sábado, 24 de novembro de 2012

[SESSÃO PREMIER 7] De Volta para o Presente




DIM-DOM
SÃO 19:00 HORAS
Chega agora na Sessão Premier, o filme:
De Volta para o Presente


FICHA TÉCNICA:

Título Original: Blast from the Past
Gênero: Comédia Romântica
Ano de Lançamento: 1999
Tamanho: 700 Mb
Formato: Avi
Áudio: Dublado


SINOPSE: Após um acidente em 1962, um casal fica preso em um abrigo nuclear por 35 anos, os dois imaginando que o mundo foi destruído por mísseis nucleares. O único filho do casal nasceu e cresceu nesse abrigo subterrâneo e agora que a porta foi destrancada ele irá vir a superfície para procurar suprimentos e quem sabe encontrar uma esposa que não foi afetada pela radiação.



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PISTA N° 2




Essa é a pista n° 2 da grande novidade que vai chegar dia 11 de Dezembro no blog T.World. Aguardem!




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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 35





— CAPÍTULO TRINTA E CINCO —
KING’S CROSS



ELE ESTAVA DE BRUÇOS, escutando o silêncio. Absolutamente sozinho. Ninguém o observava. Ninguém mais estava ali. Nem tinha absoluta certeza de que ele próprio estivesse ali.
Muito tempo depois, ou talvez tempo algum, ocorreu-lhe que devia existir, devia ser mais do que pensamento incorpóreo, porque estava deitado, decididamente deitado, sobre alguma superfície. Portanto, possuía tato, e a coisa sobre a qual deitava também existia. Quase no instante em que chegou a esta conclusão, Harry tomou consciência de que estava nu. Convencido de sua total solidão, isso não o preocupou, mas deixou-o ligeiramente intrigado. Perguntou-se se, uma vez que podia sentir, também seria capaz de ver. Ao abrir os olhos, descobriu que os possuía.
Estava deitado em meio a uma névoa brilhante, embora não se parecesse com névoa alguma que já tivesse visto. O espaço que o rodeava não estava toldado, pelo contrário, a névoa vaporosa ainda não se formara ao seu redor. O chão em que estava deitado parecia ser branco, nem quente nem frio, existia apenas, algo plano, vazio sobre o qual estar. Ele se sentou. Seu corpo parecia ileso. Apalpou o rosto. Não estava mais usando óculos.
Então, do nada informe que o cercava, chegou-lhe aos ouvidos um barulho: as batidinhas suaves de algo que adejava, se açoitava e se debatia. Era um barulho que inspirava piedade, mas também era ligeiramente obsceno. Teve a desconfortável sensação de que estava bisbilhotando alguma coisa furtiva, vergonhosa.
Pela primeira vez, desejou estar vestido.
Mal acabara de formular mentalmente esse desejo, apareceram vestes a uma pequena distância. Apanhou-as e vestiu-as: eram macias, limpas e quentes. Era extraordinário como tinham aparecido, instantaneamente, no momento em que as desejara...
Ele se levantou e relanceou ao redor. Estaria em alguma ampla Sala Precisa? Quanto mais olhava, mais havia para ver. Um enorme domo de vidro faiscava ao sol, lá no alto. Talvez fosse um palácio. Tudo era imóvel e silencioso, exceto por aquelas estranhas lamúrias e pancadas surdas que vinham dali perto em meio à névoa...
Harry se virou lentamente no mesmo lugar, e o ambiente pareceu se reinventar diante de seus olhos. Um grande vão, claro e limpo, um salão muito maior do que o Salão Principal com aquele teto abobadado de vidro. Vazio. Ele era a única pessoa ali, exceto por...
Encolheu-se. Localizara a coisa que estava produzindo os ruídos. Tinha a forma de uma criancinha nua, enroscada no chão, a pele em carne viva e grossa, parecendo açoitada, e tremia embaixo de uma cadeira onde fora deixada, indesejável, posta fora de vista, tentando respirar. Teve medo. Pequena, frágil e ferida como estava, Harry não quis se aproximar dela.
Contudo, ele foi se acercando devagar, pronto para saltar para trás a qualquer momento. Logo estava perto o suficiente para tocá-la, ainda que não conseguisse se obrigar a isso. Sentiu-se um covarde. Devia consolá-la, mas ela lhe causava repugnância.
— Não há nada que você possa fazer.
Ele virou-se depressa. Alvo Dumbledore vinha ao seu encontro, animado e aprumado, trajando amplas vestes azul-escuras.
— Harry — ele abriu bem os braços, e suas mãos estavam, ambas, inteiras, brancas e ilesas — Garoto maravilhoso! Homem corajoso, muito corajoso. Vamos caminhar.
Aturdido, Harry acompanhou-o. Dumbledore se afastou da criança flagelada que choramingava, e o conduziu a duas cadeiras em que Harry não reparara antes, dispostas a alguma distância sob aquele teto alto e cintilante. Dumbledore sentou-se em uma delas e Harry se largou na outra, fitando o seu antigo diretor. Os longos cabelos e barbas prateadas de Dumbledore, os olhos azuis penetrantes por trás dos oclinhos de meia-lua, o nariz torto: exatamente como ele lembrava. Contudo...
— Mas você está morto — disse Harry.
— Ah, sim — respondeu Dumbledore, sem rodeios.
— Então... eu estou morto também?
— Ah — disse o diretor com um sorriso ainda maior — Essa é a dúvida, não é? De modo geral, meu caro rapaz, acho que não.
Eles se encararam, o velho ainda sorrindo.
— Não? — repetiu Harry.
—Não.
— Mas... — Harry levou instintivamente a mão à cicatriz em forma de raio. Aparentemente sumira — Mas eu deveria ter morrido... não me defendi! Deliberadamente deixei que me matasse!
— E isso, acho eu, terá feito toda a diferença.
A felicidade parecia se irradiar de Dumbledore como luz, como fogo: Harry jamais vira um homem tão absoluta e palpavelmente satisfeito.
— Explique — pediu Harry.
— Mas você já sabe.
E Dumbledore girou os polegares.
— Eu deixei que me matasse. Não foi?
— Foi — assentiu Dumbledore — Continue!
— Então a parte da alma dele que estava comigo...
Dumbledore assentiu ainda mais entusiasticamente, instando Harry a prosseguir, um amplo sorriso de incentivo no rosto.
—... se foi?
— Ah, sim! Ele a destruiu. A sua alma é inteira e totalmente sua, Harry.
— Mas então...
Harry espiou por cima do ombro, para onde a pequena criatura mutilada tremia embaixo da cadeira.
— Que é aquilo, professor?
— Uma coisa além da nossa possibilidade de ajudar.
— Mas se Voldemort usou aquela Maldição da Morte — recomeçou Harry — E desta vez ninguém morreu por mim... como posso estar vivo?
— Acho que você sabe. Faça uma retrospectiva. Lembre o que ele fez em sua ignorância, cobiça e crueldade.
Harry pensou. Deixou o seu olhar vaguear pelo ambiente. Se de fato fosse um palácio o lugar em que estavam, era estranho, com cadeiras em pequenas fileiras e gradis aqui e ali, e Dumbledore e a criatura atrofiada embaixo da cadeira eram os únicos seres presentes.
Então a resposta aflorou aos seus lábios facilmente, sem esforço.
— Ele tirou o meu sangue — respondeu Harry.
— Exato! — exclamou Dumbledore — Ele tirou o seu sangue e usou-o para reconstruir o próprio corpo vivente! O seu sangue nas veias dele, Harry, a proteção de Lílian nos dois! Ele prendeu você à vida enquanto ele viver!
— Eu vivo... enquanto ele viver? Mas pensei... pensei que fosse o contrário! Pensei que nós dois tínhamos que morrer? Ou dá no mesmo?
Harry foi distraído pelo choro e as batidas da criatura angustiada às suas costas, e tornou a se virar para vê-la.
— Tem certeza de que não podemos fazer nada?
— Não há ajuda possível.
— Então me explique... melhor — pediu Harry, e Dumbledore sorriu.
— Você foi a sétima Horcrux, Harry, a Horcrux que ele nunca pretendeu criar. Voldemort deixou a alma tão instável que ela se fragmentou quando ele cometeu aqueles atos de indizível maldade, o assassinato dos seus pais, a tentativa de matar uma criança. Mas o que escapou daquele quarto foi ainda menos do que ele percebeu. Voldemort deixou ali mais do que o seu corpo. Deixou uma parte de si mesmo presa a você, a pretensa vítima que sobrevivera. E o conhecimento dele permaneceu lamentavelmente incompleto, Harry! Aquilo a que Voldemort não dá valor ele não se dá sequer o trabalho de compreender. De elfos domésticos e contos infantis, amor, lealdade e inocência, Voldemort não entende nada. Nadinha. Que todos tenham um poder que supere o dele, um poder que supere o alcance da magia, é uma verdade que ele jamais compreendeu. Ele tirou o seu sangue acreditando que isto o fortaleceria. Integrou ao próprio corpo uma parte mínima do encantamento com que sua mãe o recobriu quando morreu para salvá-lo. O corpo dele guarda vivo o sacrifício de Lílian, e enquanto esse encantamento sobreviver, você também sobreviverá, assim como a última esperança de Voldemort.
Dumbledore sorriu para Harry, e o garoto o encarou.
— E o senhor sabia disso? Sabia... o tempo todo?
— Tive um palpite. Mas os meus palpites normalmente têm sido muito bons — respondeu ele, feliz, e os dois ficaram sentados em silêncio por um tempo que pareceu muito longo, enquanto a criatura continuava a choramingar e tremer.
— Tem mais — disse Harry — Tem mais coisas. Por que a minha varinha partiu a que ele pediu emprestada?
— Quanto a isso, não tenho muita certeza.
— Dê um palpite, então — pediu Harry, fazendo Dumbledore rir.
— O que você precisa entender, Harry, é que você e Lord Voldemort empreenderam juntos uma jornada ao reino de uma magia até agora desconhecida e não comprovada. Imagino, porém, que tenha acontecido o seguinte, e não há precedentes, nem fabricante de varinha algum, acho eu, que pudesse jamais ter predito ou explicado isso a Voldemort. Sem querer, como você agora sabe, Lord Voldemort duplicou o vínculo entre vocês quando retomou a forma humana. Uma parte de sua alma já estava presa a você, e, pensando em se fortalecer, ele incorporou uma parte do sacrifício de sua mãe. Se pudesse ter compreendido o poder exato e terrível daquele sacrifício, talvez não tivesse ousado tocar no seu sangue... mas se ele fosse capaz de compreender, não seria Lord Voldemort, e, talvez, nunca tivesse matado ninguém. Tendo garantido essa dupla vinculação, tendo amarrado os seus destinos juntos, mais seguramente do que dois bruxos jamais fizeram em toda a História, Voldemort atacou você com uma varinha que possuía o mesmo núcleo que a sua. Então, ocorreu algo muito estranho, como sabemos. Os núcleos reagiram de uma forma que Lord Voldemort, que nunca soube que a sua varinha era gêmea da dele, não poderia prever. Ele sentiu mais medo do que você naquela noite, Harry. Você tinha aceitado, e até considerado bem-vinda, a ideia da morte, coisa que Lord Voldemort jamais foi capaz de fazer. Sua coragem venceu, sua varinha dominou a dele. E ao fazer isso, aconteceu entre as duas varinhas uma coisa que refletiu a relação entre os seus donos. Acredito que a sua varinha tenha absorvido parte do poder e das qualidades da varinha de Voldemort naquela noite, ou seja, o objeto captou um pouco do próprio Voldemort. Então, a sua varinha o reconheceu enquanto ele o perseguia, reconheceu um homem que era, ao mesmo tempo, parente e inimigo mortal, e regurgitou contra Voldemort um pouco de sua própria magia, magia muito mais poderosa do que qualquer coisa que a varinha de Lúcio pudesse realizar. Sua varinha passou a conter simultaneamente o poder de sua enorme coragem e da perícia letal de Voldemort: que chance teria aquela mísera varinha de Lúcio Malfoy?
— Mas, se a minha varinha ficou tão poderosa, como Hermione pôde quebrá-la? — perguntou Harry.
— Meu caro rapaz, seus efeitos excepcionais eram dirigidos apenas a Voldemort, que mexeu de forma tão imprudente com as mais profundas leis da magia. Apenas contra ele aquela varinha era anormalmente poderosa. Nos demais casos, era uma varinha como outra qualquer... embora, sem dúvida, fosse boa — concluiu Dumbledore bondosamente.
Harry parou refletindo um longo tempo, ou talvez segundos. Ali, era muito difícil ter certeza de dimensões.
— Ele me matou com a sua varinha.
— Ele não conseguiu matar você com a minha varinha — corrigiu-o Dumbledore — Acho que podemos concordar que você não está morto... embora, é claro — acrescentou ele, como se receasse ser indelicado — Eu não esteja minimizando os seus sofrimentos que, seguramente, foram rigorosos.
— Mas estou me sentindo ótimo no momento — replicou Harry, olhando para suas mãos limpas e intactas — Exatamente onde estamos?
— Bem, eu ia lhe perguntar isso — disse Dumbledore, olhando ao redor — Onde você diria que estamos?
Até Dumbledore perguntar, Harry não fazia ideia. Então, descobriu que tinha uma resposta pronta para lhe dar.
— Parece — disse, lentamente — A estação de King’s Cross. Exceto que muito mais limpa e vazia, e, pelo visto, não há trens.
— A estação de King’s Cross! — Dumbledore estava dando gargalhadas — Valha-me Deus, sério?
— Bem, onde o senhor acha que estamos? — perguntou Harry, um pouco na defensiva.
— Meu caro rapaz, não faço a menor ideia. Como costumam dizer, a festa é sua.
Harry não entendeu o que isso queria dizer. Dumbledore estava aborrecendo-o. Olhou carrancudo para o diretor, então se lembrou de uma pergunta muito mais urgente do que a presente localização.
— As Relíquias da Morte — disse, e ficou satisfeito ao ver que as palavras tinham apagado o sorriso do rosto de Dumbledore.
— Ah, sim — disse ele, parecendo até um pouco preocupado.
— Então?
Pela primeira vez desde que Harry conhecera Dumbledore, ele pareceu menos que um homem idoso, muito menos. Pareceu, por um momento fugaz, um garoto apanhado em uma travessura.
— Será que pode me perdoar? Será que pode me perdoar por não ter confiado em você? Por não ter lhe dito? Harry, eu só receei que você fracassasse como eu. Só temi que repetisse os meus erros. Imploro o seu perdão, Harry. Já faz algum tempo que sei que você é um homem melhor do que eu.
— Do que está falando? — perguntou o garoto, assustado com o tom de Dumbledore, com as lágrimas repentinas em seus olhos.
— As Relíquias, as Relíquias — murmurou Dumbledore — O sonho de um homem desesperado!
— Mas elas são reais!
— Reais e perigosas, além de uma sedução para os tolos. E eu próprio fui um tolo. Mas você sabe disso, não é? Não tenho mais segredos para você. Você sabe.
— Que é que eu sei?
Dumbledore virou-se de frente para Harry e as lágrimas ainda cintilavam em seus olhos muito azuis.
— Senhor da Morte, Harry, Senhor da Morte! Em última análise, terei sido melhor que Voldemort?
— Claro que foi. Claro... como pode fazer essa pergunta? O senhor nunca matou quando pôde evitar!
— Verdade, verdade — e ele parecia uma criança precisando de reafirmação — Contudo, eu, também, busquei um modo de vencer a morte, Harry.
— Não como ele — depois de toda a sua raiva por Dumbledore, era estranho sentar ali, sob aquele teto abobadado, e defendê-lo de si mesmo — Relíquias, não Horcruxes.
— Relíquias — murmurou Dumbledore — Não Horcruxes. Exatamente.
Houve uma pausa. A criatura choramingou, mas Harry não se virou.
— Grindelwald as estava procurando também? — perguntou ele.
Dumbledore fechou os olhos por um momento e assentiu.
— Foi isso, acima de tudo, que nos aproximou — disse ele, em voz baixa — Dois rapazes inteligentes e arrogantes com uma obsessão em comum. Ele quis ir a Godric’s Hollow, como você certamente adivinhou, por causa do túmulo de Ignoto Peverell. Queria explorar o local em que o terceiro irmão falecera.
— Então, é verdade? A história toda? Os irmãos Peverell...
—... eram os três irmãos do conto — confirmou Dumbledore — Ah, sim, acho que sim. Agora, se encontraram a Morte em uma estrada deserta... acho mais provável que os irmãos Peverell fossem simplesmente bruxos talentosos e temerários que conseguiram criar esses objetos poderosos. A história de que seriam as próprias Relíquias da Morte me parece o tipo de lenda que pode ter surgido em torno de suas criações. A capa, como você agora sabe, passou durante séculos de pai para filho, de mãe para filha, até o último descendente vivo de Ignoto, que nasceu na aldeia de Godric’s Hollow.
Dumbledore sorriu para Harry.
Eu?
— Você. Você conjecturou, eu sei, por que a capa estava em meu poder na noite em que seus pais morreram. Tiago a mostrara a mim poucos dias antes. Ela explicava muitos dos seus malfeitos, na escola, que passavam despercebidos! Mal consegui acreditar no que via. Pedi a capa emprestada para examiná-la. Havia muito tempo que desistira do meu sonho de juntar as Relíquias, mas não pude resistir, não pude deixar de vê-la de perto... era uma capa como eu jamais vira, imensamente velha, perfeita sob todos os aspectos... então seu pai morreu, e eu tinha finalmente duas Relíquias só para mim!
Seu tom era insuportavelmente amargurado.
— A capa não teria ajudado meus pais a sobreviver — apressou-se Harry a dizer — Voldemort sabia onde meu pai e minha mãe estavam. A capa não os tornaria à prova de maldição.
— Verdade — suspirou Dumbledore — Verdade.
Harry aguardou, mas o diretor não disse mais nada, então, ele o instigou.
— Então, desistiu de procurar as Relíquias quando viu a capa?
— Ah, sim — respondeu Dumbledore, com a voz fraca. Ele parecia fazer força para fitar Harry — Você sabe o que aconteceu. Você sabe. Você não pode me desprezar mais do que eu me desprezo.
— Mas eu não o desprezo...
— Então deveria — Dumbledore inspirou profundamente — Você conhece o segredo da precária saúde da minha irmã, o que aqueles trouxas fizeram, no que a transformaram. Você sabe como o meu pobre pai buscou vingança e pagou por isso, morrendo em Azkaban. Você sabe como minha mãe abriu mão da própria vida para cuidar de Ariana. Tive raiva disso, Harry.
Dumbledore confessou abertamente, friamente. Olhava agora por cima da cabeça de Harry, para longe.
— Eu era talentoso, era brilhante. Queria fugir. Queria brilhar. Queria a glória. Não me entenda mal — disse ele, e a dor perpassou o seu semblante, fazendo-o parecer novamente muito idoso — Eu os amava. Amava meus pais. Amava meu irmão e minha irmã, mas era egoísta, Harry, mais egoísta do que você, que é uma pessoa extraordinariamente generosa, poderia imaginar. Então, quando minha mãe morreu, e me deixou a responsabilidade de uma irmã incapacitada e um irmão rebelde, voltei para minha aldeia enraivecido e amargurado. Preso e desperdiçado, pensei! Então, naturalmente, ele chegou...
Dumbledore tornou a fitar Harry nos olhos.
— Grindelwald. Você não pode imaginar como as suas ideias me contagiaram, Harry, me inflamaram. Trouxas forçados à submissão. Nós, bruxos, vitoriosos. Grindelwald e eu, os jovens líderes gloriosos da revolução. Ah, eu tinha alguns escrúpulos. Aliviava a minha consciência com palavras vãs. Tudo seria para o Bem Maior, e qualquer dano causado seria compensado cem vezes em benefícios para os bruxos. Se eu sabia, no fundo do meu coração, quem era Gerardo Grindelwald? Acho que sim, mas fechei os olhos. Se os planos que estávamos fazendo viessem a frutificar, todos os meus sonhos se concretizariam. E, no cerne dos nossos projetos, as Relíquias da Morte! Como elas o fascinavam, como fascinavam a nós dois! A varinha invencível, a arma que nos conduziria ao poder! A Pedra da Ressurreição significava para ele, embora eu fingisse não saber, um exército de Inferi! Para mim, confesso, significava o retorno dos meus pais e a remoção de toda a responsabilidade dos meus ombros. E a Capa da Invisibilidade... por alguma razão, nunca a discutimos muito, Harry. Nós dois éramos capazes de nos ocultar muito bem sem a capa, cuja magia, naturalmente, é poder ser usada para proteger e escudar outros, além do seu dono. Pensei que, se algum dia a encontrássemos, ela poderia ser útil para ocultar Ariana, mas o nosso interesse na capa era apenas completar o trio, porque, dizia a lenda, o homem que reunisse os três objetos seria verdadeiramente o Senhor da Morte, e, para nós, invencível. Senhores invencíveis da Morte, Grindelwald e Dumbledore! Dois meses de insanidade, de sonhos cruéis e descaso com os dois únicos membros da família que me restavam. Então... você sabe o que aconteceu. A realidade retornou, na forma do meu irmão rude, iletrado e infinitamente mais admirável. Eu não quis ouvir as verdades que ele atirou na minha cara. Não quis ouvir que não poderia partir em busca das Relíquias levando comigo uma irmã frágil e instável. A discussão virou uma briga. Grindelwald se descontrolou. Aquilo que eu sempre percebera nele, embora fingisse não existir, revelou-se de um modo terrível. E Ariana... depois de todo o cuidado e a cautela de minha mãe... jazia morta no chão.
Dumbledore ofegou e começou a chorar profusamente. Harry estendeu a mão, e ficou contente de constatar que podia tocá-lo: apertou seu braço com força, e Dumbledore gradualmente recobrou o controle.
— Bem, Grindelwald fugiu, como todo o mundo, exceto eu, poderia ter previsto. Sumiu com os seus planos de tomar o poder e seus projetos de torturar trouxas, e seus sonhos com as Relíquias da Morte, sonhos em que eu o encorajara e ajudara. Ele fugiu, me deixando sozinho para enterrar minha irmã e aprender a viver com a minha culpa e o meu terrível pesar, o preço da minha vergonha. Os anos passaram. Correram boatos a respeito dele. Diziam que obtivera uma varinha de imenso poder. Entrementes, me ofereceram o posto de Ministro da Magia, não uma, mas várias vezes. Naturalmente, recusei. Aprendera que não seria confiável se tivesse o poder em minhas mãos.
— Mas o senhor teria sido melhor, muito melhor do que o Fudge ou o Scrimgeour! — exclamou Harry.
— Teria? — perguntou Dumbledore, abatido — Não estou muito seguro. Na adolescência, eu tinha comprovado que o poder era a minha fraqueza e a minha tentação. É uma coisa curiosa, Harry, mas talvez os que têm maior talento para o poder sejam os que nunca o buscaram. Pessoas, como você, a quem empurram a liderança e que aceitam o manto do poder porque devem, e descobrem, para sua surpresa, que lhes cai bem. Eu estava mais seguro em Hogwarts. Acho que fui um bom professor...
— O senhor foi o melhor...
— É muita bondade sua, Harry. Mas, enquanto eu me ocupava com o ensino de jovens bruxos, Grindelwald estava reunindo um exército. Diziam que tinha medo de mim, e talvez fosse verdade, mas teria menos do que eu tinha dele... Ah, não de morrer — explicou Dumbledore em resposta ao olhar indagador de Harry — Não do que ele pudesse me fazer usando a magia. Eu sabia que nos equiparávamos, talvez eu fosse até um tantinho mais talentoso. Eu temia a verdade. Entende, eu nunca soube qual de nós, naquela última luta horrenda, havia realmente lançado o feitiço que matara minha irmã. Você pode me chamar de covarde: e teria razão. Harry, eu temia mais que tudo o conhecimento de que fora eu o causador de sua morte, não apenas por causa da minha arrogância e estupidez, mas que eu, de fato, tivesse dado o golpe que lhe tirara a vida. Acho que ele sabia disso, acho que sabia o que me apavorava. Adiei o confronto com ele até que finalmente fosse demasiado vergonhoso resistir por mais tempo. As pessoas estavam morrendo, e ele parecia irrefreável, e tive que fazer o que pude. Bem, você sabe o que aconteceu a seguir. Ganhei o duelo. Ganhei a varinha.
Novo silêncio. Harry não perguntou se algum dia Dumbledore havia descoberto quem matara Ariana. Não queria saber, e menos ainda que o diretor se visse obrigado a lhe dizer. E, finalmente, ele soube o que Dumbledore teria visto no Espelho de Ojesed, e por que compreendera tão bem a fascinação que o objeto exercia sobre Harry.
Eles se sentaram em silêncio por muito tempo, e o choro da criatura às suas costas praticamente deixou de incomodar Harry.
Por fim, o garoto disse:
— Grindelwald tentou impedir que Voldemort fosse atrás da varinha. Mentiu, sabe, fingindo que nunca a tivera em seu poder.
Dumbledore assentiu, olhando para o colo, as lágrimas brilhando em seu nariz torto.
— Dizem que ele demonstrou remorso nos últimos anos, sozinho em sua cela em Nurmengard. Espero que seja verdade. Gostaria de pensar que ele percebeu o horror e a vergonha do que tinha feito. Talvez aquela mentira a Voldemort fosse a sua tentativa de compensar... de impedir que Voldemort se apossasse da Relíquia...
—... ou violasse o seu túmulo, talvez? — arriscou Harry, e Dumbledore secou as lágrimas.
Após mais um breve intervalo, Harry disse:
— O senhor tentou usar a Pedra da Ressurreição.
Dumbledore fez que sim.
— Quando a descobri, depois de tantos anos, enterrada na casa abandonada dos Gaunt, a Relíquia mais desejável de todas, embora na minha juventude eu a quisesse possuir por razões muito diversas, perdi a cabeça, Harry. Esqueci que fora transformada em Horcrux, que o anel certamente carregaria um feitiço. Apanhei-o e coloquei-o no dedo, e, por um segundo, imaginei que estava prestes a ver Ariana, minha mãe e meu pai e lhes dizer o muito que eu lamentava... fui muito tolo, Harry. Depois de tantos anos, eu não aprendera nada. Eu era indigno de unir as Relíquias da Morte, evidenciara isso repetidamente, e ali estava a prova final.
— Por quê? Era natural! Queria rever sua família. Que há de errado nisso?
— Talvez um homem em um milhão possa unir as Relíquias, Harry. Eu só merecia possuir a mais mesquinha delas, a menos extraordinária. Eu merecia possuir a Varinha das Varinhas, e não me gabar disso, e não usá-la para matar. Tinha permissão de domar e usar a varinha, porque a conquistara, não para meu ganho pessoal, mas para salvar outros do seu poder. Mas a capa, eu a tomei por mera curiosidade, por isso nunca poderia ter funcionado para mim como funciona para você, seu verdadeiro dono. A pedra, eu a teria usado na tentativa de trazer de volta aqueles que estão em paz, e não para permitir o sacrifício da minha vida, como você fez. Você é o digno possuidor das Relíquias.
Dumbledore deu uma palmadinha afetuosa na mão de Harry, e o garoto ergueu os olhos para o velho e sorriu, não pôde se conter. Como poderia continuar zangado com Dumbledore, agora?
— Por que precisou dificultar tanto as coisas?
O sorriso de Dumbledore foi trêmulo.
— Receio que tenha contado com a Srta. Granger para refreá-lo, Harry. Tive medo que sua cabeça quente pudesse dominar o seu bom coração. Senti pavor que, se lhe apresentasse logo os fatos sobre esses objetos tentadores, você pudesse se apoderar das Relíquias, como fiz, no momento errado, pelos motivos errados. Se pusesse as mãos nelas, eu queria que fossem suas sem perigo. Você é o verdadeiro Senhor da Morte, porque o verdadeiro senhor não busca fugir da morte. Ele aceita que deve morrer, e compreende que há coisas piores, muito piores do que a morte no mundo dos viventes.
— E Voldemort nunca ouviu falar nas Relíquias?
— Acho que não, porque ele não reconheceu a Pedra da Ressurreição quando a transformou em Horcrux. Mas, mesmo que tivesse ouvido falar, Harry, duvido que se interessasse por qualquer delas, exceto a primeira. Não iria achar que precisasse da capa e, quanto à pedra, quem ele iria querer ressuscitar? Ele teme os mortos. Ele não ama.
— Mas o senhor esperava que ele saísse em busca da varinha?
— Tive certeza de que tentaria, desde que a sua varinha derrotou Voldemort no cemitério de Little Hangleton. A princípio, ele receou que você o tivesse vencido por possuir maior perícia. Uma vez que sequestrou Olivaras, porém, ele descobriu a existência dos núcleos gêmeos. Achou que isso explicava tudo. Entretanto, a varinha emprestada não apresentou melhor resultado contra a sua! Então, Voldemort, em vez de se perguntar que qualidade havia em você que tornava sua varinha tão forte, que dom você possuía que lhe faltava, naturalmente saiu à procura da única varinha que, diziam, derrotaria qualquer outra. Para ele, a Varinha das Varinhas se tornara uma obsessão que rivalizava à que tinha por você. Ele acredita que a Varinha das Varinhas elimina sua última fraqueza e o torna verdadeiramente invencível. Coitado do Severo...
— Se o senhor planejou morrer nas mãos de Snape, pretendia que ele acabasse dono da varinha, não?
— Admito que tive essa intenção, mas não se realizou como eu pretendi, não é?
— Não. Essa parte saiu diferente.
A criatura às costas deles estremeceu e gemeu, e Harry e Dumbledore continuaram sentados, sem falar, fazendo a pausa mais demorada até aquele momento. A compreensão do que aconteceria a seguir foi pouco a pouco se consolidando em Harry, nesses longos minutos, como a neve caindo suavemente.
— Tenho que voltar, não é?
— Isto depende de você.
— Tenho opção?
— Ah, sim — Dumbledore sorriu — Estamos em King’s Cross, não foi o que você disse? Acho que, se decidir não voltar, você poderia... digamos... tomar um trem.
— E aonde ele me levaria?
— Em frente — respondeu Dumbledore, com simplicidade.
Novo silêncio.
— Voldemort tem a Varinha das Varinhas.
— Verdade. Voldemort tem a Varinha das Varinhas.
— Mas o senhor quer que eu volte?
— Acho que se você escolher voltar, há uma chance de que ele seja liquidado para sempre. Não posso prometer. Mas de uma coisa eu sei, Harry, você tem menos a temer do que ele ao retornarem para cá.
Harry tornou a relancear a coisa em carne viva que tremia e engasgava na sombra, sob a cadeira distante.
— Não tenha piedade dos mortos, Harry. Tenha piedade dos vivos e, acima de tudo, dos que vivem sem amor. Ao regressar, você poderá assegurar que menos almas serão mutiladas, menos famílias serão destroçadas. Se isso lhe parecer um objetivo meritório, então, por ora, diremos adeus.
Harry assentiu e suspirou. Deixar esse lugar não seria tão difícil quanto fora entrar na Floresta, mas ali era quente, claro e tranquilo, e ele sabia que estaria voltando à dor e ao temor de outras perdas. Ele se ergueu, Dumbledore o acompanhou, e os dois se fitaram demoradamente.
— Me diga uma última coisa — disse Harry — Isso é real? Ou esteve acontecendo apenas em minha mente?
Dumbledore lhe deu um grande sorriso, e sua voz pareceu alta e forte aos ouvidos de Harry, embora a névoa clara estivesse baixando e ocultando seu vulto.
— Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isto significaria que não é real?







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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 34





— CAPÍTULO TRINTA E QUATRO —
DE VOLTA À FLORESTA



FINALMENTE, A VERDADE. Deitado com o rosto no carpete empoeirado do gabinete, onde no passado ele pensara estar aprendendo os segredos da vitória, Harry compreendeu, por fim, que não devia sobreviver. Sua tarefa era seguir calmamente para os braços abertos da Morte. No caminho, ele deveria dispor dos últimos vínculos de Voldemort com a vida, de modo que, ao se atirar à frente do bruxo, sem erguer uma varinha para se defender, o fim fosse limpo, e o serviço que deveria ter sido feito em Godric’s Hollow fosse concluído: nenhum viveria, nenhum poderia sobreviver.
Ele sentiu o coração bater violentamente no peito. Como era estranho que, em seu temor da morte, ele bombeasse com mais força, mantendo-o vivo. Teria, porém, que parar, e em breve. Seus batimentos estavam contados. Para quantos haveria tempo, quando se pusesse de pé e atravessasse o castelo pela última vez, para sair aos jardins e penetrar na Floresta?
O terror engolfou-o, ali deitado no chão, com aquele tambor fúnebre batendo em seu íntimo. Doeria morrer? Todas as vezes que julgara ter chegado a hora, e escapara, ele nunca realmente pensara na morte em si: sua vontade de viver sempre fora muito maior do que o seu medo de morrer. Contudo, agora não lhe ocorria tentar fugir, vencer Voldemort na corrida. Era o fim, ele sabia, e só lhe restava a coisa em si: morrer.
Se ao menos pudesse ter morrido naquela noite de verão quando deixara para sempre o número quatro da Rua dos Alfeneiros, quando a nobre varinha de pena de fênix o salvara! Se ao menos pudesse ter morrido como Edwiges, tão rápido, que nem sentiria que acontecera! Ou se pudesse ter se atirado à frente de uma varinha para salvar alguém que amasse... ele agora invejava até mesmo a morte dos seus pais.
A caminhada a sangue-frio para a própria destruição exigia uma forma diferente de bravura. Ele sentiu os dedos tremerem levemente e fez um esforço para controlá-los, embora ninguém pudesse vê-lo, os quadros nas paredes estavam todos vazios.
Lentamente, muito lentamente, ele se sentou, e, ao fazê-lo, se sentiu mais vivo e mais cônscio de seu corpo vivente do que jamais estivera. Por que nunca apreciara o milagre que ele era, cérebro, nervos e coração pulsante? Tudo isso se iria... ou pelo menos, ele os abandonaria. Respirava lenta e profundamente, e sua boca e garganta estavam muito secas, e seus olhos também.
A traição de Dumbledore quase não pesava. Naturalmente houvera um plano maior, Harry fora simplesmente tolo demais para enxergá-lo, percebia agora. Jamais questionara sua suposição de que Dumbledore o queria vivo. Agora entendia que a duração de sua vida sempre fora definida pelo tempo que gastaria para eliminar todas as Horcruxes.
Dumbledore transferira a ele a tarefa de destruí-las, e, obedientemente, ele continuara a cortar os laços que ligavam não apenas Voldemort, mas ele próprio, à vida! Que precisão, que elegância, não desperdiçar mais vidas, mas entregar a perigosa tarefa ao garoto que já estava marcado para o abate, e cuja morte não seria uma calamidade e sim mais um golpe contra Voldemort.
E Dumbledore estivera seguro de que Harry não se esquivaria, que prosseguiria até o fim, embora fosse o seu fim, porque ele se dera o trabalho de procurar conhecê-lo, não? Dumbledore sabia, tal como Voldemort, que Harry não deixaria ninguém morrer por ele, uma vez que descobrisse que estava em seu poder impedir isso. As imagens de Fred, Lupin e Tonks deitados, sem vida, no Salão Principal tornaram a invadir sua mente, e por um momento ele mal pôde respirar: a Morte se impacientava...
Mas Dumbledore o superestimara. Ele falhara: a cobra sobrevivera. Restaria ainda uma Horcrux, ligando Voldemort à terra, mesmo depois de Harry ser liquidado. Era verdade que isso representaria uma tarefa mais fácil para alguém. Perguntou-se quem faria isso... Rony e Hermione saberiam o que era preciso fazer, naturalmente... essa teria sido a razão por que Dumbledore queria que ele confiasse em mais duas pessoas... de modo que, se cumprisse o seu destino mais cedo, eles dessem continuidade à tarefa...
Semelhante à chuva batendo em uma janela fria, esses pensamentos tamborilavam na superfície dura da verdade incontroversa: ele devia morrer.
Eu devo morrerIsto deve findar.
Rony e Hermione pareciam estar muito longe, em um país longínquo, sentia como se tivessem se separado havia muito tempo.
Não haveria despedidas nem explicações, assim decidira. Era uma viagem que não poderiam empreender juntos, e as tentativas que os amigos fizessem para impedi-lo seriam uma perda de tempo preciosa. Baixou os olhos para o relógio de ouro arranhado que recebera no décimo sétimo aniversário.
Quase metade da hora que Voldemort fixara para sua rendição já transcorrera.
Ele se pôs de pé. Seu coração saltando contra as costelas como um pássaro frenético. Talvez ele soubesse que lhe restava muito pouco tempo, talvez estivesse decidido a completar os batimentos de uma vida antes de seu fim. Ele não olhou para trás ao fechar a porta do gabinete.
O castelo estava deserto. Sentiu-se um fantasma, atravessando-o sozinho, como se já tivesse morrido. Os bruxos dos retratos continuavam ausentes de suas molduras, o lugar estava soturnamente quieto, como se toda a sua força vital estivesse concentrada no Salão Principal, onde se comprimiam os mortos e os enlutados.
Harry vestiu a Capa da Invisibilidade e foi descendo os andares e, por último, a escadaria de mármore do Saguão de Entrada. Talvez uma parte infinitesimal dele tivesse esperança de ser percebida, de ser detida, mas a capa estava, como sempre, impenetrável, perfeita, e ele alcançou as portas da entrada sem empecilhos.
Então Neville quase colidiu com ele. Era um dos dois que traziam um cadáver dos jardins. Harry olhou para baixo e sentiu outra pancada surda no estômago: Colin Creevey. Embora menor de idade, devia ter voltado escondido como tinham feito Malfoy, Crabbe e Goyle. Ele parecia minúsculo na morte.
— Sabe de uma coisa? Posso carregá-lo sozinho, Neville — disse Olívio Wood, e colocou Colin sobre o ombro, como fazem os bombeiros, e levou-o para o Salão Principal.
Neville encostou-se no portal por um momento e secou a testa com o dorso da mão. Parecia um velho. Em seguida, voltou a descer a escada e entrou pela escuridão para resgatar mais corpos.
Harry virou-se para olhar o Salão Principal. As pessoas se movimentavam, tentavam consolar umas às outras, se ajoelhavam ao lado dos mortos, mas ele não viu nenhuma das que amava, nenhum vestígio de Hermione, Rony, Gina, nem dos outros Weasley, nem de Luna. Sentiu que teria dado todo o tempo que lhe sobrava para uma última olhada neles, mas, então, encontraria forças para parar de olhar?
Era melhor assim.
Ele desceu a escada e saiu para a escuridão. Eram quase quatro horas da manhã e a quietude mortal dos jardins dava a impressão de que todos prendiam a respiração, aguardando para ver se ele conseguiria fazer o que devia.
Harry caminhou em direção a Neville, que ia se curvando para outro cadáver.
— Neville.
— Caramba, Harry, você quase me fez enfartar!
Harry despira a Capa da Invisibilidade: a ideia acabara de lhe ocorrer, nascida de um desejo de garantir o desfecho.
— Onde é que você está indo sozinho? — perguntou Neville, desconfiado.
— É tudo parte do plano — respondeu Harry — Tem uma coisa que eu preciso fazer. Escute... Neville...
— Harry! — de repente o amigo se apavorou — Harry, você não está pensando em se entregar, está?
— Não — mentiu Harry, sem hesitação — Claro que não... é outra coisa. Mas eu talvez fique invisível por um tempo. Você conhece a cobra de Voldemort, Neville? Ele tem uma cobra enorme... chama-a de Nagini...
—Já ouvi falar... e daí?
— Ela tem que ser morta. Rony e Hermione sabem disso, mas caso eles...
O horror daquela possibilidade o sufocou por um momento, impedindo-o de continuar a falar. Recuperou, porém, o controle: isto era crítico, ele precisava ser como Dumbledore, manter a cabeça fria, garantir que houvesse substitutos, outros para dar prosseguimento. Dumbledore morrera na certeza de que três pessoas ainda sabiam das Horcruxes, agora, Neville tomaria o lugar de Harry: continuaria a haver três que conheciam o segredo.
— Se eles estiverem... ocupados... e você tiver a chance de...
— Matar a cobra?
— Matar a cobra — repetiu Harry.
— Certo, Harry. Você está ok, não está?
— Estou ótimo. Obrigado, Neville.
Neville, porém, agarrou Harry pelo pulso quando o amigo fez menção de se afastar.
— Nós todos vamos continuar a lutar, Harry. Você já sabe?
— É, eu...
A sensação de sufocamento cortou o fim da frase, ele não pôde continuar. Neville aparentemente não achou isso estranho. Deu uma palmada no ombro de Harry, soltou-o e saiu a procurar outros mortos.
Harry tornou a vestir a capa e continuou a andar. Havia mais alguém se movendo não muito longe, curvando-se para outro vulto deitado de bruços no chão. Ele estava a vários passos de distância quando reconheceu Gina.
Estacou. Ela estava debruçada sobre uma garota que sussurrava, chamando pela mãe.
— Está tudo bem — dizia Gina — Tudo ok. Vamos levar você para dentro.
— Mas quero ir para casa — murmurou a garota — Não quero mais lutar!
— Eu sei — disse Gina, e sua voz quebrou — Vai dar tudo certo.
Arrepios percorreram em ondas a pele de Harry. Ele queria gritar para a noite, queria que Gina soubesse que ele estava ali, queria que soubesse aonde estava indo. Queria que o fizessem parar, que o arrastassem de volta, que o mandassem para casa...
Contudo, ele estava em casa. Hogwarts era a primeira e melhor casa que conhecera. Ele, Voldemort e Snape, os garotos abandonados, tinham encontrado ali um lar...
Gina estava agora ajoelhada ao lado da garota ferida, segurando sua mão. Com um esforço supremo, Harry se obrigou a prosseguir. Pensou ter visto Gina olhar para os lados quando passou, e se perguntou se ela teria pressentido alguém andando por perto, mas ele não falou, e tampouco quis olhar para trás.
A cabana de Hagrid assomou na escuridão. Não havia luzes, nem o ruído de Canino arranhando a porta, seu latido bradando as boas-vindas, nenhuma das visitas que fizera a Hagrid, e o brilho da chaleira de cobre no fogo, os bolos com passas e os vermes gigantescos, e sua enorme cara barbuda, e Rony vomitando lesmas, e Hermione ajudando-o a salvar Norberta...
Ele continuou andando e, ao chegar à orla da Floresta, parou.
Um enxame de dementadores deslizava entre as árvores, ele sentia sua frialdade, e não teve certeza se seria capaz de atravessá-la são e salvo. Não lhe restavam forças para conjurar um Patrono. Já não conseguia controlar os seus tremores. Afinal, não era tão fácil morrer. Cada segundo que respirava, o cheiro do capim, o ar fresco no rosto, tudo era muito precioso: pensar que as pessoas tinham anos a fio, tempo para desperdiçar, tanto tempo que se arrastava, e ele se apegando a cada segundo. Simultaneamente, ele pensou que não seria capaz de continuar, e sabia que devia. O demorado jogo terminara, o pomo fora capturado, era hora de sair do ar...
pomo. Seus dedos desvigorados apalparam por um momento a bolsa que trazia ao pescoço e puxaram a bolinha.
Abro no fecho.
Respirando forte e rápido, Harry o contemplou. Agora que queria que o tempo passasse o mais lentamente possível, este parecia ter acelerado, e a compreensão sobreveio tão rápido que pareceu prescindir do pensamento. Este era o fecho. Este era o momento. Ele encostou o metal dourado nos lábios e sussurrou:
— Estou prestes a morrer.
A concha de metal se abriu. Ele baixou a mão trêmula, ergueu a varinha de Draco sob a capa e murmurou:
— Lumus!
A pedra negra com a fenda irregular ao centro estava aninhada nas duas metades do pomo. A Pedra da Ressurreição cortava a linha vertical que representava a Varinha das Varinhas. O triângulo e o círculo representando a capa e a pedra ainda eram perceptíveis.
E novamente Harry compreendeu, sem precisar pensar. Não fazia diferença trazê-los de volta, porque estava prestes a se reunir a eles. Não ia realmente buscá-los: eles estavam vindo buscá-lo. O garoto fechou os olhos, e virou a pedra na mão três vezes.
Soube que tinha acontecido, porque ouviu leves movimentos ao seu redor que sugeriam corpos frágeis pisando o chão terroso coberto de gravetos que marcava a orla externa da Floresta. Abriu os olhos e relanceou ao redor.
Não eram fantasmas nem propriamente corpos, isto ele via. Lembravam mais o Riddle que escapara do diário, havia tanto tempo, e aquela fora uma lembrança quase sólida. Menos substancial do que corpos viventes, mas muito mais do que fantasmas, eles vieram ao seu encontro e em cada rosto havia o mesmo sorriso amoroso.
Tiago tinha exatamente a mesma altura que Harry. Usava as roupas com que morrera, e seus cabelos estavam descuidados e arrepiados, e os óculos tortos como os do Sr. Weasley.
Sirius estava alto e bonito e muito mais jovem do que Harry o vira em vida. Andava com uma elegância natural, as mãos nos bolsos e um sorriso no rosto.
Lupin estava mais jovem também, e muito menos desleixado, e seus cabelos eram mais bastos e mais escuros. Parecia feliz de voltar a este lugar familiar, cenário de tantas divagações na adolescência.
O sorriso de Lílian era o maior. Ela afastou os longos cabelos para as costas ao se aproximar, e seus olhos verdes, tão semelhantes aos dele, examinaram seu rosto vorazmente, como se nunca tivesse tido tempo de olhá-lo o suficiente.
— Você tem sido tão corajoso!
Ele não pôde falar. Seus olhos se banquetearam nela, e lhe ocorreu que gostaria de ficar parado, contemplando-a para sempre, e que isto seria suficiente.
— Você está quase chegando — disse Tiago — Muito perto. Estamos... tão orgulhosos de você.
—Dói?
A pergunta infantil escapara dos lábios de Harry antes que ele pudesse contê-la.
— Morrer? Nem um pouco — respondeu Sirius — Mais rápido e mais fácil do que adormecer.
— E ele vai querer que seja rápido. Quer terminar logo — disse Lupin.
— Eu não queria que você tivesse morrido — disse Harry, as palavras saindo involuntariamente — Nenhum de vocês. Sinto muito...
Ele se dirigia mais a Lupin do que a qualquer dos demais, súplice.
—... logo depois de ter tido um filho... Remo, sinto muito...
— Eu também sinto. Lamento que nunca chegarei a conhecê-lo... mas ele saberá por que morri, e espero que entenda. Estive tentando construir um mundo em que ele pudesse viver uma vida mais feliz.
Uma brisa gelada que parecia emanar do coração da Floresta ergueu os cabelos na testa de Harry. Sabia que eles não o mandariam ir embora, que isto seria uma decisão dele.
— Vocês ficarão comigo?
— Até o fim — respondeu Tiago.
— Eles não poderão vê-los?
— Somos parte de você — disse Sirius — Invisíveis a todos os outros.
Harry olhou para a mãe.
— Fique perto de mim — disse baixinho.
E ele começou a andar.
O frio dos dementadores não o envolveu, atravessou-o com seus companheiros, e eles produziram o efeito de Patronos, e unidos marcharam entre as velhas árvores que cresciam muito juntas, seus ramos emaranhados, suas raízes repletas de nós e torcidas sob seus pés. Naquela escuridão, Harry segurou a capa bem junto do corpo, se embrenhando cada vez mais na Floresta, sem fazer ideia do lugar exato em que estava Voldemort, mas certo de que o encontraria. Ao seu lado, quase sem fazer ruído, caminhavam Tiago, Sirius, Lupin e Lílian, a presença deles era sua coragem e a razão pela qual era capaz de pôr um pé à frente do outro.
Sentia o corpo e a mente estranhamente desvinculados agora, suas pernas agiam sem comando consciente, como se ele fosse o passageiro, e não o motorista, do corpo que estava em vias de deixar. Os mortos que o escoltavam pela Floresta eram muito mais reais para ele do que os vivos que tinham ficado no castelo: Rony, Hermione, Gina, todos eles lhe pareciam fantasmas à medida que ele seguia tropeçando e escorregando em direção ao fim de sua vida, em direção a Voldemort...
Um baque e um sussurro: outra criatura vivente tinha se mexido ali perto. Harry parou sob a capa, espiou ao redor, atento, e sua mãe e seu pai, Lupin e Sirius pararam também.
— Alguém lá — ouviu-se a voz rouca muito próxima — Está usando uma Capa da Invisibilidade. Seria...?
Dois vultos emergiram de trás de uma árvore: as varinhas se iluminaram e Harry viu Yaxley e Dolohov examinando diretamente a escuridão que rodeava Harry, seus pais, Sirius e Lupin. Aparentemente não conseguiam ver nada.
— Decididamente, ouvi alguma coisa — disse Yaxley — Animal, será?
— Aquele doidão do Hagrid guardava um monte de coisas aqui — comentou Dolohov, espiando por cima do ombro.
Yaxley consultou o relógio.
— O tempo está quase se esgotando. Potter já gastou a hora dele. Acho que não vem.
— E o Lorde tinha certeza de que ele viria! Não vai ficar nada feliz.
— Melhor voltar — sugeriu Yaxley — Descobrir qual é o plano agora.
Ele e Dolohov deram meia-volta e se embrenharam na Floresta.
Harry seguiu-os, sabendo que o levariam exatamente aonde queria ir. Olhou para os lados, sua mãe lhe sorriu e seu pai acenou com a cabeça, encorajando-o.
Tinham andado apenas minutos quando Harry viu uma luz adiante, e Yaxley e Dolohov desembocaram em uma clareira que ele conhecera no passado como o hábitat do monstruoso Aragogue. Os restos de sua vasta teia ainda estavam ali, mas os descendentes que procriara tinham sido expulsos pelos Comensais da Morte, para defender sua causa.
Havia uma fogueira no meio da clareira, e sua luz incerta iluminava uma multidão completamente silenciosa de vigilantes Comensais. Alguns deles ainda usavam máscaras e capuzes, outros mostravam o rosto. Dois gigantes estavam sentados na periferia do grupo, projetando imensas sombras sobre a cena, suas fisionomias cruéis, talhadas como pedras.
Harry viu Greyback, sorrateiro, roendo as longas garras. Rowle, o grandalhão louro, enxugando o lábio sangrento. Viu Lúcio Malfoy, que transparecia derrota e terror, e Narcisa, cujos olhos estavam encovados e cheios de apreensão.
Todos os olhares estavam fixos em Voldemort, em pé com a cabeça curvada, e as mãos brancas cruzadas sobre a Varinha das Varinhas, na frente do peito. Poderia estar rezando, ou então contando mentalmente, e Harry, ainda parado à margem da cena, pensou absurdamente em uma criança contando em uma brincadeira de esconde-esconde. Atrás de sua cabeça, ainda girando e se enroscando, a grande cobra Nagini flutuava na cintilante gaiola encantada como uma auréola monstruosa.
Quando Dolohov e Yaxley se reuniram ao círculo, Voldemort ergueu a cabeça.
— Não há sinal dele, Milorde — informou Dolohov.
A expressão de Voldemort não se alterou. Os olhos vermelhos pareciam incandescentes à luz da fogueira. Lentamente, ele segurou a Varinha das Varinhas entre os longos dedos.
— Milorde...
Belatriz falara: estava sentada mais próxima de Voldemort, desgrenhada, seu rosto um pouco manchado, mas, sob outros aspectos, intocado. Voldemort ergueu a mão para silenciá-la, e ela nada mais disse, mas espreitou-o com fascinada adoração.
— Pensei que ele viria — comentou Voldemort em sua voz clara e aguda, seus olhos postos nas línguas de fogo — Esperava que viesse.
Ninguém falou.
Todos pareciam tão apavorados quanto Harry, cujo coração agora saltava contra as costelas como se tivesse decidido escapar do corpo que estava prestes a descartar. Suas mãos estavam suadas, e ele despiu a Capa da Invisibilidade e guardou-a, com a varinha, dentro das vestes. Não queria se sentir tentado a lutar.
— Aparentemente... me enganei — disse Voldemort.
— Não se enganou.
Harry falou o mais alto que pôde, com toda a força que conseguiu reunir: não queria parecer amedrontado. A Pedra da Ressurreição escorregou dos seus dedos dormentes e, pelo canto dos olhos, ele viu seus pais, Sirius e Lupin desaparecerem quando ele avançou para a claridade. Naquele momento, sentiu que ninguém mais importava exceto Voldemort.
Havia apenas os dois.
A ilusão se desfez tão logo sobreveio. Os gigantes bradaram quando os Comensais da Morte se ergueram juntos, e ouviram-se muitos gritos, exclamações e até risadas. Voldemort se imobilizara onde estava, mas seus olhos vermelhos focalizaram Harry, e o observaram enquanto o garoto caminhava ao seu encontro, sem nada a separá-los a não ser a fogueira.
Então, uma voz berrou...
— HARRY! NÃO!
Ele se virou: Hagrid estava amarrado dobrado e preso a uma árvore próxima. Seu corpo maciço sacudiu os galhos no alto quando ele se debateu desesperado.
— NÃO! NÃO! HARRY, QUE É QUE VOCÊ...
— CALADO! — berrou Rowle, e, com um aceno de varinha, silenciou Hagrid.
Belatriz, que se pusera em pé de um salto, olhava ansiosa de Voldemort para Harry, o peito arfante. As únicas coisas que se moviam eram as chamas e a cobra, se enrolando e desenrolando na gaiola atrás da cabeça de Voldemort.
Harry sentia sua varinha junto ao peito, mas não fez tentativa alguma para sacá-la. Sabia que a cobra estava muito bem protegida, sabia que, se conseguisse apontar a varinha para Nagini, cinquenta feitiços o atingiriam primeiro.
E Voldemort e Harry continuaram a se encarar, e agora o Lorde inclinou ligeiramente a cabeça para o lado, examinando o garoto parado à sua frente, e um sorriso singularmente sem alegria encrespou sua boca sem lábios.
— Harry Potter — disse ele, muito suavemente. Sua voz poderia fazer parte das fagulhas da fogueira — O Menino Que Sobreviveu.
Nenhum dos Comensais da Morte se moveu. Aguardavam: tudo aguardava. Hagrid se debatia, e Belatriz ofegava, e Harry inexplicavelmente pensou em Gina, em seu olhar radioso e na sensação dos seus lábios nos dele...
Voldemort erguera a varinha. Sua cabeça ainda estava inclinada para um lado, como a de uma criança curiosa, imaginando o que aconteceria se ele prosseguisse. Harry encarou os olhos vermelhos e desejou que acontecesse naquele instante, rapidamente, enquanto ele ainda se mantinha de pé, antes que se descontrolasse, antes que traísse o seu medo...
Ele viu a boca se mover e um clarão verde, e tudo desapareceu.








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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 33





— CAPÍTULO TRINTA E TRÊS —
A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE



HARRY PERMANECEU AJOELHADO ao lado de Snape, simplesmente contemplando-o, até que, de súbito, uma voz aguda e fria falou tão perto que ele se pôs de pé com um salto, o frasco bem seguro na mão, pensando que Voldemort tivesse voltado à sala.
A voz do Lorde das Trevas ressoou nas paredes e no chão, e Harry percebeu que o bruxo estava se dirigindo a Hogwarts e a toda a área vizinha, para que os residentes de Hogsmeade e todos que ainda lutavam no castelo o ouvissem tão claramente como se estivesse ao lado deles, bafejando-lhes na nuca, à distância de um golpe mortal.
Vocês lutaram — disse a voz — Valorosamente. Lord Voldemort sabe valorizar a bravura. Vocês sofreram pesadas baixas. Se continuarem a resistir a mim, todos morrerão, um a um. Não quero que isto aconteça. Cada gota de sangue mágico derramado é uma perda e um desperdício. Lord Voldemort é misericordioso. Ordeno que as minhas forças se retirem imediatamente. Vocês têm uma hora. Deem um destino digno aos seus mortos. Cuidem dos seus feridos. Eu me dirijo agora diretamente a você, Harry Potter. Você permitiu que os seus amigos morressem por você em lugar de me enfrentar pessoalmente. Esperarei uma hora na Floresta Proibida. Se ao fim desse prazo, você não tiver vindo ao meu encontro, não tiver se entregado, então a batalha recomeçará. Desta vez eu participarei da luta, Harry Potter, e o encontrarei, e castigarei até o último homem, mulher e criança que tentou escondê-lo de mim. Uma hora.
Ambos, Rony e Hermione, sacudiram a cabeça freneticamente, olhando para Harry.
— Não dê ouvidos a ele — disse Rony.
— Tudo dará certo — acrescentou Hermione, irrefletidamente — Vamos voltar ao castelo, se ele foi para a Floresta precisaremos pensar em um novo plano...
Ela olhou para o corpo de Snape e voltou correndo ao túnel. Rony seguiu-a. Harry recolheu a Capa da Invisibilidade tornou a lançar um olhar a Snape. Não sabia o que sentir, exceto choque pela maneira como fora morto, e a razão alegada...
Eles voltaram engatinhando pelo túnel, calados, e Harry ficou em dúvida se Rony e Hermione ainda conseguiam ouvir o eco das palavras de Voldemort em sua cabeça, como ele.
Você permitiu que os seus amigos morressem por você em lugar de me enfrentar pessoalmente. Esperarei uma hora na Floresta Proibida... uma hora...
Pequenos embrulhos pareciam coalhar o gramado em frente ao castelo. Devia faltar pouco mais de uma hora para amanhecer, mas estava um breu. Os três se apressaram em direção aos degraus de pedra da entrada. Um tamanco solitário, do tamanho de um pequeno barco, se achava abandonado ali. Não havia sinal de Grope nem do seu atacante.
O castelo estava anormalmente silencioso. Não havia clarões agora, nem estampidos, nem gritaria. As lajes do deserto Saguão de Entrada estavam manchadas de sangue. As esmeraldas continuavam espalhadas pelo piso ao lado de pedaços de mármore e lascas de madeira. Parte do balaústre fora destruído.
— Onde estão todos? — sussurrou Hermione.
Rony saiu à frente para o Salão Principal.
Harry parou à porta.
As mesas das Casas tinham sido retiradas, e o salão estava lotado. Os sobreviventes formavam grupos, abraçando uns aos outros. Na plataforma, os feridos recebiam atendimento de Madame Pomfrey e seus auxiliares. Firenze estava entre os feridos, seu flanco sangrava e ele se agitava deitado, incapaz de se levantar.
Os mortos estavam enfileirados no meio do salão.
Harry não viu o corpo de Fred, porque a família o rodeava. Jorge estava ajoelhado à cabeça do irmão gêmeo, a Sra. Weasley se deitara sobre o seu peito, o corpo sacudindo, o Sr. Weasley acariciava os cabelos dela e as lágrimas desciam em cascata pelo seu rosto. Sem dizer palavra a Harry, Rony e Hermione se afastaram. Harry viu Hermione se aproximar de Gina, cujo rosto estava inchado e borrado, e abraçou-a. Rony se juntou a Gui, Fleur e Percy, que passou o braço pelos ombros do irmão.
Quando Gina e Hermione se aproximaram do resto da família, Harry pôde ver com clareza os corpos ao lado de Fred: Remo e Tonks, pálidos e imóveis, a fisionomia plácida, aparentemente dormindo sob o escuro teto encantado.
O Salão Principal pareceu fugir, se tornar menor, encolher, quando Harry recuou tonto do portal. Não conseguia respirar. Não conseguia suportar a visão dos outros corpos, saber quem mais morrera por ele. Não conseguia suportar a ideia de se reunir aos Weasley, não conseguia olhar em seus olhos, pois se ele tivesse se sacrificado em primeiro lugar, Fred talvez não tivesse morrido...
Ele deu as costas e subiu, rápido, a escadaria de mármore.
Lupin, Tonks... ele ansiava por não sentir... desejava poder arrancar seu coração, suas entranhas, tudo que estava gritando dentro dele...
O castelo estava completamente vazio, até os fantasmas pareciam ter se reunido ao funeral coletivo no Salão Principal. Harry correu sem parar, apertando o frasco de cristal contendo as últimas lembranças de Snape, e não desacelerou até alcançar a gárgula de pedra que guardava o gabinete do diretor.
— Senha?
— Dumbledore! — disse, sem pensar, porque era quem ele ansiava por ver, e, para sua surpresa, a gárgula se afastou revelando a escada circular que protegia.
Quando, porém, Harry irrompeu pelo gabinete, encontrou-o mudado. Os retratos pendurados a toda volta estavam vazios. Nem um único diretor ou diretora ficara para vê-lo: pelo visto, todos tinham saído voando, atravessado os quadros que se alinhavam pelo castelo, para poder ter uma boa visão dos acontecimentos.
Harry olhou desesperado para o quadro deserto de Dumbledore, diretamente atrás da cadeira do diretor, e lhe deu as costas. A Penseira de pedra estava no armário onde sempre estivera: Harry carregou-a para cima da escrivaninha e despejou as lembranças de Snape na grande bacia com a borda de runas. Fugir para a cabeça de outro era um alívio abençoado... nada que mesmo alguém como Snape tivesse lhe deixado poderia ser pior do que os seus próprios pensamentos. As lembranças giraram, branco-prateadas e estranhas, e, sem hesitar, possuído de um sentimento de irrefletido abandono, como se isso pudesse aliviar a tortura do seu pesar, Harry mergulhou.
Caiu de cabeça em um lugar ensolarado e seus pés encontraram um chão morno. Quando se endireitou, viu que estava em um parquinho infantil quase deserto.
Uma enorme chaminé solitária dominava o horizonte distante. Duas meninas se balançavam para frente e para trás, e um menino magricela as observava, de trás de uma moita de arbustos. Seus cabelos negros eram demasiado longos e suas roupas tão díspares que isso até parecia intencional: jeans excessivamente curto, um casaco enxovalhado e tão largo que poderia ter pertencido a um adulto, uma camisa estranha, com aspecto de bata.
Harry se acercou do garoto. Snape não parecia ter mais de nove ou dez anos, macilento, pequeno, rijo. Havia uma indisfarçável cobiça em seu rosto magro ao espiar a mais jovem das meninas que se balançava mais alto do que a irmã.
— Lílian, não faz isso! — gritava a mais velha.
A garota, porém, soltava o balanço na altura máxima do arco que descrevia e voava no ar, literalmente voava, atirava-se para o céu com uma grande gargalhada e, em vez de cair no asfalto do parquinho, pairava no ar como uma artista de trapézio, permanecendo no alto tempo demais, aterrissando leve demais.
— Mamãe disse para você não fazer!
Petúnia parou o próprio balanço arrastando os calcanhares das sandálias no chão, produzindo um forte atrito, depois saltou, com as mãos nos quadris.
— Mamãe disse que você não podia, Lílian!
— Mas eu estou ótima — respondeu Lílian, ainda rindo — Túnia, dá uma olhada. Veja o que eu sei fazer.
Petúnia relanceou a sua volta. O parquinho estava deserto exceto pelas duas e, embora as garotas ignorassem, Snape. Lílian apanhara uma flor caída na moita em que o garoto espreitava. Petúnia se aproximou, evidentemente dividida entre a curiosidade e a desaprovação. Lílian esperou a irmã chegar suficientemente perto para poder ver bem, então estendeu a palma da mão. A flor estava ali, abrindo e fechando as pétalas, como uma bizarra ostra com muitos lábios.
— Para com isso! — guinchou Petúnia.
— Não estou machucando ninguém — respondeu Lílian, mas fechou a flor na mão e atirou-a no chão.
— Não é direito — reclamou Petúnia, mas seus olhos tinham acompanhado o voo da flor até o chão e se detiveram nela — Como é que você faz isso? — acrescentou, e havia um claro desejo em sua voz.
— É óbvio, não é? — Snape não conseguira mais se conter e saltara de trás da moita.
Petúnia gritou e voltou correndo para os balanços, mas Lílian, embora visivelmente assustada, não arredou pé. Snape pareceu se arrepender de ter se mostrado. Um colorido baço subiu às suas bochechas pálidas quando olhou para Lílian.
— O que é óbvio? — perguntou ela.
Snape tinha um ar de nervosa excitação. Com um olhar rápido à distante Petúnia, agora parada ao lado dos balanços, ele baixou a voz e disse:
— Sei o que você é.
— Como assim?
— Você é... você é uma bruxa — sussurrou Snape.
Ela se ofendeu.
— Não é bonito dizer isso a uma pessoa!
Ela deu as costas, empinou o nariz e se afastou com firmeza em direção à irmã.
— Não! — chamou Snape. Estava agora muito vermelho, e Harry se perguntou por que não tirava aquele casaco ridiculamente grande, a não ser que quisesse esconder a bata que usava por baixo. Ele saiu atrás das garotas abanando o casaco, já parecendo o absurdo morcego que veio a se tornar em adulto.
As irmãs o avaliaram, unidas em sua desaprovação, ambas se segurando na armação do balanço como se fosse um pique.
— Você é — disse Snape a Lílian — Você é uma bruxa. Estive observando um tempo. Mas não é uma coisa ruim. Minha mãe é, eu sou um bruxo.
A risada de Petúnia foi um balde de água fria.
— Bruxo! — guinchou ela, retomando a coragem, agora que se refizera do choque de sua inesperada aparição — Eu sei quem você é. Você é aquele garoto Snape! Mora na Rua da Fiação, na beira do rio — disse Petúnia à irmã, deixando evidente, pelo seu tom, que considerava o endereço uma fraca recomendação — Por que estava nos espionando?
— Não estava espionando — respondeu Snape, vermelho e constrangido, os cabelos sujos à claridade do sol — Não espionaria você, pode ter certeza — acrescentou vingativo — Você é uma trouxa.
Embora Petúnia não entendesse a palavra, o tom não deixava dúvida.
— Lílian, anda, vamos embora! — disse esganiçada.
Lílian obedeceu imediatamente à irmã, fazendo cara feia para Snape ao se afastar. Ele ficou parado observando-as se dirigirem ao portão do parquinho, e Harry, o único que restara ali, reconheceu o amargo desapontamento de Snape e compreendeu que o bruxo planejara aquele momento há muito tempo e que tudo saíra errado...
A cena se dissolveu e, antes que Harry tomasse consciência, uma nova se formara ao seu redor. Achava-se agora em um arvoredo. Via o rio banhado de sol cintilando entre os troncos. As sombras projetadas pelas árvores produziam um círculo de sombra verde e fresca. Snape agora despira o casaco; sua bata esquisita causava menos estranheza à meia-luz.
—... e o Ministério pode punir você se usar magia fora da escola, você recebe cartas.
— Mas eu usei magia fora da escola!
— Não é o nosso caso. Ainda não temos varinhas. Não castigam quando a gente é criança e não consegue se controlar. Mas quando se faz onze anos — ele acenou a cabeça com autoridade — E começam a nos ensinar, então temos que maneirar.
Houve um breve silêncio. Lílian apanhara um gravetinho no chão e girou-o no ar, e Harry percebeu que ela estava imaginando faíscas saindo de sua ponta. Ela largou o graveto, se inclinou para o garoto e perguntou:
— Isso é verdade, não é? Não é uma brincadeira? Petúnia diz que você está mentindo. Petúnia diz que Hogwarts não existe. É verdade, não é?
— É verdade para nós — respondeu Snape — Não para ela. Mas nós receberemos a carta, você e eu.
— Sério? — sussurrou Lílian.
— Sem a menor dúvida — e mesmo com os seus cabelos mal cortados e suas roupas descombinadas, ele era uma figura estranhamente impressionante, esparramado à sua frente, esbanjando confiança no próprio destino.
— E realmente vai ser entregue por uma coruja? — sussurrou Lílian.
— Normalmente é. Mas você é nascida trouxa, então alguém da escola terá de vir explicar aos seus pais.
— Faz diferença ser nascida trouxa?
Snape hesitou. Seus olhos negros, ansiosos à sombra esverdeada, percorreram o rosto pálido e os cabelos acaju da garota.
— Não — garantiu ele — Não faz a menor diferença.
— Que bom — disse Lílian, se descontraindo: era evidente que andara preocupada.
— Você tem muita magia. Eu vi. Todas as vezes que estive espiando você.
Sua voz foi se distanciando; ela não estava mais ouvindo, deitara-se no chão coberto de folhas e contemplava a abóbada de folhas no alto. Ele a observava tão avidamente quanto o fizera no parquinho.
— Como vão as coisas em sua casa? — perguntou Lílian.
Um pequeno vinco apareceu entre os olhos dele.
— Ótimas.
— Eles não estão mais brigando?
— Ah, sim, continuam brigando — ele apanhou um punhado de folhas e começou a rasgá-las, aparentemente sem notar o que estava fazendo — Mas não vai demorar muito e logo terei ido embora.
— O seu pai não gosta de magia?
— Ele não gosta muito de nada.
— Severo?
Um pequeno sorriso curvou os cantos da boca de Snape ao ouvi-la pronunciar o seu nome.
— Quê?
— Me fale outra vez dos dementadores.
— Para que quer saber sobre eles?
— Se eu usar magia fora da escola...
— Não entregariam você aos dementadores só por isso! São para as pessoas que fazem coisas realmente ruins. Os dementadores guardam a prisão dos bruxos, Azkaban. Você não vai para Azkaban, você é muito...
Ele corou novamente e rasgou mais folhas. Então, um leve farfalhar atrás de Harry o fez se virar: Petúnia, escondida atrás de uma árvore, se desequilibrara.
— Túnia! — exclamou Lílian, havia surpresa e boas-vindas em sua voz, mas Snape saltara em pé.
— Quem está espionando agora? — gritou — Que é que você quer?
Petúnia ficou ofegante, assustada por ter sido descoberta. Harry viu que se concentrava à procura de alguma coisa para dizer que o magoasse.
— Afinal, o que é isso que você está vestindo? — perguntou ela, apontando para o peito de Snape — A blusa da sua mãe?
Ouviram um estalo: caíra um galho na cabeça de Petúnia. Lílian gritou; o galho bateu no ombro da irmã, que cambaleou e caiu no choro.
— Túnia!
Petúnia, porém, estava fugindo.
Lílian virou-se para Snape.
— Você fez isso acontecer?
— Não — em seu rosto havia desafio e medo.
— Fez! — ela foi se afastando dele — Fez, sim! Você a machucou!
— Não... não fiz!
A mentira, no entanto, não convenceu Lílian, lançando-lhe um último olhar fulminante, ela saiu correndo do arvoredo atrás da irmã, deixando Snape com um ar infeliz e confuso...
A cena se reformulou.
Harry olhou para os lados: estava na plataforma nove e meia com Snape ao seu lado, ligeiramente curvo, ao lado de uma mulher magra de rosto pálido e azedo, parecidíssima com ele.
O garoto observava uma família de quatro pessoas não muito longe. As duas garotas um pouco separadas dos pais. Lílian parecia estar justificando alguma coisa para a irmã; Harry aproximou-se para ouvir.
—... desculpe, Túnia, me desculpe! Escute... — ela segurou a mão da irmã e apertou-a, embora Petúnia tentasse se desvencilhar — Talvez quando eu estiver lá... não, escute, Túnia! Talvez quando eu estiver lá, eu possa procurar o Prof. Dumbledore e convencê-lo a mudar de ideia!
— Eu não... quero... ir! — disse Petúnia, ela puxou com força a mão do aperto da irmã — Você acha que eu quero ir para um castelo idiota e aprender a ser... ser...
O seu olhar percorreu a plataforma, passou pelos gatos que miavam no colo dos seus donos, pelas corujas que esvoaçavam piando umas para as outras nas gaiolas, pelos estudantes, alguns já usando longas vestes pretas, embarcando os malões no trem de locomotiva vermelha ou então se cumprimentando com gritos de alegria, depois de um verão separados.
—... você acha que quero ser um... um bicho estranho?
Os olhos de Lílian se encheram de lágrimas quando Petúnia conseguiu largar a mão dela.
— Não sou um bicho estranho — respondeu Lílian — Que coisa horrível para dizer.
— É para onde você vai — insistiu Petúnia, com gosto — Uma escola especial para bichos estranhos. Você e aquele garoto Snape... bizarros, é o que vocês são. É bom que sejam isolados das pessoas normais. É para a nossa segurança.
Lílian olhou em direção aos seus pais, que examinavam a plataforma com um ar de entusiástico prazer, absorvendo o cenário. Então, ela voltou o olhar para a irmã e sua voz era suave e cruel.
— Você não achou que era uma escola para anormais quando escreveu ao diretor suplicando que a aceitasse.
Petúnia ficou escarlate.
— Suplicando? Não supliquei!
— Eu vi a resposta dele. Foi muito bondosa.
— Você não devia ter lido... — sussurrou Petúnia — Era minha e particular... como pôde...?
Lílian se traiu ao dar uma olhada em Snape parado ali perto. Petúnia ofegou.
— Foi aquele garoto que descobriu! Você e aquele garoto andaram espionando o meu quarto!
— Não... não espionando... — agora Lílian estava na defensiva — Severo viu o envelope, e não pôde acreditar que uma trouxa tivesse escrito para Hogwarts, foi isso! Ele diz que deve haver bruxos infiltrados nos correios que se encarregam de...
— Pelo visto, os bruxos metem o nariz em tudo! — replicou Petúnia, agora tão pálida quanto estivera corada — Anormal! — ela cuspiu na irmã e voltou acintosamente para o lado dos pais...
A cena se dissolveu mais uma vez.
Snape estava andando apressado pelo corredor do Expresso de Hogwarts enquanto o veículo sacudia pelos campos. Já trocara as vestes da escola, talvez aproveitando a primeira oportunidade para despir suas horríveis roupas de trouxa. Finalmente, parou à porta de um compartimento onde um grupo de garotos barulhentos conversava. Encolhida no canto ao lado da janela, estava sentada Lílian, o rosto colado na vidraça.
Snape abriu a porta do compartimento e se sentou em frente à garota. Ela lhe lançou um breve olhar e tornou a voltar sua atenção para a janela. Estivera chorando.
— Não quero falar com você — disse, em tom crispado.
— Por que não?
— Túnia me od... odeia. Porque vimos aquela carta do Dumbledore.
— E daí?
Ela lhe lançou um olhar de profundo desagrado.
— E daí que ela é minha irmã!
— Ela é só uma... — Ele se refreou depressa; Lílian, ocupada demais em secar os olhos discretamente, não o ouviu — Mas nós vamos! — exclamou ele, incapaz de conter a exaltação na voz — Isso é o que conta! Estamos viajando para Hogwarts!
Ela concordou, enxugando os olhos, e, apesar de não querer, deu um meio sorriso.
— É melhor você entrar para a Sonserina — disse Snape, animado ao vê-la menos triste.
— Sonserina?
Um dos garotos que dividia com eles o compartimento, e até aquele momento não mostrara o menor interesse em Lílian e Snape, olhou para o lado ao ouvir aquele nome, e Harry, cuja atenção estivera totalmente concentrada nos dois ao lado da janela, viu seu pai: magro, cabelos negros como os de Snape, mas com aquele ar indefinível de alguém que foi bem cuidado, até adorado, que visivelmente faltava a Snape.
— Quem quer ir para a Sonserina? Acho que eu desistiria da escola, você não? — Tiago perguntou a um garoto esparramado nos assentos defronte a ele, e, com um sobressalto, Harry percebeu que era Sirius. Sirius não riu.
— Toda a minha família foi da Sonserina.
— Caramba — replicou Tiago — E eu que pensei que você fosse legal!
Sirius riu.
— Talvez eu quebre a tradição. Para qual você iria se pudesse escolher?
Tiago ergueu uma espada invisível.
— “Grifinória, a morada dos destemidos!”. Como o meu pai.
Snape deu um muxoxo de descaso.
Tiago se virou para ele.
— Algum problema?
— Não — retrucou Snape, embora seu sorrisinho de deboche dissesse o contrário — Se você prefere ter mais músculo do que cérebro...
— E para onde está esperando ir, uma vez que não tem nenhum dos dois? — interpôs Sirius.
Tiago deu gostosas gargalhadas. Lílian se empertigou, ruborizada, e olhou de Tiago para Sirius com ar de desagrado.
— Vamos, Severo, vamos procurar outro compartimento.
— Oooo...
Tiago e Sirius imitaram o seu tom de superioridade, Tiago tentou fazer Snape tropeçar quando ele passou.
— A gente se vê, Ranhoso! — uma voz gritou quando a porta do compartimento bateu...
Mais uma vez a cena se dissolveu...
Harry estava atrás de Snape, ambos observando as mesas iluminadas a velas, repletas de rostos extasiados. Então, a Profª. McGonagall chamou:
— Evans, Lílian!
Ele observou a mãe se adiantar de pernas trêmulas e se sentar no banquinho bambo. A professora deixou cair o Chapéu Seletor sobre sua cabeça, e, mal se passara um segundo após tocar seus cabelos acaju, o chapéu anunciou: “Grifinória!”.
Harry ouviu Snape soltar um pequeno gemido. Lílian tirou o chapéu, devolveu-o à Profª. McGonagall, e correu ao encontro dos alunos da Grifinória que a aplaudiam, mas a caminho se virou para olhar Snape, e havia um sorriso triste no rosto dela. Harry viu Sirius escorregar no banco para dar espaço a Lílian. Ela deu uma olhada e pareceu reconhecê-lo do trem, cruzou os braços e, com firmeza, virou-lhe as costas. A chamada continuou. Harry observou Lupin, Pettigrew e seu pai se reunirem a Lílian e Sirius à mesa da Grifinória. Por fim, quando restavam apenas dez estudantes a serem selecionados, a Profª. McGonagall chamou Snape.
Harry acompanhou-o ao banquinho, viu-o colocar o chapéu na cabeça. “Sonserina!”, anunciou o Chapéu Seletor. E Severo Snape andou para o lado oposto do salão, longe de Lílian, onde os alunos da Casa o aplaudiam e Lúcio Malfoy, com um crachá de monitor brilhando no peito, deu-lhe uma palmadinha nas costas quando Snape se sentou ao seu lado...
E a cena mudou...
Lílian e Snape atravessavam o pátio do castelo, discutindo abertamente. Harry se apressou a alcançá-los e escutar. Quando chegou perto, percebeu o quanto ambos haviam crescido: alguns anos pareciam ter transcorrido desde a seleção.
—... pensei que fôssemos amigos? — reclamava Snape — Grandes amigos?
— Somos, Sev, mas não gosto de um pessoal com quem você anda! Desculpe, mas detesto Avery e Mulciber! Mulciber! O que vê nele, Sev? Me dá arrepios! Você sabe o que ele tentou fazer com a Maria Macdonald outro dia?
Lílian chegou a uma pilastra e se encostou, com os olhos erguidos para o rosto magro e macilento.
— Aquilo não foi nada. Foi uma brincadeira, só isso...
— Foi Magia das Trevas, e se você acha que isso é brincadeira...
— E aquelas coisas que Potter e os amigos dele aprontam? — retrucou Snape. Seu rosto corou ao dizer isso, aparentemente incapaz de refrear o seu rancor.
— E onde é que o Potter entra nisso? — perguntou Lílian.
— Eles saem escondidos à noite. Tem alguma coisa esquisita naquele Lupin. Aonde é que ele sempre vai?
— Ele é doente. Dizem que é doente.
— Todo mês na lua cheia?
— Conheço a sua teoria — replicou Lílian, e seu tom era frio — Afinal, por que você é tão obcecado por eles? Por que se importa com o que eles fazem à noite?
— Só estou tentando lhe mostrar que eles não são tão maravilhosos quanto todo o mundo parece pensar.
A intensidade do seu olhar a fez corar.
— Mas eles não usam Magia das Trevas. — Lílian baixou a voz — E você está sendo realmente ingrato. Me contaram o que aconteceu outra noite. Você estava bisbilhotando naquele túnel do Salgueiro Lutador e Tiago Potter salvou você de sei lá o que tem lá embaixo...
O rosto de Snape se contorceu e ele engrolou:
— Salvou? Salvou? Você acha que ele estava bancando o herói? Ele estava salvando o próprio pescoço e o dos amigos também! Você não vai... eu não vou deixar você...
— Me deixar? Me deixar?
Os vivos olhos verdes de Lílian se estreitaram.
Snape retrocedeu na mesma hora.
— Eu não quis dizer... só não quero ver você fazer papel de boba... ele gosta de você, Tiago Potter gosta de você! — as palavras davam a impressão de serem arrancadas dele contra sua vontade — E ele não é... todo o mundo acha... grande herói de quadribol...
A amargura e a antipatia que Snape sentia deixavam-no incoerente, e as sobrancelhas de Lílian subiam sem parar em sua testa.
— Eu sei que Tiago Potter é um biltre arrogante — disse ela, cortando Snape — Não preciso que você me diga. Mas a ideia que Mulciber e Avery fazem do que seja brincadeira é simplesmente maligna. Maligna, Sev. Não entendo como você pode ser amigo deles.
Harry duvidava que Snape tivesse sequer escutado as críticas de Lílian a Mulciber e Avery. No momento em que ela insultara Tiago Potter, todo o seu corpo se descontraiu, e, quando se separaram, havia uma nova leveza no andar de Snape...
E a cena se dissolveu...
De novo, Harry observou Snape deixar o salão principal, após prestar o exame de Defesa Contra as Artes das Trevas para obtenção do N.O.M., sair do castelo sem destino e, distraído, parar perto da bétula onde Tiago, Sirius, Lupin e Pettigrew estavam sentados juntos. Desta vez, porém, Harry guardou distância, porque sabia o que tinha acontecido depois que Tiago pendurou Severo no ar para atormentá-lo; sabia o que tinha sido feito e dito, e não lhe daria prazer algum tornar a assistir. Ele viu quando Lílian se reuniu ao grupo e saiu em defesa de Snape. A distância, ouviu o grito de Snape para ela em sua fúria e humilhação, a palavra imperdoável: “Sangue-Ruim”.
A cena mudou...
— Me desculpe.
— Não estou interessada.
— Me desculpe!
— Poupe seu fôlego.
Era noite. Lílian, de robe, estava parada de braços cruzados diante do retrato da Mulher Gorda, à entrada da Torre de Grifinória.
— Eu só saí porque Maria me disse que você estava ameaçando dormir aqui.
— Estava. Teria feito isso. Nunca quis chamar você de Sangue-Ruim, simplesmente me...
— Escapou? — não havia piedade na voz de Lílian — É tarde demais. Há anos dou desculpas para o que você faz. Nenhum dos meus amigos consegue entender sequer por que falo com você. Você e seus preciosos amiguinhos Comensais da Morte: está vendo, você nem nega! Nem nega que é isso que vocês pretendem ser! Você mal pode esperar para se reunir a Você-Sabe-Quem, não é?
Ele abriu a boca, mas tornou a fechá-la sem falar.
— Não posso mais fingir. Você escolheu o seu caminho, eu escolhi o meu.
— Não... escute, eu não quis...
—... me chamar de Sangue-Ruim? Mas você chama de Sangue-Ruim todos que nasceram como eu, Severo. Por que eu seria diferente?
Ele se debateu, prestes a responder, mas, com um olhar de desprezo, Lílian lhe deu as costas e atravessou o buraco do retrato...
O corredor se dissolveu, e a cena seguinte demorou um pouquinho a se formar: Harry teve a impressão de estar sobrevoando formas e cores mutantes até que o cenário se solidificou e ele se viu parado no escuro, no cume de um morro, abandonado e frio, o vento assoviando entre os galhos de umas poucas árvores desfolhadas.
O Snape adulto arfava, virava-se no mesmo lugar, a mão apertando com força a varinha, esperando alguma coisa ou alguém... seu medo contagiou Harry, embora o garoto soubesse que não podia ser atingido, e ele espiou por cima do ombro, imaginando o que Snape estaria aguardando...
Então, um feixe denteado de ofuscante luz branca cortou o ar: Harry pensou em raio, mas Snape caíra de joelhos e sua varinha voara da mão.
— Não me mate!
— Não era a minha intenção.
Qualquer aviso da aparatação de Dumbledore fora abafado pelo ruído do vento passando pelos galhos. Ele surgiu diante de Snape com as vestes drapejando contra o corpo e o rosto iluminado de baixo para cima pela varinha.
— Então, Severo? Qual é a mensagem que Lord Voldemort tem para mim?
— Não... nenhuma mensagem, estou aqui por conta própria!
Snape torcia as mãos: parecia meio demente, com os cabelos negros desgrenhados voando em torno da cabeça.
— Eu... eu venho com um alerta... não, um pedido... por favor...
Dumbledore fez um gesto com a varinha. Embora as folhas e ramos ainda se agitassem no ar da noite ao redor, fez-se silêncio no lugar em que ele e Snape se defrontavam.
— Que pedido poderia um Comensal da Morte fazer a mim?
— A... a profecia... o vaticínio... Trelawney...
— Ah, sim. Quanto daquilo você relatou a Lord Voldemort?
— Tudo... tudo que ouvi! — respondeu Snape — É por isso... é por esta razão... que ele julga que se refere a Lílian Evans!
— A profecia não se referia a uma mulher. Mencionava um menino nascido no fim de Julho...
— O senhor sabe o que quero dizer! Ele acha que se refere ao filho dela, ele vai matá-la... matar a todos...
— Se ela significa tanto para você — disse Dumbledore — Certamente Lord Voldemort irá poupá-la, não? Você não poderia pedir a ele misericórdia para a mãe em troca do filho?
— Pedi... pedi a ele...
— Você me dá nojo — disse Dumbledore, e Harry nunca ouvira tanto desprezo em sua voz.
Snape pareceu se encolher um pouco.
— Você não se importa, então, com as mortes do marido e do filho dela? Eles podem morrer desde que você tenha o que quer?
Snape não disse nada, apenas ergueu os olhos para Dumbledore.
— Esconda-os todos, então — falou rouco — Mantenha ela... eles... em segurança. Por favor.
— E o que me dará em troca, Severo?
— Em... troca? — Snape olhou boquiaberto para Dumbledore, e Harry esperou que ele protestasse, mas, passado um longo momento, ele respondeu — O que quiser.
O cume do morro desapareceu e Harry se viu parado no gabinete de Dumbledore, e alguma coisa produzia um ruído terrível como o de um animal ferido. Snape estava dobrado para frente em uma cadeira e Dumbledore contemplava-o do alto, com um ar inflexível. Após alguns momentos, Snape ergueu o rosto, e parecia um homem que tivesse vivido cem anos de privações desde que deixara o cume do morro.
— Pensei... que o senhor fosse... mantê-la... segura...
— Ela e Tiago depositaram sua fé na pessoa errada — disse Dumbledore — Muito semelhante a você, Severo. Você não tinha a esperança de que Lord Voldemort fosse poupá-la?
A respiração de Snape era ansiosa.
— O filho dela sobreviveu — ressalvou Dumbledore.
Com um brusco e quase imperceptível aceno da cabeça, Snape pareceu espantar uma mosca irritante.
— O filho sobreviveu. Tem os olhos dela, exatamente os mesmos. Você certamente se lembra da forma e da cor dos olhos de Lílian Evans, não?
— NÃO! — berrou Snape — Se foi... Morreu...
— Isto é remorso, Severo?
— Eu gostaria... gostaria que eu é que estivesse morto...
— E que utilidade isso teria para alguém? — perguntou Dumbledore, friamente — Se você amou Lílian Evans, se você a amou verdadeiramente, então o seu caminho futuro é cristalino.
Snape parecia espiar através de uma névoa de dor, e as palavras de Dumbledore levaram um longo tempo para alcançá-lo.
— Como... como assim?
— Você sabe como e por que ela morreu. Empenhe-se para que não tenha sido em vão. Ajude-me a proteger o filho de Lílian.
— Ele não precisa de proteção. O Lorde das Trevas se foi...
—... o Lorde das Trevas retornará, e Harry correrá um perigo terrível quando isso ocorrer.
Fez-se uma longa pausa e lentamente Snape recuperou o controle, normalizou sua respiração. Por fim, disse:
— Muito bem. Muito bem. Mas jamais, jamais revele isso, Dumbledore! Isto deve ficar entre nós! Jure! Não posso suportar... particularmente o filho de Potter... quero sua palavra!
— Dou a minha palavra, Severo, de que jamais revelarei o que você tem de melhor — Dumbledore suspirou, olhando para o rosto feroz e angustiado de Snape — Se você insiste...
O gabinete se dissolveu, mas reapareceu instantaneamente. Snape andava de um lado para outro diante de Dumbledore.
—... medíocre, arrogante como o pai, deliberadamente indisciplinado, encantado com a fama, exibido e impertinente...
— Você vê o que espera ver, Severo — disse Dumbledore, sem erguer os olhos do exemplar de Transfiguração Hoje — Outros professores me informam que o garoto é modesto, amável e tem algum talento. Pessoalmente, eu o acho uma criança cativante.
Dumbledore virou uma página e disse sem erguer os olhos:
— Vigie Quirrell, por favor.
Um redemoinho de cor, e em seguida tudo escureceu, e Snape e Dumbledore estavam parados a certa distância no Saguão de Entrada, enquanto os retardatários do baile de Natal passavam a caminho do dormitório.
— Então? — murmurou Dumbledore.
— A Marca de Karkaroff está escurecendo também. Ele está em pânico, receia uma retaliação, você sabe o quanto ele ajudou o Ministério depois da queda do Lorde das Trevas — Snape olhou de esguelha para o perfil de nariz-torto de Dumbledore — Karkaroff pretende fugir se a Marca arder.
— É mesmo? — exclamou Dumbledore em voz baixa, no momento em que Fleur Delacour e Roger Davies entravam do jardim às risadinhas — E você está tentado se juntar a ele?
— Não — disse Snape, seus olhos negros acompanhando os dois alunos que se retiravam — Não sou tão covarde.
— Não — concordou Dumbledore — Você é um homem bem mais corajoso do que Karkaroff. Sabe, às vezes penso que fazemos a Seleção cedo demais...
Dumbledore se afastou, deixando Snape com um ar espantado...
E, mais uma vez, Harry se viu no gabinete do diretor. Era noite e Dumbledore estava sentado em sua cadeira-trono, à escrivaninha, com o corpo meio caído para um lado, aparentemente semiconsciente. Sua mão direita pendia do braço, escura e queimada. Snape murmurava encantamentos, apontando a varinha para o seu pulso, ao mesmo tempo em que, com a mão esquerda, inclinava uma taça cheia com uma densa poção dourada para a garganta de Dumbledore. Passados alguns momentos, as pálpebras dele mexeram e se abriram.
— Por quê? — perguntou Snape, sem preâmbulo — Por que você pôs esse anel no dedo? Ele tem um feitiço, certamente você percebeu isso. Por que tocou nele?
O anel de Servolo Gaunt estava sobre a mesa diante de Dumbledore. Estava rachado, e, a Espada de Gryffindor, ao lado da joia. Dumbledore fez uma careta.
— Fui... um tolo. Aflitivamente tentado...
— Tentado pelo quê?
Dumbledore não respondeu.
— É um milagre que tenha conseguido voltar a Hogwarts!
Havia fúria no tom de Snape.
— Esse anel carregava um feitiço de extraordinário poder, paralisá-lo é o máximo que podemos ter esperança de conseguir, por ora, restringi o feitiço a uma das mãos...
Dumbledore ergueu a mão enegrecida e inútil, examinou-a com a expressão de uma pessoa a quem mostrassem uma interessante curiosidade.
— Você cuidou muito bem de mim, Severo. Quanto tempo acha que me resta?
O tom de Dumbledore era coloquial, poderia estar perguntando qual era a previsão da meteorologia. Snape hesitou e então respondeu:
— Não sei dizer. Talvez um ano. Não há como paralisar um feitiço desses definitivamente. No fim, ele irá se espalhar, é o tipo de feitiço que se fortalece com o tempo.
Dumbledore sorriu. A notícia de que tinha menos de um ano de vida lhe pareceu de pequena ou nenhuma consequência.
— Tenho a sorte, a extrema sorte, de contar com você, Severo.
— Se tivesse mandado me chamar um pouco mais cedo, eu talvez tivesse podido fazer mais, ganhar mais tempo para você! — disse Snape, indignado. Ele olhou para o anel partido e a espada — Você achou que partindo o anel pudesse romper o feitiço?
— Algo parecido... sem dúvida eu estava delirando... — respondeu Dumbledore. Com esforço ele se aprumou na cadeira — Bem, realmente isso torna as questões mais objetivas.
Snape pareceu extremamente espantado.
Dumbledore sorriu.
— Estou me referindo ao plano que Lord Voldemort está tecendo a meu respeito. O plano de mandar o coitado do menino Malfoy me liquidar.
Snape sentou-se na cadeira que Harry tantas vezes ocupara em frente à mesa de Dumbledore. O garoto percebeu que ele queria acrescentar mais alguma coisa a respeito da mão amaldiçoada de Dumbledore, mas o diretor ergueu-a em uma cortês recusa de continuar a discutir o assunto. Amarrando a cara, Snape comentou:
— O Lorde das Trevas não espera que Draco seja bem-sucedido. Isto é apenas um castigo pelos recentes malogros de Lúcio. Uma tortura lenta para os pais de Draco, que o observam fracassar e pagar o preço.
— Em suma, o menino foi sentenciado à morte com tanta certeza quanto eu — disse Dumbledore — Agora, eu diria que o sucessor natural para esse serviço, se Draco não tiver êxito, será você, não?
Houve uma breve pausa.
— Esse, acho, é o plano do Lorde das Trevas.
— Lord Voldemort prevê um momento em futuro próximo em que não precisará ter um espião em Hogwarts?
— Ele acredita que a escola logo estará nas mãos dele, sim.
— E se realmente cair nas mãos dele — disse Dumbledore, quase como um aparte — Tenho a sua palavra de que fará tudo em seu poder para proteger os estudantes de Hogwarts?
Snape assentiu formalmente.
— Ótimo. Agora então, sua prioridade será descobrir o que Draco está fazendo. Um adolescente amedrontado é um perigo para os outros e para si mesmo. Ofereça-se para ajudá-lo e orientá-lo, ele deve aceitar, ele gosta de você...
—... menos, desde que o pai caiu em desgraça. Draco me culpa, acha que usurpei a posição de Lúcio.
— Ainda assim, tente. Estou menos preocupado comigo do que com as vítimas acidentais dos planos que possam ocorrer ao menino. Em última hipótese, é claro, há apenas uma coisa a fazer se você quiser salvá-lo da ira de Lord Voldemort.
Snape ergueu as sobrancelhas e seu tom foi sardônico quando perguntou:
— Você está pretendendo deixar que Draco o mate?
— Certamente que não. Você deverá me matar.
Houve um longo silêncio, quebrado apenas por estranhos cliques. Fawkes, a fênix, estava roendo um pedaço de osso de siba.
— Quer que eu faça isso agora? — perguntou Snape, a voz carregada de ironia — Ou gostaria de ter alguns momentos para compor um epitáfio?
— Ah, ainda não — respondeu Dumbledore sorrindo — Acho que a oportunidade se apresentará no devido tempo. Considerando o que aconteceu esta noite — ele indicou a mão murcha — Podemos ter certeza de que isso ocorrerá dentro de um ano.
— Se você não se importa de morrer — disse Snape, com aspereza — Então por que não deixa Draco fazer isso?
— A alma daquele menino ainda não está totalmente comprometida — contestou Dumbledore — Eu não permitiria que se rompesse por minha causa.
— E a minha alma, Dumbledore? A minha?
— Somente você é capaz de saber se prejudicará sua alma ajudar um velho a evitar a dor e a humilhação — replicou Dumbledore — Peço a você um único e grande favor, Severo, porque a morte está vindo me buscar tão certo quanto os Chudley Cannons terminarão este ano em último lugar. Confesso que prefiro uma saída rápida e indolor à opção demorada e suja que terei se, por exemplo, Greyback estiver envolvido, ouvi dizer que Voldemort o recrutou. Ou se for a cara Belatriz, que gosta de brincar com a comida antes de comê-la.
Seu tom era leve, mas seus olhos azuis perfuravam Snape como tão frequentemente perfuravam Harry, como se ele pudesse ver a alma que discutiam. Por fim, Snape fez um breve aceno com a cabeça.
Dumbledore pareceu satisfeito.
— Obrigado, Severo...
O gabinete desapareceu, e agora Snape e Dumbledore estavam caminhando juntos nos jardins desertos do castelo ao crepúsculo.
— Que é que você está fazendo com Potter, todas essas noites em que se trancam no gabinete? — perguntou Snape, abruptamente.
Dumbledore tinha o ar abatido.
— Por quê? Você está tentando lhe dar mais detenções, Severo? Logo o menino passará mais tempo em detenções do que fora delas.
— Ele é o pai sem tirar nem pôr...
— Na aparência, talvez, mas, em sua natureza profunda, ele parece muito mais com a mãe. Gasto tempo com Harry porque tenho coisas a conversar com ele, informações que preciso lhe passar antes que seja tarde demais.
— Informações — respondeu Snape — Você as confia a ele... não as confia a mim.
— Não é uma questão de confiança. Tenho, como ambos sabemos, um tempo limitado. É essencial que eu dê ao menino informações suficientes para ele fazer o que precisa ser feito.
— E não posso receber as mesmas informações?
— Prefiro não guardar todos os meus segredos em uma única cesta, particularmente uma cesta que passa tanto tempo pendurada no braço de Lord Voldemort.
— O que faço cumprindo suas ordens!
— E faz isso extremamente bem. Não pense que subestimo o constante perigo em que se coloca, Severo. Dar a Voldemort informações que pareçam valiosas, negando-lhe o essencial, é um serviço que eu não confiaria a ninguém exceto você.
— Contudo, você faz muito mais confidências a um garoto que é incapaz de Oclumência, cuja magia é medíocre e que tem uma ligação direta com a mente do Lorde das Trevas!
— Voldemort teme essa ligação. Não faz muito tempo, ele provou um pouquinho do que realmente significa partilhar a mente de Harry. Foi uma dor que ele jamais experimentara na vida. Não tentará possuir Harry outra vez, tenho certeza. Não da mesma forma.
— Não estou entendendo.
— A alma de Lord Voldemort, mutilada como está, não suporta o contato com uma mente como a de Harry. É como o contato de uma língua com o aço congelado, como a carne do corpo em chamas...
— Almas? Estamos falando de mentes!
— No caso de Harry e Lord Voldemort, falar em uma é falar da outra.
Dumbledore olhou ao redor para se certificar de que se encontravam realmente sozinhos. Agora estavam muito próximos da Floresta Proibida, mas não havia sinal de ninguém na vizinhança.
— Depois que me matar, Severo...
— Você se recusa a me contar tudo, no entanto espera de mim esse pequeno serviço! — rosnou Snape, e uma fúria real inflamou o seu rosto magro — Você presume muita coisa, Dumbledore! Talvez eu tenha mudado de ideia!
— Você me deu a sua palavra, Severo. E, já que estamos falando em serviços, você está em falta comigo, pensei que tivesse concordado em vigiar o nosso jovem amigo da Sonserina?
Snape não escondia a raiva, a rebeldia. Dumbledore suspirou.
— Venha ao meu gabinete hoje à noite, Severo, às onze, e você não se queixará de que não tenho confiança em você.
Tinham voltado ao gabinete de Dumbledore, as janelas escuras, e Fawkes estava tão silenciosa quanto Snape imóvel na cadeira, e o diretor andava em volta dele, falando.
— Harry não pode saber, não até o último momento, não até que seja necessário, do contrário como poderia ter a força para fazer o que deve ser feito?
— Mas o que deve fazer?
— Isto é entre mim e Harry. Agora escute bem, Severo. Virá um tempo... depois da minha morte... não discuta, não interrompa! Virá um tempo em que Lord Voldemort temerá pela vida da cobra dele.
— Por Nagini? — Snape pareceu admirado.
— Exatamente. Quando chegar o momento em que Lord Voldemort parar de mandar a cobra cumprir os seus mandados, e a mantiver segura ao seu lado, sob proteção mágica, então, acho, não haverá perigo em contar a Harry.
— Contar o quê?
Dumbledore inspirou profundamente e fechou os olhos.
— Conte-lhe que na noite em que Lord Voldemort tentou matá-lo, quando Lílian pôs a própria vida entre os dois como um escudo, a Maldição da Morte ricocheteou em Lord Voldemort, e um fragmento da alma dele irrompeu do todo e se prendeu à única alma sobrevivente na casa que desabava. Parte de Lord Voldemort vive em Harry, e é esta parte que lhe dá tanto a capacidade de falar com cobras quanto uma ligação com a mente de Lord Voldemort que ele jamais entendeu. E enquanto esse fragmento de alma, de que Voldemort não sentiu falta, permanecer preso e protegido por Harry, Lord Voldemort não poderá morrer.
Harry teve a sensação de estar observando os dois homens do fim de um longo túnel, tão distantes estavam dele, as vozes ecoando estranhamente em seus ouvidos.
— Então o garoto... o garoto deve morrer? — perguntou Snape, muito calmo.
— E é Voldemort quem deve matá-lo, Severo. Isto é essencial.
Seguiu-se outro longo silêncio. Então Snape falou:
— Pensei... todos esses anos... que nós o protegíamos por causa dela. De Lílian.
— Nós o protegíamos porque era essencial que fosse ensinado, criado e pudesse experimentar a própria força — explicou Dumbledore, com os olhos ainda fechados — Nesse meio tempo, a ligação entre os dois foi crescendo, um crescimento parasitário: às vezes penso que Harry suspeita disso. Se bem o conheço, tomará providências para que, ao sair ao encontro da morte, isto represente, verdadeiramente, o fim de Voldemort.
Dumbledore reabriu os olhos.
Snape estava horrorizado.
— Você o manteve vivo para que pudesse morrer na hora certa?
— Não fique chocado, Severo. Quantos homens e mulheres você viu morrer?
— Ultimamente apenas os que não pude salvar.
Ele se levantou.
— Você me usou.
— Em que sentido?
— Espionei por você, menti por você, corri risco mortal por você. Supostamente tudo para manter o filho de Lílian Potter vivo. Agora você me diz que o esteve criando como um porco para o abate...
— Ora, isso é comovente, Severo — exclamou Dumbledore, sério — Você acabou se afeiçoando ao menino, afinal?
— A ele? — gritou Snape — Expecto Patronum!
Da ponta de sua varinha irrompeu a corça prateada: ela pousou, correu pelo soalho do gabinete e saiu voando pela janela. Dumbledore observou-a se afastando pelos ares e, quando seu brilho prateado se dissipou, ele se dirigiu a Snape e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Depois de todo esse tempo?
— Sempre — respondeu Snape.
E a cena mudou.
Agora Harry via Snape conversando com o retrato de Dumbledore atrás da escrivaninha.
— Você terá de informar a Voldemort a data certa da partida de Harry da casa dos tios — recomendou Dumbledore — Se não fizer isso, levantará suspeitas, uma vez que Voldemort o julga bem informado. Entretanto, você precisa plantar a ideia dos chamarizes: acho que isso deverá garantir a segurança de Harry. Tente confundir Mundungo Fletcher. E, Severo, se você for obrigado a tomar parte na perseguição, assegure-se de representar a sua parte convincentemente... estou contando com você para continuar nas boas graças de Lord Voldemort o maior tempo possível, ou Hogwarts ficará à mercê dos Carrow...
Agora Snape estava face a face com Mundungo em uma taberna desconhecida, o rosto deste parecendo curiosamente inexpressivo, Snape franzindo a testa concentrado.
— Você irá sugerir à Ordem da Fênix — murmurou Snape — Que use chamarizes. Poção Polissuco. Potters idênticos. É a única coisa que poderia dar resultado. Você esquecerá que lhe sugeri isso. Apresentará a ideia como sua. Entendeu?
— Entendi — murmurou Mundungo, seus olhos desfocados...
Agora Harry estava voando emparelhado com a vassoura de Snape, através da noite escura e desanuviada: o professor ia acompanhado por outros Comensais da Morte encapuzados, e à sua frente estavam Lupin e Harry que era na realidade Jorge... um Comensal passou a frente de Snape e apontou a varinha diretamente para as costas de Lupin...
— Sectumsempra! — gritou Snape.
O feitiço que visava a mão do Comensal da Morte, no entanto, errou o alvo e atingiu Jorge...
No momento seguinte, Snape se achava ajoelhado no antigo quarto de Sirius. As lágrimas escorriam da ponta do seu nariz curvo ao ler a carta de Lílian. A segunda página tinha apenas algumas palavras:

... pudesse ter sido amigo de Gerardo Grindelwald. Pessoalmente, acho que ela está começando a caducar!

Afetuosamente,
Lílian

Snape removeu a página que continha a assinatura de Lílian e o seu afeto e guardou-a no bolso interno das vestes. Em seguida, rasgou ao meio a foto que segurava, para poder guardar a metade em que Lílian ria, e atirou a outra com Tiago e Harry no chão, sob a cômoda...
E agora Snape estava mais uma vez no gabinete do diretor e Fineus Nigellus voltava correndo para o seu quadro.
— Diretor! Eles estão acampando na Floresta do Deão! A Sangue-Ruim...
— Não use essa palavra!
—... que seja, a garota Granger mencionou o lugar quando abriu a bolsa e eu a ouvi!
— Muito bom. Ótimo! — exclamou o retrato de Dumbledore atrás da cadeira do diretor — Agora, Severo, a espada! Não esqueça que deve ser apanhada sob condições de necessidade e coragem, e ele não pode saber quem a está entregando! Se Voldemort puder ler a mente de Harry e vir você ajudando-o...
— Eu sei — respondeu Snape, secamente.
Aproximou-se, então, do retrato de Dumbledore e afastou-o para um lado. O quadro girou para frente, revelando uma cavidade oculta, da qual ele tirou a Espada de Gryffindor.
— E você vai continuar a não explicar por que é tão importante dar a Potter a espada? — indagou Snape, vestindo uma capa de viagem por cima das vestes.
— Vou, acho que vou — respondeu o retrato de Dumbledore — Ele saberá o que fazer com ela. E, Severo, tenha muito cuidado, os garotos podem não reagir bem à sua presença depois do acidente com Jorge Weasley...
A porta, Snape se virou.
— Não se preocupe, Dumbledore — disse tranquilo — Tenho um plano...
E, dizendo isso, saiu do gabinete.
Harry ergueu a cabeça da Penseira, e momentos depois estava deitado no piso acarpetado exatamente na mesma sala: Snape poderia ter acabado de fechar a porta.







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