terça-feira, 1 de novembro de 2011

O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei - Capítulo 13




— Capítulo III —
A Montanha Da Perdição




Sam colocou a capa esfarrapada de orc sob a cabeça do mestre, cobrindo-se com o manto cinzento de Lórien, enquanto isso acontecia, seus pensamentos fugiram para aquele belo lugar, e para os elfos, esperando que o tecido feito por aquelas mãos pudesse ter alguma virtude de mantê-los escondidos superando qualquer esperança naquele deserto de medo.
Ouviu as brigas e os gritos diminuindo, enquanto as tropas avançavam através da Boca Ferrada. Parecia que na confusão e na mistura de várias companhias não haviam dado pela falta deles, pelo menos não por enquanto. Sam tomou um gole de água, mas forçou Frodo a beber, e, quando seu mestre tinha melhorado um pouco, deu-lhe um naco inteiro do precioso pão de viagem e o fez comer. Então, exaustos demais até para sentirem muito medo, os dois se esticaram no chão. Dormiram um pouco, num sono sobressaltado, pois o suor esfriava-lhes os corpos, as pedras machucavam e eles tremiam. Lá do Norte, da direção do Portão Negro através de Cirith Gorgor, vinha sussurrando junto ao chão uma aragem tênue e fria.
Pela manhã uma luz cinzenta apareceu de novo, pois nas altas regiões o Vento Oeste ainda soprava, mas lá embaixo nas pedras, atrás das fronteiras da Terra Negra, o ar parecia quase morto, frio e ao mesmo tempo sufocante. A terra ao redor era desolada, plana e pardacenta. Nada se movia agora nas estradas próximas, mas Sam temia os olhos vigilantes na muralha da Boca Ferrada, a menos de duzentos metros ao Norte. No sudeste, distante como uma sombra escura e vertical, assomava a Montanha. Despejava fumaça, e, enquanto a porção que subia mais alto se distanciava para o Leste, grandes nuvens pesadas flutuavam descendo pelas suas encostas e se espalhavam sobre a terra. A algumas milhas ao nordeste, os pés das Montanhas Cinzentas eram como sombrios fantasmas cor de cinza, atrás dos quais as nevoentas montanhas do Norte erguiam-se como uma fileira de nuvens pouco mais escuras que o céu baixo.
Sam tentava adivinhar as distâncias e decidir que caminho deveriam tomar.
— Parecem no mínimo cinquenta milhas — murmurou ele desanimado, fitando a montanha ameaçadora — E o que leva um dia vai levar uma semana com o Sr. Frodo nas condições em que está.
Balançou a cabeça, e, enquanto calculava, um novo pensamento escuro cresceu em sua mente. A esperança morrera por muito tempo em seu forte coração, e até agora ele sempre conseguira pensar um pouco na volta para casa. Mas a amarga verdade chegara até ele por fim: na melhor das hipóteses, a provisão que tinham os levaria até seu objetivo, e, quando a tarefa estivesse cumprida, então eles acabariam sozinhos, sem casa e sem comida no meio de um terrível deserto. Não poderia haver volta.
“Então esse era o trabalho que eu senti que precisava desempenhar quando parti”, pensou Sam, “Ajudar o Sr. Frodo até o último passo e depois morrer junto com ele? Bem, se esse era o trabalho, é melhor que eu o faça. Mas eu gostaria imensamente de rever Beirágua, e Rosinha Villa e seus irmãos, e o Feitor e Calêndula e todos eles. Não posso conceber a idéia de que Gandalf tenha enviado o Sr. Frodo nessa missão se não houvesse nenhum fiozinho de esperança de ele voltar algum dia. As coisas todas deram errado quando ele caiu em Moria. Gostaria que aquilo não tivesse acontecido. Ele teria feito algo”.
Mas no momento em que a esperança morria em Sam, ou parecia morrer, ela se transformou em uma nova força. O rosto simples do hobbit ficou austero, quase cruel, no momento em que sua disposição se endureceu, e ele sentiu um frêmito percorrer-lhe pernas e braços, como se tivesse se transformado em alguma criatura de pedra e aço, que não poderia ser subjugada nem pelo desespero, nem pelo cansaço, nem por milhas infindáveis de terra desolada. Com um novo senso de responsabilidade, trouxe os olhos de volta para a terra que o rodeava, estudando o próximo movimento.
Quando a luz aumentou um pouco ele viu, para a sua surpresa, que o que a certa distância parecera uma planície ampla e disforme era na realidade uma região irregular e esboroada. De fato, toda a superfície das planícies de Gorgoroth estava salpicada de grandes buracos, como se, quando ela ainda era uma região coberta de lama mole, tivesse sido atingida por uma chuva de raios e pedras arrojadas por enormes fundas. Os buracos maiores eram contornados por bordas de rocha quebrada, e largas fissuras corriam deles em todas as direções. Era uma região onde seria possível se esgueirarem de esconderijo em esconderijo, sem que ninguém os visse, exceto os olhos mais atentos: possível pelo menos para quem fosse forte e não precisasse ter pressa. Para os famintos e exaustos, que tinham muito a andar antes que a vida lhes faltasse, o lugar tinha uma aparência maligna.
Pensando em todas essas coisas Sam voltou para o seu mestre. Não foi preciso acordá-lo. Frodo estava deitado de costas, com os olhos abertos, fitando o céu cheio de nuvens.
— Bem, Sr. Frodo — disse Sam — Estive dando uma olhada por aqui, e pensando um pouco. Não há alma viva nas estradas, e é melhor nos mexermos enquanto ainda há uma chance. O senhor consegue?
— Consigo — disse Frodo — Preciso conseguir.
Partiram mais uma vez, esgueirando-se de concavidade em concavidade, correndo atrás da proteção que conseguiam encontrar, mas sempre se movendo uma linha oblíqua na direção dos pés da cordilheira Norte. Mas, à medida que avançavam, a estrada que ficava mais ao Leste os seguia, até desaparecer, abraçando as fraldas das montanhas, entrando numa muralha de sombra negra bem adiante. Nem homens nem orcs se moviam agora ao longo de seus trechos planos e cinzentos, pois o Senhor do Escuro quase completara o movimento de suas forças, e mesmo na fortaleza de seu próprio reino ele buscava o sigilo da noite, temendo os ventos do mundo que haviam se virado contra ele, rasgando seus véus, e preocupado com notícias de arrojados espiões que tinham atravessado suas fronteiras.
Os hobbits haviam caminhado algumas milhas difíceis quando pararam. Frodo parecia quase exausto. Sam percebeu que ele não conseguiria avançar muito daquele modo, arrastando-se, agachando-se, por vezes tomando um caminho duvidoso com muito vagar, por vezes se apressando numa corrida aos trambolhões.
— Vou voltar para a estrada enquanto ainda perdura a luz, Sr. Frodo — disse ele — Confiemos na sorte mais uma vez! Ela quase nos abandonou da última vez, mas foi só quase. Um passo firme por mais algumas milhas, e depois descansamos.
Ele estava assumindo um risco muito maior do que imaginava, mas Frodo estava por demais ocupado com seu fardo e com a luta em sua mente para discutir, e quase desesperado demais para se preocupar. Subiram até a estrada, e avançaram com dificuldade, descendo o caminho cruel que conduzia à própria Torre Escura. Mas a sorte os acompanhou, e pelo resto daquele dia eles não encontraram nada vivo ou em movimento. Quando a noite caiu, desapareceram dentro da escuridão de Mordor.
Toda a terra parecia se preparar agora para a chegada de uma tempestade: pois os Capitães do Oeste tinham passado pela Encruzilhada e ateado fogo nos campos mortais de Imlad Morgul. Assim continuou a viagem desesperada, enquanto o Anel ia para o Sul e as bandeiras dos reis cavalgavam para o Norte.
Para os hobbits, cada dia, cada milha, era mais amargo que o anterior, pois sua força diminuía e a terra se tornava mais maligna. Não encontraram inimigos durante o dia. Às vezes, durante a noite, quando se escondiam ou cochilavam inquietos em algum esconderijo á margem da estrada, escutavam gritos e o ruído de muitos pés, ou a passagem veloz de algum cavalo conduzido impiedosamente.
Mas muito pior que todos esses perigos era a ameaça cada vez mais próxima que incidia sobre eles enquanto avançavam: a ameaça terrível do Poder que esperava, concentrado em pensamentos profundos e numa malícia sempre vigilante, atrás do véu escuro que protegia seu Trono. Chegava cada vez mais perto, assomando mais negra, como o avanço de uma muralha de noite na última extremidade do mundo.
Finalmente chegou um anoitecer terrível, no momento em que os Capitães do Oeste se aproximavam do fim das terras viventes, os dois andarilhos depararam com uma hora de desespero cego.
Já haviam se passado quatro dias desde que tinham fugido dos orcs, mas o tempo se estendia atrás deles como um sonho cada vez mais escuro. Durante todo esse último dia, Frodo não dissera uma palavra, mas caminhara meio curvado, sempre tropeçando, como se seus olhos não enxergassem mais o caminho diante de seus pés. Sam achava que em meio a todas as dores ele suportava a pior, o peso crescente do Anel, um fardo sobre o corpo e um tormento para a mente. Ansioso, Sam notara como a mão esquerda do mestre sempre se levantava, como se para desviar um golpe, ou para proteger seus olhos contraídos do terrível Olho que procurava penetrá-los. E algumas vezes a mão direita se dirigia ao peito, agarrando, e depois devagar, quando o controle era recuperado, a mão se afastava outra vez.
Agora, quando o negrume da noite retornara, Frodo sentou-se, com a cabeça entre os joelhos, os braços soltos, as mãos caídas no chão e crispando-se levemente. Sam o observou, até que a noite cobriu ambos e os ocultou um do outro. Não conseguia mais encontrar palavra alguma para dizer, e voltou-se para os próprios pensamentos sombrios. Quanto a ele, embora estivesse exausto e sob uma sombra de medo, ainda lhe restava alguma força.
O lembas tinha uma virtude sem a qual os dois teriam há muito tempo se deitado á espera da morte. Não satisfazia o desejo, e algumas vezes a mente de Sam se enchia com lembranças de comida, e o desejo de um simples pão e carnes. E, apesar disso, aquele pão-de-viagem dos elfos tinha um poder que aumentava à medida que os viajantes confiavam apenas nele, sem misturá-lo a outras comidas. Alimentava a disposição, e dava forças para resistir, e para dominar os tendões e os membros, uma capacidade que ia além da medida dos mortais.
Mas agora uma nova decisão precisava ser tomada. Não podiam mais seguir por aquela estrada, pois ela prosseguia rumo ao Leste e entrava na grande Sombra, e a Montanha já assomava á direita, quase na direção do Sul, e eles precisavam rumar para lá Mas diante dela ainda se estendia uma ampla região de terra fumegante, desolada, coberta de cinzas.
— Água, água! — murmurou Sam, privara-se de beber, e em sua boca ressecada a língua parecia grossa e inchada.
Apesar de todo o cuidado, agora lhes sobrava muito pouco, cerca de metade de sua garrafa, e talvez houvesse ainda dias à frente. Tudo teria terminado há muito tempo se eles não tivessem se arriscado pela estrada dos orcs. Pois, a longos intervalos na estrada, cisternas haviam sido construídas para o uso de tropas enviadas com urgência através das regiões secas. Numa delas Sam encontrara um resto de água salobra, emporcalhada pelos orcs, mas que ainda serviu para o seu caso extremo. Mas isso já fora há um dia. Não havia esperanças de encontrarem mais.
Por fim, exausto pela preocupação, Sam cochilou, deixando o amanhã para quando o amanhã chegasse, não podia fazer mais nada. Sonho e vigília se misturaram num sono sobressaltado. Sam via luzes como olhos que exultavam numa satisfação maligna, e formas escuras a espreita, ouvia ruídos de animais selvagens ou os gritos aterrorizantes de seres torturados, acordava então para ver o mundo todo escuro e apenas um negrume vazio ao redor. Apenas uma vez, quando se levantou e olhou alucinado á sua volta, pareceu-lhe que, embora estivesse acordado, ainda podia ver luzes pálidas como olhos, mas logo elas piscaram e desapareceram.
A noite odiosa passou devagar e relutante. A luz do dia seguinte era fraca, pois ali, à medida que a Montanha se aproximava, o ar era sempre tenebroso, enquanto vindos da Torre Escura insinuavam-se os véus de Sombra que Sauron tecia ao redor de si. Frodo estava deitado de costas, imóvel. Sam parou ao lado dele, relutando em falar, e ao mesmo tempo sabendo que a palavra agora era sua: precisava animar a vontade do mestre para mais um esforço. Por fim, abaixando-se e acariciando a testa de Frodo, falou-lhe ao ouvido.
— Acorde, Mestre! — disse ele — É hora de partirmos de novo.
Como se despertado de repente por uma campainha, Frodo acordou apressado e levantou-se, olhando para o Sul, mas, quando seus olhos contemplaram a Montanha e o deserto, ele fraquejou de novo.
— Não consigo, Sam — disse ele — É um peso tão grande para carregar, tão grande.
Sam já sabia antes de falar que seria em vão, e que tais palavras poderiam causar mais mal que bem, mas em sua pena não conseguiu se manter calado.
— Então deixe-me carregá-lo um pouco para o senhor, Mestre — disse ele — O senhor sabe que eu faria isso, de bom grado, enquanto me restassem forças.
Uma luz selvagem se acendeu nos olhos de Frodo.
— Afaste-se! Não me toque! — gritou ele — Ele é meu, estou dizendo. Saia daqui!
Sua mão procurou o punho da espada. Mas então, de súbito, sua voz se alterou de novo.
— Não, não, Sam — disse ele com tristeza — Mas você precisa me entender. O fardo é meu, e ninguém mais pode carregá-lo. Agora é tarde demais, Sam, meu querido. Você não pode me ajudar dessa forma outra vez. Agora estou quase totalmente dominado pela força dele. Não conseguiria me desfazer dele, e se você tentasse tomá-lo eu enlouqueceria.
Sam concordou com a cabeça.
— Eu compreendo — disse ele — Mas estive pensando, Sr. Frodo, há outras coisas das quais podemos nos privar. Por que não tornar o fardo um pouco mais leve? Estamos indo para lá agora, o mais direto possível.
Apontou para a Montanha.
— Não adianta levarmos coisa alguma sem termos certeza de que precisaremos dela.
Frodo olhou de novo na direção da Montanha.
— Não — disse Frodo — Não vamos precisar de muita coisa naquela estrada. E no fim não precisaremos de nada.
Pegando o escudo de orc, jogou-o fora, e o capacete foi em seguida. Então, despindo a capa cinzenta, desafivelou o cinto pesado e o deixou cair no chão, juntamente com a espada na bainha. Rasgou os trapos da capa preta, jogando-os fora também.
— Pronto, não serei mais um orc — exclamou ele — E não carregarei mais arma alguma, fina ou feia. Que eles me peguem, se quiserem.
Sam fez a mesma coisa, e deixou de lado sua roupa de orc,; tirou também todas as coisas de sua mochila. De certa forma, apegara-se a cada uma delas, mesmo que fosse apenas por tê-las carregado até agora com tanto esforço. O mais difícil foi se separar de seu equipamento de cozinha. Lágrimas minaram-lhe nos olhos quando pensou em jogá-lo fora.
— O senhor se lembra daquela porção de coelho, Sr. Frodo? — disse ele — E do nosso lugar sob o abrigo quente do barranco na terra do Capitão Faramir, no dia em que vi um olifante?
— Não, receio que não, Sam — disse Frodo — Pelo menos, sei que essas coisas aconteceram, mas não consigo vê-las em minha mente. Nem sentir o gosto de comida, nem a sensação da água, nem ouvir o som do vento, nem me lembrar de árvore ou grama ou flor, nenhuma imagem de lua ou estrela me resta. Estou nu no escuro, Sam, e nenhum véu se coloca entre mim e a roda de fogo. Começo a vê-la até com os olhos despertos, e todo o resto desaparece.
Sam se aproximou e beijou-lhe a mão.
— Então, quanto mais cedo nos livrarmos dela, mais cedo descansaremos — disse ele com hesitação, sem encontrar palavras melhores — Falar não vai melhorar nada — murmurou ele consigo mesmo, enquanto reunia todas as coisas que os dois haviam separado para jogar fora.
Não estava disposto a deixá-las jazendo desprotegidas no deserto, para que quaisquer olhos as vissem.
— Fedegoso pegou aquela camisa de orc, ao que parece, e não vai juntar nenhuma espada a ela. Suas mãos já são más o suficiente quando vazias. E ele não vai emporcalhar minhas panelas!
Com isso ele carregou todo o equipamento até uma das fissuras que recortavam a paisagem e jogou-as lá dentro. A batida das preciosas panelas caindo no escuro soou como um dobre fúnebre em seu coração. Voltou para perto de Frodo, e de sua corda élfica cortou um pequeno pedaço para servir de cinto ao mestre, e amarrou a capa cinzenta firmemente em volta de sua cintura. Enrolou a sobra cuidadosamente, tornando a guardá-la. Junto com a corda guardou apenas o que restava do pão de viagem e a garrafa de água, Ferroada ainda pendia-lhe do cinto, e escondidos bolso da túnica próximo ao peito estavam o frasco de Galadriel e a pequena caixa que ela lhe dera.
Agora, por fim, viraram o rosto para a Montanha e partiram, sem mais pensarem em se esconder, concentrando o cansaço e a vontade fraquejante apenas na única tarefa de prosseguir.
Naquele dia desolado e escuro, poucos seres poderiam tê-los espionado, mesmo naquela terra de vigilância, a não ser que estivessem bem próximos.
De todos os escravos do Senhor do Escuro, apenas os Nazgûl poderiam tê-lo advertido do perigo, pequeno, mas indomável, que se esgueirava para dentro do próprio coração de seu vigiado reino. Mas os Nazgûl com suas asas negras estavam longe em outra missão. Estavam reunidos num ponto distante, cobrindo de sombras a marcha dos Capitães do Oeste, e para lá também o pensamento da Torre Escura se dirigia.
Naquele dia, Sam teve a impressão de que seu mestre encontrara alguma força nova, mais do que se poderia explicar pela pequena diminuição do peso que tinham de carregar. Nas primeiras marchas, os dois avançaram mais e com maior velocidade do que ele esperara. A terra era acidentada e hostil, e apesar disso eles fizeram muito progresso, e a Montanha se aproximava cada vez mais. Mas, quando o dia foi terminando e precocemente a luz fraca começou a se apagar, Frodo se abaixou de novo e começou a cambalear, como se o esforço renovado tivesse exaurido as forças que lhe restavam. Na última parada, ele foi ao chão e disse:
— Estou com sede, Sam — e não falou mais nada.
Sam lhe deu um gole de água, agora só restava mais um gole. Ele mesmo ficou sem, e agora, quando mais uma vez a noite de Mordor se fechava sobre eles, atravessando todos os seus pensamentos lhe chegava a lembrança de água, e cada riacho ou rio ou fonte que vira na vida, sob as sombras verdes de salgueiros ou faiscando ao sol, dançava e se encrespava para seu tormento atrás da cegueira de seus olhos. Sentia a lama fresca nos pés que chapinhavam no lago em Beirágua, com Jolly Villa, Tom e Nibs, e a irmã deles, Rosinha.
— Mas isso foi há anos — suspirou ele — E num lugar muito longe. O caminho de volta, se houver algum, passa pela Montanha.
Não conseguiu dormir, e discutia consigo mesmo.
— Bem, vamos agora, fizemos melhor do que você esperava — disse ele com firmeza — Pelo menos começamos bem. Calculo que tenhamos vencido metade da distância antes de pararmos. Mais um dia e terminaremos.
E então parou.
— Não seja tolo, Sam Gamgi — chegou-lhe uma resposta na sua própria voz — Ele não conseguirá prosseguir mais um dia desse jeito, se é que vai conseguir se mover. E você não pode continuar por muito tempo dando-lhe toda a água e a maior parte da comida.
— Ainda posso caminhar um longo trecho, e é o que vou fazer.
— Para onde?
— Para a Montanha, é claro.
— Mas e depois, Sam Gamgi, e depois? Quando você chegar lá, o que vai fazer? Ele não vai ser capaz de fazer coisa alguma por si mesmo.
Para sua decepção, Sam percebeu que não tinha uma resposta para isso. Não tinha nenhuma idéia clara. Frodo não lhe dissera muito sobre sua missão, e Sam só sabia vagamente que o Anel precisava de alguma forma ser atirado ao fogo.
— As Fendas da Perdição — murmurou ele, com o velho nome surgindo em sua mente — Bem, se o Mestre sabe como encontrá-las, eu não sei.
— Aí está! — veio a resposta — É tudo inútil. Ele mesmo o disse. Você é o tolo, continuando a ter esperanças e se esforçando. Vocês poderiam ter-se deitado e dormido juntos há muitos dias, se você não tivesse sido tão teimoso. Mas vai morrer do mesmo jeito, ou em condições piores. É melhor se deitar e desistir de tudo. Nunca vai chegar ao topo, de qualquer forma.
— Vou chegar lá, mesmo que deixe tudo, exceto meus ossos, para trás — disse Sam — E eu mesmo vou carregar o Sr. Frodo, mesmo que isso arrebente minhas costas e meu coração. Então, pare de discutir!
Nesse momento, Sam sentiu um tremor no chão sob seus pés, e ouviu ou sentiu um retumbar profundo e remoto, como o de um trovão aprisionado na terra. Acendeu-se uma chama breve e rubra, que faiscou sob as nuvens e se extinguiu.
A Montanha também dormia um sono inquieto.
Chegou a última etapa da viagem para Orodruin, que foi um tormento maior do que Sam jamais sonhara poder suportar. Sentia dores, e sua boca estava tão ressecada que ele não conseguia sequer engolir um bocado de comida. Tudo continuava escuro, não apenas por causa da fumaça da Montanha: parecia haver uma tempestade se aproximando, e na distância a sudeste havia um faiscar de relâmpagos sob os céus negros. Pior de tudo, o ar estava cheio de vapores, respirar era difícil e doloroso, e os dois foram dominados por uma tontura, de modo que cambaleavam e frequentemente caíam. E mesmo assim sua força de vontade não cedeu, e eles avançavam com esforço.
A Montanha espreitava cada vez mais de perto até que, se eles levantassem as cabeças pesadas, ela encheria toda a sua visão, assomando vasta diante deles: uma enorme massa de cinza e lava e pedra queimada, da qual um cone de lados íngremes se erguia até as nuvens. Antes que terminasse o crepúsculo que durara todo um dia, e a verdadeira noite chegasse, eles já tinham chegado aos arrastões e tropeções aos próprios pés da Montanha.
Ofegante, Frodo se jogou no chão. Sam sentou-se ao lado dele. Para a sua surpresa, sentiu-se cansado, mas mais leve, e sua cabeça pareceu desanuviar-se de novo. Já nenhum debate perturbava-lhe a mente. Ele agora conhecia todos os argumentos do desespero e não estava disposto a lhes dar ouvidos. Deixara de sentir necessidade ou vontade de dormir, e só desejava ficar acordado, vigiando. Sabia que todos os perigos e riscos convergiam agora para um mesmo ponto. O dia seguinte seria um dia decisivo, o dia do esforço ou do desastre final, do último arranque. Mas quando chegaria? A noite parecia infinita e atemporal, minuto após minuto caindo morto, sem se somar à passagem das horas, sem trazer qualquer mudança.
Sam começou a se perguntar se uma segunda escuridão não começara, impedindo o reaparecimento de qualquer outro dia. Por fim tateou procurando a mão de Frodo. Estava fria e trêmula. Seu mestre estava tiritando.
— Não deveria ter deixado meu cobertor para trás — murmurou Sam, e deitando-se tentou confortar Frodo com os braços e o corpo.
Então o sono o arrebatou, e a luz apagada do último dia de sua Demanda os encontrou lado a lado.
O vento amainara no dia anterior ao se deslocar do Oeste, e agora vinha do Norte e começava a aumentar, lentamente a luz do sol invisível se infiltrava nas sombras onde estavam deitados os hobbits.
— Agora vamos! Agora, para o último arranque! — disse Sam, esforçando-se para se levantar. Inclinou-se sobre Frodo, despertando-o com delicadeza.
Frodo resmungou, mas com um grande esforço de vontade levantou-se vacilante, em seguida caiu sobre os joelhos outra vez. Ergueu os olhos com dificuldade até as escuras encostas da Montanha da Perdição que assomava acima dele, e então penosamente começou a avançar arrastando-se com pés e mãos.
Sam olhou para ele e chorou em seu íntimo, mas nenhuma lágrima chegou-lhe aos olhos secos e ardidos.
— Eu disse que o carregaria, mesmo que arrebentasse as costas — murmurou ele — E é isso que vou fazer! Venha, Sr. Frodo! — gritou ele — Não posso carregar a coisa em seu lugar, mas posso carregá-lo junto com ela. Então vamos subir! Venha, Sr. Frodo, meu querido! Sam vai lhe dar uma carona. É só dizer para onde ir, e ele irá.
Assim que Frodo agarrou-se às suas costas, deixando os braços com folga ao redor do seu pescoço, e prendendo as pernas com firmeza sob seus braços, Sam levantou-se com dificuldade, então, para seu espanto, sentiu que o fardo era leve. Temera mal ter forças para carregar apenas o mestre, e além disso esperara precisar dividir o terrível peso do maldito Anel. Mas não foi assim. Talvez porque Frodo estivesse tão exausto por suas longas dores, pelo ferimento de faca, e pelo ferrão venenoso, além da tristeza do medo e de tanto tempo vagando sem um lar, ou talvez porque algum dom de força final lhe fora concedido, Sam levantou Frodo tão facilmente como se estivesse carregando de cavalinho uma criança hobbit, em alguma brincadeira nos prados ou campos de feno do Condado. Respirou fundo e partiu.
Tinham atingido o pé da Montanha pelo seu flanco Norte, um pouco a Oeste, ali suas grandes encostas cinzentas, embora irregulares, não eram íngremes. Frodo nada dizia, e assim Sam avançava lutando da melhor maneira possível, sem ter qualquer outro guia a não ser sua própria disposição de escalar até a maior altura que conseguisse, antes que sua força cedesse e sua vontade fosse destruída.
Lutava e seguia em frente, subindo e subindo, tomando um ou outro caminho para suavizar a subida, várias vezes tropeçando para a frente e por fim arrastando-se como um caramujo que carrega um fardo pesado nas costas. Quando sua vontade não pôde levá-lo mais adiante, e suas pernas fraquejaram, parou e deitou o mestre no chão suavemente.
Frodo abriu os olhos e respirou fundo. Era mais fácil respirar lá em cima, sobre os vapores pestilentos que se enrolavam e flutuavam mais embaixo.
— Obrigado, Sam — disse ele num sussurro falho — Quanto caminho ainda resta?
— Não sei — disse Sam — Porque não sei para onde estamos indo.`
Olhou para trás, e depois para cima, ficou espantado ao ver a distância que percorrera naquele último esforço. A Montanha, erguendo-se ominosa e solitária, parecera maior do que na verdade era. Sam via agora que era menos alta do que os altos passadiços dos Ephel Dúath, que ele e Frodo haviam escalado. As encostas confusas e irregulares de sua enorme base subiam cerca de novecentos metros acima da planície, e acima destas subia por cerca de metade dessa altura o grande cone central, como um vasto forno ou chaminé coroado por uma cratera denteada. Mas Sam já estava quase a meio caminho da base, e a planície de Gorgoroth aparecia escura lá embaixo, envolta em fumaça e sombra. Ao olhar para cima Sam poderia ter dado um grito, se sua garganta ressecada lhe permitisse, pois, em meio ás corcovas e encostas desiguais acima, ele viu claramente uma trilha ou estrada. Subia do Oeste como um cinturão, e ziguezagueava ao redor da Montanha como uma cobra até que, antes de sumir de vista, atingia o pé do cone no lado Leste.
Sam não conseguia ver o caminho imediatamente acima dele, na sua parte mais baixa, pois uma encosta íngreme subia de onde estava, mas ele calculava que, se conseguisse lutar e subir só um pouco mais, os dois atingiriam a trilha. Um fulgor de esperança retornou-lhe ao coração. Ainda podiam conquistar a Montanha.
— Que coisa, deve ter sido colocada lá de propósito! — disse ele para si mesmo — Se não estivesse lá, eu teria de dizer que fui derrotado no final.
A trilha não fora colocada lá para os propósitos de Sam. Ele não sabia, mas estava olhando para a Estrada de Sauron, que ia de Barad-dûr até os Sammath Naur, as Câmaras de Fogo. Saindo do enorme portão Oeste da Torre Escura, a estrada passava sobre um abismo profundo através de uma ampla ponte de ferro e depois, entrando na planície, continuava por cerca de uma légua entre duas fendas fumegantes, e assim atingia um longo passadiço inclinado que conduzia até a encosta Leste da Montanha. Depois, fazendo uma curva e contornando toda a circunferência de Sul a Norte, ela finalmente subia, alta no cone superior, mas ainda longe do topo cheio de vapores, até uma entrada escura que dava para o Leste, diretamente na direção da janela do Olho na fortaleza de Sauron, envolta em sombra. Frequentemente bloqueada ou destruída por tumultos nos fornos da Montanha, essa estrada era sempre consertada e limpa pelo trabalho de incontáveis orcs.

[FIG. 14] MONTANHA DA PERDIÇÃO


Sam respirou fundo. Havia uma trilha, mas como subir a encosta para chegar até ela ele não sabia. Primeiro precisava aliviar a dor nas costas. Estirou-se ao lado de Frodo por um tempo. Nenhum dos dois dizia palavra. Devagar a luz aumentou. De repente, acometeu-o um senso de urgência que ele não entendia.
Era quase como se Sam tivesse sido chamado: “Agora, agora, ou será tarde demais!”. Apoiou-se e se levantou.
Frodo também parecia ter ouvido o chamado. Num esforço se pôs de joelhos.
— Vou rastejar, Sam — disse ele ofegante.
Assim, passo a passo, como pequenos insetos cinzentos, eles se arrastaram encosta acima. Chegaram á trilha e descobriram que era larga, pavimentada com cascalho fragmentado e cinza batida. Frodo subiu até ela e então, como se movido por alguma compulsão, virou lentamente o rosto para o Leste. Distantes pairavam as sombras de Sauron mas rasgadas por alguma rajada de vento vinda do mundo, ou quem sabe impelidas por algum intenso abalo interior, as nuvens que tudo cobriam rodopiaram, e por um momento se afastaram; então ele viu, erguendo-se negros, mais negros e escuros que as vastas sombras em meio às quais estavam, os cruéis pináculos e a coroa de ferro da torre mais alta de Barad-dûr. Durante um momento fugaz, como se emitida de alguma grande janela incomensuravelmente alta, cortou o céu ao Norte uma chama vermelha, o faiscar de um olho penetrante, depois as sombras se adensaram de novo e a terrível visão foi removida.
O Olho não estava voltado para eles: olhava para o Norte, onde os Capitães do Oeste estavam encurralados, e para lá voltava agora toda a sua maldade, enquanto o poder se movia para desferir seu golpe mortal, mas Frodo, diante daquela rápida visão, sentiu-se como alguém golpeado mortalmente. Sua mão procurou a corrente em volta do pescoço.
Sam se ajoelhou ao lado dele. Fraco, quase inaudível, ele ouviu o sussurro de Frodo:
— Me ajude, Sam! Me ajude! Segure minha mão! Não posso detê-la.
Sam tomou as mãos do mestre e as uniu, palma com palma, beijando-as, depois as segurou delicadamente entre as suas. De súbito lhe ocorreu o pensamento: “Ele nos achou! Está tudo acabado, ou logo estará! Agora, Sam Gamgi, este é o fim de todos os fins”.
Mais uma vez levantou Frodo e puxou as mãos dele até o próprio peito, deixando que as pernas do mestre ficassem pendentes. Depois abaixou a cabeça e se esforçou ao longo da estrada que subia. Não era um caminho tão fácil como parecera a princípio. Por sorte, os fogos que se derramaram nos grandes abalos quando Sam estava sobre Cirith Ungol tinham descido principalmente pela encosta Sul e pela Oeste, e a estrada deste lado não estava bloqueada. Mesmo assim, em vários pontos tinha desmoronado ou era atravessada por largas fendas. Depois de escalar por algum tempo em direção ao Leste, a estrada se inclinava sobre si mesma num ângulo fechado e rumava para o Oeste por um trecho. Ali, naquela curva, a estrada era um corte fundo através de um velho rochedo desgastado pelo tempo, outrora vomitado dos fornos da Montanha.
Ofegando sob sua carga, Sam fez a curva, e no momento em que o fazia, pelo canto do olho, viu de relance alguma coisa caindo do rochedo, como um pequeno pedaço de pedra preta que se tivesse desprendido no momento em que ele passava.
Um peso súbito o golpeou e ele caiu para a frente, raspando as costas das mãos que ainda seguravam as do mestre. Então percebeu o que acontecera, pois acima dele, enquanto estava no chão, ouviu uma voz odiada.
— Messstre malvado! — chiou a voz — Messstre malvado nos engana, engana Sméagol, gollum Não deve ir por ali. Não deve machucar o Precioso! Dê ele para Sméagol, ssim, dê ele para nóss!
Num repelão Sam levantou-se. Imediatamente puxou a espada, mas nada pôde fazer. Gollum e Frodo estavam atracados. Gollum, furioso, estraçalhava a roupa de Frodo, tentando agarrar a corrente e o Anel. Essa era provavelmente a única coisa que teria despertado as brasas agonizantes do coração e da vontade de Frodo: um ataque, uma tentativa de arrancar-lhe o tesouro à força. Ele lutou com uma fúria súbita que assombrou Sam, e também Gollum. Mesmo assim as coisas poderiam ter acontecido de forma muito diferente, se Gollum não estivesse mudado, mas os misteriosos caminhos, aterrorizantes e solitários, que ele trilhara, sem comida e sem água, movido por um desejo devorador e um medo terrível, haviam deixado nele marcas atrozes. Gollum era agora uma criatura magra, faminta, desfigurada, feita apenas de ossos e pele esticada e embranquecida. Uma luz selvagem queimava em seus olhos, mas sua malícia já não estava associada à antiga força que tinha nas mãos. Frodo se desvencilhou dele, jogando-o de lado, e levantou-se tremendo.
— Largue-me! Largue-me! — disse ele ofegante, com a mão agarrada ao peito, de modo que debaixo da proteção de sua camisa de couro segurava o Anel — Largue-me, sua coisa rastejante, e saia de meu caminho! Seu tempo chegou ao fim. Agora você não pode me trair ou me matar.
Então, de repente, como antes sob as bordas das Emyn Muil, Sam viu aqueles dois rivais de uma outra maneira. Uma figura humilhada, que mal passava da sombra de um ser vivo, uma criatura agora completamente arruinada e derrotada, e mesmo assim cheia de ira e de um desejo hediondo, e diante dela erguia-se austero, imune agora à compaixão, um vulto vestido de branco, mas que segurava em seu peito uma roda de fogo. Do fogo falava uma voz imperiosa.
— Vá embora, e não me perturbe mais! Se voltar a me tocar de novo, você mesmo será jogado dentro do Fogo da Perdição.
A figura humilhada recuou, o terror enchendo-lhe os olhos, que ao mesmo tempo piscavam num desejo insaciável. Então a visão passou e Sam viu Frodo de pé, com a mão no peito, respirando em grandes haustos, e Gollum aos pés dele, apoiado nos joelhos, com as largas mãos achatadas contra o chão.
— Cuidado! — gritou Sam — Ele vai pular!
Deu um passo à frente, brandindo a espada.
— Rápido, Mestre! — disse ele ofegando — Siga em frente! Siga em frente! Não há tempo a perder Eu cuido dele. Siga em frente!
Frodo olhou para ele como se olha para alguém que está distante.
— Sim, preciso continuar — disse ele — Adeus, Sam! Chegamos ao fim. Sobre a Montanha da Perdição, a perdição cairá. Adeus! — virou-se e partiu, caminhando devagar, mas ereto, subindo a trilha inclinada.
— Agora! — disse Sam — Finalmente vou cuidar de você! — saltou á frente, com a espada na mão, pronto para a luta.
Mas Gollum não pulou. Caiu no chão estatelado, choramingando.
— Não mate nóss — chorava ele — Não machuque nóss com aço cruel e mau! Deixe nós viver, é sim, viver um pouco mais. Perdidos, perdidos! Estamos perdidos. E quando o Precioso se for vamos morrer, é sim, morrer na poeira ssuja.
Levantou um pouco das cinzas da trilha com os dedos longos e descarnados.
— Sssuja! — chiou ele.
A mão de Sam vacilou. Sua mente fervia com o ódio e com a lembrança do mal. Seria justo matar essa criatura traiçoeira, assassina, justo e muitas vezes merecido, além disso parecia a única coisa segura a fazer Mas no fundo de seu coração havia algo que o impedia: ele não podia atacar aquela coisa caída na poeira, abandonada, arruinada, absolutamente desgraçada. Ele mesmo, embora apenas por pouco tempo, tinha carregado o Anel, e agora adivinhava vagamente a agonia da mente e do corpo murchos de Gollum, escravizados por aquele Anel, incapazes de algum dia encontrarem outra vez paz ou alívio na vida. Mas Sam não tinha palavras para explicar o que sentia.
— Oh, maldita seja, sua criatura nojenta! — disse ele — Vá embora! Fora daqui! Não confio em você, não enquanto ainda possa chutá-lo, mas fora daqui! Ou eu vou machucá-lo, vou sim, com aço cruel e mau.
Gollum ficou de quatro, recuou vários passos e então virou-se, e, no momento em que Sam fazia menção de chutá-lo, fugiu descendo pela trilha. Sam não lhe deu mais atenção. De repente se lembrou de seu mestre. Ergueu os olhos para a trilha e não conseguiu vê-lo. Na maior velocidade possível, foi subindo a estrada. Se tivesse olhado para trás, poderia ter visto Gollum se virar outra vez não muito abaixo, e, depois, vir com um brilho alucinado nos olhos, rápido mas com cautela, arrastar-se atrás dele uma sombra furtiva em meio ás pedras.
A trilha continuava subindo. Logo fazia outra curva e num último trecho ao Leste entrava num corte ao longo da face do cone e chegava á porta escura na encosta da Montanha, a porta das Sammath Naur.
Distante, agora erguendo-se em direção ao Sul, o sol, perfurando a fumaça e a névoa, queimava ominoso, um disco vermelho opaco e ofuscado, mas toda Mordor jazia ao redor da Montanha como uma terra morta, silenciosa, envolta em sombras, aguardando algum golpe terrível.
Sam atingiu a boca escancarada e espiou lá dentro. Estava escuro e quente, e um ribombar profundo agitava o ar.
— Frodo! Mestre! — chamou ele.
Não houve resposta. Por um momento ficou ali parado, seu coração batendo com temores alucinados, e então mergulhou na escuridão.
Uma sombra o seguiu.
Num primeiro momento, não conseguiu ver nada. Em sua extrema necessidade, puxou mais uma vez o frasco de Galadriel, mas ele estava pálido e frio em sua mão trêmula, e não jogava luz alguma naquela escuridão sufocante. Sam chegara ao coração do reino de Sauron, e ás forjas de seu antigo poder, as maiores da Terra-Média, ali todos os outros poderes eram subjugados. Temeroso, ele deu alguns passos incertos no escuro, e então, de repente, veio um clarão vermelho que se ergueu nos ares, e atingiu o alto teto negro. Então Sam viu que estava numa longa caverna ou túnel que fora cavado dentro do cone fumegante da Montanha. Mas, apenas um pouco adiante, seu chão e as paredes dos dois lados se abriam numa grande fissura, da qual saia o clarão vermelho, que ora se erguia e ora se extinguia na escuridão, e todo o tempo, lá embaixo, havia um rumor e uma agitação como de grandes máquinas pulsando e trabalhando.
A luz irrompeu outra vez, e lá, na borda da fissura, na própria Fenda da Perdição, estava Frodo, negro contra o clarão, tenso, ereto, mas imóvel como se tivesse sido transformado em pedra.
— Mestre! — gritou Sam.
Então Frodo se mexeu e falou com uma voz clara, na realidade com uma voz mais clara e poderosa do que Sam jamais o ouvira usar, e que se erguia acima da pulsação e dos abalos da Montanha da Perdição, retumbando no teto e nas paredes.
— Cheguei — disse ele — Mas agora minha escolha é não fazer o que vim aqui para fazer. Não vou realizar este feito. O Anel é meu!
E de repente, colocando-o no dedo, desapareceu da visão de Sam.
Sam abriu a boca assombrado, mas não pode gritar, pois naquele momento muitas coisas aconteceram.
Alguma coisa golpeou-o violentamente pelas costas, suas pernas ficaram presas por baixo e ele foi jogado de lado, batendo a cabeça contra o chão de pedra, uma sombra escura pulou sobre ele. Sam ficou deitado e imóvel, e por um tempo tudo ficou escuro.
E lá bem distante, no momento em que Frodo colocou o Anel e o reivindicou para si mesmo, exatamente ali, nas Sammath Naur, o próprio coração de seu reino, o poder de Barad-dûr sofreu um abalo, e a Torre tremeu dos alicerces até o topo orgulhoso e cruel.

[FIG. 15] O OLHO VERMELHO DE SAURON NO TOPO DE BARAD-DÛR


De repente o Senhor do Escuro percebeu a presença do hobbit, e seu Olho, penetrando todas as sombras, atravessou a planície na direção da porta que ele fizera,e a magnitude de sua própria loucura revelou-se a ele num clarão cegante, e todas as estratégias de seus inimigos foram finalmente desnudadas diante de seus olhos. Então sua ira incandesceu-se numa chama devoradora, mas seu medo ergueu-se como uma vasta fumaça para sufocá-lo. Pois ele sabia do perigo mortal que estava correndo, e percebia o fio pelo qual estava agora pendurado seu destino.
De todas as suas estratégias e teias de medo e traição, de todos os seus estratagemas e guerras sua mente se libertou, e todo o seu reino foi atravessado por um tremor, seus escravos vacilaram, seus exércitos pararam e seus capitães, subitamente sem liderança, desprovidos de vontade, hesitaram e se desesperaram. Pois foram esquecidos. Toda a mente e o propósito do Poder que os controlava concentravam-se agora com uma força arrasadora na Montanha. A um chamado seu, rodopiando com um grito lancinante, numa última corrida desesperada voaram, mais rápidos que os ventos, os Nazgûl, os Espectros do Anel, e com uma tempestade de asas arremessaram-se em direção ao Sul para a Montanha da Perdição.
Sam levantou-se. Estava zonzo, e o sangue que jorrava de sua cabeça pingava-lhe sobre os olhos. Avançou tateando e então viu uma cena estranha e terrível.
Gollum, na beira do abismo, lutava como um ser ensandecido contra um inimigo invisível. Tombava para a frente e para trás, algumas vezes chegando tão perto da borda que quase caía lá dentro, outras recuando, caindo ao chão, levantando-se e caindo de novo. Durante todo o tempo chiava, mas não dizia palavra alguma.
Os fogos embaixo despertaram irados, o clarão vermelho incandesceu-se, e toda a caverna ficou repleta de luminosidade e calor.
De repente Sam viu as longas mãos de Gollum se erguerem até a boca, suas presas brancas brilharam, e se fecharam numa mordida. Frodo deu um grito, e lá estava ele, caído de joelhos, na beira do abismo. Mas Gollum, dançando como um louco, erguia o anel, com um dedo ainda enfiado no circulo, que agora brilhava como se realmente fosse feito de fogo vivo.
Precioso, precioso, precioso! — gritava Gollum — Meu Precioso! Ó, meu Precioso!
E assim, no momento em que erguia os olhos para se regozijar com sua presa, deu um passo grande demais, tropeçou, vacilou por um momento na beirada, e então com um grito agudo caiu. Das profundezas chegou seu último gemido, Precioso, e então ele se foi.
Houve um rugido e uma grande confusão de sons.
Labaredas se alçavam e lambiam o teto. A pulsação cresceu num grande tumulto, e a montanha tremeu. Sam correu até Frodo, e levantando-o carregou-o até a porta. E ali, na soleira escura das Sammath Naur, bem acima das planícies de Mordor, tal estupefação e terror sobrevieram que ele ficou parado, esquecido de todo o resto, imóvel como alguém que foi transformado em pedra.
Teve uma visão rápida de nuvens rodopiando, e no meio delas torres e ameias, altas como colinas, fundadas sobre um poderoso trono de montanha acima de abismos incomensuráveis, grandes pátios e calabouços, prisões sem olhos, íngremes como penhascos, e portões escancarados feitos de ferro e pedra adamantina: e então tudo acabou.
Torres caíram e montanhas deslizaram, paredes desmoronaram e derreteram, esboroando-se, enormes espirais de fumaça e jatos de vapor subiam, subiam e se espalhavam, até formarem um teto semelhante a uma onda ameaçadora, e sua crista alucinada se crispou e veio descendo e cobrindo tudo, espumando sobre a terra.
E então, por fim, através das milhas da planície chegou um ribombo, crescendo até se tornar um estrondo e um rugido ensurdecedores, a terra tremeu, a planície arfou, abriu-se em brechas e o Orodruin cambalcou. Chamas se lançavam de seu topo fendido. Os céus explodiram em trovão, cortados por relâmpagos. Como chicotes açoitando caiu uma torrente de chuva negra. E no coração da tempestade, com um grito que atravessava todos os outros sons, rasgando as nuvens, os Nazgûl vieram, caindo como raios em chamas, como se estivessem presos na destruição da montanha e do céu, e no fogo estalaram, murcharam e se apagaram.
— Bem, este é o fim, Sam Gamgi — disse uma voz ao seu lado.
E ali estava Frodo, pálido e exausto, e apesar disso era Frodo novamente, agora em seus olhos só havia paz, nem luta de vontade, nem loucura, nem qualquer temor. Seu fardo fora levado. Ali estava o querido mestre dos doces dias no Condado.
— Mestre! — gritou Sam, caindo de joelhos.
Em meio a toda aquela ruína do mundo, naquele momento ele só sentiu alegria, uma grande alegria. O fardo se fora. Seu mestre se salvara, voltara a si de novo, estava livre. E então Sam viu a mão mutilada, sangrando.
— Sua pobre mão! — disse ele — E não tenho nada que sirva como atadura, ou que possa confortá-la. Eu preferiria dar-lhe uma das minhas mãos inteira. Mas agora ele se foi, e está além de qualquer alcance. Ele se foi para sempre.
— Sim — disse Frodo — Mas você se lembra das palavras de Gandalf: Até mesmo Gollum pode ter ainda algo a fazer? Se não fosse por ele, Sam, eu não poderia ter destruído o Anel. A Demanda teria sido em vão, no fim de tanta amargura. Então vamos perdoá-lo! Pois a Demanda está terminada, e com sucesso, e tudo está acabado. Estou contente por tê-lo comigo. Aqui, no fim de todas as coisas, Sam.





continua...





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Lei de ComimAs pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.
Lei de MurphyO companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 114






CXIV

PEPPINO




N
o preciso instante em que o navio a vapor do Conde desaparecia para lá do cabo Morgiou, um homem em viagem pela estrada de Florença a Roma acabava de deixar para trás a cidadezinha de Aquapendente. A sua velocidade era a suficiente para percorrer boa distância sem, no entanto se tornar suspeito.
Envergando uma redingote, ou antes um sobretudo que a viagem pusera em muito mau estado, mas que ainda deixava ver, brilhante e fresca, uma fita da Legião de Honra, repetida na sobrecasaca, o homem, não só por esse duplo sinal, mas também pela pronúncia com que falava ao postilhão, devia ser francês. Mais uma prova de que nascera no país da língua universal: não sabia outras palavras italianas a não ser essas palavras de música que podem, como o godman de Fígaro, substituir todas as sutilezas de determinada língua.
— Alegro! — dizia ao postilhão em cada subida.
— Moderato! — gritava em cada descida.
E Deus bem sabe se há subidas e descidas na estrada de Florença a Roma por Aquapendente!...
De resto, aquelas duas palavras faziam rir muito a boa gente a quem eram dirigidas.
Perante a cidade eterna, isto é, à chegada a Storta, ponto de onde se vê Roma, o viajante não experimentou esse sentimento de curiosidade entusiástica que leva todos os estrangeiros a levantarem-se do seu lugar para tentarem ver a famosa cúpula de São Pedro, que se descobre muito antes de distinguir outra coisa. Não, tirou apenas uma carteira da algibeira, e da carteira um papel dobrado em quatro, que desdobrou e dobrou com uma atenção respeitosa, e limitou-se a dizer:
— Bom, ainda o tenho...
A carruagem transpôs a Porta del Popolo, virou à esquerda e deteve-se no Hotel de Espanha.
Mestre Pastrini, nosso velho conhecido, recebeu o viajante no limiar da porta e de chapéu na mão. O viajante apeou-se, encomendou um bom jantar e informou-se do endereço da Casa Thomson & French, que lhe foi indicado imediatamente, visto essa casa ser uma das mais conhecidas de Roma.
Estava situada na Via dei Banchi, perto de São Pedro.
Em Roma, como em toda a parte, a chegada de uma sege de posta é um acontecimento. Dez jovens descendentes de Mário e dos Graco, descalços e de cotovelos rotos, mas de mão na anca e com o braço pitorescamente curvado por cima da cabeça, observavam o viajante, a sege de posta e os cavalos. A esses garotos da cidade por excelência tinham-se juntado uns cinqüenta basbaques dos Estados de Sua Santidade, daqueles que fazem rodas e cospem para o Tibre do alto da Ponte de Santo Ângelo quando o Tibre leva água. Ora, como os garotos e os basbaques de Roma, mais felizes do que os de Paris, compreendem todas as línguas, e, sobretudo a língua francesa, perceberam o viajante pedir um quarto, pedir de jantar e pedir, finalmente, o endereço da Casa Thomson & French.
Dai resultou que quando o recém-chegado saiu do hotel com o cicerone da praxe, um homem separou-se do grupo de curiosos e, sem ser notado pelo viajante e sem parecer ser notado pelo guia, caminhou a curta distância do estrangeiro, seguindo-o com tanta perícia que talvez causasse inveja a um agente da polícia parisiense.
O francês tinha tanta pressa de visitar a Casa Thomson & French que nem sequer esperara que os cavalos fossem substituídos; a carruagem deveria apanhá-lo no caminho ou esperá-lo à porta dos banqueiros.
Chegaram antes de a carruagem os apanhar.
O francês entrou e deixou na antecâmara o guia, que imediatamente meteu conversa com dois ou três desses industriais sem indústria, ou antes, de mil indústrias, que se encontram em Roma à porta dos banqueiros, das igrejas, das ruínas, dos museus e dos teatros.
Ao mesmo tempo que o francês entrou também o homem que se separara do grupo de curiosos. O francês bateu no guichê dos escritórios e entrou na primeira sala; a sua sombra fez outro tanto.
— Os Srs. Thomson & French? — perguntou o estrangeiro.
Uma espécie de lacaio levantou-se a um sinal de um empregado de confiança, guarda solene do primeiro escritório.
— Quem devo anunciar? — perguntou o lacaio, preparando-se para caminhar à frente do estrangeiro.
— O Sr. Barão Danglars — respondeu o viajante.
— Acompanhe-me — disse o lacaio.
Abriu-se uma porta e o lacaio e o barão desapareceram por ela.
O homem que entrara atrás de Danglars sentou-se num banco de espera.
O empregado continuou a escrever durante cerca de cinco minutos; durante esses cinco minutos, o homem sentado guardou o mais profundo silêncio e a mais completa imobilidade. Depois a pena do empregado deixou de ranger no papel; o homem levantou a cabeça, olhou atentamente à sua volta e disse, após se assegurar de que estavam sós:
— Ah, ah!... Por aqui , Peppino?
— É verdade — respondeu laconicamente este último.
— Farejou alguma coisa que valha a pena nesse gordo?
— Não tive grande mérito nisso: fomos avisados.
— Sabe portanto o que vem fazer aqui? Curioso...
— Por Deus, vem receber! Apenas falta saber quanto.
— Saberemos daqui a pouco, amigo.
— Muito bem; mas que não aconteça como no outro dia, em que me deste uma informação falsa.
— Quer fazer o favor de me dizer do que está falando? Será daquele inglês que levantou há dias três mil escudos?
— Não. Esse tinha efetivamente os três mil escudos e nós encontramos-lhos. Refiro-me ao príncipe russo.
— E então?
— Então? Falou-nos em trinta mil francos e nós só lhe encontramos vinte e duas.
— É porque procuraram mal.
— Foi Luigi Vampa em pessoa quem o revistou.
— Nesse caso, é porque pagara as suas dívidas...
— Um russo?
— Ou gastou o dinheiro.
— É possível, no fim de contas.
— É certo. Mas deixe-me ir ao meu observatório antes de o francês concluir a transação sem eu saber a importância exata.
Peppino acenou afirmativamente, tirou um rosário da algibeira e pôs-se a resmonear uma prece enquanto o empregado saía pela mesma porta que dera passagem ao lacaio e ao barão. Passados cerca de dez minutos, o empregado voltou radiante.
— Então? — perguntou Peppino, ao amigo.
— Alerta, alerta! — disse o empregado — A importância é alta...
— Cinco a seis milhões, não é verdade?
— Sim. Sabe a importância?
— Sobre um recibo de Sua Excelência o Conde de Monte Cristo.
— Conhece o Conde?
— Crédito sobre Roma, Veneza e Viena.
— Exato! — exclamou o empregado — Como é que está tão bem informado?
— Já te disse que fomos prevenidos antecipadamente.
— Então porque veio ter comigo?
— Para ter a certeza de que é de fato o homem que esperávamos.
— Não há dúvida que é ele... cinco milhões. Uma bonita quantia, não é verdade, Peppino?
— É.
— Nunca possuiremos tanto.
— Pelo menos teremos algumas migalhas — respondeu filosoficamente Peppino.
— Cale-se! Vem aí o nosso bem.
O empregado voltou a pegar na pena e Peppino no seu rosário. Um escrevia e o outro rezava quando a porta se abriu. Danglars apareceu radiante, acompanhado do banqueiro, que o levou até à porta.
Peppino saiu atrás de Danglars.
De acordo com o combinado, a carruagem que devia ir buscar Danglars esperava-o já diante da Casa Thomson & French. O cicerone segurava a portinhola aberta. O cicerone é um indivíduo muito prestável e que se pode utilizar no que se quiser.
Danglars saltou para a carruagem com a agilidade de um rapaz de vinte anos. O cicerone fechou a portinhola e subiu para junto do cocheiro.
Peppino subiu para o acento da retaguarda.
— Sua Excelência quer ver São Pedro? — perguntou o cicerone.
— Para quê?... — respondeu o barão.
— Demônio, para ver!
— Não vim a Roma para ver — disse Danglars em voz alta, e depois acrescentou baixinho e com o seu sorriso cúpido — Vim para receber.
E tocou na carteira, em que acabava de guardar uma carta.
— Então, Sua Excelência vai...?
— Para o hotel.
— Casa Pastrini — disse o cicerone ao cocheiro.
E a carruagem partiu rápida, como uma carruagem particular.
Dez minutos mais tarde o barão entrava nos seus aposentos e Peppino instalava-se no banco existente na fachada do hotel, depois de dizer algumas palavras ao ouvido de um dos descendentes de Mário e dos Graco a que nos referimos no princípio deste capítulo, o qual descendente tomou o caminho do Capitólio a toda a velocidade das suas pernas.
Danglars estava cansado, satisfeito e ensonado. Deitou-se, meteu a carteira debaixo da almofada e adormeceu. Peppino tinha tempo de sobra. Jogou à morra com uns facchini, perdeu três escudos e para se consolar bebeu uma garrafa de vinho de Orvieto.
No dia seguinte, Danglars acordou tarde, apesar de ter se deitado cedo. Mas havia cinco ou seis noites que dormia muito mal, quando dormia. Almoçou, e pouco interessado, como dissera, em ver as belezas da cidade eterna, pediu os seus cavalos de posta para o meio-dia.
Mas Danglars não contara com as formalidades da polícia nem com a preguiça do homem da posta. Os cavalos só chegaram às duas horas e o cicerone só voltou com o passaporte visado às três horas.
Os descendentes dos Graco e de Mário também não faltaram ao bota-fora.
O barão atravessou triunfalmente os grupos, que lhe chamavam Excelência para apanharem um bajocco.
Como Danglars, homem popularíssimo, como sabemos, se contentara até ali que o tratassem por barão e ainda não fora tratado por Excelência, este titulo lisonjeou-o e por isso distribuiu uma dúzia de pauls a toda aquela canalha, mais que disposta, por outros doze pauls, a tratá-lo por Alteza.
— Por que estrada? — perguntou o postilhão em italiano.
— Estrada de Ancona — respondeu o barão.
Mestre Pastrini traduziu a pergunta e a resposta e a carruagem partiu a galope.
Danglars queria, efetivamente, chegar a Veneza, receber aí parte da sua fortuna e, depois de Veneza, alcançar Viena, onde realizaria o resto. A sua intenção era fixar-se nesta última cidade, que lhe tinham garantido ser uma cidade de prazeres.
Mal percorreu três léguas na campina de Roma começou a anoitecer. Danglars não esperara partir tão tarde, pois de contrário teria ficado. Assim, perguntou ao postilhão quanto faltava para chegaram à próxima cidade.
— Non capisco — respondeu o postilhão.
Danglars fez um gesto com a cabeça que queria dizer:
“Muito bem!”
A carruagem continuou o seu caminho.
“Na primeira posta o mandarei parar”, disse Danglars para consigo.
Danglars experimentava ainda um resto do bem-estar que sentira na véspera e lhe proporcionara tão boa noite. Estava estiraçado molemente num bom coche inglês de molas duplas, sentia-se levado pelo galope de dois bons cavalos e a distância entre cada muda era de sete léguas e ele sabia-o. Que fazer quando se é banqueiro e se teve a sorte de falir?
Danglars pensou dez minutos na mulher que deixara em Paris, outros dez minutos na filha correndo o mundo com Mademoiselle d’Armilly, concedeu mais dez minutos aos seus credores e à forma como empregaria o seu dinheiro, e depois, não tendo mais nada em que pensar, fechou os olhos e adormeceu.
No entanto, de vez em quando, sacudido por um solavanco mais forte do que os outros, Danglars abria por um momento os olhos. Mas continuava a sentir-se, transportado com a mesma velocidade através da campina romana, toda salpicada de aquedutos em ruínas, que pareciam gigantes de granito petrificados no meio da sua corrida. Além disso, a noite estava fria, escura e chuvosa, e era muito mais agradável para um homem meio adormecido permanecer no fundo da sua sege de olhos fechados do que deitar a cabeça fora da portinhola para perguntar onde estavam a um postilhão que só sabia responder: “Non capisco”.
Danglars continuou, portanto a dormir dizendo para consigo que teria sempre tempo de acordar na muda.
A carruagem parou. Danglars pensou que chegara finalmente ao ponto tão desejado. Abriu os olhos, olhou através do vidro e esperou encontrar-se no meio de qualquer cidade ou pelo menos de qualquer aldeia. Mas não viu nada, exceto uma espécie de casebre isolado, e três ou quatro homens que iam e vinham como fantasmas.
Danglars esperou um instante que o postilhão que acabara de chegar lhe viesse pedir o dinheiro da posta. Tencionava aproveitar a oportunidade para pedir algumas informações ao seu novo condutor. Mas os cavalos foram desatrelados e substituídos sem que ninguém viesse pedir dinheiro ao viajante. Danglars, surpreendido, abriu a portinhola; mas uma mão vigorosa empurrou-o imediatamente para dentro e a sege pôs-se em andamento.
O barão, estupefato, acordou por completo.
— Eh! — gritou ao postilhão — Eh, mio caro!
Era ainda o italiano de romança, que Danglars fixara quando a filha cantava duos com o príncipe Cavalcanti.
Mas o mio caro não respondeu.
Danglars limitou-se então a abrir o vidro.
— Eh, amigo! Aonde vamos? — perguntou, metendo a cabeça pela abertura.
— Dentro la testa! — gritou uma voz grave e imperiosa, acompanhada de um gesto de ameaça.
Danglars compreendeu que dentro la testa queria dizer “cabeça para dentro”. Fazia, como vemos, rápidos progressos no italiano.
Obedeceu, não sem inquietação, e como a inquietação aumentava de minuto a minuto, passados alguns instantes o seu espírito, em vez do vácuo que assinalamos no momento da partida e que o levara a adormecer, o seu espírito, dizíamos, encontrou-se cheio de inúmeros pensamentos, uns mais próprios do que outros para manterem desperto o interesse de um viajante, e, sobretudo de um viajante na situação de Danglars.
Os seus olhos adquiriram nas trevas o grau de acuidade que transmitem no primeiro momento as emoções fortes e que se embota mais tarde por excesso de utilização. Antes de se ter medo, vê-se bem; enquanto se tem medo, vê-se a dobrar, e depois de se ter medo vê-se nublado. Danglars viu um homem envolto numa capa que galopava à portinhola da direita.
— Algum guarda — murmurou — Terei sido assinalado pelos telégrafos franceses às autoridades pontifícias?
Resolveu sair de semelhante ansiedade.
— Para onde me levam? — perguntou.
— Dentro la testa! — repetiu a mesma voz no mesmo tom de ameaça.
Danglars virou-se para a portinhola da esquerda.
Outro homem a cavalo galopava à portinhola da esquerda.
“Decididamente”, pensou Danglars com a testa coberta de suor, “Decididamente, fui apanhado...”
E recostou-se no fundo do coche, desta vez não para dormir, mas sim para pensar.
Pouco depois a Lua surgiu no céu. Do fundo do coche olhou para os campos; tornou a ver então os grandes aquedutos, fantasmas de pedra que notara ao passar; simplesmente, em vez de os ter à direita, tinha-os agora à esquerda.
Compreendeu que tinham obrigado a carruagem a dar meia volta e que o levavam novamente para Roma.
— Que pouca sorte — murmurou — Devem ter obtido a extradição!
A carruagem continuava a correr com espantosa velocidade. Passou uma hora terrível, pois em cada novo ponto de referência que via à sua passagem o fugitivo reconhecia, sem sombra de dúvida, que o reconduziam ao ponto de partida. Por fim distinguiu uma massa sombria contra a qual lhe pareceu que a carruagem ia chocar. Mas a carruagem virou e contornou essa massa sombria, que não passava da cintura de muralhas que rodeia Roma.
— Oh, oh! — murmurou Danglars — Não entramos na cidade, o que prova que não estou nas mãos da justiça. Meu Deus, será que...?
Os cabelos eriçaram-se lhe.
Recordou-se das interessantes histórias de bandidos romanos, tão pouco acreditadas em Paris, que Albert de Morcerf contara à Sra. Danglars e a Eugénie quando o jovem visconde ainda aspirava a ser genro de uma e marido da outra.
— São talvez ladrões! — murmurou.
De repente, a carruagem rodou sobre qualquer coisa mais dura do que o chão de um caminho arenoso. Danglars arriscou um olhar aos dois lados da estrada. Distinguiu monumentos de forma estranha e o seu pensamento, preocupado com a história de Morcerf, que lhe surgia agora em todos os seus pormenores, o seu pensamento disse-lhe que devia estar na Via Ápia.
À esquerda da carruagem, numa espécie de vale, via-se uma escavação circular.
Era o Circo de Caracala.
A uma ordem do homem que galopava à portinhola da direita, a carruagem parou. Ao mesmo tempo, a portinhola da esquerda abriu-se.
— Scendi! — ordenou uma vez.
Danglars desceu imediatamente. Ainda não falava italiano, mas já o entendia. Mais morto do que vivo, o barão olhou à sua volta. Rodeavam-no quatro homens, sem contar com o postilhão.
— Di quà — disse um dos quatro homens, descendo um carreirinho que levava à Via Ápia, no meio das desigualdades do terreno da campina romana.
Danglars seguiu o seu guia, sem discussão, e não teve necessidade de se virar para saber que o seguiam mais três homens.
Pareceu-lhe, no entanto que esses homens se detinham como sentinelas a distâncias pouco mais ou menos iguais. Após cerca de dez minutos de caminho, durante os quais Danglars não trocou uma única palavra com o seu guia, encontrou-se entre um cabeço e uma moita de ervas altas. Três homens de pé e calados formavam um triângulo de que ele era o centro.
Quis falar, mas a língua embaraçou-se-lhe.
— Avanti — disse a mesma voz de tom breve e imperioso.
Desta vez, Danglars compreendeu duplamente: compreendeu pela palavra e pelo gesto, pois o homem que vinha atrás empurrou-o tão rudemente para diante que ele foi de encontro ao guia.
O guia era o nosso amigo Peppino, que se meteu através das ervas altas por uma sinuosidade que só os furões-bravos e os lagartos seriam capazes de reconhecer como um caminho aberto. Peppino deteve-se diante de uma rocha encimada por uma moita espessa. Essa rocha, entreaberta como uma pálpebra, deu passagem ao rapaz, que desapareceu nela como desaparecem nos seus alçapões os diabos das nossas mágicas.
A voz e o gesto do que seguia Danglars “convidaram” o banqueiro a fazer o mesmo. Não havia que duvidar: o falido francês estava as contas com os bandidos romanos.
Danglars decidiu-se como um homem colocado entre dois perigos terríveis e a quem o medo dá coragem. Apesar de a sua barriga o não ajudar muito a entrar nas grutas da campina de Roma, lá se introduziu atrás de Peppino e, deixando-se escorregar de olhos fechados, conseguiu cair em pé.
Logo que tocou no solo abriu os olhos.
O caminho era amplo, mas escuro. Peppino, pouco preocupado em esconder-se, agora que estava em “casa”, petiscou fogo e acendeu um archote.
Mais dois homens desceram atrás de Danglars, formando a retaguarda, os quais, empurrando o banqueiro quando por acaso parava, o fizeram chegar por uma rampa suave ao meio de uma encruzilhada de aspecto sinistro.
Com efeito, as paredes, escavadas em forma de túmulos sobrepostos, pareciam no meio das pedras brancas, órbitas negras e profundas como as das caveiras.
Uma sentinela bateu com a mão esquerda no fuste da carabina.
— Quem vem lá? — perguntou a sentinela.
— Amigo, amigo! — respondeu Peppino — Onde está o capitão?
— Ali — respondeu a sentinela, indicando por cima do ombro uma espécie de grande sala aberta na rocha e cuja luz se refletia no corredor através de grandes aberturas arqueadas.
— Boa presa, capitão, boa presa — disse Peppino em italiano.
E agarrando Danglars pela gola da redingote, conduziu-o para uma abertura semelhante a uma porta e pela qual se penetrava na sala em que o capitão parecia alojar-se.
— É esse o homem? — perguntou o capitão, que lia muito atentamente A Vida de Alexandre, de Plutarco.
— O próprio, capitão; o próprio.
— Muito bem. Mostre-me.
Cumprindo esta ordem, aliás bastante impertinente, Peppino aproximou tão bruscamente o archote do rosto de Danglars que este recuou sobressaltado, para não ficar com as sobrancelhas queimadas. O seu rosto transtornado apresentava todos os indícios de um pálido e abjeto terror.
— Esse homem está cansado — disse o capitão — Conduzam-no à sua cama.
— Oh! — murmurou Danglars — A cama é provavelmente um dos túmulos escavados na parede e o sono a morte que um dos punhais que vejo cintilar na sombra me vai dar.
Com efeito, nas profundezas escuras da imensa sala soerguiam-se nas suas camas de ervas secas ou de peles de lobo os companheiros do homem que Albert de Morcerf encontrara a ler Os Comentários de César e que Danglars encontrava lendo A Vida de Alexandre.
O banqueiro soltou um gemido abafado e seguiu o seu guia. Não tentou suplicar nem gritar. Já não tinha nem coragem, nem vontade, nem força, nem sensibilidade; iria para onde o arrastassem. Tropeçou num degrau e, compreendendo que havia uma escada na sua frente, baixou-se instintivamente para não partir a cabeça e encontrou-se numa cela talhada em plena rocha.
A cela estava limpa, apesar de vazia, e seca, apesar de situada debaixo da terra a uma profundidade incomensurável. Uma cama de ervas secas cobertas de peles de cabra encontrava-se, não erguida, mas estendida, num canto da cela.
Ao vê-la, Danglars julgou ver o símbolo radioso da sua salvação.
— Deus seja louvado, é uma verdadeira cama! — murmurou.
Era a segunda vez numa hora que invocava o nome de Deus, coisa que lhe não acontecia havia dez anos.
— Ecco — disse o guia.
E empurrou Danglars para dentro da cela e fechou a porta.
Rangeu um ferrolho, Danglars estava prisioneiro.
De resto, mesmo que não houvesse ferrolho seria necessário ser São Pedro e ter por guia um anjo do céu para passar através da guarnição que ocupava as Catacumbas de São Sebastião e acampava à volta do seu chefe, no qual os nossos leitores já certamente reconheceram o famoso Luigi Vampa.
Danglars também reconhecera o bandido, em cuja existência não quisera acreditar quando Morcerf tentara descrevê-lo em França. Não só o reconhecera, como também reconhecera a cela em que Morcerf estivera encerrado e que, segundo todas as probabilidades, era o alojamento dos estranhos.
Estas recordações, nas quais, de resto, Danglars se comprazia com certa satisfação, restituíam-lhe a tranqüilidade. Uma vez que o não tinha matado imediatamente, era porque os bandidos não tencionavam mesmo matá-lo. Tinham-no capturado para roubar, e como só trazia consigo alguns luíses, lhe exigiriam com certeza algum resgate.
Recordou-se de que Morcerf fora taxado em qualquer coisa como quatro mil escudos; como se atribuía um aspecto muito mais importante do que Morcerf; fixou pessoalmente no seu espírito que o seu resgate seria de oito mil escudos.
Oito mil escudos correspondiam a quarenta mil francos.
Ficava-lhe ainda qualquer coisa como cinco milhões e cinqüenta mil francos.
Com isso, um homem safava-se em qualquer parte.
Portanto, quase certo de se tirar de apuros, atendendo a que não havia exemplo de alguma vez se ter taxado um homem em cinco milhões e cinqüenta mil francos, Danglars deitou-se na sua cama, onde, depois de se virar duas ou três vezes, adormeceu com a tranqüilidade do herói cuja história Luigi Vampa estudava.





continua...






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Lei de MurphyO companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.