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sábado, 5 de novembro de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 117

ÚLTIMO CAPÍTULO 





CXVII

5 DE OUTUBRO




E
ram cerca de seis horas da tarde. Uma claridade cor de opala, na qual um belo sol de Outono infiltrava os seus raios dourados, descia do céu sobre o mar azulado. O calor do dia extinguira-se gradualmente e começava-se a sentir essa ligeira brisa que parece a respiração da natureza ao acordar depois da sesta ardente do meio-dia, aragem deliciosa que refresca as costas do Mediterrâneo e leva de margem em margem o perfume das árvores de mistura com o cheiro acre do mar.
Naquele imenso lago que se estende de Gibraltar aos Dardanelos e de Tunes a Veneza, um iate ligeiro, de linhas puras e elegantes, navegava entre as primeiras neblinas da noite. O seu movimento lembrava o do cisne que abre as asas ao vento e parece deslizar à superfície da água. Avançava, ao mesmo tempo rápido e gracioso, deixando atrás de si uma esteira fosforescente.
Pouco a pouco o Sol, cujos últimos raios saudamos, desapareceu no horizonte ocidental; mas, como que para dar razão aos sonhos brilhantes da mitologia, os seus clarões indiscretos, reaparecendo na crista de cada vaga, pareciam revelar que o deus do fogo acabava de se esconder no seio de Anfítrite, que em vão procurava ocultar o amante nas pregas do seu manto azulado.
O iate avançava rapidamente, embora na aparência houvesse apenas vento suficiente para agitar a cabeleira anelada de uma jovem. De pé, à proa, um homem alto, de rosto bronzeado e olhar fixo, via aproximar-se a terra sob a forma de uma massa sombria disposta em cone, que saía do meio das vagas como um enorme chapéu catalão.
— É ali Monte Cristo? — perguntou, numa voz grave e impregnada de profunda tristeza, o viajante às ordens de quem o pequeno iate parecia encontrar-se momentânea-mente.
— É, sim, Excelência — respondeu o patrão — Estamos chegando.
— Estamos chegando! — murmurou o viajante, com indefinível acento de melancolia.
Depois acrescentou em voz baixa:
— Sim, será ali o porto...
E voltou a absorver-se nos seus pensamentos, traduzidos num sorriso mais triste do que as lágrimas. Passados alguns minutos distinguiu-se em terra um clarão que se extinguiu imediatamente e chegou até ao iate o estampido de uma arma de fogo.
— Excelência — disse o patrão — É o sinal de terra. Quer responder pessoalmente?
— Que sinal? — perguntou o interpelado.
O patrão estendeu a mão para a ilha, nos flancos da qual subia, isolado e esbranquiçado, um grande floco de fumo, que se ia desfazendo e espalhando.
— Ah, sim, quero! — respondeu como se saísse de um sonho.
O patrão estendeu-lhe uma carabina carregada. O passageiro pegou-lhe, levantou-se lentamente e fez fogo para o ar. Dez minutos depois colhiam as velas e ancoravam a quinhentos passos de um portinho.
O escaler estava já no mar, com quatro remadores e o piloto. O passageiro desceu e, em vez de se sentar à popa, guarnecida para ele de um tapete azul, conservou-se de pé com os braços cruzados. Os remadores esperavam, com os remos semi-levantados, como aves com as asas a secar.
— Vamos — disse o viajante.
Os oito remos mergulharam no mar simultaneamente e sem fazerem brotar uma gota de água. Depois o escaler, cedendo ao impulso, deslizou rapidamente. Chegaram num instante a uma enseadazinha formada por um recorte natural; o escaler tocou num fundo de areia fina.
— Excelência — disse o piloto — Suba para os ombros de dois dos nossos homens, que o levarão para terra.
O jovem respondeu ao convite com um gesto de completa indiferença, pôs as pernas fora do escaler e deixou-se escorregar para a água, que lhe subiu até à cintura.
— Ah, Excelência — murmurou o piloto — Não devia ter feito isso! Assim, o patrão ralha conosco...
O jovem continuou a avançar para a margem, seguindo dois marinheiros, que escolhiam o melhor fundo.
Ao cabo de uns trinta passos chegaram a terra. O jovem sacudiu os pés num terreno seco ao mesmo tempo que procurava com os olhos, à sua volta, o caminho que provavelmente lhe iam indicar, pois entretanto anoitecera por completo. No momento em que virava a cabeça pousou-lhe uma mão no ombro e uma voz fê-lo estremecer.
— Boa noite, Maximilien — disse essa voz — Foi pontual, obrigado!
— E o senhor também, Conde! — exclamou o jovem, com expressão que parecia de alegria e apertando com ambas as mãos a mão de Monte Cristo.
— Sim, como vê, tão pontual como você. Mas está encharcado, meu caro amigo! Tem de mudar de roupa, como diria Calipso a Telêmaco. Venha, há por aqui aposentos preparados para você em que esquecerá fadigas e frio.
Monte Cristo viu Morrel virar-se e esperou.
Com efeito, o jovem via com surpresa que nem uma palavra fora pronunciada por aqueles que o tinham trazido, que lhes não pagara e que, no entanto se tinham ido embora. Ouviam-se já, até, os remos do escaler, que regressava ao iatezinho.
— Procura os seus marinheiros, não é? — perguntou o Conde.
— Sem dúvida. Não lhes dei nada e, no entanto foram-se embora.
— Não se preocupe com isso, Maximilien — perguntou, rindo, Monte Cristo — Tenho um contrato com a marinha nos termos do qual o acesso à minha ilha está isento de qualquer direito de transporte e viagem. Tenho uma avença, como dizem nos países civilizados.
Morrel olhou o Conde com espanto.
— Conde, o senhor já não é o mesmo que era em Paris.
— Como assim?
— É verdade. Aqui, o senhor ri.
A fronte de Monte Cristo nublou-se de súbito.
— Fez bem em me chamar a atenção para isso, Maximilien. Tornar a vê-lo foi uma felicidade Para mim e esqueci-me de que toda a felicidade é passageira.
— Oh, não, não, Conde! — exclamou Morrel, pegando de novo nas mãos do amigo — Pelo contrário, ria, seja feliz, e prove-me com a sua despreocupação que a vida só é má para aqueles que sofrem. O senhor é caridoso, é bom, é grande, meu amigo, e é para me dar coragem que simula essa alegria.
— Engana-se, Morrel; de fato, sentia-me feliz.
— Então, foi porque se esqueceu de mim, tanto melhor!
— Como assim?
— Claro! Como dizia o gladiador ao entrar no circo, dirigindo-se ao sublime imperador, também eu lhe digo, meu amigo: “Aquele que vai morrer saúda-te”.
— Não está conformado? — perguntou Monte Cristo, com um olhar estranho.
— Oh! — exclamou Morrel com um olhar cheio de amargura — Acreditou realmente que isso fosse possível?
— Ouça — disse o Conde — Compreenda bem as minhas palavras, não é verdade, Maximilien? Não me considera um homem vulgar, um tolo que emite sons vagos e vazios de sentido. Quando lhe pergunto se está conformado, falo-lhe como um homem para quem o coração humano já não tem segredos. Pois bem, Morrel, desçamos ambos ao fundo do seu coração e o sondemos. Sente ainda essa impaciência ardente e dolorosa que faz saltar o corpo como salta o leão picado pelo mosquito? Continua a experimentar essa sede devoradora que só se extingue na sepultura? Domina-o essa fantasia da saudade que lança o vivo fora da vida em busca da morte? Ou trata-se apenas de prostração, de coragem esgotada, de contrariedade que sufoca o raio de esperança que procura brilhar? Ou da perda da memória que leva à impotência das lágrimas? Oh, meu caro amigo, se é isso, se já não pode chorar, se julga morto o seu coração embotado, se já só tem confiança em Deus, olhares apenas para o céu, então, amigo, ponhamos de parte as palavras, demasiado inexpressivas para o sentido que lhes dá a nossa alma! Maximilien, você está conformado, já não se lamenta.
— Conde — respondeu Morrel, na sua voz suave e firme ao mesmo tempo — Conde, ouça-me como se ouve um homem que fala de dedo estendido para a terra e olhos erguidos para o céu: vim ter consigo para morrer nos braços de um amigo. Claro que existem pessoas que amo: amo a minha irmã Julie, amo o seu marido, Emmanuel; mas necessito que se me abram braços fortes e que me sorriam nos meus derradeiros instantes. A minha irmã desataria a chorar e desmaiaria; a veria sofrer e já sofri bastante. Emmanuel me arrancaria a arma das mãos e encheria a casa com os seus gritos. O senhor, Conde, de quem tenho a palavra, o senhor, que é mais do que um homem, o senhor, a quem chamaria um deus se não fosse mortal, o senhor me conduzirá suave e ternamente até às portas da morte, não é verdade?
— Meu amigo — disse o Conde — Ainda me resta uma dúvida: teria tão pouca coragem que fosse capaz de recorrer ao orgulho para exibir a sua dor?
— Não, veja, sou sincero — respondeu Morrel, estendendo a mão ao Conde — E o meu pulso não bate nem mais depressa nem mais devagar do que de costume. Não, sinto-me no fim do caminho; não, não irei mais longe. Disse-me que esperasse e tivesse esperança; sabe o que fez, pobre sábio que é? Esperei um mês, isto é, sofri um mês! Tive esperança, o homem é uma pobre e miserável criatura, mas esperança em quê? Não sei, em algo desconhecido, absurdo, insensato! Num milagre... mas em qual? Só Deus o pode dizer, ele que juntou à nossa razão essa loucura chamada esperança. Sim, esperei; sim, tive esperança, Conde, e desde que falamos, há um quarto de hora, o senhor, sem o saber, torturou-me, dilacerou-me cem vezes o coração, porque cada uma das suas palavras provou-me que já não existe esperança para mim. Ó Conde, como repousarei doce e voluptuosamente na morte!
Morrel pronunciou as últimas palavras com uma explosão de energia que fez estremecer o Conde.
— Meu amigo — continuou Morrel, vendo que o Conde se calava — Indicou-me o dia 5 de Outubro como termo do prazo que me pediu... meu amigo, é hoje o dia 5 de Outubro...
Morrel puxou do relógio.
— São nove horas, ainda tenho três horas de vida.
— Seja — respondeu Monte Cristo — Venha.
Morrel seguiu maquinalmente o Conde. Estavam já na gruta, mas Maximilien ainda não dera por isso. Encontrou tapetes debaixo dos pés; uma porta abriu-se, sentiu-se envolto em perfumes e uma luz viva feriu-lhe os olhos. Morrel parou, hesitou em avançar; desconfiava das delícias excitantes que o rodeavam.
Monte Cristo puxou-o suavemente.
— Não será melhor empregarmos as três horas que nos restam como os antigos romanos, que, condenados por Nero, seu imperador e seu herdeiro, se sentavam à mesa coroados de flores e aspiravam a morte com o perfume dos heliotrópios e das rosas?
Morrel sorriu.
— Como queira — disse — A morte é sempre a morte, isto é, o esquecimento; isto é, o repouso; isto é, a ausência da vida e, por conseguinte da dor.
Sentou-se e Monte Cristo sentou-se diante dele. Encontravam-se na maravilhosa sala de jantar que já descrevemos e em que estátuas de mármore traziam à cabeça cestas cheias de flores e de frutos. Morrel olhara tudo vagamente e era provável que não tivesse visto nada.
— Conversemos como homens — disse, olhando fixamente o Conde.
— Fale — respondeu Monte Cristo.
— Conde — prosseguiu Morrel — O senhor reúne em si todos os conhecimentos humanos e dá-me a impressão de provir de um mundo mais avançado e adiantado do que o nosso.
— Há um pouco de verdade nisso, Morrel — respondeu o Conde, com o sorriso melancólico que lhe ficava tão bem — Provenho de um planeta chamado dor.
— Acredito em tudo o que o senhor me diz sem procurar aprofundar-lhe o sentido, Conde; e a prova é que o senhor me disse que vivesse e eu tenho vivido; que me disse que tivesse esperança e eu quase tenho tido esperança. Ousarei, portanto perguntar-lhe, como se o senhor já tivesse morrido uma vez: Conde, custa muito?
Monte Cristo fitava Morrel com indefinível expressão de ternura.
— Sim — respondeu — Sim, sem dúvida, custa muito se quebrarmos brutalmente o invólucro mortal que deseja obstinadamente viver. Se fizermos gritar a nossa carne nos dentes imperceptíveis de um punhal. Se furarmos com uma bala ininteligente e sempre pronta a enganar-se no caminho o nosso cérebro, que o mais pequeno choque magoa. Claro que sofrerá e deixará odiosamente a vida, que no meio da sua agonia desesperada lhe parecerá melhor do que um repouso adquirido tão caro.
— Sim, compreendo — disse Morrel — A morte, como a vida, tem os seus segredos de dor e volúpia: o principal é desvendá-los.
— Exatamente, Maximilien; acaba de dizer a palavra certa. A morte é, conforme o cuidado que ponhamos em nos darmos bem ou mal com ela, ou uma amiga que nos embala tão suavemente como uma ama, ou uma inimiga que nos arranca violentamente a alma do corpo. Um dia, depois de o nosso mundo, viverá mais um milhar de anos, quando dominarmos todas as forças destrutivas da natureza para as pormos ao serviço do bem-estar geral da humanidade; quando o homem conhecer, como você dizia há pouco, os segredos da morte, a morte se tornará tão agradável e voluptuosa como o sono saboreado nos braços da nossa bem-amada.
— E se o senhor quisesse morrer, Conde, saberia morrer assim?
— Saberia.
Morrel estendeu-lhe a mão.
— Compreendo agora por que motivo me marcou encontro aqui, nesta ilha desolada, no meio do mar, neste palácio subterrâneo, sepulcro capaz de fazer inveja a um Pharaon: foi porque gosta de mim, não é verdade, Conde? Foi por gostar de mim o suficiente para me dar uma dessas mortes de que me falava há pouco, uma morte sem agonia, uma morte que me permitirá morrer pronunciando o nome de Valentine e apertando a sua mão, Conde?
— Sim, adivinhou, Morrel — respondeu o Conde com simplicidade — E é assim que eu a entendo.
— Obrigado. A idéia de que amanhã já não sofrerei, é agradável ao meu pobre coração.
— Não leva saudades de ninguém? — perguntou Monte Cristo.
— Não — respondeu Morrel.
— Nem mesmo de mim? — insistiu o Conde, com profunda emoção.
Morrel deteve-se. Os seus olhos tão puros embaciaram-se de súbito; depois brilhou neles um relâmpago desusado e uma grossa lágrima brotou e rolou, deixando-lhe um sulco prateado na face.
— O quê, leva uma saudade da Terra e quer morrer?! — observou o Conde.
— Suplico-lhe — pediu Morrel em voz fraca — Nem mais uma palavra, Conde; não prolongue o meu suplício!
O Conde julgou que Morrel traquejava.
Esta impressão momentânea ressuscitou em si a horrível dúvida já vencida uma vez no Castelo d’If.
“Procuro”, pensou, “Restituir a felicidade a este homem e encaro essa restituição como um peso posto na balança para equilibrar o prato onde coloquei o mal. Mas se me enganasse, se este homem não fosse suficientemente infeliz para merecer a felicidade? Que seria de mim, que só posso esquecer o mal praticando o bem?”
— Escute, Morrel: a sua dor é enorme, bem vejo; mas no entanto você crê em Deus e não quer arriscar a salvação da sua alma...
Morrel sorriu tristemente.
— Conde, bem sabe que não faço poesia a frio; mas juro-lhe que a minha alma já não me pertence.
— Ouça, Morrel: não tenho nenhum parente no mundo, como sabe. Habituei-me a olhá-lo como um filho. Pois bem, para salvar o meu filho sacrificaria a vida e com mais forte razão a fortuna.
— Que quer dizer?
— Quero dizer, Morrel, que você quer deixar a vida porque não conhece todos os prazeres que a vida permite a uma grande fortuna. Morrel, possuo cerca de cem milhões; dou-lhes. Com semelhante fortuna, poderá alcançar todos os resultados que se propuser. É ambicioso? Todas as carreiras lhe estarão abertas. Revolva o mundo, mude-lhe a face, entregue-se a práticas insensata, seja criminoso se for preciso, mas viva.
— Conde, tenho a sua palavra — respondeu friamente Morrel; e acrescentou, tirando o relógio — São onze e meia.
— Morrel! Pensa morrer diante dos meus olhos, na minha casa?
— Então, deixe-me partir — perguntou Maximilien sombriamente — Ou julgarei que não gosta de mim por mim, mas sim por si.
E levantou-se.
— Está bem — disse Monte Cristo, cujo rosto se desanuviou ao ouvir aquelas palavras — Você assim o quer, Morrel, e é inflexível sim, é profundamente infeliz e, como disse, só um milagre o poderia curar. Sente-se, Morrel, e espere.
Morrel obedeceu.
Monte Cristo levantou-se por seu turno e foi buscar a um armário cuidadosamente fechado e de que trazia a chave suspensa de uma corrente de ouro uma caixinha de prata maravilhosamente esculpida e cinzelada, cujos cantos representavam quatro figuras curvadas, semelhantes a essas cariátides de ar desolado, figuras de mulheres, símbolos de anjos que aspiram ao céu.
Pousou a caixinha em cima da mesa.
Depois abriu-a e tirou outra caixinha de ouro cuja tampa se levantava comprimindo uma mola secreta. Esta caixa continha uma substância gordurosa, meio sólida e de cor indefinível graças ao reflexo do ouro polido, das safiras, dos rubis e das esmeraldas que guarneciam a caixa.
Era como que uma cintilação de azul, púrpura e ouro.
O Conde tirou uma pequena quantidade da tal substância com uma colher de prata dourada e ofereceu-a a Morrel, fitando-o longamente.
Viu-se então que a substância era esverdeada.
— Aqui tem o que me pediu — disse — Aqui tem o que lhe prometi.
— Ainda vivo — disse o jovem tomando a colher das mãos de Monte Cristo — Agradeço-lhe do fundo do meu coração.
O Conde pegou outra colher e meteu-a na caixa de ouro.
— Que vai fazer, meu amigo? — perguntou Morrel, detendo-lhe a mão.
— Palavra, Morrel — disse-lhe sorrindo — Creio, que Deus me perdoe, que também estou tão cansado da vida como você, e uma vez que se apresenta a oportunidade...
— Pare! — gritou o rapaz — Oh, o senhor que ama e é amado, o senhor que tem a fé da esperança!... Oh, não faça isso! Da sua parte seria um crime. Adeus, meu nobre e generoso amigo, vou dizer a Valentine tudo o que fez por mim.
E lentamente, sem nenhuma hesitação, com uma pressão da mão esquerda que estendia ao Conde, Morrel engoliu, ou antes, saboreou a misteriosa substância oferecida por Monte Cristo.
Então, ambos se calaram.
Ali, silencioso e atento, trouxe o tabaco e os narguilés, serviu o café e desapareceu. Pouco a pouco as lanternas empalideceram nas mãos das estátuas de mármore que as empunhavam e o perfume dos defumadores pareceu menos penetrante a Morrel. Sentado diante de Monte Cristo, que o olhava do fundo da sombra, Morrel via apenas brilhar os olhos do Conde.
Uma dor imensa apoderou-se do jovem; sentia o narguilé fugir-lhe das mãos; os objetos perdiam insensivelmente a forma e a cor; os seus olhos nublados viam abrir-se como que portas e reposteiros na parede.
— Amigo, sinto que morro. Obrigado!
Fez um esforço para lhe estender a mão pela última vez, mas a mão, sem força, caiu junto dele. Então pareceu-lhe que Monte Cristo sorria, não já com o seu riso estranho e assustador, que várias vezes lhe deixara entrever os mistérios daquela alma profunda, mas sim com a benevolente compaixão que os pais têm para com os filhos pequenos que fazem disparates.
Ao mesmo tempo, o Conde cresceu a seus olhos; a sua figura, quase duas vezes mais alta, desenhava-se nas tapeçarias vermelhas. Atirara para trás os cabelos negros e surgia de pé e orgulhoso como um desses anjos com que se ameaçam os maus no dia do Juízo Final.
Vencido, dominado, Morrel caiu numa poltrona; um torpor suave insinuou-se nas veias. Uma mutação de idéias enriqueceu-lhe por assim dizer o cérebro, tal como uma nova disposição de desenhos enriquece o caleidoscópio.
Deitado, nervoso, arquejante, Morrel não sentia mais nada vivo em si do que esse sonho; parecia-lhe entrar a todo o pano no vago delírio que precede esse outro desconhecido chamado morte. Tentou mais uma vez estender a mão ao Conde, mas desta feita a mão nem sequer se mexeu; quis articular um supremo adeus, mas a língua enrolou-se pesadamente na boca, como uma pedra que fechasse um sepulcro. Os seus olhos carregados de languidez fecharam-se, mal-grado seu. Contudo, atrás das pálpebras agitava-se uma imagem, que reconheceu apesar da escuridão que julgava envolvê-lo.
Era o Conde que acabava de abrir uma porta. Imediatamente uma imensa claridade que brilhava numa sala contígua, ou antes, num palácio maravilhoso, inundou a sala onde Morrel se entregava à sua suave agonia. Então viu aparecer no limiar da sala, no limite dos dois aposentos, uma mulher de uma beleza maravilhosa. Pálida e suavemente sorridente, parecia o anjo da misericórdia conjurando o anjo das vinganças.
— Será já o céu que se abre para mim? — murmurou o moribundo — Este anjo parece-se com o que perdi...
Monte Cristo indicou com o dedo à jovem o sofá onde repousava Morrel. Ela dirigiu-se para ele, de mãos postas e com um sorriso nos lábios.
— Valentine! Valentine! — gritou Morrel do fundo da alma.
Mas a sua boca não proferiu um som; e como se todas as suas forças estivessem unidas naquela emoção interior, suspirou e fechou os olhos. Valentine precipitou-se para ele. Os lábios de Morrel esboçaram ainda um movimento.
— Chama-a — disse o Conde — Chama-a do fundo do seu sono aquele a quem confiara o seu destino e de quem a morte a quis separar. Mas por sorte eu estava lá e venci a morte! Valentine, daqui em diante não devem separar-se mais na Terra; porque para a tornar a ver ele precipitava-se na sepultura. Sem mim, morreriam ambos; restituo-os um ao outro. Assim possa ter em conta a meu favor estas duas existências que salvo!
Valentine pegou na mão de Monte Cristo e, num impulso de alegria irresistível, levou-a aos lábios.
— Oh, agradeça-me muito! — pediu o Conde — Repita-me, sem se cansar de me repetir, repita-me que a tornei feliz? Não imagina quanto necessito dessa certeza.
— Sim, sim, agradeço-lhe de toda a minha alma — respondeu Valentine — E se dúvida da sinceridade dos meus agradecimentos, pergunte a Haydée, interrogue a minha querida irmã Haydée, que desde a nossa partida de França me tem feito esperar pacientemente, falando-me do senhor pelo feliz dia que brilha hoje por mim.
— Ama então Haydée? — perguntou Monte Cristo, com uma emoção que em vão se esforçava por dissimular.
— Oh, com toda a minha alma!
— Nesse caso, escute, Valentine — disse o Conde — Tenho um pedido a fazer-lhe.
— A mim, Santo Deus? Merecerei tamanha felicidade?...
— Merece, sim. Chamou a Haydée sua irmã; que ela seja sua irmã de fato, Valentine. Pague-lhe a ela tudo o que julga dever-me a mim. Protejam-na, Morrel e a menina, porque... — a voz do Conde quase lhe morreu na garganta — No futuro ela estará sozinha no mundo.
— Sozinha no mundo! — repetiu uma voz atrás do Conde — E por quê?
Monte Cristo virou-se.
Haydée estava ali, de pé, pálida e siderada, a olhar o Conde com uma expressão de mortal espanto.
— Porque amanhã, minha filha, será, livre — respondeu o Conde — Porque retomará no mundo o lugar que te é devido. Porque não quero que o meu destino obscureça o teu. Filha de príncipe, restituo-te as riquezas e o nome do teu pai!
Haydée empalideceu, abriu as mãos diáfanas como faz a virgem que se encomenda a Deus e perguntou, com a voz embargada pelas lágrimas:
— Quer dizer, meu senhor, que me deixa?
— Haydée! Haydée! É jovem e bela, esquece inclusivamente o meu nome e seja feliz.
— Está bem — respondeu Haydée — As suas ordens serão cumpridas, meu senhor; esquecerei inclusivamente o seu nome e serei feliz.
E deu um passo atrás para se retirar.
— Oh, meu Deus! — exclamou Valentine, amparando no ombro a cabeça adormecida de Morrel — Não vê como ela está pálida, não compreende como ela sofre?
Haydée perguntou-lhe com uma expressão pungente:
— Como quer que me compreenda, minha irmã? Ele é o meu senhor e eu sou sua escrava; tem o direito de não ver nada.
O Conde estremeceu ao ouvir o tom desta voz, que fez vibrar mesmo as fibras mais íntimas do seu coração. Os seus olhos encontraram os da jovem e não puderam suportar-lhe o brilho.
— Meu Deus, meu Deus, será então verdade o que me deixaste suspeitar? Haydée, seria feliz se me não deixasse?
— Sou nova — respondeu ela meigamente — Amo a vida que sempre me tornaste tão agradável, e lamentaria morrer.
— Quer dizer que se te deixasse, Haydée...
— Morreria, meu senhor, morreria!
— Amas-me então?
— Oh, Valentine, pergunta-me se o amo! Valentine, diga você se ama Maximilien!
O Conde sentiu o peito dilatar-se, e com ele o coração. Abriu os braços e Haydée soltou um grito e lançou-se neles.
— Oh, sim, te amo! — exclamou a jovem — Te amo-te como se ama um pai, um irmão e um marido! Te amo como se ama a vida, como se ama Deus, porque é para mim o mais belo, o melhor e o maior dos seres da criação!
— Seja então feita a sua vontade, meu anjo querido — respondeu o Conde — Deus, que me instigou contra os meus inimigos e me tornou vingador, Deus, bem o vejo, não quer que haja arrependimento no fim da minha vitória. Queria castigar-me; Deus quer perdoar-me. Ama-me, pois, Haydée! Quem sabe, talvez o teu amor me faça esquecer o que devo esquecer.
— Que quer dizer com isso, meu senhor? — perguntou a jovem.
— Quero dizer que uma palavra tua, Haydée, me esclareceu mais do que vinte anos da minha lenta aprendizagem. Só tenho a você no mundo, Haydée; por você volto a prender-me à vida, por você posso sofrer, por você posso ser feliz.
— Ouve-o, Valentine? — atalhou Haydée — Diz que pode sofrer por mim! Por mim, que daria a vida por ele!
O Conde recolheu-se um instante.
— Entrevi a verdade? Meu Deus, não importa! Recompensa ou castigo, aceito o meu destino. Vem, Haydée, vem...
E passando o braço à roda da cintura da jovem, apertou a mão a Valentine e saiu.
Passou cerca de uma hora, durante a qual, arquejante, calada, de olhos fixos, Valentine permaneceu junto de Morrel. Por fim, sentiu o coração dele bater, um sopro imperceptível abrir-lhe os lábios e o leve frêmito que anuncia o regresso à vida percorreu todo o corpo do jovem.
Por fim abriu os olhos, ao princípio fixos e como que enlouquecidos; depois, a vista voltou-lhe, precisa, real, e com a vista a sensação e com a sensação a dor.
— Oh, ainda estou vivo, o Conde enganou-me! — exclamou com acento de desespero.
E a sua mão estendeu-se para a mesa e pegou numa faca.
— Amor meu — disse Valentine, com o seu sorriso adorável — Acorda e olha para mim.
Morrel soltou um grande grito e delirante, cheio de dúvidas, mas deslumbrado como que por uma visão celeste, caiu de joelhos.
No dia seguinte, ao amanhecer, Morrel e Valentine passeavam de braço dado na margem. Valentine contou a Morrel como Monte Cristo aparecera no seu quarto, como lhe revelara tudo, como lhe fizera tomar conhecimento do crime e finalmente como a salvara miraculosamente da morte conseguindo que tudo fizesse crer que estava de fato morta.
Tinham encontrado aberta a porta da gruta e saído; no céu brilhavam no azul matinal as últimas estrelas da noite. Então Morrel viu na penumbra de um grupo de rochedos um homem que esperava um sinal para avançar e indicou esse homem a Valentine.
— É Jacopo, o comandante do iate — disse ela.
E chamou-o com um gesto.
— Tem alguma coisa para nos dizer? — perguntou Morrel.
— Devo entregar-lhes esta carta da parte do Conde.
— Do Conde?... — murmuraram os dois jovens.
— Sim, leiam.
Morrel abriu a carta e leu:


Meu caro Maximilien,
Há um falucho ancorado à disposição de ambos. Jacopo os levará a Liorne, onde o Sr. Noirtier espera a neta para a abençoar antes de ela o acompanhar ao altar. Tudo o que se encontra nessa gruta, meu amigo, bem como a minha casa da Champs-Élysées e o meu palacete de Tréport, são o presente de casamento de Edmond Dantés ao filho do seu patrão Morrel. Mademoiselle de Villefort poderá ficar com metade, pois suplico-lhe que dê aos pobres de Paris toda a fortuna do lado do pai, que enlouqueceu, e do lado do irmão, falecido em Setembro último juntamente com a mãe.
Diga ao anjo que vai velar pela sua vida, Morrel, que reze algumas vezes por um homem que, qual Satanás, se julgou por momentos, igual a Deus e que reconheceu, com toda a humildade de um cristão, que só nas mãos de Deus se encontram o poder supremo e a infinita sabedoria. Talvez essas preces suavizem o remorso que ele traz no fundo do coração.
Quanto a si, Morrel, aqui tem todo o segredo da minha conduta para consigo: não existe felicidade nem infelicidade neste mundo, existe apenas a comparação de um estado com outro e mais nada. Só aquele que experimentou o extremo infortúnio se encontra apto a experimentar a extrema felicidade. É necessário ter querido morrer, Maximilien, para saber como é bom viver.
Vivam pois, e sejam felizes, filhos queridos do meu coração, e nunca esqueçam que até  ao dia em que Deus se dignar desvendar o futuro ao homem, toda a sabedoria humana residirá nestas palavras:
Esperar e ter esperança!

Seu amigo,

Edmond Dantés,
Conde de Monte Cristo.


Durante a leitura desta carta, que lhe revelava a loucura do pai e a morte do irmão — morte e loucura que ignorava — Valentine empalideceu, escapou-lhe um doloroso suspiro do peito, e lágrimas, que não eram menos pungentes por serem silenciosas, rolaram-lhe pelas faces. A sua felicidade saía-lhe muito cara.
Morrel olhou à sua volta com inquietação.
— Mas... na verdade, o Conde exagera a sua generosidade; Valentine se contentará com a minha modesta fortuna. Onde está o Conde, meu amigo? Leve-me à sua presença.
Jacopo estendeu a mão para o horizonte.
— O quê! Que quer dizer? — perguntou Valentine — Onde está o Conde? Onde está Haydée?
— Vejam — respondeu Jacopo.
Os olhos dos dois jovens fixaram-se na linha indicada pelo marinheiro, e nessa linha de um azul-escuro que separava no horizonte o céu do Mediterrâneo viram uma vela branca do tamanho das asas de uma gaivota.
— Partiu! — exclamou Morrel — Partiu! Adeus, meu amigo, meu pai!
— Partiu! — murmurou Valentine — Adeus, minha amiga! Adeus, minha irmã!
— Quem sabe se alguma vez os tornaremos a ver? — observou Morrel, limpando uma lágrima.
— Meu amigo — disse Valentine — O Conde não acaba de nos dizer que a sabedoria humana reside por completo nestas palavras: Esperar e ter esperança!?




Fim!










Frase Curiosa: Conjugando o verbo Facebook: Eu posto, Tu comentas, Ele curte, Nós compartilhamos, Vós publicais, Eles riem, Ninguém trabalha.
Frase CuriosaErrar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégico.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 116



  

CXVI

O PERDÃO




N
o dia seguinte, Danglars voltou a ter fome, o ar daquela caverna abria o apetite. Naquele dia, porém, o prisioneiro julgou que não teria de fazer qualquer despesa, pois, como um homem econômico, escondera metade do frango e um naco de pão num canto da cela. Mas, mesmo sem comer, teve sede, coisa com que não contara. Lutou contra a sede até sentir a língua ressequida pegar-se ao céu-da-boca.
Então, não podendo resistir mais ao fogo que o devorava, chamou.
A sentinela abriu a porta; era um rosto novo.
Pensou que era preferível tratar com um antigo conhecido e chamou Peppino.
— Aqui me tem, Excelência — disse o bandido, apresentando-se com uma rapidez que pareceu de bom augúrio a Danglars — Que deseja?
— Beber — respondeu o prisioneiro.
— Excelência, como sabe, o vinho é caríssimo nos arredores de Roma... — observou Peppino.
— Então dê-me água — pediu Danglars, procurando aparar a estocada.
— Oh, Excelência, a água ainda é mais rara do que o vinho! Tem estado uma tal seca!...
— Pronto, vamos recomeçar, ao que parece... — disse Danglars para consigo.
E embora sorrindo para ter o ar de gracejar, o desgraçado sentia o suor umedecer-lhe as têmporas.
— Então, meu amigo — disse Danglars, vendo que Peppino permanecia impassível — Só lhe peço um copo de vinho; será capaz de me recusar?
— Já lhe disse, Excelência — respondeu gravemente Peppino — Que não vendíamos a retalho.
— Nesse caso, dê-me uma garrafa.
— De qual?
— Do menos caro.
— São todos do mesmo preço.
— E qual é o preço?
— Vinte e cinco mil francos a garrafa.
— Será melhor dizerem que me querem arrancar a pele e acabarem depressa com isto do que devorarem-me assim, pedaço a pedaço! — protestou Danglars com uma amargura que só Harpagão seria capaz de notar no diapasão da voz humana.
— É possível — admitiu Peppino — Que seja esse o projeto do chefe.
— Quem é o chefe?
— Aquele à presença de quem o conduziram anteontem.
— E onde está ele?
— Aqui.
— Gostaria de lhe falar.
— É fácil.
Pouco depois, Luigi Vampa estava diante de Danglars.
— Chamou-me? — perguntou ao prisioneiro.
— O senhor é que é o chefe das pessoas que me trouxeram para cá?
— Sou, sim, Excelência.
— Que resgate deseja de mim? Fale.
— Apenas os cinco milhões que traz consigo.
Danglars sentiu um espasmo horrível apertar-lhe o coração.
— Só tenho isso no mundo, senhor, e é o resto de uma enorme fortuna. Se a tirar, tira-me a vida.
— Estamos proibidos de derramar o seu sangue, Excelência.
— Proibidos por quem?
— Por aquele a quem obedecemos.
— Obedecem, portanto a alguém?
— Sim, a um chefe.
— Julgava que o chefe fosse o senhor.
— Eu sou o chefe destes homens; mas há outro homem que é meu chefe.
— E esse chefe obedece a alguém?
— Obedece.
— A quem?
— A Deus.
Danglars ficou um momento pensativo.
— Não o compreendo — confessou.
— É possível.
— E foi esse chefe que lhes mandou tratarem-me assim?
— Foi.
— Com que fim?
— Não sei.
— Mas a minha bolsa se esgotará...
— É provável.
— Vejamos, quer um milhão? — perguntou Danglars.
— Não.
— Dois milhões?
— Não.
— Três milhões? Quatro? Vejamos, quatro? Dou-lhes com a condição de me deixar ir embora.
— Porque nos oferece quatro milhões pelo que vale cinco? — perguntou Vampa — Isso é usura, Sr. Banqueiro, ou eu não percebo nada dessas coisas.
— Fiquem com tudo! Fiquem com tudo, já disse! — gritou Danglars — E matem-me!
— Então, então, acalme-se, Excelência. Assim ativa a circulação do sangue e arranja um apetite que é capaz de comer um milhão por dia... seja mais econômico, com a breca!
— E quando não tiver dinheiro para lhes pagar? — gritou Danglars, exasperado.
— Passará fome...
— Passarei fome? — repetiu Danglars, empalidecendo.
— É provável — respondeu fleumaticamente Vampa.
— Mas o senhor disse que não queriam me matar...
— E não queremos.
— Mas querem deixar-me morrer de fome?
— Não é a mesma coisa.
— Miseráveis! — gritou Danglars — Pois eu frustrarei os seus cálculos infames! Morrer por morrer, prefiro morrer já. Façam-me sofrer, torturem-me, matem-me, mas não terão mais a minha assinatura!
— Como quiser, Excelência — perguntou Vampa.
E saiu da cela.
Danglars atirou-se, rugindo, para cima das peles de bode. Quem eram aqueles homens? Quem era o chefe invisível? Que projetos tinham a seu respeito? E quando todas as pessoas se podiam resgatar, por que motivo só ele não podia?
Oh, sim, a morte, uma morte rápida e violenta, era um bom meio de enganar os seus inimigos encarniçados que pareciam submetê-lo a uma vingança incompreensível!
Pois sim, mas morrer!...
Talvez pela primeira vez, na sua longa carreira, Danglars pensasse na morte simultaneamente com o desejo e o receio de morrer. Mas chegara para ele o momento de deter a vista no espectro implacável que existe em toda a criatura, que a cada pulsação do coração diz a si mesma: “Morrerá!”
Danglars assemelhava-se àquelas feras que a caça anima, que depois desespera, e que, à força de desespero, conseguem por vezes salvar-se.
Danglars pensou numa evasão.
Mas as paredes eram a própria rocha; mas na única saída fora da cela um homem lia, e atrás desse homem viam-se passar e repassar sombras armadas de espingarda.
A sua resolução de não voltar a assinar durou dois dias, passados os quais pediu alimentos e ofereceu um milhão.
Serviram-lhe um jantar magnífico e levaram-lhe o milhão.
Desde então, a vida do pobre prisioneiro foi uma divagação perpétua. Sofrera tanto que já não queria expor-se a sofrer e suportava todas as exigências. Passados doze dias, numa tarde em que almoçara como nos seus belos dias de fortuna, fez as suas contas e verificou que passara tantas ordens de pagamento ao portador que já só lhe restavam cinqüenta mil francos.
Então, operou-se nele uma reação estranha: o homem que abrira mão de cinco milhões tentou salvar os cinqüenta mil francos que lhe restavam. Em vez de dar esses cinqüenta mil francos, resolveu voltar a uma vida de privações e teve momentos de esperança que raiavam a loucura. Ele, que havia tanto tempo esquecera Deus, recordou-o para dizer para consigo que às vezes Deus fazia milagres: que a caverna podia desmoronar-se; que os carabineiros pontifícios podiam descobrir aquele esconderijo maldito e vir em seu socorro; que então ainda lhe restariam cinqüenta mil francos para impedir um homem de morrer de fome.
E pediu a Deus que lhe conservasse os cinqüenta mil francos, e enquanto suplicava chorou.
Passaram-se assim três dias, durante os quais o nome de Deus esteve constantemente, senão no seu coração, pelo menos nos seus lábios. De vez em quando tinha momentos de delírio em que julgava ver, através das janelas, num pobre quarto, um velho agonizar num catre.
Esse velho também morria de fome.
Ao quarto dia já não era um homem, era um cadáver vivo. Apanhara do chão as últimas migalhas das suas antigas refeições e começara a devorar a esteira que cobria o chão.
Então suplicou a Peppino, como se suplica ao anjo-da-guarda, que lhe desse qualquer coisa de comer, e ofereceu-lhe mil francos por um naco de pão.
Peppino não respondeu.
Ao quinto dia arrastou-se até à entrada da cela.
— Mas você não é um cristão? — perguntou, erguendo-se nos joelhos — Quer assassinar um homem que é um irmão perante Deus? Oh, os meus amigos de outros tempos, os meus amigos de outros tempos!... — murmurou.
E caiu de bruços no chão. Depois levantou-se com uma espécie de desespero e gritou:
— O chefe! O chefe!
— Aqui estou — disse Vampa, aparecendo de repente — Que mais deseja?
— Tome o meu último ouro — balbuciou Danglars estendendo-lhe a carteira — E deixe-me viver aqui, nesta caverna; já não peço a liberdade, só peço que me deixem viver.
— Sofre muito? — perguntou Vampa.
— Oh, sim, sofro, e cruelmente!
— Pois há homens que ainda sofreram mais do que o senhor.
— Não acredito.
— Pois pode acreditar. Aqueles que morreram de fome.
Danglars pensou no velho que, durante as suas horas de alucinação, via através das janelas do seu pobre quarto gemer no seu leito. Bateu com a testa no chão e gemeu.
— Sim, é verdade, há quem tenha sofrido ainda mais do que eu, mas esses ao menos eram mártires.
— Está pelo menos arrependido? — perguntou uma voz sombria e solene, que fez eriçar os cabelos na cabeça de Danglars.
O seu olhar enfraquecido procurou distinguir os objetos e viu atrás do bandido um homem envolto numa capa e oculto na sombra de uma coluna de pedra.
— Arrependido de quê? — balbuciou Danglars.
— Do mal que fez — disse a mesma voz.
— Oh, sim, estou arrependido, estou arrependido! — gritou Danglars.
E bateu no peito com o punho emagrecido.
— Então perdôo-lhe — disse o homem, tirando a capa e dando um passo para se colocar debaixo da luz.
— O Conde de Monte Cristo! — exclamou Danglars, mais pálido de terror do que estava um momento antes de fome e miséria.
— Engana-se, não sou o Conde de Monte Cristo.
— Quem é então?
— Sou aquele que o senhor vendeu, entregou, desonrou; sou aquele cuja noiva o senhor infamou; sou aquele que o senhor calcou para se erguer até à fortuna; sou aquele cujo pai o senhor fez morrer de fome, que condenou a morrer de fome, e que, no entanto lhe perdoa porque necessita de ser também perdoado, sou Edmond Dantés!
Danglars soltou apenas um grito e caiu prosternado.
— Levante-se — disse o Conde — Tem a vida salva. A mesma sorte não tiveram os seus dois outros cúmplices: um enlouqueceu e o outro morreu! Guarde os cinqüenta mil francos que lhe restam e que lhe ofereço; quanto aos seus cinco milhões roubados aos hospícios, já foram restituídos por mão desconhecida. E agora coma e beba; esta noite é meu hóspede. Vampa, quando este homem estiver refeito, será livre.
Danglars permaneceu prosternado enquanto o Conde se afastava. Quando levantou a cabeça só viu uma espécie de sombra desaparecer no corredor, diante da qual se inclinavam os bandidos.
Como o Conde ordenara, Danglars foi servido por Vampa, que lhe mandou trazer o melhor vinho e os mais belos frutos da Itália, e que, depois de o meter na sua sege de posta, o abandonou na estrada encostado a uma árvore.
Ali ficou até amanhecer, ignorando onde estava. Quando nasceu o dia, verificou que se encontrava junto de um ribeiro. Tinha sede e arrastou-se até lá.
Quando se baixou para beber, descobriu que o cabelo lhe embranquecera.





continua... 






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Lei de MurphyO companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.