terça-feira, 13 de março de 2012

O PODEROSO CHEFÃO - CAPÍTULO 30



CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 14 ANOS


 


LIVRO
VIII




CAPÍTULO
30


A
LBERT NERI estava sentado em seu apartamento do Bronx escovando cuidadosamente o seu antigo uniforme de sarja azul de policial. Tirou o distintivo e o pôs em cima da mesa para poli-lo. O coldre e o revólver regulamentares estavam colocados em cima de uma cadeira. Essa antiga e minuciosa rotina fazia-o feliz de um modo estranho, era uma das poucas vezes em que ele sentia satisfação desde que a mulher o abandonara, há quase dois anos.
Ele casara com Rita quando ela era ainda aluna do curso secundário e ele um policial recruta. Ela era tímida, tinha cabelo escuro e pertencia a uma família de italianos puritanos que nunca a deixara ficar na rua depois das dez horas da noite. Neri se achava completamente apaixonado por ela, por sua inocência, por sua virtude, como também por sua beleza morena.
A princípio, Rita estava fascinada pelo marido. Ele era imensamente forte e ela via muita gente ter medo dele por causa de sua força e de sua atitude inflexível quanto ao que era certo e errado. Raramente ele era habilidoso. Se discordava da atitude de um grupo ou da opinião de um indivíduo, conservava a boca fechada ou externava grosseiramente a sua discordância. Jamais apresentava um assentimento cortês. Tinha também um temperamento verdadeiramente siciliano e os seus acessos fúria eram terríveis. Mas nunca se zangava com a esposa.
Neri no espaço de cinco anos se tornara um dos policiais mais temidos da corporação da cidade de Nova York. Também um dos mais honestos. Mas tinha os seus meios próprios de cumprir a lei. Ele detestava delinqüentes juvenis e quando via um grupo de rapazes desordeiros promovendo agitação na rua, à noite, perturbando os transeuntes, ele tomava uma atitude rápida e decisiva. Empregava sua força física verdadeiramente extraordinária, o que ele próprio não apreciava totalmente.
Uma noite, no Central Park, ele saltou do carro-patrulha e deteve seis rapazes de jaqueta de seda preta. O seu companheiro ficou no assento do motorista, não querendo envolver-se, conhecendo Neri. Os rapazes, todos eles já beirando os vinte anos, estavam parando as pessoas para pedir cigarro de modo ameaçador, mas sem causar realmente qualquer mal físico a ninguém. Aborreciam também as garotas que passavam, fazendo um gesto obsceno mais francês do que americano.
Neri os enfileirou no muro de pedra que separa o Central Park da Oitava Avenida. Era a hora crepuscular, mas Neri levava consigo a sua arma preferida, uma enorme lanterna. Ele nunca se preocupava em puxar o revólver; nunca era necessário. O seu rosto, quando se zangava, era tão ameaçador, combinado com seu uniforme, que os rapazes em geral se acovardavam. Esses não foram exceção.
Neri perguntou ao primeiro rapaz de jaqueta de seda preta:
— Como é seu nome?
O rapaz em resposta deu um nome irlandês.
— Saia da rua — ordenou ao rapaz — Se eu o encontrar novamente esta noite, você se arrependerá.
Ele fez sinal com a lanterna e o rapaz se afastou a passos rápidos. Neri seguiu o mesmo processo com os dois rapazes seguintes, deixando-os ir em seguida. Mas o quarto rapaz deu um nome italiano e sorriu para Neri como que para invocar certo parentesco. Neri era indiscutivelmente de descendência italiana. Neri olhou para o rapaz por um momento e perguntou:
— Você é italiano?
O rapaz sorriu confiantemente.
Neri vibrou-lhe uma pancada violenta na testa com a lanterna, fazendo-o cair de joelhos. A pele da testa do rapaz se abriu e o sangue começou a jorrar-lhe pelo rosto. Mas era apenas um ferimento superficial. Neri disse-lhe asperamente:
— Você, seu filho da pula, é uma vergonha para os italianos. Você difama todos nós. Ponha-se de pé.
Deu um pontapé na anca do rapaz, nem muito fraco, nem muito forte:
— Vá para casa e não fique na rua. Que eu também não o apanhe mais usando essa jaqueta. Eu o mandarei para o hospital. Agora vá para casa. Você está com sorte por eu não ser seu pai.
Neri nem se incomodou com os outros dois rapazes. Apenas deu-lhes um pontapé nas nádegas, enxotando-os e dizendo-lhes que não os queria ver mais na rua aquela noite.
Em tais encontros, tudo era feito com tamanha rapidez que não havia tempo para que juntasse gente ou para que alguém protestasse contra as atitudes do policial. Neri entrava logo no carro-patrulha e o seu companheiro arrancava imediatamente Ë claro que de vez em quando apareciam sujeitos valentes que queriam brigar e às vezes até puxavam faca. Coitados deles! Neri, agindo rapidamente com terrível ferocidade, batia neles impiedosamente jogava-os dentro do carro-patrulha. Eles recebiam voz de prisão sob a acusação de agressão a uma autoridade policial. Mas geralmente só iam para a cadeia algum tempo depois, isto é, após saírem do hospital.
Finalmente, Neri foi transferido para a zona em que se encontrava o edifício das Nações Unidas, principalmente porque faltou com o devido respeito ao sargento de seu distrito O pessoal das Nações Unidas, com sua imunidade diplomática, estacionava suas limusines em todas as ruas sem qualquer obediência aos regulamentos do trânsito. Neri deu queixa no distrito policial e disseram-lhe para não fazer onda, que não tomasse conhecimento do fato. Mas uma noite aconteceu que uma rua lateral ficou intransitável devido aos automóveis negligentemente estacionados. Já passava da meia-noite, por conseguinte Neri tirou sua enorme lanterna do carro-patrulha e foi rua abaixo reduzindo pára-brisas a estilhaços. Não era fácil, mesmo para diplomatas de alto posto, ter os pára-brisas consertados rapidamente, tinham de esperar alguns dias. Choveram protestos no distrito policial exigindo providência contra esse ato de vandalismo. Depois de uma semana de quebra-quebra de pára-brisas, a verdade sobre o que estava realmente acontecendo chegou ao conhecimento de uma autoridade superior e Albert Neri foi transferido para o Harlem.
Num domingo, pouco tempo depois, Neri, acompanhado da esposa, foi visitar a irmã viúva no Brooklyn. Albert Neri tinha pela irmã a profunda afeição protetora comum a todos os sicilianos e sempre a visitava pelo menos uma vez em cada dois meses para se assegurar de que ela estava bem. Ela era muito mais velha do que ele e tinha um filho de 20 anos de idade. O rapaz, de nome Thomas, sem a autoridade paterna, estava dando aborrecimentos. Tinha-se metido em algumas pequenas enrascadas, e estava ficando um pouco selvagem. Neri certa vez usara os seus contatos na organização policial para livrar o rapaz da acusação de furto. Nessa ocasião, ele conseguira controlar a sua raiva, mas avisou ao sobrinho:
— Tommy, se você fizer sua mãe chorar novamente por sua causa, quem vai ajustar contas com você sou eu.
Isso, porém, foi dito num tom de tio camarada, não constituindo realmente uma ameaça. Mas, mesmo sendo Tommy o pior elemento de todos os rapazes daquela zona “braba” do Brooklyn, ele tinha medo do tio Al.
Por ocasião dessa visita, Tommy chegara em casa muito tarde da noite de sábado e estava ainda dormindo em seu quarto. A mãe fora acordá-lo, dizendo que se vestisse para fazer a refeição domingueira em companhia do tio e da tia. A voz do rapaz fez-se ouvir asperamente através da porta do quarto parcialmente aberta:
— Que se danem, deixem-me dormir!
E a mãe voltou para a cozinha rindo e desculpando-se.
Assim tiveram de fazer a refeição sem ele. Neri perguntou à irmã se Tommy estava causando-lhe algum aborrecimento, e ela balançou a cabeça.
Neri e a mulher estavam quase para ir embora quando Tommy finalmente se levantou. Ele mal pronunciou um “olá” e foi para a cozinha. Finalmente gritou de lá para a mãe:
— Alô, mãe, quer preparar alguma coisa para eu comer?
Mas não era um pedido. Era a queixa manhosa de uma criança mimada.
A mãe respondeu estridentemente:
— Levante-se na hora da refeição para poder comer. Não vou cozinhar novamente só para você.
Era o tipo da cena horrorosa, aliás muito comum, mas Tommy ainda um pouco irritado do seu sono cometeu um erro.
— Ah, então, foda-se você e o seu mau humor, eu vou sair e comer lá fora!
Tão logo disse isso, Tommy se arrependeu.
O tio Al pulou sobre ele como um gato em cima de um rato. Não tanto pelo insulto à irmã naquele dia especial, mas porque era evidente que ele freqüentemente falava com a mãe daquele jeito quando os dois estavam a sós. Tommy nunca se atrevia a dizer tal coisa na presença do irmão da mãe. Mas naquele domingo ele se distraiu. Azar dele.
Ante os olhos apavorados das duas mulheres, Al Neri deu no sobrinho uma tremenda surra cautelosa e impiedosa. A princípio, o rapaz fez uma tentativa para se defender, mas logo desistiu e pediu misericórdia. Neri esbofeteou-lhe o rosto até que os seus lábios ficaram inchados e sangrando. Sacudiu a cabeça do rapaz para trás e jogou-o de encontro à parede. Socou-lhe o estômago, depois deitou-o de bruços no chão e bateu-lhe com o rosto no tapete. Pediu às duas mulheres que esperassem e fez Tommy descer para a rua e entrar em seu carro. Então, disse o diabo ao rapaz.
— Se a minha irmã alguma vez me contar que você falou com ela novamente desse jeito, a surra que você levou hoje vai parecer uns beijinhos de mulher — avisou a Tommy — Quero ver você proceder como gente. Agora suba para casa e diga à minha mulher que estou esperando por ela.
Foi dois meses depois disso que Al Neri voltou para casa de um trabalho até tarde da noite na polícia e verificou que a mulher o tinha abandonado. Ela havia arrumado todas as suas coisas e retornado para a casa da família. O pai dela informou-o que Rita tinha medo dele, que tinha medo de viver com ele por causa do seu gênio. Al ficou assombrado e não acreditou. Nunca batera na mulher, nunca a ameaçara de forma alguma, nunca sentira outra coisa a não ser amor por ela. Mas ficou tão atordoado com a atitude da esposa que resolveu deixar passar alguns dias para ir até a casa da família dela para falar com a mulher.
Deu azar porque na noite seguinte ele teve uma complicação no seu turno de trabalho, O carro dele recebeu um chamado do Harlem, uma comunicação de um assalto com morte. Como de costume, Neri saltou do carro-patrulha ainda em movimento. Já passava da meia-noite e ele levava a sua enorme lanterna. Foi fácil localizar a ocorrência. Havia uma multidão reunida do lado de fora da porta de uma casa de cômodos. Uma preta disse a Neri:
— Há um homem aí cortando uma mocinha.
Neri entrou no corredor. Havia uma porta aberta lá no fundo com a luz muito fraca e ele ouviu alguém gemendo. Ainda segurando a lanterna, foi andando pelo corredor e atravessou a porta aberta.
Quase caiu quando tropeçou em dois corpos estirados no chão. Um era de uma moça preta de cerca de 25 anos de idade. O outro era de uma menina preta que não tinha mais de 12. Ambas estavam sangrando de cortes de navalha no rosto e no corpo. Na sala da frente, Neri viu o homem responsável pelo crime. Ele o conhecia bem.
O homem era Wax Baines, um conhecido cafetão, traficante de entorpecentes e valentão. Seus olhos estavam inchados, sob o efeito de entorpecentes; a faca ensangüentada que ele segurava na mão balançava. Neri o prendera duas semanas antes por agredir violentamente uma de suas prostitutas na rua. Baines lhe dissera:
— Escute, homem, você não tem nada com isso aqui.
E o companheiro de Neri também falara algo a respeito de deixar os pretos se cortarem uns aos outros, se assim o desejassem, mas Neri arrastou Baines para o distrito. Logo no dia seguinte, Baines foi solto sob fiança.
Neri jamais gostara de pretos, e trabalhar no Harlem o fez gostar ainda menos deles. Os pretos viviam tomando entorpecentes ou se embriagando enquanto as mulheres trabalhavam ou pegavam homem. Ele não tinha a menor consideração por qualquer desses salafrários. Assim a descarada infração da lei cometida por Baines o enfureceu. E a visão da menina toda cortada a navalha deixou-o doente. Completamente frio, em seu próprio íntimo, ele resolvera não levá-lo preso.
Mas as testemunhas já se estavam aglomerando no apartamento atrás dele, algumas pessoas que viviam no prédio e o seu companheiro do carro-patrulha.
— Largue essa faca, você esta preso! — ordenou Neri.
Baines deu uma gargalhada.
— Homem, você vai ter de usar o seu revólver para me prender — levantou a faca e falou: — Ou talvez você queira isso!
Neri moveu-se muito depressa para que o seu companheiro não tivesse tempo de puxar o revólver. O preto atacou com a faca, mas os reflexos extraordinários de Neri permitiram-lhe aparar o golpe com a palma da mão esquerda. Com a mão direita, vibrou a lanterna descrevendo um semicírculo no ar. O golpe pegou na parte lateral da cabeça de Baines e o fez dobrar-se sobre os joelhos comicamente como se estivesse bêbedo. A faca caiu-lhe da mão. Ele estava completamente indefeso. Portanto, o segundo golpe foi indesculpável, como o inquérito do departamento de polícia e o julgamento a que Neri foi posteriormente submetido provaram com o auxilio do testemunho das pessoas ali presentes e do seu companheiro da polícia. Neri baixou a lanterna no alto do crânio de Baines com uma violência incrível que fez esmigalhar o vidro; o escudo de esmalte e a própria lâmpada despregaram-se da lanterna e voaram pelo quarto. O pesado cilindro de alumínio do corpo da lanterna envergou e só as pilhas em seu interior impediram-no de se dobrar sobre si mesmo. Um observador horrorizado, um preto que morava no prédio e que mais tarde depôs contra Neri, comentou:
— Homem, que negro de cabeça dura!
Mas a cabeça de Baines não era tão dura assim. O golpe atingiu-lhe violentamente o crânio. Ele morreu duas horas depois no hospital do Harlem.
Albert Neri foi a única pessoa a ficar surpresa quando abriram inquérito no Departamento de Polícia para apurar as acusações contra ele de usar força excessiva. Foi suspenso de suas funções, sendo apresentadas acusações criminais contra ele. Depois de indiciado por homicídio, foi condenado à pena de um a dez anos de prisão. Naquela época, ele estava tão cheio de fúria frustrada e ódio contra toda a sociedade que não ligava para nada. Ousaram julgá-lo como um criminoso! Ousaram mandá-lo para a prisão por matar um animal como aquele preto cafetão! Não deram a menor importância à mulher e à menina que tinham sido talhadas a navalha, desfiguradas para o resto da vida, e que ainda se encontravam no hospital.
Ele não tinha medo da prisão. Sentia que, em virtude de ter sido um policial e especialmente em virtude da natureza de seu delito, seria bem tratado. Diversos colegas da polícia já lhe tinham garantido que falariam com os amigos. Somente o pai de sua mulher, um astuto italiano antiquado que possuía um mercado de peixe no Bronx, compreendia que um homem como Albert Neri tinha pouca possibilidade de sobreviver um ano atrás das grades. Um dos seus companheiros de prisão o mataria; se não era quase certo que ele mataria um deles. Sentindo-se responsável por ter sua filha abandonado um bom marido por alguma bobagem de mulher, o sogro de Neri recorreu aos seus contatos com a Família Corleone (ele pagava um tributo de proteção a um de seus representantes e fornecia à própria família Corleone o melhor peixe disponível, a título de presente), e pediu a intervenção da Família.
A Família Corleone conhecia Albert Neri. Ele era algo como uma lenda na sua qualidade de polícia legalmente duro; adquirira certa fama como um homem com quem não era fácil de lidar, como um homem que podia inspirar medo por sua própria pessoa, independentemente do uniforme e do revólver autorizado que ele usava. A Família Corleone sempre se interessava por tais homens. O fato de ser ele um policial não significava grande coisa. Muitos rapazes começavam trilhando uma trajetória falsa para chegar ao seu verdadeiro destino. O tempo e a sorte geralmente o punham no caminho certo.
Foi Pete Clemenza, com seu faro agudo para gente boa, que levou o caso de Neri ao conhecimento de Tom Hagen. Este estudou a cópia do dossiê oficial da polícia e ouviu Clemenza.
— Talvez tenhamos outro Luca Brasi aqui — comentou ele.
Clemenza acenou vigorosamente com a cabeça. Embora ele fosse muito gordo, o seu rosto nada tinha da usual bonacheirice do homem robusto.
— Penso exatamente assim. O próprio Mike devia cuidar disso.
E foi assim que, antes de Albert Neri ser transferido da prisão provisória para o que seria a sua residência permanente no interior do Estado, foi informado de que o juiz reconsiderara o seu caso com base em novas informações e depoimentos apresentados por altos funcionários da polícia. A sua sentença foi suspensa e ele foi solto.
Albert Neri não era bobo nem o seu sogro era tão altruísta. Neri soube do que acontecera e pagou a dívida ao sogro, concordando em se divorciar de Rita. Depois fez uma viagem até Long Beach para agradecer a seu benfeitor. Tudo foi combinado de antemão, é claro. Michael recebeu-o em sua biblioteca.
— Diabo, eu não podia deixar que se fizesse isso com um patrício siciliano — declarou Michael — Deviam dar-lhe era uma boa medalha. Mas esses malditos políticos não ligam para nada a não ser grupos de pressão. Escute, eu não teria dado um passo nesse negócio, se não tivesse apurado tudo direitinho e verificado que injustiça lhe fizeram. Um dos meus homens falou com sua irmã e ela nos contou como você estava sempre preocupado com ela e com o filho dela, como você deu uma lição no garoto, para evitar que ele se tornasse um mau elemento. O seu sogro diz que você é o sujeito mais formidável do mundo. Isso é uma coisa rara.
O habilidoso Michael nada mencionou a respeito de ter a mulher de Neri o abandonado.
Bateram um papo demorado Neri sempre fora um homem taciturno, mas de repente se abriu todo com Michael Corleone. Michael tinha apenas mais uns cinco anos de idade do que ele, mas Neri falava como se Michael fosse muito mais velho, bastante mais velho para ser seu pai.
— Não tem cabimento tirar você da prisão e depois deixá-lo ao deus-dará — disse Michael finalmente — Posso arranjar um trabalho para você. Tenho interesses em Las Vegas; com a sua experiência, você podia ser agente de segurança num hotel. Ou se pretende entrar em algum negócio pequeno, posso falar com os bancos para lhe fornecerem um empréstimo.
Neri ficou totalmente embaraçado com tamanha gentileza. Recusou a oferta orgulhosamente e depois acrescentou:
— Tenho de ficar, contudo, sob a jurisdição do tribunal em virtude do sursis que me concederam.
Michael retrucou animadamente:
— Tudo isso são detalhes sem importância, posso arranjar as coisas. Esqueça essa supervisão, e para que os bancos não se tornem muito exigentes, vou mandar limpar a sua folha amarela.
A folha amarela era um registro policial dos delitos criminais cometidos por um indivíduo. Geralmente era submetida a um juiz, quando ele estava considerando a sentença que daria a um criminoso condenado. Neri estivera bastante tempo na organização policial para saber que muitos criminosos aguardando sentença eram tratados indulgentemente pelo juiz porque uma folha amarela limpa fora apresentada pelo funcionário subornado do Departamento de Cadastros da Polícia. Portanto, não ficou surpreso ao saber que Michael Corleone pudesse fazer tal coisa; ficou, porém, surpreso ao verificar que tal providência seria tomada em seu favor.
— Se eu precisar de ajuda, procurarei entrar em contato com vocês — disse Neri.
— Ótimo, ótimo — respondeu Michael.
Ele olhou para o seu relógio, e Neri interpretou isso como uma despedida. Levantou-se para ir embora. Mas ficou novamente surpreso.
— Está na hora do almoço — disse Michael — Venha comer comigo e minha família. Meu pai disse que gostaria de conhecê-lo. Vamos até a casa dele. Minha mãe deve ter algum pimentão frito, ovos e salsichas. À moda realmente siciliana.
Aquela tarde foi a mais agradável que Albert Neri.teve desde o seu tempo de menino, desde o tempo anterior à morte dos pais quando tinha apenas 15 anos de idade. Don Corleone estava no máximo de sua amabilidade e ficou satisfeitíssimo quando descobriu que os pais de Neri tinham vindo originalmente de uma pequena aldeia situada a poucos quilômetros apenas da própria aldeia dele. A conversa foi agradável, a comida deliciosa, e o vinho de excelente qualidade. Neri teve então a idéia de que estava finalmente entre a sua própria gente. Compreendia que era apenas um convidado casual, mas sabia que podia encontrar um lugar permanente e ser feliz em tal mundo.
Michael e o Don acompanharam-no até o seu carro. Don Corleone apertou-lhe a mão e disse:
— Você é um bom sujeito. Estive ensinando ao meu filho Michael aqui o negócio de azeite, estou ficando velho, quero me aposentar. E ele vem a mim e diz que quer cuidar de seu pequeno caso. Eu lhe respondo que trate apenas de aprender o negócio de azeite. Mas Michael não me deixa em paz. Ele diz, temos aqui um bom sujeito, um siciliano, e estão fazendo uma sacanagem com ele. Ele continua, não me dá sossego enquanto não começo a me interessar pelo caso. Estou-lhe contando isso para lhe dizer que ele tinha razão. Agora que o conheci, estou contente por havermos tirado você daquela complicação. Assim, se pudermos fazer mais alguma coisa por você, é só pedir. Compreende? Estamos à sua disposição.
(Lembrando-se da bondade do Don, Neri gostaria que o grande homem ainda estivesse vivo para ver o serviço que seria feito naquele dia).
Neri levou menos de três dias para se decidir. Compreendia que estava sendo requestado, mas compreendia mais. Compreendia que a Família Corleone aprovava o seu ato, pelo qual a sociedade o condenara e o punira. A Família Corleone dava-lhe o devido valor, a sociedade não. Ele compreendia que seria mais feliz no mundo que os Corleone tinham criado do que no mundo lá de fora. E compreendia que a Família Corleone era a mais poderosa, dentro dos seus estreitos limites.
Visitou Michael novamente e pôs as cartas na mesa. Ele não queria trabalhar em Las Vegas, mas aceitaria um emprego junto à Família em Nova York. Tornou clara a sua lealdade. Michael ficou emocionado, Neri viu isso. Ficou então combinado. Mas Michael insistiu para que Neri primeiro tomasse umas férias, lá em Miami no hotel da Família, com todas as despesas pagas e um mês de salário adiantado, a fim de que tivesse o dinheiro necessário para descansar e divertir-se tranqüilamente.
Essas férias foram o primeiro gostinho de luxo de que Neri desfrutou. O pessoal do hotel teve um cuidado todo especial com ele, dizendo:
— Ah, você é amigo de Michael Corleone.
O boato se espalhou. Deram-lhe um dos apartamentos de luxo, não o detestável quarto pequeno que se impingiria a um parente pobre. O homem que dirigia a boate do hotel arranjou-lhe algumas garotas bonitas. Quando Neri voltou a Nova York, tinha uma concepção um tanto diferente da vida em geral.
Foi posto no regime de Clemenza e submetido a provas rigorosas por esse habilíssimo dirigente de homens. Deviam-se tomar certas precauções. Afinal de contas, ele tinha sido da polícia. Mas a ferocidade natural de Neri predominou apesar dos escrúpulos que ele pudesse ter por estar agora do outro lado da cerca. Em menos de um ano, recebeu o batismo de fogo. Nunca mais poderia voltar a ser o que fora.
Clemenza o punha nas alturas. Neri era um homem extraordinário, o novo Luca Brasi. Seria melhor do que Luca, gabava-se Clemenza. Afinal de contas, Neri fora descoberta sua. Fisicamente o homem era uma verdadeira maravilha. Os seus reflexos e coordenação eram tão notáveis que ele poderia ter sido outro Joe DiMaggio. Clemenza também sabia que Neri não era homem que pudesse ser controlado por alguém como ele. Neri passou a ser diretamente responsável perante Michael Corleone, tendo Tom Hagen como o necessário amortecedor. Era um “elemento especial” e como tal fazia jus a um salário alto, mas não tinha o seu meio de vida próprio, a sua agência de bookmaker ou uma organização à qual oferecesse “proteção” remunerada Era evidente que o seu respeito por Michael Corleone era enorme, e um dia Hagen disse brincando a Michael:
— Bem, agora você tem o seu Luca.
Michael acenou com a cabeça. Ele o livrara da cadeia. Albert Neri lhe seria leal até a morte. E naturalmente isso foi um truque que ele aprendeu com o próprio Don Corleone. Enquanto aprendia o negócio, submetendo-se a longos dias de instrução ministrada pelo pai, Michael uma vez perguntou:
— Como é que você usava um sujeito como Luca Brasi? Um animal como aquele.
Don Corleone respondeu fazendo-lhe a seguinte preleção:
— Há homens neste mundo que andam por aí pedindo para ser assassinados. Você já deve ter visto alguns deles. Brigam em mesas de jogo, saltam furiosos de seu automóvel se alguém apenas arranha o seu pára-lama, humilham e ameaçam as pessoas cuja força ignoram. Já vi um homem bobo propositadamente enfurecer um grupo de homens perigosos, sem possuir ele mesmo qualquer recurso. Esses são os indivíduos que andam pelo mundo gritando “Matem-me! Matem-me!”. E sempre aparece alguém disposto a fazer-lhes a vontade. Lemos sobre isso nos jornais todo dia. Tais pessoas naturalmente fazem um bocado de mal a outras também.
E prosseguiu:
— Luca Brasi era um homem desse tipo. Mas era um homem tão extraordinário que durante muito tempo ninguém conseguiu matá-lo. A maioria dessa gente não nos interessa, mas um elemento como Brasi é uma arma poderosa para ser usada. O truque, já que ele não teme a morte, e na verdade anda à procura dela, é a gente se tornar a única pessoa no mundo que verdadeiramente não deseja matá-lo. Ele só tem este medo, não o da morte, mas o de que agente possa ser a pessoa que vai matá-lo. Ele é nosso então.
Foi uma das mais valiosas lições dadas por Don Corleone antes de morrer, e Michael a usou para fazer de Neri seu Luca Brasi.
E agora, finalmente, Albert Neri, sozinho em seu apartamento do Bronx, ia pôr novamente o seu uniforme de polícial. Escovou-o caprichosamente. Agora iria polir o coldre. E o boné de polícia também, tinha de limpar-lhe a pala, engraxar os fortes sapatos pretos. Neri trabalhava com a maior boa vontade. Encontrara o seu lugar no mundo, Michael Corleone depositara confiança absoluta nele, e ele não deixaria de corresponder a essa confiança.




Continua...




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