sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE - capítulo 26





26
A SALA DE CHOCOLATE-TELEVISÃO


A família Tevel, Charlie e Vovô José saíram do elevador e entraram numa sala tão brilhante e branca, que precisaram fechar os olhos ofuscados e parar de andar. O Sr. Wonka entregou a cada pessoa um par de óculos escuros e ordenou:
— Coloquem esses óculos e não os tirem, aconteça o que acontecer. A luz poderá cegá-los!
Logo que Charlie colocou os óculos conseguiu enxergar direito. Viu uma sala comprida e estreita, toda pintada de branco. Até o chão era branco e não havia um grão de poeira em lugar algum. Penduradas no teto havia umas lâmpadas enormes, que banhavam a sala com uma luz branco-azulada. A sala estava vazia, a não ser nas extremidades. Numa delas havia uma enorme câmera sobre rodas cercada por todo um exército de umpa-lumpas, que estavam colocando óleo nas engrenagens, ajustando botões e polindo a grande lente de vidro. Os umpa-lumpas estavam vestidos de um jeito estranhíssimo. Usavam roupas espaciais de um vermelho brilhante, com capacetes e óculos — pelo menos pareciam roupas espaciais — e trabalhavam no mais completo silêncio. Ao vê-los, Charlie teve uma leve sensação de perigo. Tudo aquilo parecia meio perigoso e os umpa-lumpas bem que sabiam. Não conversavam e nem cantavam, e se movimentavam devagar e com cuidado à volta da enorme câmera preta.
Na outra extremidade da sala, a uns cinqüenta passos da câmera, havia um umpa-lumpa, também de roupa espacial, sentado na frente de uma mesa preta observando a tela de uma televisão enorme.
— Vamos lá! — gritou o Sr. Wonka, pulando de entusiasmo — Esta é a Sala de Testes da minha última e maior invenção: o chocolate-televisão!
— Mas o que é chocolate-televisão? — perguntou Miguel Tevel.
— Que coisa, menino, pare de me interromper! — disse o Sr. Wonka — Funciona por televisão. Eu mesmo não gosto de televisão. Em pequenas doses, tudo bem, mas as crianças em geral não sabem se controlar. Querem ficar sentadas em frente à tela o dia inteiro.
— Como eu! — exclamou Miguel Tevel.
— Cale a boca — mandou o Sr. Tevel.
— Obrigado — disse o Sr. Wonka — Deixe-me explicar como funciona esse meu maravilhoso televisor. Mas, primeiro, vocês sabem como funciona a televisão comum? É simples. Numa das extremidades, onde se capta a imagem, há uma grande câmera e a gente começa a filmar alguma coisa. Os filmes são então despedaçados em milhões de pedacinhos tão pequenos, que não dá para ver, e esses minúsculos pontos são atirados para o céu pela eletricidade. Ficam rodando no céu, rodando, até que de repente esbarram na antena do telhado de alguém. Então escorregam pelo fio que leva direto ao televisor, correm de cá para lá até cada um dos milhões de pedacinhos se encaixar no lugar certo (como um quebra-cabeças) e pronto, a imagem aparece na tela...
— Não é bem assim... — interrompeu Miguel Tevel.
— Sou um pouco surdo do ouvido esquerdo, por isso me desculpe se não escuto tudo o que você diz — continuou o Sr. Wonka.
— Eu falei que não é bem assim que a coisa funciona! — gritou Miguel Tevel.
— Você é um bom menino, mas fala demais. Continuando... A primeira vez que vi uma televisão funcionando, tive uma idéia incrível. Pensei: se dá para despedaçar uma imagem em milhões de pedaços e fazer com que voem pelos ares e depois se integrem outra vez, por que não fazer a mesma coisa com um tablete de chocolate? Por que não mandar para o ar bilhões de pedacinhos de um tablete de chocolate e fazê-lo aparecer inteiro do outro lado?
— Impossível — retrucou Miguel Tevel.
— Você acha? — perguntou o Sr. Wonka — Então, veja só! Vou mandar um tablete do meu melhor chocolate de um lado ao outro da sala, pela televisão! Atenção! Tragam o chocolate!
Imediatamente, seis umpa-lumpas saíram carregando nos ombros a maior barra de chocolate que Charlie jamais tinha visto. Era do tamanho do colchão onde ele dormia.
— Tem que ser grande porque, quando a gente manda alguma coisa pela televisão, a imagem diminui. Você filma um homem grande e ele sai na tela do tamanho de um lápis, não é? Vamos. Todos prontos? Não, não! Parem! Você aí, Miguel Tevel, para trás. Está muito perto da câmera. Daí saem raios perigosos que poderiam desfazê-lo em milhões de pedacinhos em um segundo! É por isso que os umpa-lumpas estão protegidos por roupas espaciais. Assim está melhor! Pronto! Ligar!
Um umpa-lumpa puxou uma alavanca para baixo, provocando um raio ofuscante.
— O chocolate sumiu! — gritou Vovô José, balançando os braços.
Ele tinha razão! O imenso tablete de chocolate desaparecera sem deixar vestígio.
— Está a caminho. Seus milhões de pedacinhos estão voando pelo ar, por cima das nossas cabeças. Rápido! Venham até aqui!
— O Sr. Wonka correu até a outra extremidade da sala onde estava o televisor, e todos o seguiram.
— Vejam a tela! — gritou ele — Já vem vindo! Olhem!
A tela piscou e se acendeu. Bem no meio dela apareceu um tablete pequeno de chocolate.
— Peguem! — gritou o Sr. Wonka, cada vez mais entusiasmado.
— Mas como? — perguntou Miguel Tevel, rindo — É só uma imagem na tela!
— Charlie Bucket — gritou o Sr. Wonka — vá pegar o chocolate! Agarre-o!
Charlie esticou o braço, tocou a tela e de repente, como por milagre, o tablete de chocolate foi para sua mão. Ficou tão surpreso, que quase o deixou cair.
— Pode comer — gritou o Sr. Wonka — vamos, coma tudo! É delicioso. É o mesmo tablete, que diminuiu no caminho, só isso!
— É absolutamente fantástico! É... é um milagre! — gaguejou Vovô José.
— Imaginem quando eu começar a usar isso pelo país afora... Vocês em casa, vendo televisão, e de repente aparece um comercial, com uma voz dizendo: COMA OS CHOCOLATES WONKA. SÃO OS MELHORES DO MUNDO! SE NÃO ACREDITA, EXPERIMENTE UM — AGORA! E aí é só estender a mão e pegar! Que tal a idéia, hein? — exclamou o Sr. Wonka.
— Incrível! — exclamou Vovô José — Vai transformar o mundo!





continua...








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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE - capítulo 25





25
O ELEVADOR DE VIDRO


— Nunca vi nada igual! — exclamou o Wonka — As crianças estão sumindo como coelhos. Mas não se preocupem. Todos vão aparecer na lavagem.
O Sr. Wonka olhou o pequeno grupo ao seu lado, no corredor. Só haviam sobrado duas crianças — Miguel Tevel e Charlie Bucket. E três adultos — o Sr. e a Sra. Tevel e Vovô José.
— Vamos andando? — perguntou o Sr. Wonka.
— Vamos, vamos! — exclamaram Charlie e Vovô José, juntos.
— Estou ficando com os pés doloridos — disse Miguel Tevel — Quero assistir televisão.
— Se está cansado, é melhor tomarmos o elevador — disse o Sr. Wonka — Está ali. Vamos!
Aproximou-se de um par de portas duplas. As portas se abriram. As crianças e adultos entraram.
— E agora qual o botão que vamos apertar? Escolham! — disse o Sr. Wonka.
Charlie Bucket olhou à volta, atônito. Era o elevador mais doido do mundo. Tinha botões por todos os lados! As paredes e até o teto eram cobertos por fileiras e fileiras de botõezinhos pretos. Devia haver uns mil em cada parede e uns mil no teto! Logo Charlie percebeu que cada botão tinha um rotulozinho indicando uma sala. Era só apertar o botão da sala onde a gente quisesse ir.
— Não é um elevador comum, daqueles que sobem e descem — explicou o Sr. Wonka, todo orgulhoso — Ele anda para o lado, para a frente, em diagonal e de qualquer outro jeito que se possa imaginar! Leva a qualquer sala da fábrica, seja ela onde for. É só apertar o botão e zing!... ele começa a andar!
— Fantástico! — murmurou Vovô José. Os olhos dele brilhavam de entusiasmo diante daquelas inúmeras fileiras de botões.
— O elevador inteiro é de vidro grosso e transparente. Paredes, portas, teto, chão, tudo de vidro para a gente poder ver o que acontece lá fora! — explicou ainda o Sr. Wonka.
— Mas não há nada para ver — respondeu Miguel Tevel.
— Escolha um botão. Cada uma das crianças pode escolher dois botões. Escolham. Depressa! Em cada sala há alguma coisa deliciosa e maravilhosa sendo feita.
Charlie começou a ler os rótulos dos botões.

MINA DE DOCES ROCHOSOS — 10.000 pés de profundidade.
RINQUES DE PATINAÇÃO DE SORVETE DE COCO-COCA.
PISTOLAS DE SUCO DE MORANGO.
ÁRVORES DE MAÇÃ-CARAMELO PARA PLANTAR EM SEU JARDIM — todos os tamanhos.
DOCES EXPLOSIVOS PARA OS INIMIGOS.
PIRULITOS LUMINOSOS PARA CHUPAR NA CAMA, À NOITE.
JUJUBAS DE HORTELÃ PARA O VIZINHO — ficará com dentes verdes por um mês.
CARAMELOS TAMPA-CÁRIES — o dentista está dispensado!
GRUDA-QUEIXO PARA PAIS MUITO FALANTES.
DOCES MEXE-MEXE, QUE MEXEM DE UM JEITO GOSTOSO NA BARRIGA.
BARRAS DE CHOCOLATE INVISÍVEL PARA COMER NA CLASSE.
LÁPIS COBERTOS DE AÇÚCAR PARA CHUPAR.
PISCINAS DE LIMONADA EFERVESCENTE.
BOMBOM MÁGICO — você o segura na mão e sente o gosto na boca.
BALAS DE ARCO-ÍRIS — tinge seu cuspe em seis cores.

— Vamos, vamos! — gritava o Sr. Wonka — Não podemos ficar esperando o dia inteiro!
— No meio de tanta sala, será que não tem uma de televisão? — perguntou Miguel Tevel.
— Claro que tem. Aquele botão ali — apontou o Sr. Wonka. Todo mundo olhou. No rótulo estava escrito: CHOCOLATE-TELEVISÃO.
— Obaaa! — gritou Miguel Tevel — está pra mim!
Ele apertou o botão e na mesma hora fez-se um barulhão. As portas se fecharam e o elevador pulou como se tivesse sido picado por uma vespa, mas pulou de lado! Todos caíram no chão, menos o Sr. Wonka, que se segurou num cordão que descia do teto.
— Levantem, levantem! — gritou o Sr. Wonka, rolando de rir.
Mas, quando conseguiram ficar de pé, o elevador mudou de direção e fez uma curva violenta. Todos despencaram de novo.
— Socorro! — berrou a Sra. Tevel.
— Segure minha mão, madame — ofereceu, galante, o Sr. Wonka — Assim. E agora segure este cordão. Cada um se agarre a um cordão! A viagem ainda não acabou.
O velho Vovô José conseguiu equilibrar-se e agarrou um cordão. Charlie, que era pequeno, e não alcançava nenhum cordão, abraçou com força as pernas do avô.
O elevador continuou com a velocidade de um foguete. Logo começou a subir muito, como se estivesse escalando uma montanha íngreme. De repente, parecia que tinha chegado ao topo e estava despencando por um precipício, como se fosse uma pedra. O estômago de Charlie subiu à boca e Vovô José gritou:
— Opa-lá-lá! Lá vamos nós!
E a Sra. Tevel urrou:
— A corda arrebentou! Vamos nos esborrachar!
Dando-lhe um tapinha tranqüilizador no braço, o Sr. Wonka disse:
— Calma, minha senhora.
Vovô José olhou para Charlie, ainda agarrado às suas pernas.
— Você está bem, Charlie?
— Estou adorando — respondeu Charlie — parece uma montanha russa!
Através das paredes de vidro do elevador, eles vislumbravam algumas coisas estranhas e maravilhosas que aconteciam nas outras salas.
Uma mangueira enorme que esguichava um caldo marrom no chão...
Uma montanha de chocolate enorme e escarpada, cheia de umpa-lumpas, amarrados um ao outro com uma corda, que iam arrancando pedaços de chocolate das encostas...
Uma máquina que espirrava um pó branco, como uma tempestade de neve...
Um lago de caramelo soltando vapor...
Uma cidadezinha de umpa-lumpas cheia de casinhas e centenas de crianças umpa-lumpas, com menos de dez centímetros, brincando nas ruas...
O elevador foi aterrissando, e parecia estar despencando mais rápido do que nunca. Charlie ouvia o assobio do vento que batia, se enroscava, subia, descia...
— Vou vomitar! — berrou a Sra. Tevel, com a cara verde.
— Não vomite — pediu o Sr. Wonka.
— Tente me impedir! — disse a Sra. Tevel.
— Então é melhor usar isso — disse o Sr. Wonka, tirando a cartola da cabeça e colocando-a como se fosse um balde, na frente da boca da Sra. Tevel.
— Mande essa droga parar! — ordenou o Sr. Tevel.
— Não posso. Ele não pára enquanto não chegar. Só espero que ninguém esteja usando o outro elevador nesse momento.


— Que outro elevador? — gritou a Sra. Tevel.
— O que vai no sentido oposto, mas no mesmo trilho que esse — explicou o Sr. Wonka.
— Minha nossa! Quer dizer que podemos dar uma trombada? — gritou o Sr. Tevel.
— Eu sempre tive sorte — afirmou o Sr. Wonka.
— Agora vou vomitar mesmo! — berrou a Sra. Tevel.
— Não, não. Agora não. Já estamos chegando. Não vá estragar meu chapéu.
Os freios cantaram e o elevador diminuiu a velocidade até parar.
— Que corrida! — disse o Sr. Tevel, limpando o carão suado com um lenço.
— Nunca mais! — grasnou a Sra. Tevel.
As portas do elevador se abriram e o Sr. Wonka disse:
— Um minuto de atenção! Quero que todos tomem muito cuidado nesta sala. Aqui há substâncias perigosas e vocês não devem mexer com elas!




 continua...






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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE - capítulo 24



24
VEROCA NA SALA DAS NOZES


O Sr. Wonka continuou correndo pelo corredor. A porta seguinte trazia a seguinte inscrição: SALA DAS NOZES.
— Bem — disse o Sr. Wonka. — Vamos parar aqui um pouco, tomar fôlego e dar uma espiada pelo vidro da porta. Mas não entrem. Não entrem de jeito nenhum na Sala das Nozes, senão vão atrapalhar os esquilos!
Todos se amontoaram em volta da porta.
— Olhe, Vovô, olhe! — exclamou Charlie.
— Esquilos! — gritou Veroca Sal.
— Crikey! — disse Miguel Tevel.
Era uma cena incrível. Uma centena de esquilos sentados em banquinhos altos, em volta de uma mesa grande. Na mesa havia montes e montes de nozes, e os esquilos trabalhavam feito loucos, descascando as nozes a toda velocidade.
— Esses esquilos são especialmente treinados para tirar as nozes das cascas — explicou o Sr. Wonka.
— Por que usar esquilos? — perguntou Miguel Tevel. — Por que não usam umpa-lumpas?
— Porque os umpa-lumpas não conseguem tirar as nozes inteiras. Sempre as quebram no meio. Só os esquilos tiram sempre nozes inteiras. É dificílimo. Mas na minha fábrica faço questão de nozes inteiras. O jeito é contratar esquilos. Não é incrível como descascam essas nozes? Primeiro dão uma batidinha em cada uma com o nó dos dedos para ver se a noz é boa. Se não é, ela faz um barulho oco, e eles nem tentam abrir. Jogam no lixo. Olhem aquele esquilo que está aqui mais perto! Descobriu uma ruim!
Viram o esquilo bater na noz, inclinar a cabeça para o lado, escutar atentamente e jogar a noz por cima dos ombros, num buraco no chão.
— Ei, mamãe! — gritou Veroca Sal, de repente — Resolvi que quero um esquilo. Quero um esquilo desses.
— Não seja boba, filhinha. São todos do Sr. Wonka.
— Não me interessa! Quero um! Em casa só tenho dois cachorros e quatro gatos e seis coelhos e dois periquitos e três canários e um papagaio verde e uma tartaruga e um aquário de peixes dourados e uma gaiola de ratos brancos e hamsters. Eu quero um esquilo!
— Tudo bem, meu bichinho — acalmou a Sra. Sal — A mamãe vai arranjar um esquilo logo que puder!
— Mas não quero qualquer esquilo velho! — gritou Veroca — Quero um esquilo treinado!
A essa altura, o pai de Veroca, o Sr. Sal, deu um passo à frente.
— Muito bem, Wonka — disse ele, com ares de importância, tirando do bolso uma carteira cheia de dinheiro — Quanto quer por um desses esquilos? Diga o preço.
— Não estão à venda — respondeu o Sr. Wonka — Ela não vai poder ganhar nenhum.
— Quem disse que não vou? Vou pegar um para mim, e é já!
— Não faça isso! — avisou depressa o Sr. Wonka, mas já era tarde. A menina já tinha aberto a porta e entrado correndo.
Na hora que entrou os cem esquilos interromperam o que estavam fazendo e voltaram-se para a menina, encarando-a com seus olhinhos que pareciam pequenas contas pretas. Veroca Sal também parou e enfrentou o olhar deles, até que se fixou num esquilo bonitinho sentado perto dela, na ponta da mesa. O bicho estava segurando uma noz com as patas.
— Muito bem — disse Veroca — vai ser esse! Esticou as mãos para agarrar o esquilo... mas, assim que fez esse gesto, um movimento atravessou a sala, como se fosse um raio de luz marrom, e todos os esquilos voaram para cima da menina.
Vinte e cinco agarraram seu braço direito.
Vinte e cinco agarraram seu braço esquerdo.
Vinte e cinco agarraram sua perna direita.
Vinte e quatro agarraram sua perna esquerda.
E o esquilo que sobrou (obviamente o líder) subiu pelo ombro de Veroca e começou a dar coques na cabeça dela.
— Salvem minha filha — gritava a Sra. Sal — Veroca, volte aqui! O que estão fazendo com ela?
— Testando para ver se é uma noz estragada — disse o Sr. Wonka — Olhe bem!
Veroca lutava furiosamente, mas os esquilos a seguravam com força e ela não conseguia se mexer. O esquilo pendurado no seu ombro continuava a lhe dar coques na cabeça.
Então, de repente, os bichos puxaram Veroca para o chão e começaram a carregá-la pelo assoalho.
— Meu Deus, afinal de contas ela é uma noz estragada — comentou o Sr. Wonka — A cabeça dela deve ser bem oca.
Veroca se debatia e gritava, mas não adiantava. As patinhas seguravam firme e não a deixavam escapar.
— Para onde vão levá-la? — berrou a Sra. Sal.
— Para onde vão todas as nozes estragadas: para o cano de lixo — explicou o Sr. Wonka.
— Não é possível! Ela vai para o lixo? — perguntou a Sra. Sal olhando a filha pelo vidro — Então, salve-a, por favor.
— Tarde demais. Já foi — constatou o Sr. Wonka.
E já tinha ido, mesmo.
— Mas para onde? — urrava a Sra. Sal, girando os braços, sem saber o que fazer — O que acontece com as nozes estragadas? Onde vai dar o cano de lixo?
— Esse cano vai dar diretamente no cano maior que leva todo o lixo da fábrica: a sujeira que é varrida do chão, as cascas de batata, os repolhos podres, as cabeças de peixe e coisas assim.
— Gostaria de saber quem come peixe com repolho nesta fábrica — disse Miguel Tevel.
— Claro que sou eu — respondeu o Sr. Wonka. — Você não está pensando que eu vivo só de semente de cacau, não é?
— Mas... mas... mas — suplicava a Sra. Sal — onde é que vai dar, afinal, o cano grande de lixo?
— Ora, no forno, é claro — explicou o Sr. Wonka calmamente — No incinerador.
A Sra. Sal abriu o bocão vermelho e começou a gritar.
— Não se preocupe — tentou acalmá-la o Sr. Wonka — há sempre uma possibilidade de que o forno não tenha sido aceso hoje.


— Uma possibilidade? — berrou a Sra. Sal.
— Minha Veroca querida! Vai fritar como uma lingüiça!
— Exatamente, minha cara — disse o Sr. Sal.
— Agora vejamos, Wonka. Acho que desta vez você foi um pouco longe demais. Longe demais. Tenho que admitir que minha filha é meio rabugenta, mas isso não quer dizer que você pode assá-la até tostar. Quero que saiba que estou extremamente zangado, estou mesmo.
— Ora, não se zangue, meu caro. Acho que ela aparecerá, mais cedo ou mais tarde! Talvez nem tenha caído até lá embaixo. Pode estar encalhada na entrada e, se for esse o caso, é só puxá-la de volta.
Ao ouvir isso, o Sr. e a Sra. Sal entraram correndo na SALA DAS NOZES e debruçaram-se no buraco do cano.
— Veroca! — gritou a Sra. Sal.
Ninguém respondeu.
A Sra. Sal inclinou-se um pouco mais para ver melhor. Estava, agora, ajoelhada na beirada do buraco com a cabeça para baixo e o traseiro enorme para cima, como um cogumelo-gigante. Era uma posição perigosa. Um empurrãozinho no lugar certo... e foi exatamente isso o que os esquilos fizeram com ela!
A Sra. Sal despencou, de cabeça, cacarejando como um papagaio.
— Meu Deus do céu! — berrou o Sr. Sal ao ver sua mulher, tão gorda, descer pelo buraco do lixo — Quanto lixo vai ter hoje!
Viu a mulher desaparecer no escuro.
— Como vão as coisas por aí, Angina? — gritou ele, debruçando-se também sobre o buraco — Socorro! — gritou o Sr. Sal.
Mas ele já estava caindo de ponta-cabeça, e lá se foi pelo cano, exatamente como antes dele tinha ido a mulher — e a filha.
— Ah, que horror! — exclamou Charlie, que estava olhando pelo vidro da porta — O que vai acontecer com eles agora?
— Espero que alguém os segure no fim do cano — disse o Sr. Wonka.
— E o incinerador? — perguntou Charlie.
— Só o acendem dia sim, dia não. Talvez hoje seja o dia não. Quem sabe... É só ter sorte.
— Pssst! — murmurou Vovô José — Lá vem outra canção.
Ouvia-se no fim do corredor o bater de tambores e a música começou.

Sal demais em qualquer comida
Deixa a gente com a garganta ardida.
Veroca Sal não é sal, é criança,
Mas deixou entre nós ardida lembrança.
Mimada, estragada, entojada, briguenta,
Tem tudo o que quer e não se contenta.
Escreveu não leu ela chama o pai,
Só abre a boca e pede o que sai:
Brinquedos, doces, qualquer bugiganga.
Se é tempo de uva ela pede manga,
Se em casa tem doce ela pede salgado,
Se tem rapadura ela pede melado.
Se está na Itália quer ir pra Argentina,
Se está na praia quer ir pra piscina.
Exige e quer tudo o que sonha
E o pai obedece que nem um pamonha.
A mãe, outra tonta, está sempre aflita,
Naquela família só a filha é que apita.
Mas na fábrica quem manda é Seu Wonka
E a Veroca acabou levando uma bronca:
Você pensa que aqui está na sua casa?
Que pode pedir galinha sem asa
E querer transferir o Amazonas pro Nilo?
Pois só faltava querer um esquilo!
Pra uma menina com tanto capricho
O melhor lugar é no meio do lixo.
Mas não se preocupe, vai ter companhia,
Vai ter papel velho e caixa vazia,
Lasanha estragada ainda com molho,
Feijão azedo com resto de repolho,
Espinha de peixe, osso de galinha,
Casca de banana e lata sem sardinha.
Pra quem só conhece riqueza e luxo
Vai ser difícil agüentar o repuxo.
Mas pra Veroca é esse o remédio
Pra não acabar morrendo de tédio.
Pois essa mania de pedir só besteira
Bem lá no fundo é uma grande canseira.




continua...







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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE - capítulo 23




  
23
DOCES QUADRADOS E CURIOSOS


Todos pararam e se amontoaram na porta, que tinha a parte de cima de vidro. Vovô José ergueu Charlie para ele ver melhor o que tinha lá dentro. Charlie viu uma mesa comprida e, em cima dela, fileiras de doces branquinhos e quadrados. Pareciam cubinhos comuns de açúcar — só que em cima de cada um tinha uma carinha cor-de-rosa pintada. Na ponta da mesa, alguns umpa-lumpas iam pintando as caras nos doces.
— Aí está — exclamou o Sr. Wonka. — Doces quadrados e curiosos!
— Para mim são doces muito comuns! — disse Miguel Tevel.
— Comuns mesmo — disse Veroca Sal — São cubinhos de açúcar.
— Mas eles são comuns — disse o Sr. Wonka. — Eu nunca disse o contrário.
— O senhor disse que eles eram curiosos — disse Veroca Sal.
— E são mesmo — falou o Sr. Wonka.
— Curiosos por quê? — disse Veroca Sal — Não estou vendo nada de diferente.
— Veroca, minha querida — disse o Sr. Sal — Não dê ouvidos ao Sr. Wonka! Ele está inventando moda!
— Meu caro galo velho! — disse o Sr. Wonka. — Vá plantar coquinho!
— Como ousa falar comigo desse jeito? — gritou o Sr. Sal.
— Ora, fique quieto! — disse o Sr. Wonka.
— Vejam só uma coisa!
Tirou uma chave do bolso, destrancou a porta e a escancarou... e de repente... com o barulho, todos os docinhos voltaram os olhos para a porta, para ver quem era.
— Viram? — exclamou o Sr. Wonka triunfante — Estão querendo saber quem chegou. Como são curiosos esses doces quadrados!
— Meu Deus! Ele tem razão! — disse Vovô José.
— Venham — disse o Sr. Wonka, descendo pelo corredor — Vamos lá, não podemos perder tempo.
Numa porta onde passaram estava escrito: CARAMELOS DE GIN E DE UÍSQUE.
— Isso já parece mais interessante — disse o Sr. Sal, pai de Veroca.
— Maravilha — disse o Sr. Wonka — Os umpa-lumpas adoram! Aqui eles ficam meio altos. Escutem só a algazarra que estão fazendo!
Através da porta, ouviam-se guinchos, gargalhadas e cantoria.
— Estão bêbados feito gambás! — disse o Sr. Wonka. — Vamos indo, por favor! Não podemos perder tempo!
Virou à esquerda. Virou à direita. Chegaram a uma escada imensa. O Sr. Wonka desceu pelo corrimão. As crianças também. A Sra. Sal e a Sra. Tevel, as duas únicas mulheres que sobraram, estavam ficando sem fôlego. A Sra. Sal era gordona de pernas curtas, e bufava como um rinoceronte.
— Por aqui — gritou o Sr. Wonka, virando à esquerda no fim da escada.
— Devagar — implorou a Sra. Sal.
— Impossível! — disse o Sr. Wonka. — Senão não chegaremos em tempo!
— Não chegaremos aonde? — perguntou Veroca Sal.
— Não interessa! — disse o Sr. Wonka. — Espere para ver!






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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE - capítulo 22





22
NO CORREDOR


— Muito bem! — suspirou o Sr. Willy Wonka — duas crianças desagradáveis já se foram. Ficaram três comportadas. Acho melhor dar o fora dessa sala antes de perder mais alguém!
— Mas, Sr. Wonka — disse Charlie Bucket, ansioso — Será que Violeta Chataclete vai se curar, ou vai continuar amora para sempre?
— Num instante vão espremer todo o suco dela! — declarou o Sr. Wonka. — Vão colocá-la na máquina de fazer suco e ela vai sair fininha como um apito!
— Mas vai sair toda azul?  — perguntou Charlie.
— Não, roxa! — gritou o Sr. Wonka. — Roxinha, da cabeça aos pés! Mas o que você esperava? É o mínimo que pode acontecer para quem fica o tempo todo mascando esses chicletes horríveis!
— Se o senhor acha que é uma coisa tão ruim — disse Miguel Tevel — por que fabrica chicletes?
— Gostaria que você parasse de resmungar — disse o Sr. Wonka. — Não consigo entender uma palavra do que está dizendo! Vamos! Venham atrás de mim, depressa! Vamos entrar outra vez nos corredores!
E, dizendo isso, o Sr. Wonka correu até a extremidade da Sala das Invenções e saiu por uma portinha secreta, por trás de chaminés e fogões. As três crianças — Veroca Sal, Miguel Tevel, Charlie Bucket — e os cinco adultos o seguiram.
Charlie Bucket viu que estavam de volta a um daqueles corredores cor-de-rosa, compridos, de onde saíam outros corredores cor-de-rosa. O Sr. Wonka corria na frente, virando à esquerda e à direita, à direita e à esquerda, e Vovô José dizia:
— Segure bem a minha mão, Charlie! Deve ser um horror perder-se aqui!
O Sr. Wonka resmungava:
— Chega de conversa! Nessa moleza não vamos chegar a lugar nenhum!
E continuava pelos corredores rosados, com o chapéu preto encarapitado na cabeça e as abas do fraque cor de ameixa voando atrás dele como uma bandeira ao vento.
Passaram por uma porta.
— Não dá tempo para entrar! — gritou o Sr. Wonka — Depressa! Mais depressa!
Passaram por outra porta, e outra, e outra. Agora, havia uma porta a cada vinte passos, no corredor, todas com alguma coisa escrita. Por trás delas ouviam-se barulhos estranhos, e cheiros deliciosos escapavam pelas fechaduras. De vez em quando um jato de vapor colorido passava espremido através das frestas.
Vovô José e Charlie andavam quase correndo para alcançar o Sr. Wonka, mas mesmo assim conseguiam ler o que estava escrito em algumas portas. TRAVESSEIROS COMESTÍVEIS DE MARIA-MOLE.
— Travesseiros de maria-mole são uma delícia! — gritou o Sr. Wonka ao passar pela porta — Vão fazer um sucesso estrondoso quando chegarem às lojas! Mas não dá tempo para entrar! Não dá tempo!
PAPEL DE PAREDE LAMBÍVEL PARA QUARTOS DE CRIANÇAS, estava escrito em outra porta.
— Ah, o papel lambível é uma glória! — exclamou o Sr. Wonka, na corrida — Tem desenho de frutas: bananas, maçãs, laranjas, uvas, abacaxis, morangos e dorminhocabas.
— Dorminhocabas? — perguntou Miguel Tevel.
— Não interrompa! — zangou-se o Sr. Wonka — O papel tem figuras de todas essas frutas, e quando a gente lambe o desenho de uma banana sente gosto de banana. Quando lambe um morango, o sabor é de morango. E quanto a gente lambe uma dorminhocaba, sente direitinho o gosto de dorminhocaba...
— E que gosto tem dorminhocaba?
— Pronto, já começou a resmungar de novo — disse o Sr. Wonka — Da próxima vez, fale mais alto. Vamos lá! Depressa!
SORVETES QUENTES PARA DIAS FRIOS, anunciava outra porta.
— Extremamente útil para o inverno — comentou o Sr. Wonka, sem parar a correria — O sorvete quente aquece a gente em dias gelados. Também produzo cubos de gelo quente para colocar em bebidas quentes. Os cubos de gelo fazem as bebidas que já são quentes ficarem mais quentes ainda.
Outra porta: VACAS QUE DÃO LEITE COM CHOCOLATE.
— Ah, minhas vaquinhas queridas! Como adoro essas vacas! — gritou o Sr. Wonka.
— Por que não podemos vê-las? — perguntou Veroca Sal — Por que temos que passar correndo, sem entrar nessas salas maravilhosas?
— Vamos parar quando for hora! — avisou o Sr. Wonka — Que impaciência!
BEBIDAS ESPUMANTES QUE LEVANTAM O ÂNIMO, outra porta.
— Ah, estas são fabulosas! Enchem a gente de bolhas, e as bolhas contêm um gás animador especial. Esse gás levanta tanto o ânimo, que a pessoa vai subindo como um balão, até bater com a cabeça no teto e... fica lá em cima.
— Mas como a gente faz para descer? — perguntou Charlie.
— É só arrotar. A pessoa dá um arroto bem forte, o gás sobe e ela desce! Mas não se deve tomar essa bebida ao ar livre! Nunca se sabe a que altura se pode subir. Certa vez eu dei um pouco para um velho umpa-lumpa beber, no quintal, e ele subiu, subiu até sumir. Foi uma tristeza. Nunca mais nós o vimos.
— Ele deveria ter arrotado? — perguntou Charlie.
— Claro, deveria ter arrotado. Fiquei berrando aqui embaixo: “Arrote, seu burro, senão você nunca mais vai descer!” Mas ele não quis ou não conseguiu. Talvez fosse educado demais para arrotar. A essas alturas já deve estar na Lua.
Na porta seguinte estava escrito: DOCES QUADRADOS E CURIOSOS.
— Esperem! — gritou o Sr. Wonka, parando de repente — Tenho um orgulho imenso dos meus doces quadrados e curiosos. Vamos dar uma olhadinha.






continua...








Frase Curiosa: Conjugando o verbo Facebook: Eu posto, Tu comentas, Ele curte, Nós compartilhamos, Vós publicais, Eles riem, Ninguém trabalha.
Frase CuriosaErrar é humano. Colocar a culpa em alguém é estratégico.