sábado, 1 de outubro de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 88




LXXXIII

O INSULTO







A
 porta do banqueiro, Beauchamp deteve Morcerf.
— Escute — disse-lhe — Há pouco sugeri-lhe em casa do Sr. Danglars que era ao Conde de Monte Cristo que devia pedir uma explicação.
— É verdade e vamos para sua casa.
— Um momento, Morcerf. Antes de irmos a casa do Conde, reflita.
— Em que quer que reflita?
— Na gravidade da diligência.
— É mais grave do que vir a casa do Sr. Danglars?
— É. O Sr. Danglars é um argentário, e como não ignora, os argentários sabem muito bem o capital que arriscam e não se batem facilmente. O outro, pelo contrário, é um gentil-homem, na aparência, pelo menos; mas não receia encontrar um valente debaixo da capa do gentil-homem?
— Só receio uma coisa: encontrar um homem que se não bata.
— Oh, a esse respeito esteja tranqüilo! — declarou Beauchamp — Esse se baterá. Temo até uma coisa: que se bata demasiado bem. Acautele-se!
— Amigo, isso é tudo o que peço — perguntou Morcerf com um belo sorriso — Nada me pode tornar mais feliz do que ser morto por meu pai; isso nos salvará a todos.
— Mas isso será a morte de sua mãe!
— Pobre mãe, bem o sei! — suspirou Albert, passando a mão pelos olhos — Mas mais vale que morra por isso do que de vergonha.
— Está realmente decidido, Albert?
— Estou.
— Vamos então! Mas acha que o encontraremos?
— Ele devia regressar algumas horas depois de mim e certamente regressou.
Meteram-se na carruagem e mandaram seguir para a Avenida Champs-Élysées, nº. 30. Beauchamp queria descer sozinho, mas Albert observou-lhe que como o caso saía das regras habituais lhe permitia afastar-se da etiqueta do duelo.
O jovem agia em tudo aquilo por uma causa tão sagrada que Beauchamp nada mais tinha a fazer do que submeter-se a todos os seus desejos. Cedeu, portanto a Morcerf e limitou-se a acompanhá-lo.
Albert transpôs apenas de um salto a distância que ia do cubículo do porteiro à escadaria. Foi Baptistin quem o recebeu. Efetivamente, o Conde acabava de chegar, mas estava tomando banho e proibira que se recebesse quem quer que fosse.
— Mas depois do banho? — perguntou Morcerf.
— O senhor jantará.
— E depois do jantar?
— O senhor dormirá uma hora.
— E em seguida?
— Em seguida irá à Ópera.
— Tem certeza? — perguntou Albert.
— Absoluta. O senhor pediu os seus cavalos para as oito horas precisas.
— Muito bem, era tudo o que queria saber — declarou Albert.
Depois, virando-se para Beauchamp, disse-lhe:
— Se tem alguma coisa a fazer, Beauchamp, faça-a imediatamente, e se tem algum encontro marcado para esta noite, adie-o para amanhã. Decerto compreende que conto consigo para ir à Ópera. Se puder, traga-me o Château-Renaud.
Beauchamp aproveitou a dispensa e deixou Albert, depois de prometer ir buscá-lo às oito horas menos um quarto. Regressado a casa, Albert preveniu Franz, Debray e Morrel de que gostaria de os ver naquela noite na Ópera. Depois foi visitar a mãe, que desde os acontecimentos da véspera não recebia ninguém e se conservava no seu quarto. Encontrou a de cama, esmagada pela dor daquela humilhação pública.
A visita de Albert produziu em Mercedes o efeito que era de esperar: apertou a mão do filho e rompeu em soluços. Contudo, as lágrimas aliviaram-na.
Albert permaneceu um instante de pé e mudo junto da mãe. Via-se pelo seu rosto pálido e pelo sobrolho franzido que a sua resolução de vingança se arraigava cada vez mais no seu coração.
— Minha mãe, conhece algum inimigo do Sr. de Morcerf? — perguntou Albert.
Mercedes estremeceu. Notara que o jovem não dissera “ao meu pai”.
— Meu filho — respondeu — As pessoas na posição do Conde têm muitos inimigos que não conhecem. Aliás, os inimigos que se conhecem não são, como sabe, os mais perigosos.
— Sim, bem sei; por isso apelo para toda a sua perspicácia. Minha mãe é uma mulher tão superior que nada lhe escapa!
— Porque me diz isso?
— Porque a senhora notou, por exemplo, que na noite do baile que demos o Sr. de Monte Cristo não quis tomar nada em nossa casa.
Mercedes soergueu-se toda trêmula num braço, a arder em febre.
— O Sr. de Monte Cristo! — exclamou — E que relação tem isso com a pergunta que me faz?
— Como sabe, minha mãe, o Sr. de Monte Cristo é quase um homem do Oriente, e os Orientais, para conservarem toda a liberdade de vingança, nunca comem nem bebem em casa dos seus inimigos...
— Diz que o Conde de Monte Cristo é nosso inimigo, Albert? — perguntou Mercedes, tornando-se mais pálida do que o lençol que a cobria — Quem lhe disse isso? Por quê? Está louco, Albert. O Sr. de Monte Cristo só tem tido atenções para conosco. O Sr. de Monte Cristo salvou-lhe a vida, foi o senhor mesmo que o apresentou. Oh, peço-lhe, meu filho, se teve semelhante idéia, afaste-a! E já agora quero fazer-lhe uma recomendação, direi mais, quero fazer-lhe um pedido: dê-se bem com ele.
— Minha mãe — replicou o jovem, com um olhar sombrio — Tem decerto as suas razões para me dizer que poupe esse homem.
— Eu?! — exclamou Mercedes, corando com a mesma rapidez com que empalidecera e tornando-se quase imediatamente ainda mais pálida do que anteriormente.
— Sim, sem dúvida, e essa razão — insistiu Albert — É que esse homem nos pode fazer mal, não é verdade?
Mercedes estremeceu e pousou no filho um olhar perscrutador.
— Diz-me coisas muito estranhas, Albert, e tem singulares prevenções, parece-me... que lhe fez o Conde? Ainda há três dias estava com ele na Normandia, e também ainda há três dias eu o considerava, assim como o senhor, o seu melhor amigo.
Um sorriso irônico aflorou aos lábios de Albert. Mercedes viu esse sorriso, e com o seu duplo instinto de mulher e de mãe adivinhou tudo. Mas prudente e forte, ocultou a sua perturbação e os seus receios. Albert deixou morrer a conversa; passado um instante, a condessa reatou-a.
— Vinha perguntar-me como ia; respondo-lhe francamente, meu filho, que me não sinto bem. Devia instalar-se aqui, Albert, e fazer-me companhia. Preciso de não estar só.
— Minha mãe, estaria às suas ordens, e bem sabe com que prazer, se um assunto urgente e importante me não obrigasse a deixá-la durante toda a noite.
— Ah, muito bem! — respondeu Mercedes com um suspiro — Vá, Albert, não quero torná-lo de modo algum escravo da sua piedade filial.
Albert simulou não compreender, cumprimentou a mãe e saiu. Assim que o jovem fechou a porta, Mercedes mandou chamar um criado de confiança e ordenou-lhe que seguisse Albert para toda a parte onde fosse naquela noite e que viesse informá-la imediatamente do que visse.
Depois, tocou chamando a criada de quarto e, por muito fraca que estivesse, vestiu-se para estar pronta para qualquer eventualidade.
A missão dada ao lacaio não era difícil de cumprir. Albert regressou aos seus aposentos e vestiu-se com uma espécie de esmero severo. Beauchamp chegou às oito horas menos dez minutos; falara com Château-Renaud, o qual prometera encontrar-se no seu lugar de orquestra antes de o pano subir. Meteram-se ambos no cupé de Albert, o qual, não tendo qualquer motivo para ocultar aonde ia, disse em voz alta:
— À Ópera!
Na sua impaciência, chegou antes de o pano subir. Château-Renaud encontrava-se no seu lugar. Prevenido de tudo por Beauchamp, Albert não tinha nenhuma explicação a dar-lhe. O comportamento dos filhos que procuram vingar o pai era tão simples que Château-Renaud nem sequer tentou dissuadi-lo e limitou-se a renovar-lhe a certeza de que estava ao seu dispor.
Debray ainda não chegara, mas Albert sabia que raramente faltava a um espetáculo da Ópera. Albert vagueou pelo teatro até ao subir do pano. Esperava encontrar Monte Cristo, quer no corredor, quer na escada. A campainha chamou-o ao seu lugar e ele foi sentar-se nas cadeiras de orquestra, entre Château-Renaud e Beauchamp. Mas os seus olhos não largavam o camarote entre colunas, que durante o primeiro ato pareceu obstinar-se em permanecer fechado.
Por fim, quando Albert consultava pela centésima vez o relógio, no inicio do segundo ato, a porta do camarote abriu-se e Monte Cristo, vestido de preto, entrou e encostou-se à balaustrada para olhar a sala. Morrel, que o acompanhava, pôs-se também a procurar com os olhos a irmã e o cunhado. Descobriu-os num camarote de segunda ordem e fez-lhes sinal.
Ao dar uma vista de olhos circular pela sala, o Conde descobriu um rosto pálido e olhos cintilantes que pareciam querer atrair avidamente os seus. Reconheceu Albert, mas a expressão que notou naquele rosto transtornado aconselhou-o sem dúvida a fazer de conta que o não vira. Sem esboçar, portanto nenhum gesto que revelasse o seu pensamento, sentou-se, tirou o binóculo do estojo e apontou-o para outro lado.
Mas, sem parecer ver Albert, o Conde não o perdia de vista, e quando o pano desceu, no fim do segundo ato, o seu golpe de vista infalível e seguro seguiu o jovem, que saía da platéia acompanhado dos seus dois amigos.
Depois, a mesmo rosto reapareceu num camarote de primeira ordem, defronte do seu. O Conde sentia aproximar-se a tempestade, e quando ouviu a chave girar na fechadura do seu camarote, embora falasse nesse momento com Morrel com o seu rosto mais risonho, o Conde sabia a que se ater e estava preparado para tudo.
A porta abriu-se. Só então Monte Cristo se virou e viu Albert, lívido e trêmulo, e atrás dele Beauchamp e Château-Renaud.
— Ora vejam, o meu cavaleiro sempre conseguiu aqui chegar! — exclamou com a benevolente delicadeza que distinguia habitualmente a sua saudação das vulgares cortesias da sociedade — Boa noite, Sr. de Morcerf.
E o rosto daquele homem, tão singularmente senhor de si mesmo, exprimia a mais perfeita cordialidade.
Morrel lembrou-se da carta que recebera do visconde e na qual, sem outra explicação, este lhe pedia que fosse à ópera, e adivinhou que ia acontecer algo terrível.
— Não vimos aqui para trocar cumprimentos hipócritas ou manter aparências enganosas de amizade — perguntou o jovem — Vimos pedir-lhe uma explicação, Sr. Conde.
A voz trêmula do jovem passava-lhe a custo por entre os dentes cerrados.
— Uma explicação na Ópera? — observou o Conde, no tom tão calmo e num relance de olhos tão penetrante, só característicos do homem eternamente senhor de si mesmo — Apesar de pouco familiarizado com os hábitos parisienses, nunca imaginei, senhor, que fosse aqui que as explicações se pedissem.
— No entanto, quando as pessoas se recusam a receber, quando se não pode chegar até elas a pretexto de que estão no banho, à mesa ou na cama, tem-se de as procurar onde é possível encontrá-las — replicou Albert.
— Não sou difícil de encontrar — declarou Monte Cristo — Ainda ontem senhor, se me não falha a memória, o vi em minha casa.
— Ontem, senhor — disse o jovem, cuja cabeça parecia um vulcão — Estava em sua casa porque ignorava quem o senhor era!
Ao pronunciar estas palavras, Albert elevara a voz de maneira que as pessoas sentadas nos camarotes contíguos o ouvissem, assim como as que passavam no corredor. Por isso, as pessoas dos camarotes viraram-se e as do corredor pararam atrás de Beauchamp e Château-Renaud ao ouvirem a altercação.
— De onde diabo vem o senhor? — perguntou Monte Cristo, sem a menor emoção aparente — Não me parece estar em seu juízo perfeito...
— Desde que compreenda as suas perfídias, senhor, e que consiga levá-lo a compreender que quero vingar-me delas, é quanto me basta para não considerar-me de todo louco — perguntou Albert, furioso.
— Senhor, não o compreendo — replicou Monte Cristo — E mesmo que o compreendesse, ainda assim o senhor estaria a falar demasiado alto. Estou no meu camarote, senhor, e aqui só eu tenho o direito de elevar a voz acima da dos outros. Saia, senhor!
E Monte Cristo indicou a porta a Albert, com um admirável gesto de autoridade.
— Ah, eu o obrigarei a sair da toca! — gritou Albert amarrotando nas mãos convulsas a luva, que o Conde não perdia de vista.
— Bem, bem! — exclamou fleumaticamente o Conde — Já vejo que o senhor me quer provocar. Mas um conselho, visconde, e retenha-o bem é mau costume fazer barulho quando se provoca alguém. O barulho não é favorável a todas as pessoas, Sr. de Morcerf...
Este nome provocou um murmúrio de surpresa, que passou como um arrepio por entre aqueles que assistiam à cena. Desde a véspera que o nome de Morcerf andava em todas as bocas.
Melhor e primeiro que todos Albert compreendeu a alusão, e fez um gesto para lançar a luva à cara do Conde; mas Morrel agarrou-lhe o pulso, enquanto Beauchamp e Château-Renaud, receando que a cena excedesse os limites de uma provocação, o seguravam por detrás.
Mas Monte Cristo, sem se levantar, inclinando a cadeira, limitou-se a estender a mão e a tirar dos dedos crispados do jovem a luva úmida e amarrotada.
— Senhor — disse-lhe com um acento terrível — Considero a sua luva lançada e a devolverei enrolada numa bala. Agora saia ou chamo os meus criados e mando colocá-lo para fora.
Aturdido, espantado, com os olhos injetados de sangue, Albert deu dois passos atrás. Morrel aproveitou para fechar a porta. Monte Cristo voltou a pegar o binóculo e pôs-se a observar a sala como se nada de extraordinário se tivesse passado. Aquele homem tinha um coração de bronze e um rosto de mármore.
Morrel inclinou-se ao ouvido.
— Que lhe fez? — inquiriu.
— Eu? Nada, pelo menos pessoalmente — respondeu Monte Cristo.
— Contudo, esta cena estranha deve ter uma causa...
— A aventura do conde de Morcerf exasperou o pobre rapaz.
— E o senhor teve alguma coisa a ver com isso?
— Foi por intermédio de Haydée que a Câmara teve conhecimento da traição do pai.
— De fato, disseram-me, mas não quis acreditar, que a escrava grega que tenho visto consigo neste mesmo camarote era filha de Ali-Paxá.
— No entanto, é verdade.
— Oh, meu Deus, compreendo tudo agora! — exclamou Morrel — Esta cena foi premeditada.
— Como?
— Sim. Albert escreveu-me a pediu-me que estivesse esta noite na Ópera. Era para me tornar testemunha do insulto que lhe queria fazer.
— Provavelmente — admitiu Monte Cristo, com a sua imperturbável tranqüilidade.
— Mas que fará dele?
— De quem?
— De Albert!
— De Albert? — repetiu Monte Cristo no mesmo tom — Que farei de Albert, Maximilien? Tão certo como o senhor estar aqui e eu apertar-lhe a mão, o matarei amanhã antes das dez horas da manhã. Aqui tem o que farei dele.
Morrel pegou por sua vez na mão de Monte Cristo com as suas e estremeceu ao sentir aquela mão fria e calma.
— Ah, Conde, o pai ama-o tanto!... — murmurou.
— Não me diga isso! — gritou Monte Cristo, no primeiro movimento de cólera que deixava transparecer — Eu o farei!
Morrel, estupefato, deixou cair a mão de Monte Cristo.
— Conde! Conde!
— Meu caro Maximilien — interrompeu-o o Conde — Escute de que forma adorável Duprez canta esta frase: “ô Matilde, ídolo da minha alma!” Fui o primeiro a descobrir Duprez em Nápoles e o primeiro a aplaudi-lo. Bravo! Bravo!
Morrel compreendeu que não havia mais nada a dizer e calou-se. O pano, que subira no fim da cena de Albert, desceu quase imediatamente.
Bateram à porta.
— Entre — disse Monte Cristo, sem que a sua voz denota-se a menor emoção.
Apareceu Beauchamp.
— Senhor — disse a Monte Cristo — Há pouco acompanhava, como deve ter visto, o Sr. de Morcerf.
— O que significa — perguntou Monte Cristo, rindo — Que vinham provavelmente de jantar juntos. Ainda bem, Sr. Beauchamp, que está mais sóbrio do que ele.
— Senhor — disse Beauchamp — Albert cometeu a inconveniência, reconheço, de se encolerizar; venho por minha própria conta apresentar-lhe desculpas. E agora que as desculpas estão apresentadas, as minhas, como compreende, Sr. Conde, quero dizer-lhe que o considero demasiado cortês para me recusar algumas explicações acerca das suas relações com a gente de Janina. Depois, acrescentarei algumas palavras a respeito dessa jovem grega.
Monte Cristo fez com os lábios e com os olhos um sinalzinho a recomendar silêncio.
— Pronto, lá estão todas as minhas esperanças destruídas! — acrescentou rindo.
— Como assim? — perguntou Beauchamp.
— Sem dúvida está mortinho por me arranjar fama de excêntrico. Em seu entender, sou um Lara, um Manfredo, um Lorde Ruthwen. Depois, passado o momento de me ver como um excêntrico, destrói o seu tipo e tenta transformar-me num homem vulgar. Quer-me comum, banal. Por fim, pede-me explicações. Então, Sr. Beauchamp, só por piada!
— No entanto — perguntou Beauchamp com altivez — Há ocasiões em que a probidade ordena...
— Sr. Beauchamp — interrompeu-o aquele homem estranho — Quem dá ordens ao Sr. de Monte Cristo é o Sr. de Monte Cristo. Portanto, nem mais uma palavra a tal respeito, por favor. Faço o que entendo Sr. Beauchamp, e acredite que o faço sempre muito bem feito.
— Senhor — respondeu o rapaz — Não se paga a pessoas honestas nessa moeda; a honra exige garantias.
— Mas eu sou uma garantia viva — replicou Monte Cristo, impassível, embora nos seus olhos brilhassem clarões ameaçadores — Temos ambos nas veias sangue que desejamos verter; é essa a nossa garantia mútua. Leve esta resposta ao visconde e diga-lhe que amanhã, antes das dez horas, verei a cor do sangue dele.
— Só me resta portanto — declarou Beauchamp — Fixar as condições do combate.
— Isso me é absolutamente indiferente, senhor — disse o Conde — Por tão pouca coisa escusava de vir incomodar-me no espetáculo. Na França, as pessoas batem-se à espada ou à pistola; nas colônias usa-se a carabina, e na Arábia, o punhal. Diga ao seu cliente que, apesar de insultado, para ser excêntrico até ao fim, lhe deixo a escolha das armas e que aceitarei tudo sem discussão, sem contestação. Tudo, ouviu bem? Tudo, incluindo o combate à sorte, que é sempre estúpido. Mas comigo é diferente; tenho certeza de ganhar.
— Tem certeza de ganhar?... — repetiu Beauchamp, olhando o Conde com os olhos esbugalhados.
— Claro — respondeu Monte Cristo, encolhendo ligeiramente os ombros — Sem isso não me bateria com o Sr. de Morcerf. O matarei, tem de ser e assim será. Mande-me apenas um bilhete a minha casa, esta noite, indicando a arma e a hora. Não gosto de me fazer esperar.
— À pistola, às oito horas da manhã, no Bosque de Vincennes — disse Beauchamp, desconcertado, sem saber se lidava com um fanfarrão insolente ou com um ser sobrenatural.
— Pronto, senhor — disse Monte Cristo — Agora que está tudo tratado, deixe-me ouvir o espetáculo, peço-lhe, e diga ao seu amigo Albert que não volte aqui esta noite: se prejudicaria com todas as suas brutalidades de mau gosto. Que vá para casa e durma.
Beauchamp saiu de boca aberta.
— Agora, conto consigo, não é verdade? — perguntou Monte Cristo, virando-se para Morrel.
— Certamente — respondeu Morrel — Pode dispor de mim, Conde. No entanto...
— O quê?
— Seria importante, Conde, que eu conhecesse a verdadeira causa...
— Quer dizer que recusa?
— Não.
— A verdadeira causa, Morrel? — repetiu o Conde — Mesmo esse rapaz caminha às cegas e não a conhece. A verdadeira causa só eu e Deus a conhecemos. Mas dou-lhe a minha palavra de honra, Morrel, que Deus, que a conhece, será por nós.
— Basta-me isso, Conde — disse Morrel — Quem é a sua segunda testemunha?
— Não conheço ninguém em Paris a quem queira conceder essa honra a não ser você e o seu cunhado Emmanuel. Acha que Emmanuel quererá fazer-me esse favor?
— Respondo-lhe por ele como por mim, Conde.
— Bom, é tudo o que preciso. Amanhã às sete em minha casa, está bem?
— Lá estaremos.
— E agora, silêncio. O pano sobe; escutemos. Tenho o hábito de não perder uma nota desta Ópera. Não há música mais adorável do que a do Guilherme Tell!



continua...




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Lei de ComimAs pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.
Lei de Murphy

O companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres - Capítulo 8



— Capítulo VIII —
A Estrada Para Isengard




FOI ASSIM QUE, na luz de uma bela manhã, o Rei Théoden e Gandalf, o Cavaleiro Branco, encontraram-se outra vez sobre a verde relva ao lado do Riacho do Abismo. Lá também estava Aragorn, filho de Arathorn, Legolas, o elfo, e Erkenbrand do Folde Ocidental, assim como os senhores do Palácio Dourado. Ao redor dos cinco estavam reunidos os rohirrim, os Cavaleiros de Rohan: a surpresa superou a alegria que sentiram com a vitória, e seus olhos voltaram-se em direção à floresta.
De repente ouviu-se um grito estrondoso, e do Dique saíram aqueles que tinham recuado para dentro do Abismo. Dali vieram Gamling, o Velho, Éomer, filho de Éomund, e ao lado deles caminhava Gimli, o anão. Estava sem elmo, e tinha a cabeça envolta em uma bandagem branca manchada de sangue, mas sua voz era alta e forte.
— Quarenta e dois, Mestre Legolas! — gritou ele — Que pena, meu machado está chanfrado: o quadragésimo segundo tinha uma argola de ferro em volta do pescoço. Como vão as coisas com você?
— Você ultrapassou minha marca por um — respondeu Legolas — Mas não lamento a derrota, pois me sinto tão feliz por vê-lo vivo!
— Bem vindo, Éomer, filho de minha irmã! — disse Théoden — Agora que o vejo a salvo, estou realmente feliz.
— Salve, Senhor da Terra dos Cavaleiros! — disse Éomer — A noite escura passou, e o dia chegou novamente. Mas o dia trouxe estranhas notícias — voltou-se e olhou à volta surpreso, primeiro para a floresta e depois para Gandalf — Mais uma vez você chega na hora da necessidade, visitante inesperado.
— Inesperado? — disse Gandalf — Eu disse que retornaria para encontrá-los aqui.
— Mas não disse a hora, nem nos adiantou a maneira de sua chegada. Traz-nos uma estranha ajuda. Você é poderoso em magia, Gandalf, o Branco!
— É possível. Mas, se isso for verdade, ainda não tive ocasião de demonstrar minha magia. Tudo o que fiz foi dar bons conselhos numa hora de perigo, e utilizar a velocidade de Scadufax. O próprio valor de vocês fez muito mais, assim como as fortes pernas dos homens do Folde Ocidental, marchando ao longo da noite.
Então todos olharam para Gandalf com surpresa ainda maior. Alguns voltaram olhares duvidosos para a floresta, passando a mão sobre os olhos, como se pensassem que o que viam era diferente do que ele via. Gandalf riu bastante e com alegria.
— As árvores? — disse ele — Não, estou vendo a floresta tanto quanto vocês. Mas isso não é um feito meu. É algo além do conselho dos sábios. Melhor que meu desígnio, e melhor até do que minha esperança o acontecimento acabou se mostrando.
— Então, se não é sua, de quem é a magia? — disse Théoden — Não de Saruman, isto está claro. Existe algum outro sábio que ainda não conhecemos?
— Isso não é magia, mas um poder muito mais antigo — disse Gandalf — Um poder que caminhava sobre a terra, antes que elfo cantasse ou martelos ressoassem.

Antes do malho no ferro ou entalhe na madeira,
Quando lua e montanha eram novas e faceiras;
Antes que anel ou mal fosse feito,
Caminhou na floresta em passo perfeito.

— E qual seria a resposta para seu enigma? — disse Théoden.
— Se quisesse descobrir, iria comigo a Isengard — respondeu Gandalf.
— Para Isengard? — exclamaram eles.
— Sim — disse Gandalf — Retornarei a Isengard, e aqueles que quiserem poderão vir comigo. Ali poderemos ver coisas estranhas.
— Mas não há homens suficientes na Terra dos Cavaleiros, nem que fossem todos reunidos e curados de todos os ferimentos, para atacar a fortaleza de Saruman — disse Théoden.
— Mesmo assim, irei para Isengard — disse Gandalf — Não permanecerei muito aqui. Meu caminho agora ruma para o Leste. Esperem-me em Edoras, antes da lua minguante!
— Não — disse Théoden — Na hora escura antes do amanhecer eu duvidei, mas não nos separaremos agora. Irei com você, se este for seu conselho.
— Desejo falar com Saruman o mais breve possível — disse Gandalf — E já que ele lhes causou grandes prejuízos seria adequado que vocês estivessem lá. Mas em quanto tempo poderiam partir, e com que velocidade cavalgariam?
— Meus homens estão cansados da batalha — disse o Rei — E eu também estou cansado! Pois cavalguei muito e dormi pouco. É uma pena! Minha idade avançada não foi forjada por Língua de Cobra e nem se deve apenas aos sussurros dele. É um mal que nenhuma sangria pode curar inteiramente, nem mesmo de Gandalf.
— Então deixe que todos os que vão cavalgar comigo descansem agora — disse Gandalf. — Viajaremos sob a sombra da noite. Assim está bem, pois é meu conselho que todas as nossas idas e vindas sejam feitas no maior segredo possível daqui para frente. Mas não ordene que muitos homens o acompanhem, Théoden. Vamos negociar, e não guerrear.
O Rei então escolheu homens que não estavam feridos e tinham cavalos velozes, e os enviou na frente com notícias da vitória para todos os vales da Terra dos Cavaleiros, levaram também uma convocação sua, ordenando que todos os homens, jovens e velhos, fossem depressa a Edoras. Ali o Senhor dos Cavaleiros reuniria uma assembléia de todos os que pudessem portar armas, no segundo dia depois da lua cheia. Para acompanhá-lo a Isengard o Rei escolheu Éomer e vinte homens de sua casa. Com Gandalf iriam Aragorn, Legolas e Gimli. Apesar de seu ferimento, o anão se recusava a ficar para trás.
— Foi só um golpe fraco, e a touca o repeliu — disse ele — Seria necessário mais do que um arranhão de orc para impedir que eu partisse.
— Vou cuidar de seu ferimento enquanto você descansa — disse Aragorn.
Depois disso o rei voltou para o Forte da Trombeta e dormiu um sono tranquilo que não conhecera por muitos anos, o restante de sua comitiva escolhida também descansou, mas os outros, todos os que não estavam machucados ou feridos, começaram um árduo trabalho, pois muitos tinham caído na batalha e estavam mortos sobre o campo ou no Abismo.
Não sobrara nenhum orc vivo, seus corpos não foram contados. Mas muitos homens das montanhas tinham se rendido, estavam com medo e imploravam clemência. Os homens da Terra dos Cavaleiros tomaram-lhes as armas e puseram-nos para trabalhar.
— Ajudem agora a reparar o mal no qual vocês tomaram parte — disse Erkenbrand — E depois deverão fazer um juramento de nunca mais atravessar os Vaus do Isen armados, nem marchar com os inimigos dos homens, e então poderão retornar livres para sua terra. Pois vocês foram iludidos por Saruman. Muitos de vocês obtiveram a morte como recompensa por sua confiança nele, mas se tivessem vencido seus lucros seriam pouco melhores.
Os homens da Terra Parda ficaram surpresos, pois Saruman lhes dissera que os homens de Rohan eram cruéis e queimavam vivos seus prisioneiros. No meio do campo, diante do Forte da Trombeta, dois túmulos foram levantados, e neles colocaram os Cavaleiros de Rohan que caíram na defesa, os dos Vales Orientais de um lado, e os do Folde Ocidental do outro.
Num túmulo isolado sob a sombra do Forte da Trombeta colocaram Háma, capitão da guarda real. Ele havia caído diante do Portão.
Os orcs foram empilhados em grandes montes, longe dos túmulos dos homens, não muito distante das bordas da floresta. E as pessoas estavam preocupadas, pois os montes de cadáveres eram muito grandes para serem enterrados ou queimados. Eles tinham pouca lenha para queimar, e ninguém ousaria usar um machado contra as estranhas árvores, mesmo que Gandalf não os tivesse aconselhado a não ferirem nem tronco nem ramo, pois caso contrário estariam correndo grande perigo.
— Deixe os orcs onde estão — disse Gandalf — O dia poderá trazer novos conselhos.
Durante a tarde, a comitiva do Rei se preparou para partir. O trabalho de enterrar os corpos estava apenas começando. Théoden chorou pela perda de Háma, seu capitão, e jogou a primeira pá de terra sobre seu túmulo.
— Realmente Saruman causou um grande mal a mim e a toda esta terra — disse ele — E vou me lembrar disso, quando nos encontrarmos.
O sol já estava se aproximando das colinas a Oeste da Garganta, quando finalmente Théoden, Gandalf e seus companheiros desceram do Dique a cavalo.
Atrás deles vinha uma grande tropa, tanto de Cavaleiros quanto de pessoas do Folde Ocidental, velhos e jovens, mulheres e crianças, que tinham saído das cavernas. Cantaram com vozes cristalinas uma canção de vitória, depois ficaram em silêncio, imaginando o que iria acontecer, pois mantinham os olhos nas árvores e tinham medo delas.
Os Cavaleiros foram até a floresta, e pararam, homens e cavalos, todos estavam relutantes em entrar. As árvores eram cinzentas e ameaçadoras, e uma sombra ou névoa as envolvia. As extremidades de seus longos ramos pendiam como dedos que procuram algo, as raízes se levantavam da terra como as pernas de monstros estranhos, e cavernas escuras se abriam entre elas.
Mas Gandalf foi na frente, liderando o grupo, e no ponto onde a estrada que vinha do Forte da Trombeta encontrava as árvores eles viram uma abertura como um portão arqueado sob galhos poderosos, por ele passou Gandalf, e eles o seguiram.
Então, para sua surpresa, descobriram que a estrada continuava, com o Rio do Abismo ao lado, o céu estava descoberto acima de suas cabeças, e cheio de uma luz dourada. Mas dos dois lados os grandes corredores da floresta já estavam envoltos pelo crepúsculo, avançando para dentro de sombras impenetráveis, ali eles escutaram os estalidos e gemidos dos galhos, gritos distantes, e um rumor de vozes sem palavras, murmurando com ódio.
Não se via qualquer orc ou ser vivo.
Legolas e Gimli cavalgavam agora juntos no mesmo animal, mantendo-se logo atrás de Gandalf, pois Gimli tinha medo da floresta.
— Faz calor aqui — disse Legolas a Gandalf — Mas sinto uma grande ira ao meu redor. Você não sente o ar pulsando em seus ouvidos?
— Sim — disse Gandalf.
— Que foi feito dos miseráveis orcs? — disse Legolas.
— Isso, eu acho, ninguém jamais saberá — disse Gandalf.
Cavalgaram em silêncio por um tempo, mas Legolas frequentemente olhava de um lado para o outro, e teria parado muitas vezes para escutar os sons da floresta, se Gimli tivesse permitido.
— Estas são as árvores mais estranhas que já vi — disse ele — E eu já vi inúmeros carvalhos crescerem desde plantinhas até a idade em que apodrecem. Gostaria que houvesse tempo agora para caminharmos no meio delas: ouço suas vozes, e com o tempo poderia entender seus pensamentos.
— Não, não! — disse Gimli — Vamos deixá-las! Já adivinho o que pensam: odeiam todos os que andam sobre duas pernas, e falam em sufocar e esmagar.
— Não todos os que andam sobre duas pernas — disse Legolas — Nesse ponto, acho que está errado. São os orcs que elas odeiam. Pois elas não pertencem a este lugar e sabem pouco sobre homens e elfos. Distantes ficam os vales onde brotaram. Os vales profundos de Fangorn, Gimli, é de lá que elas vêm, julgo eu.
— Então é a floresta mais perigosa da Terra-Média — disse Gimli — Devo ficar agradecido pela parte que desempenharam, mas não as amo. Você pode considerá-las maravilhosas, mas já vi maravilha maior nesta terra, mais bela que qualquer bosque ou clareira que já surgiu: meu coração ainda está repleto dela. Estranhas são as maneiras dos homens, Legolas! Aqui eles têm umas das maravilhas do Mundo do Norte, e o que falam dela? Cavernas, dizem eles! Cavernas para se refugiarem em tempo de guerra, para armazenar forragem. Meu bom Legolas, você sabia que as cavernas do Abismo de Helm são vastas e belas? Haveria uma interminável peregrinação de anões, apenas para apreciá-las, se fossem conhecidas. Na verdade, pagariam com ouro puro por uma olhadela!
— E eu daria ouro para não ter de visitá-las! — disse Legolas — E pagaria o dobro para sair, se me perdesse lá dentro!
— Você não viu, por isso perdôo sua caçoada — disse Gimli — Mas você fala como um tolo. Acha que aqueles salões são belos, aqueles em que seu Rei mora sob a colina na Floresta das Trevas, e que os anões ajudaram a construir muito tempo atrás? Pois são apenas cabanas comparados às cavernas que vi aqui: salões imensos, cheios de uma música eterna de água que goteja em lagos, tão belos quanto Kheled-zâram à luz das estrelas. E, Legolas, quando as tochas são acesas e os homens andam pelo chão arenoso sob as cúpulas reverberantes, ah!, então, Legolas, pedras e cristais e veios de minérios preciosos faíscam nas paredes polidas, e a luz brilha através de dobras de mármores, em forma de conchas, translúcidas como as próprias mãos da Rainha Galadriel. Há colunas brancas e de um amarelo-alaranjado, e também de um rosa matinal, Legolas, estriadas e retorcidas em formas de sonho, surgem de assoalhos multicoloridos para encontrar os ornatos reluzentes que caem do teto: asas, cordas, cortinas finas como nuvens congeladas, lanças, flâmulas, pináculos de palácios suspensos! Lagos tranquilos os espelham: um mundo tremeluzente espreita lá do fundo de lagos escuros cobertos por cristal translúcido, cidades, que a mente de Durin mal poderia ter imaginado em sonhos, estendem-se através de avenidas e pátios com pilares, para dentro de recônditos escuros onde a luz não alcança. E plinque! Uma gota de prata cai, e as ondas circulares no espelho fazem com que todas as torres se inclinem e tremam, como plantas e corais numa gruta do mar. Então chega a noite: elas vão desaparecendo, faiscando cada vez menos, as tochas passam para um outro cômodo, para um outro sonho. Há cômodos e mais cômodos, Legolas, salões abrindo-se de outros salões, abóbada após abóbada, escada após escada, e os caminhos sinuosos continuam conduzindo para dentro do coração das montanhas. Cavernas! As Cavernas do Abismo de Helm! Feliz foi o acaso que me guiou até lá! Deixar aquele lugar me faz chorar.
— Então desejo a você, como consolo, esta sorte, Gimli — disse o elfo — Que você possa se salvar da guerra e retornar para vê-lo de novo. Mas não conte para todo o seu povo! Parece que resta pouco para eles fazerem, pelo que você me contou. Talvez os homens desta terra falem pouco por sabedoria: uma família de anões trabalhadores com martelo e cinzel pode destruir mais do que eles construíram.
— Não, você não entende — disse Gimli — Nenhum anão ficaria insensível diante de tanta beleza. Ninguém do povo de Durin escavaria aquelas cavernas à procura de pedras ou minérios, nem mesmo se diamantes e ouro pudessem ser encontrados ali. Você derruba bosques de árvores em flor durante a primavera para obter lenha? Nós cuidaríamos dessas florestas de pedras em flor, em vez de lavrá-las. Com talento cuidadoso, batida por batida, talvez uma pequena lasca de pedra e não mais, durante todo um dia ansioso, assim poderíamos trabalhar, e com o passar dos anos abrir novos caminhos, e pôr à mostra câmaras distantes que ainda estão escuras, vislumbradas apenas como uma lacuna além das fissuras na rocha. E luzes, Legolas! Faríamos luzes, lamparinas parecidas com aquelas que brilharam certa vez em Khazad-dûm, e quando desejássemos expulsaríamos a noite que se deita ali desde que as colinas foram feitas, e quando quiséssemos descansar deixaríamos que a noite retornasse.
— Você me comove, Gimli — disse Legolas — Nunca o vi falando dessa maneira antes. Quase faz com que eu sinta pesar por não ter visto aquelas cavernas. Vamos! Vamos combinar o seguinte: se nós dois retornarmos a salvo dos perigos que nos aguardam, vamos viajar juntos por um tempo. Você vai visitar Fangorn comigo, e então eu vou com você ver o Abismo de Helm.
— Esse não é o caminho de volta que eu escolheria — disse Gimli — Mas suportarei Fangorn, se você prometer que virá às cavernas e partilhará de suas maravilhas comigo.
— Está prometido — disse Legolas — Mas infelizmente deveremos deixar para trás a caverna e a floresta por um tempo. Veja! Estamos chegando ao fim das árvores. A que distância fica Isengard, Gandalf?
— Cerca de quinze léguas, no percurso feito pelos corvos de Saruman — disse Gandalf — Cinco da abertura da Garganta até os Vaus, e mais dez de lá até os portões de Isengard. Mas não faremos todo o caminho esta noite.
— E quando chegarmos lá, o que veremos? — perguntou Gimli — Você pode saber, mas eu nem imagino.
— Eu mesmo não sei com certeza — respondeu o mago — Estive lá ao cair da noite ontem, mas muita coisa pode ter acontecido desde então. Apesar disso, acho que vocês não vão dizer que a viagem foi em vão, mesmo que as Cavernas Cintilantes de Aglarond tenham ficado para trás.
Finalmente o grupo passou pelas árvores, e percebeu que tinha atingido o fundo da Garganta, onde a estrada que vinha do Abismo de Helm se bifurcava, indo ao Leste para Edoras, e ao Norte para os Vaus do Isen. Conforme deixaram as bordas da floresta, Legolas parou e olhou para trás com pesar. Então deu um grito repentino.
— Há olhos! — disse ele — Olhos espreitando-nos das sombras dos ramos! Nunca vi olhos assim antes!
Os outros, surpresos com seu grito, pararam e se viraram, mas Legolas começou a cavalgar de volta.
— Não, não! — gritou Gimli. — Faça o que quiser em sua loucura, mas primeiro deixe-me descer deste cavalo. Não quero ver olho nenhum!
— Pare, Legolas Verde-folha! — disse Gandalf — Não retorne para dentro da floresta, não ainda! Ainda não é a sua hora.
No momento em que ele falava, avançaram das árvores três formas estranhas. Eram altas como trolls, com três metros e meio ou mais de altura; os corpos fortes, robustos como os de árvores jovens, pareciam estar cobertos por um traje ou por um couro justo, cinzento e marrom. As pernas eram longas e as mãos tinham muitos dedos, os cabelos eram duros e as barbas de um verde-acinzentado como musgo. Olhavam com olhos solenes, mas não dirigiam seu olhar para os cavaleiros: voltavam-se para o Norte. De repente, ergueram as longas mãos até as bocas, e emitiram chamados retumbantes, límpidos como as notas de uma trombeta, mas mais musicais e variados. Os chamados foram respondidos, voltando-se outra vez, os cavaleiros viram outras criaturas da mesma espécie aproximando-se com largas passadas através da relva. Vinham rapidamente do Norte, lembrando garças cruzando sobre as águas no jeito de andar, mas não na mesma velocidade, pois suas pernas, em suas longas passadas, batiam mais rápido que as asas das garças.
Os cavaleiros gritaram pasmos, e alguns levaram as mãos aos punhos das espadas.
— Vocês não precisam de armas — disse Gandalf — Estes são apenas pastores. Não são nossos inimigos, na verdade, não estão nem um pouco preocupados conosco.
Assim parecia ser, pois enquanto ele falava as altas criaturas, sem nem lançar um único olhar para os cavaleiros, caminharam para dentro da floresta e desapareceram.
— Pastores? — disse Théoden — Onde estão seus rebanhos? Que são eles, Gandalf, pois está claro que, pelo menos para você, essas criaturas não são estranhas.
— São os pastores das árvores — respondeu Gandalf — Faz tanto tempo assim que você ouviu histórias ao pé do fogo? Há crianças em sua terra que, dos fios emaranhados das histórias, poderiam retirar a resposta para sua pergunta. Você viu ents, ó Rei, Ents da Floresta de Fangorn, à qual em sua língua você chama de Floresta Ent. Pensou que o nome tinha sido dado apenas por uma fantasia inconsequente? Não, Théoden, é o contrário: para eles você é apenas uma história efêmera, todos os anos desde Eorl, o Jovem, até Théoden são de pouca monta para eles, e todos os feitos de sua casa um assunto de pouca importância.
O rei ficou em silêncio.
— Ents! — disse ele finalmente — Por causa das sombras das lendas começo a entender um pouco da maravilha das árvores, suponho. Vivi o suficiente para ver dias estranhos. Por muito tempo cuidamos de nossos animais e nossos campos, construímos nossas casas, fabricamos nossas ferramentas, ou cavalgamos para longe, para ajudar nas guerras de Minas Tirith. E a isso chamamos a vida dos homens, o jeito do mundo. Nós nos preocupávamos pouco com o que ficava além das fronteiras de nossa terra. Temos canções que contam sobre essas coisas, mas estamos nos esquecendo delas, ensinando-as apenas a nossas crianças, como um hábito indiferente. E agora as canções chegaram até nós vindas de lugares estranhos, e caminham visíveis sob o sol.
— Você deve se alegrar, Théoden Rei — disse Gandalf — Pois agora não é só a pequena vida dos homens que corre perigo, mas também a vida dessas criaturas que você considerava assunto de lendas. Você não está sem aliados, mesmo que não os conheça.
— Apesar disso, devo também me sentir triste — disse Théoden — Pois, qualquer que seja o resultado da guerra, não pode acontecer que no fim muito do que era bonito e maravilhoso desapareça para sempre da Terra-Média?
— É possível — disse Gandalf — O mal de Sauron não pode ser inteiramente curado, nem tornado como se nunca tivesse existido. Mas estamos destinados a dias como este. Prossigamos agora com a jornada que começamos.
O grupo então afastou-se da Garganta e da floresta e tomou a estrada em direção aos Vaus. Legolas seguia relutante. O sol tinha-se posto, afundando atrás da borda do mundo, mas, conforme cavalgavam saindo da sombra das colinas e olhavam para o Oeste na direção do Desfiladeiro de Rohan, viam o céu ainda vermelho, e uma luz ardente aparecia sob as nuvens flutuantes. Escuros, voavam e desenhavam círculos contra ele muitos pássaros de asas negras. Alguns passavam sobre as cabeças dos cavaleiros com gritos de lamento, voltando às suas casas entre as rochas.
— As aves carniceiras estiveram ocupadas no campo de batalha — disse Éomer.
Avançavam agora num passo tranquilo, e a escuridão descia sobre a planície ao redor deles. A lenta lua subia, ficando agora quase cheia, e em sua fria luz prateada os campos de relva ondulante subiam e desciam como um amplo mar cinzento.
O grupo tinha cavalgado por cerca de quatro horas desde a bifurcação da estrada, quando chegou perto dos Vaus. Ladeiras compridas desciam rapidamente até o ponto onde o rio se espalhava em baixios pedregosos em meio a altas plataformas cobertas de grama.
Trazidos pelo vento, eles ouviram o uivo de lobos. Tinham os corações pesados, lembrando os muitos homens caídos em batalha naquele lugar.
A estrada afundava entre altos barrancos de turfa, talhando seu caminho através das plataformas até a beira do rio, e subindo outra vez na direção oposta. Havia três caminhos de pedra cruzando o rio, e entre eles vaus para os cavalos, que iam de cada borda até uma ilhota no meio.
Os Cavaleiros observaram os caminhos lá embaixo e os acharam estranhos, pois os Vaus sempre tinham sido um lugar cheio da agitação e do rumor das águas sobre as pedras, mas agora estavam silenciosos.
O leito do rio estava quase seco, um amontoado de cascalho e areia cinza.
— Este lugar se tornou lúgubre — disse Éomer — Que doença acometeu o rio? Saruman destruiu muitas coisas belas: será que também devorou as nascentes do Isen?
— É o que parece — disse Gandalf.
— É triste! — disse Théoden — Temos de passar por este caminho, onde os animais carniceiros devoram tantos bons Cavaleiros de Rohan?
— Este é nosso caminho — disse Gandalf — Lamentável é a queda de seus homens, mas você verá que pelo menos os lobos das montanhas não os devoram. É com os amigos deles, os orcs, que eles fazem seu banquete: realmente é essa a amizade dessa espécie. Venham!
Foram descendo em direção ao rio, e a medida que avançavam os lobos paravam de uivar e retiravam-se furtivamente. O medo os dominava quando viam Gandalf à luz da lua, e Scadufax, seu cavalo, reluzindo como prata.
Os Cavaleiros passaram em direção à ilhota, e os olhos brilhantes os observaram languidamente das sombras das margens.
— Olhem! — disse Gandalf — Amigos trabalharam aqui.
E eles viram que, no meio da ilhota, um túmulo fora erguido e contornado por pedras, e várias lanças foram fincadas à sua volta.
— Aqui estão todos os homens de Rohan que caíram perto deste lugar — disse Gandalf.
— Que aqui descansem! — disse Éomer — E quando suas lanças estiverem podres e enferrujadas, por muito tempo o túmulo permanecerá e guardará os Vaus do Isen!
— Esse também é um trabalho seu, Gandalf, meu amigo? — perguntou Théoden — Você realizou muita coisa numa tarde e numa noite!

[FIG. 07] RIO ISEN



— Com a ajuda de Scadufax, e outros — disse Gandalf — Cavalguei rápido e muito. Mas aqui, ao lado do túmulo, direi isto para seu consolo: muitos caíram nas batalhas dos Vaus, mas menos do que dizem os rumores. O número dos homens que se dispersaram supera o daqueles que foram mortos: reuni todos os que pude encontrar. Alguns mandei com Grimbold de Folde Ocidental para que se juntassem a Erkenbrand. Outros designei para a construção deste monumento. Agora seguiram seu marechal, Elfhelm. Enviei-o com muitos Cavaleiros para Edoras. Eu sabia que Saruman tinha enviado todas as suas forças contra você, e que os seus servidores tinham abandonado todas as outras missões, indo para o Abismo de Helm: as terras pareciam vazias de inimigos, mesmo assim, eu receava que os monta-lobos e os saqueadores pudessem ir para Meduseld, enquanto estivesse indefeso. Mas agora acho que não precisam mais temer: vão encontrar sua casa dando-lhes boas-vindas quando retornarem.
— E feliz ficarei em revê-la — disse Théoden — Embora seja breve, não duvido, minha permanência lá.
Com isso o grupo disse adeus à ilha e ao túmulo, e atravessou o rio, subindo a margem oposta. Então continuaram cavalgando, felizes por terem deixado os tristes Vaus. Conforme se afastavam, o uivo dos lobos começou outra vez.
Havia uma estrada antiga que descia de Isengard até o local da travessia. Por certo trecho ela fazia seu curso ao lado do rio, acompanhando-o em uma curva para o Leste e depois para o Norte, mas no fim desviava e ia direto para os portões de Isengard, estes ficavam sob a encosta da montanha no lado Oeste do vale, dezesseis milhas ou mais de sua entrada. O grupo seguiu essa estrada, mas não cavalgaram por ela, pois o solo que a margeava era firme e plano, coberto ao longo de muitas milhas por uma turfa curta e macia. Avançavam agora com mais rapidez, e por volta da meia-noite os Vaus já estavam quase cinco léguas atrás.
Então pararam, terminando a jornada daquela noite, pois o Rei estava exausto. Tinham chegado aos pés das Montanhas Sombrias, e os longos braços de Nan Curunír se estendiam para recebê-los. O vale se espalhava escuro diante deles, pois a lua tinha passado para o Oeste, e sua luz estava escondida pelas colinas. Mas da sombra profunda do vale subia uma ampla espiral de fumaça e vapor, conforme subia, ela captava os raios da lua que ia descendo, e se espalhava em ondas tremeluzentes, negras e prateadas, pelo céu estrelado.
— O que acha disso, Gandalf? — perguntou Aragorn — Alguém poderia achar que o Vale do Mago está em chamas.
— Há sempre uma fumaça sobre aquele vale nos últimos tempos — disse Éomer — Mas nunca vi nada assim antes. Esses são vapores e não fumaça. Saruman está preparando algum feitiço para nos receber. Talvez esteja fervendo toda a água do Isen, e por isso o rio está secando.
— Talvez — disse Gandalf — Amanhã saberemos o que ele está fazendo. Agora vamos descansar um pouco, se conseguirmos.
Acamparam ao lado do leito do Rio Isen, que ainda estava silencioso e vazio.
Alguns deles dormiram um pouco. Mas tarde da noite os vigias gritaram, e todos acordaram. A lua tinha-se ido. As estrelas brilhavam, mas sobre o solo se arrastava uma escuridão mais negra que a noite. Dos dois lados do rio ela se aproximava deles, indo em direção ao Norte.
— Fiquem onde estão! — disse Gandalf — Não saquem as armas! Esperem e ela passará por vocês!
Uma névoa se formou ao redor deles. Acima algumas estrelas ainda brilhavam fracas, mas dos dois lados subiam paredes de uma escuridão impenetrável, estavam numa alameda estreita entre duas torres móveis de sombra. Ouviram vozes, sussurros e lamentos e um interminável suspiro farfalhante, a terra tremia sob seus pés. Pareceu-lhes longo o tempo em que ficaram sentados e com medo, mas finalmente a escuridão e o rumor passaram, desaparecendo entre os braços das montanhas.
Lá no sul, sobre o Forte da Trombeta, no meio da noite, os homens ouviram um grande ruído, como o do vento no vale, e a terra tremeu, todos sentiram medo e ninguém se aventurou a sair. Mas na manhã seguinte saíram e ficaram surpresos, pois os orcs mortos tinham-se ido, e também as árvores. Bem abaixo, no vale do Abismo, a grama estava amassada e pisada, como se pastores gigantes tivessem conduzido grandes rebanhos de gado por ali, mas uma milha abaixo do Fosso uma grande vala tinha sido cavada na terra, e sobre ela pedras tinham sido empilhadas, formando uma colina. Os homens acreditaram que os orcs mortos foram enterrados ali, mas se aqueles que tinham fugido para a floresta estavam entre eles ninguém pôde dizer, pois ninguém jamais pisou naquela colina. Desse dia em diante foi chamada de Colina da Morte, e nenhuma relva cresceu ali. Mas as árvores estranhas nunca mais foram vistas na Garganta do Abismo, tinham retornado de noite, dirigindo-se para longe, para os vales escuros de Fangorn.
Assim vingaram-se dos orcs.
O rei e sua comitiva não dormiram mais naquela noite, porém não ouviram nem viram qualquer coisa estranha, a não ser uma: a voz do rio ao lado deles de repente despertou.
A água jorrou, correndo por entre as pedras, e depois disso o Isen fluía e borbulhava em seu leito de novo, como sempre fizera.
Com a aurora se prepararam para continuar. A luz chegou pálida e cinzenta e eles não viram o nascer do sol. O ar acima estava impregnado de cerração e um fétido vapor os envolvia. Foram devagar, cavalgando agora pela estrada. Era ampla, firme e bem cuidada. Vagamente, através da névoa, podiam vislumbrar o longo braço das montanhas subindo à esquerda. Tinham passado pelo Nan Curunír, o Vale do Mago. Era um vale coberto, apenas com uma abertura ao Sul. Outrora fora belo e verde, e através dele o Isen corria, já forte e profundo antes de encontrar as planícies, pois era alimentado por muitos riachos e rios menores ao passar pelas colinas banhadas pela chuva, e por toda a sua volta se estendera uma terra agradável e fértil.
Não era assim agora.
Abaixo das muralhas de Isengard ainda havia acres cultivados pelos escravos de Saruman, mas a maior parte do vale tinha-se tornado um deserto cheio de mato e de espinheiros. Sarças se arrastavam no solo ou trepando sobre arbustos ou barrancos, formavam cavernas emaranhadas onde se abrigavam pequenos animais.
Nenhuma árvore crescia ali, mas em meio ao mato alto ainda se podiam ver os troncos de antigos bosques, derrubados por machados e queimados. Era uma terra triste, silenciosa a não ser pelo ruído pedregoso de águas rápidas. Fumaça e vapores flutuavam em nuvens escuras e espreitavam nas concavidades.
Os cavaleiros não falavam. Muitos tinham os corações cheios de dúvidas, imaginando a que destino sombrio sua jornada conduziria.
Depois de cavalgarem algumas milhas, a estrada se transformou numa rua larga, pavimentada com grandes pedras planas, quadriculadas e assentadas com habilidade, não se via uma folha de grama nas junções. Canaletas fundas, cheias de água corrente, acompanhavam os dois lados. De repente um pilar alto assomou diante deles. Era negro, e colocada sobre ele via-se uma grande pedra, esculpida e pintada à semelhança de uma grande Mão Branca. Seu dedo apontava para o Norte.
Agora eles sabiam que os portões de Isengard não deveriam estar distantes, e seus corações estavam pesados, mas seus olhos não podiam atravessar a névoa à frente.
Abaixo do braço da montanha, dentro do Vale do Mago, ao longo de anos incontáveis, houvera um lugar antigo que os homens chamavam de Isengard. Fora parcialmente formado com o surgimento das montanhas, mas outrora os Homens de Ponente tinham feito ali obras grandiosas, Saruman morava nesse lugar havia muito tempo, e não tinha ficado ocioso. Esta era sua aparência, enquanto Saruman estava em seu auge, tido por muitos como o chefe dos Magos. Uma grande muralha circular de pedra, semelhante a altos penhascos, projetava-se do patamar da encosta da montanha, avançando para depois voltar. Só fora feita uma única entrada, um grande arco escavado no lado sul da muralha. Ali, através da rocha negra, um longo túnel fora cortado, fechado nas duas extremidades por fortes portas de ferro. Foram de tal modo construídas e equilibradas sobre suas enormes dobradiças, barras de aço fincadas na rocha bruta, que quando não estavam trancadas podiam ser movidas com um leve toque de mão, sem qualquer ruído.
Alguém que entrasse e saísse no outro lado desse túnel ecoante veria um grande círculo, plano, meio escavado como uma enorme vasilha rasa: media uma milha de borda a borda. Já fora verde e cheio de avenidas e bosques de árvores frutíferas, aguadas por riachos que corriam das montanhas e desembocavam num lago.
Mas nada verde crescera ali nos últimos tempos de Saruman.
As estradas foram pavimentadas com lajes de pedra, escuras e duras, e margeando-as, em vez de árvores, marchavam longas fileiras de pilares, alguns de mármore, outros de cobre e de ferro, ligados por pesadas correntes. Havia ali muitas casas, cômodos, salões e corredores, que cortavam e perfuravam as muralhas do lado interno, de modo que todo o círculo aberto era vigiado por inúmeras janelas e portas escuras. Milhares podiam morar lá, trabalhadores, servidores, escravos e guerreiros com grandes estoques de armas, lobos recebiam alimento e abrigo em profundas tocas mais abaixo.
A planície também era escavada e perfurada. Poços fundos tinham sido cavados no chão, suas extremidades superiores eram cobertas por montículos baixos e abóbadas de pedra, de modo que ao luar o Círculo de Isengard parecia um cemitério de mortos inquietos. Pois a terra tremia.
Os poços desciam por muitas rampas e escadas espirais até cavernas muito abaixo, ali Saruman tinha tesouros, depósitos de provisões, arsenais, ferrarias e grandes fornos. Rodas de ferro giravam sem parar, e martelos batiam. Durante a noite, nuvens de vapor subiam das aberturas, iluminadas de baixo por uma luz vermelha, azul ou de um verde venenoso. Para o centro conduziam todas as estradas, ladeadas por suas correntes.
Ali ficava uma torre de formato maravilhoso. Fora feita pelos construtores de antigamente, que aplainaram o Círculo de Isengard e mesmo assim não parecia algo feito pela arte dos homens, mas arrancada dos ossos da terra durante uma aflição antiga das colinas.
Era um pico e uma ilha de pedra, negros e de um brilho estonteante: quatro pilares multifacetados foram unidos num só, mas perto do topo eles se abriam em chifres escancarados, seus pináculos agudos como as pontas de lanças, as bordas cortantes como facas. Entre eles havia um espaço estreito, e ali, sobre um chão de pedra polida e com inscrições estranhas, um homem poderia ficar de pé cento e cinquenta metros acima da planície.
Esta era Orthanc, a cidadela de Saruman, cujo nome tinha (por desígnio ou por acaso) um duplo significado: pois na língua dos elfos orthanc significa Monte Presa, mas na língua antiga de Rohan quer dizerMente Esperta.
Isengard era um lugar forte e maravilhoso, e fora belo por muito tempo, ali moraram grandes senhores, os guardiões de Gondor no Oeste, e homens sábios que observavam as estrelas. Mas Saruman lentamente transformou o lugar para seus propósitos mutantes, e o melhorou, na sua opinião, mas se enganava: pois todas as artes e sutis artifícios, pelos quais abandonou sua sabedoria antiga, e que ingenuamente imaginou serem seus, vinham de Mordor, assim tudo o que fez não passou de uma pequena cópia, um modelo infantil ou uma adulação de escravo, daquela vasta fortaleza, do arsenal, da prisão, da fornalha de grande poder, Barad-dûr, a Torre Escura, que não tinha rival, e ria da adulação, ganhando tempo, segura de seu orgulho e de sua força incomensurável.
Essa era a fortaleza de Saruman, como a fama a relatava, pois dentro da memória viva nenhum homem de Rohan ultrapassara seus portões, exceto talvez uns poucos, como Língua de Cobra, que vieram em segredo e não contaram a ninguém o que viram.
Gandalf cavalgou em direção ao Pilar da Mão, e passou por ele, no momento em que fez isso, os Cavaleiros viram, para sua surpresa, que a Mão não parecia mais ser branca. Estava manchada de sangue seco, olhando mais de perto, eles perceberam que as unhas estavam vermelhas. Indiferente, Gandalf avançou para dentro da névoa, e os outros o seguiram com relutância.
Por todo lado em volta deles agora, como se tivesse havido uma enchente súbita, grandes poças de água margeavam a estrada, enchendo as concavidades, e córregos corriam borbulhantes por entre as pedras.
Finalmente Gandalf parou e fez um sinal para os outros, eles vieram e viram que adiante dele a névoa tinha diminuído e um sol pálido brilhava.
A hora do meio-dia tinha passado.
Estavam às portas de Isengard.
Mas as portas jaziam por terra, retorcidas e por toda a volta a rocha rachada e estilhaçada em incontáveis cacos pontudos, espalhava-se em todas as direções, ou se empilhava em montes de escombros. O grande arco ainda estava de pé, mas abria-se agora sobre um abismo sem teto, o túnel fora posto a descoberto, e através das muralhas que pareciam penhascos, dos dois lados, grandes fendas e brechas haviam sido abertas, suas torres estavam desfeitas em poeira. Se o Grande Mar se tivesse erguido em ira e caído sobre as colinas numa tempestade, não teria causado ruína maior.
O círculo mais adiante estava cheio de água fumegante: um caldeirão borbulhante onde surgia e boiava um entulho de vigas e vergas, arcas e barris e equipamentos quebrados. Pilares retorcidos e pensos levantavam suas hastes estilhaçadas sobre as águas, mas todas as estradas estavam submersas.
Distante, ao que parecia, meio velada por uma nuvem sinuosa, assomava a ilha de pedra. Ainda escura e alta, resistindo à tempestade, a torre de Orthanc se erguia. Águas pálidas batiam em seus pés.
O rei e toda a comitiva permaneceram montados em seus cavalos, estupefatos, percebendo que o poder de Saruman fora derrotado, mas como, eles não podiam adivinhar. E agora voltavam seus olhos na direção do arco e dos portões em ruínas.
Ali viram bem próximo deles um grande monte de cascalho, e de repente se deram conta de duas pequenas figuras tranquilamente deitadas sobre ele, vestidas de cinza, que mal se podiam divisar em meio às pedras. Havia garrafas e tigelas e travessas ao lado deles, como se tivessem acabado de comer bem, e agora descansassem do duro trabalho. Um deles parecia estar adormecido, o outro, com as pernas cruzadas e os braços atrás da cabeça, recostava-se numa rocha quebrada e soltava da boca longas nuvens e pequenos anéis de fumaça tênue e azul.
Por um momento, Théoden, Éomer e todos os seus homens observaram-nos surpresos. Em meio a toda a ruína de Isengard, aquilo lhes parecia a visão mais estranha.
Mas antes que o rei conseguisse falar a pequena figura que soltava fumaça se deu conta deles, parados no limiar da névoa. Ele se ergueu. Parecia um homem jovem, ou era semelhante a um, embora com menos da metade da altura de um homem, a cabeça com cabelos castanhos e encaracolados estava descoberta, mas ele vestia uma capa manchada de viagem, da mesma cor e tipo das que usavam os companheiros de Gandalf quando chegaram a Edoras. Fez uma grande reverência, colocando a mão no peito. Depois, dando a impressão de não ter visto o mago e seus amigos, virou-se para Éomer e para o rei.
— Bem -vindos, meus senhores, a Isengard! — disse ele — Somos os guardiões da entrada. Meriadoc, filho de Saradoc, é meu nome, e meu companheiro, que infelizmente está vencido pelo cansaço — neste ponto cutucou o outro com o pé — É Peregrin, filho de Paladin, da Casa dos Túk. Nossa casa fica lá longe, no Norte. O Senhor Saruman está, mas no momento está trancado com um tal de Língua de Cobra, caso contrário, sem dúvida estaria aqui para receber hóspedes tão honrados.
— Sem dúvida estaria — disse rindo Gandalf — E foi Saruman quem lhes ordenou que vigiassem as portas quebradas, e que esperassem pela chegada de hóspedes, quando pudessem desviar a atenção do prato e da garrafa?
— Não, meu bom senhor, esse assunto escapou à atenção dele — respondeu Merry com gravidade — Ele tem estado tão ocupado... as ordens que recebemos vieram de Barbárvore, que assumiu a gerência de Isengard. Ordenou-me que recebesse o Senhor de Rohan com palavras adequadas à ocasião. Fiz o melhor que pude.
— E os seus companheiros? E Legolas e eu? — gritou Gimli, incapaz de se conter por mais tempo — Seus tratantes, seus vadios com pés e cabeça de lã! Conduziram-nos por uma boa caçada! Duzentas léguas, através de pântano e floresta, batalha e morte, para resgatá-los! E aqui os encontramos, banqueteando e descansando... e fumando! Fumando! Onde encontraram a erva, seus vilões? Martelo e tenaz! Estou tão dividido entre a raiva e a alegria, que se não explodir será por milagre!
— Faço minhas suas palavras, Gimli — disse rindo Legolas — Embora eu preferisse saber antes como eles encontraram o vinho.
— Uma coisa vocês não encontraram em sua caçada, uma inteligência maior — disse Pippin, abrindo um olho — Aqui vocês nos acham sentados num campo de vitória, em meio à pilhagem de exércitos, e se perguntam como encontramos alguns confortos bem merecidos!
— Bem merecidos? — disse Gimli — Não posso acreditar nisso!
Os Cavaleiros riram.
— Não se pode duvidar que estamos testemunhando o encontro de amigos muito queridos — disse Théoden — Então estes são os perdidos de sua comitiva, Gandalf. Os dias estão destinados a se encher de maravilhas. Já vi muitas desde que deixei minha casa, e bem aqui, diante de meus olhos, estão mais duas pessoas saídas das lendas. Esses não são os Pequenos, que alguns entre nós chamam de Holbytlan?
— Hobbits, por gentileza, senhor — disse Pippin.
— Hobbits? — disse Théoden — Sua língua está estranhamente mudada, mas assim o nome não soa inadequado, Hobbits. Nenhum relato que eu tenha escutado faz justiça à realidade.
Merry fez uma reverência, e Pippin se levantou e fez o mesmo.
— É generoso, meu senhor, ou pelo menos espero que possa entender suas palavras desse modo — disse ele — E aqui está outra maravilha! Já vaguei por muitas terras desde que deixei minha casa, e nunca até agora encontrei pessoas que soubessem qualquer história sobre os hobbits.
— Meu povo veio do Norte há muito tempo — disse Théoden — Mas não vou enganá-los: não sabemos histórias sobre hobbits. Tudo o que se diz entre nós é que muito longe, além de muitas colinas e rios, vivem as pessoas pequenas, que moram em tocas em dunas de areia. Mas não há lendas sobre seus feitos, pois comenta-se que fazem pouca coisa, e evitam encontrar os homens, sendo capazes de desaparecer num piscar de olhos, e podem mudar suas vozes para imitar o piar dos pássaros. Mas parece que se poderiam dizer mais coisas.
— Realmente poder-se-ia, meu senhor — disse Merry.
— Para começar — disse Théoden — Nunca ouvi que eles soltavam fumaça por suas bocas.
— Isso não é de admirar — respondeu Merry — Pois esta é uma arte que só praticamos há algumas gerações. Foi Tobold Corneteiro, do Vale Comprido, na Quarta Sul, quem primeiro cultivou a verdadeira erva-de-fumo em seus jardins, por volta do ano 1070, de acordo com nosso registro. Como o Velho Toby encontrou a planta...
— Você não sabe o perigo que está correndo, Théoden — interrompeu Gandalf — Esses hobbits são capazes de se sentar sobre escombros e discutir os prazeres da mesa, ou pequenos feitos de seus pais, avós e bisavós, e primos mais remotos em nono grau, se você encorajá-los com uma paciência indevida. Alguma outra hora seria mais adequada para a história da arte de fumar. Onde está Barbárvore, Merry?
— Lá adiante, no lado Norte, eu acho. Foi beber alguma coisa de água pura, a maioria dos outros ents está com ele, ainda ocupada em seu trabalho lá adiante — Merry acenou a mão na direção do lago fumegante, conforme olharam, escutaram um grande estrondo e clangor, como se uma avalanche estivesse caindo da encosta da montanha.
Da distância vinha um hum-hom, como de cornetas tocando triunfalmente.
— Então Orthanc foi deixada sem vigia? — perguntou Gandalf
— Existe a água — disse Merry — Mas Tronquesperto e uns outros estão vigiando a torre. Nem todos aqueles postes e pilares na planície foram plantados por Saruman. Tronquesperto, eu acho, está ao lado da rocha, perto do pé da escada.
— Sim, um ent alto e cinzento está lá — disse Legolas — Mas seus braços estão ao longo do corpo, e ele está parado como um poste.
— Já passa do meio-dia — disse Gandalf — E de qualquer forma não comemos nada desde cedo. Mesmo assim, desejo ver Barbárvore o mais depressa possível. Ele não me deixou nenhuma mensagem, ou o prato e a garrafa a varreram de sua memória?
— Ele deixou uma mensagem — disse Merry — E eu já estava chegando lá, mas fui atrasado por muitas outras perguntas. Devia dizer que, se o Senhor de Rohan e Gandalf quiserem se dirigir à muralha Norte, encontrarão Barbárvore lá, e ele lhes dará boas vindas. Quero acrescentar que também encontrarão comida da melhor qualidade, que foi descoberta e selecionada por estes humildes servidores.
Ele fez uma reverência.
Gandalf riu.
— Assim está melhor! — disse ele — Bem, Théoden, você irá cavalgar comigo para encontrar Barbárvore? Devemos dar uma volta, mas não é longe. Quando vir Barbárvore, aprenderá muito. Pois Barbárvore é Fangorn, o mais velho e chefe dos ents, e quando conversar com ele ouvirá a fala da mais velha de todas as criaturas vivas.
— Irei com você — disse Théoden — Até logo, meus hobbits! Que possamos nos encontrar de novo em minha casa! Então poderão sentar-se ao meu lado e contar todas as histórias que desejarem: os feitos de seus antepassados, até onde puderem relembrá-los, e também conversaremos sobre Tobold, o Velho, e seu estudo sobre as ervas. Até logo!
Os hobbits fizeram grandes reverências.
— Então este é o Rei de Rohan! — disse Pippin num tom mais baixo — Um velhinho camarada. Muito educado!



 continua...





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Lei de ComimAs pessoas aceitarão sua idéia muito mais facilmente se você disser a elas que quem a criou foi Albert Einstein.
Lei de Murphy

O companheirismo é essencial à sobrevivência. Ele dá ao inimigo outra pessoa em quem atirar.