai disse que gostaria de conhecê-lo. Vamos até a casa dele. Minha mãe deve ter algum pimentão frito, ovos e salsichas. À moda realmente siciliana.
Aquela tarde foi a mais agradável que Albert Neri.teve desde o seu tempo de menino, desde o tempo anterior à morte dos pais quando tinha apenas 15 anos de idade. Don Corleone estava no máximo de sua amabilidade e ficou satisfeitíssimo quando descobriu que os pais de Neri tinham vindo originalmente de uma pequena aldeia situada a poucos quilômetros apenas da própria aldeia dele. A conversa foi agradável, a comida deliciosa, e o vinho de excelente qualidade. Neri teve então a idéia de que estava finalmente entre a sua própria gente. Compreendia que era apenas um convidado casual, mas sabia que podia encontrar um lugar permanente e ser feliz em tal mundo.
Michael e o Don acompanharam-no até o seu carro. Don Corleone apertou-lhe a mão e disse:
— Você é um bom sujeito. Estive ensinando ao meu filho Michael aqui o negócio de azeite, estou ficando velho, quero me aposentar. E ele vem a mim e diz que quer cuidar de seu pequeno caso. Eu lhe respondo que trate apenas de aprender o negócio de azeite. Mas Michael não me deixa em paz. Ele diz, temos aqui um bom sujeito, um siciliano, e estão fazendo uma sacanagem com ele. Ele continua, não me dá sossego enquanto não começo a me interessar pelo caso. Estou-lhe contando isso para lhe dizer que ele tinha razão. Agora que o conheci, estou contente por havermos tirado você daquela complicação. Assim, se pudermos fazer mais alguma coisa por você, é só pedir. Compreende? Estamos à sua disposição.
(Lembrando-se da bondade do Don, Neri gostaria que o grande homem ainda estivesse vivo para ver o serviço que seria feito naquele dia).
Neri levou menos de três dias para se decidir. Compreendia que estava sendo requestado, mas compreendia mais. Compreendia que a Família Corleone aprovava o seu ato, pelo qual a sociedade o condenara e o punira. A Família Corleone dava-lhe o devido valor, a sociedade não. Ele compreendia que seria mais feliz no mundo que os Corleone tinham criado do que no mundo lá de fora. E compreendia que a Família Corleone era a mais poderosa, dentro dos seus estreitos limites.
Visitou Michael novamente e pôs as cartas na mesa. Ele não queria trabalhar em Las Vegas, mas aceitaria um emprego junto à Família em Nova York. Tornou clara a sua lealdade. Michael ficou emocionado, Neri viu isso. Ficou então combinado. Mas Michael insistiu para que Neri primeiro tomasse umas férias, lá em Miami no hotel da Família, com todas as despesas pagas e um mês de salário adiantado, a fim de que tivesse o dinheiro necessário para descansar e divertir-se tranqüilamente.
Essas férias foram o primeiro gostinho de luxo de que Neri desfrutou. O pessoal do hotel teve um cuidado todo especial com ele, dizendo:
— Ah, você é amigo de Michael Corleone.
O boato se espalhou. Deram-lhe um dos apartamentos de luxo, não o detestável quarto pequeno que se impingiria a um parente pobre. O homem que dirigia a boate do hotel arranjou-lhe algumas garotas bonitas. Quando Neri voltou a Nova York, tinha uma concepção um tanto diferente da vida em geral.
Foi posto no regime de Clemenza e submetido a provas rigorosas por esse habilíssimo dirigente de homens. Deviam-se tomar certas precauções. Afinal de contas, ele tinha sido da polícia. Mas a ferocidade natural de Neri predominou apesar dos escrúpulos que ele pudesse ter por estar agora do outro lado da cerca. Em menos de um ano, recebeu o batismo de fogo. Nunca mais poderia voltar a ser o que fora.
Clemenza o punha nas alturas. Neri era um homem extraordinário, o novo Luca Brasi. Seria melhor do que Luca, gabava-se Clemenza. Afinal de contas, Neri fora descoberta sua. Fisicamente o homem era uma verdadeira maravilha. Os seus reflexos e coordenação eram tão notáveis que ele poderia ter sido outro Joe DiMaggio. Clemenza também sabia que Neri não era homem que pudesse ser controlado por alguém como ele. Neri passou a ser diretamente responsável perante Michael Corleone, tendo Tom Hagen como o necessário amortecedor. Era um “elemento especial” e como tal fazia jus a um salário alto, mas não tinha o seu meio de vida próprio, a sua agência de bookmaker ou uma organização à qual oferecesse “proteção” remunerada Era evidente que o seu respeito por Michael Corleone era enorme, e um dia Hagen disse brincando a Michael:
— Bem, agora você tem o seu Luca.
Michael acenou com a cabeça. Ele o livrara da cadeia. Albert Neri lhe seria leal até a morte. E naturalmente isso foi um truque que ele aprendeu com o próprio Don Corleone. Enquanto aprendia o negócio, submetendo-se a longos dias de instrução ministrada pelo pai, Michael uma vez perguntou:
— Como é que você usava um sujeito como Luca Brasi? Um animal como aquele.
Don Corleone respondeu fazendo-lhe a seguinte preleção:
— Há homens neste mundo que andam por aí pedindo para ser assassinados. Você já deve ter visto alguns deles. Brigam em mesas de jogo, saltam furiosos de seu automóvel se alguém apenas arranha o seu pára-lama, humilham e ameaçam as pessoas cuja força ignoram. Já vi um homem bobo propositadamente enfurecer um grupo de homens perigosos, sem possuir ele mesmo qualquer recurso. Esses são os indivíduos que andam pelo mundo gritando “Matem-me! Matem-me!”. E sempre aparece alguém disposto a fazer-lhes a vontade. Lemos sobre isso nos jornais todo dia. Tais pessoas naturalmente fazem um bocado de mal a outras também.
E prosseguiu:
— Luca Brasi era um homem desse tipo. Mas era um homem tão extraordinário que durante muito tempo ninguém conseguiu matá-lo. A maioria dessa gente não nos interessa, mas um elemento como Brasi é uma arma poderosa para ser usada. O truque, já que ele não teme a morte, e na verdade anda à procura dela, é a gente se tornar a única pessoa no mundo que verdadeiramente não deseja matá-lo. Ele só tem este medo, não o da morte, mas o de que agente possa ser a pessoa que vai matá-lo. Ele é nosso então.
Foi uma das mais valiosas lições dadas por Don Corleone antes de morrer, e Michael a usou para fazer de Neri seu Luca Brasi.
E agora, finalmente, Albert Neri, sozinho em seu apartamento do Bronx, ia pôr novamente o seu uniforme de polícial. Escovou-o caprichosamente. Agora iria polir o coldre. E o boné de polícia também, tinha de limpar-lhe a pala, engraxar os fortes sapatos pretos. Neri trabalhava com a maior boa vontade. Encontrara o seu lugar no mundo, Michael Corleone depositara confiança absoluta nele, e ele não deixaria de corresponder a essa confiança.




Continua...




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