quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Harry Potter e a Ordem da Fênix - Capítulo 27





— CAPÍTULO VINTE E SETE —
O Centauro e o Dedo-Duro



— AGORA, APOSTO como você gostaria de não ter desistido de Adivinhação, não é, Hermione? — perguntou Parvati, sorrindo presunçosa.
Era a hora do café da manhã, dois dias depois da demissão da Profª. Trelawney, e Parvati estava enrolando os cílios na varinha e examinando o efeito nas costas de uma colher.
Iam ter a primeira aula com Firenze naquela manhã.
— Nem tanto — disse Hermione com indiferença, lendo o Profeta Diário — Jamais gostei realmente de cavalos.
Ela virou a página do jornal e passou os olhos pelas colunas.
— Ele não é cavalo, é centauro! — disse Lilá, chocada.
— Um lindo centauro... — suspirou Parvati.
— Ainda assim, continua a ter quatro patas — replicou Hermione calmamente — Seja como for, pensei que vocês duas estivessem muito chateadas por Trelawney ter ido embora.
— Estamos! — confirmou Lilá — Fomos à sala dela visitá-la, levamos uns narcisos: não daqueles que grasnam como os da Sprout, dos bonitos.
— Como é que ela está? — perguntou Harry.
— Nada bem, coitadinha — disse Lilá penalizada — Estava chorando e dizendo que preferia deixar o castelo para sempre a continuar no mesmo lugar que a Umbridge, e não a culpo, a Umbridge foi horrível com ela, não foi?
— Tenho um pressentimento de que a Umbridge só está começando a ser horrível — comentou Hermione sombriamente.
— Impossível — disse Rony devorando seu pratarraz de ovos com bacon — Ela não pode ficar pior do que é.
— Pois escreva o que estou dizendo, ela vai querer se vingar do Dumbledore por nomear um novo professor sem consultá-la — disse Hermione fechando o jornal — Principalmente um semi-humano. Você viu a cara que ela fez quando viu o Firenze.
Depois do café, Hermione foi para a aula de Aritmancia enquanto Harry e Rony seguiam com Parvati e Lilá para o Saguão de Entrada, caminho para a aula de Adivinhação.
— Não vamos para a Torre Norte? — perguntou Rony, intrigado ao ver Parvati passar pela escadaria de mármore sem subir.
Parvati lhe lançou um olhar de desdém por cima do ombro.
— Como é que você espera que Firenze suba aquela escada? Estamos na sala onze agora, não viu no quadro de avisos ontem?
A sala onze era no térreo, no corredor que saía do Saguão para o lado oposto ao Salão Principal. Harry sabia que era uma daquelas salas que não eram usadas com regularidade, e por isso dava uma impressão de abandono como o de um armário ou quarto de guardados. Quando ele entrou logo atrás de Rony e se viu no meio de uma clareira florestal, ficou momentaneamente atordoado.
— Que di...?
O piso da sala se revestira de um musgo primaveril no qual se erguiam árvores, seus ramos folhosos balançavam no teto e nas janelas, fazendo com que a sala se enchesse de raios de uma luz verde suave e malhada. Os alunos que já haviam chegado se acomodaram no piso terroso, com as costas apoiadas nos troncos das árvores e pedregulhos, e abraçavam as pernas dobradas ou cruzadas com força sobre o peito, todos parecendo muito nervosos.
No meio da clareira, onde não havia árvores, estava Firenze.
— Harry Potter — disse ele, estendendo a mão quando o garoto entrou.
— Aah... oi — cumprimentou Harry, apertando a mão do centauro, que o examinou sem piscar com aqueles olhos espantosamente azuis, mas não sorriu — Aah... que bom ver você.
— E você — disse o centauro, inclinando a cabeça louro-prateada — Estava escrito que tornaríamos a nos encontrar.
Harry reparou que havia no peito de Firenze a sombra de um hematoma em forma de casco.
Quando se virou para se reunir ao resto da turma sentada no chão, viu que todos o olhavam assombrados, aparentemente muito impressionados que ele falasse com Firenze, que eles acharam assustador. Quando a porta foi fechada e o último aluno se sentou em um toco de árvore ao lado da cesta de papéis, Firenze fez um gesto englobando a sala toda.
— O Prof. Dumbledore teve a bondade de providenciar esta sala de aula para nós — disse o centauro, quando todos se calaram — Imitando o meu hábitat natural. Eu teria preferido ensinar a vocês na Floresta Proibida, que foi, até Segunda-Feira, a minha morada... mas isto já não é possível.
— Por favor... aah... professor... — disse Parvati ofegante, erguendo a mão — Por que não? Já estivemos lá com Hagrid, não temos medo!
— O problema não é a sua coragem — disse Firenze — Mas a minha situação. Não posso voltar à Floresta Proibida. O meu rebanho me baniu.
— Rebanho? — exclamou Lilá confusa, e Harry percebeu que ela estava pensando em vacas — Quê... ah!
A compreensão se espalhou em seu rosto.
— Há outros iguais ao senhor? — perguntou atordoada.
— Hagrid o criou, como fez com os Testrálios? — perguntou Dino curioso.
Firenze virou lentamente a cabeça para encarar Dino, que pareceu perceber na hora que acabara de dizer uma coisa muito ofensiva.
— Não... quis dizer... me desculpe — terminou o garoto com a voz abafada.
— Os centauros não são servidores nem brinquedos dos humanos — disse Firenze com calma.
Fez-se uma pausa, então Parvati tornou a erguer a mão.
— Por favor, professor... por que os outros centauros o baniram?
— Porque eu concordei em trabalhar para o Prof. Dumbledore. E eles encaram isso como uma traição à nossa espécie.
Harry se lembrou de que, há quase quatro anos, o centauro Agouro ralhara com Firenze por permitir que Harry o cavalgasse até um lugar seguro, chamara-o de “mula”. Ficou imaginando se teria sido Agouro quem escoiceara o peito de Firenze.
— Vamos começar — disse o centauro. Ele balançou a longa cauda baia, ergueu a mão para o dossel de folhas no alto, então baixou-a lentamente e, ao fazer isso, a claridade da sala diminuiu, agora pareciam que estavam sentados em uma clareira ao crepúsculo, e surgiram estrelas no teto.
Ouviram-se exclamações e gritos sufocados, e Rony exclamou audivelmente: “Caracas!”.
— Deitem-se no chão — disse Firenze calmamente — E observem o céu. Ali está escrito, para os que sabem ler, o destino das nossas raças.
Harry se deitou e olhou para o céu.
Uma estrela vermelha piscou para ele lá do alto.
— Sei que vocês aprenderam os nomes dos planetas e de suas luas em Astronomia, e que já mapearam o curso das estrelas no céu. Os centauros foram desvendando os mistérios desses movimentos durante séculos. Nossas descobertas nos ensinam que o futuro pode ser vislumbrado no céu que nos cobre...
— A Profª. Trelawney estudou Astrologia conosco! — disse Parvati excitada, erguendo a mão à frente do corpo para que o professor a visse no ar, uma vez que estava deitada de costas — Marte causa acidentes e queimaduras e outros problemas, e quando faz ângulo com Saturno, como agora — ela desenhou um ângulo reto no ar — Significa que as pessoas precisam ter extremo cuidado ao lidar com coisas quentes...
— Isso — disse Firenze calmo — São tolices humanas.
A mão de Parvati caiu frouxamente ao lado do corpo.
— Ferimentos banais, pequeninos acidentes humanos — tornou Firenze, pateando o chão coberto de musgo — No universo, eles não têm maior significação do que formigas correndo, e não são afetados pelos movimentos dos planetas.
— A Profª. Trelawney... — começou Parvati em tom ofendido e indignado.
— É um ser humano — disse Firenze com simplicidade — E, portanto, tem os olhos toldados e as mãos tolhidas pelas limitações de sua espécie.
Harry virou muito ligeiramente a cabeça para olhar Parvati que parecia muito ofendida, assim como vários colegas que a rodeavam.
— Sibila Trelawney pode ter visto, eu não sei — continuou Firenze, e Harry tornou a ouvir sua cauda balançando enquanto caminhava diante da turma — Mas desperdiça seu tempo, principalmente, com a vaidade tola a que os humanos chamam adivinhar o futuro. Eu estou aqui para explicar a sabedoria dos centauros, que é impessoal e imparcial. Contemplamos o céu à procura das grandes ondas de maldade ou de mudança, que por vezes estão ali assinaladas. Pode levar dez anos para termos certeza do que estamos contemplando.
Firenze apontou para a estrela vermelha diretamente acima de Harry.
— Na última década, as estrelas têm indicado que a bruxidade está vivendo apenas uma breve calmaria entre duas guerras. Marte, anunciador de conflitos, brilha intensamente sobre nós, sugerindo que a luta não tardará a recomeçar. Quando ocorrerá, os centauros podem tentar adivinhar por meio da queima de certas ervas e folhas, pela observação de fumaça e chamas...
Foi a aula mais incomum a que Harry já assistira. É verdade que eles queimaram Artemísia e malva no chão da sala, e Firenze mandou-os procurar certas formas e símbolos na fumaça acre, mas não pareceu nada preocupado que nenhum dos alunos visse os sinais que ele descrevera, comentando que os humanos em geral não eram muito bons nisso e que levara anos para os centauros se tornarem competentes, e concluiu dizendo que, de todo modo, era uma tolice acreditar demais nessas coisas, porque até os centauros por vezes as interpretavam erroneamente. Ele não lembrava nenhum professor humano que Harry já tivesse tido. Sua prioridade não parecia ser ensinar o que sabia, mas infundir nos alunos a ideia de que nada, nem mesmo o conhecimento dos centauros, era à prova de erro.
— Ele não é muito afirmativo sobre nada, não é? — comentou Rony baixinho, quando apagavam o fogo da malva — Quero dizer, eu gostaria de saber mais detalhes sobre a tal guerra que estamos em vésperas de travar, você não?
A sineta tocou do lado de fora da sala e todos se assustaram, Harry esquecera completamente que continuava dentro do castelo, convencido de que estava realmente na Floresta. Os alunos saíram em fila, com o ar um tanto perplexo.
Harry já ia segui-los com Rony quando Firenze o chamou:
— Harry Potter, uma palavrinha, por favor.
O garoto se virou. O centauro se adiantou para ele.
Rony hesitou.
— Pode ficar. Mas feche a porta, por favor.
Rony se apressou a obedecer.
— Harry Potter, você é amigo de Hagrid, não é? — perguntou o centauro.
— Sou — disse Harry
— Então dê-lhe um aviso meu. A tentativa dele não está dando certo. Seria melhor que a abandonasse.
— A tentativa dele não está dando certo? — repetiu Harry sem entender.
— E seria melhor que a abandonasse — repetiu Firenze confirmando com a cabeça — Eu próprio avisaria a ele, mas fui banido, não seria prudente me aproximar da Floresta agora, Hagrid já tem problemas suficientes sem uma “guerra de centauros”.
— Mas... que é que Hagrid está tentando fazer? — perguntou Harry nervoso.
Firenze olhou-o impassível.
— Hagrid recentemente me prestou um grande serviço e há muito tempo conquistou o meu respeito pelo cuidado que demonstra com todos os seres vivos. Não trairei o seu segredo. Mas ele precisa ouvir a voz da razão. A tentativa não está dando certo. Diga isso a ele, Harry Potter. Um bom dia para vocês.
A felicidade que Harry sentira na esteira da entrevista ao Pasquim havia muito tempo se evaporara. Quando um Março monótono passou despercebido para um Abril tempestuoso, sua vida pareceu ter se transformado mais uma vez em uma sucessão de preocupações e problemas.
Umbridge continuara a assistir a todas as aulas de Trato das Criaturas Mágicas, tornando muito difícil passar o aviso de Firenze a Hagrid. Finalmente, Harry conseguiu, fingindo que perdera seu exemplar de Animais Fantásticos & Onde Habitam, e voltando depois da aula.
Quando transmitiu a mensagem de Firenze, Hagrid fixou nele seus olhos inchados e roxos por um momento, aparentemente espantado. Então pareceu se controlar.
— Cara legal, o Firenze — disse rouco — Mas não sei do que ele está falando. A tentativa está dando certo.
— Hagrid, que é que você está aprontando? — perguntou Harry sério — Porque você precisa ter cuidado, a Umbridge já demitiu Trelawney e, se você quer saber, ela continua prestigiada no Ministério. Se estiver fazendo alguma coisa que não deve, você vai...
— Tem coisas mais importantes do que manter o emprego — comentou Hagrid, embora suas mãos tremessem levemente ao dizer isso, fazendo uma bacia cheia de excrementos de ouriços cair no chão — Não se preocupe comigo, Harry, agora vamos andando, seja um bom menino.
Harry não teve escolha senão deixar Hagrid limpando a bosta do chão, mas se sentiu totalmente desanimado ao se arrastar de volta ao castelo.
Entrementes, tal como os professores e Hermione insistiam em lembrar, os N.O.M.s estavam cada dia mais próximos. Todos os quintanistas se sentiam de alguma forma estressados, mas Ana Abbott foi a primeira a receber uma Poção Calmante de Madame Pomfrey depois de cair no choro durante uma aula de Herbologia e soluçar, dizendo que era burra demais para prestar os exames e que queria deixar a escola naquele instante.
Se não fosse pelas sessões na AD, Harry tinha a impressão de que estaria profundamente infeliz. Às vezes tinha o sentimento de que vivia para as horas que passava na Sala Precisa, onde se esforçava muito, mas ao mesmo tempo se divertia imensamente, inchando de orgulho ao contemplar os companheiros da AD e constatar seu progresso. De fato, Harry às vezes se perguntava como é que Umbridge iria reagir quando visse todos os participantes da AD receberem “Ótimo” no N.O.M. de Defesa Contra as Artes das Trevas.
Eles tinham finalmente começado a trabalhar o Patrono, que todos queriam muito praticar, embora Harry não parasse de lembrar a todos que produzir um Patrono no meio de uma sala de aula iluminada quando ninguém os ameaçava era muito diferente de produzi-lo quando estivessem enfrentando, por exemplo, um Dementador.
— Ah, não seja desmancha-prazeres — exclamou Cho animada, apreciando o seu Patrono em forma de cisne prateado voar pela Sala Precisa durante a última aula antes da Páscoa — Eles são tão bonitos!
— Eles não têm de ser bonitos, têm é que proteger você — disse Harry paciente — O que realmente precisamos é de um bicho-papão ou coisa parecida, foi assim que aprendi, tinha de conjurar o Patrono enquanto o bicho-papão fingia ser um Dementador...
— Mas isso seria realmente apavorante! — exclamou Lilá, que soltava baforadas de vapor prateado pela ponta da varinha — E ainda não... consigo... fazer! — completou ela com raiva.
Neville estava encontrando dificuldade também. Seu rosto se contraía ao se concentrar, mas apenas tênues fiapinhos de fumaça prateada saíam da ponta de sua varinha.
— Você tem de pensar em alguma coisa feliz — Harry lembrava ao garoto.
— Estou tentando — disse Neville, infeliz, cujo empenho era tanto que seu rosto redondo chegava a brilhar de suor.
— Harry, acho que estou conseguindo! — berrou Simas, que fora trazido por Dino à sua primeira reunião da AD — Olha... ah... desapareceu... mas era decididamente alguma coisa peluda, Harry!
O Patrono de Hermione, uma reluzente lontra prateada, brincava à sua volta.
— Eles são bonitinhos, não são? — comentou ela, olhando-o com carinho.
A porta da Sala Precisa se abriu e fechou.
Harry se virou para ver quem entrara, mas não parecia haver ninguém. Passou-se um momento até ele perceber que as pessoas próximas à porta haviam se calado. No instante seguinte, alguma coisa puxava suas vestes na altura do joelho. Ele olhou e viu, para seu grande espanto, Dobby, o elfo doméstico, mirando-o por baixo dos seus oito gorros de lã habituais.
— Oi, Dobby! Que é que você... que aconteceu?
Os olhos do elfo se arregalavam de terror e ele tremia. Os participantes da AD mais próximos de Harry tinham se calado, todos observavam Dobby. Os poucos Patronos que as pessoas tinham conseguido conjurar desapareceram em fumaça prateada, deixando a sala bem mais escura do que antes.
— Harry Potter, meu senhor... — esganiçou-se o elfo, tremendo da cabeça aos pés — Harry Potter, meu senhor... Dobby veio avisar... mas os elfos foram avisados para não contar...
Ele correu a bater a cabeça na parede. Harry, que tinha alguma experiência com os hábitos de se castigar de Dobby, fez menção de agarrá-lo, mas o elfo meramente quicou na pedra graças aos seus oito gorros. Hermione e algumas outras garotas soltaram gritinhos de medo e pena.
— Que aconteceu, Dobby? — perguntou Harry, agarrando o bracinho do elfo e mantendo-o afastado de qualquer coisa que ele pudesse encontrar para se machucar.
— Harry Potter... ela... ela...
Dobby deu um forte soco no nariz com o punho livre.
Harry agarrou-o também.
— Quem é “ela”, Dobby?
Mas ele achava que sabia: certamente só havia uma “ela” capaz de induzir tal pavor em Dobby. O elfo ergueu os olhos, ligeiramente vesgo, e pronunciou silenciosamente.
— Umbridge? — perguntou Harry, horrorizado.
Dobby confirmou, e em seguida tentou bater a cabeça nos joelhos de Harry. O garoto o segurou à distância dos braços.
— Que tem a Umbridge? Dobby... ela não descobriu isso... nós... a AD?
Ele leu a resposta no rosto aflito do elfo. Com as mãos presas por Harry, ele tentou se chutar e caiu de joelhos.
— Ela está vindo? — perguntou Harry calmamente.
Dobby deixou escapar um uivo.
— Está, Harry Potter, está!
Harry se endireitou e olhou para os colegas, imóveis e aterrorizados, que contemplavam o elfo a se debater.
— QUE É QUE VOCÊS ESTÃO ESPERANDO! — berrou Harry — CORRAM!
Todos se arremessaram para a saída na mesma hora, embolando na porta, então passaram num ímpeto. Harry ouviu-os correndo pelos corredores e desejou que tivessem o bom senso de não tentar ir direto para os dormitórios. Eram apenas dez para as nove, se ao menos se refugiassem na Biblioteca ou no Corujal, que eram mais próximos...
— Harry, anda logo! — gritou Hermione em meio ao bolo de gente que se empurrava para sair.
Ele pegou Dobby, que continuava tentando se machucar seriamente, e correu com o elfo nos braços para o fim da fila.
— Dobby, isto é uma ordem, volte para a cozinha com os outros elfos e, se ela perguntar se você me avisou, minta e diga que não! E proíbo você de se machucar! — acrescentou, largando o elfo no chão quando finalmente cruzou o portal e bateu a porta.
— Obrigado, Harry Potter — disse Dobby com a sua vozinha esganiçada, e afastou-se desabalado.
Harry olhou para a esquerda e a direita, os outros andavam tão depressa que ele viu apenas vislumbre dos calcanhares que voavam em cada ponta do corredor antes de desaparecer, ele começou a correr para a direita, havia um banheiro de meninos um pouco adiante, poderia fingir que estivera ali o tempo todo se conseguisse chegar lá...
— AAARRR!
Alguma coisa o apanhou pelos tornozelos e ele caiu espetacularmente, deslizando quase dois metros pelo chão antes de parar. Alguém atrás dele gargalhou. Ele se virou de frente e viu Malfoy escondido em um nicho atrás de um feio vaso em forma de dragão.
— Azaração do Tropeço, Potter! Eh, Professora... PROFESSORA! Peguei um!
Umbridge surgiu depressa em uma extremidade, ofegante, mas sorrindo satisfeita.
— É ele! — exclamou jubilante ao ver Harry no chão — Excelente, Draco, excelente, ah, muito bom: cinquenta pontos para Sonserina! Eu me encarrego dele a partir daqui... levante-se, Potter!
Harry se pôs de pé, olhando para os dois. Nunca vira Umbridge com um ar tão feliz. Ela imobilizou seu braço e se virou, toda sorrisos, para Malfoy.
— Vá andando e veja se consegue apanhar mais algum, Draco. Diga aos outros para procurar na Biblioteca alguém que esteja ofegando, verifiquem os banheiros. A Srta. Parkinson pode examinar os banheiros das meninas, vamos, vá andando, e você... — acrescentou ela com a voz mais suave e mais perigosa, enquanto Malfoy se afastava — Você vai comigo à sala do diretor, Potter!
Chegaram à gárgula de pedra em minutos. Harry ficou imaginando quantos dos outros teriam sido apanhados. Pensou em Rony, a Sra. Weasley o mataria, e como se sentiria Hermione se fosse expulsa antes de prestar os N.O.M.s. E fora a primeira reunião do Simas... e Neville estava progredindo tanto...
— Delícia Gasosa — entoou Umbridge, a gárgula de pedra saltou para o lado, a parede se abriu em duas metades e eles subiram a escada rolante de pedra.
Chegaram à porta polida com a aldrava de grifo, mas Umbridge não se deu ao trabalho de bater, entrou direto, ainda segurando Harry com firmeza.
A sala estava cheia de gente.
Dumbledore encontrava-se à escrivaninha, a expressão serena, as pontas dos longos dedos juntas. A Profª. McGonagall empertigada ao seu lado, o rosto extremamente tenso.
Cornélio Fudge, Ministro da Magia, se balançava para frente e para trás sem sair do lugar, ao lado da lareira, pelo visto imensamente satisfeito com a situação. Kingsley Shacklebolt e um bruxo com uma carranca e cabelos muito curtos e crespos, que Harry não reconheceu, estavam postados de cada lado da porta como guardas, e a figura de sardas e óculos de Percy Weasley pairava excitada junto à parede, uma pena e um pesado rolo de pergaminho nas mãos, aparentemente preparado para tomar notas.
Os retratos dos velhos diretores e diretoras não estavam fingindo dormir esta noite. Estavam atentos e sérios, observando o que acontecia embaixo. Quando Harry entrou, alguns fugiram para quadros vizinhos e cochicharam com urgência aos ouvidos dos colegas.
Harry se desvencilhou do aperto de Umbridge quando a porta se fechou.
Cornélio Fudge o olhou com uma espécie de maligna satisfação no rosto.
— Ora — exclamou — Ora, ora, ora...
Harry respondeu com o olhar mais sujo que conseguiu dar. Seu coração batia descontrolado no peito, mas o cérebro estava estranhamente claro e tranquilo.
— Ele estava voltando à Torre da Grifinória — disse Umbridge.
Havia uma excitação obscena em sua voz, o mesmo prazer perverso que Harry ouvira quando a Profª. Trelawney se desintegrava de infelicidade no Saguão de Entrada.
— O menino Malfoy o encurralou.
— Foi mesmo, foi mesmo? — exclamou Fudge, admirado — Preciso me lembrar de contar ao Lúcio. Muito bem, Potter... espero que saiba por que está aqui.
Harry tinha toda a intenção de responder com um atrevido “sim”: sua boca abrira e a palavra começara a se formar quando ele percebeu a expressão de Dumbledore. O diretor não olhava diretamente para ele, tinha os olhos fixos em um ponto por cima do seu ombro, mas, quando Harry o encarou, mexeu a cabeça uma fração de segundo para cada lado.
Harry mudou de ideia no meio da palavra.
— É... Não.
— Como disse? — perguntou Fudge.
— Não — repetiu Harry com firmeza.
— Você não sabe por que está aqui?
— Não, senhor, não sei.
Fudge olhou incrédulo de Harry para a Profª. Umbridge. O garoto se aproveitou da desatenção momentânea para lançar outro olhar rápido a Dumbledore, que deu um aceno mínimo e a sombra de uma piscadela para o tapete.
— Então você não faz ideia — disse o Ministro com a voz positivamente pesada de sarcasmo — Por que a Profª. Umbridge o trouxe a esta sala? Você não sabe que infringiu o regulamento da escola?
— Regulamento da escola? Não.
— Nem os decretos do Ministério? — acrescentou Fudge irritado.
— Não que eu tenha consciência — respondeu Harry brandamente. Seu coração continuava a bater acelerado. Quase valia a pena dizer mentiras para ver a pressão sangüínea de Fudge subir, mas não conseguia ver como iria dizê-las impunemente, se alguém informara a Umbridge sobre a AD, então ele, o líder, poderia começar a arrumar as malas agora mesmo.
— Então, é novidade para você — disse Fudge, sua voz agora pastosa de raiva — Que foi descoberta uma organização estudantil ilegal nesta escola?
— É, sim senhor — disse Harry, exibindo um olhar de inocência e de surpresa pouco convincente.
— Acho, Ministro — disse Umbridge atrás do garoto com a voz sedosa — Que faríamos maior progresso se eu trouxesse a nossa informante.
— É, faça isso — disse Fudge com um aceno, e olhou maliciosamente para Dumbledore quando Umbridge saiu — Nada como uma boa testemunha, não é, Dumbledore?
— Nada mesmo, Cornélio — concordou Dumbledore gravemente, inclinando a cabeça.
Houve uma espera de vários minutos, em que ninguém se entreolhou, então Harry ouviu a porta se abrir às suas costas. Umbridge entrou e passou por ele segurando pelo ombro a amiga de cabelos crespos de Cho, Marieta, que escondia o rosto nas mãos.
— Não se apavore, querida, não tema — disse a Profª. Umbridge com suavidade, dando-lhe palmadinhas nas costas — Está tudo bem agora. Você agiu certo. O Ministro está muito satisfeito com você. Dirá à sua mãe que boa menina você foi. A mãe de Marieta, Ministro — acrescentou, erguendo os olhos para Fudge — É Madame Edgecombe, do Departamento de Transportes Mágicos, seção da Rede de Flu, tem nos ajudado a policiar as lareiras de Hogwarts, sabe.
— Muito bom, muito bom! — disse Fudge cordialmente — Tal mãe, tal filha, eh? Bom, vamos então, querida, erga a cabeça, não seja tímida, vamos ver o que você tem a... gárgulas galopantes!
Quando Marieta ergueu a cabeça, Fudge deu um salto para trás chocado, quase se estatelando na lareira. Em seguida praguejou e sapateou na bainha da capa que começara a fumegar.
Marieta deu um guincho e puxou o decote das vestes até os olhos, mas não antes de todos verem que seu rosto estava terrivelmente desfigurado por uma quantidade de pústulas roxas muito juntas que cobriam seu nariz e suas faces formando a palavra “DEDO-DURO”.
— Não se incomode com as marcas agora, querida — disse Umbridge impaciente — Tire as vestes de cima da boca e conte ao Ministro.
Mas Marieta soltou outro guincho abafado e sacudiu a cabeça freneticamente.
— Ah, muito bem, sua tolinha, eu contarei — disse Umbridge com rispidez.
Tornando a refazer o sorriso doentio no rosto, disse:
— Bom, Ministro, a Srta. Edgecombe aqui veio à minha sala pouco depois do jantar hoje à noite e me disse que queria me contar uma coisa. Contou que se eu fosse a uma sala secreta no sétimo andar, às vezes conhecida como Sala Precisa, eu descobriria algo que me interessaria. Fiz-lhe mais algumas perguntas, e ela admitiu que haveria uma reunião ali. Infelizmente, naquela altura, a azaração... — ela acenou impaciente para o rosto escondido de Marieta — Produziu efeito, e, ao ver seu rosto no meu espelho, a menina ficou aflita demais para me fornecer maiores detalhes.
— Bom, agora — disse Fudge, fixando Marieta com o que evidentemente imaginava que fosse um olhar paternal — É muita coragem sua, querida, ir contar à Profª. Umbridge. Você agiu certo. Agora, pode me dizer o que aconteceu na reunião? Qual era a finalidade? Quem mais estava presente?
Mas Marieta não quis falar, meramente tornou a sacudir a cabeça, os olhos muito abertos e receosos.
— Você não tem uma contra-azaração para isso? — perguntou Fudge a Umbridge, impaciente, indicando o rosto de Marieta — Para ela poder falar livremente?
— Ainda não consegui descobrir uma — admitiu Umbridge a contragosto, e Harry sentiu um assomo de orgulho pelas habilidades de Hermione em azaração — Mas não faz diferença se ela não quiser falar, eu posso continuar a história a partir deste ponto. O senhor deve se lembrar, Ministro, que lhe enviei um relatório em Outubro informando que Potter se encontrara com vários colegas no Cabeça de Javali, em Hogsmeade...
— E qual é a sua prova disso? — interrompeu-a a Profª. McGonagall.
— Tenho o testemunho de Willy Widdershins, Minerva, que por acaso estava no bar naquela ocasião. Usava muitas bandagens, é verdade, mas sua audição estava perfeita — disse Umbridge cheia de si — Ele ouviu cada palavra que Potter disse e veio direto à escola me relatar...
— Ah, então foi por isso que ele não foi processado por ter feito todos aqueles vasos sanitários regurgitarem! — exclamou a Profª. McGonagall, erguendo as sobrancelhas — Que visão interessante do nosso sistema judiciário!
— Corrupção descarada! — bradou o retrato de um corpulento bruxo de nariz vermelho na parede atrás da escrivaninha de Dumbledore — No meu tempo o Ministério não negociava com criminosos baratos, não senhor, não negociava!
— Obrigado, Fortescue, já chega — disse Dumbledore suavemente.
— A finalidade do encontro de Potter com esses estudantes — continuou a Umbridge — Era persuadi-los a formar uma sociedade ilegal, com o fito de aprender feitiços e maldições que o Ministério declarou inadequados para a idade escolar...
— Acho que você vai descobrir que está enganada, Dolores — disse Dumbledore calmamente, espiando por cima dos oclinhos de meia-lua encarrapitados no meio do nariz adunco.
Harry olhou para o diretor. Não entendia como é que Dumbledore ia livrá-lo dessa, se Willy Widdershins tivesse de fato ouvido tudo que ele dissera no Cabeça de Javali, simplesmente não haveria escapatória.
— Oho! — exclamou Fudge, recomeçando a se balançar sobre os pés — Sim, vamos ouvir a última lorota inventada para tirar Potter de uma confusão! Vamos, então, Dumbledore, vamos... Willy Widdershins estava mentindo, é isso? Ou era o gêmeo idêntico de Potter que estava no Cabeça de Javali naquele dia? Ou a explicação costumeira que envolve a reversão do tempo, um morto que retorna à vida e uns Dementadores invisíveis?
Percy Weasley deixou escapar uma gostosa gargalhada.
— Ah, essa é muito boa, ministro, muito boa!
Harry poderia ter dado um chute nele. Então viu, para seu espanto, que Dumbledore também sorria gentilmente.
— Cornélio, eu não nego, e tenho certeza de que Harry também não, que ele estivesse no Cabeça de Javali naquele dia, nem que estivesse procurando recrutar estudantes para um grupo de Defesa Contra as Artes das Trevas. Estou apenas dizendo que Dolores está muito enganada de que tal grupo fosse, à época, ilegal. Se você se lembra, o Decreto Educacional que proibiu todas as associações de estudantes só entrou em vigor dois dias depois da reunião de Harry em Hogsmeade, portanto ele não estava infringindo regulamento algum no Cabeça de Javali.
Percy parecia ter sido atingido no rosto por alguma coisa muito pesada.
Fudge se imobilizou no meio do seu balanço, boquiaberto.
Umbridge se recuperou primeiro.
— Tudo isso está muito bem, diretor — disse sorrindo meigamente — Mas agora já faz seis meses que o Decreto Número Vinte e Quatro entrou em vigor. Se o primeiro encontro não foi ilegal, todos os que ocorreram depois certamente o são.
— Bom — replicou Dumbledore, estudando-a com educado interesse por cima dos dedos entrelaçados — Eles certamente seriam, se tivessem continuado depois que o decreto entrou em vigor. Você tem alguma prova de que os encontros continuaram?
Enquanto Dumbledore falava, Harry ouviu um rumorejo atrás, e achou que Kingsley cochichara alguma coisa. Podia jurar, também, que sentira alguma coisa roçar o lado do seu corpo, alguma coisa suave como um sopro ou as asas de um pássaro, mas olhando para baixo não viu nada.
— Prova? — repetiu Umbridge, abrindo aquele sorriso bufonídeo — Você não esteve prestando atenção, Dumbledore? Por que acha que a Srta. Edgecombe está aqui?
— Ah, e ela pode nos falar dos seis meses de encontros? — perguntou Dumbledore, erguendo as sobrancelhas — Tive a impressão de que ela estava meramente relatando uma reunião hoje à noite.
— Srta. Edgecombe — disse imediatamente — Conte-nos há quanto tempo essas reuniões vêm acontecendo, querida. Você pode simplesmente acenar ou balançar a cabeça, tenho certeza de que isso não vai piorar as manchas. Elas têm se realizado regularmente nos últimos seis meses?
Harry sentiu seu estômago despencar. Era o fim, tinham chegado a uma muralha de provas inegáveis que nem mesmo Dumbledore seria capaz de remover.
— Só precisa acenar ou balançar a cabeça, querida — disse Umbridge, tentando persuadir Marieta — Vamos, agora, isso não vai reativar a azaração.
Todos na sala olharam para o topo da cabeça da garota. Apenas seus olhos estavam visíveis entre as vestes repuxadas e a franja crespa. Talvez fosse um efeito das chamas, mas seus olhos pareciam estranhamente vidrados. Então, para absoluto assombro de Harry, Marieta balançou negativamente a cabeça.
Umbridge olhou depressa para Fudge, e de novo para Marieta.
— Acho que você não entendeu a pergunta, entendeu, querida? Estou perguntando se você tem ido a essas reuniões nos últimos seis meses? Você tem, não tem?
Mais uma vez, Marieta balançou a cabeça.
— Que é que você quer dizer balançando a cabeça, querida? — perguntou Umbridge impaciente.
— Eu diria que o significado do gesto da menina foi muito claro — disse a Profª. McGonagall com aspereza — Não houve reuniões secretas nos últimos seis meses. Estou certa, Srta. Edgecombe?
Marieta acenou a cabeça afirmativamente.
— Mas houve uma reunião hoje à noite! — exclamou Umbridge furiosa — Houve uma reunião, Srta. Edgecombe, a senhorita me falou nela, na Sala Precisa! E Potter era o líder, não era, Potter a organizou, Potter... por que você está balançando a cabeça, menina?
— Bom, normalmente quando uma pessoa balança a cabeça — disse McGonagall friamente — Ela quer dizer “não”. Então, a não ser que a Srta. Edgecombe esteja usando uma linguagem de sinais ainda desconhecida dos seres humanos...
A Profª. Umbridge agarrou Marieta, virou-a de frente e começou a sacudi-la violentamente. Uma fração de segundo depois, Dumbledore estava em pé, a varinha erguida, Kingsley se adiantou e Umbridge se afastou de Marieta, sacudindo a mão no ar como se tivesse se queimado.
— Não posso permitir que você brutalize os meus estudantes, Dolores — disse Dumbledore e, pela primeira vez, pareceu aborrecido.
— Queira se acalmar, Madame Umbridge — disse Kingsley com sua voz profunda e lenta — A senhora não quer se envolver em confusões.
— Não — disse Umbridge ofegante, erguendo os olhos para a figura imponente de Kingsley — Quero dizer, sim, você tem razão, Shacklebolt... eu... eu... perdi a cabeça.
Marieta estava parada exatamente onde Umbridge a largara. Não parecia nem perturbada pelo inesperado ataque da professora nem aliviada por ter sido solta, continuava a segurar as vestes na altura dos olhos vidrados e fixos em algum ponto à sua frente.
Uma repentina suspeita, ligada ao cochicho de Kingsley e à coisa que sentira passar por ele, nasceu na mente de Harry.
— Dolores — disse Fudge, com ar de quem tentava determinar algo de uma vez por todas — A reunião de hoje à noite... a que sabemos que decididamente se realizou...
— Sim — disse Umbridge, recuperando-se — Sim... bom, a Srta. Edgecombe me informou e eu imediatamente me dirigi ao sétimo andar, acompanhada por certos estudantes dignos de confiança, para apanhar em flagrante os participantes da reunião. Parece, no entanto, que eles foram avisados, porque quando chegamos ao sétimo andar corriam em todas as direções. Mas não faz diferença. Tenho todos os nomes aqui, a Srta. Parkinson entrou na Sala Precisa a meu pedido para ver se haviam esquecido alguma coisa ao sair. Precisávamos de provas e a sala nos forneceu.
E, para horror de Harry, ela puxou do bolso a lista de nomes que Hermione havia prendido na parede da Sala Precisa e entregou-o a Fudge.
— No instante em que vi o nome de Potter na lista, percebi o que tínhamos nas mãos.
— Excelente — disse Fudge, um sorriso se espalhando pelo rosto — Excelente, Dolores. E... pelo trovão...
Ele ergueu os olhos para Dumbledore, que continuava parado ao lado de Marieta, segurando a varinha frouxamente na mão.
— Está vendo o nome que escolheram para o grupo? — disse Fudge calmo — Armada de Dumbledore.
Dumbledore estendeu a mão e apanhou o pergaminho que Fudge segurava. Olhou para o cabeçalho escrito por Hermione meses antes, e por um momento pareceu incapaz de falar. Então, ergueu a cabeça e sorriu.
— Bom, o plano fracassou — disse com simplicidade — Quer que eu escreva uma confissão, Cornélio, ou basta uma declaração diante dessas testemunhas?
Harry viu McGonagall e Kingsley se entreolharem. Havia medo nos rostos de ambos. Ele não entendia o que estava acontecendo e, pelo visto, Fudge também não.
— Declaração? — perguntou o Ministro lentamente — Que... eu não...?
— A Armada de Dumbledore, Cornélio — disse Dumbledore, ainda sorrindo ao agitar a lista de nomes diante dos olhos de Fudge — Não é a Armada de Potter. É a Armada de Dumbledore.
— Mas... mas...
A compreensão iluminou subitamente o rosto de Fudge. Ele recuou um passo, horrorizado, soltou um ganido e pulou outra vez para longe da lareira.
— Você? — sussurrou, sapateando na capa em chamas.
— Isso mesmo — confirmou Dumbledore em tom agradável.
— Você organizou isso?
— Organizei.
— Você recrutou esses estudantes para... para uma armada?
— Hoje à noite seria a primeira reunião — disse Dumbledore, acenando com a cabeça — Somente para saber se eles estariam interessados em se unir a mim. Vejo agora que obviamente foi um erro convidar a Srta. Edgecombe.
Marieta confirmou com a cabeça.
Fudge olhou da garota para Dumbledore, seu peito inchando.
— Então você tem conspirado contra mim! — berrou.
— Isto mesmo — respondeu Dumbledore alegremente.
— NÃO! — gritou Harry.
Kingsley lançou um olhar de advertência a ele, McGonagall arregalou os olhos ameaçadoramente, mas Harry compreendera de repente o que Dumbledore ia fazer, e não podia deixar isso acontecer.
— Não... Prof. Dumbledore...!
— Fique quieto, Harry, ou receio que terá de sair da minha sala — disse Dumbledore calmamente.
— É, cale-se, Potter! — vociferou Fudge, que continuava a devorar Dumbledore com os olhos com uma espécie de prazer horrorizado — Ora, ora, ora... vim aqui esta noite esperando expulsar Potter e em vez disso...
— Em vez disso consegue me prender — concluiu Dumbledore sorridente — É como perder um nuque e encontrar um galeão, não é mesmo?
— Weasley! — chamou Fudge, agora positivamente tremendo de prazer — Weasley, você anotou tudo, tudo que ele disse, a confissão, está tudo aí?
— Sim, senhor, penso que sim! — respondeu Percy pressuroso, com o nariz sujo de tinta tal a velocidade com que fizera suas anotações.
— A parte em que diz que está tentando organizar uma armada contra o Ministério, que está trabalhando para me desestabilizar?
— Sim, senhor, anotei, sim, senhor — respondeu Percy verificando as anotações exultante.
— Muito bem, então — disse o Ministro, agora irradiando felicidade — Reproduza suas notas, Weasley, e mande uma cópia para o Profeta Diário imediatamente. Se despacharmos uma coruja veloz chegará em tempo para a edição matutina!
Percy saiu correndo da sala, batendo a porta ao passar, e Fudge voltou sua atenção para Dumbledore.
— Você será agora escoltado ao Ministério, onde será formalmente acusado, e escoltado a Azkaban para aguardar julgamento!
— Ah — disse Dumbledore educadamente — Sim. Sim, achei que chegaríamos a este pequeno transtorno.
— Transtorno?! — exclamou Fudge, a voz vibrando de felicidade — Não vejo nenhum transtorno, Dumbledore!
— Bom — replicou Dumbledore desculpando-se — Receio dizer que vejo.
— Ah, verdade?
— Bom... parece que você tem a ilusão de que irei... como é mesmo a expressão? Que irei sem fazer barulho. Receio dizer que não vou sem fazer barulho, Cornélio. Não tenho absolutamente a intenção de ser mandado para Azkaban. Eu poderia fugir, é claro, mas que perda de tempo, e francamente, posso pensar em inúmeras coisas que prefiro fazer.
O rosto de Umbridge corava sem parar, parecia que ela estava sendo enchida com água fervendo.
Fudge olhou para Dumbledore com uma expressão muito tola no rosto, como se estivesse aturdido por um golpe repentino e não conseguisse acreditar no que estava acontecendo. Teve um pequeno engasgo, depois olhou para Kingsley e o homem de cabelos curtos e grisalhos, o único na sala que permanecera totalmente em silêncio até então. Este deu a Fudge um aceno de confirmação e se adiantou uns passos, afastando-se da parede. Harry viu sua mão deslizar, quase displicentemente, em direção ao bolso.
— Não seja bobo, Dawlish — disse Dumbledore em tom bondoso — Estou certo de que você é um excelente auror, tenho a impressão de que obteve “Excepcional” em todos os seus N.I.E.M.s, mas se tentar... ah... me levar à força, terei de machucá-lo.
O homem chamado Dawlish piscou meio abobado. Tornou a olhar para Fudge, mas desta vez parecia esperar uma dica sobre o que fazer a seguir.
— Então — caçoou Fudge recuperando-se — Você pretende enfrentar Dawlish, Shacklebolt, Dolores e a mim, sozinho, é, Dumbledore?
— Pelas barbas de Merlim, não! — disse Dumbledore sorrindo — Não, a não ser que vocês sejam suficientemente insensatos de me obrigar a isso.
— Ele não estará sozinho! — exclamou a Profª. McGonagall em voz alta, metendo a mão nas vestes.
— Ah, estará sim, Minerva — tornou Dumbledore rápido — Hogwarts precisa de você!
— Chega de disparates! — disse Fudge, puxando a própria varinha — Dawlish! Shacklebolt! Prendam-no!
Um raio prateado lampejou pela sala, ouviu-se um estrondo como o de um tiro e o chão tremeu. Uma mão agarrou Harry pelo cangote e forçou-o a se deitar no chão quando o segundo raio disparou, vários retratos berraram, Fawkes guinchou e uma nuvem de fumaça encheu o ar. Tossindo por causa da poeira, Harry viu um vulto escuro desabar com estrépito no chão na frente dele, ouviu-se um grito agudo e um baque e alguém exclamando: “Não!”, seguiu-se o ruído de vidro quebrando, de pés se arrastando freneticamente, um gemido... e silêncio.
Harry tentou virar para os lados a ver quem o estrangulava, e viu a Profª. McGonagall encolhida ao seu lado, ela o livrara e a Marieta, afastando-os do perigo. A poeira ainda caía devagarinho do alto em cima deles. Ligeiramente ofegante, Harry viu uma figura alta vindo em sua direção.
— Vocês estão bem? — perguntou Dumbledore.
— Estamos! — respondeu a Profª. McGonagall, erguendo-se e arrastando com ela Harry e Marieta.
A poeira foi se dissipando.
A destruição no escritório tornou-se visível: a escrivaninha de Dumbledore fora virada, todas as mesinhas de pernas finas tinham tombado no chão, os instrumentos de prata estavam partidos. Fudge, Umbridge, Kingsley e Dawlish estavam imóveis, caídos no chão. Fawkes, a fênix, sobrevoava-os em círculos amplos, cantando baixinho.
— Infelizmente, tive de azarar Kingsley também ou teria parecido muito suspeito — disse o diretor em voz baixa — Ele entendeu extraordinariamente rápido, modificando a memória da Srta. Edgecombe quando os outros não estavam olhando, agradeça a ele por mim, por favor, Minerva. Agora, eles não tardarão a acordar e será melhor que não saibam que tivemos tempo de nos comunicar, vocês devem agir como se o tempo não tivesse passado, como se eles tivessem apenas sido derrubados, eles não se lembrarão...
— Aonde é que você vai, Dumbledore? — sussurrou McGonagall — Largo Grimmauld?
— Ah, não — respondeu com um sorriso triste — Não vou sair para me esconder. Fudge logo irá desejar nunca ter me tirado de Hogwarts, prometo.
— Prof. Dumbledore... — começou Harry.
Não sabia o que dizer primeiro: que sentia muito ter começado a AD e causado toda essa confusão, ou como se sentia mal que Dumbledore estivesse partindo para salvá-lo da expulsão? Mas o diretor interrompeu-o antes que pudesse continuar.
— Escute, Harry — disse com urgência — Você precisa estudar Oclumência o máximo que puder, está me entendendo? Faça tudo que o Prof. Snape mandar e pratique particularmente toda noite antes de dormir para poder fechar sua mente aos pesadelos: você vai entender a razão muito em breve, mas precisa me prometer...
O homem chamado Dawlish começou a se mexer.
Dumbledore agarrou o pulso de Harry.
— Lembre-se... feche sua mente...
Mas quando os dedos de Dumbledore se fecharam sobre sua pele, Harry sentiu novamente aquele terrível desejo ofídico de atacar o diretor, de mordê-lo, de feri-lo...
—... Você vai compreender — sussurrou Dumbledore.
Fawkes deu uma volta na sala e mergulhou em direção ao diretor.
Dumbledore soltou Harry, ergueu a mão e segurou a longa cauda dourada da fênix. Houve uma labareda e os dois desapareceram.
— Aonde é que ele foi? — bradou Fudge, levantando-se do chão — Aonde é que ele foi?
— Não sei! — berrou Kingsley, também se pondo de pé.
— Ora, ele não pode ter desaparatado! — exclamou Umbridge — Não se pode fazer isso aqui na escola...
— As escadas! — gritou Dawlish, e precipitou-se para a porta, escancarou-a e desapareceu, seguido de perto por Kingsley e Umbridge.
Fudge hesitou, então ficou em pé lentamente, espanando a poeira da frente das vestes. Houve um longo e penoso silêncio.
— Bom, Minerva — disse Fudge desagradavelmente, endireitando a manga rasgada — Receio dizer que este é o fim do seu amigo Dumbledore.
— Você acha mesmo? — desdenhou a professora.
Fudge pareceu não ouvi-la. Corria os olhos pela sala destruída. Alguns retratos o vaiaram, um ou dois até fizeram gestos obscenos com as mãos.
— É melhor você levar esses dois para a cama — disse Fudge, tornando a olhar para McGonagall com um aceno de dispensa em direção a Harry e Marieta.
A Profª. McGonagall não respondeu, mas se encaminhou com os garotos para a porta.
Quando ela se fechou, Harry ouviu a voz de Fineus Nigellus:
— Sabe, Ministro, discordo de Dumbledore em muita coisa... mas não se pode negar que ele tem classe...







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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Harry Potter e a Ordem da Fênix - Capítulo 26





— CAPÍTULO VINTE E SEIS —
Visto e Imprevisto



LUNA DISSE VAGAMENTE QUE NÃO SABIA quando a entrevista de Harry com Rita apareceria no Pasquim, pois seu pai estava esperando um longo e interessante artigo sobre as recentes aparições de Bufadores de Chifre Enrugado, e, naturalmente, seria uma história muito importante, então a entrevista de Harry talvez tivesse de aguardar o próximo número.
Harry não achou uma experiência fácil falar sobre a noite em que Voldemort retornara. Rita extraiu dele cada mínimo detalhe e ele lhe passou tudo que lembrava, sabendo que era uma grande oportunidade de contar a verdade para o mundo. Perguntava-se como as pessoas reagiriam. Imaginou que a história confirmaria para muita gente a visão de que ele era completamente doido, especialmente porque apareceria ao lado de uma absoluta tolice sobre Bufadores de Chifre Enrugado. Mas a fuga de Belatriz Lestrange e seus companheiros Comensais da Morte havia dado a Harry um desejo ardente de fazer alguma coisa, produzisse ou não resultados...
— Mal posso esperar para ver o que a Umbridge pensa de você falar publicamente — comentou Dino, parecendo assombrado no jantar de segunda-feira à noite.
Simas despejava goela abaixo grandes garfadas de torta de frango com presunto, sentado do outro lado de Dino, mas Harry sabia que ele estava escutando.
— É o certo, Harry — disse Neville, sentado defronte. Estava muito pálido, mas continuou em voz baixa — Deve ter sido... dureza... falar disso... não foi?
— Foi — balbuciou Harry — Mas as pessoas precisam saber do que Voldemort é capaz, não?
— Com certeza — disse Neville concordando com a cabeça — E os Comensais da Morte também... as pessoas precisam saber...
Neville deixou a frase no ar e voltou a atenção para sua batata assada. Simas ergueu a cabeça, mas quando seu olhar encontrou o de Harry ele tornou a baixá-lo depressa para o prato. Transcorrido algum tempo, Dino, Simas e Neville saíram para a Sala Comunal, deixando Harry e Hermione à mesa esperando por Rony, que ainda não viera jantar por causa do treino de quadribol.
Cho Chang entrou no salão com a amiga Marieta. O estômago de Harry deu uma sacudida desagradável, mas a garota não olhou para a mesa da Grifinória, e se sentou de costas para ele.
— Ah, me esqueci de perguntar — disse Hermione animada, dando uma olhada rápida na mesa da Corvinal — Que aconteceu no seu encontro com Cho? Por que você voltou tão cedo?
— Aah... bom, foi... — começou Harry puxando um prato de doce de ruibarbo para perto e se servindo mais uma vez — Um completo fiasco, já que você está perguntando.
E contou a ela o que acontecera na casa de chá de Madame Puddifoot.
—... então — concluiu alguns minutos depois, quando o último bocadinho de doce desapareceu — Ela se levanta de repente, certo, e diz: A gente se vê por aí, Harry, e sai correndo da loja! — ele descansou a colher e olhou para Hermione — Quero dizer, por que foi tudo isso? Que é que aconteceu?
Hermione olhou para a nuca de Cho e suspirou.
— Ah, Harry — disse tristonha — Bom, sinto muito, mas você não teve muito tato.
— Eu não tive tato? — exclamou Harry indignado — Em um momento estávamos nos dando bem, e no momento seguinte ela estava me dizendo que Rogério Davies a convidou para sair e como costumava ir à droga daquela casa de chá para ficar beijando o Cedrico: como é que você acha que eu devia reagir?
— Bom, sabe — disse Hermione com o ar paciente de alguém que explica a uma criança temperamental que um mais um é igual a dois — Você não devia ter dito a ela que queria se encontrar comigo no meio do namoro.
— Mas, mas — tartamudeou Harry —... Você me pediu para encontrá-la ao meio-dia e até levar Cho junto, como é que eu ia fazer isso sem dizer a ela?
— Você devia ter dito de maneira diferente — explicou Hermione, ainda com aquele exasperante ar de paciência — Devia ter dito que era uma chatice, mas que eu tinha feito você prometer ir ao Três Vassouras, e que você na verdade não queria ir, que preferia passar o dia inteiro com ela, mas infelizmente achava que era importante se encontrar comigo e se ela, por favor, por um grande favor, pudesse ir com você e, assim, quem sabe, daria para você sair mais depressa. E também teria sido uma boa idéia mencionar que você me acha feia — acrescentou Hermione refletindo.
— Mas eu não acho você feia — exclamou Harry confuso.
Hermione deu uma risada.
— Harry, você é pior do que o Rony... bom, não, não é não — suspirou, na hora em que Rony entrava no salão sujo de lama e parecendo mal-humorado — Você aborreceu a Cho quando disse que ia se encontrar comigo, então ela tentou fazer ciúmes. Foi uma maneira de tentar descobrir se você gostava dela.
— Era isso que ela estava fazendo? — admirou-se Harry, enquanto Rony se sentava no banco defronte, e puxava para perto todos os pratos que conseguiu alcançar — Bom, não teria sido mais fácil se me perguntasse se eu gostava mais dela ou de você?
— As garotas muitas vezes não fazem perguntas desse tipo.
— Pois deviam! — disse Harry com veemência — Então eu podia ter simplesmente respondido que gosto mais dela, e ela não precisaria ficar outra vez nervosa com a morte do Cedrico!
— Eu não estou dizendo que Cho foi sensata — disse Hermione quando Gina se reuniu a eles, tão enlameada quanto Rony e igualmente chateada — Estou só tentando mostrar como ela estava se sentindo naquele momento.
— Você devia escrever um livro — sugeriu Rony a Hermione enquanto cortava as batatas em seu prato — Traduzindo as maluquices que as garotas fazem para os garotos poderem entendê-las.
— É — apoiou Harry com sinceridade e fervor, olhando para a mesa da Corvinal, onde Cho se levantara, e, ainda sem olhar para ele, saiu do salão.
Sentindo-se meio deprimido, voltou-se para Rony e Gina:
— Então, como foi o treino de quadribol?
— Um pesadelo — respondeu Rony mal-humorado.
— Ah, qual é? — disse Hermione, olhando para Gina — Tenho certeza de que não foi tão...
— Foi, sim — confirmou Gina — Foi um espanto. Angelina quase se desmanchou em lágrimas mais para o final.
Rony e Gina saíram para tomar banho depois do jantar, Harry e Hermione voltaram para a movimentada Sala Comunal da Grifinória e a montanha habitual de deveres de casa.
Harry estava havia meia hora às voltas com uma nova carta estelar para Astronomia quando Fred e Jorge apareceram.
— Rony e Gina não estão aqui? — perguntou Fred, correndo os olhos pela sala ao mesmo tempo que puxava uma cadeira, e quando Harry sacudiu negativamente a cabeça, falou — Que bom. Estivemos assistindo ao treino deles. Vão ser massacrados. A equipe ficou um lixo sem a gente.
— Ah, peraí, Gina não é ruim — disse Jorge querendo ser justo, sentando-se ao lado do irmão — Aliás, nem sei como conseguiu ser tão boa, já que a gente nunca a deixou jogar conosco.
— Ela arrombava o barraco em que vocês guardam vassouras no jardim desde os seis anos de idade e tirava ora uma vassoura ora outra quando vocês não estavam por perto — disse Hermione de trás de sua pilha instável de livros de Runas Antigas.
— Ah — exclamou Jorge levemente impressionado. — Bom: isso explica.
— Rony já defendeu algum gol? — perguntou Hermione, espiando por cima de Hieróglifos e Logogramas Mágicos.
— Bom, ele é capaz de defender quando acha que não tem ninguém observando — disse Fred olhando para o teto — Então no Sábado só o que a gente precisa fazer é pedir aos espectadores para virarem as costas e baterem um papo todas as vezes que a goles for arremessada para o lado dele.
Ele tornou a se levantar inquieto e foi até a janela espiar os terrenos escuros da escola.
— Sabe, o quadribol era quase a única coisa que fazia este lugar valer a pena.
Hermione lançou-lhe um olhar sério.
— Seus exames estão chegando.
— Já lhe disse antes, não estamos preocupados com os N.I.E.M.s — retorquiu Fred — Os Kits Mata-Aula estão prontos para o lançamento, descobrimos como nos livrar daqueles furúnculos, basta umas gotas de essência de murtisco para resolver o problema. Foi Lino quem nos sugeriu.
Jorge deu um grande bocejo e olhou desconsolado para o céu nublado da noite.
— Nem sei se quero assistir a esse jogo. Se Zacarias Smith nos derrotar, terei de me matar.
— Ou, mais provavelmente, matar ele — disse Fred com firmeza.
— Esse é o problema do quadribol — disse Hermione distraidamente, mais uma vez debruçada sobre sua tradução das Runas — Cria essa animosidade e tensão entre as Casas.
Ela ergueu a cabeça para procurar o exemplar do Silabário de Spellman e surpreendeu Fred, Jorge e Harry, os três olhando-a com expressões nos rostos em que se mesclavam a aversão e a incredulidade.
— E é mesmo! — exclamou ela com impaciência — É só um jogo ou não é?
— Hermione — disse Harry, sacudindo a cabeça — Você é boa em sentimentos e outras coisas, mas simplesmente não entende de quadribol.
— Talvez não — disse ela ameaçadora, voltando à tradução — Mas pelo menos a minha felicidade não depende da habilidade de Rony defender gols.
E embora Harry preferisse ter de se atirar da Torre de Astronomia a admitir isso para a amiga, depois de assistir ao jogo no Sábado seguinte ele teria dado os galeões que lhe pedissem para não gostar de quadribol.
A melhor coisa que se poderia dizer sobre a partida é que foi curta, os espectadores da Grifinória só precisaram suportar vinte e dois minutos de agonia. Era difícil dizer o que foi pior: Harry achou o páreo duro entre o décimo quarto frango de Rony, Sloper acertar a boca de Angelina em vez do balaço e Kirke gritar e cair para trás, quando Zacarias Smith passou veloz por ele carregando a goles. O milagre foi que a Grifinória só perdeu por dez pontos: Gina conseguiu capturar o pomo bem embaixo do nariz do apanhador da Lufa-Lufa, Summerby, de modo que o placar final foi duzentos e quarenta a duzentos e trinta.
— Boa captura — disse Harry a Gina já na Sala Comunal, onde a atmosfera lembrava a de um enterro particularmente desanimado.
— Tive sorte — disse encolhendo os ombros — Não era um pomo muito veloz e Summerby está gripado, espirrou e fechou os olhos exatamente na hora errada. Em todo o caso, quando você tiver voltado à equipe...
— Gina, fui proibido de jogar para sempre.
— Você foi proibido enquanto Umbridge estiver na escola — corrigiu a garota — Faz diferença. De qualquer maneira, quando você tiver voltado, acho que vou me candidatar a artilheira. Angelina e Alicia vão sair no ano que vem, e eu prefiro marcar gols a apanhar o Pomo.
Harry olhou para Rony, que estava encolhido a um canto, contemplando os próprios joelhos, uma garrafa de cerveja amanteigada na mão.
— Angelina continua a não querer que ele se demita — disse Gina, como se lesse os pensamentos de Harry — Diz que sabe que ele tem jeito para a coisa.
Harry gostava de Angelina pela fé que demonstrava ter em Rony, mas, ao mesmo tempo, achava que seria realmente mais caridoso permitir que ele saísse da equipe. Rony deixara o campo sob outro coro atroador de “Weasley é nosso rei”, cantado com o maior gosto pelos alunos da Sonserina, Casa que agora era a favorita para a Copa de Quadribol.
Fred e Jorge se aproximaram.
— Não tenho nem coragem de curtir com a cara dele — disse Fred, olhando para o irmão encolhido — Veja bem... quando ele perdeu o décimo quarto...
E fez gestos desencontrados como se fosse um cachorrinho nadando.
—... bom, vou guardar para as festinhas, eh?
Rony arrastou-se para a cama depois disso. Por respeito aos seus sentimentos, Harry aguardou um pouco antes de subir para o dormitório, para que o amigo pudesse fingir que estava dormindo, se quisesse. Dito e feito, quando finalmente entrou no quarto Rony estava roncando um pouquinho alto demais para ser inteiramente plausível.
Harry se deitou pensando no jogo. Fora imensamente frustrante assistir a ele da lateral do campo. Estava muito impressionado com o desempenho de Gina, mas sabia que se estivesse jogando teria capturado o pomo antes... tinha havido um momento em que a bolinha esvoaçara perto do tornozelo de Kirke, se Gina não tivesse hesitado, poderia ter conquistado a vitória para a Grifinória. Umbridge assistia sentada alguns níveis abaixo de Harry e Hermione. Uma ou duas vezes virara-se para espiá-lo, sua boca larga de sapo distendida no que ele imaginara ser um sorriso de triunfo. Só de lembrar, sentia-se quente de raiva deitado ali no escuro. Depois de alguns minutos, porém, lembrou-se de que devia esvaziar a mente de toda emoção antes de dormir, conforme Snape não parava de recomendar ao fim de cada aula de Oclumência.
Harry tentou por uns momentos, mas pensar em Snape, depois de se lembrar da Umbridge, meramente aumentava sua sensação de surdo rancor, e, em vez disso, viu-se focalizando o quanto detestava os dois. Aos poucos, os roncos de Rony foram se perdendo na distância e sendo substituídos pelo som de uma respiração lenta e profunda. Harry levou muito mais tempo para adormecer, sentia o corpo cansado, mas seu cérebro demorou a se fechar.
Sonhou que Neville e a Profª. Sprout estavam valsando na Sala Precisa ao som de uma gaita de foles que a Profª. McGonagall tocava. Ele os observou por uns momentos, então resolveu ir procurar os outros membros da AD. Mas, quando saiu da sala deparou, não com a tapeçaria de Barnabás, o Amalucado, mas com um archote ardendo em seu suporte na parede de pedra. Ele virou a cabeça lentamente para a esquerda. Lá, na extremidade do corredor sem janelas, havia uma porta comum preta.
Caminhou em sua direção com uma crescente excitação. Teve a estranha sensação de que desta vez ia finalmente ter sorte e descobri o jeito de abri-la... já bem próximo, viu, com um súbito aumento nessa excitação, que havia uma réstia de claridade azul para o lado direito... a porta estava entreaberta... ele esticou a mão para abri-la e...
Rony soltou um ronco autêntico, forte e rascante, e Harry acordou de repente com a mão direita estendida à sua frente no escuro, querendo abrir uma porta a centenas de quilômetros de distância. Ele a deixou cair sentindo ao mesmo tempo desapontamento e culpa.
Sabia que não deveria ter visto a porta, mas ao mesmo tempo se sentia tão devorado pela curiosidade de saber o que havia por trás dela que não pôde deixar de se sentir aborrecido com Rony... se ele ao menos pudesse ter segurado aquele ronco por mais um minuto.
Os dois entraram no Salão Principal para tomar o café da manhã exatamente na hora em que as corujas chegavam com o correio na Segunda-Feira.
Hermione não era a única pessoa que esperava ansiosa pelo Profeta Diário: quase todos ansiavam por ler mais notícias sobre os Comensais da Morte fugitivos, que, apesar de avistados várias vezes, ainda não tinham sido recapturados. Ela pagou à coruja o nuque da entrega e desdobrou o jornal depressa enquanto Harry se servia de suco de laranja, como ele recebera apenas um bilhete o ano inteiro, teve certeza, quando a primeira coruja pousou com um baque à sua frente, de que era engano.
— Quem é que você está procurando? — perguntou ele, puxando languidamente o seu suco debaixo do bico da ave e se curvando para verificar o nome e o endereço do destinatário: Harry Potter, Salão Principal, Escola de Hogwarts
Enrugando a testa, ele fez menção de tirar a carta da coruja, mas, antes que o fizesse, mais três, quatro, cinco corujas pousaram ao lado da primeira e procuraram uma posição, pisando na manteiga, derrubando o saleiro, tentando entregar a carta antes das outras.
— Que é que está acontecendo? — indagou Rony espantado, quando a mesa da Grifinória inteira se inclinou para olhar, e outras sete corujas pousaram entre as primeiras, berrando, piando e batendo as asas.
— Harry! — disse Hermione sem fôlego, enfiando as mãos naquele ajuntamento de penas e retirando uma coruja-das-torres que trazia um embrulho comprido e cilíndrico — Acho que sei o que significa isso: abra este aqui primeiro!
Harry abriu o embrulho pardo. Dele rolou um exemplar compactamente dobrado da edição de Março do Pasquim. Ele o desenrolou e viu o próprio rosto sorrindo acanhado para ele na capa da revista. Enormes letras vermelhas atravessadas na foto anunciavam:

HARRY POTTER ENFIM REVELA:
A VERDADE SOBRE AQUELE-QUE-NÃO-DEVE-SER-NOMEADO
E A NOITE EM QUE VIU O SEU RETORNO

— Parece bom, não? — comentou Luna, que vagara até a mesa da Grifinória e agora se apertava no banco entre Fred e Rony — Saiu ontem, pedi ao papai para lhe mandar um exemplar de cortesia. Imagino que tudo isso — ela acenou abarcando as corujas que se empurravam sobre a mesa diante de Harry — Sejam cartas dos leitores.
— Foi o que pensei — disse Hermione ansiosa — Harry você se importa se a gente...?
— Sirvam-se — respondeu ele, parecendo um pouco confuso.
Rony e Hermione começaram a abrir os envelopes.
— Esta é de um cara que acha que você pirou — disse Rony correndo os olhos pela carta — Ah, bom...
— Esta mulher aqui recomenda que você experimente uma série de Feitiços de Choque no St. Mungus — disse Hermione, parecendo desapontada e amassando uma segunda.
— Mas esta aqui parece ok — disse Harry lentamente, lendo uma longa carta de uma bruxa em Paisley — Ei, ela diz que acredita em mim!
— Este aqui está dividido — disse Fred, que se juntara com entusiasmo à tarefa de abrir as cartas — Diz que você não passa a impressão de ser maluco, mas que ele realmente não acredita que Você-Sabe-Quem tenha retornado, então, agora não sabe o que pensar. Caracas, que desperdício de pergaminho.
— Tem um aqui que você convenceu, Harry! — disse Hermione excitada — Tendo lido a sua versão da história, sou forçado a concluir que o Profeta Diário tem sido injusto com você... por menos que eu queira pensar que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado retornou, sou forçado a aceitar que você está falando a verdade... Ah, é maravilhoso!
— Outra acha que você está só ladrando — disse Rony atirando a carta que amassara por cima do ombro —... Mas esta outra diz que você a converteu e ela agora acha que você é um verdadeiro herói: e manda junto uma foto, uau!
— Que é que está acontecendo aqui? — perguntou uma voz falsamente meiga e infantil.
Harry ergueu a cabeça com as mãos cheias de envelopes.
A Profª. Umbridge estava em pé atrás de Fred e Luna, seus olhos de sapo esbugalhados esquadrinhando a confusão de corujas e cartas em cima da mesa diante de Harry. As suas costas, ele viu muitos alunos observando-os com avidez.
— Por que recebeu todas essas cartas, Sr. Potter? — perguntou ela lentamente.
— Isso agora é crime? — exclamou Fred em voz alta — Receber cartas?
— Cuidado, Sr. Weasley, ou será que terei de lhe dar uma detenção? — disse Umbridge. — Então, Sr. Potter?
Harry hesitou, mas não via como poderia abafar o que fizera, agora era apenas uma questão de tempo até um exemplar do Pasquim chegar à atenção de Umbridge.
— As pessoas estão me escrevendo porque dei uma entrevista. Sobre o que me aconteceu em Junho passado.
Por alguma razão ele olhou para a mesa dos professores ao dizer isso. Harry tinha a estranhíssima impressão de que Dumbledore estivera observando-o um segundo antes, mas, quando se virou, o diretor parecia absorto em conversa com o Prof. Flitwick.
— Uma entrevista? — repetiu Umbridge, sua voz mais fina e aguda que nunca — Como assim?
— Uma repórter me fez perguntas e eu respondi — disse Harry — Aqui...
E atirou à professora o exemplar do Pasquim. Ela o apanhou e arregalou os olhos para a capa. Seu rosto, cor de massa de pão, ficou malhado de violeta.
— Quando foi que você fez isso? — perguntou ela, sua voz ligeiramente trêmula.
— No último fim de semana em Hogsmeade.
Ela o encarou, incandescente de fúria, a revista tremendo em seus dedos curtos e grossos.
— Não haverá mais passeios a Hogsmeade para o senhor, Sr. Potter — sussurrou ela — Como se atreveu... como pôde... — ela tomou fôlego — Tenho tentado repetidamente ensinar você a não contar mentiras. A mensagem, pelo visto, ainda não entrou em sua cabeça. Cinqüenta pontos a menos para a Grifinória e mais uma semana de detenções.
Ela se afastou, apertando o exemplar do Pasquim contra o peito, seguida pelos olhares de muitos alunos.
No meio da manhã, enormes avisos haviam sido afixados por toda a escola, não apenas nos quadros das Casas, mas nos corredores e salas de aula também.

POR ORDEM DA ALTA INQUISIDORA DE HOGWARTS
O estudante que for encontrado de posse da revista O Pasquim será expulso. A ordem acima está de acordo com o Decreto Educacional Número Vinte e Sete.
Assinado:

Dolores Joana Umbridge,
Alta Inquisidora

Por alguma razão, toda às vezes que Hermione avistava um desses avisos seu rosto se iluminava de prazer.
— Com que é, exatamente, que você está tão satisfeita? — perguntou-lhe Harry.
— Ah, Harry, você não está vendo? — sussurrou Hermione — Se ela quisesse fazer uma única coisa para garantir que todo aluno da escola lesse a sua entrevista, era exatamente proibir sua leitura!
E parece que Hermione tinha toda a razão. Até o fim do dia, embora Harry não tivesse visto nem um pedacinho do Pasquim em lugar algum da escola, todos pareciam estar citando a entrevista uns para os outros.
Harry os ouviu cochichando nas filas às portas das salas de aulas, discutindo-a no almoço e no fundo das salas, e Hermione chegou a contar que as meninas que estavam usando os boxes nos banheiros falavam nisso quando ela passou por lá antes da aula de Runas Antigas.
— Então elas me viram, e obviamente sabem que sei, então me bombardearam com perguntas — contou Hermione a Harry, com os olhos brilhando — E Harry, acho que elas acreditam em você, realmente, acho que enfim você as convenceu!
Entrementes, a Profª. Umbridge rondava a escola, parando alunos a esmo e mandando-os mostrar os livros e os bolsos. Harry sabia que a professora procurava exemplares do Pasquim, mas os estudantes estavam muito à frente dela. As páginas que continham a entrevista de Harry tinham sido reformatadas por meio de feitiços para parecer cópias de livros-texto se mais alguém as lesse, ou apagadas por magia até que seus donos quisessem tornar a lê-las. Logo pareceu que todo o mundo na escola vira a entrevista.
Os professores obviamente tinham sido proibidos de mencionar a entrevista pelo Decreto Educacional Número Vinte e Seis, mas assim mesmo encontraram maneiras de expressar suas opiniões.
A Profª. Sprout concedeu à Grifinória vinte pontos quando Harry lhe passou o regador de água, um sorridente Prof. Flitwick deu a Harry uma caixa de ratinhos de açúcar que guinchavam, ao fim da aula de Feitiços, fazendo: “Psiu!”, e se afastando depressa, e a Profª. Trelawney irrompeu em soluços nervosos durante a aula de Adivinhação e anunciou à turma surpresa, e a uma Umbridge extremamente desaprovadora, que Harry não ia morrer cedo, viveria até uma velhice madura, seria Ministro da Magia e teria doze filhos.
Mas o que deixou Harry mais feliz foi Cho alcançá-lo quando ia correndo para a aula de Transfiguração no dia seguinte. Antes que ele entendesse o que estava acontecendo, suas mãos se uniram e ela sussurrou em seu ouvido: “Lamento muito, muito mesmo. Aquela entrevista foi tão corajosa... me fez chorar”. Ele ficou triste ao saber que a entrevista a fizera derramar outras tantas lágrimas, mas muito alegre por voltarem a se falar, e ainda mais satisfeito quando Cho lhe deu um beijinho no rosto e se afastou correndo.
E, o inacreditável, assim que chegou à porta da sala de Transfiguração, aconteceu outra coisa igualmente boa. Simas saiu da fila para lhe falar.
— Eu só queria dizer — murmurou, fixando com os olhos aperta dos o joelho esquerdo de Harry — Que acredito em você. E mandei um exemplar da revista para minha mãe.
E se ainda fosse preciso mais alguma coisa para completar sua felicidade, vieram as reações de Malfoy, Crabbe e Goyle.
Harry os viu de cabeças juntas na Biblioteca mais para o fim da tarde, estavam em companhia de um garoto franzino que Hermione murmurou se chamar Teodoro Nott. Os quatro se viraram para olhar Harry, que procurava nas prateleiras um livro sobre Sumiço Parcial: Goyle estalou as juntas dos dedos ameaçadoramente e Malfoy cochichou alguma coisa sem dúvida ruim para Crabbe. Harry sabia muito bem por que estavam agindo assim: ele citara os pais deles como Comensais da Morte.
— E o melhor — sussurrou Hermione alegremente quando saíram da Biblioteca — É que eles não podem contradizer você, porque não podem admitir que leram o artigo!
E, para coroar, Luna lhe disse ao jantar que nunca uma tiragem do Pasquim se esgotara tão rápido.
— Papai vai fazer uma segunda tiragem! — contou ela a Harry, com os olhos arregalados de excitação — Ele nem consegue acreditar, diz que as pessoas parecem ainda mais interessadas na entrevista do que nos Bufadores de Chifre Enrugado!
Harry foi herói na Sala Comunal da Grifinória àquela noite.
Atrevidos, Fred e Jorge tinham lançado um Feitiço Ampliador na capa do Pasquim e a penduraram na parede, para que a cabeça gigantesca de Harry contemplasse os colegas do alto e ocasionalmente dissesse frases do tipo: O MINISTÉRIO É RETARDADO e COMA BOSTA, UMBRIDGE em voz ressonante.
Hermione não achou isso muito divertido; disse que interferia com sua concentração e acabou indo se deitar cedo, irritada. Harry teve de admitir que o cartaz perdeu a graça uma ou duas horas depois, principalmente quando o Feitiço da Fala começou a se desgastar e se ouviam apenas palavras desconexas como “BOSTA” e “UMBRIDGE”, a intervalos sempre mais freqüentes, em um tom progressivamente mais alto. De fato, começou a lhe dar dor de cabeça, e sua cicatriz recomeçou a formigar incomodamente. Para os gemidos de desapontamento dos muitos colegas que estavam sentados ao seu redor, lhe pedindo que recontasse a entrevista pela milésima vez, ele também anunciou que precisava dormir cedo.
O dormitório estava vazio quando chegou lá. Por um momento ele descansou a testa no vidro frio da janela ao lado de sua cama, o gesto pareceu aliviar a queimação na cicatriz. Então ele se despiu e se deitou, desejando que a dor de cabeça passasse. Sentia-se também um pouco enjoado. Virou-se de lado, fechou os olhos e adormeceu quase instantaneamente.
Estava parado em uma sala escura com cortinas, iluminada por um único candelabro. Suas mãos apertavam o encosto de uma poltrona à frente. Eram mãos de dedos finos e brancos como se não vissem sol havia anos, e lembravam aranhas grandes e descoradas contra o veludo escuro da poltrona.
Mais além, em um círculo de luz projetado no chão pelo candelabro, achava-se ajoelhado um homem de vestes negras.
— Fui mal aconselhado, pelo que parece — disse Harry num tom de voz agudo e frio que vibrava de raiva.
— Senhor, peço o seu perdão — disse rouco o homem ajoelhado no chão.
A parte de trás de sua cabeça refulgia à luz das velas. Ele parecia tremer.
— Não estou culpando você, Rookwood — disse Harry naquela voz fria e cruel.
Largou então a poltrona e contornou-a, aproximando-se do homem encolhido no chão, e parou diretamente sobre ele, ainda na sombra, olhando de uma altura muito maior do que a normal.
— Você tem certeza de suas informações, Rookwood? — perguntou Harry.
— Tenho sim, milorde... afinal... afinal eu costumava trabalhar no departamento.
— Avery me disse que Bode poderia retirá-la.
— Bode jamais poderia ter feito isso, milorde... Bode sabia que não poderia... sem dúvida foi essa a razão por que lutou tanto contra a Maldição Imperius lançada por Malfoy.
— Levante-se, Rookwood — sussurrou Harry.
O homem ajoelhado quase tropeçou na pressa de obedecer. Seu rosto era bexiguento, as marcas se destacavam à luz das velas. Ele continuou um pouco curvado, mesmo em pé, como em uma meia reverência, e lançava olhares aterrorizados ao rosto de Harry.
— Você fez bem em me informar — disse Harry — Muito bem... pelo visto, desperdicei meses em planos infrutíferos... mas não importa... recomeçaremos a partir de agora. Você tem a gratidão de Lorde Voldemort, Rookwood...
— Milorde... sim, milorde... — exclamou Rookwood, sua voz rouca de alívio.
— Precisarei de sua ajuda. Precisarei de todas as informações que puder me dar.
— Naturalmente, milorde, naturalmente... o que precisar.
— Muito bem... pode se retirar. Mande Avery falar comigo.
Rookwood recuou apressado, de costas, se curvando, e desapareceu pela porta.
Deixado só no aposento escuro, Harry se virou para a parede. Havia um espelho rachado e manchado pelo tempo na parede sombreada. Harry encaminhou-se para ele. Sua imagem se tornou maior e mais clara no escuro... um rosto mais branco do que uma caveira... os olhos vermelhos com fendas em lugar de pupilas.
— NÃÃÃÃÃÃÃÃO!
— Quê! — berrou uma voz próxima.
Harry se debateu como um louco, se enrolou nas cortinas e caiu da cama. Por alguns segundos não soube onde estava, convencido de que iria rever o rosto branco e escaveirado assomando das sombras, então muito perto dele falou a voz de Rony.
— Quer parar de agir feito um maníaco para eu poder tirar você daqui?
Rony puxou as cortinas e, à claridade do luar, Harry arregalou os olhos para ele, deitado de costas, a cicatriz queimando de dor. Pelo jeito, Rony estava se preparando para deitar, tinha um braço fora do roupão.
— Alguém foi atacado outra vez? — perguntou, erguendo Harry, com esforço, do chão. — Foi o papai? Foi aquela cobra?
— Não... estão todos bem... — ofegou Harry, cuja testa parecia em fogo — Bom... Avery não está... está enrascado... passou para ele informações erradas... Voldemort está furioso...
Harry gemeu e afundou na cama, tremendo, esfregando a cicatriz.
— Mas Rookwood vai ajudá-lo agora... ele está outra vez no caminho certo...
— Do que é que você está falando? — perguntou Rony, amedrontado — Você está dizendo... você acabou de ver Você-Sabe-Quem?
— Eu era Você-Sabe-Quem — disse Harry, esticando as mãos no escuro e erguendo-as diante do rosto, para ver se continuavam mortalmente pálidas e com os dedos longos — Ele estava com Rookwood, um dos fugitivos de Azkaban, lembra? Rookwood acabou de contar a ele que Bode não poderia ter feito.
— Feito o quê?
— Retirado alguma coisa... disse que Bode sabia que não poderia... Bode estava sob a influência da Maldição Imperius... acho que ele disse que foi o pai de Malfoy quem a lançou.
— Bode foi enfeitiçado para retirar alguma coisa? — confirmou Rony — Mas, Harry, tem de ser...
— A arma — Harry terminou a frase por ele — Eu sei.
A porta do dormitório se abriu, Dino e Simas entraram. Harry puxou as pernas para cima da cama. Não queria dar a impressão de que acabara de acontecer algo estranho, pois Simas só recentemente parara de achar que ele era pirado.
— Você disse — murmurou Rony, aproximando a cabeça de Harry a pretexto de ajudá-lo a se servir da água da jarra sobre a mesa-de-cabeceira — Que era o Você-Sabe-Quem?
— Disse — confirmou Harry baixinho.
Rony tomou um gole de água exagerado e desnecessário, Harry viu a água escorrer do queixo para o peito do amigo.
— Harry — disse ele, enquanto Dino e Simas andavam pelo quarto fazendo barulho, tirando os roupões e conversando — Você tem de contar...
— Não tenho de contar a ninguém — cortou-o Harry — Não teria visto nada se soubesse usar a Oclumência. Já devia ter aprendido a fechar minha mente a tudo isso. É o que eles querem.
Por eles, Harry se referia a Dumbledore. Tornou a se meter embaixo das cobertas e a se virar para o lado, dando as costas a Rony, e pouco depois ouviu o colchão do amigo ranger, quando ele também se deitou. A cicatriz de Harry recomeçou a queimar, ele mordeu o travesseiro para não fazer barulho. Em algum lugar, sentia, Avery estava sendo castigado.
Harry e Rony esperaram até de manhã para contar a Hermione exatamente o que acontecera, queriam ter absoluta certeza de que ninguém os ouviria. Parados no canto habitual do pátio frio e ventoso, Harry lhe contou cada detalhe do sonho de que pôde se lembrar. Quando terminou, ela continuou calada por um momento, mas fixou com uma intensidade penosa Fred e Jorge, que estavam sem cabeça vendendo seus chapéus mágicos por baixo das capas, do outro lado do pátio.
— Então foi por isso que o mataram — concluiu em voz baixa, desviando finalmente o olhar de Fred e Jorge — Quando Bode tentou roubar a arma, lhe aconteceu alguma coisa estranha. Acho que deve haver feitiços defensivos na arma, ou em volta dela, para impedir que as pessoas a peguem. Era por isso que ele estava no St. Mungus, com o cérebro destrambelhado, sem conseguir falar. Mas lembram do que a Curandeira nos disse? Bode estava se recuperando. E não podiam arriscar que ele melhorasse, não é? Quero dizer, o choque do que aconteceu quando ele tocou naquela arma provavelmente desfez a Maldição Imperius. Quando recuperasse a voz, ele explicaria o que estivera fazendo, não é? Então saberiam que ele fora enviado para roubar a arma. Naturalmente, teria sido fácil para Lúcio Malfoy lançar a maldição sobre Bode. Nunca sai do Ministério, não é?
— E ele andava por lá no dia da minha audiência — disse Harry — No... calma aí... — disse lentamente — Estava no corredor do Departamento de Mistérios naquele dia! Seu pai comentou que ele provavelmente estava querendo bisbilhotar e descobrir o que tinha acontecido na minha audiência, mas e se...
— Estúrgio! — exclamou Hermione, estupefata.
— Como disse? — perguntou Rony, parecendo confuso.
— Estúrgio Podmore — disse Hermione sem fôlego — Preso por tentar passar por uma porta! Lúcio Malfoy deve ter pego ele também! Aposto que fez isso no dia em que você o viu lá, Harry. Estúrgio estava usando a Capa da Invisibilidade de Moody, certo? Então, e se ele estivesse guardando a porta, invisível, e Malfoy o ouvisse mexer, ou adivinhasse que tinha alguém ali, ou simplesmente tivesse lançado a Maldição Imperius contando que houvesse alguém guardando a sala? Portanto, quando Estúrgio teve oportunidade, quando foi novamente sua vez de tirar serviço, ele tentou entrar no Departamento de Mistérios para roubar a arma para Voldemort, Rony, fique quieto, mas foi apanhado e mandado para Azkaban...
Ela olhou para Harry.
— E agora Rookwood disse a Voldemort como conseguir a arma?
— Eu não ouvi a conversa toda, mas foi o que me pareceu — disse Harry — Rookwood costumava trabalhar lá... quem sabe Voldemort vai mandar o Rookwood fazer o serviço?
Hermione acenou a cabeça, aparentemente com os pensamentos ainda longe. Então, de repente, falou.
— Mas você não devia ter visto isso, Harry, de jeito nenhum.
— Quê? — exclamou ele, surpreso.
— Você devia estar aprendendo a fechar a mente a esse tipo de coisa — disse Hermione, com inesperada severidade.
— Sei que devia — disse Harry — Mas...
— Bom, acho que você devia tentar esquecer o que viu — falou com firmeza — E de agora em diante se esforçar mais para aprender sua Oclumência.
A semana não melhorou com o passar dos dias.
Harry recebeu outros dois “D” em Poções; e continuou aflito com a perspectiva de Hagrid ser demitido, e não conseguiu parar de pensar no sonho em que fora Voldemort, embora não tornasse a mencioná-lo para Rony e Hermione, não queria receber outro passa fora da amiga. Desejou muito conversar com Sirius, mas isso estava fora de questão, então tentou afastar o assunto para o fundo da cabeça.
Infelizmente o fundo de sua cabeça já não era o lugar seguro que fora no passado.
— Levante-se, Potter.
Umas duas semanas depois do sonho com Rookwood, Harry se veria, mais uma vez, ajoelhado no chão da sala de Snape, tentando esvaziar a mente. Acabara de ser forçado, mais uma vez, a aliviar um fluxo de lembranças infantis que nem sequer sabia que ainda guardava, a maior parte ligada a humilhações que Duda e sua turma lhe haviam infligido no ensino fundamental.
— A última lembrança — disse Snape — Qual foi?
— Não sei — respondeu Harry, levantando-se cansado. Estava encontrando uma dificuldade crescente em separar lembranças distintas do fluxo de imagens e sons que Snape não parava de suscitar — O senhor se refere àquela em que meu primo tentou me fazer ficar em pé no vaso sanitário?
— Não — disse Snape suavemente — Me refiro à do homem ajoelhado no meio de um aposento mal iluminado...
— Não é... nada.
Os olhos escuros de Snape perfuraram os de Harry. Lembrando-se do que o professor dissera sobre a extrema importância do contato visual para a Legilimência, Harry piscou e desviou os olhos.
— Como é que aquele homem e aquele aposento foram parar em sua mente, Potter? — perguntou Snape.
— Foi... — respondeu Harry, olhando para todo lado menos para Snape — Foi só... só um sonho que eu tive.
— Um sonho?
Houve uma pausa em que Harry se fixou em um enorme sapo morto dentro de um frasco de líquido roxo.
— Você sabe para que estamos aqui, não sabe, Potter? — disse o professor em um tom baixo e perigoso — Você sabe para que estou cedendo as minhas noites e ocupando-as com essa tarefa monótona?
— Sei — disse Harry formalmente.
— Então lembre-me por que estamos aqui, Potter.
— Para eu aprender Oclumência — disse Harry, agora olhando para uma enguia morta.
— Correto, Potter. E por mais obtuso que você seja...
Harry olhou para Snape odiando-o.
—... Seria de esperar que após dois meses de aulas você tivesse feito algum progresso. Quantos outros sonhos você teve com o Lorde das Trevas?
— Somente este — mentiu Harry.
— Talvez — disse Snape, apertando ligeiramente seus olhos escuros e frios — Talvez você sinta prazer em ter essas visões e sonhos, Potter. Talvez eles o façam se sentir especial... importante?
— Não, não fazem — respondeu Harry de queixo duro e com os dedos apertando o punho da varinha.
— Ainda bem, Potter — disse Snape friamente — Porque você não é especial nem importante, e não cabe a você descobrir o que o Lorde das Trevas está dizendo aos seus Comensais da Morte.
— Não... essa é a sua tarefa, não é? — disparou Harry.
Não tivera intenção de dizer isso, escapara de sua boca com a raiva. Durante muito tempo os dois se encararam, Harry convencido de que fora longe demais. Mas surgira uma expressão curiosa, quase satisfeita no rosto de Snape quando ele respondeu.
— É, Potter — disse ele com os olhos brilhando — É a minha tarefa. Agora, se estiver pronto, recomeçaremos.
Ele ergueu a varinha:
— Um... dois... três... Legilimens!
Cem Dementadores precipitavam-se sobre o lago em direção a Harry... ele fez uma careta de concentração... estavam se aproximando... via os buracos escuros sob os capuzes... contudo. Via também Snape à sua frente, os olhos fixos em seu rosto, resmungando... e por alguma razão Snape foi se tornando mais nítido e os Dementadores mais difusos...
Harry ergueu a própria varinha.
— Protego!
Snape cambaleou, sua varinha voou para longe de Harry, e de repente a mente do garoto estava apinhada de lembranças que não eram dele: um homem de nariz adunco gritava com uma mulher encolhida, enquanto um garotinho de cabelos escuros chorava a um canto... um adolescente de cabelos oleosos estava sentado sozinho em um quarto escuro apontando a varinha para o teto, abatendo moscas... uma garota estava rindo das tentativas de um menino magricela que tentava montar uma vassoura corcoveante...
— CHEGA!
Harry teve a sensação de que levara um empurrão no peito, cambaleou vários passos para trás, bateu em algumas prateleiras que cobriam as paredes de Snape e ouviu alguma coisa se partir. Snape tremia ligeiramente e tinha o rosto muito pálido.
As costas das vestes de Harry estavam úmidas. Um dos frascos às suas costas quebrara na colisão, a coisa viscosa em conserva que havia dentro girava no restinho da poção derramada.
— Reparo! — sibilou Snape, e o frasco tornou a se fechar imediatamente — Bom, Potter... sem dúvida isto foi um progresso...
Um pouco ofegante, Snape endireitou a Penseira em que ele mais uma vez guardara os pensamentos antes de começar a aula, quase como se ainda estivesse verificando se continuavam ali.
— Não me lembro de ter-lhe dito para usar um Feitiço Escudo... mas sem dúvida foi eficiente...
Harry não falou, sentiu que dizer qualquer coisa poderia ser perigoso. Tinha certeza de que acabara de invadir as lembranças de Snape, que acabara de ver cenas da infância do professor. Era assustador pensar que o garotinho que chorava ao assistir a uma briga dos pais agora estava diante dele revelando tanto desprezo no olhar.
— Vamos tentar outra vez? — disse Snape.
Harry sentiu uma excitação de temor: estava prestes a pagar pelo que acabara de acontecer, com certeza. Eles voltaram à posição em que a mesa se interpunha aos dois, Harry achando que desta vez ia ter muito mais dificuldade para esvaziar a mente.
— Quando eu contar três, então — disse Snape erguendo a varinha — Um... dois...
Harry não tinha tido tempo de se dominar e tentar esvaziar a mente e Snape já gritava: “Legilimens!”. Ele estava correndo pelo corredor do Departamento de Mistérios, deixando para trás as paredes vazias, os archotes, a porta preta e simples ia crescendo, estava correndo tão depressa que ia colidir com a porta, estava a um metro dela e mais uma vez via a réstia de luz azulada...
A porta se abrira!
Ele a atravessou finalmente, e entrou em uma sala circular de piso e paredes pretas, iluminada por velas de chamas azuis, e havia outras portas a toda volta, ele precisava prosseguir, mas que porta deveria escolher...?
— POTTER!
Harry abriu os olhos. Estava caído de costas outra vez, sem lembrança de ter chegado à sala, ofegava como se tivesse corrido toda a extensão do corredor do Departamento de Mistérios, realmente varado a porta preta e encontrado a sala circular.
— Explique-se! — disse Snape, que estava em pé ao lado dele, parecendo furioso.
— Não sei o que aconteceu — disse Harry com sinceridade, levantando-se.
Havia um galo na parte de trás de sua cabeça no ponto em que batera no chão e ele se sentia febril.
— Nunca vi isso antes, quero dizer, eu lhe disse, sonhei com a porta... mas nunca esteve aberta antes...
— Você não está se esforçando bastante!
Por alguma razão, Snape estava ainda mais furioso do que há dois minutos, quando Harry vira suas lembranças.
— Você é preguiçoso e desleixado, Potter, é de admirar que o Lorde das Trevas...
— Será que o senhor pode me dizer uma coisa? — disse, disparando mais uma vez — Por que chama Voldemort de Lorde das Trevas? Até hoje só ouvi Comensais da Morte o chamarem assim.
Snape abriu a boca em um esgar...
Uma mulher gritou em algum lugar fora da sala.
O professor virou a cabeça abruptamente para o alto e ficou observando o teto.
— Que d...? — resmungou.
Harry ouviu uma agitação abafada no Saguão de Entrada.
Snape olhou para os lados, franzindo a testa.
— Você viu alguma coisa anormal quando veio, Potter?
Harry sacudiu a cabeça negativamente.
Em algum lugar acima a mulher tornou a gritar. Snape se dirigiu a passos largos para a porta, a varinha em riste, e desapareceu de vista. Harry hesitou um momento, então seguiu-o. Os gritos vinham de fato do Saguão de Entrada, tornaram-se mais fortes à medida que Harry corria em direção aos degraus de pedra das masmorras.
Quando chegou ao alto, encontrou o saguão cheio, os alunos tinham acorrido em massa do Salão Principal, onde o jantar ainda estava sendo servido, para ver o que estava acontecendo, outros lotavam a escadaria de mármore. Harry abriu caminho por um grupo compacto de alunos altos da Sonserina, e viu que os espectadores haviam formado um grande círculo, uns pareciam chocados, outros até temerosos.
A Profª. McGonagall estava defronte a Harry do outro lado do saguão, dava a impressão de estar se sentindo ligeiramente nauseada com o que via.
A Profª. Trelawney encontrava-se no meio do Saguão de Entrada com a varinha em uma das mãos e uma garrafa vazia de xerez na outra, parecendo completamente tresloucada. Seus cabelos estavam em pé, os óculos de tal maneira tortos que um olho estava mais aumentado do que o outro, seus inúmeros xales e cachecóis caíam desalinhados dos ombros, dando a impressão de que ela própria estava se rompendo.
Havia dois malões no chão aos seus pés, um deles de tampa para baixo: dava a impressão de que fora atirado atrás dela. A Profª. Trelawney olhava fixamente, cheia de terror, para alguma coisa que Harry não podia ver, mas que parecia estar parada ao pé da escadaria.
— Não! — gritava ela — NÃO! Isto não pode estar acontecendo... não posso... me recuso a aceitar!
— Você não viu que isso ia acontecer? — perguntou uma voz infantil e aguda, parecendo insensivelmente risonha, e Harry deslocando-se ligeiramente para a direita, constatou que a visão aterrorizante de Trelawney era nada mais que a Profª. Umbridge — Incapaz como você é de prever até o tempo que vai fazer amanhã, certamente deve ter percebido que o seu lamentável desempenho durante as minhas inspeções, e a ausência de melhoria, tornaria inevitável a sua demissão?
— Você não p-pode! — berrou a Profª. Trelawney, as lágrimas escorrendo pelo rosto por baixo das lentes enormes. — Você não pode me demitir! Est-tou aqui há dezesseis anos! H-Hogwarts é a minha c...c-casa!
— Era sua casa... — disse a Profª. Umbridge, e Harry sentiu revolta de ver o prazer que distendia a cara de sapo da Umbridge enquanto apreciava a Trelawney afundar, soluçando descontrolada, sobre um dos malões —... Até uma hora atrás, quando o Ministro da Magia contra-assinou a ordem para sua demissão. Agora, tenha a bondade de se retirar do saguão. Você está nos constrangendo.
Mas ela continuou contemplando, com uma expressão de prazer triunfante, a Profª. Trelawney tremer e gemer, balançando-se para a frente e para trás em seu malão, tomada de paroxismos de pesar. Harry ouviu um soluço abafado à sua esquerda e se virou. Lilá e Parvati choravam baixinho, abraçadas.
Ouviu então passos. A Profª. McGonagall se destacava dos espectadores, marchara direto para Trelawney e estava lhe dando palmadinhas firmes nas costas, ao mesmo tempo que puxava um enorme lenço de dentro das vestes.
— Pronto, pronto, Sibila... se acalme... assoe o nariz no lenço... não é tão ruim quanto você está pensando, agora... você não vai precisar sair de Hogwarts...
— Ah, sério, Profª. McGonagall? — exclamou Umbridge em tom letal, dando alguns passos à frente — E a sua autoridade para afirmar isso é...?
— A minha — disse uma voz grave.
As portas de carvalho da entrada tinham se aberto. Os estudantes de ambos os lados se afastaram depressa, e Dumbledore apareceu na entrada. O que ele andara fazendo lá fora Harry nem podia imaginar, mas havia algo impressionante naquela visão recortada contra a noite estranhamente brumosa. Deixando as portas escancaradas, ele atravessou o círculo de espectadores em direção à trêmula Profª. Trelawney, sentada no malão com o rosto manchado de lágrimas, e à Profª. McGonagall ao seu lado.
— Sua, Prof. Dumbledore? — disse Umbridge com uma risadinha particularmente desagradável — Receio que o senhor não esteja entendendo a situação. Tenho aqui... — ela puxou um pergaminho de dentro das vestes — Uma ordem de demissão assinada por mim e pelo Ministro da Magia. De acordo com o Decreto Educacional Número Vinte e Três, a Alta Inquisidora de Hogwarts tem o poder de inspecionar, colocar sob observação e demitir qualquer professor que ela, isto é, eu, ache que não está desempenhando suas funções conforme exige o Ministério da Magia. Eu decidi que a Profª. Trelawney está abaixo do padrão esperado. Eu a demiti.
Para grande surpresa de Harry, Dumbledore continuou a sorrir. Ele baixou os olhos para a Profª. Trelawney, que continuava a soluçar e a engasgar em cima do malão, e disse:
— A senhora está certa, é claro, Profª. Umbridge. Como Alta Inquisidora, a senhora tem todo o direito de despedir meus professores. No entanto, não tem autoridade para expulsá-los do castelo. Receio — continuou ele com uma leve reverência — Que o poder de fazer isto ainda pertença ao diretor, e é meu desejo que a Profª. Trelawney continue a residir em Hogwarts.
Ao ouvir isso, Trelawney deu uma risadinha tresloucada que mal escondia um soluço.
— Não... não, eu v-vou, Dumbledore! V-vou embora de Hogwarts p-procurar minha fortuna algures...
— Não — afirmou Dumbledore com severidade — É meu desejo que você permaneça, Sibila.
Ele se virou então para a Profª. McGonagall.
— Será que posso lhe pedir para acompanhar Sibila de volta aposentos aos dela?
— É claro — disse McGonagall — Vamos, levante-se, Sibila...
A Profª. Sprout saiu correndo da aglomeração e segurou o outro braço de Trelawney. Juntas, elas passaram por Umbridge e subir escadaria de mármore. O Prof. Flitwick se apressou em segui-las, empunhando a varinha à frente, disse com a vozinha esganiçada “Locomotor malas!”, e a bagagem da Profª. Trelawney se ergueu no ar subiu as escadas atrás dela, o Prof. Flitwick fechou o cortejo.
A Profª. Umbridge estava paralisada, encarando Dumbledore, que continuava a sorrir bondosamente.
— E o que — perguntou ela com um sussurro que ecoou pelo saguão — Você vai fazer com Sibila quando eu nomear uma nova professora de Adivinhação e precisar dos aposentos dela?
— Ah, isso não será problema — disse Dumbledore em tom agradável — Sabe, já encontrei um novo professor de Adivinhação, e prefere ficar no andar térreo.
— Você encontrou...? — exclamou Umbridge estridentemente — Você encontrou? Permita-me lembrar-lhe, Dumbledore, que, de com o Decreto Educacional Número Vinte e Dois...
— O Ministro tem o direito de indicar um candidato adequado se, e apenas se, o diretor não puder encontrar um — citou Dumbledore — Tenho o prazer de lhe informar que desta vez o encontrei. Posso apresentá-lo a você?
E se virou para as portas abertas, pelas quais agora entrava a névoa noturna. Harry ouviu o ruído de cascos. Correu um murmúrio de espanto pelo saguão e os que estavam mais próximos das portas rapidamente recuaram mais, alguns tropeçando na pressa de abrir caminho para o recém-chegado.
Em meio à névoa surgiu um rosto que Harry já vira em uma noite escura e tempestuosa na Floresta Proibida: cabelos louro-prateados e surpreendentes olhos azuis, a cabeça e o tronco de um homem se completavam com o corpo de um cavalo baio.
— Este é Firenze — disse Dumbledore feliz a uma assombrada Umbridge — Creio que você o aprovará.







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