domingo, 3 de julho de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capitulo 10


X

O GABINETEZINHO DAS TULHERIAS




D
eixemos Villefort na estrada de Paris, onde, graças a não olhar a despesas, viaja a toda a velocidade, e penetremos através das duas ou três salas que o precedem no gabinetezinho das Tulherias, de janela arqueada, tão bem conhecido por ter sido o gabinete favorito de Napoleão e de Luís XVIII e ser hoje o de Luís Filipe.
Aí, nesse gabinete, sentado diante de uma mesa de nogueira que trouxera de Hartwell e que, por uma dessas manias familiares às grandes personagens, lhe era especialmente querida, o Rei Luís XVIII escutava bastante superficialmente um homem de cinquenta a cinquenta e dois anos, de cabelos grisalhos, figura aristocrática e aspecto impecável, enquanto anotava à margem um volume de Horácio, edição Gryphius, bastante incorreta apesar de valiosa, e que se prestava muito às sagazes observações filológicas de Sua Majestade.
— Diz então, senhor... — interveio o rei.
— Que estou deveras inquieto, Sir.
— Sim? Ter sonhado com sete vacas gordas e sete vacas magras?
— Não, Sir, pois isso só nos anunciaria sete anos de fertilidade e sete anos de penúria, e, com um rei tão previdente como Vossa Majestade, a penúria não é de temer.
— Então de que outro flagelo se trata, meu caro Blacas?
— Sir, tenho todos os motivos para crer que se está a formar uma tempestade para os lados do Meio-Dia.
— Não, meu caro duque, creio que está mal informado — respondeu Luís XVIII — Pelo contrário, sei positivamente que o tempo está excelente para esses lados.
Como homem de espírito que era, Luís XVIII apreciava o gracejo fácil.
— Sir — voltou à carga o Sr. de Blacas — Quanto mais não fosse para tranqüilizar um fiel servidor, Vossa Majestade não poderia enviar ao Linguadoque, à Provença e ao Delfinado homens de confiança que lhe fizessem um relatório acerca do estado de espírito dessas três províncias?
Conimus surdis — respondeu o rei, continuando a anotar o seu Horácio.
— Sir — perguntou o cortesão rindo, para ter o ar de compreender o hemistíquio do poeta de Venúsia — Vossa Majestade pode ter perfeitamente razão contando com a sensatez da França, mas eu creio não estar completamente enganado receando qualquer tentativa desesperada.
— Da parte de quem?
— Da parte de Bonaparte ou pelo menos do seu partido.
— Meu caro Blacas, impede-me de trabalhar, com os seus terrores — observou o rei.
— E a mim, Sir, Vossa Majestade impede-me de dormir, com a sua confiança.
— Espere, meu caro, espere. Tenho uma nota muito feliz a respeito do “Pastor quum traheret”. Espere e continuará depois.
Fez-se um instante de silêncio, durante o qual Luís XVIII escreveu, com letra tão pequena quanto possível uma nova nota à margem do seu Horácio. Depois dessa nota escrita, disse levantando-se com o ar satisfeito de um homem que julga ter tido uma idéia quando se limitou a comentar a idéia de outro:
— Continue, meu caro duque. Continue, escuto-o.
— Sir — começou Blacas, que por um instante alimentara a esperança de confiscar Villefort em seu proveito — Sou forçado a dizer-lhe que não são de modo algum simples boatos sem fundamento, simples palavras no ar que me preocupam. É um homem bem pensante, merecedor de toda a minha confiança e encarregado por mim de vigiar o Meio-Dia — o duque hesitou ao pronunciar estas palavras — Que chega pela posta para me dizer: “Um grande perigo ameaça o rei.” é por isso que estou aqui, Sir.
“Mala ducis ari domum” — continuou Luís XVIII a anotar.
— Vossa Majestade ordena-me que não volte a insistir neste assunto?
— Não, meu caro duque, mas estenda a mão.
— Qual?
— A que quiser, ali, à esquerda.
— Aqui, Sir?
— Digo-lhe à esquerda e você procura à direita... quero dizer à minha esquerda. Aí... Acertou. Deve encontrar aí o relatório do ministro da Polícia datado de ontem... mas veja, aí está o próprio Sr. Dandré... não foi o Sr. Dandré que disse? — interrompeu-se Luís XVIII, dirigindo-se ao contínuo que, efetivamente, acabava de anunciar o Ministro da Polícia.
— Foi, Sir, o Sr. Barão Dandré — repetiu o contínuo.
— Vem a propósito, barão — prosseguiu Luís XVIII com um sorriso imperceptível — Entre, barão, e conte ao duque o que sabe de mais recente acerca do Sr. Bonaparte. Não nos dissimule nada da situação, por mais grave que seja. Vejamos, a Ilha de Elba é um vulcão do qual vamos ver sair a guerra chamejante e toda eriçada: “Bella, horrida bella?”
O Sr. Dandré balouçou-se muito graciosamente nas costas de uma poltrona em que apoiava as mãos e disse:
— Vossa Majestade dignou-se consultar o relatório de ontem?
— Sim, sim. Mas diga ao duque, que o não consegue encontrar, o que continha o relatório. Descreva-lhe em pormenor o que faz o usurpador na sua ilha.
— Senhor — disse o barão ao duque — Todos os servidores de Sua Majestade devem se regozijar com as notícias que nos chegaram recentemente da Ilha de Elba. Bonaparte...
O Sr. Dandré olhou para Luís XVIII que, ocupado a escrever uma nota, nem sequer levantou a cabeça.
— Bonaparte — continuou o barão — Aborrece-se mortalmente. Passa dias inteiros a ver trabalhar os seus mineiros de Porto Longone.
— E coça-se para se distrair — observou o rei.
— Coça-se? — estranhou o duque — Que quer dizer Vossa Majestade?
— Sim, sim, meu caro duque. Esquece-se de que esse grande homem, esse herói, esse semideus, sofre de uma doença de pele que o devora, o “prurigo”?
— Mas há mais, Sr. Duque — continuou o Ministro da Polícia — Temos quase a certeza de que dentro de pouco tempo o usurpador estará louco.
— Louco?
— Doido varrido. A sua cabeça enfraquece, tão depressa se desfaz em lágrimas como ri a bandeiras despregadas. Outras vezes passa horas à beira-mar a lançar seixos na água, e quando o seixo faz cinco ou seis ricochetes parece tão satisfeito como se tivesse ganho um outro Marengo ou um novo Austerlitz. Decerto concordam que se trata de sinais de loucura.
— Ou de sensatez, Sr. Barão, ou de sensatez — observou Luís XVIII rindo — Era atirando seixos ao mar que se entretinham os grandes capitães da Antiguidade. Vejam Plutarco, na vida de Cipião, o Africano.
O Sr. de Blacas ficou pensativo entre as duas hipóteses. Villefort, que lhe não quisera dizer tudo para que o outro não lhe roubasse o lucro completo do seu segredo, dissera-lhe, no entanto o suficiente para lhe dar graves inquietações.
— Vamos, vamos, Dandré — insistiu Luís XVIII — Blacas ainda não está convencido. Passe à conversão do usurpador.
O Ministro da Polícia inclinou-se.
— A conversão do usurpador! — murmurou o duque, olhando o rei e Dandré, que alternavam como dois pastores de Virgílio — O usurpador converteu-se?
— Absolutamente, meu caro duque.
— Aos bons princípios? Explique isso, barão.
— Aqui tem o que aconteceu, Sr. Duque — principiou o ministro com a maior seriedade do mundo — Ultimamente, Napoleão passou uma revista e como dois ou três dos seus velhos súditos, como lhes chama, manifestassem vontade de regressar a França, autorizou-os e exortou-os a servir o seu bom rei. Foram estas as suas próprias palavras, Sr. Duque, garanto-lhe.
— Então, Blacas, que me diz a isto? — perguntou o rei, triunfante, deixando por um instante de compulsar o calhamaço aberto diante de si.
— Digo, Sir, que ou o Sr. Ministro da Polícia ou eu estamos enganados. Mas como é impossível que seja o Ministro da Polícia, que tem à sua guarda a vida e a honra de Vossa Majestade, é provável que o erro seja meu. No entanto, Sir, no lugar de Vossa Majestade gostaria de interrogar a pessoa de quem lhe falei. Insisto até em que Vossa Majestade lhe conceda essa honra.
— Com muito prazer, duque. Sob os seus auspícios, receberei quem o senhor quiser. Mas quero recebê-lo de armas na mão. Sr. Ministro, não tem um relatório mais recente do que este? Este tem já a data de 20 de Fevereiro e estamos em 3 de Março!
— Não, Sir, mas espero um de um momento para o outro. Saí de manhã e talvez tenha chegado na minha ausência.
— Vá à Prefeitura e se não tiver chegado... bom — continuou, rindo, Luís XVIII — Faça um. Não é assim que resolve o problema?
— Oh, Sir! — protestou o ministro — Graças a Deus, quanto a esse relatório não é preciso inventar nada. Todos os dias as nossas repartições se enchem com as denúncias mais circunstanciadas, provenientes de uma multidão de pobres diabos que esperam um pouco de reconhecimento por serviços que não prestam, mas que desejariam prestar. Confiam no acaso e esperam que um dia qualquer acontecimento inesperado dê uma espécie de realidade às suas predições.
— Pois sim. Vi, senhor — disse Luís XVIII — E lembre-se de que o espero.
— Irei num pé e voltarei noutro, Sir. Dentro de dez minutos estarei de volta.
— E eu, Sir — disse o Sr. de Blacas — Vou buscar o meu mensageiro.
— Espere, espere! — atalhou Luís XVIII — Na verdade, Blacas, parece-me que devo modificar as suas armas: dar-lhe-ei uma águia de asas abertas segurando nas garras uma presa que procura inutilmente escapar-lhe, com esta divisa: “Tenax”.
— Sir, sou todo ouvidos — disse o Sr. de Blacas, que mal continha a sua impaciência.
— Gostaria de consultá-lo acerca desta passagem: “Molli fugiens anhelitu”. Como sabe, trata-se de um veado que foge diante de um lobo. O senhor não é caçador e monteiro-mor? Que lhe parece, a esse duplo título, o “molli anhelitu”.
— Admirável, Sir. Mas o meu mensageiro é como o veado de que Vossa Majestade fala, pois acaba de percorrer 220 léguas em posta, e isso apenas em três dias.
— Já é vontade de apanhar uma estafa e uma carga de preocupações, meu caro duque, quando temos o telégrafo que não gasta mais de três ou quatro horas, e isso sem que o seu fôlego se altere em absolutamente nada.
— Ah, Sir, recompensa muito mal esse pobre rapaz que vem de tão longe e com tanto ardor para dar a Vossa Majestade um aviso útil. Quanto mais não seja em atenção para com o Sr. de Salvieux, que mo recomenda, recebei-o bem, suplico-vos.
— O Sr. de Salvieux, o camareiro do meu irmão?
— O próprio.
— Com efeito, ele está em Marselha.
— É de lá que me escreve.
— Fala-lhe também dessa conspiração?
— Não, mas recomenda-me o Sr. de Villefort e encarrega-me de o introduzir junto de Vossa Majestade.
— Sr. de Villefort? — sobressaltou-se o rei — Esse mensageiro chama-se Sr. de Villefort?
— Chama, sir.
— E é ele que vem de Marselha?
— Em pessoa.
— Porque não me disse imediatamente o seu nome? — inquiriu o rei, deixando transparecer no rosto um princípio de inquietação.
— Sir, julgava esse nome desconhecido de Vossa Majestade.
— De modo nenhum, de modo nenhum, Blacas. Trata-se de um espírito sério, elevado, sobretudo ambicioso. E, evidentemente, você conhece de nome o pai dele.
— O pai dele?
— Sim, Noirtier.
— Noirtier, o girondino? Noirtier, o senador?
— Exatamente.
— E Vossa Majestade empregou o filho de semelhante homem?
— Blacas, meu amigo, você não percebe nada disto. Já lhe disse que Villefort era ambicioso. Para levar a água ao seu moinho, Villefort sacrificará tudo, mesmo o pai.
— Então, Sir, devo mandá-lo entrar?
— Imediatamente, duque. Onde está ele?
— Deve esperar-me lá em baixo, na minha carruagem.
— Vá buscá-lo.
— Sem demora.
O duque saiu com a vivacidade de um rapaz, o ardor do seu realismo sincero dava-lhe vinte anos.
Luís XVIII ficou só, passando os olhos pelo seu Horácio entreaberto e murmurando: “Justum et tenacem propositi virum”.
O Sr. de Blacas tornou a subir com a mesma rapidez com que descera, mas na antecâmara foi obrigado a invocar a autoridade do rei. A sobrecasaca poeirenta de Villefort, todo o seu traje, onde nada estava de acordo com a apresentação de corte, ferira as suas susceptibilidades do Sr. de Brézé, que ficou espantado com a pretensão daquele jovem de aparecer assim vestido diante do rei. Mas o duque arredou todas as dificuldades com uma única palavra: “Ordem de Sua Majestade”. E apesar das observações que continuou a fazer o mestre de cerimônias, para honrar os princípios, Villefort foi introduzido.
O rei estava sentado no mesmo lugar onde o deixara o duque. Ao abrir a porta, Villefort encontrou-se precisamente diante dele. O primeiro impulso do jovem magistrado foi deter-se.
— Entre, Sr. de Villefort, entre — disse o rei.
Villefort cumprimentou, deu alguns passos em frente e esperou que o rei o interrogasse.
— Sr. de Villefort — continuou Luís XVIII — O duque de Blacas pretende que o senhor tem qualquer coisa importante a dizer-nos.
— Sir, o Sr. Duque tem razão e espero que Vossa Majestade seja o primeiro a reconhecê-lo.
— Antes de mais nada, senhor, o mal é assim tão grande, na sua opinião, como me querem fazer crer?
— Sir, julgo-o instante, mas graças à diligência que fiz, julgo não ser irreparável.
— Fale à vontade, senhor — disse o rei, que começava ele próprio a ceder à emoção que perturbava o rosto do Sr. de Blacas e alterara a voz de Villefort — Fale e sobretudo comece pelo princípio: gosto de ordem em todas as coisas.
— Sir — disse Villefort — Apresentarei a Vossa Majestade um relatório fiel, mas suplico-lhe me desculpe se a perturbação que me domina lançar alguma obscuridade nas minhas palavras.
Uma olhadela deitada ao rei depois deste exórdio insinuante assegurou a Villefort a benevolência de seu augusto ouvinte. Continuou:
— Sir, dirigi-me o mais rapidamente possível para Paris a fim de informar Vossa Majestade de que no exercício das minhas funções descobri não uma dessas conspirações vulgares e sem consequências, como as que se tramam todos os dias nas últimas camadas do povo e do Exército, mas sim uma verdadeira conspiração, uma tempestade que ameaça nada menos do que o trono de Vossa Majestade. Sir, o usurpador armou três navios. Medita qualquer projeto, talvez insensato, mas também terrível, por mais insensato que seja. A esta hora deve ter deixado a Ilha de Elba. Para ir aonde? Ignoro, mas com certeza para tentar um desembarque, quer em Nápoles, quer nas costas da Toscana, quer mesmo na França. Vossa Majestade não ignora que o soberano da Ilha de Elba conservou relações com a Itália e com a França.
— Sim, senhor, bem o sei — declarou o rei, muito impressionado — E ainda recentemente me avisaram de que se realizavam reuniões bonapartistas na Rua de Saint-Jacques. Mas continue, peço-lhe. Como soube desses pormenores?
— Sir, são o resultado de um interrogatório a que submeti um homem de Marselha que vigiava havia muito tempo e que mandei prender no próprio dia da minha partida. Esse homem, marinheiro turbulento e de um bonapartismo que se me tornou suspeito, esteve secretamente na Ilha de Elba, onde falou com o grande marechal, que o encarregou de uma missão verbal para um bonapartista de Paris cujo nome não consegui obrigá-lo a dizer. Mas a missão consistia em encarregar esse bonapartista de preparar os espíritos para um regresso, note que estou reproduzindo o interrogatório, sir, para um regresso que não pode deixar de estar próximo.
— E onde está esse homem? — perguntou Luís XVIII.
— Na prisão, Sir.
— E o caso pareceu-lhe grave?
— Tão grave, Sir, que tendo-me surpreendido no meio de uma festa de família, no próprio dia do meu noivado, deixei tudo, noiva e amigos, adiei tudo para outra altura, a fim de vir depor aos pés de Vossa Majestade, juntamente com os meus temores, a certeza da minha dedicação.
— De fato — disse Luís XVIII — Não havia um projeto de união entre o senhor e Mademoiselle de Saint-Méran?
— A filha de um dos mais fiéis servidores de Vossa Majestade.
— Sim, sim. Mas voltemos a essa conspiração, Sr. de Villefort.
— Sir, receio que seja mais do que uma conspiração...
— Nestes tempos — disse o rei, sorrindo — Uma conspiração é coisa fácil de planejar, mas mais difícil de conduzir ao seu fim, exatamente porque recolocados há pouco tempo no trono dos nossos antepassados, temos os olhos abertos ao mesmo tempo para o passado, para o presente e para o futuro. Há dez meses que os meus ministros redobram de vigilância para que o litoral do Mediterrâneo esteja bem guardado. Se Bonaparte desembarcasse em Nápoles, a coligação em peso estaria em pé de guerra antes dele chegar sequer ao Piombino. Se desembarcasse na Toscana, poria o pé em território inimigo. Se desembarcasse na França, será com um punhado de homens, e o venceremos facilmente, execrado como é pela população. Tranquilize-se, portanto, senhor. Mas nem por isso conte menos com o nosso reconhecimento real.
— Ah, cá está o Sr. Dandré! — exclamou o duque de Blacas.
Nesta altura apareceu, com efeito, no limiar da porta o Sr. Ministro da Polícia, pálido, trêmulo, e cujo olhar vacilava como se tivesse sido vitima de um deslumbramento.
Villefort deu um passo para se retirar, mas um aperto de mão do Sr. de Blacas reteve-o.





continua...




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sábado, 2 de julho de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capitulo 9


IX

A FESTA DE NOIVADO




C
omo dissemos, Villefort retomara o caminho da praça Grand-Cours e quando entrou em casa da Sra. de Saint-Méran encontrou os convivas, que deixara à mesa, tomando o café na sala. Renée esperava-o com uma impaciência que era compartilhada por todo o resto da sociedade. Foi, pois, acolhido com uma exclamação geral.
— Então, cortador de cabeças, sustentáculo do Estado, Bruto monárquico, que aconteceu? — perguntou um — Vamos, diga!
— Estamos ameaçados por um novo regime de Terror? — indagou outro.
— O Papão da Córsega saiu da sua caverna? — inquiriu terceiro.
— Sra. Marquesa — disse Villefort, aproximando-se da sua futura sogra — Suplico-lhe, me desculpe de ser obrigado a deixá-la assim... Sr. Marquês, poderei ter a honra de lhe dizer duas palavras em particular?
— Oh! Quer dizer que o caso é realmente grave? — perguntou a marquesa, notando a sombra que obscurecia a testa de Villefort.
— Tão grave que sou obrigado a pedir-lhes licença para me ausentar uns dias. Por aqui podem ver — continuou, virando-se para Renée — Se o caso é ou não grave.
— Parte, senhor? — perguntou Renée, incapaz de ocultar o abalo que lhe causava aquela noticia inesperada.
— Infelizmente, menina — respondeu Villefort — É preciso.
— E aonde vai? — perguntou a marquesa.
— É segredo de justiça, minha senhora. No entanto, se alguém aqui tem alguma coisa para Paris, um dos meus amigos partirá esta noite e se encarregará disso com prazer.
Todos se entreolharam.
— Pediu-me que o ouvisse por um momento? — lembrou o Marquês.
— Pedi. Passemos ao seu gabinete, por favor.
O Marquês tomou o braço de Villefort e saiu com ele.
— Então, que se passa? — perguntou quando chegaram ao gabinete — Vamos, fale.
— Coisas que creio da mais alta gravidade e que exigem a minha partida neste instante para Paris. Agora, Marquês, desculpe a indiscreta brutalidade da pergunta: possui títulos do Estado?
— Toda a minha fortuna está em títulos da dívida pública; seiscentos a setecentos mil francos, pouco mais ou menos.
— Venda-os Marquês. Venda-os ou ficará arruinado.
— Mas como quer que os venda daqui?
— Tem um corretor, não tem?
— Tenho.
— Dê-me uma carta para ele, e que venda sem perda de um minuto, sem perda de um segundo. Poderei chegar até demasiado tarde.
— Demônio, nesse caso não percamos tempo! — exclamou o Marquês.
Sentou-se à mesa e escreveu uma carta ao seu corretor na qual lhe ordenava que vendesse a todo o custo.
— Agora que tenho esta carta — disse Villefort, guardando-a cuidadosamente na carteira — Preciso de outra.
— Para quem?
— Para o rei.
— Para o rei?
— Sim.
— Mas não me atrevo a escrever assim a Sua Majestade.
— Por isso, não é ao senhor que a peço, mas encarrego-o de a pedir ao Sr. de Salvieux. É necessário que me dê uma carta com o auxílio da qual possa penetrar até junto de Sua Majestade sem ser submetido a todas as formalidades de pedido de audiência que me podem fazer perder um tempo precioso.
— Mas não tem o Ministro da Justiça, que entra quando quer nas Tulherias e por intermédio do qual poderá, de dia e de noite, chegar junto do rei?
— Tenho, sem dúvida, mas para quê partilhar com outro o mérito da notícia de que sou portador? Compreende o que quero dizer? O ministro me relegaria muito naturalmente para segundo plano e me privaria de todo o proveito no caso. Só lhe digo uma coisa, Marquês: a minha carreira estará assegurada se conseguir ser o primeiro a chegar às Tulherias, porque prestarei ao rei um serviço que lhe não será permitido esquecer.
— Nesse caso, meu caro, vá fazer as malas. Entretanto, chamarei Salvieux e lhe pedirei que escreva a carta que deverá servir-lhe de salvo-conduto.
— Bom, não perca tempo, pois dentro de um quarto de hora tenho de tomar a sege de posta.
— Mande parar a carruagem diante da porta.
— Sem dúvida nenhuma... desculpar-me-á junto da Marquesa, não é verdade? E também junto de Mademoiselle de Saint-Méran, que deixo num dia como este com bem profundo pesar.
— Encontrará ambas no meu gabinete e poderá despedir-se delas.
— Mil vezes obrigado. Trate da minha carta.
O Marquês tocou. Apareceu um lacaio.
— Diga ao Conde Salvieux que o espero... vá agora — continuou o Marquês dirigindo-se a Villefort.
— Bom, é só o tempo de ir e vir.
E Villefort saiu correndo. Mas à porta pensou que um Substituto do Procurador Régio que fosse visto caminhando em passos precipitados se arriscaria a perturbar o repouso de toda a cidade. Retomou, portanto o seu passo normal já dono de si, sua porta distinguiu na sombra como que um branco fantasma que o esperasse de pé e imóvel.
Era a bela moça catalã que, não tendo notícias de Edmond, esgueirara-se ao cair da noite do Pharo para vir saber pessoalmente o motivo da prisão do seu amado.
Ao aproximar-se Villefort, afastou-se da parede a que se encostava e veio cortar-lhe o caminho. Dantés falara da noiva ao substituto e Mercedes não teve necessidade de se apresentar para que Villefort a reconhecesse. Ficou surpreendido com a dignidade daquela mulher e quando ela lhe perguntou que era feito do seu amado pareceu-lhe ser ele o acusado e ela o juiz.
— O homem a que se refere — declarou Villefort, bruscamente — É um grande criminoso e não posso fazer nada por ele, menina.
Mercedes deixou escapar um soluço e como Villefort procurasse seguir o seu caminho ela deteve-o segunda vez.
— Mas ao menos onde está, para que me possa informar se se encontra morto ou vivo? — perguntou.
— Não sei, já me não pertence — respondeu Villefort.
E perturbado por aquele olhar meigo e por aquela atitude suplicante, afastou Mercedes, entrou e fechou rapidamente a porta, como que para deixar do lado de fora aquela dor que lhe traziam.
Mas a dor não se deixou repelir assim. Como o dado mortal de que fala Virgílio, o homem ferido levou-a consigo. Villefort entrou, fechou a porta, mas quando chegou à sala as pernas fraquejaram-lhe por seu turno. Soltou um suspiro que parecia um soluço e deixou-se cair numa poltrona.
Então, no fundo daquele coração doente nasceu o primeiro germe de uma úlcera mortal. Aquele homem que sacrificava à sua ambição, aquele inocente que pagava pelo seu pai culpado, apareceu-lhe pálido e ameaçador, dando a mão à noiva, pálida como ele, e arrastando atrás de si o remorso, não o que faz saltar o doente como os furiosos da fatalidade antiga, mas sim esse tinido abafado e doloroso que em certos momentos atinge o coração e o deixa contuso, ao recordar uma ação passada, contusão cujas dores lancinantes cavam um mal que se vai aprofundando até à morte.
Então, houve na alma daquele homem ainda um instante de hesitação. Já diversas vezes pedira, e isso sem outra emoção do que a da luta do juiz com o acusado, a pena de morte contra os réus, e esses réus, executados graças à eloqüência avassaladora com que dominara os juízes ou o júri, nem sequer lhe tinham deixado uma sombra na fronte, porque eram culpados, ou pelo menos Villefort assim os considerava.
Mas desta vez o caso era muito diferente: acabava de aplicar a um inocente uma pena de prisão perpétua, a um inocente que ia ser feliz e a quem roubava não só a liberdade, mas também a felicidade. Desta vez já não era juiz, era carrasco.
Pensando nisto, sentia a palpitação abafada que descrevemos, e que até ali desconhecera, ecoar-lhe no fundo do coração e encher-lhe o peito de vagas apreensões. É assim, através do violento sofrimento instintivo, que o ferido é avisado e jamais aproxima sem tremer o dedo da ferida aberta e sangrenta antes de ela fechar.
Mas a ferida que recebera Villefort era daquelas que não fecham, ou que só fecham para reabrir mais sangrentas e dolorosas do que anteriormente.
Se naquele momento a suave voz de Renée lhe tivesse soado aos ouvidos pedindo-lhe compaixão, se a bela Mercedes tivesse entrado e lhe tivesse dito: “Em nome de Deus que nos vê e nos julga, restitua-me o meu noivo”; sim, aquela fronte que as circunstâncias inclinavam até meio teria se curvado por completo e as mãos geladas daquele homem teriam sem dúvida, com risco de tudo o que daí pudesse resultar para ele, assinado o mandado de soltura de Dantés. Mas nenhuma voz murmurou no silêncio e a porta só se abriu para entrar o criado de quarto de Villefort, que veio dizer que os cavalos de posta já estavam atrelados à cabeça de viagem.
Villefort levantou-se, ou antes, saltou como um homem que vence uma luta íntima, correu para a mesa, meteu nas algibeiras todo o ouro que se encontrava numa gaveta, andou um instante sobressaltado, pelo aposento, com a mão na testa e proferindo palavras sem sentido, e por fim, sentindo que o criado acabava de lhe pôr a capa pelos ombros, saiu, meteu-se na carruagem e ordenou com voz breve ao cocheiro que seguisse para a Rua do Grand-Cours, para casa do Sr. de Saint-Méran.
O pobre Dantés estava condenado.
Como o Sr. de Saint-Méran lhe prometera, Villefort encontrou a marquesa e Renée no gabinete. Ao ver Renée, o jovem estremeceu, pois julgou que ela lhe fosse pedir de novo a liberdade de Dantés. Mas, ai de nós, devemos confessá-lo para vergonha do nosso egoísmo, a linda moça estava preocupada com uma coisa: a partida de Villefort. Amava Villefort e Villefort partia no momento de se tornar seu marido. Villefort não podia dizer quando voltaria e Renée, em vez de lamentar Dantés, amaldiçoou o homem que devido ao seu crime a separava do amado.
E Mercedes?
A pobre Mercedes encontrara Fernand, que a seguira, à esquina da Rua de Loge, regressara aos Catalães e, com a morte na alma, desesperada, atirara-se para cima da cama. Fernand ajoelhara diante dessa cama e, apertando a mão gelada de Mercedes, que esta não se lembrava de retirar, cobria-lha de beijos ardentes que Mercedes nem sequer sentia. A jovem passou a noite assim. O candeeiro apagou-se quando o azeite se acabou, mas Mercedes não deu mais pela obscuridade do que dera pela luz e o dia voltou sem que desse por ele. A dor pusera-lhe diante dos olhos uma venda que só a deixava ver Edmond.
— Ah, está aí!... — disse por fim, virando-se para o lado de Fernand.
— Desde ontem que te não deixo — respondeu Fernand, com um suspiro doloroso.
O Sr. Morrel dera-se por vencido. Soubera que depois do seu interrogatório Dantés fora levado para a prisão. Correra então a casa de todos os seus amigos, apresentara-se em casa das pessoas de Marselha susceptíveis de possuírem influência, mas já se espalhara o boato de que o rapaz fora preso como agente bonapartista, e como nessa época os mais otimistas consideravam um sonho insensato qualquer tentativa de Napoleão para recuperar o trono, só encontrara por toda a parte frieza, medo ou repúdio e regressara a casa desesperado e reconhecendo que a situação era grave e ninguém podia fazer nada.
Pela sua parte, Caderousse estava deveras inquieto e atormentado. Em vez de sair, como fizera o Sr. Morrel, em vez de tentar qualquer coisa a favor de Dantés, embora, aliás, nada pudesse fazer por ele, fechara-se em casa com duas garrafas de cássis e procurara afogar a inquietação na embriaguez. Mas no estado de espírito em que se encontrava duas garrafas eram pouquíssimo para o porem inconsciente. Ficara, portanto, demasiado ébrio para ir buscar mais vinho e insuficientemente embriagado para que a embriaguez lhe extinguisse as recordações, apoiado nos cotovelos diante das duas garrafas vazias postas em cima de uma mesa coxa e vendo dançar, à luz da vela de pavio comprido, todos os espectros que Hoffmann[1] espalhou pelos seus manuscritos úmidos de ponche como uma poalha negra e fantástica.

[1] E.T.A. Hoffmann (1776-1822), foi um escritor, compositor, caricaturista e pintor alemão. É um dos maiores nomes da literatura fantástica mundial.

Só Danglars não estava atormentado nem inquieto. Danglars estava até alegre, pois vingara-se de um inimigo e assegurara a bordo do Pharaon o lugar que temia perder. Danglars era um desses homens calculistas que nascem com uma pena atrás da orelha e um tinteiro no lugar do coração. Neste mundo tudo era para ele subtração ou multiplicação, e um número parecia-lhe muito mais precioso do que um homem, quando esse número podia aumentar o total que o homem podia diminuir. Portanto, Danglars deitara-se à hora habitual e dormia tranquilamente.
Depois de receber a carta do Sr. Salvieux, beijar Renée nas duas faces, beijar a mão da Sra. de Saint-Méran e apertar a do marquês, Villefort corria pela Estrada de Aix.
O velho Dantés morria de dor e inquietação.
Quanto a Edmond, sabemos o que lhe aconteceu.





continua...




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sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capitulo 8


VIII

O CASTELO D’IF




A
o atravessar a antecâmara, o comissário de polícia fez sinal a dois guardas, os quais se colocaram um à direita e o outro à esquerda da Dantés. Abriu-se uma porta que punha em comunicação os aposentos do Procurador Régio com o Palácio da Justiça e seguiram durante algum tempo por um desses grandes corredores sombrios que arrepiam aqueles que os percorrem, mesmo quando não têm nenhum motivo para se arrepiar.
Assim como os aposentos de Villefort comunicavam com o Palácio da Justiça, também o Palácio da Justiça comunicava com a prisão, edifício sombrio contíguo ao palácio e que olhava curiosamente, com todas as suas aberturas medonhas, o Campanário dos Accouies que se erguia diante dele.
Depois de várias voltas, Dantés viu o corredor por onde seguia desembocar numa porta com um postigo de ferro. O comissário de polícia bateu com uma aldrava de ferro três pancadas que soaram para Dantés como se fossem desferidas no seu próprio coração. A porta abriu-se e os dois guardas empurraram levemente o prisioneiro, que hesitou novamente. Dantés transpôs o temível limiar e a porta tornou a fechar-se atrás dele. Respirava-se ali outro ar, um ar mefítico e pesado: estava numa prisão.
Conduziram-no a um quarto bastante limpo, mas gradeado e aferrolhado. No entanto, o aspecto do alojamento não o assustou. Aliás, as palavras do Substituto do Procurador Régio, proferidas numa voz que parecera a Dantés tão cheia de interesse, ecoavam-lhe aos ouvidos como uma suave promessa de esperança.
Eram já quatro horas quando Dantés fora conduzido à sua cela. Estava-se, como já dissemos, em 1 de Março.
O prisioneiro não tardou a encontrar-se às escuras.
Então o sentido do ouvido substituiu nele o sentido da vista, que acabava de perder. Ao menor ruído que chegava até ele, convencido de que o vinham pôr em liberdade, levantava-se vivamente e dava um passo para a porta; mas em breve o ruído ia morrendo noutra direção e Dantés tornava a deixar-se cair no banco.
Por fim, cerca das dez horas da noite, quanto Dantés começava a perder a esperança, ouviu-se novo ruído que lhe pareceu dirigir-se para a sua cela. Com efeito, soaram passos no corredor que se detiveram diante da sua porta. Uma chave girou na fechadura, os ferrolhos rangeram e a maciça barreira de carvalho abriu-se e deixou entrar de súbito na cela a luz deslumbrante de dois archotes. Ao clarão desses dois archotes, Dantés viu brilhar os sabres e os mosquetões de quatro guardas. Dera dois passos em frente, mas ficou imóvel no seu lugar ao ver aquele aumento de forças.
— Vêm buscar-me? — perguntou Dantés.
— Viemos — respondeu um dos guardas.
— Da parte do Sr. Substituto do Procurador Régio?
— Creio que sim.
— Bom, estou pronto a acompanhá-los — declarou Dantés.
A convicção de que vinham buscá-lo da parte do Sr. de Villefort tirava todo o receio do infeliz rapaz. Avançou, pois, de espírito calmo e andar desembaraçado e colocou-se ele próprio no meio da escolta.
À porta esperava uma carruagem com o cocheiro no seu lugar e um policial sentado ao lado do cocheiro.
— É para mim que esta carruagem está aqui? — perguntou Dantés.
— É para você — respondeu um dos guardas — Suba.
Dantés quis fazer algumas observações, mas a portinhola abriu-se e sentiu-se empurrado. Não havia possibilidade nem sequer intenção de opor resistência, pelo que se encontrou num instante sentado ao fundo da carruagem, entre dois guardas. Os outros dois sentaram-se no banquinho fronteiro e o pesado veiculo começou a rodar com um ruído sinistro.
O prisioneiro olhou para as janelas; eram gradeadas. Mudara apenas de prisão. A única diferença era aquele rodar e transportá-lo para destino ignorado. Através dos varões apertados a ponto de mal poder passar a mão entre eles, Dantés reconheceu, no entanto, que percorriam a Rua Caisserie e que pela Rua Tamaris desciam para o cais. Em breve distinguiu através das suas grades e das do monumento junto do qual se encontrava as luzes da Consigne.
A carruagem parou e o policial desceu e aproximou-se da casa da guarda. Saiu uma dúzia de soldados que formaram alas. Ao clarão dos candeeiros do cais, Dantés viu reluzirem-lhes as espingardas.
“Será por minha causa que se exibe semelhante força militar?”, perguntou Dantés a si mesmo.
Ao abrir a portinhola fechada à chave, o policial respondeu a esta interrogação, embora sem pronunciar uma única palavra, pois Dantés viu entre as duas alas de soldados um caminho aberto para ele, da carruagem ao porto.
Os dois guardas que estavam sentados no banco da frente foram os primeiros a descer, depois fizeram-no descer a ele e por fim seguiram-no os que se sentavam a seu lado. Encaminharam-se para um escaler que um marinheiro da alfândega mantinha junto do cais, seguro por uma corrente. Os soldados viram passar Dantés com ar de curiosidade aparvalhada. Instalaram-no num instante à popa do barco, sempre no meio de quatro guardas, enquanto o policial se mantinha à proa. Um empurrão violento afastou o barco da muralha e quatro remadores remaram vigorosamente na direção de Pilon. A um grito soltado do barco a corrente que fechava o porto desceu e Dantés encontrou-se no chamado Frioul, isto é, fora do porto.
O primeiro impulso do prisioneiro ao ver-se ao ar livre fora um impulso de alegria. O ar era quase a liberdade. Respirou, pois, a plenos pulmões aquela brisa fresca, que trazia nas asas todos os aromas desconhecidos da noite e do mar. Não tardou, porém, a soltar um suspiro ao passar diante da Réserve, onde fora tão feliz naquela mesma manhã, durante a hora que precedera a sua prisão. Através de duas janelas abertas chegava até ele o barulho alegre de um baile.
Dantés juntou as mãos, ergueu os olhos ao céu e rezou.
O escaler continuava a sua rota. Ultrapassara a Caveira e estava defronte da enseada do Pharo. Ia contornar a bateria, o que era uma manobra incompreensível para Dantés.
— Para onde me levam? — perguntou a um dos guardas.
— Em breve saberá.
— Mas então...
— Estamos proibidos de lhe dar qualquer explicação.
Dantés era meio soldado. Interrogar subordinados aos quais fora proibido responder pareceu-lhe uma coisa absurda e por isso calou-se.
Então, acudiram-lhe ao espírito os pensamentos mais estranhos. Como se não podia fazer grande viagem em semelhante barco e não havia nenhum navio ancorado do lado para onde se dirigiam, pensou que o iam desembarcar num ponto afastado da costa e dizer-lhe que estava livre. Não se encontrava amarrado nem tinham feito qualquer tentativa para o algemar, o que lhe parecia de bom augúrio. Aliás, não lhe dissera o Substituto, que tão bom fora para ele, que contanto que não pronunciasse o nome fatal de Noirtier nada tinha a temer? Não destruíra Villefort, na sua presença, aquela carta perigosa, única prova existente contra ele?
Esperou, pois, mudo e pensativo, procurando devassar com os olhos de marinheiro conhecedor das trevas e habituado ao espaço a escuridão da noite.
Tinham deixado à direita a Ilha Ratonneau, onde ardia um farol, e, seguindo quase ao longo da costa, haviam chegado à altura da enseada dos Catalães. Ali, os olhares do prisioneiro tornaram-se mais perscrutadores, era ali que estava Mercedes, e parecia-lhe a cada instante ver desenhar-se na margem sombria a forma vaga e indecisa de uma mulher. Porque não diria um pressentimento a Mercedes que o seu apaixonado passava a trezentos passos dela?
Brilhava uma única luz nos Catalães. Observando a posição dessa luz, Dantés reconheceu que ela iluminava o quarto da noiva. Mercedes era a única que velava em toda a coloniazinha. Se gritasse com força, o jovem poderia fazer-se ouvir pela noiva.
Uma vergonha injustificada conteve-o. Que diriam os homens que o olhavam se o ouvissem gritar como um insensato? Ficou, portanto mudo e com os olhos cravados naquela luz.
Entretanto, o barco continuava a sua rota. Mas o prisioneiro não pensava no escaler, pensava em Mercedes. Um acidente de terreno fez desaparecer a luz. Dantés virou-se e verificou que o barco se dirigia para o largo.
Enquanto olhava, absorto nos seus próprios pensamentos, tinham substituído os remos por velas e o barco avançava agora impelido pelo vento.
Apesar da repugnância que Dantés experimentava em dirigir ao guarda novas perguntas, aproximou-se dele e disse-lhe, pegando-lhe na mão:
— Camarada, em nome da sua consciência e da sua qualidade de soldado peço-lhe que tenha compaixão de mim e me responda. Sou o Comandante Dantés, bom e leal francês, apesar de acusado de não sei que traição. Para onde me levam? Diga-me e, palavra de marinheiro, cumprirei o meu dever e resignar-me-ei com a minha sorte.
O guarda coçou a orelha e olhou para o seu camarada. Este fez um gesto que significava pouco mais ou menos: “Parece-me que no ponto em que estamos não há inconveniente”. O outro virou-se então para Dantés e disse-lhe:
— O senhor é marselhês e marinheiro e ainda nos pergunta para onde vamos?
— Pergunto porque, pela minha honra, ignoro-o.
— Nem, desconfia?
— De modo nenhum.
— Não é possível.
— Juro-lhe pelo que tenho de mais sagrado no mundo. Responda-me, por piedade!
— Mas as ordens?
— As ordens não o proíbem de me informar do que saberei dentro de dez minutos, de meia hora ou talvez de uma hora. Apenas me poupará, entretanto, séculos de incerteza. Peço-lhe como se fosse meu amigo. Repare, não pretendo revoltar-me nem fugir. De resto, não posso. Para onde vamos?
— A menos que tenha uma venda nos olhos ou que nunca tenha saído do porto de Marselha, deve, no entanto, adivinhar para onde vai.
— Não.
— Nesse caso, olhe à sua volta.
Dantés levantou-se, olhou naturalmente para o ponto para onde parecia dirigir-se o barco e, cem toesas à sua frente, viu erguer-se a rocha negra e escarpada em que se elevava, com uma superfetação do sílex, o sombrio Castelo d’If .
Aquela forma estranha, aquela prisão envolta em tão profundo terror, aquela fortaleza que havia trezentos anos impunha as suas lúgubres tradições a Marselha, aparecendo assim de repente a Dantés, que não pensava nela, produziu-lhe o efeito que produz ao condenado à morte o aspecto do cadafalso.
— Ah, meu Deus, o Castelo d’If ! — exclamou — E que vamos fazer lá?
O guarda sorriu.
— Vão-me encarcerar lá? — continuou Dantés — Mas o Castelo d’If é uma prisão de Estado destinada apenas aos grandes criminosos políticos. Ora, eu não cometi nenhum crime. No Castelo d’If existem, porventura, juízes de instrução ou quaisquer outros magistrados?
— Suponho que só existe um governador, carcereiros, uma guarnição e bons muros. Vamos, vamos, amigo, não mostre tanto espanto; porque na verdade me faria supor que retribui a minha condescendência troçando de mim.
Dantés apertou a mão do guarda como se lha quisesse partir.
— Pretende — insistiu — Que me conduzem ao Castelo d’If para me encerrar?
— É provável — respondeu o guarda — Seja como for, camarada, é inútil apertar-me a mão com tanta força.
— Sem mais investigações, sem mais formalidades? — perguntou o jovem.
— As formalidades estão preenchidas e as investigações concluídas.
— Assim, apesar da promessa do Sr. de Villefort?...
— Não sei se o Sr. de Villefort lhe fez alguma promessa — perguntou o guarda — Mas o que sei é que vamos para o Castelo d’If. Eh, lá, que está fazendo?! A mim, camaradas, a mim!
Num gesto rápido como um relâmpago, mas que, no entanto fora previsto pelo olhar experiente do guarda, Dantés quisera lançar-se ao mar. Mas quatro mãos vigorosas seguraram-no no momento em que os seus pés deixavam o fundo do barco e fizeram-no cair dentro dele bramindo de raiva.
— Ora aí está! — exclamou o guarda, pondo-lhe um joelho no peito — Ora aí está como cumpre a sua palavra de marinheiro. Isso é o que recebemos por acreditar em gente de fala mansa... pois agora, meu caro amigo, se fizer um movimento, um só, meto-lhe uma bala na cabeça. Não cumpri a minha primeira ordem, mas garanto-lhe que cumprirei a segunda.
E baixou efetivamente a carabina na direção de Dantés, que sentiu encostar-lhe a ponta do cano à têmpora.
Por um instante sentiu a tentação de fazer o movimento proibido e de acabar assim, violentamente, com a desgraça inesperada que se abatera sobre ele e o tomara de súbito nas suas garras de abutre. Mas precisamente por essa desgraça ser inesperada, Dantés pensou que não podia ser duradoura. Depois, acudiram-lhe ao espírito as promessas do Sr. de Villefort; por último, forçoso é dizê-lo, a morte no fundo de um barco, dada pela mão de um guarda, pareceu-lhe indecorosa e indigna.
Deixou-se cair no fundo do barco, soltando um bramido de raiva e mordendo as mãos com furor. Quase no mesmo instante um choque violento sacudiu o escaler. Um barqueiro saltou para a rocha que a proa da embarcação acabava de tocar, uma corda chiou ao desenrolar-se à volta de um moitão e Dantés compreendeu que tinham chegado e amarravam o barco.
Com efeito, os guardas, que o seguravam ao mesmo tempo pelos braços e pela gola da veste, obrigaram-no a levantar-se e a desembarcar e arrastaram-no para os degraus que subiam até à porta da cidadela, enquanto o policial, armado com um mosquetão de baioneta calada, seguia atrás dele.
Aliás, Dantés não esboçou sequer uma resistência que seria inútil: a sua lentidão devia-se mais à inércia do que à oposição. Estava aturdido e cambaleava como um ébrio. Viu de novo os soldados escalonarem-se nos taludes íngremes, sentiu os degraus obrigarem-no a levantar os pés e notou que transpunha uma porta e que essa porta se fechava atrás de si, mas tudo isto maquinalmente, como que através de um nevoeiro, sem nada distinguir de positivo. Nem sequer via o mar, essa dor imensa dos prisioneiros, que olham o espaço com o sentimento terrível de que são impotentes para o transpor.
Houve um breve alto, durante o qual procurou concentrar idéias. Olhou à sua volta: estava num pátio quadrado, formado por quatro altas muralhas. Ouvia-se o passo lento e regular das sentinelas e todas as vezes que passavam diante dos dois ou três reflexos que projetavam nas muralhas o clarão de duas ou três luzes que brilhavam no interior do castelo via-se cintilar o cano das suas espingardas.
Esperaram ali dez minutos, pouco mais ou menos. Certos de que Dantés já não podia fugir, os guardas tinham-no largado. Pareciam esperar ordens. Essas ordens chegaram.
— Onde está o prisioneiro? — perguntou uma voz.
— Está aqui — responderam os guardas.
— Que venha comigo; vou conduzi-lo ao seu alojamento.
— Vá — disseram os guardas, empurrando Dantés.
O prisioneiro seguiu o indivíduo, que o conduziu efetivamente a uma sala quase subterrânea cujas paredes nuas e suadas pareciam impregnadas de um vapor de lágrimas. Uma espécie de lampião pousado num banco e cuja mecha nadava numa gordura fétida iluminava as paredes luzidias da horrível sala e mostrava a Dantés o seu acompanhante, espécie de carcereiro subalterno, mal vestido e de cara desagradável.
— Aqui tem o seu quarto para esta noite — informou — É tarde e o Sr. Governador está deitado. Amanhã, quando acordar e tomar conhecimento das ordens que lhe dizem respeito, talvez o mude de instalação. Entretanto, aqui tem pão. Há água naquela bilha e palha ali no canto. É tudo o que um prisioneiro pode desejar. Boa noite!
E antes de Dantés pensar em abrir a boca para lhe responder, antes de ver onde o carcereiro pousava o pão, antes de se dar conta do lugar onde estava a bilha e antes de volver os olhos para o canto onde se encontrava a palha destinada a servir-lhe de cama, o carcereiro pegou no lampião, saiu, fechou a porta e privou o prisioneiro da luz baça que lhe mostrara como que ao clarão de um relâmpago as paredes encharcadas da sua prisão.
Encontrou-se então sozinho no meio das trevas e do silêncio, tão mudo e tão sombrio como as abóbadas cujo frio glacial sentia descer sobre a testa escaldante.
Quando os primeiros raios da alvorada trouxeram um pouco de claridade àquele antro, o carcereiro voltou com a ordem de deixar o prisioneiro onde se encontrava. Dantés nem sequer mudara de lugar. Uma mão de ferro parecia tê-lo pregado no mesmo local onde na véspera se detivera. Apenas o seu olhar profundo se ocultava debaixo de um inchaço causado pelo vapor úmido das suas lágrimas. Estava imóvel e olhava para o chão.
Passara assim toda a noite de pé e sem dormir um só instante. O carcereiro aproximou-se dele, andou à sua volta, mas Dantés não pareceu vê-lo. Bateu-lhe no ombro, Dantés estremeceu e abanou a cabeça.
— Não dormiu? — perguntou-lhe o carcereiro.
— Não sei — respondeu Dantés.
O carcereiro olhou-o com espanto.
— Não tem fome? — continuou.
— Não sei — respondeu novamente Dantés.
— Quer alguma coisa?
— Queria ver o governador.
O carcereiro encolheu os ombros e saiu.
Dantés seguiu-o com a vista, estendeu as mãos para a porta entreaberta, mas a porta fechou-se.
Então o peito pareceu rasgar-se-lhe num longo soluço. As lágrimas que lhe enchiam o peito brotaram como dois riachos. Ajoelhou-se, encostou a testa ao chão e rezou durante muito tempo. Repassou no espírito toda a sua vida passada e perguntou a si mesmo que crime cometera na vida, tão jovem ainda, que merecesse tão cruel punição.
O dia passou-se assim. Comeu apenas alguns nacos de pão e bebeu alguns goles de água. Tão depressa ficava sentado e absorto nos seus pensamentos como caminhava a toda a volta da prisão, qual fera encerrada numa jaula de ferro.
Havia, sobretudo um pensamento que o punha fora de si: o de que durante a travessia, onde, na ignorância do local para onde o conduziam, permanecera tão calmo e tranqüilo, poderia ter-se dez vezes deitado ao mar e, uma vez na água, graças à sua perícia de nadador, graças ao hábito que o tornara um dos mais hábeis mergulhadores de Marselha, desaparecer debaixo d’água, fugir dos guardas, alcançar a costa, escapar, esconder-se em qualquer enseada deserta, esperar um navio genovês ou catalão, alcançar a Itália ou a Espanha, e de lá escrever a Mercedes para que se juntasse a ele. Quanto à sua vida em qualquer país era coisa que não o preocupava. Em toda a parte os marinheiros eram raros e falava italiano como um toscano e espanhol como um natural de Castela-a-Velha. Viveria livre e feliz com Mercedes e com o pai, pois o pai também iria ter com ele, ao passo que assim estava prisioneiro, encerrado no Castelo d’If, naquela prisão intransponível, sem saber o que era feito do pai nem de Mercedes, e tudo isso porque acreditara na palavra de Villefort.
Era de enlouquecer.
Por isso, Dantés rebolava-se furioso na palha fresca que lhe trouxera o carcereiro.
No dia seguinte, à mesma hora, o carcereiro voltou.
— Então, está hoje mais razoável do que ontem? — perguntou-lhe.
Dantés não respondeu.
— Que diabo, um pouco de coragem! — insistiu o carcereiro — Deseja alguma coisa que esteja ao meu alcance? Vamos, diga.
— Desejo falar com o governador.
— O quê? Já lhe disse que é impossível — perguntou o carcereiro com impaciência.
— Impossível por quê?
— Porque pelos regulamentos da prisão não é permitido aos prisioneiros pedir isso.
— Então, que é permitido aqui? — perguntou Dantés.
— Melhor alimentação, pagando, passear e às vezes livros.
— Não preciso de livros, não tenho nenhuma vontade de passear e acho a minha alimentação boa. Portanto, só quero uma coisa: ver o governador.
— Se continua a repetir-me sempre a mesma coisa, não lhe trago mais de comer — ameaçou-o o carcereiro.
— Se não me trouxeres mais de comer — respondeu Dantés — Morrerei de fome e pronto!
O tom em que Dantés proferiu estas palavras provou ao carcereiro que o seu prisioneiro se daria por feliz se morresse. Por isso, como qualquer prisioneiro rendia, bem feitas as contas, cerca de dez soldos por dia ao seu carcereiro, o de Dantés avaliou o prejuízo que lhe acarretaria tal morte e insistiu em tom mais ameno:
— Ouça, o que deseja é impossível. Portanto, não insista, pois não há exemplo de, a pedido de um prisioneiro, o governador ir à sua cela. Mas se o senhor se portar bem lhe permitirão o passeio e é possível que um dia, enquanto passeia, o governador passe... então, poderá dirigir-lhe a palavra e se ele lhe quiser responder é lá com ele.
— Mas quanto tempo posso esperar assim sem que esse acaso se verifique? — perguntou Dantés.
— Sei lá! — respondeu o carcereiro — Um mês, três meses, seis meses, talvez um ano...
— É demasiado — perguntou Dantés — Quero vê-lo imediatamente.
— Bom, o melhor é não se entregar assim a um único desejo impossível, ou antes de quinze dias estará louco.
— Acha? — perguntou Dantés.
— Sim, louco. É sempre assim que começa a loucura; temos aqui um exemplo disso. Foi por estar constantemente a oferecer um milhão ao governador, se o pusesse em liberdade, que o cérebro do abade que esteve nesta cela antes do senhor se avariou.
— E há quanto tempo deixou esta cela?
— Dois anos.
— Puseram-no em liberdade?
— Não, meteram-no numa masmorra.
— Escute — disse Dantés — Não sou um abade nem sou um louco. Talvez venha a ser, mas infelizmente, neste momento, ainda estou em meu perfeito juízo. Vou fazer-te outra proposta.
— Qual?
— Não te oferecerei um milhão, porque não poderia lhe dar; mas te oferecerei cem escudos se quiser, na primeira vez que for a Marselha, descer até aos Catalães e entregar uma carta a uma moça chamada Mercedes. Nem sequer uma carta, apenas duas linhas.
— Se levasse essas duas linhas e fosse descoberto, perderia o meu lugar, que é de mil libras por ano, sem contar com os extraordinários e com a alimentação. Como vê, seria um grande imbecil se me arriscasse a perder mil libras para ganhar trezentas.
— Nesse caso, escuta e toma bem nota disto — disse Dantés — Se recusa levar duas linhas a Mercedes ou pelo menos preveni-la de que estou aqui, um dia te esperarei escondido atrás da minha porta e quando entrar te quebrarei a cabeça com este banco.
— Ameaças!... — exclamou o carcereiro, dando um passo atrás e pondo-se na defensiva — Decididamente, não está bom da cabeça. O abade começou como o senhor e dentro de três dias o senhor estará doido varrido como ele. Felizmente não faltam masmorras no Castelo d’If.
Dantés pegou no banco e fê-lo girar à volta da cabeça.
— Está bem, está bem! — disse o carcereiro — Pronto, uma vez que insiste, vou prevenir o governador.
— Depressa! — perguntou Dantés, voltando a pousar o banco no chão e sentando-se nele, de cabeça baixa e olhos esgazeados, como se realmente tivesse enlouquecido.
O carcereiro saiu e regressou pouco depois com quatro soldados e um cabo.
— Por ordem do governador — disse — Desçam o prisioneiro para o andar por baixo deste.
— Para as masmorras, então — observou o cabo.
— Sim, para as masmorras. Devem pôr-se os loucos junto dos loucos.
Os quatro soldados agarraram Dantés, que caiu numa espécie de atonia e os acompanhou sem resistência. Fizeram-no descer quinze degraus e abriram a porta de uma masmorra na qual entrou murmurando:
— Tem razão, devem pôr-se os loucos junto dos loucos.
A porta voltou a fechar-se e Dantés caminhou em frente com as mãos estendidas até tocar na parede. Então, sentou-se num canto e ficou imóvel, enquanto os seus olhos se habituavam pouco a pouco à obscuridade e começavam a distinguir os objetos.
O carcereiro tinha razão: faltava muito pouco para que Dantés enlouquecesse.





 continua...





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