domingo, 30 de outubro de 2011

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei - Capítulo 11








LIVRO VI







— Capítulo I —
A Torre De Cirith Ungol




Sam levantou-se do chão com muito esforço. Por um momento perguntou-se onde estava, e então toda a desgraça e o desespero retornaram á sua mente. Estava numa escuridão profunda do lado de fora do portão inferior da fortaleza dos orcs, as portas de bronze estavam fechadas. Certamente ele caíra sem sentidos quando arremessou o corpo contra elas, mas quanto tempo ficara ali deitado não sabia dizer.
Naquela hora estivera fervendo, desesperado e furioso, agora tremia de frio. Arrastou-se até as portas e colou o ouvido contra elas. De um ponto distante lá dentro conseguia escutar vozes de orcs gritando, mas logo cessaram ou ficaram fora do alcance de seus ouvidos, e tudo era silêncio. A cabeça lhe doía, e os olhos viam luzes fantasmagóricas na escuridão, mas ele lutava para se firmar e pensar. De qualquer maneira, estava claro que não havia esperança de entrar na fortaleza dos orcs por aquele portão, ele poderia ficar ali aguardando durante dias antes que se abrisse, e não havia tempo para esperar, o tempo era desesperadamente precioso. Sam não tinha mais dúvidas sobre o seu dever: deveria resgatar seu mestre ou perecer na tentativa.
— É mais provável que eu pereça, e de qualquer modo vai ser bem mais fácil — disse ele num ar severo para si mesmo, recolocando Ferroada na bainha e dando as costas para as portas de bronze.
Devagar foi tateando o caminho de volta no escuro ao longo do túnel, sem coragem de usar a luz élfica, enquanto avançava, tentava recapitular os acontecimentos desde que Frodo e ele haviam partido da Encruzilhada. Perguntava-se que horas seriam. Algum ponto entre um dia e o próximo, supunha ele, mas até mesmo dos dias ele perdera a conta. Estava numa terra de escuridão, onde os dias do mundo pareciam esquecidos e onde todos os que entravam também eram esquecidos.
— Queria saber se em algum momento eles pensam em nós — disse ele — E o que está acontecendo lá longe.
Acenou com a mão no ar num gesto vago, mas agora na verdade estava virado para o Sul, voltando ao túnel de Laracna, e não para o Oeste.
No mundo lá fora, no lado Oeste aproximava-se o meio-dia do décimo quarto dia de Março, de acordo com o Registro do Condado, e nesse momento Aragorn conduzia a frota negra saindo de Pelargir, e Merry cavalgava com os rohirrim, descendo o Vale das Carroças de Pedra, enquanto em Minas Tirith subiam as chamas e Pippin observava a loucura crescendo nos olhos de Denethor. Apesar disso, em meio a todas as preocupações e temores, os pensamentos de seus amigos voltavam-se constantemente para Frodo e Sam. Eles não tinham sido esquecidos. Mas estavam fora do alcance de qualquer ajuda, e nenhum pensamento poderia trazer qualquer socorro para Samwise, filho de Hamfast, por isso, ele estava completamente sozinho.
Por fim chegou de volta à porta de pedra do corredor dos orcs, e ainda sem poder descobrir a tranca ou o ferrolho que a mantinha fechada, arrastou-se por cima da mesma forma que antes e deixou-se cair delicadamente no chão. Então avançou furtivamente até a saída do túnel de Laracna, onde os farrapos de sua grande teia ainda balançavam no vento frio. Pois frio lhe parecia o vento, depois da escuridão desagradável que deixara para trás. Mas o seu sopro fez o hobbit reviver.
Arrastou-se com cautela para fora.
Tudo estava funestamente quieto. A luz não passava daquela que se tem no crepúsculo ao fim de um dia escuro. A enorme quantidade de vapor que subia em Mordor e ia flutuando em direção ao Oeste ia passando baixo, uma grande onda de fumaça e nuvens agora iluminada outra vez embaixo por um vermelho sombrio.
Sam ergueu os olhos para a torre dos orcs, e de repente, das estreitas janelas, luzes espiaram como pequenos olhos vermelhos. Pensou se aquilo não era algum sinal. O medo que sentira dos orcs, esquecido por um tempo em sua ira e desespero, agora retornava. Pelo que podia ver, havia um único caminho possível a tomar: deveria ir em frente tentando achar a entrada principal da pavorosa torre, mas sentia os joelhos fracos, e percebeu que estava tremendo. Desviando os olhos da torre e dos chifres da fenda diante dele, forçou seus pés relutantes a lhe obedecerem e, devagar, escutando com a máxima atenção, espiando para dentro das densas sombras das rochas ao lado do caminho, refez seus passos, passando pelo lugar onde Frodo caíra, onde ainda perdurava o fedor de Laracna, e depois foi adiante e para cima, até chegar de novo exatamente na fenda onde colocara o Anel e vira passar a Companhia de Shagrat.
Então parou e sentou-se. Por um momento não conseguiu forçar-se a avançar mais. Sentia que, se transpusesse o topo da passagem e se realmente desse um passo descendo e penetrando a Terra de Mordor, esse passo seria irrevogável. Nunca mais poderia voltar. Sem qualquer propósito claro, puxou o Anel e colocou-o de novo no dedo. Imediatamente sentiu o grande fardo de seu peso, e sentiu de novo, agora mais forte e opressiva que nunca, a malícia do Olho de Mordor, perscrutando, tentando penetrar as sombras que fizera para a própria defesa, mas que nesta hora o atrapalhavam em sua inquietude e dúvida.
Como antes, Sam sentiu sua audição aguçada, enquanto para seus olhos as coisas deste mundo pareciam tênues e vagas. As muralhas rochosas da trilha estavam pálidas, como se vistas através de uma névoa, mas ainda na distância Sam ouvia o borbulhar de Laracna em sua desgraça, e roucos e claros, parecendo estar bem próximos, ouviu o som de gritos e o entrechoque de metais. Saltou de pé e forçou o corpo contra a muralha que margeava a trilha. Estava feliz por ter o Anel, pois ali já vinha outra companhia de orcs em marcha. Ou pelo menos foi assim que pensou a princípio. Então, de súbito, percebeu que não se tratava disso, e que sua audição o enganara: os gritos dos orcs vinham da torre, cujo chifre mais alto erguia-se agora bem diante dele, do lado esquerdo da Fenda.
Sam estremeceu e tentou forçar-se a avançar. Era claro que alguma maldade estava acontecendo. Talvez, a despeito de todas as ordens, os orcs, dominados por sua crueldade, estivessem torturando Frodo, ou até mesmo partindo-o aos pedaços com selvageria. Ficou escutando, e teve um laivo de esperança. Não poderia haver muita dúvida: havia luta na torre, os orcs deviam estar lutando entre si, Shagrat e Gorbag haviam chegado as vias de fato. Apesar de ser uma esperança fugidia a que lhe trouxera a sua suposição, foi o suficiente para despertá-lo. Só poderia haver uma chance. Seu amor por Frodo se elevou acima de todos os outros pensamentos, e, esquecendo o perigo, Sam gritou:
— Estou chegando, Sr. Frodo!
Correu para o topo da trilha ascendente e foi adiante. De súbito o caminho fez uma curva para a esquerda e mergulhou vertiginosamente. Sam cruzara o limiar de Mordor. Retirou o Anel, movido talvez por alguma premonição profunda de perigo, embora consigo mesmo pensasse apenas que desejava enxergar mais claro.
— É melhor dar uma olhada no pior — murmurou ele — Não adianta ir tropeçando na neblina!
Seu olhar deparou com uma terra dura, cruel e amarga. Diante de seus pés o maciço mais alto dos Ephel Dúath caía vertiginosamente em grandes penhascos, para dentro de uma grande vala, que do outro lado subia num outro maciço, muito mais baixo, com uma borda chanfrada e denteada, com rochedos semelhantes a presas que se sobressaíam negras contra um fundo de luz vermelha: era o sinistro Morgai, o circulo interno das fronteiras da terra. Muito além dele, mas quase em linha reta, através de um amplo lago de escuridão salpicado por pequenas fogueiras, havia um grande clarão de fogo, dele subia em enormes colunas uma fumaça em torvelinhos, de um vermelho empoeirado na parte inferior, negra na parte de cima, onde se misturava à abóbada ondulada que toldava toda aquela terra maldita.
Sam estava olhando para Orodruin, a Montanha de Fogo.
De vez em quando, as fornalhas bem abaixo de seu pico de cinzas despejavam, em meio a grandes ondas e convulsões, rios de rocha fundida, saídos de fendas em suas encostas. Alguns corriam reluzindo na direção de Barad-dûr por grandes canais, outros traçavam um caminho sinuoso e entravam na planície de pedra, até se resfriarem e se deitarem como formas retorcidas de dragões, o vômito da atormentada terra.
Sam avistou a Montanha da Perdição, e a sua luz, escondida pelo alto escudo dos Ephel Dúath dos olhos daqueles que subiam pela estrada do Oeste, agora brilhava contra as rígidas encostas rochosas, de modo que pareciam estar banhadas de sangue.
Naquela luz aterrorizante Sam parou atônito, pois agora, olhando à esquerda, ele conseguia divisar a Torre de Cirith Ungol em toda a sua força. O chifre que vira do outro lado era apenas o torreão mais alto. Seu lado Leste projetava-se em três grandes patamares sobre uma saliência na encosta da montanha lá embaixo, sua parte posterior dava para um grande penhasco, do qual saíam baluartes pontiagudos, um sobre o outro, que iam diminuindo ao subirem, com laterais perpendiculares de habilidosa alvenaria com faces para o nordeste e o sudeste. Ao redor do patamar mais baixo, sessenta metros abaixo de onde estava Sam, havia uma parede com ameia que contornava um pequeno pátio. Seu portão, que ficava na encosta sudeste, abria-se para uma estrada larga, cujo parapeito externo corria sobre a borda de um precipício, até virar-se para o Sul e continuar numa descida sinuosa na escuridão, para unir-se à estrada que vinha da Passagem de Morgul. Por ela então atravessava uma fissura denteada no Morgai e saía para o vale de Gorgoroth e para Barad-dûr. O estreito caminho superior no qual Sam estava saltava rapidamente para baixo através de degraus e de uma trilha íngreme, até encontrar a estrada principal sob as muralhas sinistras próximas ao Portão da Torre.
Olhando tudo aquilo Sam de repente entendeu, quase tendo um choque, que aquela fortaleza não fora construída para manter os inimigos fora de Mordor, mas para prendê-los lá dentro. Na realidade era um dos trabalhos realizados muito tempo atrás por Gondor, um posto avançado das defesas de Ithilien no Leste, feito quando, depois da Última Aliança, os homens do Ponente passaram a vigiar a terra maligna de Sauron, onde suas criaturas ainda rondavam. Mas como aconteceu com Narchost e Carchost, as Torres dos Dentes, aqui também a vigilância fracassara, e a traição entregara a Torre para o Senhor dos Espectros do Anel, e agora por longos anos ela estivera sob a posse de seres malignos. Desde seu retorno a Mordor, Sauron a considerara útil, pois ele tinha poucos servidores mas muitos escravos do terror, e o principal escopo da torre era ainda, como sempre, evitar a fuga de Mordor. Caso um inimigo fosse tão temerário a ponto de tentar entrar naquela terra secretamente, a torre então era também um último guarda que nunca dormia, vigiando qualquer um que pudesse burlar a vigilância de Morgul e de Laracna.
Sam percebeu muito claramente como seria sem esperança a sua tentativa de se arrastar sob aquelas paredes de muitos olhos e passar pelo portão vigilante. E, mesmo que conseguisse, não poderia avançar muito na estrada vigiada: nem mesmo as sombras negras, que pairavam nas profundezas onde o brilho vermelho não alcançava, poderiam protegê-lo por muito tempo dos orcs e de seus olhos noturnos. Mas, mesmo que a estrada não oferecesse esperanças, sua tarefa agora era muito pior, não se tratava de evitar o portão e escapar, mas de entrar por ele, sozinho.
Seu pensamento voltou-se para o Anel, mas ali não havia consolo, só terror e perigo. Logo que conseguira avistar a Montanha da Perdição, queimando na distância, Sam percebeu uma mudança em seu fardo. A medida que se aproximava das grandes fornalhas onde, nas profundezas do tempo, o Anel fora forjado e moldado, seu poder crescia e ficava mais cruel, não podendo ser controlado a não ser que houvesse alguma vontade poderosa. E no momento em que Sam parara ali, mesmo sem usar o Anel, tendo-o apenas pendurado ao pescoço, ele próprio se sentiu maior, como se estivesse vestindo uma enorme sombra distorcida de si mesmo, uma ameaça enorme e ominosa parada sobre as muralhas de Mordor.
O hobbit sentia que de agora em diante só tinha duas escolhas: abster-se do Anel, embora isso pudesse torturá-lo, ou reivindicá-lo, desafiando o poder que se sentava em seu escuro domínio além do vale de sombras. O Anel já o tentava, devorando sua vontade e raciocínio. Fantasias loucas despertavam em sua mente, e ele via Samwise, o Forte, Herói do seu Tempo, caminhando a passos largos com uma espada flamejante através da terra escurecida, e exércitos se arrebanhando a um chamado seu, no momento em que marchava para derrotar Barad-dûr. E então todas as nuvens se dissipavam, e o sol branco brilhava, e a uma ordem sua o vale de Gorgoroth se transformava num jardim de flores e árvores que davam frutos. Ele só tinha de colocar o Anel e reivindicar a sua posse, e tudo isso podia acontecer.
Naquela hora de provação, foi o amor por seu mestre que mais o ajudou a manter-se firme, mas também, no fundo de seu ser, ainda vivia independente seu senso simples de hobbit: sabia em seu coração que não era grande o suficiente para carregar tal fardo, mesmo que aquelas visões não fossem apenas uma mera ilusão para atraiçoá-lo. O pequeno jardim de um jardineiro livre era tudo o que desejava e de que precisava, não um jardim expandido em um reino, queria trabalhar com as próprias mãos, e não ter as mãos dos outros para comandar.
— E de qualquer forma todas essas sensações são apenas uma armadilha — disse ele para si mesmo — Ele me acharia e me faria morrer de medo antes que conseguisse sequer gritar. Ele me acharia bem rápido, se eu colocasse o Anel aqui em Mordor. Bem, tudo o que posso dizer é: as coisas parecem desastrosas como uma geada na primavera. Bem na hora em que estar invisível seria realmente útil, não posso usar o Anel! E, se conseguir avançar mais um pouco, ele não vai passar de um fardo e um peso a cada passo. Então, que devo fazer?
Na verdade, ele não estava em dúvida. Sabia que precisava descer até o portão e não ficar ali por mais tempo. Com um dar-de-ombros, como se quisesse afastar a sombra e livrar-se dos fantasmas, começou a descer lentamente. A cada passo tinha a impressão de que diminuía. Não tinha ido muito longe e já se via reduzido de novo ao tamanho de um hobbit bem pequeno e amedrontado. Estava agora passando sob as próprias muralhas da Torre, e os gritos e ruídos de luta podiam ser ouvidos sem a ajuda do Anel. No momento, o barulho parecia estar vindo do pátio que ficava atrás da muralha externa.
Sam estava no meio de sua descida pela trilha quando do portão escuro vieram dois orcs correndo, surgindo no clarão vermelho. Não se viraram para ele. Estavam se dirigindo para a estrada principal, mas enquanto corriam tropeçaram e caíram no chão, ficando imóveis. Sam não vira flechas, mas supunha que os orcs tinham sido feridos por outros que estavam nas ameias ou escondidos na sombra do portão. Avançou, encostando-se na muralha à esquerda. Um olhar para cima lhe revelara que não havia possibilidade de escalá-la.
O trabalho em pedra se erguia a uma altura de nove metros, sem qualquer rachadura ou patamar, até atingir saliências que pareciam degraus invertidos. O portão era o único caminho.
Para a frente, e, enquanto avançava, perguntava-se quantos orcs viviam na Torre com Shagrat, e quantos Gorbag tinha, e qual seria o motivo de sua discussão, se era isso o que estava acontecendo. Tivera a impressão de que a companhia de Shagrat era composta de quarenta elementos, e a de Gorbag lhe parecia mais de duas vezes maior, mas sem dúvida a patrulha de Shagrat representara apenas uma parte de sua guarnição. Era quase certeza que estavam discutindo sobre Frodo e o espólio. Por um segundo Sam parou, pois de repente as coisas lhe pareceram claras, como se as tivesse visto com os próprios olhos.
O casaco de mithril!
Era claro, Frodo o estava vestindo, e eles o achariam. E, pelo que Sam pudera ouvir, Gorbag o cobiçava. Mas as ordens da Torre Escura eram agora a única proteção de Frodo, e, se fossem ignoradas, ele poderia ser morto a qualquer momento.
— Vamos lá, seu preguiçoso miserável! — exclamou Sam para si mesmo — Agora, vamos! — sacou Ferroada e correu na direção do portão aberto.
Mas, no momento em que estava prestes a passar embaixo do grande arco, sentiu um choque: como se tivesse batido contra alguma teia como a de Laracna, mas desta vez invisível. Não conseguia enxergar obstáculo algum, mas algo forte demais para que pudesse superar pela força de sua vontade barrava-lhe o caminho. Olhou ao redor, e então dentro da sombra do portão viu as Duas Sentinelas.
Eram como grandes figuras sentadas em tronos. Cada uma tinha três corpos unidos, e três cabeças olhando para fora, e para dentro, e através do portão.
As cabeças tinham caras de abutres, e em seus grandes joelhos descansavam mãos em forma de garras. Pareciam ter sido entalhadas em enormes blocos de pedra, imóveis, e apesar disso estavam vigilantes: algum espírito terrível de vigilância maligna morava nelas. Conheciam quem era um inimigo. Visível ou invisível, ninguém poderia passar despercebido.
Proibiriam sua entrada, ou sua fuga.
Forçando sua disposição, Sam lançou o corpo outra vez para a frente, e parou com um solavanco, cambaleando como se tivesse levado um murro na cabeça e no peito. Então, com enorme ousadia, porque não conseguia pensar em mais nada, respondendo a um pensamento repentino que lhe ocorreu, puxou lentamente o frasco de Galadriel e o ergueu. Rápido a luz branca ganhou vida, e as sombras sob o arco escuro fugiram. As monstruosas Sentinelas continuavam ali sentadas, frias e imóveis, reveladas em toda a sua forma hedionda. Por um momento Sam capturou um faiscar nas pedras negras de seus olhos, cuja própria malícia o fez vacilar, mas lentamente sentiu que a vontade delas titubeava e desmoronava de medo. Passou por elas num salto, mas no momento em que fazia isso, escondendo o frasco de volta em seu peito, percebeu nitidamente, como se uma barra de aço tivesse descido de súbito atrás dele, que a vigilância fora renovada. E daquelas cabeças malignas veio um grito agudo que ecoou nas altas muralhas diante dele. Lá em cima, como um sinal em resposta, um sino estridente emitiu um único toque.
— Tudo acabado! — disse Sam — Agora toquei a campainha da porta da frente! Bem, que alguém apareça! — gritou ele — Digam ao Capitão Shagrat que o grande Guerreiro Élfico está aqui, e veio com sua espada élfica!
Não houve resposta. Sam avançou a passos largos. Ferroada emanava um brilho azul em sua mão. O pátio estava envolto em sombras, mas ele podia ver que a calçada estava coberta de corpos. Bem aos seus pés estavam dois arqueiros-orcs com facas enfiadas nas costas. Mais além jaziam muitas outras formas, algumas sozinhas, pois haviam sido golpeadas ou flechadas, outras em pares, uma ainda agarrada à outra, mortas em meio ao espasmo de golpear, esganar, morder. As pedras, borrifadas com sangue escuro, estavam escorregadias.
Sam notou dois uniformes, um marcado com o Olho Vermelho, o outro com uma Lua desfigurada, representando um rosto fantasmagórico de morte, mas ele não parou para olhar mais atentamente. Do outro lado do pátio, uma grande porta ao pé da Torre estava entreaberta, e uma luz vermelha escapava por ela, um grande orc jazia morto no limiar. Sam saltou por sobre o corpo e entrou, depois olhou em volta, perdido. Um corredor largo e retumbante conduzia da porta para a encosta da montanha. Estava parcamente iluminado com tochas de chamas trêmulas presas a suportes nas paredes, mas seu fim distante se perdia na escuridão. Podiam-se ver muitas portas e aberturas dos dois lados, mas o corredor estava vazio, a não ser por mais dois ou três corpos esparramados no chão.
Pelo que ouvira da conversa do capitão, Sam sabia que, vivo ou morto, Frodo poderia mais provavelmente ser encontrado num cômodo bem em cima do torreão superior, mas poderia levar um dia de buscas antes que Sam achasse o caminho.
— Suponho que fique perto dos fundos — murmurou Sam — Toda a Torre sobe inclinando-se para trás. E, de qualquer forma, é melhor que eu siga essas luzes.
Avançou pelo corredor, mas agora devagar, cada passo mais relutante que o anterior. O terror estava começando a dominá-lo outra vez. Não se ouvia qualquer som, exceto a batida de seus pés, que parecia aumentar num barulho ecoante, como o estapear de grandes mãos sobre as rochas. Os cadáveres, o vazio, a umidade das paredes negras que à luz das tochas parecia sangue escorrendo, o medo de uma morte súbita espreitando em alguma porta ou sombra, e atrás de tudo em sua mente a malícia vigilante e atenta no portão: tudo aquilo quase ultrapassava o que ele podia forçar-se a enfrentar.
Sam teria preferido uma luta, não com muitos inimigos de uma só vez, àquela hedionda e crescente incerteza. Fez um esforço para pensar em Frodo, acorrentado, sofrendo ou morto em algum ponto daquele lugar aterrorizante. Continuou a avançar. Já ultrapassara além da luz das tochas, quase chegando a uma grande porta em arco no fim do corredor, o lado interno do portão inferior, como corretamente supusera, quando ouviu lá de cima um guincho horrível e estrangulado.
Parou de repente. Então ouviu passos se aproximando. Alguém estava correndo a uma grande velocidade, descendo por uma escada ecoante acima de onde Sam estava. Sua força de vontade foi muito fraca e lenta para impedir-lhe o movimento da mão, que buscou a corrente e agarrou o Anel. Mas Sam não o colocou no dedo, pois, no momento em que o agarrava junto ao peito, um orc veio descendo aos trambolhões. Saltando de um buraco escuro à direita, correu na direção de Sam. Já estava a menos de seis passos quando, erguendo a cabeça, viu o hobbit, e Sam pôde ouvir sua respiração entrecortada e ver o brilho em seus olhos injetados de sangue.
A criatura parou de repente, aterrorizada, pois o que viu não foi um hobbit pequeno e amedrontado que tentava empunhar uma espada com firmeza: diante de seus olhos estava um grande vulto silencioso, coberto por uma sombra cinzenta, assomando contra a luz vacilante atrás de si, em uma mão segurava uma espada, cuja própria luz já representava uma dor terrível, e a outra estava fechada contra o peito, mas escondia alguma inominável ameaça de força e destruição.
Por um momento o orc ficou agachado, e depois, com um grito hediondo de medo, virou-se e fugiu correndo por onde viera. Diante daquela fuga inesperada, Sam sentiu-se mais encorajado do que qualquer cachorro quando vê o inimigo virar as costas e correr apavorado. Com um grito correu ao encalço dele.
— Sim, o Guerreiro Élfico está à solta! — gritou ele — Estou chegando. Você me mostra o caminho até lá em cima, ou vou arrancar-lhe a pele!
Mas o orc estava em seus próprios domínios, era ligeiro e bem-nutrido. Sam era um forasteiro, faminto e cansado. Os degraus eram muitos, íngremes e sinuosos. Sam começou a ter dificuldades para respirar. O orc logo sumiu de vista, e agora mal se ouviam as fracas batidas de seus pés em fuga para o alto. Às vezes dava um grito, cujo eco percorria as paredes. Mas lentamente todo o ruído silenciou.
Sam avançava a duras penas. Sentia que estava no caminho certo, e sua disposição melhorara bastante. Guardou o Anel e apertou o cinto.
— Bem, bem! — disse ele — Se pelo menos todos eles sentirem por mim e minha Ferroada uma aversão semelhante, isso pode acabar melhor do que eu esperava. E, de qualquer forma, parece que Shagrat, Gorbag e companhia já fizeram quase todo o trabalho por mim. Com a exceção daquele pequeno rato apavorado, acho que não resta ninguém vivo no lugar! — ao dizer isso parou, de súbito, como se tivesse batido a cabeça contra a parede de pedra.
O pleno significado do que dissera surpreendeu-o como um murro. Não resta ninguém vivo! De quem fora aquele horrível grito agudo de morte?
— Frodo, Frodo! Mestre! — gritou ele aos soluços — Se eles o mataram, que farei? Bem, estou chegando finalmente, exatamente ao topo, e verei o que houver para ser visto.
Foi subindo sem parar. Estava escuro, a não ser por uma tocha ocasional, bruxuleando numa curva, ou ao lado de alguma abertura que conduzia para os níveis superiores da Torre. Sam tentou contar os degraus, mas depois de duzentos perdeu a conta. Agora se movia sem fazer ruído, pois tinha a impressão de poder ouvir o som de vozes conversando, ainda bem acima. Restava mais de um rato vivo, ao que parecia.
De repente, quando sentia que não poderia mais respirar, e que seus joelhos já não teriam forças para se dobrar de novo, a escada terminou.
Sam ficou imóvel. As vozes agora soavam altas e próximas. Espiou ao redor. Tinha subido direto para o teto plano do terceiro e mais alto patamar da Torre: um espaço aberto, de cerca de vinte metros de largura, com um parapeito baixo. Ali a escada era coberta por um cômodo pequeno e abobadado no meio do teto, com portas baixas que davam para o Leste e para o Oeste. À Leste Sam conseguia enxergar a planície de Mordor, vasta e escura lá embaixo, e a montanha incandescente na distância. Um novo tumulto estava começando em seus profundos poços, e os rios de fogo reluziam com tanta força que mesmo numa distância de muitas milhas a sua luz iluminava o topo da torre com um clarão vermelho. À Oeste a visão ficava bloqueada pela base do grande torreão que se erguia atrás deste pátio superior, e projetava seu chifre bem acima da borda das colinas circundantes. Uma luz vinha da fenda de uma janela. A porta ficava a menos de dez metros de onde se encontrava Sam. Estava aberta, mas escura, e de suas sombras vinham as vozes.
No inicio Sam não prestou atenção, afastou-se um passo da porta Leste e olhou ao redor. Imediatamente viu que lá em cima a luta fora acirradíssima. Todo o pátio estava abarrotado de orcs mortos, ou ainda de cabeças e pernas decepadas. O lugar fedia a morte. Um rosnado seguido de um golpe e um grito mandou Sam de volta para seu esconderijo feito flecha. Uma voz de orc se ergueu furiosa, e Sam a reconheceu na hora, rouca, brutal, fria.
Era Shagrat, o Capitão da Torre, falando.
— Está dizendo que não vai outra vez? Maldito Snaga, seu pequeno verme! Se acha que estou tão machucado que você pode zombar de mim, está errado. Venha aqui, e vou arrancar seus olhos, como acabei de fazer com Radbug. E, quando outros rapazes vierem, vou cuidar de vocês: vou enviá-los para Laracna.
— Eles não virão, não antes que você esteja morto, de qualquer forma — respondeu Snaga zangado — Eu lhe disse duas vezes que os porcos de Gorbag chegaram ao portão primeiro, e nenhum dos nossos voltou de lá. Lagduf e Muzgash atravessaram correndo, mas foram alvejados. Vi de uma janela, estou lhe dizendo. E eles eram os últimos.
— Então você deve ir. Eu preciso ficar aqui, de qualquer forma. Mas estou ferido. Que os Abismos Negros recebam aquele rebelde nojento do Gorbag!
A voz de Shagrat começou a enfileirar uma série de palavrões e pragas.
— Dei-lhe mais do que recebi, mas ele me apunhalou, aquele estrume, antes que eu o estrangulasse. Você deve ir, ou vou devorá-lo. As notícias devem chegar a Lugbúrz, ou nós dois acabaremos nos Abismos Negros. É sim, você também. Não vai escapar se escondendo aqui.
— Não vou descer esses degraus de novo — rosnou Snaga — Seja você capitão ou não. Não! Tire as mãos de sua faca, ou vou enfiar uma flecha em suas tripas. Você não será capitão por muito tempo quando Eles ouvirem sobre tudo o que aconteceu. Lutei pela Torre, contra aqueles ratos fedorentos de Morgul, mas vocês dois, os capitães, fizeram uma bela bagunça lutando pelo espólio.
— Já chega! — rosnou Shagrat — Eu tinha ordens a cumprir. Foi Gorbag quem começou, tentando pegar aquela bela camisa.
— Bem, foi você quem o deixou com raiva, com esse jeito orgulhoso e superior. E ele teve mais senso que você, de qualquer forma. Ele disse mais de uma vez que o mais perigoso desses espiões ainda estava à solta, e você não quis ouvir. E não quer ouvir agora. Eu lhe digo, Gorbag estava certo. Há um grande lutador por aí, um desses elfos de mãos sanguinárias, ou um dos tarks imundos. Está vindo para cá, estou lhe dizendo. Você ouviu o sino. Ele já passou pelas Sentinelas, e isso é serviço de tark. Ele está na escada. E, até que esteja longe, não vou descer. Nem que você fosse um Nazgûl eu desceria.
— Então é assim? — gritou Shagrat — Você vai fazer isso, não vai fazer aquilo? E, quando ele vier, vai sair correndo e me deixar? Ah, não vai não! Antes disso vou fazer em sua barriga uns buracos vermelhos como fazem os vermes.
O orc menor saiu correndo pela porta do torreão. Atrás dele veio Shagrat, um orc grande com braços compridos que, correndo ele agachado, alcançavam o chão. Mas um braço estava ferido e parecia sangrar, o outro segurava um grande fardo preto. No clarão vermelho Sam, encolhendo-se atrás da porta da escadaria, viu de relance seu rosto mau, quando ele passou: parecia que garras cortantes o haviam rasgado, e estava sujo de sangue, pingava baba de suas presas pontudas, rosnava como um animal.
Pelo que Sam pôde perceber, Shagrat perseguiu Snaga ao redor da cobertura, até que, agachando-se e despistando-o, o orc menor arremessou-se com um grito para dentro da torre outra vez e desapareceu. Então Shagrat parou. Da porta Leste Sam podia vê-lo agora próximo ao parapeito, resfolegando, sua garra esquerda abrindo-se e fechando-se sem forças. Colocou o fardo no chão e com a garra direita sacou uma longa faca vermelha e cuspiu nela. Indo até o parapeito, debruçou-se, examinando o pátio externo lá embaixo. Gritou duas vezes, mas não veio nenhuma resposta.
De repente, no momento em que Shagrat se abaixava sobre a ameia, com as costas para o topo do telhado, Sam viu surpreso que um dos corpos espalhados estava se mexendo. Arrastava-se. Esticou uma garra e pegou o fardo. Levantou-se com dificuldade. Na outra mão segurava uma lança de ponta larga e haste curta quebrada. Estava preparado para dar um golpe certeiro. Mas nesse exato momento um chiado escapou-lhe pelos dentes, um resfolegar de dor ou ódio. Rápido como uma serpente, Shagrat deslizou para o lado, virou-se e enfiou sua faca na garganta do inimigo.
— Te peguei, Gorbag! — gritou ele — Não está bem morto, hein? Bem agora vou terminar meu trabalho — saltou sobre o corpo caído e começou a pisoteá-lo e esmagá-lo em sua fúria, abaixando-se vez por outra para furar e rasgar com a faca.
Finalmente satisfeito, jogou a cabeça para trás e emitiu um horrível grito gorgolejante de triunfo. Depois lambeu a faca, colocando-a em seguida entre os dentes. Pegando então o fardo, veio mancando na direção da porta mais próxima que dava para a escadaria.
Sam não teve tempo para pensar. Poderia ter escapado pela outra porta, mas seria praticamente impossível não ser visto, por outro lado, não poderia brincar de esconde-esconde com aquele orc hediondo por muito tempo. Fez o que provavelmente foi a melhor coisa que poderia ter feito. Saltou contra Shagrat com um grito.
Não estava mais segurando o Anel, mas ele estava lá, um poder oculto, uma ameaça assustadora para os escravos de Mordor, e em sua mão levava Ferroada, cuja luz feriu os olhos do orc como o brilho das estrelas cruéis das terríveis terras dos elfos: sonhar com aquelas estrelas já incutia um gélido terror em toda a sua espécie.
E Shagrat não conseguia lutar e segurar seu tesouro ao mesmo tempo. Parou, rosnando, mostrando as presas. Então, mais uma vez, á maneira dos orcs, saltou de lado, e, quando Sam pulou sobre ele, o orc, usando o fardo pesado como escudo e arma, arremessou-o com força no rosto do inimigo. Sam cambaleou e, antes que pudesse se recuperar, Shagrat passou por ele como um dardo, descendo a escada.
Sam correu atrás dele, praguejando, mas não chegou muito longe. Logo o pensamento em Frodo retornou-lhe á mente, e ele se lembrou de que o outro orc tinha voltado para dentro do torreão. Ali estava outra escolha terrível, e não restava tempo para ponderar. Se Shagrat escapasse, logo conseguiria ajuda e voltaria. Mas, se Sam o perseguisse, talvez o outro orc fizesse alguma coisa horrível lá em cima. E, de qualquer modo, Shagrat poderia escapar de Sam ou matá-lo. Virou-se depressa e subiu correndo a escada.
— Errado de novo, eu acho! — disse ele suspirando — Mas meu serviço é ir primeiro diretamente para o topo, não importa o que aconteça depois.
Lá embaixo Shagrat continuou descendo a escada, saindo para o pátio e passando através do portão, com seu fardo precioso. Se Sam o tivesse visto e percebido a dor que tal fuga traria, poderia ter vacilado. Mas agora sua mente estava fixa na última etapa de sua procura. Chegou cautelosamente até a porta do torreão e entrou.
A porta se abria para a escuridão. Mas logo seus olhos perscrutadores perceberam uma luz fraca á direita. Vinha de uma abertura que conduzia a outra escadaria, escura e estreita: parecia ir subindo em caracol pelo torreão, ao longo do interior de sua parede externa, que era redonda. Uma tocha bruxuleava em algum ponto mais acima.
Sam começou a subir sem fazer ruído. Chegou até a tocha gotejante, presa acima de uma porta à esquerda, que dava para a abertura de uma janela sobre o Oeste: um dos olhos vermelhos que Frodo e ele haviam visto lá debaixo, perto da boca do túnel. Depressa Sam passou pela porta e correu para o segundo pavimento, temendo a qualquer instante ser atacado e sentir dedos estranguladores agarrarem-lhe a garganta por trás. Chegou perto de uma janela que dava para o Leste e de uma outra tocha acima da porta de um corredor que passava pelo meio do torreão. A porta estava aberta e o corredor escuro, a não ser pelo brilho da tocha e o clarão vermelho lá de fora, filtrados pela fenda da janela. Mas a escada terminava ali, e não subia mais. Sam voltou para o corredor. De cada lado havia uma porta baixa, ambas fechadas e trancadas.
Não se ouvia nada.
— Beco sem saída — murmurou Sam — E depois de tanta escalada! Este não pode ser o topo da torre. Mas que posso fazer agora?
Correu de volta para o pavimento inferior e forçou a porta, que não cedeu. Correu para cima de novo, e o suor começou a escorrer-lhe pelo rosto.
Sentia que os minutos eram preciosos, mas escapavam um a um, e não havia nada que pudesse fazer. Não se importava mais com Shagrat ou Snaga ou qualquer outro orc que jamais fora parido no mundo. Só pensava em seu mestre, desejando uma visão de seu rosto ou um toque de sua mão. Por fim, sentindo-se exausto e de uma vez por todas derrotado, sentou-se num degrau abaixo do nível do corredor e curvou a cabeça, apoiando-a nas mãos. Estava tudo quieto, num silêncio horrível. A tocha, que já tinha um fogo baixo quando ele chegara, crepitou e se extinguiu, e Sam sentiu a escuridão cobri-lo como uma onda.
Depois, suavemente, para a sua própria surpresa, lá no remoto fim de sua longa jornada e de sua tristeza, movido por um pensamento em seu coração que não sabia distinguir, Sam começou a cantar. Sua voz soava fraca e vacilante na torre fria e escura: a voz de um hobbit exausto e desolado que nenhum orc á escutasse poderia confundir com o canto cristalino de um Senhor Élfico. Sam murmurava velhas toadas infantis do Condado, e trechos das rimas do Sr. Bilbo que lhe vinham à mente como cenas passageiras de sua terra natal. E então, de repente, uma nova força nasceu dentro dele, e sua voz soou firme, enquanto palavras de sua própria autoria chegaram, sem terem sido chamadas, para encaixar-se na melodia simples.

Pode o Oeste ao sol que brilha
em primavera estar,
no verde em flor, do rio na trilha,
o tentilhão cantar
Ou lá talvez em noites claras,
estrelas de elfos, jóias raras,
exibam seus apelos.
Embora aqui, jornada finda,
tu, escuridão, me afluas,
além das altas torres ainda
e das montanhas rijas,
além das sombras vai o sol
e estrelas há nos céus.
E não direi: “Morreu o sol”
e nem direi adeus.

Além das altas torres ainda — começou ele outra vez, e então parou de repente.
Teve a impressão de ouvir uma voz fraca respondendo à sua. Mas agora não ouvia mais nada. Sim, podia ouvir alguma coisa, mas não uma voz. Passos se aproximavam. Agora uma porta estava sendo aberta com todo o cuidado no corredor acima, as dobradiças rangeram. Sam se agachou e ficou escutando. A porta se fechou com um ruído abafado, e então soou uma voz rosnante de orc.
— Olá! Você ai em cima, seu rato estrumeiro! Pare de guinchar ou vou cuidar de você. Está ouvindo?
Não houve resposta.
— Tudo bem — rosnou Snaga — Mas vou até ai dar uma olhada em você de qualquer jeito, e ver o que você está aprontando.
As dobradiças rangeram de novo e Sam, agora espiando por cima do canto do limiar do corredor, viu uma faísca de luz vinda de uma porta aberta, e a forma apagada de um orc saindo por ela. Parecia estar carregando uma escada. Num lampejo, Sam percebeu a resposta: para chegar ao cômodo mais alto era necessário passar por um alçapão no teto do corredor. Snaga empurrou a escada para cima, firmou-a, e depois subiu por ela até sumir de vista. Sam ouviu um ferrolho sendo puxado. Depois ouviu a voz hedionda falando de novo.
— Deite-se ai e fique quieto, ou pagará por isso! Acho que não lhe resta muito tempo para viver em paz, mas, se não quiser que a diversão comece já, mantenha sua matraca fechada, está ouvindo? Aí vai um lembrete, para que não se esqueça!
Fez-se um ruído como o de uma chicotada.
Ao ouvir isso, o ódio ardeu no coração de Sam, transformando-se numa fúria repentina. Saltou de pé, correu e subiu pela escada como um gato. Sua cabeça surgiu no meio do chão de um grande cômodo redondo. Uma lâmpada vermelha pendia do teto, a fenda da janela que dava para o Oeste era alta e escura. Alguma coisa jazia no solo perto da parede sob a janela mas sobre ela escarranchado aparecia o vulto negro de um orc.
Levantou o chicote uma segunda vez, mas o golpe nunca foi desferido. Com um grito Sam saltou cruzando o chão, empunhando Ferroada. O orc virou-se, mas antes que pudesse fazer qualquer gesto Sam decepou-lhe a mão que segurava o chicote. Uivando de dor e medo, mas enfurecido, o orc avançou sobre ele com a cabeça baixa. O próximo golpe de Sam passou longe e, perdendo o equilíbrio, ele caiu para trás, agarrando-se no orc no momento em que este tropeçava sobre seu corpo. Antes de conseguir ficar de pé, Sam ouviu um grito e um baque. O orc, em sua pressa louca, tropeçara na ponta da escada e caíra pela abertura do alçapão. Sam deixou de pensar nele. Correu para a figura encolhida no chão.
Era Frodo.
Estava nu e parecia desmaiado, jazendo sobre um monte de trapos imundos: seu braço estava erguido, protegendo a cabeça, e através de seu flanco desenhava-se a feia marca de uma chicotada.
— Frodo! Sr. Frodo, meu querido! — gritou Sam, com as lágrimas quase a cegá-lo — É Sam, eu cheguei!
Soergueu o corpo do mestre, apertando-o contra o peito.
Frodo abriu os olhos.
— Ainda estou sonhando? — murmurou ele — Mas os outros sonhos foram terríveis.
— O senhor não está sonhando de jeito nenhum, Mestre — disse Sam — É verdade. Sou eu. Eu cheguei.
— Mal posso acreditar — disse Frodo, agarrando-o — Havia um orc com um chicote, e então ele se transforma em Sam! Então afinal de contas eu não estava sonhando quando escutei alguém cantando lá embaixo e tentei responder? Era você?
— Era sim, Sr. Frodo. Tinha perdido as esperanças, quase. Não conseguia encontrá-lo.
— Bem, agora conseguiu, Sam, querido Sam — disse Frodo, recostando-se nos braços delicados do amigo, fechando os olhos, como uma criança que descansa depois que os temores da noite são afastados por alguma voz ou mão amada.
Sam sentia que poderia ficar ali sentado numa felicidade interminável, mas isso não era permitido. Não era suficiente que encontrasse seu mestre, tinha ainda de tentar salvá-lo. Beijou a testa de Frodo.
— Vamos! Acorde, Sr. Frodo! — disse ele, tentando imprimir à voz o mesmo entusiasmo que costumava ter quando abria as cortinas em Bolsão numa manhã de verão.
Frodo suspirou e recostou-se.
— Onde estamos? Como vim parar aqui? — perguntou ele.
— Não há tempo para histórias, até chegarmos a algum outro lugar, Sr. Frodo — disse Sam — Mas o senhor está no topo daquela torre que nós dois vimos de lá de baixo, perto do túnel, antes que orcs o capturassem. Quanto tempo faz eu não sei. Mais que um dia, eu acho.
— Só isso? — disse Frodo — Parecem semanas. Você precisa me contar tudo, se tivermos uma chance. Alguma coisa me atingiu, não foi? E eu cai na escuridão e em sonhos ruins, depois acordei e vi que acordar foi pior. Um monte de orcs ao meu redor. Acho que tinham acabado de despejar alguma bebida horrível e ardente pela minha garganta abaixo. Minha cabeça clareou, mas eu estava cansado e sentindo dores. Despiram-me de tudo, e então dois grandes brutos vieram me interrogar, interrogaram-me até que achei que ia enlouquecer, vinham por cima de mim, olhando-me com avidez, acariciando as facas. Nunca vou esquecer aqueles olhos e aquelas garras.
— Não vai mesmo, se ficar falando neles, Sr. Frodo — disse Sam — E, se não quisermos vê-los de novo, quanto mais cedo sairmos daqui, melhor. Consegue andar?
— Consigo sim — disse Frodo, levantando-se devagar — Não estou ferido, Sam. Só me sinto muito cansado, e tenho uma dor aqui — colocou a mão no pescoço, acima do ombro esquerdo.
Ficou de pé, e Sam teve a impressão de que ele estava vestindo chamas: sua pele nua estava escarlate á luz da lamparina. Duas vezes cruzou o recinto.
— Assim está melhor! — disse ele, um pouco mais animado — Eu não ousava me mexer quando era deixado sozinho, ou um dos guardas chegava. Até que a gritaria e a luta começaram. Os dois grandes brutamontes: discutiram, eu acho. Sobre mim e meus pertences. Fiquei aqui apavorado. E então tudo ficou num silêncio mortal, e isso foi pior.
— É, eles discutiram, ao que parece — disse Sam — Devia haver umas duzentas dessas criaturas imundas neste lugar. Uma encomenda grande demais para Sam Gamgi, como diria o senhor. Mas eles mesmos se mataram. Foi um golpe de sorte, mas não há tempo para fazer uma canção sobre o acontecido, até que estejamos longe daqui. Agora, que devemos fazer? O senhor não pode sair caminhando pela Terra Escura nu em pêlo, Sr. Frodo.
— Eles levaram tudo, Sam — disse Frodo — Tudo o que eu tinha. Você está entendendo? Tudo! — agachou-se no chão de novo com a cabeça curvada, pois suas próprias palavras lhe trouxeram a totalidade do desastre, e o desespero o dominou — A Demanda fracassou, Sam. Mesmo que consigamos sair daqui, não poderemos escapar. Só os elfos podem escapar. Para longe, longe da Terra-Média, do outro lado do Mar. Mesmo assim, só se o Mar for vasto o suficiente para manter a Sombra longe.
— Não, nem tudo, Sr. Frodo. E a Demanda não fracassou, ainda não. Eu o peguei, Sr. Frodo, com as suas desculpas. E guardei-o a salvo. Está em volta do meu pescoço agora, e é um fardo terrível, sem dúvida — Sam tateou o peito buscando o Anel na corrente — Mas suponho que o senhor deve pegá-lo de volta.
Agora que tinha chegado a hora, Sam relutava em desfazer-se do Anel e sobrecarregar seu mestre com ele de novo.
— Você está com ele? — disse Frodo ofegante — Esta com ele aqui. Sam, você é um prodígio!
Então o tom de sua voz mudou de forma rápida e estranha.
— Passe-o para mim! — gritou ele, levantando-se e estendendo uma mão trêmula — Passe-o para cá imediatamente! Não pode ficar com ele!
— Está bem, Sr. Frodo — disse Sam, bastante surpreso — Aqui está!
Lentamente puxou o Anel e passou a corrente sobre a cabeça.
— Mas o senhor está agora na Terra de Mordor e, quando sair daqui, verá a Montanha de Fogo e tudo mais. Vai perceber que o Anel ficou muito perigoso agora, e muito difícil de carregar. Se for um trabalho difícil, posso dividi-lo com o senhor, quem sabe?
— Não, não! — gritou Frodo, arrebatando o Anel e a corrente das mãos de Sam — Nada disso, seu ladrão!
Ofegante, fixava Sam com olhos esbugalhados de medo e hostilidade. Então, de repente, fechando o Anel em uma das mãos, ficou horrorizado. Uma névoa pareceu se dissipar de seus olhos, e ele passou a outra mão sobre a testa, que lhe doía. A visão hedionda lhe parecera tão real, a ele que ainda estava meio perturbado devido ao ferimento e ao medo. Sam se transformara diante de seus olhos num orc, num orc esperto que tateava seu corpo em busca de seu tesouro, uma pequena criatura suja com olhos ávidos e boca salivante.
Mas agora a visão passara. Ali estava Sam, ajoelhado diante dele, com o rosto contorcido de dor, como se tivesse sido apunhalado no coração, lágrimas brotavam-lhe dos olhos.
— Oh Sam! — exclamou Frodo — Que foi que eu disse? Que foi que fiz? Perdoe-me! Depois de tudo o que fez. É o poder horrível do Anel. Gostaria que nunca, nunca ele tivesse sido encontrado. Mas não se importe comigo, Sam. Devo carregar o fardo até o fim. Isso não se pode mudar. Você não pode intervir entre mim e esse destino.
— Está tudo bem, Sr. Frodo — disse Sam, limpando os olhos com a manga da camisa — Eu entendo. Mas ainda posso ajudar, não posso? Preciso tirá-lo daqui. Imediatamente! Mas primeiro o senhor precisa de umas roupas, e depois de alguma comida. As roupas serão o mais fácil. Como estamos em Mordor, é melhor nos vestirmos á maneira de Mordor, de qualquer forma não há escolha. Terá de ser coisa de orc para o senhor, Sr. Frodo, receio eu. E para mim também. Se vamos juntos, é melhor estarmos vestidos do mesmo jeito. Agora, ponha isso em volta do corpo.
Sam abriu a capa cinzenta e jogou-a sobre os ombros de Frodo. Depois, desafivelando a mochila, colocou-a no chão. Sacou Ferroada da bainha. Mal se via um faiscar em sua lâmina.
— Estava me esquecendo disso, Sr. Frodo — disse ele — Não, eles não levaram tudo! O senhor me emprestou Ferroada, se pode se lembrar, e o cristal da Senhora. Ainda os tenho comigo. Mas empreste-os por mais um pouco de tempo, Sr. Frodo. Preciso ir ver o que posso encontrar. O senhor fica aqui. Caminhe um pouco pelo quarto e descanse as pernas. Não vou demorar muito.
— Tome cuidado, Sam! — disse Frodo — E seja rápido. Pode haver orcs ainda vivos, esperando à espreita.
— Preciso arriscar — disse Sam.
Dirigiu-se até o alçapão e começou a descer a escada. Num minuto sua cabeça reapareceu. Jogou uma faca comprida no chão.
— Aí está algo que pode ser útil — disse Sam — Ele está morto: aquele que o chicoteou. Quebrou o pescoço, ao que parece, em sua pressa. Agora o senhor puxe a escada, se conseguir, Sr. Frodo, e não a desça até me ouvir dando a senha. Chamarei Elbereth. O que dizem os elfos. Nenhum orc diria isso.
Frodo ficou por um tempo sentado, tremendo, medos terríveis surgiam uns atrás dos outros em sua mente. Depois levantou-se, passou a capa élfica ao redor do corpo e, para manter a mente ocupada, começou a caminhar de um lado para o outro, esquadrinhando e espiando todos os cantos da prisão. Não demorou muito tempo, embora o medo fizesse parecer que no mínimo uma hora se passara, até que ouvisse a voz de Sam chamando baixinho lá de baixo: Elbereth, Elbereth. Frodo desceu a leve escada. Sam subiu, bufando, carregando um enorme fardo na cabeça. Deixou-o cair com um baque surdo.
— Depressa agora, Sr. Frodo! — disse ele — Tive de procurar muito até encontrar alguma coisa pequena o suficiente para pessoas como nós. Vamos ter de adaptar. Mas precisamos nos apressar. Não encontrei nada vivo, e também não vi nada, mas não estou tranquilo. Acho que este lugar está sendo vigiado. Não posso explicar, mas veja: tenho uma sensação de que um daqueles infames Cavaleiros voadores estava por perto, lá em cima na escuridão, onde não pode ser visto.
Abriu o fardo. Frodo olhou enojado para o conteúdo, mas não havia nada a fazer: tinha de vestir aquelas coisas, ou ir pelado. Havia culotes compridos e peludos da pele de algum animal impuro, e uma túnica de couro imundo. Vestiu-os. Sobre a túnica ia um casaco resistente de malha metálica, curto para um orc grande, mas comprido e pesado demais para Frodo. Em volta dele prendeu um cinto, do qual pendia uma bainha curta que segurava uma espada de lâmina larga. Sam trouxera vários capacetes de orcs. Um deles serviu bem na cabeça de Frodo, uma touca negra com aba de ferro, e arcos de ferro cobertos de couro sobre os quais estava pintado em vermelho o Olho Maligno, acima de uma bicuda proteção para o nariz.
— As coisas de Morgul, as roupas de Gorbag, eram melhores e mais bem feitas — disse Sam — Mas acho que não daria certo ficar andando em Mordor com os símbolos dele, depois do que aconteceu aqui. Bem, aí está, Sr. Frodo. Um perfeito orczinho se me permite o atrevimento, pelo menos seria, se cobrisse o rosto com uma máscara, tivesse braços mais compridos e as pernas arqueadas. Isso vai esconder algumas marcas características — colocou uma grande capa negra em volta dos ombros de Frodo — Agora o senhor está pronto! Pode apanhar um escudo no caminho.
— E você, Sam? — disse Frodo — Nós não vamos nos vestir de forma parecida?
— Bem, Sr. Frodo, estive pensando — disse Sam — É melhor que eu não deixe nada de minhas coisas para trás, e não podemos destruí-las. E não posso usar armadura de orc em cima de todas as minhas roupas, posso? Só preciso me cobrir.
Ajoelhou-se e com cuidado dobrou sua capa élfica, que se transformou num volume surpreendentemente pequeno. Colocou-o na mochila que estava no chão. Levantando-se, ajeitou-a nas costas, e jogou outra capa negra nos ombros.
— Pronto! — disse ele — Agora estamos vestidos de forma praticamente igual. E precisamos sair daqui!
— Não posso fazer o caminho todo correndo, Sam — disse Frodo com um sorriso forçado — Espero que tenha tomado informações sobre estalagens ao longo da estrada! Ou você se esqueceu da comida e da bebida?
— Desculpe-me, mas realmente me esqueci — disse Sam. Soltou um assobio de desânimo — Puxa vida, Sr. Frodo, mas agora o senhor me fez sentir uma fome e uma sede terríveis! Não sei quando foi a última vez que alguma gota ou petisco passou pelos meus lábios. Tinha esquecido, tentando encontrá-lo. Mas deixe-me pensar! A última vez que olhei, eu tinha uma quantidade suficiente de pão de viagem, e, das coisas que o Capitão Faramir nos deu, o suficiente para me manter de pé por algumas semanas, se fosse necessário. Mas não resta mais que uma gota em minha garrafa. Não vai ser o suficiente para dois, de jeito nenhum. Os orcs não comem, e não bebem? Ou será que vivem de ar sujo e veneno?
— Não, eles comem e bebem, Sam. A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou; e, se eles tiverem de viver, precisam viver como as outras criaturas. Ingerem carnes pútridas e águas sujas, se não conseguirem coisa melhor, mas veneno não. Alimentaram-me, e por isso estou em melhores condições que você. Deve haver comida e bebida por aqui em algum lugar.
— Mas não há tempo para procurar — disse Sam.
— Bem, as coisas estão um pouco melhor do que você pensa — disse Frodo — Tive um bocado de sorte enquanto você estava longe. É verdade que não levaram tudo. Encontrei meu saco de comida em meio a uns trapos no chão. É claro que eles vasculharam tudo. Mas acho que odiaram a mera visão e o cheiro do lembas, mais ainda que Gollum. Está tudo espalhado e alguns estão pisados e quebrados, mas juntei os pedaços. Não é muito menos do que você tem. Mas levaram a comida de Faramir, e rasgaram minha garrafa de água.
— Bem, não há mais nada a dizer — disse Sam — Temos o suficiente para começar a caminhada. Mas a água vai ser um problema. Mas venha, Sr. Frodo. Vamos! Caso contrário um lago inteiro não nos adiantará de nada!
— Não até você ter comido alguma coisa, Sam — disse Frodo — Não vou dar um passo. Aqui, pegue esse bolo élfico, e beba o último gole de sua garrafa! A coisa toda é muito desesperadora, então não adianta preocupasse com o amanhã. O amanhã provavelmente não virá.
Finalmente partiram. Desceram pela escada, que depois Sam recolheu e deitou no corredor, ao lado do corpo amontoado do orc morto.
A escadaria estava escura, mas no teto ainda se podia ver o clarão da Montanha, embora estivesse morrendo num vermelho apagado. Apanharam dois escudos para completar o disfarce e depois avançaram. Foram descendo aos tropeços a grande escadaria.
O alto cômodo da torre lá atrás, onde se tinham encontrado de novo, pareceu-lhes quase aconchegante: agora estavam novamente no espaço aberto, e o terror corria ao longo das paredes. Todos poderiam estar mortos na Torre de Cirith Ungol, mas ela continuava cheia de terror e maldade.
Finalmente chegaram á porta que se abria para o pátio externo, e pararam. Mesmo do ponto onde estavam podiam sentir na pele a malícia das Sentinelas, figuras negras e silenciosas dos dois lados do portão, através das quais o clarão de Mordor palidamente se mostrava.
Á medida que iam fazendo o caminho em meio aos corpos hediondos dos orcs, cada passo se tornava mais difícil. Antes mesmo que atingissem o arco, fizeram uma parada. Avançar um centímetro era um sofrimento e um cansaço que lhes afetava a vontade e as pernas.
Frodo não tinha forças para aquela batalha.
Caiu no chão.
— Não posso continuar, Sam — murmurou ele — Vou desmaiar. Não sei o que está acontecendo comigo.
— Eu sei, Sr. Frodo. Aguente firme agora! É o portão. Há algum feitiço ali. Mas eu entrei, e vou sair. Não pode ser mais perigoso que antes. Agora vamos.
Sam puxou o cristal élfico de Galadriel de novo. Como se para fazer jus à sua coragem, e agraciar com esplendor sua fiel mão morena de hobbit que realizara tantos feitos, o cristal brilhou de repente, de forma que todo o pátio sombrio se iluminou numa irradiação ofuscante como a de um relâmpago; mas a luminosidade continuou, e não se extinguiu.
Gilthoniel, A Elebereth! — gritou Sam. Pois, sem que ele entendesse por quê, seu pensamento saltou de volta para os elfos no Condado, e para a canção que afastou o Cavaleiro Negro no bosque.
Aiya elenion ancalima! — gritou Frodo outra vez depois dele.
A vontade das Sentinelas foi destruída repentinamente, como o romper-se de uma corda, e Frodo e Sam avançaram aos trambolhões. Depois correram. Atravessaram o portão e passaram pelas grandes figuras sentadas com seus olhos faiscantes.
Abriu-se uma fissura.
A pedra principal do arco se quebrou, quase caindo sobre seus calcanhares, e a parede acima desmoronou, caindo em ruínas. Escaparam por um triz.
Um sino tocou, e das Sentinelas subiu um gemido agudo e aterrorizante. Lá em cima na escuridão ele teve resposta. Do céu negro veio descendo como um raio uma figura alada, rasgando as nuvens com um guincho pavoroso.




continua... 





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Lei de ComimAs pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.
Lei de MurphyO companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 112




CXII

A PARTIDA




O
s acontecimentos que acabavam de se verificar preocupavam todas as pessoas em Paris. Emmanuel e a mulher contavam-nos, com uma surpresa muito natural, na sua salinha da Rua Meslay, e relacionavam umas com as outras as três catástrofes, tão súbitas como inesperadas, de Morcerf, Danglars e Villefort.
Maximilien, que os viera visitar, escutava-os, ou antes assistia à conversa mergulhado na sua insensibilidade habitual.
— Na verdade — dizia Julie — Não parece, Emmanuel, que todos esses ricaços, ontem tão felizes, esqueceram, no cálculo em que basearam a sua fortuna, a sua felicidade e a sua consideração, a parte do gênio mau, e que este, como as fadas más dos contos de Perrault [1], que se esqueceram de convidar para um casamento ou um batismo, apareceu de repente para se vingar desse fatal esquecimento?

[1] Charles Perrault foi o primeiro a dar acabamento literário aos contos de fadas. Esse feito lhe conferiu o título de “Pai da Literatura Infantil”.

— Que desastres! — dizia Emmanuel, pensando em Morcerf e Danglars.
— Que sofrimentos! — dizia Julie, recordando-se de Valentine, que, no seu instinto feminino, não queria citar diante do irmão.
— Se foi Deus quem os feriu — acrescentava Emmanuel — Foi porque Deus, que é a suprema bondade, não encontrou nada no passado dessa gente que merecesse atenuação da pena. Foi porque essa gente era maldita.
— Não estará sendo muito temerário no teu julgamento, Emmanuel? — perguntou Julie — Quando o meu pai, de pistola em punho, estava prestes a estourar os miolos, se alguém tivesse dito como você dize agora: “Este homem mereceu a sua pena”, esse alguém não estaria enganado?
— Sem dúvida, mas Deus não permitiu que o nosso pai sucumbisse, tal como não permitiu que Abraão sacrificasse o filho. Ao patriarca, como a nós, enviou um anjo que cortou a meio do caminho as asas da morte.
Ainda mal acabara de pronunciar estas palavras tocou a sineta. Era o sinal dado pelo porteiro para anunciar a chegada de uma visita. Quase no mesmo instante a porta da sala abriu-se e o Conde de Monte Cristo apareceu no limiar. Os dois jovens soltaram um grito de alegria.
Maximilien levantou a cabeça e voltou a baixá-la.
— Maximilien — disse o Conde, sem parecer notar as diferentes impressões que a sua presença produzia — Venho buscá-lo.
— Buscar-me? — repetiu Morrel, como se saísse de um sonho.
— Sim — respondeu Monte Cristo — Não estava combinado que o levaria comigo e não o preveni que estivesse pronto?
— Pois aqui estou — respondeu Maximilien — Vim apenas despedir-me.
— E aonde vai, Sr. Conde? — perguntou Julie.
— Primeiro, a Marselha, minha senhora.
— A Marselha? — repetiram em coro os dois jovens.
— Sim, e levo o seu irmão.
— Veja se o restitui curado, Sr. Conde... — pediu Julie.
Morrel virou-se para ocultar o seu rubor.
— Notou então que ele não estava bem? — inquiriu o Conde.
— Notei — respondeu a jovem senhora — E receio que ele se aborreça conosco.
— Eu o distrairei — prometeu o Conde.
— Estou pronto, senhor — disse Maximilien — Adeus, meus bons amigos! Adeus Emmanuel! Adeus, Julie!
— Como adeus?! — exclamou Julie — Parte assim de repente, sem ter nada preparado, sem passaporte?
— Os adiamentos duplicam o desgosto das separações — observou Monte Cristo — E Maximilien, estou certo disso, deve ter tomado todas as providências como lhe recomendei.
— Tenho o meu passaporte e as minhas malas estão feitas — informou Morrel com a mesma tranqüilidade alheada.
— Ótimo! — exclamou Monte Cristo, sorrindo — Nem outra coisa era de esperar de um bom soldado.
— E o senhor deixa-nos assim, de um momento para o outro? — perguntou Julie — Não nos concede um dia, nem uma hora?
— A minha carruagem está à porta, minha senhora. Preciso estar em Roma dentro de cinco dias.
— Mas Maximilien não vai a Roma? — perguntou Emmanuel.
— Vou aonde o Conde quiser me levar — respondeu Morrel, com um sorriso triste — Pertenço-lhe ainda por um mês.
— Oh, meu Deus, como ele diz aquilo, Sr. Conde!
— Maximilien acompanha-me; portanto, esteja tranqüila a respeito do seu irmão — respondeu o Conde com a sua persuasiva afabilidade.
— Adeus, minha irmã! — repetiu Morrel — Adeus, Emmanuel!
— Aflige-me o seu alheamento — confessou Julie — Oh, Maximilien, Maximilien, esconde-nos qualquer coisa!
— Então, então!... — interveio Monte Cristo — Prometo-lhes que o verão regressar alegre, risonho e feliz.
Maximilien deitou a Monte Cristo um olhar quase desdenhoso, quase irritado.
— Partamos! — disse o Conde.
— Antes de partir, Sr. Conde — atalhou Julie — Permita-me que lhe diga tudo o que no outro dia...
— Minha senhora — interrompeu-a o Conde, pegando-lhe nas mãos — Tudo o que me dissesse nunca valeria o que leio nos seus olhos, nem o que o seu coração sente, nem o que o meu experimenta. Como os benfeitores de romance, devia ter partido sem a tornar a ver; mas tal virtude era superior às minhas forças, pois sou um homem fraco e vaidoso e o olhar úmido, feliz e terno dos meus semelhantes me faz bem. Agora parto e levo o egoísmo ao ponto de lhes dizer: não me esqueçam, meus amigos, porque provavelmente não tornarão a me ver.
— Não o tornaremos a ver?! — exclamou Emmanuel, enquanto duas grossas lágrimas rolavam pelas faces de Julie — Não o tornaremos a ver! Mas nesse caso não é um homem, é um deus que nos deixa, e esse deus vai subir ao céu depois de aparecer na Terra para nela praticar o bem!
— Não diga isso — pediu vivamente Monte Cristo — Nunca digam isso, meus amigos. Os deuses nunca fazem mal, os deuses param onde querem parar. O acaso não é mais forte do que eles, são eles que, pelo contrário, governam o acaso. Não, eu sou um homem, Emmanuel, e a sua admiração é tão injusta quanto as suas palavras são sacrílegas.
E beijando a mão de Julie, que se lhe precipitou nos braços, estendeu a outra mão a Emmanuel. Depois, arrancando-se daquela casa, doce ninho que albergava a felicidade, fez sinal a Maximilien para o seguir; um Maximilien passivo, insensível e consternado, como ficara depois da morte de Valentine.
— Restitua a alegria ao meu irmão! — disse Julie ao ouvido de Monte Cristo.
Monte Cristo apertou-lhe a mão como a apertara onze anos antes na escada que conduzia ao gabinete de Morrel.
— Continua a confiar em Simbad, o Marinheiro? — perguntou-lhe sorrindo.
— Oh, sim!
— Então durma na paz e na confiança do Senhor.
Como dissemos, a sege de posta esperava-os. Quatro cavalos vigorosos agitavam as crinas e batiam na calçada com impaciência. Ali esperava ao fundo da escadaria, com o rosto brilhante de suor. Parecia chegar de uma longa corrida.
— Então, foi a casa do velho? — perguntou-lhe o Conde em árabe.
Ali fez sinal que sim.
— E desdobrou a carta diante dos olhos, como te ordenei?
— Sim — respondeu também, respeitosamente, o escravo.
— E que disse ele, ou antes: que fez?
Ali colocou-se debaixo da luz, de forma que o amo o pudesse ver, e, imitando com a sua inteligência tão dedicada a fisionomia do velho, fechou os olhos como fazia Noirtier quando queria dizer “sim”.
— Bem, aceita — disse Monte Cristo — Partamos!
Ainda mal proferira esta palavra e já a carruagem rodava e os cavalos arrancavam da calçada uma chuva de fagulhas. Maximilien acomodou-se no seu canto sem dizer palavra. Passou meia-hora. O coche deteve-se de súbito; o Conde acabava de puxar o cordão de seda que correspondia ao dedo de Ali. O núbio desceu e abriu a portinhola.
A noite cintilava de estrelas. Estavam no cimo da encosta de Villejuif, no planalto donde se vê Paris, como um mar sombrio, agitar os seus milhões de luzes, que parecem ondas fosforescentes. Ondas, efetivamente, ondas mais ruidosas, mais apaixonadas, mais volúveis, mais furiosas e mais vidas do que as do oceano irritado; ondas que não conhecem a calma, como as do vasto mar, ondas que se entrechocam constantemente, sempre espumando, sempre engolindo!...
O Conde ficou só, e a um sinal de mão seu a carruagem avançou um pouco.
Então observou durante muito tempo, com os braços cruzados, aquele cadinho onde se fundiam, torciam e modelavam todas as idéias que brotam do abismo fervilhante para irem agitar o mundo. Depois de observar bem com o seu olhar poderoso aquela Babilônia que tanto fazia sonhar os poetas religiosos como os sarcásticos materialistas, murmurou, inclinando a cabeça e juntando as mãos, como se fosse rezar:
— Grande cidade! Há menos de seis meses que transpus as suas portas. Creio que foi o espírito de Deus que me trouxe até aqui e que me permite retirar triunfante. Confiei a esse Deus, o único capaz de ler no meu coração, o segredo da minha presença dentro das tuas muralhas; só ele sabe que me retiro sem ódio e sem orgulho, mas não sem pesar; só ele sabe que não utilizei em meu proveito nem em benefício de causas vãs o poder que me confiou. Ó grande cidade, foi no teu seio palpitante que encontrei o que procurava! Mineiro paciente, revolvi-te as entranhas para fazer sair o mal. Agora, a minha obra está concluída e a minha missão terminada; agora já me não pode oferecer nem alegrias nem dores. Adeus, Paris! Adeus!
O seu olhar passeou ainda sobre a vasta planície, como o de um gênio noturno. Em seguida passou a mão pela testa, voltou a subir para a carruagem, que se fechou atrás dele e desapareceu em breve do outro lado da encosta num turbilhão de pó e ruído. Percorreram duas léguas sem pronunciar uma só palavra.
Morrel sonhava, Monte Cristo via-o sonhar.
— Morrel, está arrependido de ter me seguido?
— Não, Sr. Conde. Mas deixar Paris...
— Se soubesse que a felicidade o esperava em Paris, Morrel, o teria deixado lá.
— É em Paris que Valentine repousa, e deixar Paris é perdê-la segunda vez.
— Maximilien — disse o Conde — Os amigos que perdemos não repousam na Terra, estão sepultados no nosso coração, e foi Deus que assim o quis para que estivéssemos sempre acompanhados. Eu tenho dois amigos que me acompanham sempre assim um é aquele que me deu a vida, o outro o que me deu a inteligência. O espírito de ambos vive em mim. Consulto-os quando tenho dúvidas, e se tenho feito algum bem é aos seus conselhos que o devo. Consulte a voz do seu coração, Morrel, e pergunte-lhe se deve continuar a mostrar-me tão má cara.
— Meu amigo — respondeu Maximilien — A voz do meu coração é muito triste e só me promete desventuras.
— É próprio dos espíritos enfraquecidos verem todas as coisas através de um crepe. É a alma que abre a si própria os seus horizontes; como a sua alma está sombria, é ela que lhe mostra um céu tempestuoso.
— É provável que isso seja verdade — admitiu Maximilien.
E voltou a cair no seu devaneio.
A viagem decorreu com a maravilhosa rapidez que era um dos poderes do Conde. As cidades passavam como sombras ao longo da estrada; as árvores, sacudidas pelos primeiros ventos do Outono, pareciam vir ao encontro deles como gigantes desgrenhados, e desapareciam rapidamente assim que as alcançavam. No dia seguinte de manhã chegaram a Chalon, onde os esperava o barco a vapor do Conde. Sem perda de um instante, a carruagem foi transportada para bordo; os dois viajantes já tinham embarcado.
O barco, talhado para corrida, dir-se-ia uma piroga índia. As suas duas rodas pareciam duas asas com as quais rasava a água como uma ave de arribação. O próprio Morrel experimentava essa espécie de embriaguez da velocidade, e às vezes o vento que lhe agitava os cabelos parecia prestes a afastar por um momento as nuvens que lhe cobriam a testa. Quanto ao Conde, à medida que se afastava de Paris parecia envolvê-lo como que uma auréola uma serenidade quase sobre-humana. Dir-se-ia um exilado que regressasse à pátria.
Em breve Marselha, branca, tépida, viva; Marselha, a irmã mais nova de Tiro e Cartago, às quais sucedeu no domínio do Mediterrâneo, Marselha, sempre mais nova à medida que envelhece, em breve lhes surgiu diante dos olhos. Não faltavam para ambos aspectos férteis em recordações, como a Torre Redonda, o Forte de São Nicolau, a Câmara Municipal de Puget e o porto de cais de tijolo onde um e outro tinham brincado na infância.
Por isso, de comum acordo, detiveram-se na Cannebiére.
Partia um navio para Argel. Os tardos e os passageiros empilhados na coberta, a chusma dos parentes e dos amigos que se despediam, gritavam e choravam, espetáculo sempre comovente mesmo para aqueles que assistem todos os dias a esse espetáculo, todo aquele movimento não conseguiu distrair Maximilien de uma idéia que o assaltara no momento em que pusera pé nas grandes lajes do cais.
— Veja — disse, pegando no braço de Monte Cristo — Foi aqui que meu pai parou quando o Pharaon entrou no porto; foi aqui que o excelente homem que o senhor salvara da morte e da desonra se lançou nos meus braços. Sinto ainda a impressão das suas lágrimas no meu rosto, e ele não chorava sozinho, muita gente também chorava ao ver-nos.
Monte Cristo sorriu.
— Eu estava ali — disse, mostrando a Morrel a esquina de uma rua.
Quando dizia isto, ouviu-se na direção indicada pelo Conde um gemido doloroso e viu-se uma mulher fazer sinal a um passageiro do navio prestes a partir. A mulher estava velada. Monte Cristo seguiu-a com a vista com uma emoção que Morrel teria facilmente notado se, ao contrário do Conde, não tivesse os olhos fixos no navio.
— Oh, meu Deus, não estou enganado! — exclamou Morrel — Aquele rapaz que acena com o chapéu... aquele rapaz fardado é Albert de Morcerf!
— Pois é — respondeu Monte Cristo — Já o tinha reconhecido.
— Como assim? O senhor estava olhando para o lado oposto!
O Conde sorriu como fazia quando não queria responder. E os seus olhos voltaram à mulher velada, que desapareceu à esquina da rua.
Só então ele se virou e disse a Maximilien:
— Meu caro amigo, não tem nada que fazer nesta terra?
— Tenho de ir chorar sobre a sepultura do meu pai — respondeu surdamente Morrel.
— Então vá e espere-me no cemitério. Irei lá ter consigo.
— Deixa-me?
— Deixo... também tenho uma piedosa visita a fazer.
Morrel deixou cair a mão na que lhe estendia o Conde; depois, com um aceno de cabeça cuja melancolia seria impossível exprimir, deixou o Conde e dirigiu-se para o leste da cidade.
Monte Cristo deixou Maximilien afastar-se e permaneceu no mesmo lugar até ele desaparecer. Depois dirigiu-se para as Alamedas de Meilhan, em busca da casa que nos começos desta história se tornou familiar aos nossos leitores.
A casa erguia-se ainda à sombra da grande alameda de tílias que servia de passeio aos malsemeses ociosos, coberta de grandes maciços de vinha que cruzavam sobre a pedra amarelecida pelo sol ardente do Meio-Dia os seus ramos enegrecidos e retalhados pela idade. Dois degraus de pedra, gastos pelos pés, conduziam à porta de entrada, porta feita de três pranchas que nunca, apesar das suas reparações anuais, tinham conhecido o betume e a pintura e esperavam que a umidade voltasse para as unir.
Aquela casa, encantadora a despeito da sua vetustez, e alegre a despeito da sua aparente miséria, era a mesma em que habitara outrora o pai de Dantés. Simplesmente, o velho habitava a mansarda e o Conde pusera toda a casa à disposição de Mercedes.
Foi lá que entrou a mulher do longo véu que Monte Cristo vira afastar-se do navio que ia partir. A mulher fechava a porta no preciso momento em que ele aparecia à esquina de uma rua, de forma que o Conde a viu desaparecer quase no mesmo instante em que a avistou.
Para ele, os degraus gastos eram velhos conhecidos; sabia melhor do que ninguém abrir a velha porta, de que um prego de cabeça larga levantava o loquete interior. Por isso entrou sem bater nem prevenir, como um amigo, como um hóspede.
Ao fundo de um carreiro pavimentado a tijolo abria-se, rico de calor, de sol e de luz, um jardinzinho, o mesmo onde no sítio indicado, Mercedes encontrara a importância cujo depósito a delicadeza do Conde conservara durante vinte e quatro anos. Do limiar da porta da rua viam-se as primeiras árvores do jardim.
Chegado à entrada, Monte Cristo ouviu um suspiro que parecia um soluço. Esse suspiro guiou-lhe o olhar e permitiu-lhe descobrir Mercedes, sentada, inclinada e chorando, debaixo de um caramanchão de jasmim-da-virgínia, de folhagem espessa e grandes flores cor de púrpura.
Levantara o véu e, sozinha perante o céu, com o rosto oculto nas mãos, dava livre curso aos suspiros e aos soluços tanto tempo reprimidos pela presença do filho.
Monte Cristo deu alguns passos em frente; a areia rangeu-lhe debaixo dos pés. Mercedes levantou a cabeça e soltou um grito de terror ao ver um homem diante de si.
— Minha senhora — disse o Conde — Já não está na minha mão dar-lhe a felicidade, mas ofereço-lhe a consolação. Quer dignar-se aceitá-la como vinda de um amigo?
— Sou, de fato, muito infeliz — respondeu Mercedes — Estou sozinha no mundo... só tinha o meu filho e ele deixou-me.
— E fez bem, minha senhora — replicou o Conde — É um nobre coração. Compreendeu que todo o homem deve um tributo à pátria: uns os seus talentos, outros a sua indústria, estes as suas vigílias, aqueles o seu sangue. Se ficasse com a senhora, desperdiçaria a seu lado uma existência inútil e se habituaria a vê-la sofrer. Se tornaria rancoroso na sua impotência. Assim, se tornará grande e forte lutando contra a sua adversidade, que transformará em fortuna. Deixe-o reconstruir o futuro de ambos, minha senhora. Ouso garantir-lhe que está em mãos seguras.
— Oh — disse a pobre mulher, abanando tristemente a cabeça — A fortuna a que se refere, e que do fundo da minha alma peço a Deus que lhe conceda, não a gozarei! Quebraram-se tantas coisas em mim e à minha volta que me sinto perto da sepultura. Fez bem, Sr. Conde, em aproximar-me do lugar onde fui tão feliz: é onde fomos felizes que devemos morrer.
— Infelizmente, todas as suas palavras, minha senhora, caem amargas e escaldantes no meu coração, tanto mais amargas e escaldantes quanto é certo ter motivos para me odiar. Fui eu que causei todas as suas desventuras. Porque me lamenta em vez de me acusar? Me tornaria muito mais infeliz...
— Odiá-lo, acusá-lo, a você, Edmond?... Odiar, acusar o homem que salvou a vida do meu filho, porque era sua intenção fatal e cruel, não é verdade, matar ao Sr. de Morcerf o filho de que tanto se orgulhava? Oh, olhe para mim e veja se existe em mim a sombra de uma censura!
O Conde levantou os olhos e pousou-os em Mercedes, que, semi-levantada, estendia as mãos para ele.
— Sim, olhe para mim — continuou ela com profunda melancolia — Hoje pode suportar o brilho dos meus olhos; já lá vai o tempo em que vinha sorrir a Edmond Dantés, que me esperava lá em cima, à janela da mansarda que habitava com o seu velho pai... desde então, muitos dias dolorosos passaram que cavaram como que um abismo entre mim e esse tempo. Acusá-lo, Edmond; odiá-lo, meu amigo! Não, é a mim que acuso e odeio! Oh, como fui miserável! — exclamou, juntando as mãos e erguendo os olhos ao céu — Fui punida... possuía a religião, a inocência e o amor, essas três felicidades que fazem os anjos, e, miserável como sou, duvidei de Deus!
Monte Cristo deu um passo para ela e estendeu-lhe silenciosamente a mão.
— Não — disse ela, retirando suavemente a sua — Não, meu amigo, não me toque. Poupou-me, e, no entanto, de todos aqueles que o feriram, eu era a mais culpada. Todos os outros agiram por ódio, por cupidez, por egoísmo; eu agi por covardia. Eles desejavam, eu tive medo. Não, não me aperte a mão. Edmond, pense em qualquer palavra afetuosa, adivinho-o; não a diga... guarde-a para outra, pois já não sou digna de a ouvir. Veja... — disse, descobrindo por completo o rosto — Veja, a desgraça encheu-me de cabelos grisalhos, os meus olhos verteram tantas lágrimas que estão cercados de veias roxas, e a testa cobriu-se de rugas. O senhor, pelo contrário, Edmond, continua jovem, sempre belo, sempre orgulhoso. Porque teve fé, porque teve coragem, porque confiou em Deus e Deus amparou-o. Eu fui covarde, reneguei, Deus abandonou-me e veja o...
Mercedes desatou a chorar; o coração da mulher não resistia ao choque das recordações.
Monte Cristo pegou-lhe na mão e beijou-a respeitosamente; mas ela própria sentiu que aquele beijo carecia de ardor, era como o que o Conde depositaria na mão de mármore da estátua de uma santa.
— Existem vidas predestinadas cuja primeira falta destrói todo o futuro — continuou ela — Julgava-o morto e por isso eu devia ter morrido. Porque, que adiantou ter trazido eternamente o seu luto no coração? Apenas transformar uma mulher de trinta e nove anos numa mulher de cinqüenta, mais nada. Que adiantou que, tendo sido a única pessoa a reconhecê-lo, me tenha limitado a salvar o meu filho? Não deveria salvar também o homem, por mais culpado que fosse, que aceitara como marido? No entanto, deixei-o morrer. Que digo, meu Deus? Contribui para a sua morte com a minha covarde insensibilidade, com o meu desprezo, não me lembrando, não querendo lembrar-me, de que fora por mim que se tomara perjuro e traidor! Que adiantou, finalmente, que tivesse acompanhado o meu filho até aqui, se aqui o abandonei, se aqui o deixei partir sozinho, se aqui o entreguei à terra devoradora da África? Oh, tenho sido covarde, garanto-lhe! Reneguei o meu amor e, como os renegados, trago a desgraça a tudo o que me rodeia!
— Não, Mercedes — disse Monte Cristo — Não. Não persista nessa má opinião de si mesma. Não, a senhora é uma nobre e santa mulher, que me desarmara com a sua dor. Mas atrás de mim, invisível, desconhecido, irritado, havia Deus, do qual eu era apenas o mandatário, e que não quis deter o raio que eu lançara. Oh, esse Deus aos pés do qual me prosterno todos os dias há dez anos sabe que lhe sacrificaria a vida, Mercedes, e com a vida os projetos que lhe estavam relacionados. Mas, digo-o com orgulho, Mercedes, Deus necessitava de mim e eu vivi. Examine o passado, examine o presente, procure adivinhar o futuro, e veja se não sou um instrumento do Senhor. A primeira parte da minha vida foi constituída pelas mais horríveis desventuras, pelos mais cruéis sofrimentos, pelo abandono de todos aqueles que me amavam, pela perseguição daqueles que me não conheciam. Depois, de repente, após o cativeiro, o isolamento e a miséria, o ar, a liberdade e uma fortuna tão deslumbrante, tão prodigiosa, tão desmedida que, a menos que fosse cego, teria de admitir que Deus ma enviava com grandes desígnios. Desde então, essa fortuna pareceu-me ser um sacerdócio; desde então, nem mais um pensamento dedicado a essa vida de que a senhora, pobre mulher, saboreou algumas vezes a doçura; nem uma hora de calma, nem uma. Senti-me impelido como a nuvem de fogo que passa no céu para ir queimar as cidades malditas. Como esses capitães aventureiros que embarcam para uma viagem perigosa, que planejam uma expedição arriscada, preparei os víveres, carreguei as armas, amontoei os meios de ataque e defesa habituando o meu corpo aos exercícios mais violentos, a minha alma aos choques mais rudes, e ensinando o meu braço a matar, os meus olhos a ver sofrer e a minha boca a sorrir aos aspectos mais terríveis. De bom, de confiante, de generoso que era, tornei-me vingativo, dissimulado, mau; ou antes, impassível como a surda e cega fatalidade. Então, lancei-me no caminho que abrira, transpus o espaço, consegui os meus fins. Ai daqueles que cruzassem no meu caminho!
— Basta! — exclamou Mercedes — Basta, Edmond! Acredite, aquela que foi a única capaz de o reconhecer foi também a única capaz de o compreender. Ora, Edmond, aquela que soube reconhecê-lo, aquela que foi capaz de o compreender, se a tivesse encontrado no seu caminho e a tivesse quebrado como vidro, nem por isso deixaria de o admirar, Edmond! Assim como existe um abismo entre mim e o passado, também existe um abismo entre o senhor e os outros homens, e a minha mais dolorosa tortura, confesso-lhe, é estabelecer comparações. Porque não há nada no mundo que se lhe compare, nada que se pareça consigo. E agora, Edmond, diga-me adeus e separemo-nos.
— Antes de deixá-la, que deseja, Mercedes? — perguntou Monte Cristo.
— Só desejo uma coisa, Edmond: que o meu filho seja feliz.
— Suplique-o ao Senhor, o único que tem a vida dos homens na mão, que afaste a morte dele. Do resto eu me encarrego.
— Obrigada, Edmond.
— Mas a senhora, Mercedes?
— Eu não preciso de nada, vivo entre duas sepulturas: uma a de Edmond Dantés, que morreu há muito tempo; amava-o! Esta palavra já não assoma aos meus lábios murchos, mas o meu coração ainda se recorda dela e por nada deste mundo desejaria perder essa lembrança do coração. A outra é a de um homem que Edmond Dantés matou; aprovo a morte, mas devo rezar pelo morto.
— O seu filho será feliz, minha senhora — repetiu o Conde.
— Então, serei também feliz quanto o possa ser.
— Mas... enfim... que fará?
Mercedes sorriu tristemente.
— Se lhe dissesse que viveria nesta terra como a Mercedes de outrora, isto é, trabalhando, o senhor não acreditaria. Já só sei rezar, mas não tenho necessidade de trabalhar; o pequeno tesouro que o senhor enterrou encontrava-se no lugar indicado. As pessoas quererão saber quem sou, perguntarão o que faço, ignorarão como vivo. Que importa! Trata-se de assunto entre Deus, o senhor e eu.
— Mercedes — disse o Conde — Não a censuro, mas exagerou o sacrifício renunciando a toda a fortuna acumulada pelo Sr. de Morcerf e metade da qual pertencia por direito à sua economia e à sua orientação.
— Adivinho o que me vai propor, mas não posso aceitar. Edmond, o meu filho me proibiria.
— Sendo assim, tomarei o cuidado de nada fazer pela senhora que não tenha a aprovação do Sr. Albert de Morcerf. Averiguarei as suas intenções e me submeterei a elas. Mas se aceitar o que pretendo fazer, o imitárá sem repugnância?
— Bem sabe, Edmond, que já não sou uma criatura pensante; de determinação só tenho a de nunca mais cair em outra. Deus sacudiu-me de tal modo nas suas tempestades que perdi a vontade disso. Estou nas suas mãos como um pardal nas garras da águia. Ele não quer que morra, uma vez que vivo. Se me enviar ajuda, será de sua vontade e a aceitarei.
— Cautela, senhora, não é assim que se adora Deus! — observou Monte Cristo — Deus quer que compreendamos e discutamos o seu poder: foi para isso que nos deu o livre arbítrio.
— Não me diga isso, desgraçado! — exclamou Mercedes — Se acreditasse que Deus me dera o livre arbítrio, que me restaria para me salvar do desespero?
Monte Cristo empalideceu ligeiramente e baixou a cabeça, esmagado pela veemência daquela dor.
— Não quer dizer-me até à vista? — perguntou, estendendo-lhe a mão.
— Quero — respondeu Mercedes, mas apontando para o céu solenemente — Como vê, ainda tenho esperança...
E depois de tocar na mão do Conde com mão trêmula, Mercedes correu para a escada e desapareceu.
Monte Cristo saiu então lentamente da casa e tomou o caminho do porto.
Mas Mercedes não o viu afastar-se, embora estivesse à janela do quartinho do pai de Dantés. Os seus olhos procuravam ao longe o navio que levava o filho para o mar alto. Verdade seja, a que a sua voz, como que a seu pesar, murmurava baixinho:
— Edmond, Edmond, Edmond!




continua... 








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Lei de ComimAs pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.
Lei de MurphyO companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.