terça-feira, 30 de outubro de 2012

VERY FUNNY - Papo de técnico de informática




Papo de técnico de informática


Quatro técnicos de informática se encontram em horário de almoço e um deles comenta:

- Pessoal, ontem eu vi uma morena… Vocês nem vão acreditar!

- Uau… – Animaram-se os amigos.

- Linda! Com uns pernões dessa grossura… Olhos azuis, seios lindos… Uma beleza!

- Uau! – repetiram eles.

- Começamos a conversar… Papo vai, papo vem… Ela aceitou ir para o meu apartamento!

- Uau!!

- Bebemos um pouco de vinho, nos beijamos e o clima começou a esquentar…

- Uau!!!

- E a parte mais incrível: Ela virou pra mim e disse “Quero te sentir dentro de mim agora!”

- Uauuuuuu!!!

- Então eu tirei a minha roupa e comecei a despir aquele mulherão! Primeiro a blusa, depois o sutiã, que eu joguei em cima do teclado do meu micro novo e depois…

- Opa! – interrompeu um dos amigos – Você comprou um micro novo? Qual o processador?





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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 17





— CAPÍTULO DEZESSETE —
O SEGREDO DE BATILDA



— HARRY, pare.
— Que foi?
Tinham acabado de alcançar o túmulo do Abbott desconhecido.
— Tem alguém ali. Alguém nos observando. Sinto. Ali, perto dos arbustos.
Eles ficaram muito quietos, abraçados, olhando a densa sebe escura em torno do cemitério.
Harry não conseguia enxergar nada.
— Tem certeza?
— Vi uma coisa se mexer. Poderia jurar que vi...
Ela o largou para deixar livre a mão da varinha.
— Estamos parecendo trouxas — lembrou Harry.
— Trouxas que acabaram de depositar flores no túmulo dos seus pais! Harry, tenho certeza de que há alguém ali!
Harry pensou no História da Magia, diziam que o cemitério era mal-assombrado. E se...? Então, ele ouviu um ruído abafado e viu um montinho de neve deslocada no arbusto para o qual Hermione apontara.
Fantasmas não deslocam neve.
— É um gato — disse Harry, após alguns segundos — Ou um pássaro. Se fosse um Comensal da Morte já estaríamos mortos. Mas vamos sair daqui e poderemos tornar a vestir a capa.
Eles olharam para trás várias vezes enquanto se dirigiam à saída do cemitério. Harry que não se sentia tão corajoso quanto fingia estar quando tranquilizou Hermione, ficou feliz de alcançar o portão e a calçada escorregadia. Tornaram, então, a se cobrir com a Capa da Invisibilidade. O bar estava mais cheio do que antes: vozes em seu interior agora cantavam a canção natalina que tinham ouvido ao se aproximar da igreja. Por um momento, Harry pensou em sugerir que se refugiassem ali, mas, antes que pudesse falar, Hermione murmurou:
— Vamos por aqui.
E puxou-o pela rua escura, que saía da aldeia, na direção oposta àquela da qual tinham vindo.
Harry divisou ao longe o ponto em que os chalés terminavam e a estradinha entrava em campo aberto. Eles caminharam o mais rápido que ousaram, passaram por outras tantas janelas em que cintilavam luzes multicoloridas, os contornos de árvores de Natal erguendo sombras através das cortinas.
— Como vamos encontrar a casa da Batilda? — perguntou Hermione, que tremia um pouco e não parava de espiar por cima do ombro — Harry? Que acha? Harry?
Ela puxou-o pelo braço, mas Harry não a escutara. Estava olhando para uma massa escura onde acabavam as casas. No momento seguinte, ele acelerou o passo, arrastando Hermione: ela escorregou um pouco no gelo.
— Harry...
— Olhe... olhe aquilo, Hermione...
— Não estou... ah!
Ele estava vendo: o Feitiço Fidelius devia ter se extinguido com Tiago e Lílian. A sebe crescera livremente nos dezesseis anos desde que Hagrid retirara Harry dos escombros ainda espalhados pelo capim, que chegava à cintura. A maior parte do chalé permanecia de pé, embora inteiramente coberta de hera escura e neve, mas o lado direito do andar superior explodira, por ali, Harry estava seguro, o feitiço se voltara contra quem o lançara. Ele e Hermione pararam ao portão, contemplando as ruínas do que tinha sido, no passado, uma casa exatamente como as vizinhas.
— Por que será que ninguém a reconstruiu? — sussurrou Hermione.
— Talvez não se possa reconstruí-la? Talvez seja como os ferimentos produzidos pelas Artes das Trevas que não são curáveis?
Ele passou a mão para fora da capa e segurou o portão muito enferrujado e coberto de neve, sem querer abri-lo, mas tentando, simplesmente, tocar alguma parte da casa.
— Você não vai entrar, vai? Parece perigoso, pode... ah, Harry, olhe!
Seu toque no portão parecia ter bastado. Erguera-se uma placa diante deles, através do emaranhado de urtigas e ervas daninhas, como uma flor bizarra que crescesse instantaneamente e, na inscrição dourada na madeira, ele leu:

Neste local, na noite de 31 de Outubro de 1981,
Lílian e Tiago Potter perderam a vida.
Seu filho, Harry, é o único bruxo
a ter sobrevivido à Maldição da Morte.
Esta casa, invisível aos trouxas, foi mantida
em ruínas como um monumento aos Potter
e uma lembrança da violência
que destruiu sua família.

A toda volta desse texto conciso, havia rabiscos feitos por outros bruxos que tinham visitado o local em que O Menino Que Sobreviveu realizara tal feito. Alguns assinaram seus nomes em tinta perpétua, outros gravaram as iniciais na madeira, outros, ainda, deixaram mensagens. As mais recentes, que se destacavam, reluzentes, sobre os dezesseis anos de grafitos mágicos, diziam mais ou menos o mesmo:

“Boa sorte, Harry, onde quer que esteja”.
“Se ler esta mensagem, Harry, saiba que estamos com você!”.
“Viva Harry Potter”.

— Eles não deviam ter rabiscado a placa! — comentou Hermione, indignada.
Harry, porém, sorriu para ela.
— É genial. Fico feliz que tenham escrito. Eu...
E se calou.
Um vulto muito agasalhado capengava pela estradinha em sua direção, recortado pela iluminação clara, na praça ao longe. Harry achou, embora fosse difícil julgar, que era o vulto de uma mulher. Ela se movia com lentidão, possivelmente receosa de escorregar no chão nevado. Suas costas curvadas, sua corpulência, seu andar arrastado, tudo indicava uma idade muito avançada. Eles observaram sua aproximação em silêncio. Harry estava aguardando para ver se ela entraria em um dos chalés pelo caminho, mas sabia, instintivamente, que não faria isso. Por fim, ela parou a uns poucos metros dos dois e, simplesmente, ficou ali no meio da rua congelada, encarando-os.
Ele não precisou que Hermione beliscasse seu braço. Praticamente não havia chance de que a mulher fosse trouxa: estava parada de olhos pregados em uma casa que lhe seria inteiramente invisível se não fosse bruxa.
Mesmo supondo que fosse uma bruxa, no entanto, era um comportamento estranho sair em uma noite tão fria, simplesmente para contemplar uma velha ruína.
Pelas regras da magia normal, ela não deveria poder vê-los. Contudo, Harry tinha a estranha impressão de que sabia da presença deles ali, e também sabia quem eram. No momento em que ele chegou a essa inquietante conclusão, a mulher ergueu a mão enluvada e fez sinal para que se aproximassem.
Hermione se achegou a Harry sob a capa, seu braço comprimindo o dele.
— Como é que ela sabe?
Ele sacudiu a cabeça. A mulher tornou a chamá-los, mais energicamente. Harry poderia pensar em muitas razões para não obedecer, contudo, suas suspeitas a respeito da identidade dela tornavam-se mais fortes a cada segundo em que continuavam parados, se encarando na rua deserta.
Seria possível que estivesse esperando por eles todos esses longos meses? Que Dumbledore lhe tivesse dito para esperar porque Harry acabaria aparecendo? Não seria provável que fosse a coisa que se mexera nas sombras do cemitério e os seguira até ali? Até a sua capacidade de senti-los sugeria um poder à la Dumbledore, que ele jamais encontrara.
Harry, por fim, falou, fazendo Hermione ofegar sobressaltada.
— A senhora é Batilda?
O vulto agasalhado assentiu e tornou a lhes fazer sinal para se aproximarem.
Sob a capa, Harry e Hermione se entreolharam. Ele ergueu as sobrancelhas. Hermione fez um aceno breve e nervoso com a cabeça.
Os dois foram ao encontro da mulher e, na mesma hora, ela deu meia-volta e saiu manquejando pelo caminho que viera. Conduzindo-os pela fileira de casas, entrou por um portão. Os garotos a seguiram por um caminho ladeado por um jardim quase tão crescido quanto o que tinham acabado de deixar. Ela se atrapalhou um instante com a chave à porta, abriu-a e se afastou para deixá-los entrar.
A bruxa cheirava mal, ou talvez fosse a casa: Harry torceu o nariz ao passarem por ela, e tirou a capa. Agora ao seu lado, o garoto percebeu como era miúda, curvada pela idade, mal alcançava o seu peito. A bruxa fechou a porta, as juntas dos dedos azuis e manchados contra a tinta descascada, então se virou e espiou o rosto de Harry. Seus olhos tinham cataratas e pregas fundas de pele transparente, e todo o seu rosto era riscado de pequenas veias rompidas e manchas marrons. Ele ficou em dúvida se a mulher realmente poderia vê-lo, e, mesmo que pudesse, o que veria se não o trouxa careca cuja identidade ele roubara?
O odor de velhice, de poeira, de roupas sujas e de comida rançosa piorou quando ela retirou o xale preto roído de traças, revelando uma cabeleira branca e rala que deixava visível o couro cabeludo.
— Batilda? — repetiu Harry.
Ela tornou a assentir. Harry percebeu a presença do medalhão contra sua pele, a coisa ali dentro, que por vezes batia, acabara de despertar; ele a sentia pulsar através do ouro frio. Será que entendia que a coisa que a destruiria estava tão perto?
Batilda passou por eles arrastando os pés, empurrando Hermione para o lado como se não a tivesse visto e desapareceu, provavelmente em uma sala de visitas.
— Harry, não me sinto muito segura — sussurrou Hermione.
— Olhe o tamanho dela, acho que poderíamos dominá-la, se fosse preciso — comentou Harry — Escute, devia ter lhe dito, eu já sabia que não está batendo bem da bola. Muriel chamou-a de gagá.
— Entre! — convidou Batilda da sala vizinha.
Hermione se assustou e agarrou o braço de Harry.
— Tudo bem — disse ele, tranquilizando-a, e entrou à sua frente.
Batilda andava vacilante pela sala, acendendo velas, mas o lugar continuava muito escuro, para não falar de sua extrema sujeira. Os pés de Harry esmagavam uma grossa camada de poeira e seu nariz sentia, sob o odor de mofo e umidade, algo pior, talvez carne estragada. Perguntou-se quando teria sido a última vez que alguém viera à casa de Batilda para verificar se estava tudo bem. Ela parecia ter esquecido seus dotes de magia, porque se atrapalhava acendendo as velas, seus punhos de renda em constante risco de pegar fogo.
— Deixe-me ajudá-la — ofereceu-se Harry, tirando os fósforos de sua mão. Ela o observou terminar de acender os tocos de vela sobre pires por toda a sala, precariamente equilibrados sobre pilhas de livros e mesinhas laterais cheias de copos rachados e bolorentos.
A última superfície em que Harry localizou uma vela foi uma cômoda bombée, em que havia um grande número de fotografias. Ao acender a vela, a chama se refletiu nos vidros e porta-retratos de prata empoeirados.
Ele viu as fotos se mexerem brevemente. Enquanto Batilda apanhava umas achas de lenha para a lareira, Harry murmurou ‘Tergeo”. A poeira desapareceu das fotos e ele viu imediatamente que faltava uma meia dúzia delas nos porta-retratos mais trabalhados. Ficou em dúvida se Batilda ou outra pessoa as teria removido. Então, a visão de uma foto mais ao fundo da coleção atraiu sua atenção, e ele a apanhou.
Era o ladrão de cabelos dourados e rosto risonho, o rapaz que se empoleirara no peitoril da janela de Gregorovitch, sorrindo indolentemente para Harry, em seu porta-retrato de prata.
E ocorreu-lhe instantaneamente onde o vira antes: em A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore, de braço dado com Dumbledore, e devia ser lá que estavam as fotos desaparecidas: no livro de Rita.
— Sra.... Srta. Bagshot? — disse ele, e sua voz tremeu um pouco — Quem é ele?
Batilda estava parada no meio da sala observando Hermione acender o fogo para ela.
— Srta. Bagshot? — repetiu Harry, e adiantou-se com a foto nas mãos, no instante em que as achas pegavam fogo na lareira.
Batilda ergueu os olhos ao ouvi-lo, e a Horcrux bateu mais rápido em seu peito.
— Quem é esse rapaz? — perguntou Harry, estendendo a foto.
Batilda olhou solenemente para a foto e em seguida para Harry.
— A senhorita sabe quem é? — insistiu em um tom mais lento e alto do que o normal — Esse rapaz? A senhorita o conhece? Como é o nome dele?
Batilda tinha um ar hesitante. Harry sentiu uma horrível frustração. Como Rita fizera aflorar as lembranças da bruxa?
— Quem é esse rapaz? — perguntou, mais uma vez, em voz alta.
— Harry, que está fazendo? — indagou Hermione.
— A foto, Hermione, é do ladrão, o ladrão que roubou Gregorovitch! Por favor! — pediu ele a Batilda — Quem é?
Ela, porém, continuou olhando calada.
— Por que a senhora nos pediu para acompanhá-la, Sra... Srta... Bagshot? — perguntou Hermione, também alteando a voz — A senhora queria nos dizer alguma coisa?
Sem dar sinal de ter ouvido Hermione, Batilda agora se adiantou para Harry. Com um pequeno movimento de cabeça, ela espiou para o hall de entrada.
— Quer que a gente vá embora? — perguntou ele.
Ela repetiu o gesto, desta vez apontando primeiro para ele, depois para si mesma e, em seguida, para o teto.
— Ah, certo... Hermione, acho que ela quer que eu suba com ela.
— Está bem, vamos.
Quando, porém, Hermione começou a andar, Batilda sacudiu a cabeça com surpreendente energia, e mais uma vez apontou para Harry, depois para si mesma.
— Quer que eu vá com ela, sozinho.
— Por quê? — perguntou Hermione, e sua voz soou alta e ríspida na sala iluminada a velas, a velha sacudiu levemente a cabeça ao ouvir o barulho.
— Talvez Dumbledore tenha dito para entregar a espada a mim e somente a mim?
— Você realmente acha que ela sabe quem você é?
— Acho — respondeu Harry, olhando para os olhos esbranquiçados fixos nos dele — Acho que sabe.
— Bem, então ok, mas seja rápido, Harry.
— Vá na frente — disse Harry a Batilda.
Ela pareceu entender, porque passou por ele e se encaminhou para a porta. Harry olhou para trás e sorriu querendo tranquilizar Hermione, mas não sabia se a amiga teria visto o seu gesto, ela parou apertando o corpo com os braços em meio à sujeira iluminada a velas, o olhar na estante. Quando Harry foi saindo da sala, sem que Hermione ou Batilda vissem, ele guardou, no paletó, o porta-retrato de prata com a foto do ladrão desconhecido.
Os degraus eram altos e estreitos: Harry se sentiu tentado a colocar as mãos nas nádegas da corpulenta Batilda para garantir que não caísse de costas por cima dele, o que parecia extremamente provável. Devagar, arquejando um pouco, ela subiu ao primeiro andar, virou à direita e levou-o para um quarto de teto baixo.
Estava muito escuro e fedia horrivelmente: Harry acabara de divisar a borda de um penico embaixo da cama quando Batilda fechou a porta e até isso foi engolido pela escuridão.
— Lumus! — disse Harry, e sua varinha acendeu.
Levou um susto: Batilda se aproximara dele naqueles segundos de escuridão, e ele nem a ouvira.
— Você é Potter? — sussurrou ela.
— Sim, sou.
Ela assentiu lenta e solenemente. Harry sentiu a Horcrux batendo depressa, mais depressa do que o seu próprio coração: foi uma sensação desagradável e enervante.
— A senhora tem alguma coisa para mim? — perguntou Harry, mas a bruxa pareceu se distrair com a ponta acesa de sua varinha — A senhora tem alguma coisa para mim? — repetiu ele.
Então, ela fechou os olhos e várias coisas aconteceram ao mesmo tempo: a cicatriz de Harry ardeu dolorosamente, a Horcrux vibrou tanto que o peito do suéter do garoto chegou a mexer, o quarto escuro e fétido se dissolveu momentaneamente. Ele sentiu uma súbita sensação de alegria e falou com uma voz aguda e fria: Segure-o!
Harry oscilou sem sair do lugar: o quarto escuro e malcheiroso pareceu tornar a se fechar ao seu redor, ele não sabia o que acabara de acontecer.
— A senhora tem alguma coisa para mim? — perguntou, pela terceira vez, bem mais alto.
— Aqui — sussurrou ela, apontando para um canto.
Harry ergueu a varinha e viu os contornos de uma penteadeira muito cheia sob uma janela com cortinas. Desta vez, Batilda não foi à frente. Harry passou entre ela e a cama desfeita, a varinha erguida. Não queria tirar os olhos dela.
— Que é? — indagou ao chegar à penteadeira em que havia uma pilha de alguma coisa que, pelo cheiro e aspecto, parecia roupa de cama suja.
— Ali — disse ela apontando para a massa informe.
E, no instante em que ele virou a cabeça e varreu com o olhar o amontoado confuso à procura de um punho de espada, um rubi, ela fez um movimento estranho: Harry percebeu-o pelo canto do olho, o pânico fez com que se voltasse e o horror o paralisou ao ver o velho corpo se despojar e uma grande cobra sair do lugar onde fora o pescoço da bruxa.
A cobra atacou-o quando ele ergueu a varinha: a força da mordida em seu braço fez a varinha girar para o alto em direção ao teto, sua luz rodopiou sem direção pelo quarto e se apagou. Então, um poderoso golpe de cauda em seu diafragma deixou-o completamente sem ar: ele tombou de costas sobre a penteadeira, no meio do monte de roupa imunda...
Harry rolou para o lado, evitando, por um triz, o rabo da cobra, que golpeava a penteadeira onde ele estivera um segundo antes, cacos da superfície de vidro choveram sobre ele quando bateu no chão. Lá de baixo, ele ouviu Hermione chamar:
— Harry?
Não conseguiu, porém, repor ar suficiente nos pulmões para responder: então uma massa lisa e pesada esmagou-o contra o chão e ele a sentiu deslizar por cima dele, forte, musculosa...
— Não! — ofegou, preso ao chão.
— Sim — sussurrou a voz — Sssim... seguro você... seguro você...
— Accio... Accio varinha...
Nada aconteceu, porém, e ele precisava das mãos para tentar empurrar para longe a cobra que se enrolava em torno do seu tronco, tirando-lhe o ar, comprimindo a Horcrux contra seu peito, um círculo de gelo que pulsava de vida, a centímetros do seu próprio coração disparado, e seu cérebro se inundava de luz branca e fria, obliterando todo pensamento, sua respiração sufocada, passos distantes, tudo indo...
Um coração de metal batia fora do seu peito, e agora ele estava voando, voando sentindo o triunfo em seu coração, sem precisar de vassoura nem de testrálio...
Harry foi bruscamente acordado na escuridão fedorenta, Nagini o soltara. Ele se levantou com ajuda dos braços e viu a cobra recortada contra a luz do corredor: ela atacou, e Hermione atirou-se para o lado com um grito. Seu feitiço se desviou e bateu na janela cortinada, despedaçando-a. O ar gelado encheu o quarto no momento em que Harry mergulhou para evitar mais uma chuva de cacos de vidro e seu pé escorregou em um objeto cilíndrico... sua varinha...
Ele se abaixou e apanhou-a, mas agora o quarto estava dominado pela cobra, que golpeava com o rabo.
Hermione não estava à vista e, por um momento, Harry pensou o pior, mas ouviu, então, um estampido alto e um clarão vermelho, e a cobra voou pelo ar atingindo com força o rosto do garoto, ao subir, volta a volta, o animal foi desenrolando, em direção ao teto. Harry ergueu a varinha, mas, ao fazê-lo, sua cicatriz queimou mais dolorosamente, mais intensamente do que fizera em anos.
— Ele está vindo! Hermione, ele está vindo!
Enquanto Harry berrava, a cobra caiu, sibilando ferozmente. Instaurou-se o caos: a cobra destruiu as prateleiras na parede e cacos de porcelana voaram para todo lado no momento em que Harry saltava por cima da cama e agarrava a forma escura que ele sabia ser Hermione...
Ela gritou de dor ao ser puxada por cima da cama: a cobra tornou a armar um bote, mas Harry sabia que algo pior do que o animal estava a caminho, talvez já estivesse no portão, sua cabeça ia rachar de dor na cicatriz...
A cobra avançou quando ele deu um salto veloz, arrastando Hermione junto, quando Nagini atacou, Hermione gritou: “Confringo!”, e o feitiço voou pelo quarto, explodindo o espelho do guarda-roupa e ricocheteando contra eles, quicando do chão ao teto. Harry sentiu o calor do feitiço queimar o dorso de sua mão. Cacos do espelho cortaram-lhe a face no momento em que, puxando Hermione, saltou da cama para a penteadeira desmantelada e, dali, direto para a janela estilhaçada e o vácuo, o grito dela ecoando pela noite enquanto rodopiavam pelo ar...
Então, sua cicatriz se rompeu e ele era Voldemort e estava correndo pelo quarto fétido, as mãos longas e brancas agarrando o peitoril da janela ao vislumbrar o homem careca e a mulher miúda girarem e desaparecerem, e ele gritou enfurecido, um grito que se fundiu ao da garota e ecoou pelos jardins escuros e se sobrepôs ao repique dos sinos da igreja no dia de Natal.
E seu grito foi o grito de Harry, sua dor, a dor de Harry... que pudesse acontecer ali, onde acontecera antes... ali, à vista da casa onde ele chegara tão perto de saber o que era morrer... morrer... a dor era tão terrível... irrompia do seu corpo... mas, se não tinha corpo, por que sua cabeça doía tanto, se estava morto, como poderia senti-la de forma tão insuportável, a dor não cessava com a morte, não ia...
A noite úmida de ventania, duas crianças vestidas de abóboras atravessavam a praça bamboleando, e as vitrines das lojas cobertas de aranhas de papel, todos os adornos baratos e kitsch dos trouxas simbolizando um mundo em que eles não acreditavam... e ele seguia deslizando, aquele senso de propósito e poder e correção que sempre experimentava nessas ocasiões... não raiva... isso era para almas mais fracas que ele... mas triunfo, sim... esperara por isso, desejara isso...
— Bonita fantasia, moço!
Ele viu o sorriso do menino vacilar quando se aproximou o suficiente para espiar sob o capuz da capa, viu o medo anuviar o rostinho pintado: então a criança deu meia-volta e fugiu correndo... por baixo da veste, ele acariciou o punho da varinha... um simples movimento e a criança jamais chegaria à mãe... mas desnecessário, muito desnecessário...
E, ao longo de uma rua mais escura, ele caminhou, e agora seu destino estava finalmente à vista, o Feitiço Fidelius desfeito, embora os moradores ainda não soubessem... e ele fez menos ruído do que as folhas mortas que esvoaçavam pela calçada quando se emparelhou com a sebe escura e espiou por cima...
Eles não tinham fechado as cortinas, viu-os claramente na pequena sala de visitas, o homem alto de cabelos negros e óculos, fazendo baforadas de fumaça colorida saírem de sua varinha para divertir o menininho de cabelos negros e pijama azul. A criança ria e tentava pegar a fumaça, segurá-la em sua mãozinha fechada...
Uma porta abriu e a mãe entrou, dizendo palavras que ele não pôde ouvir, seus longos cabelos acaju caindo pelo rosto. O pai ergueu o filho do chão e entregou-o à mãe. Atirou a varinha sobre o sofá e se espreguiçou, bocejando...
O portão rangeu um pouco quando ele o abriu, mas Tiago Potter não ouviu. Sua mão branca tirou a varinha de sob a capa e apontou-a para a porta que se abriu com violência. Já cruzara a porta quando Tiago chegou correndo ao hall. Foi fácil, fácil demais, ele nem chegara a apanhar a varinha...
— Lílian, pegue Harry e vá! É ele! Vá! Corra! Eu o atraso...
Detê-lo, sem uma varinha na mão!... Ele riu antes de lançar a maldição...
— Avada Kedavra!
O clarão verde inundou o hall apertado, iluminou o carrinho de bebê encostado à parede, fez os balaústres da escada lampejarem como raios e Tiago Potter caiu como uma marionete cujos cordões tivessem sido cortados...
Ele ouviu a mulher gritar no primeiro andar, encurralada, mas, enquanto tivesse bom senso, ela, pelo menos, nada teria a temer... ele subiu a escada, achando graça nos esforços que ela fazia para se entrincheirar no... ela também não tinha varinha... como eram idiotas e confiantes em julgar que sua segurança eram os amigos, que as armas poderiam ser postas de lado mesmo por instantes...
Ele arrombou a porta, atirou para o lado a cadeira e as caixas apressadamente empilhadas para defendê-la com um displicente aceno da varinha... e ali estava ela, a criança nos braços. Ao vê-lo, Lílian largou o filho no berço às suas costas e abriu bem os braços, como se isso pudesse adiantar, como se ocultando-o esperasse ser escolhida como alvo...
— O Harry não, o Harry não, por favor, o Harry não!
— Afaste-se, sua tola... afaste-se, agora...
— Harry não, por favor, não, me leve, me mate no lugar dele...
— Este é o meu último aviso...
— Harry não! Por favor... tenha piedade... tenha piedade... Harry não! Harry não! Por favor... farei qualquer coisa...
—Afaste-se... afaste-se, garota...
Ele poderia tê-la afastado do berço à força, mas lhe pareceu mais prudente liquidar todos... o clarão verde lampejou pelo quarto e ela tombou como o marido. Todo esse tempo, a criança não gritara: sabia ficar em pé segurando as grades do berço, e ergueu os olhos para o rosto do intruso com uma espécie de vivo interesse, talvez achando que fosse seu pai escondido sob a capa, e que ele produziria mais luzes bonitas, e sua mãe reapareceria a qualquer momento, rindo...
Ele apontou a varinha certeiramente para o rosto do menino: queria ver acontecer, a destruição desse perigo inexplicável. A criança começou a chorar: notara que ele não era Tiago. Não gostava de bebê chorando, nunca fora capaz de suportar as criancinhas choramingando no orfanato...
— Avada Kedavra!
Então ele sucumbiu: não era mais nada exceto dor e terror e precisava se esconder, não aqui nos destroços da casa em ruínas, onde a criança estava presa, aos berros, mas longe... longe...
— Não — gemeu ele.
A cobra se arrastou pelo chão imundo e atravancado, e ele matara o garoto, contudo ele era o garoto...
—Não...
Agora estava parado à janela estilhaçada da casa de Batilda, absorto nas lembranças de sua maior perda, e a seus pés a enorme cobra rastejava pelos cacos de porcelana e vidro... ele baixou os olhos e viu algo... algo inacreditável...
—Não...
— Harry, está tudo bem, você está bem!
Ele se abaixou e apanhou a foto amassada. Ali estava ele, o ladrão desconhecido, o ladrão que ele estava procurando...
— Não... eu a deixei cair... eu a deixei cair...
— Harry, tudo bem, acorde, acorde!
Ele era Harry... Harry, e não Voldemort... e a coisa que fazia o ruído abafado não era uma cobra. Abriu os olhos.
— Harry — sussurrou Hermione — Você está se sentindo... bem?
— Estou — mentiu ele.
Estava na barraca, deitado em uma das camas baixas do beliche, sob uma montanha de cobertores. Percebia que era quase manhã pela quietude e friagem, a luz pálida além do teto da barraca. Ele estava encharcado de suor, sentia o suor nos lençóis e cobertores.
— Escapamos.
— Sim — disse Hermione — Precisei usar o Feitiço de Levitação para deitar você no beliche, não consegui levantá-lo. Você esteve... bem, você não esteve muito...
Havia olheiras arroxeadas sob seus olhos castanhos e ele viu uma pequena esponja em sua mão: Hermione estivera enxugando o rosto dele.
— Você esteve doente — ela terminou a frase — Muito doente.
— Quanto tempo faz que partimos?
— Horas. Está quase amanhecendo.
— E eu estive... o quê, inconsciente?
— Não, exatamente — respondeu Hermione constrangida — Esteve gritando e gemendo e... dizendo coisas — acrescentou em um tom que deixou Harry inquieto.
Que teria feito? Berrara maldições como Voldemort, chorara como o bebê no berço?
— Não consegui retirar a Horcrux de você — disse Hermione, e ele percebeu que a amiga queria mudar de assunto — Ficou presa, presa no seu peito. Deixou uma marca, lamento. Tive de usar o Feitiço de Corte para soltá-la. A cobra também o mordeu, mas limpei o ferimento e apliquei um pouco de ditamno...
Ele arrancou do corpo a camiseta suada que usava e olhou para baixo. Havia uma oval escarlate sobre seu coração, onde o medalhão o queimara. Viu também as marcas de furos quase cicatrizadas em seu braço.
— Onde guardou a Horcrux?
— Na minha bolsa. Acho que não devíamos usá-la por um tempo.
Ele se recostou nos travesseiros e fitou o rosto atormentado e cinzento de Hermione.
— Não devíamos ter ido a Godric’s Hollow. Foi minha culpa, minha inteira culpa, sinto muito.
— Não foi sua culpa. Eu quis ir também; realmente pensei que Dumbledore tivesse deixado a espada lá para você.
— É, bem... entendemos mal, não foi?
— Que aconteceu, Harry? Que aconteceu quando ela o levou pra cima? A cobra estava escondida em algum lugar? E simplesmente saiu e a matou e atacou você?
— Não. Ela era a cobra... ou a cobra era ela... todo o tempo.
— Q-quê?
Ele fechou os olhos. Ainda podia sentir o cheiro da casa de Batilda em seu corpo: isso tornava o episódio pavorosamente vívido.
— Batilda devia estar morta havia algum tempo. A cobra estava... estava dentro dela. Você-Sabe-Quem levou-a para Godric’s Hollow para esperar. Você tinha razão. Ele sabia que eu voltaria.
— A cobra estava dentro dela?
Ele reabriu os olhos.
Hermione parecia revoltada, nauseada.
— Lupin disse que haveria magia que jamais imagináramos existir — respondeu Harry — Ela não quis falar na sua frente porque era a linguagem das cobras, pura ofidioglossia, e não percebi, mas é claro que a entendi. Uma vez no quarto, a cobra mandou uma mensagem a Você-Sabe-Quem, ouvi a transmissão em minha cabeça, senti-o excitado, disse para me segurar lá... então...
Lembrou-se da cobra saindo do pescoço de Batilda.
Hermione não precisava conhecer os detalhes.
—... ela se transformou, se transformou em uma cobra e me atacou.
Harry baixou os olhos para as marcas dos furos.
— Não era para me matar, só para me segurar ali até Você-Sabe-Quem chegar. Se ele ao menos tivesse conseguido matar a cobra, teria valido a pena tudo...
Desgostoso, sentou-se e atirou as cobertas para o lado.
— Harry, não, tenho certeza que precisa descansar!
— Você é que precisa dormir. Sem querer ofender, você está com uma cara horrível. Estou ótimo. Vou fazer a vigia por um tempo. Onde está minha varinha?
Ela não respondeu, olhou-o apenas.
— Onde está minha varinha?
Ela mordeu os lábios e as lágrimas encheram seus olhos.
— Harry...
— Onde está minha varinha?
Hermione se abaixou para apanhá-la ao lado da cama e entregou-a.
A varinha de azevinho e fênix estava quase partida ao meio. Um frágil fio de pena de fênix mantinha as metades penduradas. A madeira rachara inteiramente. Harry apanhou o objeto como se fosse um organismo vivo que tivesse sofrido um grave ferimento. Não conseguiu pensar direito: tudo pareceu uma fusão de pânico e medo. Estendeu, então, a varinha para Hermione.
— Conserte-a. Por favor.
— Harry, acho que quando se parte assim...
— Por favor, Hermione, tente!
— R-Reparo!
A parte pendurada da varinha tornou a emendar.
Harry empunhou-a.
— Lumus!
A varinha soltou uma faisquinha e se apagou.
Harry apontou-a para Hermione.
— Expelliarmus!
A varinha de Hermione sacudiu, mas não se soltou de sua mão. A fraca tentativa de magia foi demais para a varinha, que tornou a se partir em dois. Harry contemplou-a, consternado, incapaz de absorver o que estava vendo... a varinha que sobrevivera a tanto...
— Harry — Hermione sussurrou tão baixinho que ele quase não pôde ouvi-la — Sinto muito mesmo. Acho que fui eu. Quando estávamos indo embora, entende, a cobra avançou para nós, então lancei um Feitiço Detonador e ele ricocheteou para todo lado e deve ter... deve ter atingido...
— Foi um acidente — disse Harry, maquinalmente. Sentia-se vazio, atordoado — Encontraremos... encontraremos um jeito de consertá-la.
— Harry, acho que não conseguiremos — disse Hermione, as lágrimas escorrendo pelo rosto — Lembra... lembra o Rony? Quando partiu a varinha no acidente com o carro? Nunca mais foi a mesma, ele teve que comprar uma nova.
Harry pensou em Olivaras, sequestrado e refém de Voldemort, em Gregorovitch, que estava morto. Como iria encontrar uma varinha nova?
— Bem — replicou Harry, em um tom falsamente objetivo — Bem, acho que por ora precisarei pedir a sua emprestada enquanto vigio.
O rosto brilhando de lágrimas, Hermione entregou a varinha e Harry saiu, deixando-a sentada junto à cama dele, nada mais desejando senão ficar longe da amiga.






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sábado, 27 de outubro de 2012

[SESSÃO PREMIER 3] O Máscara




DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora a Sessão Premier, o filme:
O Máscara


SINOPSE: O mais maluco de todos os personagens do cinema vem do mais miserável de todos. Stanley Ipkiss é um cara sem futuro, trapalhão, bobalhão e desastrado. Em resumo: um panaca! E é justamente esse sujeito infeliz que encontra uma misteriosa máscara de madeira que revela os maiores desejos dentro do Stanley, e o Máscara irão enlouquecer toda a cidade junto.

Esta comédia de alto grau foi uma das melhores do grandioso Jim Carrey, com participação da estonteante Cameron Diaz. Aproveitem essa maravilhosa obra do cinema.


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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Aviso T.World



Depois de quase um mês sem outras postagens da Sessão Premier, amanhã o T.World voltará a trazer os grandes sucessos do cinema para os seus leitores. Qual o filme de amanhã? Surpresa!

Como a primeira postagem depois de 4 semanas, eu quero fazer suspense. Então novamente amanhã, pontualmente às 19:00 horas, chega a Sessão Premier.



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Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 16





— CAPÍTULO DEZESSEIS —
GODRIC’S HOLLOW



QUANDO HARRY ACORDOU NO DIA SEGUINTE, levou vários segundos até lembrar o que acontecera. Depois desejou, infantilmente, que tivesse sonhado, que Rony continuasse ali e jamais tivesse partido. Contudo, ao virar a cabeça no travesseiro, viu a cama do amigo vazia. Ela parecia atrair o seu olhar como um cadáver o faria. Harry pulou de sua cama, evitando olhar a de Rony. Hermione, já ocupada na cozinha, não desejou a Harry um bom dia, mas virou depressa o rosto quando ele passou.
Ele partiu, disse Harry de si para si. Ele partiu. Sentiu necessidade de repetir a frase mentalmente, enquanto se lavava e se vestia, como se com isso pudesse embotar o abalo que sofrera. Ele partiu e não vai voltar. E essa era a verdade pura e simples. Harry sabia que os feitiços de proteção impossibilitariam que Rony os reencontrasse, quando saíssem desse lugar.
Ele e Hermione tomaram café em silêncio. Os olhos dela estavam inchados e vermelhos, parecia não ter dormido. Depois, eles guardaram seus pertences, Hermione demorando-se.
Harry sabia por que a amiga queria prolongar o tempo à margem do rio, viu-a várias vezes erguer a cabeça, esperançosa, e teve certeza de que se iludia, pensando que ouvira passos apesar da chuva pesada, mas ninguém de cabelos ruivos aparecera entre as árvores. Toda vez que Harry a imitava, olhando para os lados (pois não podia deixar de alimentar esperanças), e nada via exceto a mata lavada pela chuva, outra pequena parcela de fúria explodia em seu peito. Ouvia Rony dizendo: “Pensamos que você soubesse o que estava fazendo!”, e retomava a arrumação das coisas sentindo um bolo na boca do estômago.
O rio barrento ao lado estava subindo rapidamente, e logo transbordaria pelo barranco.
Demoraram-se uma boa hora além do horário em que normalmente deixariam o acampamento. Por fim, tendo rearrumado a bolsinha de contas três vezes, Hermione pareceu incapaz de encontrar outras razões para retardar a partida: ela e Harry se deram as mãos e desaparataram, reaparecendo em um urzal, na encosta de um morro assolado pelo vento.
No instante em que chegaram, Hermione largou a mão dele e se afastou, sentando-se, por fim, em um pedregulho, o rosto nos joelhos, o corpo sacudindo, Harry sabia, por soluços. Parou para observá-la, imaginando que deveria consolar a amiga, mas alguma coisa o manteve pregado no chão. Por dentro, sentia-se frio e tenso: revia a expressão de desprezo no rosto de Rony. Saiu, então, caminhando pelo urzal, descrevendo um largo círculo em torno da aflita Hermione, lançando os feitiços de que ela normalmente se encarregava para garantir a proteção de todos.
Nos dias que se seguiram, eles não falaram em Rony. Harry estava decidido a jamais voltar a mencionar o nome dele, e Hermione parecia entender que não adiantava forçar o assunto, embora, por vezes, à noite, quando achava que Harry estava dormindo, ele a ouvisse chorar.
Nesse meio-tempo, ele se habituou a tirar da mochila o mapa do maroto e examiná-lo à luz da varinha. Esperava o momento em que o pontinho com o nome de Rony reapareceria nos corredores de Hogwarts, comprovando que retornara ao confortável castelo, protegido por sua condição de sangue-puro. Contudo, Rony não aparecia e, passado algum tempo, Harry viu-se examinando o mapa simplesmente para ver o nome de Gina no dormitório feminino, se perguntando se a intensidade com que o fitava poderia penetrar o sono da garota, se de alguma forma ela poderia saber que estava pensando nela, desejando que estivesse bem.
Durante o dia, eles se ocupavam com tentativas para determinar os possíveis esconderijos da espada de Gryffindor, mas quanto mais discutiam onde Dumbledore poderia tê-la guardado, tanto mais desesperadas e improváveis se tornavam as suas especulações. Por mais que vasculhasse o cérebro, Harry não conseguia se lembrar de Dumbledore mencionando algum lugar onde pudesse esconder alguma coisa.
Havia momentos em que ele não sabia se estava mais zangado com Rony ou com Dumbledore. Pensamos que você soubesse o que estava fazendo... pensamos que Dumbledore tivesse lhe dito o que fazer... pensamos que você tivesse um plano de verdade!
Harry não podia esconder de si mesmo: Rony tinha razão. Dumbledore não lhe deixara virtualmente nada. Tinham descoberto uma Horcrux, mas não os meios para destruí-la; as outras continuavam tão inatingíveis como sempre tinham estado. A desesperança ameaçava engolfá-lo. Espantava-se, agora, ao pensar em sua presunção quando aceitou o oferecimento dos amigos para acompanhá-lo nessa viagem tortuosa e inútil. Nada sabia, nada lhe ocorria, e estava constante e dolorosamente alerta ao menor sinal de que Hermione também estivesse prestes a lhe dizer que estava farta, que ia embora.
Passavam muitas noites praticamente em silêncio, e Hermione adquiriu o hábito de tirar o retrato de Fineus Nigellus e aprumá-lo em uma cadeira, como se ele pudesse preencher uma parte do enorme vazio que a partida de Rony deixara. Apesar da afirmação anterior de que jamais tornaria a visitá-los, Fineus Nigellus parecia incapaz de resistir à oportunidade de descobrir mais sobre as atividades de Harry, e consentia em reaparecer, de olhos vendados, a intervalos irregulares. O garoto sentia-se até satisfeito de vê-lo, porque era uma companhia, ainda que do tipo depreciativo e sarcástico. Tinham prazer em saber o que estava acontecendo em Hogwarts, embora Fineus não fosse o informante ideal. Venerava Snape, o primeiro diretor da Sonserina, depois dele próprio, a assumir a escola, e os garotos precisavam se cuidar para não criticar nem fazer perguntas impertinentes sobre Snape, ou Fineus abandonaria imediatamente o retrato.
Contudo, ele deixava fragmentos de notícias. Pelo visto, Snape estava enfrentando uma insubordinação menor, mas constante, de um núcleo de alunos irredutíveis. Gina fora proibida de ir a Hogsmeade. Snape restabelecera o velho decreto de Umbridge de proibir reuniões de três ou mais alunos ou quaisquer associações estudantis informais. De tudo isso, Harry deduzia que Gina e, provavelmente, Neville e Luna, estavam fazendo o possível para dar continuidade à Armada de Dumbledore. Essas mínimas notícias faziam Harry desejar rever Gina com tanta intensidade que chegava a lhe doer o estômago; mas o faziam também pensar em Rony, e em Dumbledore, e na própria Hogwarts, da qual sentia tanta falta quanto da ex-namorada.
De fato, quando Fineus Nigellus falava das medidas radicais do diretor, Harry sentia uma loucura, que durava uma fração de segundo, em que simplesmente imaginava voltar à escola para se engajar na desestabilização do regime de Snape: ser alimentado, ter uma cama macia e outros no comando parecia-lhe, no momento, a perspectiva mais maravilhosa do mundo. Lembrava-se, então, de que era o Indesejável Número Um, que havia um prêmio de dez mil galeões por sua captura, e que entrar em Hogwarts esses dias era tão perigoso quanto entrar no Ministério da Magia.
Na verdade, Fineus Nigellus enfatizava esse fato involuntariamente quando inseria perguntas importantes sobre o paradeiro de Harry e Hermione. Sempre que fazia isso, a garota enfiava-o na bolsinha de contas. Fineus Nigellus, invariavelmente, se recusava a reaparecer por vários dias depois dessas despedidas pouco cerimoniosas.
O clima foi esfriando gradativamente. Por não ousarem permanecer em área alguma por muito tempo, em vez de acamparem no sul da Inglaterra, onde o congelamento do solo seria a pior de suas preocupações, eles continuaram a viajar em ziguezague pelo país, enfrentando uma encosta montanhosa, onde o granizo açoitava a barraca, um brejo plano, onde a barraca foi inundada por água gelada, e uma minúscula ilha no meio de um lago escocês, onde a neve soterrou metade da barraca durante a noite.
Eles já haviam encontrado árvores de Natal piscando nas janelas de salas das visitas, antes da noite em que Harry resolveu sugerir, mais uma vez, a única avenida inexplorada que lhes restava. Tinham acabado de comer uma refeição excepcionalmente boa: Hermione fora a um supermercado com a Capa da Invisibilidade (e, ao sair, escrupulosamente deixara o pagamento em uma caixa aberta) e Harry achou que ela poderia ser mais persuasível com a barriga cheia de espaguete à bolonhesa e peras enlatadas. Tomara também a precaução de sugerir que, durante algumas horas, não usassem a Horcrux, que penduraram no beliche ao lado dele.
— Hermione?
— Hum? — ela estava enroscada em uma das poltronas fundas lendo Os Contos de Beedle, o Bardo.
Harry não conseguia imaginar o quanto mais a amiga poderia extrair daquele livro, que, afinal, nem era tão longo; mas era evidente que estava decifrando alguma coisa, porque tinha o Silabário de Spellman aberto sobre o braço da poltrona.
Harry pigarreou. Sentiu-se repetindo exatamente o que fizera quando, vários anos antes, perguntara à Profª. McGonagall se poderia ir a Hogsmeade, apesar de não ter conseguido persuadir os Dursley a assinarem a permissão.
— Hermione, estive pensando e...
— Harry, você poderia me ajudar aqui?
Aparentemente, ela não o escutara. Curvou-se para frente e estendeu-lhe o livro.
— Olhe esse símbolo — disse, apontando para o alto da página.
Acima do que Harry supôs ser o título do conto (não podia afirmar, pois não sabia ler runas), havia um símbolo que lembrava um olho triangular, a pupila cortada por uma linha.
— Eu nunca estudei Runas Antigas, Hermione.
— Sei disso, mas não é uma runa e não consta no silabário, tampouco. Todo esse tempo pensei que fosse um olho, mas acho que não é! Foi feito à tinta, olhe, alguém o desenhou aqui, não faz realmente parte do livro. Pense, você já viu isso antes?
— Não... não, espere aí. — Harry olhou mais atentamente — Não é o mesmo símbolo que o pai de Luna estava usando pendurado ao pescoço?
— Bem, foi isso que pensei também!
— Então é a marca de Grindelwald.
Ela encarou-o, boquiaberta.
—Quê?
— Krum me contou que...
Harry repetiu a história que Vítor Krum lhe contara no casamento. Ela pareceu perplexa.
— A marca de Grindelwald?
Hermione olhou de Harry para o estranho símbolo e novamente para ele.
— Nunca soube que Grindelwald tivesse uma marca. Não vi isso mencionado em nada que tenha lido a respeito dele.
— Bem, como eu disse, Krum falou que esse símbolo foi gravado em uma parede de Durmstrang e que achava que Grindelwald o teria posto lá.
— É muito esquisito. Se for um símbolo das Artes das Trevas, que estará fazendo em um livro de histórias para crianças?
— É, é bizarro — concordou Harry — E seria de esperar que Scrimgeour o reconhecesse. Era Ministro, tinha que ser especialista em Magia das Trevas.
— Eu sei... talvez ele achasse que era apenas um olho, exatamente como eu. Todos os outros contos têm pequenos desenhos sobre os títulos — ela se calou e continuou a examinar a estranha marca.
Harry fez nova tentativa.
— Hermione?
—Hum?
— Estive pensando. Quero... quero ir a Godric’s Hollow.
Ela ergueu a cabeça, mas tinha os olhos desfocados e isso deu a Harry a certeza de que ainda estava pensando na misteriosa marca.
— Sim. Sim, estive pensando nisso também. Acho realmente que teremos de ir.
— Você me ouviu direito?
— Claro que ouvi. Você quer ir a Godric’s Hollow. Concordo. Acho que devíamos. Isto é, também não consigo pensar em mais nenhum lugar onde possa estar. Será perigoso, mas, quanto mais penso, mais provável me parece que esteja lá.
— Ah... o quê está lá? — perguntou Harry.
Ao ouvir isso, Hermione pareceu tão confusa quanto ele.
— Bem, a espada, Harry! Dumbledore certamente sabia que você iria querer voltar lá, quero dizer, Godric’s Hollow foi onde Godric Gryffindor nasceu...
— Sério? Gryffindor era de Godric’s Hollow?
— Harry, algum dia você ao menos abriu História da Magia?
— Ãh — disse ele, sentindo que sorria pela primeira vez em meses: os músculos do seu rosto lhe pareceram estranhamente rígidos — Eu talvez tenha aberto, sabe, quando o comprei... só uma vez...
— Bem, como a aldeia tem o nome dele, imaginei que você talvez tivesse feito a ligação — retrucou Hermione. Seu tom de voz agora estava muito mais parecido com o da velha Hermione do que ultimamente.
Harry quase esperou que ela anunciasse que ia à biblioteca.
— No livro, tem um trechinho sobre a aldeia, espere aí...
Ela abriu a bolsinha de contas e procurou um momento, por fim, tirou o seu exemplar do livro-texto de Batilda Bagshot, pelo qual correu o polegar até encontrar a página que queria.

Com a assinatura do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia em 1689, os bruxos entraram para sempre na clandestinidade. Talvez fosse natural que formassem pequenas comunidades dentro de uma comunidade. Muitas aldeias e pequenos povoados atraíram várias famílias bruxas que se uniram para mútuo apoio e proteção. As aldeias de Tinworth na Cornualha, Upper Flagley em Yorkshire e Ottery St. Catchpole na costa sul da Inglaterra destacaram-se como lar para grupos de famílias bruxas que conviviam com trouxas tolerantes e por vezes confundidos.
O mais famoso desses lugares semibruxos talvez seja Godric’s Hollow, uma aldeia no oeste da Inglaterra onde nasceu o grande mago Godric Gryffindor e onde Bowman Wright, um ferreiro bruxo, fabricou o primeiro Pomo. O cemitério local está repleto de nomes de antigas famílias bruxas, e isto, sem dúvida, explica as histórias de assombrações que há séculos assolam sua pequena igreja.

— Você e seus pais não são mencionados — disse Hermione, fechando o livro — Porque a Profª. Bagshot aborda apenas os eventos até o fim do século XIX. Mas você está entendendo? Godric’s Hollow, Godric Gryffindor, a espada de Gryffindor; você não acha que Dumbledore teria esperado que você fizesse a ligação?
— Ah, é...
Harry não quis admitir que nem sequer pensara na espada quando sugeriu que fossem a Godric’s Hollow. Para ele, a atração da aldeia residia nos túmulos de seus pais, a casa onde, por um triz, ele escapara da morte, e na pessoa de Batilda Bagshot.
— Lembra-se do que a Muriel disse? — perguntou ele, após algum tempo.
— Quem?
— Você sabe — Harry hesitou: não queria mencionar o nome de Rony — A tia-avó de Gina. No casamento. A que falou que você tinha tornozelos finos demais.
— Ah — disse Hermione.
Foi um momento difícil: Harry sabia que ela pressentira a menção do nome de Rony. Continuou depressa:
— Muriel disse que Batilda Bagshot ainda vive em Godric’s Hollow.
— Batilda Bagshot — murmurou Hermione, passando o dedo indicador pelo nome da escritora em relevo na capa do livro de História da Magia — Bem, suponhamos...
Ela ofegou tão fortemente que as entranhas de Harry deram uma cambalhota; ele sacou a varinha, olhando para a entrada, quase esperando ver uma mão forçando a aba de lona da barraca, mas não havia nada ali.
— Quê? — exclamou ele, entre zangado e aliviado — Por que fez isso? Pensei que, no mínimo, tivesse visto um Comensal da Morte abrindo o zíper da barraca...
— Harry, e se Batilda tiver a espada? E se Dumbledore a confiou a ela?
Harry considerou a possibilidade. A essa altura, ela estaria extremamente idosa e, segundo Muriel, gagá. Seria provável que Dumbledore escondesse a espada de Gryffindor com ela? Nesse caso, ele achava que Dumbledore relegara muita coisa ao acaso: jamais revelara que tivesse substituído a espada por uma falsificação, e tampouco mencionara sua amizade com Batilda. Agora, porém, não era o momento de lançar dúvidas sobre a teoria de Hermione, não quando estava disposta, de modo surpreendente, a concordar com o seu maior desejo.
— É possível. Então vamos a Godric’s Hollow?
— Vamos, mas teremos que planejar a viagem com muito cuidado — Hermione empertigou-se na poltrona, e Harry percebeu que a perspectiva de ter novamente um objetivo definido melhorara o ânimo dela tanto quanto o dele — Para começar, precisamos praticar desaparatação a dois sob a Capa da Invisibilidade e, por prudência, uns Feitiços da Desilusão também, a não ser que você ache que devemos botar para quebrar e usar a Poção Polissuco. Nesse caso precisaríamos recolher fios de cabelos de alguém. Na verdade, acho que isso seria melhor, Harry, quanto mais impenetráveis os nossos disfarces, melhor...
Harry deixou-a falar, assentindo e concordando sempre que havia uma pausa, mas sua mente se alheara da conversa. Pela primeira vez desde que descobrira que a espada no Gringotes era falsa, sentia-se estimulado.
Estava em vias de ir à sua terra, em vias de retornar ao lugar onde tivera uma família. Se não fosse por Voldemort, em Godric’s Hollow ele teria crescido e passado todas as férias escolares. Poderia ter convidado amigos a sua casa... poderia até ter tido irmãos e irmãs... sua mãe é que teria feito o seu bolo de dezessete anos. A vida que ele perdera nunca lhe parecera tão real como neste momento, em que sabia estar prestes a conhecer o lugar em que tudo aquilo lhe fora roubado. Aquela noite, depois que Hermione foi se deitar, silenciosamente Harry tirou a mochila da bolsinha de contas e apanhou o álbum de fotografias que Hagrid lhe dera tantos anos atrás.
Pela primeira vez em meses, examinou em detalhe as velhas fotos dos seus pais, sorrindo e acenando para ele em imagem, que era só o que lhe restava deles.
Harry teria, de bom grado, partido para Godric’s Hollow no dia seguinte, mas Hermione tinha outras ideias. Convencida de que Voldemort esperaria que Harry voltasse à cena da morte dos pais, ela decidira que só viajariam depois de assegurar que tivessem os melhores disfarces possíveis. Portanto, só uma semana mais tarde, após obterem fios de cabelos de trouxas inocentes que faziam compras de Natal, e praticar aparatação e desaparatação sob a Capa da Invisibilidade, Hermione concordou em viajar.
Deviam aparatar até a aldeia protegidos pela escuridão da noite, portanto, a tarde ia adiantada quando finalmente beberam a Poção Polissuco, e Harry se transformou em um trouxa de meia-idade, com os cabelos rareando, e Hermione em uma esposa pequena e apagada. A bolsinha de contas com todos os seus pertences (afora a Horcrux que Harry usava ao pescoço) estava guardada no bolso interno do casaco de Hermione, abotoado até em cima. Harry cobriu-os com a Capa da Invisibilidade, e eles penetraram mais uma vez na sufocante escuridão.
Sentindo o coração bater na garganta, Harry abriu os olhos. Achavam-se parados de mãos dadas em uma estradinha coberta de neve, sob um céu azul-escuro em que as primeiras estrelas da noite começavam a piscar palidamente. Havia chalés de ambos os lados da via estreita, e decorações de Natal cintilavam às janelas. Um pouco adiante, um clarão dourado de lampiões de rua indicava o centro da aldeia.
— Quanta neve! — sussurrou Hermione sob a capa — Por que não pensamos na neve? Depois de todas as precauções que tomamos, vamos deixar pegadas! Temos que nos livrar delas: você vai na frente e eu cuido disso...
Harry não queria entrar na aldeia como um cavalo de pantomima, tentando mantê-los invisíveis ao mesmo tempo em que ocultavam magicamente os vestígios de sua passagem.
— Vamos tirar a capa — sugeriu Harry e, ao ver o rosto amedrontado de Hermione, completou — Ah, vamos, não parecemos nós mesmos e não há ninguém por aqui.
Ele guardou a capa sob o paletó e prosseguiram desembaraçados, o ar gélido beliscando seu rosto ao passarem por outros chalés: qualquer um deles poderia ser aquele em que Tiago e Lílian tinham vivido ou o que Batilda vivia agora. Harry observou as portas, os tetos carregados de neve, os pórticos, imaginando se ainda se lembraria de algum deles, sabendo, intimamente, que era impossível, tinha pouco mais de um ano quando deixara a aldeia para sempre. Não sabia ao certo se conseguiria ver o chalé, nem o que acontecia quando os portadores do Feitiço Fidelius morriam. Então, a estradinha em que iam fez uma curva para a esquerda, e o coração da aldeia, uma pracinha, surgiu aos seus olhos.
A todo redor havia lâmpadas coloridas penduradas, e, no centro, o que lhe pareceu um memorial de guerra, parcialmente sombreado por uma árvore de Natal sacudida pelo vento.
Havia diversas lojas, um correio, um bar e uma igrejinha cujos vitrais brilhavam como joias do lado oposto da praça. A neve ali se compactara: estava dura e escorregadia por onde as pessoas tinham passado o dia todo. Aldeões cruzavam a sua frente em todas as direções, seus vultos brevemente iluminados pelos lampiões de rua. Eles ouviram fragmentos de risos e música pop quando a porta do bar se abriu e fechou, depois ouviram um coral natalino começando a cantar na igreja.
— Harry, acho que é noite de Natal! — exclamou Hermione.
—É?
Perdera a noção da data, havia semanas que não viam um jornal.
— Tenho certeza de que é — tornou Hermione, com os olhos na igreja — Eles... eles estarão lá, não? Sua mãe e seu pai? Estou vendo o cemitério paroquial.
Harry sentiu uma emoção indefinida que transcendia a excitação, assemelhava-se mais ao medo. Agora, tão perto, estava em dúvida se queria mesmo ver. Talvez Hermione soubesse o que ele estava sentindo, porque pegou-o pela mão e assumiu a liderança pela primeira vez, puxando-o para prosseguir. No meio da praça, no entanto, ela parou subitamente.
— Harry, olha!
Ela apontava para o memorial de guerra. Ao passarem pelo monumento, ele se transformara. Em vez de um obelisco coberto de nomes, havia uma estátua de três pessoas: um homem de cabelos rebeldes e óculos, uma mulher de cabelos longos e rosto bonito e bondoso, e um menininho aninhado nos braços dela. A neve se depositara em suas cabeças, como gorros brancos e fofos.
Harry aproximou-se fitando os rostos dos pais.
Nunca imaginara que haveria uma estátua... como era estranho ver-se representado em pedra, um menininho feliz sem cicatriz na testa...
— Vamos — disse Harry, ao se dar por satisfeito, e os dois retomaram o caminho para a igreja. Ao atravessarem a rua, ele espiou por cima do ombro: a estátua se transformara mais uma vez em um memorial de guerra.
A cantoria foi se elevando à medida que se aproximavam. Harry sentiu a garganta apertar, lembrou-se com tanta intensidade de Hogwarts, de Pirraça berrando paródias grosseiras das canções de dentro das armaduras, das doze árvores de Natal no Salão Principal, de Dumbledore usando a touca que ganhara em uma bala de estalo, de Rony com o suéter tricotado a mão...
Havia um portão que dava passagem a uma pessoa por vez, na entrada do cemitério.
Hermione o abriu, o mais silenciosamente possível, e os dois entraram de lado. Nas laterais do caminho escorregadio que levava às portas da igreja, a neve estava alta e intocada. Eles atravessaram a neve, deixando profundas valas ao contornarem o prédio, mantendo-se à sombra das janelas iluminadas.
No adro da igreja, fileiras e mais fileiras de túmulos nevados emergiam de um manto azul muito claro com ofuscantes malhas vermelhas, amarelas e verdes, que eram a luz dos vitrais incidindo sobre a neve. Apertando a varinha no bolso do paletó, Harry se dirigiu ao túmulo mais próximo.
— Olhe esse, é de um Abbott, talvez seja um parente da Ana falecido há muito tempo!
— Fale baixo — pediu Hermione.
Eles foram se embrenhando no cemitério, cavando, ao passar, pegadas escuras na neve, inclinando-se para espiar as inscrições nas velhas lápides, apertando de vez em quando os olhos para enxergar na escuridão circundante e se certificar plenamente de que estavam sozinhos.
— Harry aqui!
Hermione estava a duas fileiras de distância, ele precisou voltar até a amiga, seu coração decididamente ribombando no peito.
—É...?
— Não, mas venha ver!
Ela apontou para uma pedra escura. Harry se abaixou e viu, no granito congelado e manchado de liquens, as palavras Kendra Dumbledore, e abaixo das datas de seu nascimento e morte, e sua filha Ariana. Havia também uma citação: Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
Então Rita Skeeter e Muriel tinham entendido alguns fatos corretamente. A família Dumbledore vivera realmente ali, e parte dela morrera ali. Ver o túmulo era pior do que ouvir falar nele. Harry não pôde deixar de pensar que Dumbledore e ele tinham profundas raízes neste cemitério, e que o diretor devia ter lhe dito isso, entretanto, jamais pensara em partilhar tal conexão. Poderiam ter visitado o lugar juntos, por um momento, Harry se imaginou vindo ali com o diretor, o vínculo que teriam formado, o quanto isto teria significado para ele. Parecia, porém, que, para Dumbledore, o fato de suas famílias jazerem lado a lado no mesmo cemitério fosse uma coincidência insignificante, irrelevante, talvez, para o trabalho que desejava ver Harry realizar.
Hermione observava-o, e Harry ficou contente que as sombras ocultassem seu rosto. Ele tornou a ler as palavras na lápide. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Não compreendia o que significavam. Com certeza tinham sido escolhidas por Dumbledore, por ser o membro mais velho da família após a morte da mãe.
— Você tem certeza de que ele nunca mencionou...? — começou Hermione.
— Não — respondeu Harry, secamente, e em seguida — Vamos continuar olhando.
E lhe deu as costas, desejando não ter visto a lápide, não queria que a sua intensa vibração fosse contaminada pelo rancor.
— Aqui! — tornou a exclamar Hermione, da escuridão, instantes depois — Ah, não, desculpe! Pensei ter lido Potter.
Ela estava esfregando uma lápide esfarelada, coberta de musgo, e a estudava com uma pequena ruga no rosto.
— Harry, volte aqui um momento.
Ele não queria ser novamente desviado de sua busca e foi resmungando que retornou pela neve até Hermione.
—Quê?
— Olhe só isso!
O túmulo era extraordinariamente velho, desintegrado pelas intempéries, e ele quase não conseguia enxergar o nome. Hermione mostrou-lhe o símbolo logo abaixo.
— Harry, é a marca que estava no livro!
Ele olhou para o ponto que a amiga indicava: a pedra estava tão gasta que era difícil ver a gravação, embora parecesse haver uma marca triangular sob o nome quase ilegível.
— É... poderia ser...
Hermione acendeu a varinha e iluminou o nome na lápide.
— Diz aqui Ig-Ignoto, acho...
— Vou continuar procurando os meus pais, tá? — respondeu Harry, com certa rispidez na voz, e tornou a se afastar, deixando-a agachada ao lado do velho túmulo.
De vez em quando, ele reconhecia um sobrenome que, como Abbott, encontrara em Hogwarts. Às vezes havia várias gerações da mesma família bruxa representadas no cemitério, Harry percebia pelas datas que a família ou se extinguira ou seus membros atuais tinham se mudado de Godric’s Hollow. E prosseguia avançando entre os túmulos e, cada vez que encontrava uma lápide nova, sentia um aperto de apreensão ou de expectativa.
A escuridão e o silêncio pareceram se tornar, de repente, muito mais profundos. Harry olhou ao redor preocupado, pensando nos dementadores, e se deu conta de que o coral havia terminado, que a conversa e o alvoroço dos fiéis iam morrendo à medida que se dirigiam à praça. Alguém na igreja acabara de apagar as luzes.
Então, das trevas, veio a voz de Hermione pela terceira vez, alta e clara, a poucos metros de distância.
— Harry, eles estão aqui... bem aqui.
E ele soube pelo seu tom de voz que desta vez eram os seus pais: aproximou-se sentindo que um peso comprimia-lhe o peito, a mesma sensação que tivera logo depois da morte de Dumbledore, uma dor que chegava a pesar em seu coração e seus pulmões.
A lápide estava apenas duas fileiras atrás da de Kendra e Ariana. Era de mármore, tal como a de Dumbledore, e isso facilitava a leitura, pois parecia brilhar no escuro. Harry não precisou se ajoelhar nem chegar muito perto para ler as palavras ali gravadas.

TIAGO POTTER
LÍLIAN POTTER
Nascido 27 de Março 1960
Nascida 30 de Janeiro 1960
Falecido 31 de Outubro 1981
Falecida 31 de Outubro 1981.

Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.

Harry leu as palavras devagar, como se fosse ter uma única chance de entender seu significado, e leu as últimas em voz alta.
— “Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte”... — ocorreu-lhe um pensamento horrível, acompanhado de uma espécie de pânico — Essa não é a ideia dos Comensais da Morte? Por que está ali?
— Não significa aniquilar a morte como querem os Comensais da Morte, Harry — disse Hermione, em tom meigo — Significa... entende... viver além da morte. Viver após a morte.
Eles, entretanto, não estavam vivos, pensou Harry: Estavam mortos. As palavras vazias não podiam disfarçar que os restos dos seus pais jaziam sob a neve e o mármore, indiferentes, inconscientes. E as lágrimas vieram antes que ele pudesse contê-las, escaldantes e instantaneamente congeladas em seu rosto, de que adiantava enxugá-las ou fingir? Deixou-as cair, seus lábios contraídos, os olhos fixos na neve espessa que ocultava o lugar em que jaziam os despojos dos seus pais, agora, certamente apenas ossos ou pó, sem saberem nem se importarem que seu filho sobrevivente se achasse tão perto, seu coração ainda palpitando, vivo por causa do seu sacrifício e quase desejando, neste momento, que estivesse dormindo com eles sob a neve.
Hermione pegara sua mão e a apertava com força. Ele não conseguia fitá-la, mas retribuiu o aperto, e agora inspirava haustos profundos e cortantes do ar noturno, tentando suportar, tentando se controlar. Ele deveria ter trazido alguma coisa para lhes oferecer e não pensara nisso, e todas as plantas no cemitério estavam desfolhadas e congeladas.
Hermione, porém, ergueu a varinha, fez um círculo no ar e, diante dos seus olhos, fez brotar uma coroa de heléboros. Harry apanhou-a e depositou-a no túmulo dos pais. Assim que se levantou, quis ir embora: achava que não aguentaria ficar ali nem mais um minuto.
Harry passou o braço pelos ombros de Hermione, e ela passou o dela por sua cintura, viraram-se em silêncio, se afastaram pela neve, deixando para trás o túmulo da mãe e da irmã de Dumbledore, e voltaram em direção à igreja e ao portão estreito e pouco visível.







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