sábado, 25 de fevereiro de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 18



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS



CAPÍTULO
18




A
MERIGO BONASERA MORAVA apenas a alguns quarteirões de seu estabelecimento funerário na Rua Mulberry e assim sempre ia cear em casa. À noite, costumava voltar à sua empresa comercial a fim de unir-se respeitosamente às pessoas enlutadas que prestavam sua homenagem ao morto que jazia em câmara-ardente em suas salas sombrias.
Ele sempre se ofendia com as piadas ditas a respeito de sua profissão, os detalhes técnicos macabros que eram tão insignificantes. Evidentemente, nenhum de seus amigos, membros de sua família ou vizinhos diria tais piadas. Qualquer profissão era digna de respeito para os homens que durante séculos haviam ganho o seu pão com o suor de seu rosto.
Agora, ceando com sua mulher em seu apartamento bem mobiliado, com imagens douradas da Virgem Maria com suas velas de vidro vermelho bruxuleando no aparador, Bonasera acendeu um cigarro Camel e tomou um repousante copo de uísque americano. A mulher trouxe pratos fumegantes de sopa para a mesa. Os dois estavam sós agora; ele mandara a filha morar em Boston com a avó, onde ela poderia esquecer a sua terrível experiência e os maus-tratos que sofrera dos dois salafrários que Don Corleone havia punido.
Enquanto tomavam a sopa, a mulher perguntou:
— Você vai voltar para o trabalho esta noite?
Amerigo Bonasera acenou afirmativamente com a cabeça. A mulher respeitava o trabalho dele, mas não o compreendia. Não compreendia que a parte técnica de sua profissão fosse a menos importante. Ele pensava, como muitas outras pessoas, que era pago por sua habilidade em fazer o morto parecer tão vivo em seu caixão. E, na verdade, essa sua habilidade era lendária. Porém mais importante ainda, mais necessária ainda, era sua presença física no velório. Quando a família desolada vinha à noite receber os demais parentes e amigos junto ao ataúde do pranteado morto, precisava de Amerigo Bonasera em companhia dela.
Pois ele era um guia rigoroso para a morte. Com seu rosto sempre sério, embora forte e confortador, sua voz firme, conquanto abafada para um registro baixo, ele comandava o rito fúnebre. Podia acalmar a dor que era tão indecorosa, podia repreender as crianças turbulentas cujos pais não tinham coragem de castigá-las. Incansável no oferecimento de suas condolências, ele jamais era rude. Uma vez que uma família usasse Amerigo Bonasera para despachar um morto, voltava repetidamente a usar os seus serviços. E ele nunca, nunca abandonava um de seus clientes nessa terrível derradeira noite sobre a terra.
Geralmente Bonasera permitia-se uma soneca após a ceia. Depois lavava-se e barbeava-se, usando talco com abundância para disfarçar a barba preta cerrada. Lavava sempre a boca. Respeitosamente vestia uma roupa de baixo limpa, uma camisa branca lustrosa, a gravata preta, uma roupa escura recém-passada a ferro, sapatos pretos foscos e meias pretas. Contudo, a impressão que ele causava era confortante em lugar de sombria. Também conservava o cabelo tingido de preto, uma frivolidade inaudita num homem italiano de sua geração; mas não era por vaidade. Simplesmente porque o seu cabelo havia tomado um aspecto vivo de sal e pimenta, uma cor que lhe parecia indecorosa para a sua profissão.
Depois que Bonasera acabou a sopa, a mulher pôs diante dele um pequeno bife com algumas garfadas de espinafre verde ressumbrando óleo amarelo. Ele comia pouco. Quando terminou, tomou uma xícara de café e fumou outro cigarro Camel. Enquanto tomava café, pensou na sua pobre filha. Ela nunca mais seria a mesma. Sua beleza externa havia sido restaurada, mas ele percebia nela o olhar de um animal assustado que o tornava incapaz de encará-la. E assim mandaram-na passar algum tempo em Boston. O tempo curaria as feridas da moça. A dor e o terror não eram coisas tão finais como a morte, como ele bem sabia. Seu trabalho o fizera otimista.
Bonasera acabara de tomar o café quando o telefone da sala de estar tocou. A mulher nunca atendia quando ele estava em casa, assim ele se levantou, esvaziou a xícara e apagou o cigarro. Enquanto caminhava para o telefone, tirou a gravata e começou a desabotoar a camisa, aprontando-se para a sua soneca. Em seguida, pegou o telefone e disse com uma cortesia tranqüila:
— Alô.
A voz do outro lado era áspera. forçada.
— Aqui é Tom Hagen. Estou falando em nome de Don Corleone, a pedido dele.
Amerigo Bonasera sentiu o café agitar-se amargamente em seu estômago, sentiu-se possuído de um certo mal-estar. Havia mais de um ano que ele contraíra uma dívida com Don Corleone para vingar a honra de sua filha e nessa altura a lembrança de que ele tinha de pagar essa dívida estava muito longe. Ficara tão grato ao ver o rosto ensangüentado daqueles dois salafrários que faria tudo por Don Corleone. Mas o tempo desgasta a gratidão mais depressa do que a beleza. Agora Bonasera sentia a doença de um homem que enfrentava uma desgraça. A sua voz gaguejou quando ele respondeu:
— Sim, compreendo. Estou ouvindo.
Ele estava surpreso com a frieza da voz de Hagen. O consigliori sempre fora um homem cortês, embora não sendo italiano, mas agora se mostrava rudemente brusco.
— Você deve um serviço ao Don — disse Hagen — Ele não tem dúvida de que você lhe pagará. De que você será feliz em ter esta oportunidade. Dentro de uma hora, não antes, talvez depois, ele estará em sua empresa funerária para lhe pedir um favor. Esteja lá para recebê-lo. Não tenha lá ninguém que trabalhe para você. Mande todo mundo embora. Se você não tem qualquer objeção a fazer, fale agora e eu informarei Don Corleone. Ele tem outros amigos que podem fazer esse serviço.
Amerigo Bonasera quase gritou em seu susto:
— Como pode você pensar que eu faltaria ao Padrinho? Certamente, farei tudo o que ele deseja. Não esqueci minha dívida. Irei para a minha empresa imediatamente, agora mesmo.
A voz de Hagen era mais delicada agora, mas havia algo estranho nela.
— Muito obrigado — respondeu ele — O Don nunca teve dúvidas a seu respeito. A dúvida era minha. Atenda-o esta noite e você poderá me procurar sempre que tiver dificuldades, você ganhará a minha amizade pessoal.
Isso assustou Amerigo Bonasera ainda mais. Ele gaguejou:
— O próprio Don vai-me procurar esta noite?
— Sim — respondeu Hagen.
— Então ele está completamente restabelecido dos ferimentos, graças a Deus — disse Bonasera. A sua voz estava como que perguntando.
Houve uma pausa do outro lado do telefone, depois a voz de Hagen falou muito tranqüilamente:
— Sim.
Houve um pequeno estalo e o telefone emudeceu.
Bonasera estava suando. Foi para o quarto, mudou a camisa e lavou a boca. Mas não fez a barba nem mudou a gravata. Pôs a mesma que usara durante o dia. Telefonou para a empresa funerária e pediu ao ajudante que ficasse com a família desolada usando a sala da frente naquela noite. Ele próprio estaria ocupado na sala do laboratório da empresa. Quando o ajudante começou a fazer perguntas, Bonasera cortou-lhe a fala laconicamente e disse-lhe para seguir exatamente as ordens.
Em seguida, vestiu o paletó, e sua mulher, ainda comendo, levantou os olhos para ele com surpresa.
— Tenho um trabalho a fazer — comunicou, e ela não se atreveu a interrogá-lo devido ao aspecto estampado no rosto do marido.
Bonasera saiu de casa e andou os poucos quarteirões até a sua empresa funerária.
Esse edifício ficava isolado num terreno enorme com uma cerca de paus brancos colocados em toda a sua volta. Havia uma estreita pista de rolamento, da rua para os fundos, com largura suficiente apenas para a passagem de ambulâncias e carros fúnebres. Bonasera abriu o portão e deixou-o aberto. Depois andou para os fundos do edifício e entrou nele pela larga porta ali existente. Quando fazia isso, viu as pessoas da família enlutada já entrando pela porta da frente da sala do velório para prestar sua homenagem ao defunto que ali se encontrava.
Há muitos anos, quando Bonasera comprara o negócio de um agente funerário que pretendia se aposentar, havia uma varanda com cerca de dez degraus que as pessoas tinham de subir antes de entrar na sala do velório. Isso apresentava um problema. Os velhos e aleijados que vinham prestar homenagens aos mortos achavam quase impossível subir; assim, o antigo agente funerário usava o elevador de carga para essa gente, uma pequena plataforma metálica, que se erguia do chão ao lado do edifício. O elevador era para esquifes e cadáveres e descia até o subterrâneo, subindo em seguida até a sala do velório. Desse modo, as pessoas que usassem o elevador se veriam subindo ao lado do esquife, enquanto outras eram obrigadas a afastar para o lado suas cadeiras pretas, a fim de deixar o elevador subir pelo alçapão. Para descer era o mesmo problema.
Amerigo Bonasera achara essa solução indecorosa e mesquinha. Assim, remodelou a frente do edifício, pôs abaixo a varanda e construiu um passeio ligeiramente inclinado em seu lugar. Mas naturalmente o elevador ainda era usado para esquifes e cadáveres.
Nos fundos do edifício, isolados da sala do velório e salas de recepção por uma maciça porta à prova de som, ficavam o escritório da empresa, a sala de embalsamamento, o depósito de esquifes e um armário, cuidadosamente trancado, contendo produtos químicos e as respeitáveis ferramentas do ofício. Bonasera foi para o escritório, sentou-se na sua escrivaninha e acendeu um Camel, uma das poucas vezes em que fumou nesse edifício. Pôs-se a esperar por Don Corleone.
Esperava com o sentimento de desespero máximo. Ele não tinha dúvida a respeito de que serviço seria convidado a executar. Durante o último ano, a Família Corleone vivia empenhada numa guerra contra as cinco grandes Famílias da Máfia de Nova York e a carnificina enchera os jornais. Muitos homens de ambos os lados haviam sido assassinados. Agora a Família Corleone tinha matado alguém tão importante que desejava esconder seu corpo, fazê-lo desaparecer, e que melhor processo poderia haver do que fazê-lo ser enterrado oficialmente por um agente funerário registrado? E Amerigo Bonasera não tinha ilusões a respeito do ato que deveria realizar. Seria cúmplice de um assassinato. Se a coisa fosse descoberta, ele passaria anos na prisão. A sua filha e mulher ficariam desgraçadas, seu bom nome, o respeitado nome de Amerigo Bonasera, seria arrastado pela lama sangrenta da guerra da Máfia.
Ele se acalmou um pouco fumando outro cigarro. E então pensou numa coisa ainda mais terrificante Quando as outras Famílias descobrissem que ele havia ajudado os Corleone o tratariam como inimigo. Elas o matariam. E agora ele amaldiçoava o dia em que sua mulher e a de Don Corleone se tornaram amigas. Amaldiçoou também a sua filha, a América e seu próprio êxito.
E então o seu otimismo voltou. Tudo poderia sair bem. Don Corleone era um homem esperto. Certamente tudo fora arranjado para manter o segredo. Ele tinha apenas de dominar os nervos. Pois, naturalmente, a única coisa mais fatal do que qualquer outra era cair no desagrado de Don Corleone.
Bonasera ouviu pneumáticos rolarem no cascalho. O seu ouvido prático lhe dizia que um carro estava vindo pela estreita pista de rolamento, estacionando no pátio de trás. Abriu a porta dos fundos para deixá-los entrar. O enorme homem gordo, Clemenza, entrou, seguido de dois sujeitos jovens muito mal-encarados. Deram uma busca nas salas sem dizer uma palavra a Bonasera, depois Clemenza saiu. Os sujeitos ficaram com o agente funerário.
Alguns momentos depois, Bonasera reconheceu o ruído de uma ambulância pesada vindo pela pista de rolamento. Depois Clemenza apareceu na porta seguido de dois homens carregando uma maca. E os piores temores de Amerigo Bonasera e concretizaram. Na maca havia um cadáver enrolado num cobertor cinzento, com os pés nus amarelos saindo pela extremidade.
Clemenza fez sinal para que os carregadores da maca fossem para a sala de embalsamamento. E depois, da escuridão do pátio, surgiu outro homem que entrou na sala iluminada do escritório.
Era Don Corleone.
Don Corleone emagrecera durante o período em que estivera acamado e movia-se com uma curiosa rigidez. Segurava o chapéu nas mãos e o seu cabelo parecia ralo sobre a cabeça maciça. Parecia mais velho, mais enrugado do que quando Bonasera o vira no casamento, mas ainda irradiava poder. Segurando o chapéu de encontro ao peito, disse a Bonasera:
— Bem, amigo velho, você está disposto a prestar-me esse serviço?
Bonasera acenou com a cabeça afirmativamente. Don Corleone seguiu a maca até a sala de embalsamamento e Bonasera foi atrás dele. O cadáver estava sobre uma das mesas de calhas. Don Corleone fez um pequeno gesto com o chapéu e os outros homens saíram da sala.
Bonasera perguntou num murmúrio:
— Que é que você deseja que eu faça?
Don Corleone olhava fixamente para a mesa.
— Quero que você use todos os seus poderes, toda a sua habilidade, tanto quanto gosta de mim — respondeu — Não quero que a mãe o veja como ele está.
Foi até a mesa e puxou o cobertor para baixo. Amerigo Bonasera, contra toda a sua vontade, contra todos os seus anos de treino e experiência, deixou escapar um murmúrio de horror.
Na mesa de embalsamamento estava Sonny Corleone com o rosto esmagado a bala. O olho esquerdo afundado em sangue tinha uma fratura em seu cristalino. A ponte de seu nariz e o osso malar esquerdo estavam achatados em forma de massa.
Por uma fração de segundo, Don Corleone estendeu a mão para apoiar-se no corpo de Bonasera.
— Veja como eles massacraram meu filho — gemeu ele.





 Continua...






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Frase Curiosa"Há apenas duas maneiras de obter sucesso neste mundo: pelas próprias habilidades ou pela incompetência alheia." Jean de La Bruyère

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 17



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS



CAPÍTULO
17




A
 GUERRA DE 1947 entre a Família Corleone e as Cinco Famílias aliadas contra ela provou ser muito cara para ambos os lados. Tornou-se ainda mais complicada, por causa da pressão que a polícia passou a exercer para resolver o assassinato do Capitão McCluskey. Era raro que os funcionários do Departamento de Polícia ignorassem a força política que protegia as atividades do jogo e do vício, mas nesse caso, os políticos eram tão inúteis como o estado-maior de um exército amotinado e saqueador cujos oficiais combatentes se recusassem a cumprir as ordens.
Essa falta de proteção não prejudicava tanto a Família Corleone como a seus adversários. O grupo Corleone dependia da jogatina para obter a maior parte de sua renda, e foi atingida de rijo no “número” ou ramificações “políticas” de suas operações. Os mensageiros que colhiam as informações para as bancas eram conduzidos para o distrito policial, onde levavam uma surrazinha, antes de serem fichados. Algumas “bancas” foram localizadas e varejadas, com grande prejuízo financeiro. Os “banqueiros”, indivíduos de alto gabarito, cheios de direitos, queixavam-se aos caporegimes, que levavam tais queixas ao supremo conselho da Família. Entretanto, nada se podia fazer. Os banqueiros foram aconselhados a sair do negócio. Franco-atiradores negros do local foram autorizados a tomar conta das bancas, no Harlem, e eles agiam de maneira tão dispersiva que a polícia encontrava dificuldades em apanhá-los.
Depois da morte do Capitão McCluskey, alguns jornais publicaram histórias envolvendo-o com Sollozzo. Apresentavam prova de que McCluskey recebera quantias enormes de dinheiro, pouco antes de sua morte. Essas histórias tinham sido espalhadas por Hagen, sendo as informações fornecidas por ele. O Departamento de Polícia recusou-se a confirmar ou desmentir tais notícias, mas estava investigando. A organização policial soube através de informantes, de policiais que recebiam “bola” das Famílias, que McCluskey era um policial corrupto. Não porque ele aceitava grana “limpa”, absolutamente, não havia censura quanto a isso. Mas porque ele aceitara o mais sujo dos dinheiros: o oriundo de tráfico de entorpecentes ou de assassinatos. Segundo a moralidade dos policiais, isso era imperdoável.
Hagen compreendia que o policial acreditava na lei e na ordem de um modo curiosamente inocente. Acreditava nisso mais do que o público a quem ele serve. Afinal de contas, a lei e a ordem é a mágica de onde extrai o poder individual que ele acalenta como quase todos os homens. Contudo, há sempre o ressentimento reprimido contra o público a quem serve. Ele é ao mesmo tempo seu guarda e sua presa. Como guarda, é ingrato, abusado e exigente. Como presa, é escorregadio e perigoso, cheio de manha. Logo que alguém cai nas garras de um policial, o mecanismo da sociedade que ele defende reúne todos os seus recursos para arrancar a presa de suas mãos. A prisão é relaxada pelos políticos. Juízes dão sursis tolerantes aos piores bandidos. Governadores dos Estados e o próprio Presidente dos Estados Unidos dão perdões plenos, admitindo que advogados respeitáveis já não obtiveram a sua absolvição. Após algum tempo, o policial aprende. Por que não receber esses honorários que os bandidos estão pagando? Mais do que ninguém, ele precisa disso. Por que seus filhos não devem freqüentar a faculdade? Por que sua mulher não deve comprar nas lojas mais caras? Por que ele mesmo não deve gozar o sol com umas férias de inverno na Flórida? Afinal de contas, ele arrisca a vida e isso não é brincadeira.
Geralmente, se obstina em não aceitar a grana suja. Aceitará dinheiro para que um bookmaker possa funcionar; de um homem que detesta multas de estacionamento ou dirige com velocidade excessiva. Permitirá que prostitutas e outras mulheres exerçam a sua atividade, a troco de uma pequena remuneração. Tais fraquezas são naturais ao homem. Mas absolutamente não aceitará a grana de traficância de entorpecentes, assaltos à mão armada, estupro, assassinato e outros tipos de crimes. Em sua mente, tais coisas atingem a essência de sua autoridade pessoal e não podem ser encorajadas.
O assassinato de um capitão da polícia foi comparado a um regicídio. Contudo, quando se soube que McCluskey, ao ser assassinado, estava em companhia de um notório vendedor de narcóticos, e que este era suspeito de conspiração de assassinato, a represália por parte da polícia começou a diminuir. Outrossim, havia ainda pagamentos de hipotecas a serem feitos, carros a serem pagos, crianças para nascerem. Sem esse dinheiro “extra”, os policiais tinham de se esforçar muito para equilibrar seu orçamento. Os vendedores ambulantes sem licença serviam apenas para arranjar o dinheiro do almoço. As “bolas” para perdoar as multas de estacionamento representavam quantias insignificantes. Alguns dos mais desesperados começaram até a tomar dinheiro dos suspeitos (pederastas, agressores) nos distritos policiais. Finalmente a situação abrandou. Aumentaram os preços e deixaram as Famílias operar. Uma vez mais, as “folhas de gratificações” passaram a ser datilografadas pelo funcionário do distrito, relacionando todo homem designado para o posto policial local e a “parte” que ele devia receber todo mês. Restabeleceu-se algo semelhante à ordem social.
Tinha sido idéia de Hagen usar detetives particulares para guardarem o quarto de hospital de Don Corleone. Estes homens, naturalmente, eram reforçados pelos soldados muito mais exercitados do regime de Tessio. Sonny não estava satisfeito com isso. Em meados de Fevereiro, quando Don Corleone já podia mover-se sem perigo, foi levado de ambulância para a sua residência na alameda. A casa fora reformada, de modo que o seu quarto de dormir assemelhava-se a um quarto de hospital com todo o equipamento necessário para qualquer emergência. Enfermeiras especialmente selecionadas tinham sido contratadas para cuidar do doente, noite e dia, e o Dr. Kennedy, mediante o pagamento de honorários altos, fora persuadido a se tornar o médico-residente desse hospital particular. Pelo menos, até que Don Corleone necessitasse apenas de cuidados de enfermeiras.
A própria alameda fora transformada num local inexpugnável. Capangas foram instalados nas casas extras, sendo os inquilinos mandados em férias para suas aldeias natais na Itália, com todas as despesas pagas.
Freddie Corleone fora enviado a Las Vegas para recuperar-se e sondar o terreno para as atividades da Família, no complexo cassino e hotel que estava surgindo ali. Las Vegas era parte do império da Costa Oeste ainda neutro, e o Don desse império garantira a segurança de Fred ali. As cinco Famílias de Nova York não desejavam fazer mais inimigos, entrando em Las Vegas depois de Freddie Corleone. Estavam às voltas com bastante complicação em Nova York.
O Dr. Kennedy proibira qualquer discussão sobre negócio na frente de Don Corleone. Esta ordem foi completamente desrespeitada. Don Corleone exigiu que o Conselho de guerra se reunisse em seu quarto. Sonny, Tom Hagen, Pete Clemenza e Tessio se reuniram ali na primeira noite em que Don Corleone voltou para casa.
Don Corleone estava muito fraco para falar muito, mas desejava ouvir e exercer seus poderes de veto. Quando se explicou a ele que Freddie fora enviado a Las Vegas para estudar o estabelecimento de casa de jogo, balançou a cabeça aprovando. Ao saber que Bruno Tattaglia fora assassinado pelos seus capangas, balançou a cabeça e suspirou. O que o entristeceu mais do que tudo foi saber que Michael matara Sollozzo e o Capitão McCluskey e fora obrigado a fugir para a Sicília. Quando ouviu isso, fez sinal para que se retirassem do quarto e para continuarem a reunião na sala do canto onde se achava a biblioteca jurídica.
Sonny Corleone descansava na enorme poltrona por trás da escrivaninha.
— Penso que será melhor deixarmos o velho sossegado durante alguns semanas, até que o médico diga que ele está em condições de fazer negócios — fez uma pausa — Eu gostaria de pô-los em funcionamento novamente antes que ele melhorasse. Temos autorização da polícia para funcionar. A primeira coisa são as bancas políticas do Harlem. A rapaziada negra já se divertiu bastante ali, agora temos de tomá-las de volta. Desenvolveram o negócio, mas da maneira errada, tal como geralmente fazem quando dirigem as coisas. Muitos dos seus agentes não pagaram aos ganhadores. Andam em Cadillacs e dizem aos apostadores que têm de esperar por sua grana, ou talvez recebam apenas a metade do que eles ganharam. Não quero que nenhum agente meu pareça rico aos olhos de seus apostadores, e nem andem muito bem vestidos. Não admito franco-atiradores no negócio, pois só nos trazem má fama. Tom, vamos pôr esse projeto em ação já. O resto entrará na linha, assim que você mandar dizer que o jogo está liberado.
— Existem alguns rapazes muito duros no Harlem. Tomaram o gostinho do dinheiro graúdo. Não quererão voltar a ser novamente pequenos agentes ou sub-banqueiros — retrucou Hagen.
Sonny deu de ombros.
— Ë só você dar os nomes a Clemenza. A função dele é pô-los nos eixos.
— Isso não é problema — disse Clemenza para Hagen.
Então, Tessio apresentou a questão mais importante.
— Assim que começarmos a funcionar, as cinco Famílias começarão seus ataques. Procurarão atingir nossos banqueiros no Harlem e nossos bookmakers na zona Leste. É provável que tentem atrapalhar as coisas no setor de roupas feitas, que controlamos. Essa guerra vai custar um bocado de dinheiro.
— É possível que nem tentem — retrucou Sonny — Eles sabem que os atacaremos em represália. Tenho meus sondadores de paz lá fora, e talvez possamos ajeitar tudo pagando uma indenização pela morte do rapaz da Família Tattaglia.
— Eles estão recebendo friamente tais negociações — atalhou Hagen — Perderam um bocado de grana nos últimos meses e nos culpam por isso, com justiça. Penso que o que querem de nós é que concordemos em entrar no negócio de entorpecentes, para usar a influência da Família politicamente. Em outras palavras, tratar do caso Sollozzo, com exclusão de Sollozzo. Mas não entabularão tal negociação enquanto não nos tiverem atingido com uma espécie de ataque. Então, depois que nos tiverem amolecido, pensam que ouviremos sua proposta sobre entorpecentes.
— Nada de trato sobre entorpecentes — respondeu Sonny prontamente — Don Corleone disse “não” e será “não” até ele mudar de opinião.
— Então — falou Hagen enérgico — Temos diante de nós um problema tático. Nosso dinheiro está lá fora em campo aberto. Jogo e política. Podemos ser atacados. A Família Tattaglia controla a prostituição e coisas semelhantes, além dos sindicatos portuários. Diabo, como vamos atacá-los? As outras Famílias também estão por dentro do negócio de jogo. A maioria delas está metida em negócios de construção, agiotagem, controle dos sindicatos, obtenção de contratos com o governo. Conseguem um bocado por meio de ameaças e outros recursos contra gente humilde. O dinheiro delas não está na rua. O cabaré dos Tattaglia é muito famoso para se atacar, causaria uma péssima impressão. E, com Don Corleone ainda fora de ação, a influência política deles iguala com a nossa. Assim, temos aqui um verdadeiro problema.
— O problema é meu — replicou Sonny — Eu encontrarei a resposta. Mantenha a negociação em andamento e continue firmemente com as outras coisas. Vamos voltar ao negócio para ver o que acontece. Depois, saberemos como agir. Clemenza e Tessio têm bastantes soldados, podemos enfrentar as cinco Famílias bala por bala, se isso é o que elas querem. Iremos então para os colchões.
Não houve problemas para expulsar os banqueiros negros franco-atiradores do negócio. A polícia foi informada e arrasou com tudo, sem grande esforço. Nessa época, não era possível que um preto desse “bola” a um polícia de posição elevada ou a um funcionário político, para manter tal negócio em funcionamento. Isso se devia mais ao preconceito e à desconfiança racial do que a outra coisa qualquer. Mas o Harlem sempre fora considerado um problema secundário, de forma que se esperava uma fácil solução.
As cinco Famílias atacaram numa direção inesperada. Dois poderosos funcionários dos sindicatos de roupas feitas foram assassinados, funcionários que eram membros da Família Corleone. Depois, os agiotas da Família Corleone foram expulsos das docas, como também os bookmakers. O pessoal do sindicato dos estivadores se passou para as cinco Famílias. Os bookmakers da Família Corleone em toda a cidade foram ameaçados, a fim de se convencerem a mudar de lado. O maior banqueiro do Harlem, um velho amigo e aliado da Família Corleone, foi brutalmente assassinado. Não havia mais opção. Sonny ordenou a seus caporegimes que fossem para os colchões.
Dois apartamentos foram ocupados na cidade, onde colocaram colchões para os capangas dormirem, uma geladeira para mantimentos, e armas e munição. Clemenza ocupou um apartamento, com sua gente, e Tessio o outro. Todos os bookmakers da Família passaram a ter turmas de guarda-costas. Os banqueiros políticos do Harlem, porém, tinham-se passado para o inimigo e, no momento, nada se podia fazer a respeito do assunto. Tudo isso custava à Família Corleone um bocado de dinheiro e muito pouco estava entrando. À proporção que se passavam os meses seguintes, outras coisas se tornaram óbvias. A mais importante era que a Família Corleone estava superada.
Havia motivos para isso. Com Don Corleone ainda muito fraco para tomar parte nos acontecimentos, grande parte da força política da Família ficara neutralizada. Outrossim, os últimos dez anos de paz desgastaram seriamente as qualidades de luta dos dois caporegimes, Clemenza e Tessio. Clemenza ainda era um competente executor e administrador, porém lhe faltava a antiga energia ou a força juvenil para conduzir tropas. Tessio amolecera com a idade e não era bastante cruel. Tom Hagen, apesar de sua capacidade, simplesmente não era o tipo adequado para ser consigliori em tempo de guerra. Seu defeito principal era não ser siciliano.
Sonny Corleone reconhecia essas fraquezas na situação bélica da Família, mas não podia adotar medidas para remediá-las. Ele não era o Don e somente o Don podia substituir os caporegimes e o consigliori. Ademais, o próprio ato de substituição tomaria a situação mais perigosa, poderia precipitar alguma traição. A princípio, Sonny esperava ficar só na defensiva, até que Don Corleone completamente restabelecido pudesse assumir o comando; mas, com a deserção dos banqueiros políticos e a atemorização dos bookmakers, a posição da Família tomava-se precária. Então decidiu contra-atacar.
Foi direto ao coração do inimigo. Planejou a execução dos cabeças das cinco Famílias, numa grande manobra tática. Para atingi-los, pôs em execução um rigoroso sistema de vigilância dos líderes adversários. Uma semana após, os chefes inimigos prontamente mergulharam no subterrâneo e não foram mais vistos em público.
As cinco Famílias e o Império Corleone estavam num impasse.





Continua...





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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Lixo milionário!


R$ 18.000.000, sim, aproximadamente dezoito milhões de reais, é isso que irá custar um coletor de lixo. Onde está esse lixo tão caro? Em São Paulo? Em Nova York? Não, no espaço.

Cientistas suíços desenvolveram um satélite capaz se retirar a sujeira humana espacial que flutua sobre as nossas cabeças.

Cerca de 700 satélites ativos estão orbitando o planeta nesse momento nos enviando sinais de televisão, rádio e GPS. Porém, há chances de que a qualquer momento eles se choquem com destroços de velhas naves, obsoletos satélites abandonados ou peças perdidas nas estações espaciais. De acordo com as contas mais "otimistas" sobre o tema, existem mais de 16.000 detritos espaciais que podem cair em nossas cabeças a qualquer momento.

Mesmo um objeto minúsculo no espaço seria um problema. Uma vez em órbita, ele é pego pela atração magnética da Terra, e uma vez estabilidade em órbita, esse objeto gira na mesma velocidade, ou ainda maior, que o planeta, e nós, vocês devem saber, giramos a mais de mil quilômetros por hora. Como a Terra é grande, esse movimento parece pequeno. Mas não é.

Uma partícula do tamanho de um grão de areia, que pode atingir velocidades superiores a 14 mil km/h, pode efetivamente abrir um buraco de até três centímetros numa escotilha de espaçonave, que por sua vez pode trincar e romper-se na reentrada. E adivinha onde leva um casco rompido? Sim, ao temido, KABUM!

E a coisa não se resume apenas em objetos pequenos que só precisam de um empurrãozinho para queimar da atmosfera. Alguns objetos, como aquele caído no Estado de Goiás, em 2008 (foto a direita), mostra o lixo espacial pode ser realmente um sério perigo.

Infelizmente ainda existem vários senões. Um deles é o custo unitário do CleanSpaceOne. O projeto sozinho custou quase Vinte Milhões de Reais, e depois disso, cada unidade CleanSpace One custariam mais 11 milhões de reais. Ou seja, multiplique 11.000.000 milhões unitários pelos 16.000 objetos em órbita, e o resultado é a falência de qualquer país.

CleanSpaceOne não é a solução definitiva ao problema, mas é ao menos uma resposta. Esperamos que se encontrem de fato uma solução, antes que um objeto daqueles causem realmente um desastre.



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O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 16



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS



CAPÍTULO
16
  

C


ARLO RIZZI SENTIA-SE PROFUNDAMENTE MAGOADO. Uma vez casado com uma moça da Família Corleone, fora posto de lado com um pequeno negócio de bookmaker na Zona Leste de Manhattan. Estava contando com uma das casas na alameda de Long Beach, sabia que Don Corleone, quando quisesse, podia fazer mudar dali as famílias dependentes, e ele tinha certeza de que isso aconteceria e ficaria por dentro de tudo. Contudo, Don Corleone não o estava tratando corretamente. O “Grande Don”, pensava ele com desprezo. Um velho antiquado que se deixara surpreender por pistoleiros na rua, como qualquer bandido de terceira classe. Esperava que o velho salafrário esticasse a canela. Sonny fora seu amigo antigamente e, se se tornasse o chefe da Família, talvez ele, Rizzi, tivesse uma oportunidade, passasse a ficar por dentro.
Observava a sua mulher servir-lhe o café. Jesus Cristo, que coisa que ela se tornou! Cinco meses de casados, e ela já estava engordando barbaramente, além de bronquear noite e dia. lgualzinha a todas aquelas mulher italianas do bairro.
Rizzi estendeu o braço e passou a mão nas nádegas moles e enormes de Connie. Ela sorriu-lhe.
— Vocé está mais gorda do que uma porca — comentou ele desdenhosamente.
Sentia prazer em ver a mágoa estampada no rosto dela, e as lágrimas correrem-lhe dos olhos. Ela podia ser filha do Grande Don, mas era mulher dele, era sua propriedade agora, e podia tratá-la como quisesse. Sentia-se poderoso em pensar que um membro da Família Corleone era seu capacho.
Agora começava a subjugá-la. Connie tentara guardar para si mesma aquela bolsa cheia do dinheiro que recebeu como presente de casamento, mas ele lhe dera um bom soco no olho e lhe arrancara o dinheiro. Tampouco jamais dissera a ela o que tinha feito desse dinheiro. Na verdade, isso poderia ter-lhe causado alguma amolação. Mesmo agora, não sentia a mais leve ponta de remorso. Jesus Cristo, ele queimara quase quinze mil dólares nas corridas de cavalo e com as mulheres de cabarés.
Percebia que Connie olhava para as suas costas, por isso flexionou os músculos, quando estendeu o braço para alcançar o prato de pãezinhos doces colocado do outro lado da mesa. Acabara de devorar o seu presunto com ovos, mas era um homem grandão e precisava de um breakfast reforçado. Sentia-se satisfeito com a impressão que causava à mulher. Diferente do comum dos maridos carcamanos morenos e cozinheiros, era um tipo louro, de cabelo à escovinha, com enormes antebraços de pêlo louro, ombros largos e cintura estreita. Sabia que era fisicamente mais forte do que qualquer um daqueles sujeitos chamados duros que trabalhavam para a Famfiia. Tais como Clemenza, Tessio, Rocco Lampone e aquele cara Paulie que alguém tinha eliminado. Ele ignorava tudo a respeito dessa história. Depois, por um motivo qualquer, pensou em Sonny. De homem para homem, ele podia vencer Sonny, mesmo que o cunhado fosse um pouco maior e um pouco mais pesado do que ele. Porém, o que o amedrontava era a fama de Sonny, embora só estivesse acostumado a vê-lo como um rapaz bonachão e brincalhão. Sim, Sonny era seu “faixa”. Se Don Corleone batesse a bota, talvez as coisas melhorassem.
Tomava o café devagar e matutava. Detestava aquele apartamento. Estava acostumado com as moradias maiores da Zona Oeste e, daí a pouco, teria de atravessar a cidade para ir para o seu escritório de bookmaker, a fim de cuidar das apostas do meio-dia. Era domingo, o dia mais ativo da semana, com o beisebol já em ação, os times de basquetebol de segunda categoria e as corridas noturnas de cavalo. Gradualmente, percebeu Connie em grande atividade atrás dele e virou a cabeça para observá-la.
Estava vestindo-se daquele jeito tão vulgar de Nova York e que ele detestava. Um vestido de seda estampada com flores, cinto, pulseira e brincos espalhafatosos, mangas pregueadas. Parecia vinte anos mais velha.
— Diabo, onde vai você? — inquiriu ele.
— Ver meu pai em Long Beach — respondeu-lhe friamente — Ele ainda não pode sair da cama e precisa de companhia.
Carlo ficou curioso.
— Sonny ainda está dirigindo o espetáculo?
Connie lançou-lhe um olhar meigo.
— Que espetáculo?
Ele ficou furioso.
— Sua cadelinha carcamana nojenta, não fale comigo desse jeito, porque mato a portadas esse fedelho que você tem na barriga.
Ela olhou apavorada, e isso o enfureceu ainda mais. Carlo pulou da cadeira e esbofeteou-lhe o rosto, deixando-o com uma mancha vermelha. Com rapidez, deu-lhe mais três bofetadas. O lábio superior rachou sangrando e começou a inchar. Isso fê-lo parar. Não tencionava deixá-la marcada. Ela correu para o quarto, batendo com a porta. Ele ouviu a chave virar na fechadura, sorriu e voltou ao seu café.
Rizzi fumou até chegar a hora de se vestir. Bateu na porta dizendo:
— Abra-a antes que eu a derrube a pontapés.
Não houve resposta.
— Vamos, tenho de me vestir — disse ele em voz alta.
Ele ouviu a mulher levantar-se da cama e caminhar para a porta, depois a chave virar na fechadura. Quando entrou no quarto, Connie deu-lhe as costas, voltando para a cama e deitando-se com o rosto virado para o outro lado, para a parede.
Rizzi vestiu-se rapidamente e então reparou que ela estava de combinação. Queria que a mulher fosse visitar o pai e trouxesse informações a respeito da situação.
— Que é que há, algumas bofetadas lhe tiram toda a energia?
Connie era uma mulher preguiçosa.
— Não quero ir — respondeu chorosa, murmurando as palavras.
Rizzi estendeu o braço impacientemente e fê-la virar-se de frente para ele. E então compreendeu por que ela não queria ir e concordou que fosse muito bom mesmo que ela não saísse de casa.
Compreendeu que a esbofeteara com mais violência do que imaginara. Sua face esquerda estava deformada, o lábio superior grotescamente inchado e branco, embaixo do nariz.
— Muito bem — disse ele — Só chegarei em casa tarde. Domingo é o meu dia mais ocupado.
Ao deixar o apartamento, encontrou no seu carro um talão verde de multa de 15 dólares de estacionamento. Pôs o talão no porta-luvas, juntando o a uma pilha de outros. Estava de bom humor. Esbofetear de vez em quando a cadelinha mimada sempre lhe fazia bem. Consolava-o da frustração que sentia por ser tratado tão mal pelos Corleone.
A primeira vez que lhe fez uma marca, ficou um pouco preocupado. Ela fora diretamente a Long Beach para se queixar à mãe e ao pai e para mostrar o olho contundido. Ele realmente não devia ter procedido assim. Mas quando ela voltou estava surpreendentemente submissa, a obediente mulherzinha italiana. Rizzi fez questão de ser o marido perfeito, durante as semanas seguintes, tratando-a bem em todos os sentidos, sendo-lhe amoroso e gentil, trepando com ela todo dia, de manhã e de noite. Finalmente, Connie contou-lhe o que acontecera, julgando que o marido jamais procederia novamente daquele jeito.
Contou que achara os pais frios e indiferentes e ainda riram dela. A mãe demonstrara alguma pena, e até pedira ao pai que falasse com Carlo Rizzi. Mas o pai recusara.
— Ela é minha filha — retrucara — Mas agora pertence ao marido. Ele conhece o seu dever. Nem o rei da Itália se atreve a meter-se nas relações de marido e mulher. Vá para casa e aprenda a comportar-se de modo que ele não bata em você.
— Você já bateu em sua mulher? — indagou Connie zangada com o pai.
Era a sua filha preferida e podia falar com o pai nesse tom impertinente.
— Nunca ela me deu motivo para bater nela — respondeu-lhe.
E a mãe balançou a cabeça afirmativamente e sorriu.
Connie contou-lhe como o marido lhe havia tirado o dinheiro do presente de casamento e nunca lhe dissera o que fizera com ele. O pai deu de ombros.
— Eu teria feito o mesmo, se minha mulher fosse tão insolente como você — acrescentou o pai.
Assim, voltou para casa, tanto desnorteada quanto apavorada. Sempre fora a predileta do pai, e não podia compreender a frieza dele agora.
Entretanto, Don Corleone não foi tão indiferente como fingira. Mandou investigar, descobrindo o fim que Carlo Rizzi dera ao dinheiro do presente de casamento. Ele havia designado homens para trabalharem no negócio de bookmaker de Carlo Rizzi, os quais comunicariam a Hagen tudo o que ele fazia. Mas Don Corleone não podia intervir. Que se podia esperar de um homem que cumprisse seus deveres de esposo com uma mulher cuja família ele temesse? Era uma situação impossível e em que não se atrevia a meter-se. Quando Connie engravidou, convenceu-se do acerto de sua decisão e sentiu que nunca deveria intervir, embora Connie se queixasse à mãe de mais alguns bofetões que levava e a mãe se preocupava tanto, que contava a Don Corleone.
Connie chegou a insinuar que queria o divórcio. Pela primeira vez na vida de Connie, o pai se zangara com ela.
— Ele é o pai de seu filho. Como pode uma criança nascer nesse mundo se não tem pai? — perguntou a Connie.
Tomando conhecimento de tudo isso, Carlo Rizzi adquiriu mais confiança em si. Sentia-se perfeitamente seguro. De fato, ele se pavoneava entre seus “apontadores” de apostas, Sally Rags e Coach, da maneira como batia na mulher, quando ela o aborrecia, e percebia o olhar de respeito deles, ao saberem que ele tinha a coragem de maltratar a filha do grande Don Corleone.
Entretanto Rizzi não se sentiria tão seguro se soubesse que quando Sonny Corleone foi informado dessas surras, foi atacado de uma fúria assassina e só se conteve por causa da ordem enérgica e imperiosa do próprio Don Corleone, ordem que nem mesmo Sonny se atrevia a desobedecer. Era esse o motivo por que Sonny evitava Rizzi, pois não confiava muito em poder controlar o seu temperamento.
Assim, sentindo-se perfeitamente seguro nessa bela manhã de domingo, Carlo Rizzi cruzou velozmente a cidade, da Rua 96 para a zona Este. Ele não vi u o carro de Sonny vir do lado oposto na direção de sua casa.
Sonny Corleone deixara a proteção da alameda e passara a noite com Lucy Mancini na cidade. Agora, de volta para casa, estava acompanhado de quatro guarda-costas, dois na frente e dois atrás. Ele não precisava de guardas ao seu lado, podia encarregar-se de um simples ataque direto. Os outros homens andavam em seus próprios carros e tinham apartamentos em cada lado do apartamento de Lucy. Era seguro visitá-la, desde que ele não o fizesse com muita freqüência. Agora, que estava na cidade, pensou em apanhar a irmã Connie e levá-la a Long Beach. Sabia que Carlo devia estar trabalhando no seu “escritório” de bookmaker e o salafrário não arranjaria um carro para ela. Assim, daria uma carona à irmã.
Esperou os dois homens da frente entrarem no edifício, seguindo-os depois. Viu os dois homens de trás frearem o carro atrás do dele e saltarem para olhar as ruas. Sonny mantinha os seus próprios olhos bem abertos. Havia uma possibilidade enorme de que os adversários nem mesmo soubessem que ele estava na cidade, mas ele era sempre cauteloso. Aprendera isso na guerra de 1930.
Sonny nunca usava elevadores. Eram armadilhas mortais. Subiu os oito andares até o apartamento de Connie bem depressa. Bateu na porta dela. Vira o carro de Carlo afastar-se e sabia que a irmã estaria só. Não houve resposta. Bateu novamente e depois ouviu a voz apavorada e tímida.
— Quem é? — indagou Connie.
O pavor na voz da irmã espantou-o. A sua irmãzinha sempre fora viva e arrogante, dura como qualquer pessoa da família. Que diabo acontecera a ela?
— É Sonny — respondeu eles
O ferrolho de dentro moveu-se para trás, a porta se abriu e Connie se atirou em seus braços soluçando. Ele ficou tão surpreso, que permaneceu algum tempo ali parado. Afastou-a um pouco, viu o rosto dela inchado e compreendeu o que havia acontecido.
Desprendeu-se dela para descer correndo as escadas e ir atrás do marido. A raiva inflamou-o, contorcendo-lhe o rosto. Connie viu a raiva e agarrou-se a ele, não o deixando ir, fazendo-o entrar no apartamento. Agora, ela chorava de terror. Conhecia o temperamento do irmão mais velho e tinha medo. Nunca se queixara a ele, por esse motivo. Fê-lo então entrar no apartamento com ela.
— Foi culpa minha — disse — Comecei a brigar com Carlo e tentei bater nele e assim ele bateu em mim. Carlo de fato não queria bater em mim com tanta força. Eu fui em cima dele.
O rosto de cupido de Sonny controlou-se.
— Você vai ver o velho hoje? — ela não respondeu — Pensei que você fosse — acrescentou — Por isso passei aqui para lhe dar uma carona. Eu já estava na cidade.
Ela balançou a cabeça.
— Não quero que me vejam desse jeito. Vou na próxima semana.
— Está bem — respondeu Sonn
Ele pegou o telefone da cozinha e discou um número.
— Estou chamando um médico para vir aqui dar uma olhada e ver o que pode fazer por você. No seu estado, você precisa tomar cuidado. Quantos meses faltam para ter o filho?
— Dois meses — respondeu Connie — Sonny, por favor, não faça nada. Por favor, não faça.
Sonny deu uma gargalhada, mas seu rosto demonstrava claramente a sua intenção.
— Não se preocupe, não farei seu filho órfão antes de ele nascer — acrescentou.
Deixou o apartamento depois de beijá-la de leve na face incólume.
Na rua 112, da zona Este, uma longa fila de carros estava estacionada em linha dupla em frente de uma confeitaria que era a sede da banca de apostas de Carlo Rizzi. Na calçada em frente da confeitaria, pais brincavam de pegar bola com crianças pequenas que eles tinham trazido para passear na manhã de domingo e para fazer-lhes companhia, enquanto faziam suas apostas. Quando viram Carlo Rizzi aproximar-se, pararam de jogar bola e compraram sorvete para os guris, a fim de mantê-los quietos. Então, começaram a estudar os jornais que traziam os lançadores iniciais, procurando escolher as apostas de beisebol para o dia.
Carlo entrou na sala grande dos fundos da confeitaria. Seus dois “apontadores”, um sujeito pequeno e franzino chamado Saily Rags e um tipo forte chamado Coach, já estavam esperando para começar as suas atividades. Tinham seus enormes blocos pautados em frente deles prontos para apontar as apostas. Num cavalete de pau, estava um quadro-negro com os nomes das 16 equipes da divisão principal escritos a giz, dois a dois, para mostrar quem jogava contra quem. Junto a cada par de equipes havia um quadradozinho para se escrever a cotação.
— O telefone da confeitaria está interceptado hoje? — perguntou Carlo a Coach.
Coach balançou a cabeça.
— Não, o telefone continua a não estar interceptado.
Carlo foi até o telefone da parede e discou um número. Sally Rags e Coach observavam-no impassivamente, enquanto ele anotava os “informes”, a cotação de todos os jogos de beisebol programados para aquele dia. Observavam-no, enquanto ele desligava o telefone e se dirigia para o quadro-negro e escrevia a giz a cotação de cada jogo. Embora Carlo não soubesse, eles já ha viam obtido os “informes” e estavam conferindo o seu trabalho. Na primeira semana de sua atividade ali, Carlo cometera um erro ao transpor a cotação para o quadro-negro e criou o sonho de todos os jogadores, o “intermediário”. Isto é, apostando na cotação dele e depois apostando contra a mesma equipe noutro bookmaker na cotação certa, o jogador nunca podia perder. Só quem podia perder era a banca de Carlo. Esse erro causou um prejuízo de seis mil dólares à banca, durante a semana, e confirmou a opinião de Don Corleone sobre o seu genro, que dissera claramente que todo o trabalho de Carlo devia ser conferido.
Normalmente, os membros mais destacados na hierarquia da Família Corleone nunca se interessariam por um tal detalhe operacional. Essa cúpula ficava isolada, pelo menos cinco camadas acima dos demais membros. Todavia, como a banca estava funcionando a título de experiência no gênero, foi posta sob a fiscalização direta de Tom Hagen, que dela recebia um relatório diário.
Agora que os “informes” estavam anunciados, os jogadores apinhavam-se na sala dos fundos da confeitaria para anotar a cotação nos seus jornais, ao lado dos jogos publicados ali com lançadores prováveis. Alguns deles seguravam seus filhos pequenos pela mão, enquanto olhavam para o quadro-negro. Um sujeito que fazia grandes apostas olhou para a garotinha que segurava pela mão.
— De quem é que você gosta hoje, querida, dos Gigantes ou dos Piratas? — indagou à criança.
A garotinha, fascinada pelos nomes impressionantes, perguntou:
— Os Gigantes são mais fortes do que os Piratas?
O pai deu uma gargalhada.
Uma fila começou a se formar em frente dos dois apontadores. Quando um deles completava uma folha, arrancava-a e enrolava com ela o dinheiro que tinha recebido e a entregava a Carlo. Este passava pela saída dos fundos da sala e subia uma escada até o apartamento em que morava a família do próprio dono da confeitaria. Transmitia as apostas para a banca central e punha o dinheiro num pequeno cofre de parede escondido por uma extensa cortina de janela. Em seguida, descia para a confeitaria, depois de ter queimado a folha de apostas e lançado as cinzas no vaso sanitário, puxando a descarga.
Nenhum dos jogos de domingo começava antes das duas horas da tarde, devido às leis especiais referentes aos domingos; assim, após a primeira multidão de apostadores, chefes de família que tinham de fazer suas apostas e correr para casa para levá-la à praia, vinha o pinga-pinga dos solteiros ou dos tipos antiquados, que condenavam a família a passar o domingo em seu apartamento quente da cidade. Esses apostadores solteiros eram os maiores jogadores, apostavam mais alto e voltavam lá pelas quatro horas, para apostar no segundo jogo da partida dupla. Eram esses que faziam Carlo trabalhar durante um expediente inteiro aos domingos em horas extras, embora alguns casados telefonassem da praia para tentar recuperar o prejuízo.
Por volta de 1:30 da tarde, as apostas tinham diminuído tanto, que Carlo e Saily Rags puderam sair e sentar-se na varanda ao lado da confeitaria, a fim de tomar um pouco de ar fresco. Olhavam os meninos jogarem bola. Passou um carro da polícia. Nem tomaram conhecimento dele. Essa banca tinha uma proteção muito forte do distrito policial e não podia ser visitada por determinação de uma autoridade local. Uma batida tinha de ser ordenada pela cúpula e mesmo então devia haver um aviso com muita antecedência.
Coach também saiu, juntando-se aos outros dois. Bateram um papo sobre beisebol e mulheres.
— Tive de bater na mulher novamente hoje, para ensinar-lhe quem é que manda — contou Carlo, entre gargalhadas.
— Ela está com a barriga bem grande agora, não está? — interrompeu Coach casualmente.
— Ah, ah, eu apenas dei uns bofetões na cara dela — respondeu Carlo — Não a machuquei.
E pensou um momento.
— Ela acha que pode mandar em mim, não suporto isso.
Apareceram ainda uns apostadores soltando boatos, falando em beisebol, alguns deles sentando-se nos degraus acima dos dois apontadores e Carlo. De repente, os meninos que estavam jogando bola na rua se espalharam. Vinha um carro ruidosamente pelo quarteirão, freando em frente da confeitaria. Parou tão violentamente que os pneus gemeram e, antes que o carro quase parasse, um homem pulou do assento do motorista, movendo-se tão depressa que todo mundo ficou paralisado.
Era Sonny Corleone.
O seu rosto de cupido, carregado, com sua boca encurvada, grossa, era uma horrenda máscara de fúria. Numa fração de segundo, estava na varanda e tinha agarrado Carlo Rizzi pela garganta. Afastou-o dos outros, procurando arrastá-lo para a rua, mas este passou os seus enormes braços musculosos em torno do corrimão de ferro da varanda e pendurou-se aí. Encolheu-se todo, procurando esconder a cabeça e o rosto entre os ombros. Sua camisa rasgou-se na mão de Sonny.
O que se seguiu foi repugnante. Sonny começou a bater no acovardado Carlo com os punhos, xingando-o com uma voz grossa, abafada pela raiva. Carlo, apesar de seu enorme físico, não oferecia resistência, não soltava qualquer grito de misericórdia ou de protesto. Coach e Sally Rags não se atreviam a intervir. Pensavam que Sonny pretendia matar o cunhado e não tinham vontade de partilhar o seu destino. Os meninos que estavam jogando bola se reuniram para xingar o motorista que os fizera dispersar, mas agora estavam observando atemorizados. Eram garotos duros, mas aquela cena de Sonny em sua fúria fê-los calar. Entrementes, outro carro parou atrás do de Sonny e dois dos seus guarda-costas saltaram. Quando viram o que estava acontecendo, também não se atreveram a intervir. Mantiveram-se alerta, prontos para protegerem o chefe se algum espectador tivesse a estupidez de tentar ajudar Carlo.
O que tornou repugnante o espetáculo foi a completa submissão de Carlo, e talvez foi isso que lhe salvou a vida. Agarrou-se firmemente ao corrimão de ferro, de modo que Sonny não pôde arrastá-lo para a rua e, apesar de sua força equilibrar com a do cunhado, continuou a recusar-se reagir. Deixou que os golpes chovessem em sua cabeça e pescoço desprotegidos, até que o furor de Sonny passou. Finalmente, com o peito erguido, Sonny baixou os olhos para Carlo.
— Seu salafrário nojento, se você bater outra vez em minha irmã, eu o mato — arrematou.
Estas palavras baixaram a tensão. Porque, é claro, se Sonny quisesse matar Carlo, não teria pronunciado aquela ameaça. Fê-la frustrado, porque não podia executá-la. Carlo evitava olhar para Sonny. Mantinha a cabeça baixa e as mãos e os braços trançados no corrimão de ferro. Permaneceu assim, até que o carro zarpou ruidosamente e ele ouviu Coach dizer numa voz curiosamente paternal:
— Muito bem, Carlo, vamos entrar na confeitaria. Vamos sair da vista dessa gente.
Somente então, foi que Carlo se atreveu a sair de sua posição agachada contra os degraus de pedra da varanda e desembaraçou as mãos do corrimão. Pondo-se de pé, viu os meninos olharem para ele com ar repulsivo, espantado, de gente que tinha assistido à degradação de um semelhante. Sentia-se um pouco tonto, porém isso era mais devido ao choque e ao tremendo medo que se apoderara de seu corpo; não estava muito machucado, apesar da saraivada de golpes pesados recebidos. Deixou Coach levá-lo pelo braço para a sala dos fundos da confeitaria e colocar gelo no seu rosto, que, embora não estivesse cortado ou sangrando, apresentava-se cheio de equimoses e inchado. O medo estava passando agora e a humilhação que sofreu fê-lo passar mal do estômago, de modo que ele teve de vomitar. Coach segurou-lhe a cabeça sobre a pia, amparou-o como se ele estivesse embriagado, depois ajudou-o a subir até o apartamento e fê-lo deitar-se na cama de um dos quartos. Carlo não notara que Sally Rags desaparecera.
Saily Rags tinha ido até a Terceira Avenida e telefonara para Rocco Lampone informando-o do que acontecera. Rocco recebeu a notícia calmamente e, por sua vez, telefonou para o seu caporegime, Peter Clemenza, que gemeu e disse:
— Ó Cristo, esse maldito Sonny e seu gênio — mas o seu dedo prudentemente havia abaixado o gancho do telefone, para que Rocco não ouvisse as suas palavras.
Clemenza telefonou para a casa de Long Beach e chamou Tom Hagen. Este ouviu-o em silêncio por um momento.
— Mande alguns de seus homens e carros para a estrada de Long Beach o mais depressa possível — disse em seguida — Só para evitar que Sonny seja retido pelo tráfego ou por algum acidente. Quando ele fica irritado assim, não sabe que diabo está fazendo. Talvez alguns de nossos amigos do outro lado tenham conhecimento de que ele estava na cidade. Nunca se sabe.
— No momento em que eu puder apanhar alguém na estrada — respondeu Clemenza hesitante — Sonny estará em casa. Isso se refere aos Tattaglia também.
— Eu sei — respondeu Hagen pacientemente — Mas se acontecer algo de extraordinário, Sonny pode ser detido. Faça o que puder, Pete.
De má vontade, Clemenza telefonou para Rocco Lampone e disse-lhe para pegar alguns homens e carros e dar cobertura à estrada para Long Beach. Ele próprio apanhou o seu querido Cadillac e, com três pelotões dos guardas que agora guarneciam a sua casa, partiu pela ponte, da Atlantic Beach para Nova York.
Um dos indivíduos que se encontrava perto da confeitaria, um pequeno apostador que recebia dinheiro da Família Tattaglia como informante, chamou o contato que tinha com essa gente. Mas a Família Tattaglia ainda não estava aparelhada para a guerra, o contato teve de percorrer um longo caminho, através das camadas de isolamento, até finalmente chegar ao caporegime, que se comunicou com o chefe Tattaglia.
Nessa altura, Sonny Corleone já estava de volta e a salvo em sua alameda, na casa do pai, em Long Beach, prestes a enfrentar a ira do velho.





Continua...






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Frase Curiosa"Há apenas duas maneiras de obter sucesso neste mundo: pelas próprias habilidades ou pela incompetência alheia." Jean de La Bruyère

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 15



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS






LIVRO
IV




CAPÍTULO
15


N
A VILA DE NEW HAMPSHIRE, todo fenômeno estranho era devidamente percebido pelas donas-de-casa que espiavam das janelas, pelos comerciantes que se espreguiçavam por trás de suas portas. E assim, quando um automóvel preto com chapa de Nova York parou em frente da Casa Adams, todo cidadão teve conhecimento disso, em questão de minutos.
Kay Adams, na realidade uma garota provinciana, apesar de sua educação universitária, também espiava da janela do seu quarto. Estava estudando para os exames e preparava-se para descer para o almoço, quando avistou o carro subindo a rua, e por qualquer motivo não ficou surpresa, quando ele manobrou para parar em frente do gramado de sua casa. Dois homens grandes e fortes saltaram dele, os quais, para ela, pareciam gangsters do cinema. E Kay desceu correndo as escadas, a fim de ser a primeira pessoa a chegar à porta. Tinha certeza de que eles vinham da parte de Michael ou da família dele e não queria que falassem com seus pais sem apresentação. Não que tivesse vergonha de qualquer amigo de Mike, pensou; mas porque seus pais eram ianques antiquados da Nova Inglaterra e não iriam compreender como ela conhecia essa gente.
Chegou à porta justamente quando a campainha tocou, e foi logo gritando para a mãe:
— Eu vou atender.
Abriu a porta e viu os dois homens grandes lá postados. Um deles meteu a mão no bolso de dentro do paletó, como um gangster que vai puxar uma arma, e o gesto surpreendeu tanto Kay, que ela deixou escapar um pequeno suspiro, mas o homem só tirou do bolso uma carteirmha de couro que abriu, para mostrar o seu cartão de identidade.
— Sou o Detetive John Phillips do Departamento de Polícia de Nova York — disse ele, e apontando para o outro homem, um indivíduo de compleição morena e sobrancelhas cerradas muito pretas, apresentou — Este é meu colega, Detetive Siriani. A senhorita é Kay Adams? — Kay balançou a cabeça, confirmando — A senhorita permite que entremos — prosseguiu Phillips — Para falar-lhe por alguns minutos? É sobre Michael Corleone.
Ela se afastou, a fim de deixá-los entrar. Nesse momento, o pai dela apareceu no pequeno corredor lateral que dava para o seu gabinete particular.
— Kay, que é? — indagou.
Seu pai era um homem de cabelo grisalho, franzino, de aspecto distinto, que não somente era pastor da igreja batista da cidade, como também tinha a reputação nos círculos religiosos de um homem erudito. Kay realmente não conhecia bem o pai. Ele era uma incógnita para ela, mas sabia que ele a amava, mesmo que desse a impressão de que a achava desinteressante. Embora jamais tivessem sido íntimos, confiava nele. Assim, respondeu simplesmente:
— Estes homens são detetives de Nova York. Querem fazer-me algumas perguntas sobre um rapaz que eu conheço.
O Sr. Adams não pareceu surpreendido.
— Por que não vamos para o meu gabinete? — perguntou.
— Preferimos falar com a sua filha a sós, Sr. Adams — atalhou gentilmente o Detetive Phillips.
— Isto depende de Kay, penso eu — retrucou cortesmente o Sr. Adams — Minha querida, você quer falar com estes cavalheiros a sós, ou prefere ter-me presente? Ou talvez a sua mãe?
— Quero falar com eles a sós — falou a moça.
— Vocês podem usar o meu gabinete — disse o Sr. Adams a Philips — Ficarão para o almoço?
Os dois homens recusaram. Kay conduziu-os ao gabinete. Eles se instalaram incomodamente na beira do divã, enquanto ela escolheu a grande cadeira de couro do pai. O Detetive Phillips iniciou a conversação dizendo:
— Senhorita Adams, a senhorita viu ou teve alguma notícia de Michael Corleone durante as três últimas semanas?
Esta pergunta foi o suficiente para fazê-la compreender a situação. Há três semanas passadas, lera os jornais de Boston com suas manchetes, sobre o assassinato de um capitão da polícia de Nova York e um contrabandista de narcóticos chamado Virgil Sollozzo. Um jornal dissera que isso era um episódio da guerra entre quadrilhas, na qual estava metida a Família Corleone.
— Não — Kay balançou a cabeça — A última vez que o vi, ele ia ver o pai no hospital. Isso foi talvez há coisa de um mês.
— Sabemos tudo a respeito desse encontro — atalhou o outro detetive com voz áspera — A senhorita o viu, ou teve alguma notícia dele desde então?
— Não — respondeu Kay.
— Se a senhorita tem algum contato com ele — falou o Detetive Phillips com voz delicada — Nós gostaríamos de saber. É muito importante falarmos com Michael Corleone. Devo preveni-la de que se a senhorita entrar em contato com ele, poderá meter-se numa situação perigosa. Se a senhorita ajudá-lo de alguma forma, poderá complicar-se seriamente.
— Por que não devo ajudá-lo? — perguntou Kay, endireitando-se na cadeira — Nós vamos casar, gente casada ajuda uma a outra.
Foi o Detetive Siriani que respondeu a ela.
— Se a senhorita ajudá-lo, poderá ser acusada de cúmplice de crime. Estamos procurando o seu namorado porque ele matou um capitão da polícia de Nova York e mais um informante com quem o oficial da polícia estava conversando. Sabemos que foi Michael Corleone quem atirou neles.
Kay deu uma gargalhada, mas uma gargalhada tão espontânea, tão incrédula, que os policiais ficaram impressionados.
— Mike não faria uma coisa como essa — retrucou ela — Ele nunca teve nada em comum com a família. Quando fomos ao casamento da irmã dele, era evidente que ele era tratado como um estranho, quase com a mesma indiferença com que eu fui tratada. Se está escondido agora, é só para que não haja publicidade em torno dele, para que o seu nome não seja arrastado com tudo isso. Mike não é um gangster. Eu o conheço melhor do que vocês ou do que qualquer outra pessoa. É um rapaz muito distinto para fazer uma coisa tão desprezível como cometer um assassinato. É a pessoa mais respeitadora da lei que eu conheço, nunca soube que ele mentia.
— Há quanto tempo a senhorita o conhece? — indagou o Detetive Phillips gentilmente.
— Há mais de um ano — respondeu Kay, surpreendendo-se quando os dois homens sorriram.
— Acho que existem algumas coisas que a senhorita precisa saber — disse o Detetive Phillips. — Na noite em que ele deixou a senhorita, foi para o hospital. Quando saiu dali, teve uma discussão com um capitão da polícia que fora ao hospital, a serviço. Ele atacou esse oficial da polícia e levou a pior. De fato, ele sofreu uma fratura do maxilar e perdeu alguns dentes. Seus amigos levaram-no para a casa da Família Corleone, em Long Beach. Na noite seguinte, o capitão da polícia com quem ele brigara foi mortalmente baleado e Michael Corleone desapareceu. Sumiu. Temos os nossos contatos, os nossos informantes. Todos eles apontam Michael Corleone, mas não temos provas suficientes para um tribunal de justiça. O garçom que testemunhou os disparos não reconheceu um retrato de Mike, mas pode reconhecê-lo em pessoa. E temos o motorista de Sollozzo, que se recusa a falar, mas podemos fazê-lo falar se tivermos Michael Corleone em nosso poder. Assim, todo o nosso pessoal o está procurando, bem como o FBI e um mundo de gente. Até agora, não tivemos sorte. Desse modo, pensamos que talvez a senhorita fosse capaz de nos dar alguma pista.
— Não acredito numa palavra disso — acrescentou Kay friamente.
Porém, sentiu-se um tanto pesarosa, ao saber que a notícia de que Mike tivera o maxilar fraturado podia ser verdadeira. Não que isso pudesse levar Mike a cometer um assassinato.
— Promete nos comunicar se Mike entrar em contato com a senhorita? — inquiriu Philips.
Kay balançou a cabeça negativamente.
— Sabemos que vocês dois estiveram dormindo juntos — acrescentou grosseiramente o Detetive Siriani — Temos os registros dos hotéis e testemunhas. Se deixarmos essa informação chegar ao conhecimento dos jornais, seu pai e sua mãe se sentirão muito mal. Gente respeitável, como realmente é, eles não gostarão de saber que a filha andou dormindo com um gangster. Se a senhorita não falar a verdade agora mesmo, chamarei seu velho aqui e contarei tudo direitinho a ele.
Kay olhou para o detetive espantada. Em seguida, se levantou, foi até a porta do gabinete e abriu-a. Avistou o pai em pé à janela da sala de estar, fumando o seu cachimbo.
— Papai, você pode vir até aqui? — gritou ela então.
Ele virou-se, sorriu para ela e veio caminhando para o gabinete. Quando atravessou a porta, passou o braço em torno da cintura da filha e encarou os detetives dizendo:
— Às suas ordens, cavalheiros.
Vendo que ficaram mudos, Kay disse friamente ao Detetive Siriani:
— Conte tudo direitinho a ele, meu senhor.
Siriani ficou vermelho.
— Sr. Adams, vou contar-lhe isso, para o próprio bem de sua filha. Ela anda se misturando com um mau elemento que, temos motivo para acreditar, matou um oficial da polícia. Estou dizendo a ela que pode complicar-se seriamente se não cooperar conosco. Mas parece que ela não compreende como toda essa questão é séria. Talvez o senhor possa falar com ela.
— Isso é absolutamente inacreditável — respondeu o Sr. Adams delicado.
Siriani moveu o queixo.
— Sua filha e Michael Corleone têm saído juntos há mais de um ano. Têm pernoitado juntos em hotéis, registrados como marido e mulher. Michael Corleone está sendo procurado para ser interrogado sobre o assassinato de um oficial da polícia. Sua filha se recusa a nos dar qualquer informação que nos possa ajudar. Estes são os fatos. O senhor pode achá-los incríveis, mas posso provar tudo isso.
— Não duvido de sua palavra, cavalheiro — retrucou o Sr. Adams gentilmente — O que acho inacreditável é que minha filha possa estar seriamente complicada. A não ser que os senhores estejam sugerindo que ela é uma... — aqui o seu rosto adquiriu uma gravidade duvidosa — Uma “rameira”, acredito que é assim que se chama.
Kay olhou para o pai espantada. Sabia que ele estava brincando à sua maneira solene, e ficou surpresa ao notar que ele encarava a coisa toda de modo tão superficial.
— Contudo — acrescentou o Sr. Adams com firmeza — Podem ficar certos de que se esse rapaz aparecer por aqui, eu comunicarei imediatamente a sua presença às autoridades. Como fará também a minha filha. Agora, se os senhores nos perdoam, o almoço está esfriando.
Conduziu os homens para fora da casa, com toda a cortesia, e fechou a porta nas costas deles de modo gentil, mas com firmeza. Tomou Kay pelo braço e levou-a para a cozinha distante, situada nos fundos da casa.
—Venha, querida, sua mãe está servindo o nosso almoço.
Quando chegaram à cozinha, Kay estava chorando silenciosamente, para aliviar-se da tensão, ante a demonstração de afeto incondicional do pai. Na cozinha, a mãe não tomou conhecimento do seu choro, e Kay compreendeu que o pai devia ter-lhe falado a respeito dos dois detetives. Sentou-se no seu lugar e a mãe a serviu em silêncio. Quando os três estavam à mesa, o pai pronunciou a sua rápida oração de graças com a cabeça abaixada.
A Sra. Adams era uma mulher baixa e robusta, sempre bem vestida, e com o cabelo sempre penteado. Kay nunca a vira desalinhada. A mãe também sempre estivera um tanto desinteressada por ela, mantendo-a a certa distância. E assim o fazia agora.
— Kay, deixe de ser tão trágica. Tenho certeza de que tudo não passa de muito espalhafato em torno de nada. Afinal de contas, o rapaz estava freqüentando Dartmouth, não podia estar metido em coisas tão sórdidas.
Kay levantou os olhos para a mãe com surpresa.
— Como é que você sabia que Mike freqüentava Dartmouth? — indagou.
— Vocês jovens são tão misteriosos — respondeu a mãe com complacência — E pensam que são muito espertos. Sabíamos do seu romance com ele durante todo o tempo, mas naturalmente não podíamos falar nisso, enquanto você não tocasse no assunto.
— Mas como vocês souberam? — perguntou Kay.
Não podia encarar o pai, agora que ele sabia que ela e Mike dormiram juntos. Assim, não o viu sorrir quando ele disse:
— Abrimos as suas cartas, naturalmente.
Kay ficou horrorizada e aborrecida. Agora ela podia encará-lo. O que ele fizera era mais vergonhoso do que o próprio pecado dela. Nunca poderia esperar isso dele.
— Papai, você não fez, você não podia ter feito.
O Sr. Adams sorriu para ela.
— Debati comigo mesmo qual era o maior pecado: abrir as suas cartas ou ignorar algum perigo que a minha única filha poderia estar correndo. A escolha foi simples, e virtuosa.
A Sra. Adams disse entre garfadas de galinha cozida:
— Afinal de contas, querida, você é extremamente inocente para a sua idade. Tivemos de ficar alerta. E você nunca falou sobre ele.
Pela primeira vez, Kay ficou satisfeita porque Michael nunca fora carinhoso em suas cartas, E mais contente ainda porque os pais não tinham visto as cartas dela.
— Nunca falei a vocês sobre ele, porque pensei que vocês ficariam horrorizados com a família dele.
— Nós ficamos — respondeu o Sr. Adams cordialmente — A propósito, Michael entrou em contato com você?
Kay balançou a cabeça.
— Não acredito que ele seja culpado de coisa alguma.
Percebeu os pais trocarem um olhar.
— Se ele não é culpado e sumiu — disse gentilmente em seguida o Sr. Adams — Então talvez alguma coisa deve ter acontecido a ele.
A princípio, Kay não entendeu. Depois levantou-se da mesa e correu para o quarto.
Três dias depois, Kay Adams saltou de um táxi em frente da alameda dos Corleone, em Long Beach. Ela telefonara e estava sendo esperada. Tom Hagen foi recebê-la na porta, e ela ficou decepcionada por ter sido ele. Sabia que Tom nada contaria a ela.
Na sala de estar, ofereceu-lhe uma bebida. Ela vira dois homens rondando a casa, mas não Sonny. Perguntou diretamente a Hagen:
— Você sabe onde Mike está? Sabe onde posso entrar em contato com ele?
Hagen respondeu calmamente:
— Sabemos que está bem, mas não sabemos seu paradeiro. Quando soube que aquele capitão tinha sido mortalmente baleado, teve medo de que o acusassem. Assim, resolveu desaparecer. Falou-me que entrará em contato comigo dentro de alguns meses.
A história não somente era falsa, como também significava que devia ser aceita.
— O capitão de fato quebrou a cara de Mike? — perguntou Kay.
— Infelizmente isso é verdade — respondeu Tom — Mas Mike nunca foi vingativo. Tenho certeza de que isso nada teve a ver com o que aconteceu.
Kay abriu a bolsa e tirou uma carta.
— Quer entregar-lhe isto, se ele entrar em contato com você?
Hagen balançou a cabeça negativamente.
— Se eu recebesse esta carta e você dissesse a um tribunal de justiça que eu a aceitei, isso poderia ser interpretado que eu sabia de sua localização. Por que você não espera um pouco? Tenho certeza de que Mike entrará em contato com você.
Kay acabou de beber e levantou-se para partir. Hagen acompanhou-a até o corredor de saída, mas quando ele abriu a porta, uma mulher entrou. Era uma mulher baixa e robusta, vestida de preto. Kay reconheceu-a como a mãe de Michael.
— Como vai, Senhora Corleone? — perguntou Kay, estendendo-lhe a mão.
Os pequenos olhos pretos da mulher fixaram-se sobre ela por um momento, depois o rosto enrugado, duro, esverdeado abriu-se num sorriso rápido de saudação que, contudo, era de alguma forma curiosa e verdadeiramente amistosa.
— Ah, você é a pequena de Mike — disse a Sra. Corleone. Ela tinha um sotaque italiano carregado, e Kay mal podia compreendê-la — Você come alguma coisa?
Kay respondeu que não, querendo dizer que não queria comer nada. Então, a Sra. Corleone virou-se furiosamente para Tom Hagen e ralhou com ele em italiano, terminando assim:
— Você não serviu café a essa pobre moça, seu disgraziato.
Pegou Kay pela mão e conduziu-a para a cozinha. A mão da senhora Corleone estava surpreendentemente quente e vigorosa.
— Tome café e coma alguma coisa, depois alguém a levará para casa. Não quero que uma garota distinta como você apanhe o trem.
Fez Kay sentar-se e começou a movimentar-se afobadamente na cozinha, arrancando violentamente o capote e o chapéu, pendurando-os numa cadeira. Em poucos segundos havia pão, queijo e salame na mesa e café no fogão.
— Vim pedir notícias de Mike — falou Kay timidamente — Não sei onde ele está. O Sr Hagen disse que ninguém sabe seu paradeiro, mas que ele vai aparecer dentro de pouco tempo.
— Isso é tudo o que podemos dizer a ela agora, mamãe — atalhou rapidamente Hagen.
A Sra. Corleone lançou-lhe um olhar de fulminante desprezo.
— Agora você vai-me dizer o que fazer? Meu marido não me diz o que fazer, Deus tenha misericórdia dele.
Ela persignou-se.
— O Sr. Corleone está passando bem? — perguntou Kay.
— Muito bem — respondeu a Sra. Corleone — Muito bem. Ele está ficando velho e muito bobo, para deixar que uma coisa como essa aconteça.
Ela bateu na cabeça da moça com intimidade. Serviu o café e obrigou Kay a comer pão com queijo. Depois de beberem café, a Sra. Corleone tomou a mão de Kay entre suas mãos morenas, e falou tranqüilamente:
— Mike não vai escrever-lhe, você não vai ter notícias de Mike. Ele vai ficar escondido uns dois ou três anos. Talvez mais... talvez muito mais. Volte para a casa de sua família e procure um bom rapaz e case-se.
— A senhora pode mandar entregar isso a ele? — perguntou Kay tirando a carta da bolsa.
A Sra. Corleone pegou a carta e deu um tapinha na face de Kay.
— Certamente, certamente — respondeu ela.
Hagen começou a protestar e ela gritou com ele em italiano. Depois ela levou Kay até a porta.
— Esqueça Mike, ele não é mais o homem que lhe serve — falou depressa, beijando-lhe o rosto.
Havia um carro esperando por ela, com dois homens em pé na frente.
Conduziram-na até o hotel em Nova York, sem pronunciar uma só palavra.
O mesmo fez Kay. Procurava acostumar-se à idéia de que o rapaz que amava era um frio assassino. E isso lhe fora revelado pela fonte mais indiscutível: a mãe dele.





Continua... 






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Frase Curiosa"Há apenas duas maneiras de obter sucesso neste mundo: pelas próprias habilidades ou pela incompetência alheia." Jean de La Bruyère