domingo, 27 de maio de 2012

Harry Potter e o Cálice de Fogo - Capítulo 2







— CAPÍTULO DOIS —
A Cicatriz



HARRY ESTAVA DEITADO DE COSTAS, respirando com esforço como se tivesse corrido. Acordara de um sonho vívido, apertando o rosto com as mãos. A antiga cicatriz em sua testa, que tinha a forma de um raio, ardia sob seus dedos como se alguém tivesse comprimido sua pele com um arame em brasa. Ele se sentou, uma das mãos ainda na cicatriz, a outra estendida no escuro à procura dos óculos que deixara na mesa-de-cabeceira. Ele os colocou e o quarto entrou em foco, iluminado por uma luz fraca e enevoada vinda de um lampião de rua fora da janela.
Harry tornou a passar os dedos pela cicatriz. Continuava dolorida. Ele acendeu o abajur ao seu lado, saiu da cama, atravessou o quarto, abriu o guarda-roupa e espiou no espelho que havia do lado interno da porta. Um menino magricela de catorze anos olhou para ele, os olhos muito verdes e intrigados sob os cabelos negros em desalinho. Examinou com mais atenção a cicatriz em sua imagem. Parecia normal, mas continuava ardendo.
Harry tentou se lembrar do que estivera sonhando antes de acordar. Parecera tão real... havia duas pessoas que ele conhecia e uma que não conhecia... ele se concentrou, enrugando a testa, tentando se lembrar... veio à sua mente a imagem pouco nítida de um quarto escuro... havia uma cobra em cima de um tapete diante da lareira... um homenzinho chamado Pedro, de apelido Rabicho... e uma voz aguda e fria... a voz de Lord Voldemort. Só de pensar, Harry teve a sensação de que uma pedra de gelo estava descendo para o seu estômago...
Fechou os olhos com força e tentou se lembrar que aparência tinha Voldemort, mas foi impossível... tudo que Harry sabia era que, no momento em que a poltrona girara, vira o que estava sentado nela, sentira um espasmo de horror que o acordara... ou fora a dor na cicatriz?
E quem era o velho? Porque sem dúvida havia um velho, Harry o vira cair no chão. Tudo estava ficando confuso, o garoto levou as mãos ao rosto tampando a visão do quarto em que estava, tentando reter a imagem daquele outro mal iluminado, mas era o mesmo que tentar segurar água com as mãos, os detalhes agora desapareciam com a mesma rapidez com que ele tentava retê-los...
Voldemort e Rabicho estiveram conversando sobre alguém que haviam matado, embora Harry não conseguisse lembrar o nome... e estiveram planejando matar mais alguém... ele...
Harry tirou as mãos do rosto, abriu os olhos e contemplou o quarto a toda a volta como se esperasse ver alguma coisa diferente ali. Como era de esperar, havia uma quantidade extraordinária de coisas diferentes em seu quarto. Havia um malão de madeira aberto ao pé da cama, deixando à mostra um caldeirão, uma vassoura, vestes negras e vários livros de feitiços. Rolos de pergaminho atulhavam a parte do tampo de sua escrivaninha que não estava levantada por causa de uma enorme gaiola vazia, em que sua coruja muito branca, Edwiges, normalmente se encarrapitava. No chão, ao lado de sua cama havia um livro aberto; ele o estivera lendo antes de adormecer na véspera. As ilustrações do livro se mexiam. Homens com vestes laranja-vivo voavam em vassouras e entravam e saíam do seu campo de visão, jogando uma bola vermelha.
Harry foi até o livro, apanhou-o e assistiu a um dos bruxos marcar um gol espetacular enfiando a bola por um aro a quinze metros de altura. Então o garoto fechou o livro. Nem mesmo o Quadribol, na opinião de Harry, o melhor esporte do mundo, conseguiria distraí-lo naquele momento. Ele repôs o livro Voando com os Cannons sobre a mesa-de-cabeceira, dirigiu-se à janela e afastou as cortinas para olhar a rua lá embaixo.
A Rua dos Alfeneiros tinha o aspecto exato que uma rua de subúrbio respeitável deveria ter nas primeiras horas de um sábado. Todas as cortinas estavam fechadas. Até onde Harry pôde ver no escuro, não havia um único ser vivo à vista, nem mesmo um gato.
Contudo... contudo...
Harry voltou inquieto para a cama e se sentou, passando mais uma vez um dedo pela cicatriz. Não era a dor que o incomodava; Harry não era estranho à dor e aos ferimentos. Uma vez perdera todos os ossos do braço direito e sentira a dor de recuperá-los em uma noite. O mesmo braço fora perfurado pela presa venenosa de uma cobra, pouco tempo depois. Ainda no ano anterior, ele despencara quinze metros da vassoura em que voava. Estava acostumado com acidentes e ferimentos incomuns, eram inevitáveis quando se frequentava a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e se tinha um pendor para atrair confusões.
Não, a coisa que estava incomodando Harry era que da última vez que sua cicatriz doera, fora porque Voldemort tinha andado por perto... mas o bruxo não poderia estar ali, naquela hora... a ideia de Voldemort estar rondando a Rua dos Alfeneiros era absurda, impossível...
Harry parou para escutar com atenção o silêncio à sua volta. Estaria esperando ouvir o rangido de um degrau, o farfalhar de uma capa? Então teve um leve sobressalto, seu primo Duda acabara de soltar um tremendo ronco no quarto ao lado.
Harry deu em si mesmo uma sacudidela imaginária: estava sendo burro, não havia mais ninguém em casa exceto o Tio Válter, a Tia Petúnia e Duda, e era evidente que eles ainda dormiam, embalados por sonhos tranquilos e indolores. Era quando dormiam que Harry mais gostava dos Dursley, não porque não o ajudassem em nada quando estavam acordados.
Tio Válter, Tia Petúnia e Duda eram os únicos parentes vivos de Harry. Eram trouxas (não eram bruxos) que odiavam e desprezavam qualquer forma de magia, o que significava que Harry era tão bem-vindo em sua casa, quanto uma pelota de mofo. Eles explicaram as longas ausências de Harry nos últimos três anos dizendo a todos que o garoto estudava no Centro St. Brutus para Meninos Irrecuperáveis. Sabiam muito bem que, como bruxo menor de idade, Harry era proibido de usar a magia fora de Hogwarts, mas não perdiam a mania de culpá-lo por tudo que acontecia de errado na casa. Harry nunca pudera fazer confidências a eles, nem contar nada de sua vida no mundo da magia. A simples ideia de procurá-los quando acordassem para falar que sua cicatriz estava doendo e que estava preocupado com Voldemort era ridícula.
No entanto, era por causa de Voldemort que Harry viera morar com os Dursley, para início de conversa. Se não fosse por aquele bruxo, Harry não teria na testa a cicatriz em forma de raio. Se não fosse por Voldemort, o garoto ainda teria pais...
Harry tinha um ano de idade na noite em que Voldemort, há um século o bruxo das trevas mais poderoso do mundo, um bruxo que fora adquirindo poder continuamente durante onze anos, tinha chegado a sua casa e matado seus pais. Depois, Voldemort brandira sua varinha contra Harry, executara o feitiço que havia liquidado muitos bruxos adultos durante sua ascensão ao poder, e, inacreditavelmente, o feitiço não produzira efeito. Em vez de matar o garotinho, o feitiço se voltara contra o bruxo. Harry sobrevivera marcado apenas por um corte em forma de raio na testa, mas Voldemort fora reduzido a uma coisa quase sem vida. Despojado de seus poderes, a vida quase extinta, ele fugira, o terror em que a comunidade secreta de bruxos vivera tanto tempo se dissipou, os seguidores de Voldemort debandaram, e Harry Potter se tornou famoso.
Harry tivera um choque de bom tamanho ao descobrir, no seu décimo primeiro aniversário, que era bruxo, fora ainda mais desconcertante descobrir que todos no mundo secreto da magia conheciam seu nome. Harry chegara a Hogwarts e deparara com cabeças que se viravam e cochichos que o seguiam aonde fosse. Mas agora já se acostumara com isso. No fim deste verão, ele iria começar o seu quarto ano em Hogwarts; e já estava contando os dias para regressar ao castelo. Mas faltavam ainda quinze dias para as aulas recomeçarem.
Harry tornou a examinar o quarto, desanimado, e seus olhos pousaram nos cartões de aniversário que seus dois melhores amigos tinham lhe mandado no fim de Julho.
Que será que diriam se lhes escrevesse para contar que a cicatriz estava doendo?
Na mesma hora a voz de Hermione Granger penetrou sua cabeça, aguda e cheia de pânico.
Sua cicatriz está doendo? Harry, isso é realmente sério... escreva ao Professor Dumbledore! Vou verificar no meu livro “Aflições e Males Comuns na Magia”... quem sabe tem alguma coisa lá sobre cicatrizes produzidas por feitiços...
É, este seria o conselho de Hermione: vai procurar o diretor de Hogwarts, e, enquanto isso, vai consultando um livro. Harry contemplou pela janela o céu azul, quase negro. Duvidava muito que um livro pudesse ajudá-lo. Que ele soubesse, era a única pessoa que tinha sobrevivido a um feitiço como o de Voldemort, portanto, era pouco provável que encontrasse os seus sintomas descritos em Aflições e Males Comuns na Magia. Quanto a informar ao diretor, Harry não fazia a menor ideia de onde Dumbledore passava as férias de verão. Só por um momento divertiu-se em imaginar Dumbledore, com suas longas barbas prateadas, vestes compridas de bruxo e chapéu cônico, estirado em uma praia qualquer, passando filtro solar no longo nariz torto.
Mas onde quer que Dumbledore estivesse, Harry tinha certeza de que Edwiges seria capaz de encontrá-lo, a coruja de Harry, até aquele dia, jamais deixara de entregar uma carta, mesmo sem endereço. Mas o que iria escrever?
“Prezado Professor Dumbledore. Desculpe-me o incômodo, mas minha cicatriz doeu hoje de manhã. Atenciosamente, Harry Potter”.
Mesmo em sua cabeça as palavras pareciam idiotas.
Então ele tentou imaginar a reação do seu outro melhor amigo, Rony Weasley e, num instante, o rosto sardento, de nariz comprido, do amigo começou a flutuar diante de Harry com uma expressão de atordoamento.
“Sua cicatriz doeu? Mas... mas Você-Sabe-Quem não pode estar por perto agora, pode? Quero dizer... você saberia, não saberia? Ele estaria tentando matar você outra vez, não é? Sei não, Harry, vai ver as cicatrizes produzidas por feitiços sempre doem um pouquinho... vou perguntar ao meu pai...”
O Sr. Weasley era um bruxo diplomado que trabalhava na Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, no Ministério da Magia, mas, pelo que Harry soubesse, não tinha qualquer formação específica em feitiços. Em todo o caso, não lhe agradava a ideia de que a família Weasley inteira soubesse que estava assustado por causa de uma dorzinha. A Sra. Weasley se preocuparia mais do que Hermione, e Fred e Jorge, os gêmeos de dezesseis anos, irmãos de Rony, poderiam pensar que Harry estava se acovardando.
Os Weasley eram a família de que Harry mais gostava no mundo e ele tinha esperanças que o convidassem para passar uns dias em casa deles uma hora dessas, (Rony mencionara alguma coisa sobre uma Copa Mundial de Quadribol), e Harry não queria que sua visita fosse pontuada por perguntas ansiosas sobre sua cicatriz.
O garoto massageou a cicatriz com os nós dos dedos. O que ele realmente queria (e se sentiu quase envergonhado de admitir para si mesmo) era alguém como um pai ou uma mãe, para um bruxo adulto a quem pudesse pedir um conselho sem se sentir burro, alguém que gostasse dele, que tivesse tido experiência com Artes das Trevas...
E então lhe ocorreu a solução. Era tão simples, tão óbvia, que ele nem podia acreditar que tivesse levado tanto tempo para lembrar... Sirius.
Harry saltou da cama, saiu correndo e se sentou à escrivaninha; puxou um pergaminho para perto, molhou a pena de águia no tinteiro, escreveu “Caro Sirius”, e em seguida parou, pensando qual seria a melhor maneira de contar o seu problema, ainda admirado com o fato de não ter pensado nele logo de saída. Mas, por outro lado, talvez não merecesse tanta admiração, afinal, ele só descobrira que Sirius era seu padrinho fazia dois meses.
Havia uma razão simples para a absoluta ausência de Sirius da vida de Harry até aquele momento, o bruxo estivera em Azkaban, a assustadora prisão de bruxos, guardada por dementadores, criaturas malignas que não possuíam olhos, sugavam a alma das pessoas, e tinham ido a Hogwarts procurar Sirius quando ele fugira. Porém, o bruxo era inocente, as mortes pelas quais fora condenado tinham sido cometidas por Rabicho, seguidor de Voldemort, que quase todos ainda pensavam estar morto. Harry, Rony e Hermione sabiam que não, tinham encontrado Rabicho cara a cara no ano anterior, embora apenas o Professor Dumbledore tivesse acreditado na história que eles contaram.
Durante uma gloriosa hora, Harry acreditara que finalmente deixaria a casa dos Dursley, porque Sirius se oferecera para ficar com ele, depois que limpasse o próprio nome. Mas a oportunidade lhe fora roubada, Rabicho escapara antes que pudessem levá-lo ao Ministério da Magia, e Sirius teve de fugir para salvar a vida. Harry o ajudara a escapar montado em um hipogrifo chamado Bicuço, e desde então Sirius estava foragido. A casa que Harry poderia ter tido, se Rabicho não tivesse desaparecido, o atormentara o verão inteiro. Fora duas vezes mais penoso voltar para os Dursley sabendo que quase se livrara deles para sempre.
Ainda assim, Sirius vinha ajudando Harry, mesmo sem poder estar presente. Graças ao padrinho, Harry agora tinha todo o seu material escolar guardado no quarto. Os Dursley nunca haviam permitido isso, o desejo geral de tornar a vida de Harry a mais infeliz possível, somado ao medo dos seus poderes, levara os Tios, nos verões anteriores, a trancar o malão de escola do garoto no armário sob a escada. Mas a atitude dos Dursley mudara desde que descobriram que Harry tinha um perigoso condenado como padrinho, Harry, convenientemente, se esquecera de acrescentar que Sirius era inocente.
O garoto recebera duas cartas de Sirius desde que voltara à Rua dos Alfeneiros. Ambas tinham sido entregues não por corujas (como era costume entre os bruxos), mas por grandes e coloridos pássaros tropicais. Edwiges não aprovara aqueles intrusos espalhafatosos, relutara muito a permitir que eles usassem o seu bebedouro antes de irem embora. Harry, por outro lado, gostara muito das aves, fizeram-no lembrar palmeiras e praias de areia branca e ele desejara que, onde quer que o padrinho estivesse (Sirius nunca dizia, temendo que as cartas fossem interceptadas), que estivesse se divertindo. Por alguma razão, Harry achava difícil imaginar dementadores que sobrevivessem muito tempo sob o sol forte, talvez por isso é que Sirius tivesse rumado para o sul.
As cartas dele, que agora estavam escondidas sob a utilíssima tábua solta do soalho, embaixo da cama de Harry, tinham um tom animado e, nas duas, ele lembrava Harry que o chamasse se um dia precisasse. Bem, ele bem que precisava chamar o padrinho agora...
Sua luz de cabeceira parecia estar enfraquecendo a medida que a luz fria e cinzenta que antecede o nascer do sol penetrava devagarzinho no quarto. Finalmente, quando o sol nasceu, quando as paredes do quarto ficaram douradas e quando ele ouviu sons de gente se mexendo no quarto de Tio Válter e Tia Petúnia, Harry tirou os pedaços amassados de pergaminho de cima da escrivaninha e releu a carta que escrevera.

Caro Sirius,
Obrigado por sua última carta, a ave era enorme, quase não pôde passar pela minha janela.
As coisas continuam na mesma por aqui. A dieta de Duda não está dando muito certo. Minha tia o pegou contrabandeando rosquinhas fritas e açucaradas para dentro do quarto, ontem. Meus tios disseram que vão ter de cortar a mesada dele caso ele continue fazendo isso, então Duda ficou com muita raiva e atirou pela janela o PlayStation. Isso é uma espécie de computador com muitos jogos. Foi realmente uma burrice porque agora ele não tem nem um “Mega-Mutilation Parte Três” para distrair as ideias.
Eu vou bem, principalmente porque os Dursley estão apavorados que você possa aparecer e transformar eles em morcegos se eu pedir.
Mas aconteceu uma coisa estranha, hoje de madrugada. Minha cicatriz doeu outra vez. A última vez que isto aconteceu foi porque Voldemort estava em Hogwarts. Mas acho que ele não pode estar por perto agora, pode? Você sabe se cicatrizes produzidas por um feitiço podem doer até anos depois? Vou mandar esta carta quando Edwiges voltar, no momento ela saiu para caçar.
Diga olá ao Bicuço por mim.

Harry.

Pensou Harry, parecia boa. Não fazia sentido incluir o sonho, ele não queria que a carta deixasse transparecer que estava muito preocupado.
O garoto enrolou o pergaminho e deixou-o em cima da escrivaninha, pronto para quando Edwiges voltasse. Depois se levantou, se espreguiçou e abriu mais uma vez o guarda-roupa. Sem olhar para a imagem refletida no espelho, começou a se vestir para ir tomar o café da manhã.









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sábado, 26 de maio de 2012

Sessão Premier: A Madrasta - Capítulo 6



DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora a Sessão Premier:
A Madrasta


Maria foi condenada pelo assassinato de sua amiga Patrícia, apesar de sempre ter se dito inocente. Após Vinte Anos, Maria é libertada e agora ela quer reaver o amor de seus filhos, de quem foi afastada pelo ex-marido Estevão, julgando que a sua ex-esposa fosse mesmo uma assassina. Mas agora ela está de volta, e além de seus filhos, Maria quer encontrar o verdadeiro criminoso e limpar o seu nome. De uma bondosa mulher, Maria torna-se fria e cruel em sua cruzada para ter vingança contra os supostos amigos, amigos esses que são também os principais suspeitos da morte de Patrícia.


APRESENTANDO HOJE:
Capítulo 6 - Maria, de Mãe à Madrasta







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Harry Potter e o Cálice de Fogo - Capítulo 1





— SINOPSE —



O TORNEIO TRIBRUXO é um evento lendário que irá acontecer em Hogwarts, formado por três tarefas difíceis e potencialmente mortais, três alunos competindo pela gloria eterna e um premio de Mil Galeões. Mas Harry tem outras coisas em que se preocupar, pois o garoto passa a ter estranhos sonhos com Lord Voldemort que mostram que o Lorde das Trevas não está tão longe e nem tão fraco quanto dizem os boatos.



  
— CAPITULO UM —
A Casa dos Riddle



OS HABITANTES DE LITTLE HANGLETON continuavam a chamá-la de “Casa dos Riddle”, ainda que já fizesse muitos anos desde que a família Riddle morara ali. A casa ficava em um morro com vista para o povoado, algumas janelas pregadas, telhas faltando e a hera se espalhando livremente pela fachada. Outrora uma bela casa senhorial, e, sem favor algum, a construção maior e mais imponente de toda a redondeza, a Casa dos Riddle agora estava úmida, em ruínas, e desocupada.
As pessoas do local concordavam que a velha casa dava arrepios. Meio século antes uma coisa estranha e terrível acontecera ali, uma coisa que os antigos habitantes do povoado ainda gostavam de discutir quando faltava assunto para fofocas. A história fora requentada tantas vezes e enfeitada em tantos pontos, que ninguém mais sabia onde estava a verdade.
Todas as versões, porém, começavam no mesmo ponto: cinquenta anos antes, ao amanhecer de uma bela manhã de verão, quando a casa dos Riddle ainda era bem cuidada e imponente, uma empregada entrou na sala de estar e encontrou os três Riddle mortos.
A empregada saiu correndo morro abaixo, aos berros, até o povoado, e acordou o maior numero possível de pessoas.
— Caídos na sala com os olhos abertos! Gelados! Ainda com a roupa do jantar!
A polícia foi chamada e Little Hangleton inteiro fervilhou de espanto, curiosidade e mal disfarçada excitação. Ninguém gastou fôlego em fingir tristeza com o que acontecera aos Riddle, porque eles eram muito impopulares.
Os velhos Sr. e Sra. Riddle tinham sido ricos, esnobes e grosseiros, e seu filho adulto, Tom, era tudo isso em grau maior. A preocupação de todos que moravam em Little Hangleton era a identidade do assassino, pois não havia dúvida de que três pessoas aparentemente saudáveis não poderiam ter morrido, na mesma noite, de causas naturais.
O Enforcado, o bar local, faturou sem parar aquela noite, os habitantes do povoado apareceram em peso para discutir a matança. Foram recompensados por terem deixado o conforto de sua lareira, quando a cozinheira dos Riddle apareceu teatralmente e anunciou para o bar, repentinamente silencioso, que um homem chamado Franco Bryce acabara de ser preso.
— Franco! — exclamaram várias pessoas — Nunca!
Franco Bryce era o jardineiro dos Riddle. Morava sozinho em uma casa malcuidada na propriedade dos patrões. Voltara da guerra com uma perna dura e uma intensa aversão por ajuntamentos e barulhos, e, desde então, trabalhava para os Riddle.
Houve um corre-corre geral para pagar bebidas para a cozinheira e ouvir maiores detalhes.
— Sempre achei que ele era esquisito — disse a mulher aos ouvintes ansiosos, depois do quarto xerez — Assim, antipático. Tenho certeza de que não ofereci a ele só uma xícara de chá, ofereci bem umas cem. Nunca quis se misturar, nunca mesmo.
— Ah — disse uma mulher sentada ao balcão — Mas ele passou muito sofrimento na guerra, e gosta de uma vida tranquila. Isso não é razão...
— Quem mais tinha a chave da porta dos fundos, então? — vociferou a cozinheira — Desde que me entendo por gente, sempre teve uma chave de reserva pendurada na casa do jardineiro! Ninguém forçou a porta ontem à noite! Não tem janelas quebradas! Franco só precisou entrar escondido na casa grande enquanto a gente dormia...
As pessoas trocaram olhares tenebrosos.
— Eu sempre achei que ele tinha um jeito ruim, e não me enganei — resmungou um homem junto ao balcão.
— Foi a guerra que deixou ele esquisito, se querem saber a minha opinião — disse o dono do bar.
— Eu disse que não queria desagradar a Franco, não disse, Dot? — falou uma mulher agitada a um canto.
— Gênio terrível — concordou Dot acenando a cabeça com vigor — Me lembro quando ele era criança...
Na manhã seguinte, quase ninguém em Little Hangleton duvidava que Franco Bryce tivesse matado os Riddle.
Mas na cidadezinha vizinha de Great Hangleton, na delegacia de polícia escura e feia, Franco teimava em repetir sem parar que era inocente e que a única pessoa que ele vira perto da casa, no dia da morte dos Riddle, fora um adolescente estranho, de cabelos negros e rosto pálido. Ninguém mais no povoado vira o tal garoto e a polícia não teve dúvidas de que Franco o inventara. Então, quando as coisas estavam ficando muito feias para Franco, chegou o laudo sobre os cadáveres dos Riddle e tudo mudou.
A polícia nunca vira um laudo mais esquisito. Uma equipe de legistas examinara os corpos e concluíra que nenhum dos Riddle fora baleado, envenenado, esfaqueado, estrangulado, sufocado ou, pelo que sabiam, sofrera qualquer violência. Com efeito, continuava o laudo, em tom de inconfundível perplexidade, os Riddle, tirando o fato de que estavam mortos, pareciam gozar de perfeita saúde. Os legistas observaram (como se estivessem decididos a encontrar alguma coisa errada nos cadáveres) que cada membro da família tinha uma expressão de terror no rosto, mas, segundo afirmava a frustrada polícia, quem já ouvira falar de alguém morrer de pavor e como não havia a menor prova de que os Riddle tivessem sido assassinados, a polícia foi obrigada a soltar Franco. Os mortos foram enterrados no cemitério da igreja de Little Hangleton e, por algum tempo, suas sepulturas se tornaram alvo da curiosidade geral.
Para surpresa de todos, e acompanhado por uma nuvem de desconfiança, Franco Bryce voltou para sua casinha na propriedade dos Riddle.
— Para mim, foi ele quem matou a família e não me interessa o que a polícia disse — comentou Dot no Enforcado — E se ele tivesse um pingo de decência, iria embora daqui, sabendo que a gente sabe que foi ele.
Mas Franco não foi embora. Ficou para cuidar do jardim para a família que veio morar logo depois na Casa dos Riddle, e para a próxima, porque nenhuma das duas se demorou muito. Em parte, talvez tenha sido por causa de Franco que cada proprietário dizia que o lugar dava uma sensação desagradável e, por falta de moradores, acabou se desmantelando.
O ricaço que era o atual dono da Casa dos Riddle nem morava lá nem dava um destino a casa, diziam no povoado que ele a mantinha “por causa dos impostos”, embora ninguém entendesse muito bem o que significava isso. E o ricaço continuou a pagar a Franco para cuidar da jardinagem. Ele agora se aproximava do seu septuagésimo sétimo aniversário, muito surdo, a perna mais dura que nunca, mas era visto trabalhando pelos jardins quando fazia bom tempo, embora o mato já começasse a levar a melhor.
O mato não era, no entanto, o único problema que Franco precisava enfrentar. Os garotos do povoado tinham criado o hábito de atirar pedras nas janelas da Casa dos Riddle. Passavam de bicicleta por cima da grama que Franco se empenhava tanto para manter aveludada. Umas duas vezes eles haviam arrombado a velha casa para ganhar apostas. Sabiam que o velho Franco era dedicado à propriedade e achavam graça vê-lo mancando pelo jardim, brandindo a bengala e ralhando, a voz roufenha, com os invasores. Franco, por sua vez, acreditava que os garotos o atormentavam porque, tal qual seus pais e avós, achavam que ele era um assassino.
Por isso, quando acordou certa noite de Agosto e viu uma coisa muito estranha na casa, ele simplesmente supôs que os garotos estivessem indo um pouco mais longe em suas tentativas de castigá-lo. Foi a perna dura que o acordou; doía mais do que nunca agora na velhice.
Franco se levantou e desceu as escadas até a cozinha pensando em tornar a encher a bolsa de água quente para aliviar a rigidez do joelho. Parado a pia, enchendo a chaleira, ele olhou para a Casa dos Riddle e viu uma luz brilhando nas janelas do primeiro andar. Franco percebeu na mesma hora o que estava acontecendo. Os garotos tinham invadido novamente a casa e, a julgar pelo bruxuleio da luz, haviam acendido a lareira.
Franco não possuía telefone e, de qualquer modo, desconfiava demais da polícia, desde que esta o levara para interrogatório depois das mortes dos Riddle.
Na mesma hora, ele pousou a chaleira, correu para cima o mais rápido que a perna dura lhe permitiu, e logo voltou à cozinha, completamente vestido, e apanhou uma velha chave enferrujada no gancho junto à porta. Depois, pegou a bengala, que deixara apoiada na parede, e saiu pela noite.
A porta de entrada da Casa dos Riddle não tinha sinais de arrombamento, e o mesmo acontecia com as janelas. Andando com dificuldade, Franco contornou a casa em direção aos fundos até chegar a uma porta semiescondida pela hera, apanhou a velha chave, enfiou-a na porta e abriu-a silenciosamente.
Entrou em uma cozinha cavernosa. Havia muitos anos não entrava ali, ainda assim, mesmo no escuro, ele se lembrou de onde era a porta para o corredor e tateou até encontrá-la, as narinas invadidas pelo cheiro de podridão, os ouvidos atentos a qualquer som de passos ou vozes no primeiro andar. Chegou ao corredor, que estava um pouquinho mais claro, graças às grandes janelas de caixilhos que havia de cada lado da porta de entrada, e começou a subir as escadas, abençoando a poeira grossa que cobria a pedra, porque abafava o som dos seus passos e de sua bengala.
No patamar, Franco virou à direita e viu imediatamente onde se encontravam os intrusos: no finzinho do corredor havia uma porta entreaberta de onde saía uma luz vacilante, que projetava uma longa nesga dourada no chão escuro. Franco foi se aproximando mais, segurando a bengala com firmeza. A alguns passos da entrada, conseguiu entrever uma faixa estreita do quarto adiante.
O fogo estava aceso na lareira. Isto o espantou. Parou e escutou com atenção, porque uma voz masculina falava dentro do quarto, parecia tímida e temerosa.
— Sobrou um pouco na garrafa, milorde, se ainda tiver fome.
— Mais tarde — respondeu uma segunda voz. Esta também pertencia a um homem, mas era estranhamente aguda e fria como uma rajada repentina de vento gélido. Alguma coisa naquela voz fez os poucos cabelos na nuca de Franco ficarem em pé — Me leve mais para perto do fogo, Rabicho.
Franco virou a orelha direita para a porta, para ouvir melhor. Ouviu o tinido de uma garrafa que alguém pousava sobre uma superfície dura, depois o ruído prolongado e seco de uma cadeira pesada arrastando pelo chão. O jardineiro viu de relance um homenzinho, de costas para a porta, empurrando a cadeira conforme lhe pediram. Usava uma longa capa preta, e tinha uma grande pelada na parte de trás da cabeça. Depois, ele desapareceu de vista.
— Aonde foi Nagini? — perguntou a voz fria.
— N-Não sei, milorde — disse a primeira voz, nervosamente — Saiu para explorar a casa, acho...
— Você vai ordenhá-la antes de nos recolhermos, Rabicho — disse a segunda voz — Vou precisar me alimentar durante a noite. A viagem me deu uma enorme canseira.
A testa enrugada, Franco inclinou o ouvido para mais perto da porta, e escutou. Houve uma pausa e, em seguida, o homem chamado Rabicho tornou a falar.
— Milorde, posso perguntar quanto tempo vamos ficar aqui?
— Uma semana — disse a voz fria — Talvez mais. O lugar é razoavelmente confortável, e ainda não podemos dar seguimento ao plano. Seria tolice agir antes do fim da Copa Mundial de Quadribol.
Franco meteu um dedo nodoso no ouvido e girou-o. Com certeza, devido ao acúmulo de cera, ele ouvira a palavra “Quadribol”, uma palavra que não existia.
— A... a Copa Mundial de Quadribol, milorde? — admirou-se Rabicho. Franco enfiou o dedo com mais força no ouvido — Me perdoe, mas... não compreendo... por que precisamos esperar o fim da Copa Mundial?
— Porque, seu tolo, neste exato momento, estão chegando ao país bruxos do mundo inteiro e todos os bisbilhoteiros do Ministério da Magia estarão em campo, à procura de sinais de atividades incomuns, verificando identidades e tornando a verificá-las. Estarão obcecados com a segurança, tentando impedir que os trouxas percebam alguma coisa. Por isso vamos aguardar.
Franco parou de tentar desentupir o ouvido. Ouvira distintamente as palavras “Ministério da Magia”, “bruxos” e “trouxas”. Era óbvio que cada uma dessas expressões significava alguma coisa secreta, e Franco só conseguia pensar em dois tipos de gente que falava em código: espiões e bandidos. Franco apertou mais a bengala e apurou ainda mais os ouvidos.
— Milorde continua decidido, então? — perguntou Rabicho em voz baixa.
— Claro que estou decidido, Rabicho.
Agora havia um tom de ameaça em sua voz fria. Seguiu-se uma pausa, e então Rabicho falou, as palavras saíram de sua boca num atropelo, como se ele estivesse se obrigando a falar antes de perder a coragem.
— Poderia ser feito sem o Harry Potter, milorde.
Outra pausa, mais longa, e então...
— Sem o Harry Potter? — sussurrou a segunda voz — Entendo...
— Milorde, não estou dizendo isso porque me preocupo com o garoto! — explicou Rabicho, a voz subindo esganiçada — O garoto não significa nada para mim, nadinha! É só porque se usássemos outro bruxo ou bruxa, qualquer um, a coisa poderia ser feita muito mais rapidamente! Se o senhor me permitisse deixá-lo por algum tempo... o senhor sabe que posso me disfarçar com muita eficiência... eu voltaria em apenas dois dias com a pessoa necessária...
— Eu poderia usar outro bruxo — disse a primeira voz, baixinho — É verdade...
— Milorde, faz sentido — disse Rabicho, parecendo muito mais aliviado — Pôr as mãos em Harry Potter seria tão difícil, ele está tão bem protegido...
— E então você se oferece para ir buscar um substituto? Estranho... talvez a tarefa de cuidar de mim tenha se tornado cansativa para você, Rabicho? A sugestão de abandonar o plano não seria apenas uma tentativa de me abandonar?
— Milorde! N-Não tenho nenhum desejo de deixá-lo, absolutamente nenhum...
— Não minta para mim! — sibilou a segunda voz — Sempre percebo, Rabicho! Você está arrependido de ter voltado para mim. Eu o horrorizo. Vejo você fazer careta quando olha para mim, sinto você estremecer quando me toca...
— Não! Minha devoção a milorde...
— Sua devoção não passa de covardia. Você não estaria aqui se tivesse aonde ir. Como posso sobreviver sem você, quando preciso que alguém me alimente a intervalos regulares? Quem vai ordenhar Nagini?
— Mas o senhor parece tão mais forte, milorde...
Mentiroso — sussurrou a segunda voz — Não estou mais forte e uns poucos dias sozinho seriam suficientes para me roubar a pouca saúde que recuperei com os seus cuidados desajeitados. Silêncio!
Rabicho, que estivera resmungando incoerentemente, calou-se na mesma hora. Durante alguns segundos, Franco não ouviu nada exceto o crepitar do fogo.
Então o segundo homem recomeçou a falar, num sussurro que era quase um silvo.
— Tenho minhas razões para usar o garoto, como já lhe expliquei, e não vou usar mais ninguém. Esperei treze anos. Mais uns meses não me farão diferença. Quanto à proteção que rodeia o garoto, creio que o meu plano funcionará. Preciso apenas um pouco de coragem de sua parte, Rabicho, e você encontrará coragem, a menos que queira sentir o peso da cólera de Lord Voldemort...
— Milorde, tenho que falar! — disse Rabicho, agora com pânico na voz — Durante a nossa viagem repassei mentalmente o plano, milorde, o desaparecimento de Berta Jorkins não passará despercebido por muito tempo, e se dermos seguimento a ele, se eu enfeitiçar...
— Se? — murmurou a primeira voz — Se? Se você der seguimento ao plano, Rabicho, o Ministério jamais precisará saber que mais alguém desapareceu. Você fará isso em surdina, sem confusão. Eu bem gostaria de fazer isso pessoalmente, mas na minha condição atual... vamos, Rabicho, mais um obstáculo vencido, e o caminho até Harry Potter estará livre. Não estou pedindo que você aja sozinho. Até lá, o meu Fiel Servo terá se reunido a nós...
— Eu sou um servo fiel — disse Rabicho, com um levíssimo traço de aborrecimento na voz.
— Rabicho, preciso de alguém com cérebro, alguém que nunca tenha vacilado em sua lealdade, e você, infelizmente, não satisfaz nenhum dos dois requisitos.
— Eu o encontrei — disse Rabicho, e agora decididamente havia irritação em sua voz — Fui eu que o encontrei. Fui eu que lhe trouxe Berta Jorkins.
— É verdade — disse o segundo homem, parecendo achar graça — Um lance de genialidade que eu nunca teria achado possível em você, Rabicho, embora, a verdade seja dita, você não fizesse ideia do quanto ela seria útil quando a pegou, não é?
— Eu... eu achei que ela poderia ser útil, milorde...
— Mentiroso — disse novamente a primeira voz, a zombaria cruel mais acentuada do que nunca — Mas não nego que a informação da mulher foi preciosa. Sem ela, eu nunca poderia ter traçado o nosso plano, e por isso você terá a sua recompensa, Rabicho. Vou deixá-lo realizar uma tarefa essencial para mim, uma que muitos seguidores meus dariam a mão direita para realizar...
— V-Verdade, milorde! Qual...? — Rabicho parecia outra vez aterrorizado.
— Ah, Rabicho, você não quer que eu estrague a surpresa! Sua parte virá bem no finzinho... mas, prometo que você terá a honra de ser tão útil quanto Berta Jorkins.
— O senhor... o senhor... — a voz de Rabicho saiu repentinamente rouca, como se sua boca tivesse ficado muito seca — O senhor... vai... me matar, também?
— Rabicho, Rabicho — disse a voz fria suavemente — Por que eu iria matá-lo? Matei Berta porque precisei. Ela não servia para mais nada depois do meu interrogatório, completamente inútil. Em todo o caso, haveria perguntas embaraçosas se ela tivesse voltado ao Ministério com a notícia de que encontrara você nas férias. Seria melhor que bruxos presumivelmente mortos não esbarrassem em bruxas do Ministério da Magia em hotéis à beira de estradas...
Rabicho murmurou alguma coisa tão baixinho que Franco não pôde ouvir, mas fez o segundo homem rir, uma risada sem alegria, fria como a sua fala.
— Poderíamos ter alterado a memória dela? Mas os Feitiços da Memória podem ser desfeitos por um bruxo poderoso, como eu provei ao interrogá-la. Teria sido um insulto à memória da bruxa não usar as informações que ela me forneceu, Rabicho.
Fora no corredor, Franco de repente percebeu que a mão que segurava a bengala se tornara escorregadia de suor. O homem de voz fria tinha matado uma mulher. E falava disso sem um pingo de remorso, divertia-se. Ele era perigoso, um doido. E estava planejando outros assassinatos, esse garoto, Harry Potter, fosse ele quem fosse, corria perigo...
O jardineiro sabia o que devia fazer. Agora, como nunca antes, estava na hora de ir a policia. Ele sairia silenciosamente da casa e iria direto à cabine telefônica no povoado... mas a voz fria recomeçara a falar e Franco continuou onde estava, paralisado, escutando tudo que podia.
— Mais um feitiço... meu Fiel Servo em Hogwarts... e Harry Potter será praticamente meu, Rabicho. Está decidido. Não haverá mais discussões. Mas fique quieto... acho que ouvi Nagini...
E a voz do segundo homem mudou. Começou a emitir ruídos que Franco jamais ouvira na vida, sibilava e bufava sem inspirar. Franco achou que ele devia estar tendo algum tipo de ataque ou acesso. E então o jardineiro ouviu um movimento às suas costas no corredor escuro. Virou-se para olhar e quedou paralisado de medo.
Alguma coisa deslizava em sua direção pelo chão escuro do corredor, e quando se aproximou da nesga de luz, ele percebeu, com um choque de terror, que era uma cobra gigantesca, no mínimo, com três metros de comprimento.
Apavorado, pregado no chão, ele viu aquele corpo ondulante abrir uma trilha larga e curva na poeira espessa do chão, sempre mais próximo, o que faria? O único meio de fugir era entrar no quarto onde os dois homens estavam sentados planejando matar, mas se ele ficasse onde estava a cobra certamente o mataria...
Mas antes que se decidisse, a cobra emparelhou com ele e então, incrivelmente, milagrosamente, passou; orientava-se pelos silvos e bufos que a voz fria emitia do outro lado da porta e, em segundos, a ponta do rabo da cobra, malhada de losangos, desapareceu pela abertura. Havia suor na testa de Franco agora e a mão na bengala tremia.
No quarto, a voz fria continuava a silvar, e ocorreu a Franco uma ideia estranha, uma ideia impossível... esse homem podia falar com as cobras. Franco não entendia o que estava acontecendo. Queria mais do que tudo voltar para a cama com a sua bolsa de água quente. O problema é que suas pernas não pareciam querer se mexer. Enquanto estava parado ali, trêmulo, tentando se controlar, a voz fria voltou de repente a falar em inglês.
— Nagini trouxe notícias interessantes, Rabicho.
— Ver-verdade, milorde? — respondeu Rabicho.
— Verdade. Segundo Nagini, tem um velho trouxa parado do lado de fora do quarto, escutando cada palavra que dizemos.
Franco não teve a menor chance de se esconder. Ouviu passos e em seguida a porta do quarto se escancarou. Um homem baixo de cabelos grisalhos e ralos, um nariz pequeno e pontudo, olhos lacrimosos, parou diante dele com uma mescla de medo e susto no rosto.
— Convide-o a entrar, Rabicho. Onde está a sua educação?
A voz fria vinha de uma velha poltrona diante da lareira, mas Franco não conseguiu ver quem falava. A cobra, por sua vez, se enroscara no tapete podre diante da lareira, em uma medonha imitação de bichinho de estimação. Rabicho fez sinal para Franco entrar. Embora continuasse profundamente abalado, Franco segurou com firmeza a bengala e, coxeando, cruzou o portal.
O fogo na lareira era a única fonte de luz no quarto, projetava sombras longas e aranhosas nas paredes. Franco fixou o olhar nas costas da poltrona, o homem sentado nela parecia ser ainda menor do que o seu criado, pois Franco não conseguia sequer ver a parte de trás de sua cabeça.
— Você ouviu tudo, trouxa? — perguntou a voz fria.
— Do que foi que o senhor me chamou? — perguntou Franco, desafiando-o, porque agora que estava dentro do quarto, agora que chegara a hora de agir, ele se sentia mais corajoso, sempre fora assim na guerra.
— Chamei-o de trouxa — disse a voz calmamente — Isso quer dizer que você não é bruxo.
— Eu não sei o que o senhor quer dizer por trouxa — respondeu Franco, com a voz mais firme — Só sei é que esta noite ouvi o suficiente para despertar o interesse da polícia, ah, isto eu ouvi, o senhor já matou uma vez e está planejando matar mais! E vou-lhe dizer outra coisa... — acrescentou, numa súbita inspiração —... Minha mulher sabe que estou aqui e se eu não voltar...
— Você não tem mulher — disse a voz fria, muito baixinho — Ninguém sabe que você está aqui. Você não disse a ninguém que vinha. Não minta para Lord Voldemort, trouxa, porque ele sabe... ele sempre sabe...
— É mesmo? — retrucou Franco com aspereza — Lorde é? Ora, não tenho muito respeito pelos seus modos, milorde. Vire-se e me encare como homem, por que não faz isso?
— Mas eu não sou homem, trouxa — retrucou a voz fria, quase inaudível devido ao crepitar das chamas — Sou muito, muito mais do que um homem. Mas... por que não? Vou encará-lo... Rabicho, venha virar minha poltrona.
O servo deu um gemido.
— Você me ouviu, Rabicho.
Lentamente, com o rosto contraído, como se preferisse fazer qualquer coisa a ter que se aproximar do seu senhor e do tapete em que se deitara a cobra, o homenzinho se adiantou e começou a girar a cadeira. A cobra ergueu a feia cabeça triangular e sibilou baixinho quando as pernas da poltrona se prenderam no tapete. E, então, a poltrona ficou de frente para Franco e ele viu o que havia nela.
Sua bengala caiu no chão com estrépito. Ele abriu a boca e soltou um grito. Gritou tão alto que nunca ouviu as palavras que a coisa na poltrona disse ao erguer a varinha. Houve um relâmpago de luz verde, um ruído farfalhante e Franco Bryce desabou.
Morreu antes de bater no chão.
A trezentos quilômetros dali, o garoto chamado Harry Potter acordou assustado.









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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Harry Potter e o Cálice de Fogo - Sumário


Harry Potter e o Calice de Fogo

  



— SUMÁRIO —





— OUTRAS CAPAS —




  

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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - Capítulo 22





— CAPÍTULO VINTE E DOIS —
Novo Correio-Coruja



— Harry! — Hermione estava puxando a manga do garoto, com os olhos no seu próprio relógio — Temos exatamente dez minutos para voltar à Ala Hospitalar sem que ninguém nos veja, antes que Dumbledore tranque a porta...
— Ok — disse Harry, parando de contemplar o céu — Vamos...
Os dois saíram pela porta às costas deles e desceram uma escada de pedra circular muito estreita. Quando chegaram embaixo ouviram vozes. Colaram o corpo contra a parede e escutaram. Pareciam as vozes de Fudge e Snape. Os dois caminhavam depressa pelo corredor no qual terminava a escada.
—... Só espero que Dumbledore não crie dificuldades — dizia Snape — O beijo será executado imediatamente?
— Assim que Macnair voltar com os dementadores. Todo esse Caso Black tem sido muitíssimo constrangedor. Nem posso lhe dizer como estou ansioso para informar ao Profeta Diário que finalmente o capturamos... acho provável que queiram entrevistá-lo, Snape... e quando Harry tiver voltado ao normal, espero que se disponha a contar ao Profeta exatamente como foi que você o salvou...
Harry cerrou os dentes. Viu de relance o sorriso presunçoso de Snape, quando o professor e Fudge passaram pelo lugar em que ele e Hermione estavam escondidos. O eco dos passos dos homens foi se distanciando.
Os dois garotos esperaram alguns minutos para ter certeza de que tinham realmente ido embora, então começaram a correr na direção oposta. Desceram uma escada, depois outra, correram por um corredor, então ouviram uma risada escandalosa à frente.
— Pirraça! — murmurou Harry, agarrando o pulso de Hermione — Aqui!
Eles se precipitaram para dentro de uma sala de aula à esquerda, na hora “H”. Ao que parecia, Pirraça vinha saltitando pelo corredor apregoando bom humor, rindo de se acabar.
— Ah, ele é horrível! — sussurrou Hermione, o ouvido encostado à porta — Aposto como está nessa excitação toda porque os dementadores vão liquidar Sirius... — ela tornou a consultar o relógio — Três minutos, Harry!
Os garotos aguardaram a voz satisfeita de Pirraça sumir ao longe, então abandonaram a sala e desataram a correr.
— Hermione, que é que vai acontecer, se não conseguirmos voltar antes de Dumbledore trancar a porta? — ofegou Harry.
— Nem quero pensar! — gemeu Hermione, verificando novamente o relógio — Um minuto!
Os dois tinham chegado ao fim do corredor em que ficava a entrada para a Ala Hospitalar.
— Ok... estou ouvindo Dumbledore — disse Hermione tensa — Vamos Harry!
Saíram sorrateiramente pelo corredor. A porta da enfermaria se abriu. Apareceram as costas de Dumbledore.
— Vou trancá-los — os garotos o ouviram dizer — Faltam cinco minutos para a meia-noite. Srta. Granger, três voltas devem bastar. Boa sorte!
Dumbledore recuou para fora da enfermaria, fechou a porta e puxou a varinha para trancá-la magicamente. Em pânico, Harry e Hermione correram ao seu encontro. Dumbledore ergueu os olhos e apareceu um largo sorriso sob seus compridos bigodes prateados.
— Então? — perguntou ele baixinho.
— Conseguimos! — disse Harry ofegante — Sirius já foi, montado em Bicuço...
Dumbledore sorriu radiante para os garotos.
— Muito bem! Acho que... — ele escutou atentamente para verificar se havia algum ruído no interior da Ala Hospitalar — É, acho que vocês também já foram: entrem, vou trancá-los...
Harry e Hermione entraram na enfermaria. Estava vazia exceto por Rony, que continuava deitado imóvel na cama ao fundo. Ao ouvirem o clique da fechadura, Harry e Hermione voltaram às suas camas, e a garota guardou o Vira-Tempo, dentro das vestes.
Um instante depois, Madame Pomfrey saiu de sua sala.
— Foi o diretor que eu ouvi saindo? Será que já posso cuidar dos meus pacientes?
A enfermeira estava muito mal-humorada. Harry e Hermione acharam melhor aceitar o chocolate que ela trazia sem resistência. Madame Pomfrey ficou vigiando para ter certeza de que eles o comessem.
Mas Harry mal conseguia engolir. Ele e Hermione estavam esperando, escutavam, os nervos vibrando desafinados...
Então, quando aceitaram o quarto pedaço de chocolate de Madame Pomfrey, eles ouviram ao longe o ronco de fúria que ecoava em algum ponto do andar acima...
— Que foi isso? — perguntou Madame Pomfrey assustada.
Agora ouviam vozes raivosas, que iam se avolumando sem parar. A enfermeira tinha os olhos na porta.
— Francamente, vão acordar todo mundo! Que é que eles acham que estão fazendo?
Harry tentava ouvir o que as vozes diziam. Elas foram se aproximando...
— Ele deve ter desaparatado, Severo. Devíamos ter deixado alguém na sala vigiando. Quando isto vazar...
— ELE NÃO DESAPARATOU! — vociferou Snape, agora muito próximo — NÃO SE PODE APARATAR NEM DESAPARATAR DENTRO DESTE CASTELO! ISTO... TEM... DEDO... DO... POTTER!
— Severo... seja razoável... Harry está trancado...
PAM.
A porta da Ala Hospitalar se escancarou. Fudge, Snape e Dumbledore entraram na enfermaria. Somente o diretor parecia calmo. De fato, parecia que estava se divertindo. Fudge tinha uma expressão zangada. Mas Snape estava fora de si.
— DESEMBUCHE, POTTER! — berrou ele — QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?
— Professor Snape! — protestou esganiçada Madame Pomfrey — Controle-se!
— Olhe aqui, Snape, seja razoável — ponderou Fudge — A porta esteve trancada, acabamos de constatar...
— ELES AJUDARAM BLACK A ESCAPAR, EU SEI! — berrou Snape, apontando para Harry e Hermione. Seu rosto estava contorcido, voava cuspe de sua boca.
— Acalme-se, homem! — ordenou Fudge — Você está falando disparates!
— O SENHOR NÃO CONHECE POTTER! — berrou Snape em falsete — FOI ELE, EU SEI QUE FOI ELE QUE FEZ ISSO...
— Chega, Severo — disse Dumbledore em voz baixa — Pense no que está dizendo. A porta esteve trancada desde que deixei a enfermaria dez minutos atrás. Madame Pomfrey, esses garotos saíram da cama?
— Claro que não! — respondeu Madame Pomfrey com eficiência — Eu os teria ouvido!
— Aí está, Severo — disse Dumbledore calmamente — A não ser que você esteja sugerindo que Harry e Hermione sejam capazes de estar em dois lugares ao mesmo tempo, receio que não haja sentido em continuar a perturbá-los.
Snape ficou parado ali, procurando, olhando de Fudge, que parecia extremamente chocado com o procedimento do professor, para Dumbledore cujos olhos cintilavam por trás dos óculos. Snape deu meia-volta, as vestes rodopiando para trás, e saiu enfurecido da enfermaria.
— O homem parece que é bem desequilibrado — disse Fudge, acompanhando-o com o olhar — Eu me precaveria se fosse você, Dumbledore.
— Ah, ele não é desequilibrado — disse Dumbledore em voz baixa — Apenas sofreu um grave desapontamento.
— Ele não é o único! — bufou Fudge — O Profeta Diário vai ter um grande dia! Tivemos Black encurralado e ele nos escapa entre os dedos outra vez! Só falta agora a história da fuga do hipogrifo vazar, para eu virar motivo de pilhérias! Bom... é melhor eu ir notificar o Ministério...
— E os dementadores? — disse Dumbledore — Serão retirados da escola, eu espero.
— Ah, claro, eles terão que se retirar — disse Fudge, passando os dedos, distraidamente, pelos cabelos — Nunca sonhei que tentariam executar o beijo em um garoto inocente... completamente descontrolado... não, mandarei despachá-los de volta a Azkaban ainda hoje à noite... talvez devêssemos estudar a colocação de dragões à entrada da escola...
— Hagrid iria gostar — disse Dumbledore, sorrindo para Harry e Hermione.
Quando o diretor e Fudge iam saindo do quarto, Madame Pomfrey correu até a porta e tornou a trancá-la. E resmungando, aborrecida, voltou à sua salinha.
Ouviu-se um gemido baixo na outra ponta da enfermaria. Rony acordara. Eles o viram sentar-se, esfregar a cabeça e olhar para todos os lados.
— Que... que aconteceu? — gemeu ele — Harry? Por que estamos aqui? Onde é que foi o Sirius? Onde é que foi o Lupin? Que está acontecendo?
Harry e Hermione se entreolharam.
— Você explica — pediu Harry, servindo-se de mais um pedaço de chocolate.

* * *

Quando Harry, Rony e Hermione deixaram a Ala Hospitalar ao meio-dia do dia seguinte, foi para encontrar um castelo quase deserto. O calor sufocante e o fim dos exames sinalizavam que todos estavam aproveitando ao máximo mais uma visita a Hogsmeade.
Nem Rony nem Hermione, porém, tiveram vontade de ir, assim, os dois e Harry perambularam pelos jardins, ainda discutindo os acontecimentos extraordinários da noite anterior e se perguntando onde estariam Sirius e Bicuço naquela hora. Sentados perto do lago, observando a lula gigante agitar preguiçosamente seus tentáculos à superfície das águas, Harry perdeu o fio da conversa contemplando a margem oposta do lago. O cervo galopara em sua direção ali, ainda na noite anterior...
Uma sombra caiu sobre eles e, ao olharem, depararam com um Hagrid de olhos muito vermelhos, enxugando o rosto úmido de suor com um lenço do tamanho de uma toalha de mesa, e sorrindo para os três.
— Sei que não devia me sentir feliz depois do que aconteceu ontem à noite — disse ele — Quero dizer, a nova fuga de Black e tudo o mais, mas sabem de uma coisa?
— O quê? — perguntaram os garotos em coro, fingindo curiosidade.
— Bicuço! Ele fugiu! Está livre! Passei a noite toda festejando!
— Que fantástico! — exclamou Hermione lançando a Rony um olhar de censura porque ele parecia prestes a cair na risada.
— É... não devo ter amarrado ele direito — concluiu Hagrid, apreciando os jardins — Estive preocupado hoje de manhã, vejam bem... achei que ele podia ter topado com o Prof. Lupin por aí, mas o professor disse que não comeu nada ontem à noite...
— Quê? — perguntou Harry depressa.
— Caramba, vocês não souberam? — disse Hagrid, o sorriso se desfazendo. Em seguida, baixou a voz, ainda que não houvesse ninguém à vista — Hum... Snape anunciou para os alunos da Sonserina hoje de manhã... achei que, a essa altura, todo mundo já soubesse... o Prof. Lupin é Lobisomem, entendem. E esteve solto na propriedade ontem à noite. Ele está fazendo as malas agora, é claro.
— Ele está fazendo as malas? — repetiu Harry alarmado — Por quê?
— Vai embora, não é? — disse Hagrid, parecendo surpreso que Harry tivesse feito uma pergunta daquela — Pediu demissão logo de manhã. Diz que não pode arriscar que isto aconteça de novo.
Harry levantou-se depressa.
— Vou ver o professor — avisou a Rony e Hermione.
— Mas se ele se demitiu...
—... Parece que não há nada que a gente possa fazer...
— Não faz diferença. Continuo querendo ver o professor. Encontro vocês aqui depois.

* * *

A porta da sala de Lupin estava aberta. O professor já guardara a maior parte dos seus pertences. O tanque vazio do grindylow estava ao lado de sua mala surrada, aberta e quase cheia. Lupin curvava-se sobre alguma coisa em sua escrivaninha e ergueu a cabeça quando Harry bateu na porta.
— Vi-o chegando — disse Lupin com um sorriso.
E apontou para o pergaminho que estivera examinando. Era o Mapa do Maroto.
— Acabei de encontrar Hagrid — disse Harry — E soube dele que o senhor pediu demissão. Não é verdade, é?
— Receio que seja — Lupin começou a abrir as gavetas da escrivaninha e a esvaziá-las.
— Por quê? — perguntou Harry — O Ministério da Magia não está achando que o senhor ajudou Sirius, está?
Lupin foi até a porta e fechou-a.
— Não. O Prof. Dumbledore conseguiu convencer Fudge que eu estava tentando salvar as vidas de vocês — ele suspirou — Isso foi a gota d’água para Severo. Acho que a perda da Ordem de Merlim o deixou muito abalado. Então ele... hum... acidentalmente deixou escapar hoje, no café da manhã, que eu era Lobisomem.
— O senhor não está indo embora só por causa disso! — espantou-se Harry.
Lupin sorriu enviesado.
— Amanhã a essa hora, vão começar a chegar as corujas dos pais... eles não vão querer um Lobisomem ensinando a seus filhos, Harry. E depois de ontem à noite, eu entendo. Eu poderia ter mordido um de vocês... isto não pode voltar a acontecer nunca mais.
— O senhor é o melhor professor de Defesa Contra as Artes das Trevas que já tivemos! — disse Harry — Não vá embora!
Lupin sacudiu a cabeça e ficou calado. Continuou a esvaziar as gavetas. Então, enquanto Harry tentava pensar em um bom argumento para convencê-lo a ficar, Lupin falou:
— Pelo que o diretor me contou hoje de manhã, vocês salvaram muitas vidas ontem à noite, Harry. Se eu tenho orgulho de alguma coisa que fiz este ano, foi o muito que você aprendeu comigo... me conte sobre o seu Patrono.
— Como é que o senhor soube? — perguntou Harry espantado.
— Que mais poderia ter afugentado os dementadores?
Harry contou a Lupin o que acontecera. Quando terminou, o professor voltara a sorrir.
— É, seu pai se transformava sempre em cervo. Você acertou... é por isso que o chamávamos de Pontas.
Lupin jogou seus últimos livros em uma caixa, fechou as gavetas da escrivaninha e virou-se para fitar Harry.
— Tome, trouxe isto da Casa dos Gritos ontem à noite — disse, devolvendo a Harry a Capa da Invisibilidade — E... — ele hesitou e em seguida devolveu o Mapa do Maroto também — Não sou mais seu professor, por isso não me sinto culpado por lhe devolver isso também. Não serve para mim, e me arrisco a dizer que você, Rony e Hermione vão encontrar utilidade para o mapa.
Harry recebeu o mapa e sorriu.
— O senhor me disse que Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas tinham querido me atrair para fora da escola... o senhor disse que eles teriam achado graça.
— E teríamos — respondeu Lupin, abaixando-se para fechar a mala — Não tenho dúvida em afirmar que Tiago teria ficado muitíssimo desapontado se o filho dele jamais descobrisse as passagens secretas para fora do castelo.
Ouviu-se uma batida na porta. Harry guardou apressadamente o Mapa do Maroto e a Capa da Invisibilidade no bolso.
Era o Prof. Dumbledore. Ele não pareceu surpreso de encontrar Harry ali.
— O seu coche já está no portão, Remo — anunciou ele.
— Obrigado, diretor.
Lupin apanhou sua velha mala e o tanque vazio do grindylow.
— Bom... adeus, Harry — disse sorrindo — Foi realmente um prazer ser seu professor. Tenho certeza de que voltaremos a nos encontrar. Diretor, não precisa me acompanhar até o portão, posso me arranjar...
Harry teve a impressão de que Lupin queria sair o mais rápido possível.
— Adeus, então, Remo — disse Dumbledore sério.
Lupin empurrou ligeiramente o tanque do grindylow para poder apertar a mão de Dumbledore. Então, com um último aceno para Harry e um breve sorriso, Lupin saiu da sala.
Harry se sentou na cadeira desocupada, olhando tristemente para o chão. Ouviu a porta se fechar e ergueu a cabeça. Dumbledore continuava na sala.
— Porque tão infeliz, Harry? — perguntou em voz baixa — Você deveria estar se sentindo muito orgulhoso depois do que fez à noite passada.
— Não fez nenhuma diferença — disse Harry com amargura — Pettigrew conseguiu fugir.
— Não fez nenhuma diferença? — repetiu Dumbledore baixinho — Fez toda a diferença do mundo, Harry, você ajudou a desvendar a verdade. Salvou um homem inocente de um destino terrível.
Terrível. A palavra despertou uma lembrança na cabeça de Harry. Maior e mais terrível que nunca... a predição da Profª. Trelawney!
— Professor Dumbledore, ontem, quando eu estava fazendo o exame de Adivinhação, a Profª. Trelawney ficou muito... muito estranha.
— Verdade? — disse o diretor — Hum... mais estranha do que de costume, você quer dizer?
— É... a voz dela engrossou e os olhos giraram e ela falou... que o servo de Voldemort ia se juntar a ele antes da meia-noite... disse que o servo ia ajudá-lo a voltar ao poder — Harry ergueu os olhos para Dumbledore — E então ela meio que voltou ao normal, mas não conseguiu se lembrar de nada que tinha falado. Era... ela estava fazendo uma predição de verdade?
Dumbledore pareceu levemente impressionado.
— Sabe, Harry, acho que talvez estivesse — disse pensativo — Quem teria imaginado? Isso eleva para duas o total de predições verdadeiras que ela já fez. Eu devia dar à professora um aumento de salário...
— Mas... — Harry olhou, perplexo, para o diretor. Como é que Dumbledore podia ouvir uma notícia dessas com tanta calma? — Mas... eu impedi Sirius e o Prof. Lupin de matarem Pettigrew! Assim vai ser minha culpa se Voldemort voltar!
— Não vai, não — disse Dumbledore em voz baixa — A sua experiência com o Vira-Tempo não lhe ensinou nada, Harry? As consequências de nossos atos são sempre tão complexas, tão diversas, que predizer o futuro é uma tarefa realmente difícil... a Profª. Trelawney, abençoada seja, é a prova viva disso... você teve um gesto muito nobre salvando a vida de Pettigrew...
— Mas se ele ajudar Voldemort a voltar ao poder...
— Pettigrew lhe deve a vida. Você mandou a Voldemort um emissário que está em dívida com você... quando um bruxo salva a vida de outro, forma-se um certo vínculo entre os dois... e estarei muito enganado se Voldemort aceitar um servo em dívida com Harry Potter.
— Eu não quero ter nenhum vínculo com Pettigrew! — exclamou Harry — Ele traiu os meus pais!
— Assim é a magia no que ela tem de mais profundo e impenetrável, Harry. Mas confie em mim... quem sabe um dia você se alegrará por ter salvado a vida de Pettigrew.
Harry não conseguiu imaginar quando seria isso. Dumbledore parecia ter adivinhado o que o garoto estava pensando.
— Conheci seu pai muito bem, tanto em Hogwarts quanto depois, Harry — disse o diretor com carinho — Tiago teria salvado Pettigrew também, tenho certeza.
Harry olhou para o diretor. Dumbledore não riria, podia lhe contar...
— Ontem à noite, eu pensei que tinha sido o meu pai que tinha conjurado o meu Patrono. Quero dizer, pensei que estava vendo ele quando me vi atravessando o lago...
— Um engano normal — disse Dumbledore gentilmente — Imagino que já esteja cansado de ouvir dizer, mas você é extraordinariamente parecido com Tiago. Exceto nos olhos... você tem os olhos de sua mãe.
Harry sacudiu a cabeça.
— Foi burrice minha pensar que era ele — murmurou o garoto — Quero dizer, eu sei que ele está morto.
— Você acha que os mortos que amamos realmente nos deixam? Você acha que não nos lembramos deles ainda mais claramente em momentos de grandes dificuldades? O seu pai vive em você, Harry, e se revela mais claramente quando você precisa dele. De que outra forma você poderia produzir aquele Patrono? Pontas reapareceu ontem à noite.
Levou um momento para Harry compreender o que Dumbledore acabara de dizer.
— Ontem à noite Sirius me contou como eles se tornaram Animagos — disse o diretor sorrindo — Uma realização fantástica, e não é menos fantástico que tenham ocultado isso de mim. Então me lembrei da forma muito incomum que o seu Patrono assumiu, quando investiu contra o Sr. Malfoy na partida de Quadribol contra Corvinal. Sabe, Harry, de certa forma você realmente viu o seu pai ontem à noite... você o encontrou dentro de si mesmo.
E Dumbledore saiu da sala deixando Harry com seus pensamentos muito confusos.

* * *

Ninguém em Hogwarts sabia a verdade do que acontecera na noite em que Sirius, Bicuço e Pettigrew desapareceram, exceto Harry, Rony, Hermione e o Prof. Dumbledore. À medida que o trimestre foi chegando ao fim, Harry ouviu muitas teorias diferentes sobre o que realmente acontecera, mas nenhuma delas sequer se aproximava da verdadeira.
Malfoy estava enfurecido com a fuga de Bicuço. Acreditava que Hagrid encontrara um jeito de contrabandear o hipogrifo para um lugar seguro, e parecia indignado que ele e o pai tivessem sido enganados por um guarda-caça.
Entrementes, Percy Weasley tinha muito a dizer sobre a fuga de Sirius.
— Se eu conseguir entrar para o Ministério, apresentarei várias propostas sobre a execução das leis da magia! — disse ele à única pessoa que queria escutá-lo, sua namoradinha Penélope.
Embora o tempo estivesse perfeito, embora a atmosfera estivesse tão animada, embora ele soubesse que tinham realizado quase o impossível ao ajudar Sirius a continuar livre, Harry jamais chegara tão desanimado a um final de ano letivo.
Com certeza não era o único aluno que lamentava a partida do Prof. Lupin. A turma inteira de Defesa Contra as Artes das Trevas amargara a demissão do professor.
— Quem será que vão nos dar o ano que vem? — perguntou Simas Finnigan deprimido.
— Quem sabe um vampiro? — sugeriu Dino Thomas esperançoso.
Não era apenas a partida do Prof. Lupin que estava pesando na cabeça de Harry. Ele não podia deixar de pensar, e muito, na predição da Profª. Sibila Trelawney. Ficava imaginando onde estaria Pettigrew, se já teria procurado guarida com Voldemort.
Mas o que mais deprimia o ânimo de Harry era a perspectiva de regressar à casa dos Dursley. Durante talvez meia-hora, uma gloriosa meia-hora, acreditara que iria passar a morar com Sirius... o melhor amigo dos seus pais... seria a segunda melhor coisa do mundo depois de ter o seu pai de volta. E ainda que não ter notícias de Sirius Black fosse decididamente uma boa notícia, pois significava que ele conseguira se esconder com sucesso, Harry não podia deixar de se entristecer quando pensava no lar que poderia ter tido e na circunstância de isso ter se tornado impossível.
Os resultados dos exames foram divulgados no último dia do ano letivo. Harry, Rony e Hermione tinham passado em todas as matérias. Harry se admirou de ter se dado bem em Poções. Suspeitava, muito perspicazmente, que Dumbledore talvez tivesse interferido para impedir Snape de reprová-lo de propósito.
O comportamento de Snape com relação a Harry na última semana tinha sido alarmante. O garoto não teria achado possível que a aversão do professor por ele pudesse aumentar, mas sem dúvida isto acontecera. Um músculo tremia incomodamente no canto da boca fina de Snape toda vez que ele olhava para Harry, e o bruxo flexionava os dedos todo o tempo, como se eles comichassem para apertar o pescoço de Harry.
Percy conseguira excelentes notas nos exames de N.I.E.M.’s (Níveis Incrivelmente Exaustivos em Magia). Fred e Jorge passaram raspando nos exames para obter seus N.O.M.s (Níveis Ordinários em Magia).
Entrementes, a casa da Grifinória, em grande parte graças ao seu espetacular desempenho na conquista da Taça de Quadribol, ganhara o Campeonato das Casas, pelo terceiro ano consecutivo. Isto significou que a festa de encerramento do ano letivo se realizou em meio a decorações vermelhas e douradas, e que, na comemoração geral, a mesa da Grifinória foi a mais barulhenta do Salão. Até Harry enquanto comia, bebia, conversava e ria com todos, conseguira esquecer a viagem de regresso à casa dos Dursley no dia seguinte.
Quando o Expresso de Hogwarts deixou a estação na manhã seguinte, Hermione comunicou a Harry e a Rony uma notícia surpreendente.
— Fui ver a Profª. McGonagall hoje de manhã, pouco antes do café. Resolvi abandonar Estudos dos Trouxas.
— Mas você passou na prova com trezentos e vinte por cento! — exclamou Rony.
— Eu sei — suspirou Hermione — Mas não vou poder viver outro ano igual a este. Aquele Vira-Tempo estava me levando à loucura. Eu o devolvi. Sem Estudos dos Trouxas e Adivinhação, vou poder ter um horário normal outra vez.
— Ainda não consigo acreditar que você não tenha nos contado. Pensávamos que éramos seus amigos.
— Prometi que não contaria a ninguém — disse Hermione com severidade.
Ela se virou para olhar para Harry, que observava Hogwarts desaparecer de vista por trás de um morro. Dois meses inteiros até poder revê-la...
— Ah, se anima, Harry! — disse Hermione triste.
— Eu estou bem — se apressou o garoto a dizer — Estou só pensando nas férias.
— É, eu também tenho pensado nelas — disse Rony — Harry você tem que vir ficar conosco. Vou combinar com mamãe e papai, depois te ligo. Agora já sei usar um feletone...
— Um telefone, Rony — corrigiu-o Hermione — Sinceramente, você é quem devia fazer Estudos dos Trouxas no ano que vem...
Rony fingiu que não tinha ouvido o comentário.
— Vai haver a Copa Mundial de Quadribol agora no verão! Que é que você acha, Harry? Vem ficar com a gente e aí podemos assistir aos jogos! Papai geralmente arranja entradas no Ministério.
Esta proposta teve o efeito de animar Harry bastante.
— É... aposto que os Dursley iriam gostar que eu fosse, principalmente depois do que fiz com a Tia Guida...
Sentindo-se bem mais alegre, Harry jogou várias partidas de Snap Explosivo com Rony e Hermione e, quando a bruxa com a carrocinha de lanches chegou, ele comprou uma enorme refeição, mas nada que tivesse chocolate. Mas a tarde já ia avançada quando aconteceu a coisa que o deixou realmente feliz...
— Harry — chamou-o Hermione de repente, espiando por cima do seu ombro — Que é essa coisa do lado de fora da sua janela?
Harry se virou para olhar. Havia uma coisa muito pequena e cinzenta que aparecia e desaparecia de vista do lado de fora da janela. Ele se levantou para ver melhor e concluiu que era uma coruja minúscula, carregando uma carta demasiado grande para o seu tamanho. A coruja era tão pequena, na realidade, que não parava de dar cambalhotas no ar, impelida para cá e para lá pelo deslocamento de ar do trem. Harry baixou depressa a janela, esticou o braço e recolheu-a.
Ao tato, ela lembrava um Pomo de Ouro muito fofo. O garoto recolheu a coruja cuidadosamente pra dentro. A ave deixou cair a carta no banco e começou a voar pela cabine dos garotos, aparentemente muito satisfeita consigo mesma por ter se desincumbido de sua tarefa. Edwiges deu um estalo com o bico numa espécie de digna censura. Bichento se aprumou no assento, acompanhando a coruja com os seus enormes olhos amarelos.
Rony, reparando nisso, segurou a coruja para protegê-la do perigo iminente.
Harry apanhou a carta. Vinha endereçada a ele. O garoto abriu a carta e gritou:
— É do Sirius!
— Quê? — exclamaram Rony e Hermione excitados — Leia em voz alta!

Caro Harry,
Espero que esta o encontre antes de você chegar à casa dos seus tios. Não sei se eles estão acostumados com correio-coruja.
Bicuço e eu estamos escondidos. Não vou lhe dizer onde, caso esta coruja caia em mãos indesejáveis. Tenho minhas dúvidas se ela é confiável, mas foi a melhor que consegui encontrar e me pareceu ansiosa para se encarregar da entrega. Acredito que os dementadores ainda estejam me procurando, mas eles não têm a menor esperança de me encontrar aqui. Estou planejando deixar os trouxas me verem em breve, muito longe de Hogwarts, de modo que a segurança sobre o castelo seja relaxada.
Há uma coisa que não cheguei a lhe dizer durante o nosso breve encontro. Fui eu que lhe mandei a Firebolt...

— Ah! — exclamou Hermione triunfante — Estão vendo! Eu disse a vocês que tinha sido ele!
— É, mas ele não tinha enfeitiçado a vassoura, tinha? — retrucou Rony — Ai!
A corujinha, agora piando feliz em sua mão, bicava-lhe um dedo, no que parecia ser uma demonstração de carinho.

...Bichento levou a ordem de compra à Agência-Coruja para mim. Usei o seu nome, mas mandei sacarem o ouro do meu cofre em Gringotes. Por favor, considere a vassoura o equivalente a treze anos de presentes do seu padrinho.
Gostaria também de me desculpar pelo susto que lhe dei àquela noite, no ano passado, quando você abandonou a casa do seu tio. Minha esperança era apenas dar uma olhada em você antes de iniciar viagem para o norte, mas acho que a minha aparição o assustou. Estou anexando outro presente para você, e acho que ele tornará o seu próximo ano em Hogwarts mais prazeroso.
Se algum dia precisar de mim, mande me dizer. Sua coruja me encontrará.
Escreverei novamente em breve.

Sirius.

Harry espiou ansioso dentro do envelope.
Havia outro pedaço de pergaminho. Examinou-o depressa e se sentiu inesperadamente aquecido e satisfeito como se tivesse bebido uma garrafa de cerveja amanteigada quente, de um gole só.

Pela presente, eu, Sirius Black, padrinho de Harry Potter, dou-lhe permissão para visitar Hogsmeade nos fins de semana.

— Dumbledore vai aceitar esta autorização! — exclamou Harry alegremente.
O garoto tornou a olhar para a carta de Sirius.
— Espera aí, tem um P.S.

P.S. Achei que o seu amigo Rony talvez quisesse ficar com a coruja, pois é minha culpa que ele não tenha mais um rato.

Os olhos de Rony se arregalaram. A corujinha continuava a piar agitada.
— Ficar com a coruja? — perguntou o garoto hesitante.
Ele mirou a ave um momento; depois, para grande surpresa de Harry e Hermione, ofereceu-a para Bichento cheirar.
— Qual é a sua avaliação? — perguntou Rony ao gato — Isto é decididamente uma coruja?
Bichento ronronou.
— Para mim é o suficiente — disse Rony feliz — É minha.
Harry leu e releu a carta de Sirius até a estação de King´s Cross. E continuava a apertá-la na mão quando ele, Rony e Hermione passaram a barreira da Plataforma 9 e ½.
Harry localizou o Tio Válter imediatamente. Estava parado a uma boa distância do Sr. e da Sra. Weasley, espiando-os desconfiado, e, quando a Sra. Weasley abraçou Harry, as piores suspeitas do tio a respeito do casal pareceram se confirmar.
— Eu ligo para falar da Copa Mundial! — gritou Rony para Harry quando o amigo acenou um adeus para ele e Hermione, e saiu empurrando o carrinho com sua mala e a gaiola de Edwiges em direção ao tio, que o cumprimentou da maneira habitual.
— Que é isso? — rosnou, olhando para o envelope que Harry ainda segurava na mão — Se é outro formulário para eu assinar, pode tirar o cavalinho...
— Não é, não — respondeu Harry alegremente — É uma carta do meu padrinho.
— Padrinho? — engasgou o Tio Válter — Você não tem padrinho!
— Tenho, sim — respondeu Harry animado — Era o melhor amigo da minha mãe e do meu pai. E é um assassino condenado, mas fugiu da prisão dos bruxos e está foragido. Mas ele gosta de manter contato comigo... saber das minhas notícias... verificar se estou feliz...
E, abrindo um largo sorriso ao ver a cara de horror do Tio Válter, Harry rumou para a saída da estação, Edwiges chocalhando à frente, para o que prometia ser um verão muito melhor do que o anterior.





FIM DO TERCEIRO VOLUME







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