domingo, 29 de julho de 2012

A Madrasta - últimos capítulos...



A Madrasta está em uma sua reta final, faltam apenas 5 capítulos. Não percam os últimos e eletrizantes capítulos de A MadrastaEu só peço que tenham paciência com os cortes de cenas deste compacto e tentem acompanhar os acontecimentos. Nos próximos capítulos, acompanhe a descoberta do Assassino da Patrícia e toda verdade sobre a morte dela.



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MUNDO DOS DINOSSAUROS - PARTE 14




O Projeto Mundo dos Dinossauros, apelidado de Projeto DINO, é um conjunto de documentários sobre uma raça de gigantes pré-históricos que viveram sobre a mesma terra nós, que beberam a mesma água que nós. Mas milhões de anos atrás eles se tornaram extintos. Eu sempre fui fascinado por eles, e fiquei ainda mais feliz, algumas semanas atrás, quando descobri que haviam vários vídeos e documentários sobre os dinossauros na internet.



Luta Jurássica
A Última Batalha do Raptor

PARTE 1



PARTE 2



PARTE 3



PARTE 4



PARTE 5






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sábado, 28 de julho de 2012

Sessão Premier: A Madrasta - Capítulo 15



DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora a Sessão Premier:
A Madrasta


Maria foi condenada pelo assassinato de sua amiga Patrícia, apesar de sempre ter se dito inocente. Após Vinte Anos, Maria é libertada e agora ela quer reaver o amor de seus filhos, de quem foi afastada pelo ex-marido Estevão, julgando que a sua ex-esposa fosse mesmo uma assassina. Mas agora ela está de volta, e além de seus filhos, Maria quer encontrar o verdadeiro criminoso e limpar o seu nome. De uma bondosa mulher, Maria torna-se fria e cruel em sua cruzada para ter vingança contra os supostos amigos, amigos esses que são também os principais suspeitos da morte de Patrícia.


APRESENTANDO HOJE:
Capítulo 15 - A mãe do Ângelo 


ASSISTA ONLINE:


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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Harry Potter e a Ordem da Fênix - Capítulo 23






— CAPÍTULO VINTE E TRÊS —
Natal na Enfermaria Fechada



ERA POR ISSO QUE DUMBLEDORE não queria mais olhar Harry nos olhos? Será que esperava ver Voldemort olhando através deles, receoso talvez que o verde vivo de repente pudesse virar vermelho, com pupilas estreitas e verticais como as de um gato? Harry se lembrava de como o rosto ofídico de Voldemort uma vez irrompera da nuca do Prof. Quirrell e passara os dedos pela própria cabeça, e se perguntava agora como seria se Voldemort irrompesse do seu crânio.
Sentiu-se sujo, contaminado como se fosse portador de um vírus letal, indigno de se sentar na viagem de volta ao lado de gente inocente e limpa, cujos corpos e mentes não estavam maculados por Voldemort... ele não apenas vira a cobra, ele fora a cobra, sabia disso agora...
Ocorreu-lhe então um pensamento, uma lembrança que emergira em sua mente, e que fazia suas entranhas se contorcerem como cobras.
Que é que ele queria, além de seguidores? Uma coisa que só poderia obter escondido... como uma arma. Algo que não possuía da última vez.
Eu sou a arma, pensou Harry, era como se estivessem injetando veneno em suas veias, enregelando-o, fazendo-o suar no balanço do trem ao atravessar o túnel escuro, Sou eu que Voldemort está tentando usar, é por isso que existem guardas à minha volta aonde vou, não é para me proteger, é para proteger as outras pessoas, só que não está funcionando, não podem pôr gente me guardando o tempo todo em Hogwarts... eu ataquei o Sr. Weasley ontem à noite, fui eu. Voldemort me levou a fazer isso e pode estar dentro de mim neste instante, escutando os meus pensamentos...
— Você está bem, Harry, querido? — cochichou a Sra. Weasley, inclinando-se por cima de Gina para falar com ele, enquanto o trem sacudia túnel afora — Você não está me parecendo muito bem. Está enjoado?
Todos olharam para ele.
Harry balançou a cabeça violentamente e ergueu a cabeça para ler um anúncio de seguro de casas.
— Harry, querido, você tem certeza de que está bem? — a Sra. Weasley repetiu a pergunta preocupada, quando contornavam a relva malcuidada no centro do Largo Grimmauld — Você está ficando cada vez mais pálido... tem certeza de que dormiu hoje de manhã? Suba logo para o seu quarto e durma umas duas horas antes do jantar, está bem?
Ele concordou com a cabeça, ali estava uma desculpa de bandeja para não conversar com ninguém, que era exatamente o que ele queria, então, quando abriram a porta, ele passou correndo pelo porta-guarda-chuva de perna de trasgo, subiu as escadas e entrou no quarto que dividia com Rony.
Ali, começou a andar de um lado para outro, passando pelas camas e a moldura vazia do retrato de Fineus Nigellus, seu cérebro borbulhante de perguntas e idéias sempre mais assustadoras.
Como foi que ele virara cobra? Talvez fosse um animago... não, não podia ser, ele saberia... talvez Voldemort fosse um animago...
É, pensou Harry, Isto encaixaria, ele naturalmente se transformaria em cobra... e quando está me possuindo, então nós dois... mas isso ainda não explica como fui a Londres e voltei para a minha cama num espaço de cinco minutos... mas, por outro lado, Voldemort é o bruxo mais poderoso do mundo, excluindo Dumbledore, provavelmente não seria problema para ele transportar alguém nessa velocidade.
E então, com uma horrível pontada de pânico, pensou: Mas isto é uma insanidade!
— Se Voldemort está me possuindo, eu estou dando a ele uma visão nítida da sede da Ordem da Fênix neste momento! Ele saberá quem pertence a Ordem e onde Sirius está... e ouvi um monte de coisas que não deveria ter ouvido, tudo que Sirius me contou na noite em que cheguei...
Só havia uma coisa a fazer: teria de abandonar o Largo Grimmauld neste instante. Passaria o Natal em Hogwarts sem os outros, o que pelo menos os manteria sãos e salvos durante as festas... mas não, não adiantaria, ainda havia muita gente em Hogwarts para ele aleijar e ferir... e se fosse Simas, Dino ou Neville da próxima vez?
Ele interrompeu a caminhada e parou, olhando para a moldura vazia de Fineus Nigellus. Uma sensação de peso estava assentando no fundo do seu estômago. Não tinha alternativa, teria de voltar para a Rua dos Alfeneiros, cortar completamente seus vínculos com outros bruxos.
Bom, se tinha de fazer isso, pensou, Não adiantava continuar ali. Esforçando-se ao máximo para não pensar como os Dursley iriam reagir quando o encontrassem à porta de entrada seis meses antes do esperado, ele se encaminhou para o seu malão, bateu a tampa e trancou-o à chave, depois automaticamente correu os olhos pelo quarto à procura de Edwiges antes de lembrar que ela ficara em Hogwarts. Bom, a gaiola seria uma coisa a menos a carregar, passou então a mão em uma extremidade da mala e já a arrastara metade do caminho até a porta quando uma voz debochada perguntou:
— Está fugindo, é?
Ele se virou.
Fineus Nigellus apareceu na tela do seu quadro, apoiado na moldura, e olhava Harry com uma expressão divertida no rosto.
— Não, não estou fugindo — respondeu Harry secamente, arrastando o malão mais alguns passos pelo quarto.
— Pensei — disse Fineus Nigellus, acariciando a barba em ponta — Que para pertencer à Grifinória a pessoa precisava ser corajosa. Está me parecendo que você teria se dado melhor na minha Casa. Nós da Sonserina somos corajosos, sim, mas não somos burros. Por exemplo, se nos derem opção, sempre escolheremos salvar a pele.
— Não é a minha pele que estou salvando — disse Harry tenso, puxando o malão por um trecho do tapete roído de traças particularmente irregular em frente à porta.
— Ah, estou entendendo — disse o bruxo, ainda acariciando a barba — Isso não é uma fuga covarde, você está sendo nobre.
Harry ignorou-o. Sua mão já estava na maçaneta quando Fineus Nigellus disse indolentemente:
— Tenho um recado de Alvo Dumbledore para você.
Harry se virou totalmente.
— Qual é?
— Fique onde está.
— Eu não me mexi! — exclamou Harry, a mão ainda na maçaneta — Então, qual é o recado?
— Eu acabei de lhe dar, bobalhão — disse Fineus Nigellus serenamente — Dumbledore manda dizer: Fique onde está.
— Por quê? — perguntou Harry ansioso, deixando cair o malão — Por que ele quer que eu fique? Que mais ele disse?
— Só isso — respondeu Fineus, erguendo uma sobrancelha fina e negra, como se achasse Harry impertinente.
A irritação de Harry veio à tona como uma cobra emergindo da relva alta. Estava exausto, estava confuso além da conta, experimentara terror, alívio, e novamente terror nas últimas doze horas, e ainda assim Dumbledore não queria falar com ele!
— Então é só isso? — disse em voz alta — Fique onde está. Foi só o que me disseram também quando fui atacado por aqueles Dementadores! Fique parado enquanto os adultos resolvem o problema, Harry! Mas não vamos nos dar ao trabalho de lhe dizer nada, porque o seu pequeno cérebro talvez não possa entender!
— Sabe — disse Fineus Nigellus, em tom ainda mais alto do que Harry — Era exatamente por isso que eu detestava ser professor! Os jovens são tão infernalmente convencidos de que têm absoluta razão em tudo. Será que ainda não lhe ocorreu, meu pobre presunçoso empolado, que pode haver uma excelente razão para o diretor de Hogwarts não confiar a você cada pequeno detalhe dos planos dele? Você nunca parou, ao se sentir desprezado, a observar que a obediência às ordens de Dumbledore nunca o colocou em perigo? Não. Não, como todos os jovens, você tem certeza de que só você sente e pensa, só você reconhece o perigo, só você é bastante inteligente para perceber o que o Lorde das Trevas está planejando...
— Então ele está planejando alguma coisa com relação a mim? — perguntou Harry depressa.
— Foi isso que eu disse? — retorquiu Fineus Nigellus, examinando indolentemente suas luvas de seda — Agora, se me dá licença, tenho mais a fazer do que escutar as agonias de um adolescente... um bom dia para você.
E ele deslizou para a borda da moldura e desapareceu de vista.
— Ótimo, então vá! — berrou Harry para a moldura vazia — E diga ao Dumbledore que eu agradeço por nada!
A tela vazia continuou silenciosa.
Espumando, Harry arrastou o malão de volta aos pés da cama, e se atirou de cara para baixo nas cobertas roídas de traças, de olhos fechados, seu corpo pesado e dolorido.
Tinha a sensação de ter viajado quilômetros sem fim... parecia impossível que havia menos de vinte e quatro horas Cho Chang se aproximara dele sob o ramo de visgo... ele estava tão cansado... tinha medo de adormecer... mas não sabia quanto tempo resistiria ao sono... Dumbledore lhe dissera para ficar... isto devia significar que podia dormir... mas tinha medo... e se acontecesse outra vez? Ele foi afundando nas sombras...
Parecia que havia um filme em sua cabeça esperando para começar. Ele se viu andando por um corredor deserto em direção a uma porta preta e simples, passando por paredes de pedra tosca, archotes, e um portal aberto para um lance de escada de pedra que descia à esquerda... chegou à porta fechada, mas não conseguiu abri-la... ficou parado olhando, desesperado para entrar... alguma coisa que ele desejava de todo o coração estava atrás da porta... um prêmio que superava todos os seus sonhos... se ao menos sua cicatriz parasse de formigar... então ele seria capaz de pensar com maior clareza...
— Harry — disse a voz de Rony muito, muito distante — Mamãe mandou dizer que o jantar está pronto, mas que guarda alguma coisa se você quiser continuar deitado.
Harry abriu os olhos, mas Rony já saíra do quarto.
Ele não quer ficar sozinho comigo, pensou Harry. Não depois do que ouviu Moody dizer. Supunha que nenhum deles quisesse que ele continuasse ali, agora que sabiam o que havia dentro dele. Não desceria para jantar, não iria impor sua companhia a ninguém. Virou-se para o outro lado, e uns minutos depois voltou a adormecer.
Acordou muito mais tarde, nas primeiras horas da manhã, suas entranhas doendo de fome, e Rony roncando na cama ao lado. Apertando os olhos para enxergar, ele viu o contorno escuro de Fineus Nigellus outra vez no quadro e lhe ocorreu que Dumbledore provavelmente mandara o bruxo para vigiá-lo, caso atacasse alguém.
A sensação de estar sujo se intensificou. Quase desejou não ter obedecido a Dumbledore... se era assim que ia ser sua vida no Largo Grimmauld, talvez ele estivesse melhor na Rua dos Alfeneiros.
Todos os outros passaram a manhã seguinte pendurando decorações de Natal. Harry não se lembrava de jamais ter visto Sirius tão bem-humorado, estava até cantando músicas natalinas, aparentemente satisfeito porque iria ter companhia para o Natal. Harry ouvia a voz do padrinho ecoando através do soalho na fria sala de visitas onde se sentara sozinho, observando pelas janelas o céu empalidecer cada vez mais, ameaçando nevar, sentindo o tempo todo um prazer selvagem de estar dando aos outros a oportunidade de continuarem a falar dele, como deviam estar fazendo.
Quando ouviu a Sra. Weasley chamar seu nome baixinho ao pé da escada, por volta da hora do almoço, ele se retirou para mais longe no andar de cima e ignorou o seu chamado.
Por volta das seis horas, a campainha tocou e a Sra. Black recomeçou a gritar. Supondo que Mundungo ou outro membro da Ordem estivesse à porta, Harry simplesmente se acomodou mais confortavelmente contra a parede do quarto de Bicuço onde se escondera, tentando não ligar para a fome que sentia enquanto dava ratos mortos ao hipogrifo. Levou um certo susto quando alguém bateu com força na porta alguns minutos depois.
— Sei que você está aí — ouviu a voz de Hermione — Quer fazer o favor de sair? Quero falar com você.
— Que é que você está fazendo aqui? — perguntou Harry, abrindo a porta enquanto Bicuço recomeçava a arranhar o chão coberto de palha à procura de pedacinhos de rato que pudesse ter deixado cair — Pensei que estivesse esquiando com seus pais.
— Bom, para dizer a verdade, esquiar não é bem a minha praia — respondeu Hermione — Então vim passar o Natal aqui.
Havia neve em seus cabelos e seu rosto estava corado de frio.
— Mas não conte ao Rony. Eu disse que esquiar era muito bom porque ele ficou rindo muito. Meus pais estão um pouco desapontados, mas eu falei que todos os alunos que estão levando os exames a sério ficaram em Hogwarts para estudar. Eles querem que eu me dê bem, vão compreender. Em todo o caso — disse com energia — Vamos para o seu quarto, a mãe de Rony acendeu a lareira de lá e mandou sanduíches.
Harry acompanhou-a de volta ao segundo andar. Quando entrou no quarto ficou muito surpreso de ver Rony e Gina à sua espera, sentados na cama de Rony.
— Vim no Nôitibus Andante — disse Hermione despreocupada, tirando o casaco antes que Harry tivesse tempo de falar — Dumbledore me contou o que aconteceu ontem de manhã, mas precisei esperar o encerramento oficial do trimestre para viajar. A Umbridge já está lívida de raiva porque vocês desapareceram bem debaixo do nariz dela, embora Dumbledore tenha lhe explicado que o Sr. Weasley estava no St. Mungus, e dera a todos vocês permissão para visitá-lo. Então...
Ela se sentou ao lado de Gina, e as duas e Rony olharam para Harry.
— Como é que você está se sentindo? — perguntou Hermione.
— Ótimo — disse Harry rígido.
— Ah, não mente, Harry — disse ela com impaciência — Rony e Gina contaram que você está se escondendo de todo o mundo desde que voltaram do hospital.
— Disseram, foi? — comentou Harry olhando feio para Rony e Gina.
Rony olhou para os pés, mas Gina continuou impassível.
— E está mesmo! E não quer olhar para nenhum de nós!
— Vocês é que não querem olhar para mim! — respondeu Harry zangado.
— Quem sabe vocês estão se revezando para olhar e por isso se desencontram — arriscou Hermione, os cantos da boca tremendo.
— Muito engraçado — retorquiu Harry, virando as costas.
— Ah, pare de se sentir incompreendido — disse Hermione com rispidez — Olha, os outros me contaram o que você ouviu ontem à noite com as Orelhas Extensíveis...
— É? — rosnou Harry, as mãos enfiadas nos bolsos olhando a neve cair em densos flocos lá fora — Todos ficaram falando de mim, é? Muito bem, estou me acostumando.
— Nós queríamos falar com você — disse Gina — Mas você ficou se escondendo desde que voltamos...
— Eu não queria que ninguém falasse comigo — respondeu Harry, sentindo-se cada vez mais exasperado.
— Pois foi burrice sua — disse Gina zangada — Uma vez que não conhece ninguém que tenha sido possuído por Você-Sabe-Quem além de mim, e eu posso lhe dizer como é que a pessoa se sente.
Harry ficou muito quieto quando o impacto dessas palavras o atingiu. Então girou nos calcanhares para encarar Gina.
— Eu me esqueci.
— Sorte sua — disse Gina calmamente.
— Me desculpe — pediu ele, e estava sendo sincero — Então... então, você acha que eu não estou possuído?
— Bom, você consegue se lembrar de tudo que faz? Você tem longos períodos de ausência em que não é capaz de dizer o que andou fazendo?
Harry tentou se lembrar.
— Não.
— Então Você-Sabe-Quem nunca possuiu você — disse Gina com simplicidade — Quando ele fez isso comigo, eu não conseguia me lembrar onde tinha estado durante horas. Dava por mim em algum lugar, e não sabia como tinha ido parar lá.
Harry nem ousava acreditar, sentiu diminuir o peso em seu peito independentemente de sua vontade.
— Mas o sonho que tive sobre seu pai e a cobra...
— Harry, você já teve esses sonhos antes — disse Hermione — Você teve visões do que Voldemort estava tramando no ano passado.
— Esta foi diferente — contestou ele balançando a cabeça — Eu estava dentro daquela cobra. Era como se eu fosse a cobra... e se Voldemort tiver me transportado para Londres?
— Um dia — disse Hermione muito exasperada — Você vai ler Hogwarts: Uma História, e talvez se lembre de que não é possível aparatar nem desaparatar na escola. Nem mesmo Voldemort poderia fazer você sair voando do seu dormitório, Harry.
— Você não saiu de sua cama, cara — disse Rony — Eu vi você se debatendo no sono pelo menos um minuto antes de conseguirmos acordá-lo.
Harry recomeçou a andar de um lado para outro do quarto, refletindo. O que estavam lhe dizendo não consolava apenas, fazia sentido... sem pensar, ele tirou um sanduíche do prato em cima da cama e estufou-o vorazmente na boca.
Então eu não sou uma arma, pensou Harry. Seu peito inchou de felicidade e alívio e ele teve vontade de fazer coro a Sirius quando o ouviram passar pela porta do quarto em direção ao de Bicuço, cantando: “Deus lhes dê a paz, alegres hipogrifos”, a plenos pulmões.
Como é que ele poderia ter sonhado em voltar à Rua dos Alfeneiros para passar o Natal?
O prazer de Sirius em ter de novo a casa cheia, e principalmente em ter Harry de volta, foi contagioso. Deixara de ser o anfitrião carrancudo do verão, agora parecia resolvido que todos deviam se alegrar tanto quanto ele, se não mais do que teriam se alegrado em Hogwarts, enquanto trabalhava sem descanso nos preparativos para o dia de Natal, limpando e decorando a casa com a ajuda dos garotos, de modo que, quando finalmente todos foram se deitar na véspera do Natal, a casa estava quase irreconhecível.
Os lustres oxidados não tinham mais teias de aranha, mas guirlandas de azevinho e serpentinas douradas e prateadas, neve mágica brilhava em montes sobre os tapetes gastos, uma grande árvore de Natal obtida por Mundungo, e decorada com fadinhas vivas, ocultava a árvore genealógica da família de Sirius, e até as cabeças empalhadas de elfos na parede do corredor usavam gorros e barbas de Papai Noel.
Harry acordou na manhã de Natal e encontrou uma pilha de presentes ao pé da cama, Rony já estava abrindo a segunda metade de uma pilha bem maior.
— Boa safra este ano — informou a Harry, através de uma nuvem de papel — Obrigado pela Bússola para Vassouras, é excelente; melhor que o presente da Hermione: ela me deu uma agenda para anotar deveres...
Harry procurou entre os seus presentes e encontrou um com a caligrafia de Hermione. A amiga lhe dera também um livro que parecia um diário, exceto que todas as vezes que ele abria uma página ouvia coisas do tipo: Faça hoje ou pague o preço!
Sirius e Lupin haviam presenteado Harry com uma coleção de excelentes livros, A Magia Defensiva na Prática e seu Uso Contra as Artes das Trevas, contendo esplêndidas e comoventes ilustrações coloridas de todos as contra-azarações e os feitiços descritos.
Harry folheou o primeiro volume, curioso; dava para ver que seria extremamente útil nos seus planos para a AD.
Hagrid lhe mandara uma carteira de pele marrom que tinha presas, que ele supunha fosse um Feitiço Anti-ladrão, mas que infelizmente o impediu de usá-la para guardar dinheiro sem perder os dedos. O presente de Tonks foi um pequeno modelo de Firebolt, que ele fez voar pelo quarto desejando ainda ter a sua versão em tamanho natural. Rony lhe dera uma enorme caixa de Feijõezinhos de Todos os Sabores, o Sr. e a Sra. Weasley, o costumeiro suéter tricotado à mão e algumas tortas de frutas secas e especiarias, e Dobby um quadro realmente horrendo que Harry suspeitava ter sido pintado pelo próprio elfo.
Acabara de virá-lo para ver se ficava melhor de cabeça para baixo quando ouviram um craque, e Fred e Jorge aparataram aos pés de sua cama.
— Feliz Natal — desejou-lhe Jorge — Não desça agora.
— Por que não? — perguntou Rony.
— Mamãe está chorando outra vez — comentou Fred pesaroso — Percy devolveu o suéter de Natal.
— Sem nem um bilhete — acrescentou Jorge — Não perguntou como vai o papai nem o visitou nem nada.
— Tentamos consolá-la — disse Fred, contornando a cama para espiar o quadro de Harry — Eu disse a ela que Percy não passa de um monte de bosta de rato metido a besta.
— Não adiantou — comentou Jorge, se servindo de um Sapo de Chocolate — Então Lupin nos substituiu. Acho que é melhor deixar que ele a console antes de descermos para o café.
— Afinal, que é que isso pretende retratar? — perguntou Fred apertando os olhos para entender o quadro de Dobby — Parece um gibão com dois olhos negros.
— É o Harry! — exclamou Jorge, apontando para as costas do quadro — É o que diz aqui!
— Está bem parecido — comentou Fred rindo.
Harry atirou nele a nova agenda de deveres, ela bateu na parede oposta e caiu no chão dizendo alegremente: Se você pôs os pingos nos is e cortou os tês então pode fazer o que quiser!
Eles se levantaram e se vestiram. Ouviam os vários moradores da casa desejando “Feliz Natal” uns aos outros. Na descida, encontraram Hermione.
— Obrigada pelo livro, Harry — disse ela feliz — Há séculos que eu andava querendo essa Nova Teoria de Numerologia! E aquele perfume é realmente diferente, Rony.
— Nem por isso — disse Rony — Para quem é esse aí? — perguntou, indicando com a cabeça o presente muito bem embrulhado que Hermione carregava.
— Monstro — disse ela animada.
— É melhor não ser roupa! — preveniu-a Rony — Você lembra o que o Sirius disse: o Monstro sabe demais, não pode ser libertado.
— Não é roupa — respondeu Hermione — Embora, se eu pudesse, certamente lhe daria outra coisa para usar em vez daquele trapo imundo. Não, é uma colcha de retalhos, achei que poderia alegrar o quarto dele.
— Que quarto? — perguntou Harry, baixando a voz para cochichar pois estavam passando pelo retrato da mãe de Sirius.
— Bom, o Sirius diz que não é bem um quarto, é mais uma toca — explicou Hermione — Pelo que sei, ele dorme embaixo do aquecedor naquele armário junto à cozinha.
A Sra. Weasley era a única pessoa no porão quando eles chegaram. Estava parada ao lado do fogão e parecia ter tido uma forte gripe quando lhes desejou “Feliz Natal”, e todos desviaram o olhar.
— Ah, então esse é o quarto do Monstro? — disse Rony, indo até uma porta encardida no canto oposto à despensa.
Harry nunca a vira aberta.
— É — disse Hermione, agora um pouco nervosa — Hum... acho que é melhor batermos.
Rony bateu na porta com os nós dos dedos, mas não houve resposta.
— Deve andar bisbilhotando lá em cima — disse ele, e, sem maior hesitação, escancarou a porta — Irra!
Harry espiou para dentro.
A maior parte do armário estava ocupada por um enorme aquecedor antigo, mas no espacinho embaixo da tubulação Monstro arrumara para ele um lugar que se assemelhava a um ninho. Um emaranhado de trapos variados e cobertores velhos malcheirosos em que Monstro se aconchegava para dormir toda noite. Aqui e ali, entre as roupas, havia pão dormido e farelos embolorados de queijo. Em um canto, brilhavam pequenos objetos e moedas que Harry imaginava que o elfo tivesse salvo, como uma pega, do expurgo que Sirius estava fazendo na casa, e também conseguira salvar as fotografias de família que Sirius jogara fora durante o verão.
Os vidros podiam estar partidos, mas as pessoas em preto e branco olhavam-no com arrogância, inclusive, ele sentiu um solavanco no estômago, a mulher de cabelos negros e pálpebras caídas a cujo julgamento ele assistira na Penseira de Dumbledore: Belatriz Lestrange. Pelo jeito, a fotografia dela era a favorita de Monstro, ele a colocara à frente das demais e colara o vidro inabilmente com fita adesiva.
— Acho que vou deixar o presente dele aí — disse Hermione, colocando o embrulho bem-feito no côncavo dos trapos e cobertas, e fechando silenciosamente a porta — Ele o encontrará mais tarde, isto resolverá.
— Pensando bem — disse Sirius saindo da despensa com um enorme peru na hora em que eles fechavam a porta do armário — Alguém tem visto o Monstro ultimamente?
— Não o vejo desde a noite em que voltamos — respondeu Harry — Você estava expulsando o Monstro da cozinha.
— É... — disse Sirius franzindo a testa — Sabe, acho que essa foi a última vez que o vi também... deve estar escondido em algum lugar lá fora.
— Ele não poderia ter ido embora? — perguntou Harry — Quero dizer, quando você disse “fora”, será que ele não pensou que você queria dizer fora da casa?
— Não, não, elfos domésticos não podem ir embora a não ser que ganhem roupas. Estão presos à casa da família.
— Eles podem sair de casa se realmente quiserem — contrapôs Harry — Dobby saiu da casa dos Malfoy para me dar avisos há três anos. Tinha de se castigar depois, mas ainda assim saía.
Sirius pareceu ligeiramente desconcertado por um momento, então disse:
— Vou procurá-lo depois, imagino que o encontre lá em cima, se acabando de chorar em cima dos calções velhos da minha mãe ou coisa parecida. Naturalmente pode ter se escondido no armário de ventilação e morrido... mas não devo alimentar esperanças.
Fred, Jorge e Rony riram, Hermione, porém, pareceu censurá-lo.
Depois do almoço natalino, os Weasley, Harry e Hermione estavam programando visitar mais uma vez o Sr. Weasley, acompanhados por Olho-Tonto e Lupin.
Mundungo apareceu em tempo de provar o pudim de Natal e a sobremesa, tendo conseguido pedir um carro “emprestado” para a ocasião, pois o metrô não funcionava no dia de Natal. O carro, que Harry duvidava muito que tivesse sido obtido com o consentimento do dono, fora ampliado por dentro com um feitiço, como o do velho Ford Anglia da Família Weasley. Embora externamente tivesse tamanho normal, dez pessoas, afora Mundungo no lugar do motorista, podiam se acomodar com conforto dentro dele.
A Sra. Weasley hesitou antes de entrar, Harry sabia que sua desaprovação a Mundungo conflitava com o seu desagrado em viajar sem auxílio da magia, mas, finalmente, o frio que fazia na rua e as súplicas dos filhos venceram, e ela se sentou de boa vontade no banco traseiro, entre Fred e Gui.
A viagem até o St. Mungus foi muito rápida porque quase não havia tráfego nas ruas. Um punhadinho de bruxas e bruxos andava furtivamente pela rua, de outro modo deserta, a caminho do hospital. Harry e os outros desceram do carro, e Mundungo virou a esquina para aguardá-los. Eles foram displicentemente até a vitrine onde havia o manequim vestido de náilon verde, então, um a um, atravessaram o vidro.
A recepção assumira um ar agradavelmente festivo: os globos de cristal que iluminavam o St. Mungus haviam sido coloridos de vermelho e dourado, transformando-se em gigantescas bolas natalinas iluminadas, ramos de azevinho emolduravam todas as portas, e árvores de Natal brancas cintilavam em todos os cantos, cobertas de neve mágica e pingentes de gelo, e no alto uma estrela dourada.
O local estava menos cheio do que da última vez, embora, a meio caminho do quarto, Harry se visse empurrado para o lado por uma bruxa com uma laranjinha entalada na narina esquerda.
— Briga de família, eh? — disse a bruxa da recepção dando um sorriso pretensioso — A senhora é a terceira que vejo hoje... Danos Causados por Feitiços, quarto andar.
Encontraram o Sr. Weasley recostado na cama com os restos do almoço de Natal em uma bandeja sobre o colo e uma expressão acanhada no rosto.
— Tudo bem, Arthur? — perguntou a Sra. Weasley, depois que todos o cumprimentaram e entregaram os presentes.
— Ótimo, ótimo — respondeu ele, um pouco animado demais — Você... hum... não viu o Curandeiro Smethwyck, viu?
— Não — respondeu sua mulher desconfiada — Por quê?
— Nada, nada — tornou ele aereamente, começando a desembrulhar a pilha de presentes — Bom, todos passaram um bom dia? Que foi que vocês ganharam de Natal? Ah, Harry... isto é absolutamente maravilhoso!
Acabara de abrir o presente de chaves de parafuso e fio de solda que o garoto lhe dera.
A Sra. Weasley não parecia inteiramente satisfeita com a resposta do marido. Quando ele se inclinou para apertar a mão de Harry, ela deu uma espiada nas ataduras sob sua camisa.
— Arthur, trocaram suas ataduras! Por que trocaram suas ataduras um dia antes, Arthur? Me disseram que não precisariam trocá-las até amanhã.
— Quê? — exclamou o Sr. Weasley, parecendo um tanto assustado e puxando as cobertas para cobrir o peito — Não, não... não é nada... é... eu...
Ele pareceu esvaziar como um balão sob o olhar penetrante da Sra. Weasley.
— Bom... não se aborreça, Molly, mas Augusto Pye teve uma idéia... ele é o Curandeiro Estagiário, sabe, um rapaz ótimo e muito interessado em... hum... medicina complementar... quero dizer, alguns remédios tradicionais dos trouxas... eles chamam de pontos, Molly e dão muito certo nos... nos ferimentos dos trouxas...
A Sra. Weasley deixou escapar um grito agourento, algo entre um grito e um rosnado. Lupin se afastou da cama em direção ao lobisomem, que não tinha visitas e observava tristemente o grupo que rodeava o Sr. Weasley, Gui resmungou alguma coisa, pretextando ir apanhar uma xícara de chá, e Fred e Jorge se levantaram de um pulo para acompanhá-lo, sorrindo.
— Você está querendo me dizer — ela elevava a voz a cada palavra, aparentemente sem se dar conta de que seus acompanhantes estavam procurando um lugar para sumir — Que anda se metendo com remédios de trouxas?
— Me metendo não, Molly, querida — disse ele em tom de súplica — Foi só... só uma coisa que Pye e eu quisemos experimentar... só que, infelizmente... bom, nesses tipos de ferimentos... não parece funcionar tão bem quanto esperávamos...
— O que significa...?
— Bom... bom, não sei se você sabe o que... o que são pontos.
— Parece que você andou tentando costurar a sua pele — disse a Sra. Weasley com uma risada seca — Mas nem você, Arthur, poderia ser tão burro...
— Acho que também vou querer uma xícara de chá — disse Harry ficando em pé.
Hermione, Rony e Gina quase correram para a porta com Harry. Quando a porta se fechou, eles ouviram a Sra. Weasley gritar: “COMO ASSIM, ESSA É A IDÉIA GERAL?”.
— É típico do papai — disse Gina balançando a cabeça quando seguiam pelo corredor — Pontos... é mole...
— Bem, sabe, eles funcionam com ferimentos não-mágicos — disse Hermione, querendo ser justa — Suponho que alguma coisa no veneno daquela cobra os dissolve ou coisa parecida. Onde será que fica o salão de chá?
— Quinto andar — disse Harry, lembrando-se do letreiro atrás da bruxa na recepção.
Eles foram andando pelo corredor, passaram por portas duplas e descobriram uma escada desconjuntada ladeada de mais retratos de Curandeiros de cara cruel. Quando subiam, os vários Curandeiros chamaram os garotos, diagnosticando males estranhos e sugerindo remédios horríveis. Rony ficou seriamente ofendido quando um bruxo medieval gritou que ele tinha um caso grave de sarapintose.
— E o que é isso? — perguntou ele, zangado, enquanto o Curandeiro o perseguia por mais seis quadros, empurrando os ocupantes para o lado.
— É uma doença gravíssima da pele, jovem senhor, que vai deixá-lo marcado de bexigas e ainda mais horrendo do que já é...
— Olha só quem está falando! — exclamou Rony com as orelhas ficando vermelhas.
—... o único remédio é tirar o fígado de um sapo, atá-lo firmemente ao seu pescoço, e na lua cheia o jovem senhor fica nu em uma barrica de olhos de enguia...
— Eu não tenho sarapintose!
— Mas as feias marcas em seu rosto, jovem senhor...
— São sardas! — disse Rony furioso — Agora volte para o seu quadro e me deixe em paz! — ele se virou para os outros, que estavam decididos a se manter impassíveis.
— Que andar é esse?
— Acho que é o quinto — disse Hermione.
— Nam, é o quarto — contestou Harry — Mais um...
Mas, ao chegar ao patamar, ele parou de chofre, arregalando os olhos para uma pequena janela recortada nas portas duplas que marcavam o início de um corredor com o letreiro DANOS CAUSADOS POR FEITIÇOS. Um homem os espiava com o nariz colado no vidro. Tinha cabelos louros ondulados, olhos azul-vivos e um grande sorriso fixo que revelava dentes ofuscantemente brancos.
— Caracas! — exclamou Rony, olhando também para o homem.
— Ah, minha nossa — exclamou Hermione de repente, parecendo ofegar — Prof. Lockhart!
O antigo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas abriu as portas e se encaminhou para eles, usando um longo roupão lilás.
— Ora, alô, vocês aí! — chamou — Imagino que queiram o meu autógrafo, não é?
— Ele não mudou nadinha! — murmurou Harry para Gina, que sorriu.
— Hum... como vai, professor? — falou Rony, se sentindo um pouco culpado.
Fora sua varinha defeituosa que afetara assim a memória de Lockhart, e ele fora parar no St. Mungus, mas como, na hora do acidente, o bruxo estivesse tentando apagar permanentemente as memórias dos garotos, a pena que Harry sentia era limitada.
— Estou muito bem, obrigado — respondeu o professor exuberante puxando do bolso uma pena de pavão já muito amassada — Então, quantos autógrafos vocês querem? Agora aprendi a fazer escrita simultânea, sabem!
— Hum... no momento não queremos nenhum, obrigado — disse Rony, erguendo as sobrancelhas para Harry, que perguntou:
— Professor, o senhor pode ficar passeando pelos corredores? Não devia estar na enfermaria?
O sorriso desapareceu gradualmente do rosto de Lockhart. Por alguns momentos, ele mirou atentamente o rosto de Harry, depois disse:
— Nós já nos encontramos antes, não?
— Ah... encontramos. O senhor costumava ensinar Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts, lembra?
— Ensinar? — repetiu ele, parecendo ligeiramente perturbado — Eu? Ensinando?
Então o sorriso reapareceu em seu rosto tão inesperadamente que assustou.
— Ensinei tudo que você sabe, espero, não? Bom, que tal aqueles autógrafos, então? Vamos dizer uma dúzia, para vocês poderem distribuir aos amiguinhos, e ninguém ser esquecido?
Mas nesse instante apareceu uma cabeça à porta no fim do corredor e uma voz chamou:
— Gilderoy, seu garoto travesso, onde é que você anda?
Uma Curandeira de aspecto maternal, usando uma guirlanda de pingentes de Natal nos cabelos, saiu depressa pelo corredor, sorrindo calorosamente para Harry e os outros.
— Ah, Gilderoy, você tem visitas! Que beleza, e no dia de Natal! Sabem, ele nunca recebe visitas, coitadinho, e não consigo imaginar por quê, ele é tão gracinha, não é?
— Estou dando autógrafos! — disse Gilderoy à Curandeira, com outro sorriso cintilante — Eles querem muitos, e não aceitam não como resposta! Só espero que tenhamos fotografias suficientes!
— Escutem só ele — falou a Curandeira, segurando o braço de Lockhart e sorrindo carinhosamente para o bruxo como se ele fosse uma criança precoce de dois anos — Ele era muito conhecido há alguns anos, temos esperanças de que esse gosto pelos autógrafos seja um sinal de que sua memória esteja voltando. Querem vir por aqui? Ele está em uma enfermaria fechada, sabem, deve ter escapulido enquanto eu entrava com os presentes de Natal, normalmente a porta fica trancada... não que ele seja perigoso! Mas — e ela baixou a voz e sussurrou — É um perigo para ele mesmo, Deus o abençoe... não sabe quem é, entendem, sai por aí e não consegue se lembrar como voltar... que bom vocês terem vindo vê-lo.
— Ah — fez Rony, apontando inutilmente para o andar de cima — Na verdade, estávamos... ah...
Mas a Curandeira sorria para eles ansiosa, e o murmúrio com que Rony disse “tomar uma xícara de chá” se perdeu. Os garotos se entreolharam impotentes e acompanharam Lockhart e a Curandeira pelo corredor.
— Não vamos nos demorar — disse Rony em voz baixa.
A Curandeira apontou a varinha para a porta da Enfermaria Jano Thickey e murmurou: “Alorromora”. A porta se abriu e ela entrou à frente, segurando com firmeza o braço de Gilderoy, e o acomodou em uma poltrona ao lado da cama.
— Esta é a nossa enfermaria para doenças prolongadas — informou a Harry, Hermione e Gina em voz baixa — Para danos permanentes causados por feitiços. É claro que com tratamento intensivo, com poções e feitiços e um pouco de sorte, podemos obter alguma melhora. Gilderoy parece estar recuperando alguma consciência, e conseguimos uma melhora sensível no Sr. Bode, parece estar recuperando a capacidade de falar bastante bem, embora ainda não fale uma língua reconhecível. Bem, preciso terminar de entregar os presentes de Natal, vou deixar vocês conversarem.
Harry olhou ao seu redor. A enfermaria apresentava sinais inconfundíveis de ser uma casa permanente para seus pacientes. Havia um número maior de pertences pessoais perto das camas do que na enfermaria do Sr. Weasley, a parede em torno da cabeceira da cama de Gilderoy, por exemplo, estava empapelada com fotos dele, todas sorrindo com dentes à mostra, acenando para os recém-chegados. Ele autografara várias delas em uma caligrafia infantil e desajeitada. No momento em que a Curandeira o deixou na poltrona, Gilderoy puxou para perto uma pilha de fotos, apanhou uma pena e começou a assiná-las febrilmente.
— Você pode colocá-las no envelope — disse Gilderoy atirando no colo de Gina, uma a uma, as fotos autografadas, à medida que as assinava — Não estou esquecido, sabe, não, ainda recebo muitas cartas de fãs... Gladis Gudgeon escreve semanalmente... eu só queria saber por quê.
Ele se calou, parecendo ligeiramente intrigado, em seguida sorriu e voltou a assinar as fotos com renovado vigor.
— Suspeito que seja apenas pela minha beleza...
Um bruxo de rosto macilento e ar triste estava deitado na cama oposta contemplando fixamente o teto, resmungava sozinho e parecia inconsciente de tudo o mais. Duas camas adiante havia uma mulher com a cabeça inteira coberta de pelos, Harry lembrou-se de uma coisa parecida que acontecera a Hermione no segundo ano de escola, embora, felizmente em seu caso, o dano não tivesse sido permanente. A um extremo da enfermaria, tinham corrido cortinas floridas em torno de duas camas para proporcionar aos ocupantes e suas visitas um pouco de privacidade.
— Tome, Agnes — disse a Curandeira animada à mulher de cara peluda, entregando-lhe uma pequena pilha de presentes de Natal — Está vendo, você não foi esquecida. E seu filho mandou uma coruja avisando que vem visitá-la hoje à noite, então, é uma coisa boa, não é?
Agnes soltou vários latidos fortes.
— E, olhe só, Broderico, mandaram-lhe um vaso de planta e um lindo calendário com um hipogrifo diferente para cada mês, isso vai alegrar as coisas, não acha? — disse a Curandeira, e se aproximando do homem que resmungava, colocou uma planta muito feia, com longos tentáculos, sobre o seu armário de cabeceira, e pregou o calendário na parede com a varinha — E... ah, Sra. Longbottom, a senhora já está indo embora?
Harry virou a cabeça depressa.
As cortinas em torno das duas camas no extremo da enfermaria tinham sido abertas e dois visitantes vinham pelo corredor que dividia as camas, uma velha bruxa de aparência formidável, usando um longo vestido verde, uma pele de raposa comida de traças e um chapéu cônico enfeitado com o que era, sem erro, um urubu empalhado, e, acompanhando-a com uma expressão totalmente deprimida... Neville.
Com um clarão de instantânea compreensão, Harry percebeu quem deviam ser as pessoas nas camas do fim da enfermaria. Olhou para todos os lados aflito procurando uma maneira de distrair os outros para que Neville pudesse sair da enfermaria sem que o vissem nem lhe perguntassem nada, mas Rony também erguera a cabeça ao ouvir o nome “Longbottom”, e, antes que Harry pudesse impedi-lo, chamou:
— Neville!
Neville se assustou e se encolheu como se uma bala tivesse acabado de passar por ele de raspão.
— Somos nós, Neville! — disse Rony animado, levantando-se — Você viu...? O Lockhart está aqui! Quem é que você estava visitando?
— Seus amigos, Neville, querido? — perguntou gentilmente a avó do garoto, examinando os três.
Neville pareceu desejar que estivesse em qualquer outro lugar do mundo, menos ali. Um colorido vermelho-arroxeado foi subindo pelo seu rosto gorducho, e ele tentou evitar fazer contato visual com qualquer um deles.
— Ah, sim — disse a avó, fitando Harry e estendendo a mão enrugada que lembrava uma garra para ele apertá-la — Sim, sim, eu sei quem você é, é claro, Neville fala muito bem de você.
— Hum... obrigado — disse Harry apertando a mão estendida.
Neville não ergueu os olhos, fixava os próprios pés, o rubor em seu rosto aumentando sem parar.
— E vocês dois são obviamente os Weasley — continuou a Sra. Longbottom, oferecendo regiamente a mão a Rony e depois à Gina — Eu conheço seus pais... não muito bem, é claro... são boa gente, boa gente... e você deve ser Hermione Granger?
Hermione parecia muito surpresa que a Sra. Longbottom soubesse seu nome, mas apertou-lhe a mão assim mesmo.
— Neville me contou tudo sobre você. Ajudou-o a sair de alguns apuros, não foi? Ele é um bom menino — disse lançando ao neto um olhar de severa apreciação do alto do nariz — Mas receio dizer que não tem o talento do pai.
E ela indicou com um aceno brusco de cabeça as duas camas no fim da enfermaria, fazendo o urubu empalhado no chapéu tremer assustadoramente.
— Quê? — exclamou Rony, parecendo admirado.
Harry queria pisar o pé do amigo, mas isso é muito mais difícil de fazer sem ninguém notar quando se está usando jeans em vez de vestes.
— É o seu pai que está ali, Neville?
— Que é isso! — exclamou a Sra. Longbottom com severidade — Você não contou aos seus amigos o que aconteceu com seus pais, Neville?
Neville deu um suspiro profundo, olhou para o teto e balançou a cabeça. Harry não se lembrava de ter sentido mais pena de alguém, mas não conseguia pensar em algum jeito para ajudar Neville a sair daquela situação.
— Ora, não é nenhuma vergonha! — disse a Sra. Longbottom zangada — Você devia sentir orgulho, Neville, orgulho! Eles não deram a saúde e a sanidade para seu único filho ter vergonha deles, entende!
— Eu não sinto vergonha — explicou Neville com a voz fraquinha, ainda olhando para qualquer lado menos para Harry e os outros.
Rony agora estava nas pontas dos pés para espiar os pacientes nas duas camas.
— Bom, você tem uma maneira engraçada de demonstrar! — disse a Sra. Longbottom — Meu filho e a mulher — continuou ela virando-se com arrogância para Harry, Rony, Hermione e Gina — Foram torturados até a insanidade pelos seguidores de Você-Sabe-Quem.
Hermione e Gina levaram as mãos à boca. Rony parou de esticar o pescoço para dar uma espiada nos pais de Neville, e pareceu mortificado.
— Eles eram aurores, sabem, e muito respeitados na comunidade bruxa. Excepcionalmente talentosos, os dois. Eu... sim, Alice, querida, que foi?
A mãe de Neville viera andando lentamente pela enfermaria de camisola. Já não tinha o rosto cheio e feliz que Harry vira na velha fotografia de Moody com os participantes da Ordem da Fênix inicial. Seu rosto estava fino e cansado agora, os olhos pareciam grandes demais e seus cabelos tinham ficado brancos, ralos e sem vida. Ela não parecia querer falar, ou talvez não fosse capaz, mas fez gestos tímidos em direção a Neville, segurando alguma coisa na mão estendida.
— Outra vez? — disse a Sra. Longbottom, parecendo um tantinho cansada — Muito bem, Alice querida, muito bem... Neville, apanhe, o que quer que seja.
Mas Neville já esticara a mão, em que a mãe deixou cair uma embalagem de Chicles de Baba e Bola.
— Muito bem, querida — tornou a avó de Neville num tom falsamente animado, dando palmadinhas no ombro da mãe do garoto.
Mas Neville disse baixinho:
— Obrigado, mamãe.
A mãe voltou vacilante para o fundo da enfermaria, cantarolando para si mesma. Neville olhou para os outros, uma expressão de rebeldia no rosto, como se os desafiasse a rir, mas Harry achava que nunca vira nada menos engraçado na vida.
— Bom, é melhor irmos andando — suspirou a Sra. Longbottom, calçando longas luvas verdes — Foi um prazer conhecer vocês. Neville, ponha a embalagem na cesta, a esta altura ela já deve ter-lhe dado o suficiente para empapelar o seu quarto.
Mas, quando saíram, Harry tinha certeza de ter visto Neville guardar a embalagem do chicle no bolso. A porta se fechou.
— Eu nunca soube — disse Hermione com cara de choro.
— Nem eu — disse Rony com a voz meio rouca.
— Nem eu — sussurrou Gina.
Todos olharam para Harry.
— Eu sabia — confirmou ele abatido — Dumbledore me contou, mas eu prometi não repetir para ninguém... foi por isso que Belatriz Lestrange foi mandada para Azkaban, por usar a Maldição Cruciatus nos pais de Neville até eles enlouquecerem.
— Belatriz Lestrange fez isso? — sussurrou Hermione, horrorizada — Aquela mulher de quem o Monstro guarda a fotografia na toca?
Fez-se um longo silêncio, interrompido pela voz zangada de Lockhart.
— Olhem, eu não aprendi escrita simultânea à toa, sabem!









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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Harry Potter e a Ordem da Fênix - Capítulo 22




— CAPÍTULO VINTE E DOIS —
O Hospital St. Mungus
para Doenças e Acidentes Mágicos



HARRY FICOU TÃO ALIVIADO que ela o tivesse levado a sério que nem hesitou, saltou da cama imediatamente, vestiu o roupão e repôs os óculos no nariz.
— Weasley, venha você também — disse a Profª. McGonagall.
Eles passaram com a professora pelas figuras silenciosas de Neville, Dino e Simas, saíram do dormitório, desceram a escada em espiral até a Sala Comunal, atravessaram o buraco do retrato e foram pelo corredor da Mulher Gorda iluminado pelo luar.
Harry sentiu que o pânico em seu estômago extravasaria a qualquer momento, queria correr, gritar por Dumbledore, o Sr. Weasley estava sangrando enquanto eles percorriam calmamente o corredor, e se aquelas presas (Harry fez força para não pensar em “minhas presas”) contivessem veneno? Passaram por Madame Nora, que virou seus olhos de holofote para eles e bufou levemente, mas a Profª. McGonagall disse “chô”, e a gata se enfurnou nas sombras, e poucos minutos depois chegavam à gárgula de pedra que guardava a entrada dos aposentos de Dumbledore.
Delícia Gasosa — disse a professora.
A gárgula ganhou vida e saltou para o lado, a parede atrás se dividiu em duas e revelou uma escada de pedra que se movia continuamente para o alto, como uma escada rolante em espiral. Os três subiram, a porta se fechou com um baque surdo e eles subiram em círculos fechados até alcançar uma porta de carvalho excepcionalmente lustrosa com uma maçaneta de latão em forma de grifo.
Embora passasse muito da meia-noite, ouviam-se vozes no interior da sala, uma verdadeira babel. Parecia que Dumbledore estava recebendo no mínimo umas doze pessoas.
A Profª. McGonagall bateu três vezes com a aldrava em forma de grifo e as vozes cessaram abruptamente como se alguém as tivesse desligado. A porta se abriu sozinha e a professora entrou com Harry e Rony.
A sala estava mergulhada em sombras, os estranhos instrumentos sobre as mesas estavam silenciosos e imóveis em vez de zumbir e expelir baforadas de fumaça como habitualmente faziam, os antigos diretores e diretoras nos retratos que cobriam as paredes dormiam contidos em suas molduras. Atrás da porta, um magnífico pássaro vermelho e dourado do tamanho de um cisne cochilava no poleiro com a cabeça sob uma das asas.
— Ah, é a senhora, Profª. McGonagall... e... ah...
Dumbledore estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, à escrivaninha, inclinou-se para o círculo de luz das velas que iluminavam os papéis à sua frente. Usava um magnífico roupão bordado em púrpura e dourado sobre uma camisa de dormir muito branca, mas parecia bem acordado, seus penetrantes olhos azuis fixavam atentamente a professora.
— Prof. Dumbledore, Potter teve um... bom, um pesadelo — começou McGonagall — Ele diz que...
— Não foi um pesadelo — completou Harry depressa.
A professora olhou para Harry, franzindo ligeiramente a testa.
— Muito bem, então, Potter, conte ao Prof. Dumbledore.
— Eu... bom, eu estava dormindo... — disse Harry e, mesmo em seu desespero de fazer Dumbledore compreender, sentia-se levemente irritado que o diretor não olhasse para ele, mas examinasse os próprios dedos entrelaçados — Mas não foi um sonho comum... foi real... eu vi acontecer...
Harry tomou fôlego.
— O pai de Rony, o Sr. Weasley, foi atacado por uma cobra gigantesca.
As palavras pareceram ecoar depois que ele as pronunciou, soando ligeiramente ridículas, até cômicas. Fez-se uma pausa em que Dumbledore se recostou e contemplou o teto, meditativo. Rony olhava de Harry para Dumbledore, o rosto pálido e chocado.
— Como foi que você viu isso? — perguntou Dumbledore calmamente, ainda sem olhar para Harry.
— Bom... não sei — disse Harry meio zangado, que diferença fazia? — Na minha cabeça, suponho...
— Você não me entendeu — disse Dumbledore, mantendo a voz calma — Quero dizer... você se lembra... ah... em que posição você estava enquanto assistia a esse ataque? Você estava talvez parado ao lado da vítima, ou contemplava a cena do alto?
A pergunta era tão curiosa que Harry boquiabriu-se com Dumbledore, era quase como se ele soubesse...
— Eu era a cobra. Vi tudo do ponto de vista da cobra.
Ninguém falou por um momento, então Dumbledore, agora olhando para Rony, que continuava cor de coalhada, perguntou em um novo tom mais enérgico:
— Arthur ficou gravemente ferido?
— Ficou — respondeu Harry enfaticamente, por que eram tão lentos para compreender, será que não sabiam como uma pessoa sangrava quando presas daquele tamanho furavam o corpo dela? E por que Dumbledore não podia fazer a gentileza de encará-lo?
Mas o diretor se ergueu tão depressa que deu um susto em Harry, e se dirigiu a um dos antigos retratos pendurados muito próximo do teto:
— Everardo? — chamou repentinamente em voz alta — E você também Dilys!
Um bruxo de cara pálida, com uma franja preta curta, e uma bruxa idosa, com longos cachos prateados, no quadro ao lado, ambos parecendo profundamente adormecidos, abriram os olhos imediatamente.
— Vocês estavam escutando? — perguntou Dumbledore.
O bruxo assentiu e a bruxa respondeu:
— Naturalmente.
— O homem tem cabelos ruivos e usa óculos — disse Dumbledore — Everardo, você precisa dar o alarme, providencie para que ele seja encontrado pelas pessoas certas...
Os dois confirmaram com a cabeça e se deslocaram lateralmente de seus quadros, mas, em vez de surgirem nos quadros vizinhos (como normalmente acontecia em Hogwarts), nenhum dos dois reapareceu. Um quadro agora exibia apenas um pano de fundo escuro, o outro, uma bela poltrona de couro.
Harry reparou que vários dos outros diretores e diretoras nas paredes, embora roncassem e babassem convincentemente, não paravam de espiá-lo por baixo das pálpebras fechadas, e de repente ele entendeu quem estava falando quando bateram na porta.
— Everardo e Dilys foram dois dos diretores mais famosos de Hogwarts — explicou Dumbledore, agora contornando Harry, Rony e a Profª. McGonagall para se aproximar do magnífico pássaro adormecido no poleiro ao lado da porta — A fama deles foi tão grande que ambos têm retratos pendurados em outras importantes instituições bruxas vizinhas. Como têm liberdade de se deslocar entre os próprios retratos, podem nos contar o que pode estar acontecendo em outros lugares...
— Mas o Sr. Weasley poderia estar em qualquer lugar! — exclamou Harry.
— Por favor, sentem-se, os três — pediu Dumbledore, como se Harry não tivesse falado — Everardo e Dilys talvez demorem a voltar. Profª. McGonagall, se puder providenciar mais umas cadeiras.
McGonagall puxou a varinha do bolso do roupão e acenou, do nada, apareceram três cadeiras, de madeira e espaldar reto, muito diferentes das confortáveis poltronas de chintz que Dumbledore conjurara na audiência de Harry.
O garoto se sentou, espiando o diretor por cima do ombro. O diretor agora acariciava com o dedo a cabeça dourada de Fawkes. A fênix acordou imediatamente. Esticou a bela cabeça para o alto, e ficou observando Dumbledore com seus olhos brilhantes e escuros.
— Vamos precisar — disse ele à ave em voz baixa — De um aviso.
Uma labareda lampejou no ar e a fênix desapareceu.
Em seguida, Dumbledore se encaminhou para um dos frágeis instrumentos de prata cuja função Harry não conhecia, levou-o para a escrivaninha, sentou-se em frente e tocou o instrumento com a ponta da varinha. O instrumento ganhou vida, imediatamente, produzindo tinidos rítmicos. Pequeninas baforadas de fumaça verde pálido saíram de um minúsculo tubo de prata em cima. Dumbledore mirou a fumaça com atenção, a testa profundamente vincada. Passados alguns segundos, a fumacinha se transformou em um jorro constante de fumaça que espiralou pelo ar... e surgiu na ponta uma cabeça de cobra, com a boca muito aberta. Harry ficou se perguntando se o instrumento estaria confirmando sua história: olhou pressuroso para Dumbledore, buscando um sinal de que estava certo, mas o diretor não ergueu a cabeça.
— Naturalmente, naturalmente — murmurou Dumbledore, ainda observando a fumaça, sem manifestar o menor sinal de surpresa — Mas dividida na essência?
Para Harry, aquela pergunta não tinha pé nem cabeça. A cobra de fumaça, porém, se dividiu instantaneamente em duas cobras, que se enroscaram e ondearam no aposento mal-iluminado. Com uma expressão de penosa satisfação, Dumbledore deu mais um leve toque com a varinha no instrumento, o tinido foi se tornando mais lento até morrer, e as cobras de fumaça empalideceram, viraram uma névoa difusa e desapareceram.
Dumbledore repôs o instrumento na mesinha frágil em que estava.
Harry viu muitos dos diretores nos retratos acompanharem seus gestos com os olhos, então, percebendo que Harry os observava, depressa fingiram que estavam dormindo como antes.
Harry queria perguntar para que servia aquele curioso instrumento, mas, antes que pudesse fazê-lo, ouviram um grito vindo do alto da parede à direita, o bruxo chamado Everardo reaparecera em seu quadro, ligeiramente ofegante.
— Dumbledore!
— Quais são as notícias? — indagou o diretor imediatamente.
— Gritei até alguém aparecer — disse o bruxo, que enxugava a testa com a cortina ao fundo — Falei que tinha ouvido alguma coisa andando no andar de baixo, eles não sabiam se deviam acreditar em mim, mas desceram para verificar, você sabe, não há quadros lá embaixo de onde se possa espiar. Seja como for, eles o trouxeram para cima alguns minutos depois. Não parecia nada bem, estava coberto de sangue, corri para o retrato de Elfrida Cragg para poder ver melhor quando saíram.
— Bom — disse Dumbledore ao mesmo tempo que Rony fazia um movimento convulsivo — Suponho que Dilys o tenha visto chegar, então...
E, momentos depois, a bruxa de cachos prateados reapareceu em seu quadro, também; tossindo, ela afundou na poltrona e disse:
— Eles o levaram para o St. Mungus, Dumbledore... passaram pelo meu retrato carregando-o... ele me pareceu mal...
— Obrigado — Dumbledore olhou para a Profª. McGonagall — Minerva, preciso que você vá acordar os outros garotos Weasley.
— É claro...
A professora se levantou e se dirigiu apressada à porta. Harry lançou um olhar de esguelha para Rony, que parecia aterrorizado.
— Dumbledore... e a Molly? — perguntou McGonagall, parando à porta.
— Será uma tarefa para Fawkes quando ela terminar de vigiar se há alguém se aproximando — disse Dumbledore — Mas Molly talvez já saiba... aquele relógio maravilhoso que tem...
Harry sabia que o diretor estava se referindo ao relógio que informava não as horas, mas o paradeiro e a condição dos vários membros da família Weasley, e, com uma pontada, lembrou que o ponteiro correspondente ao Sr. Weasley devia, ainda agora, estar apontando para perigo mortal. Mas era muito tarde. A Sra. Weasley provavelmente estava dormindo e não olhando para o relógio.
Harry sentiu um frio ao lembrar do bicho-papão que se transformara no corpo sem vida do Sr. Weasley, seus óculos tortos, o sangue escorrendo pelo seu rosto... mas ele não ia morrer... não podia...
Dumbledore agora remexia em um armário às costas de Harry e Rony. Voltou carregando uma velha chaleira escurecida, que colocou cuidadosamente sobre a escrivaninha. Ergueu a varinha e murmurou:
Portus!
Por um momento, a chaleira estremeceu, emitindo uma estranha luz azul, em seguida deu um último estremeção e parou, escura como antes.
Dumbledore se dirigiu a outro retrato, desta vez o de um bruxo de cara inteligente e barba em ponta, que fora pintado usando as cores verde e prata da Sonserina, e, pelo jeito, dormia tão profundamente que não ouvira a voz do diretor tentando acordá-lo.
— Fineus! Fineus!
Os retratados que cobriam as paredes do aposento já não fingiam estar dormindo, mexiam-se em suas molduras para ver melhor o que estava acontecendo. Quando o bruxo inteligente continuou a fingir que dormia, alguns deles gritaram o seu nome também.
— Fineus! Fineus! FINEUS!
Ele não pôde mais fingir, estremeceu teatralmente e arregalou os olhos.
— Alguém me chamou?
— Preciso que você visite outra vez o seu outro quadro, Fineus — disse Dumbledore — Tenho outra mensagem.
— Visitar meu outro quadro? — exclamou Fineus com voz aguda, fingindo um longo bocejo (seu olhar correu pelo aposento e se fixou em Harry) — Ah, não, Dumbledore, estou cansado demais esta noite.
Alguma coisa na voz de Fineus pareceu familiar a Harry; onde a ouvira? Mas, antes que pudesse se lembrar, os retratos nas paredes à volta prorromperam em protestos.
— Insubordinação, senhor! — bradou um corpulento bruxo de nariz vermelho, erguendo os punhos — Negligência para com o dever!
— Temos o compromisso de honra de prestar serviços ao atual diretor de Hogwarts! — exclamou um bruxo velho de aparência frágil em quem Harry reconheceu o antecessor de Dumbledore, Armando Dippet — Que vergonha, Fineus!
— Devo persuadi-lo, Dumbledore? — perguntou uma bruxa de olhos de verruma, erguendo uma varinha incomumente grossa que lembrava um bastão de vidoeiro.
— Ah, muito bem — concordou o bruxo chamado Fineus, espiando a varinha com uma ligeira apreensão — Embora, a essa altura, ele talvez já tenha destruído o meu retrato, já se desfez da maioria da minha família...
— Sirius não sabe destruir o seu retrato — disse Dumbledore, e Harry percebeu imediatamente onde ouvira a voz de Fineus antes: saía da moldura aparentemente vazia em seu quarto no largo Grimmauld — Dê a ele o recado de que Arthur Weasley foi gravemente ferido e que a esposa dele, filhos e Harry Potter chegarão em sua casa daqui a pouco. Entendeu?
— Arthur Weasley, ferido, mulher, filhos e Harry Potter se hospedarão — recitou Fineus entediado — Sim, sim... muito bem.
Ele tornou a entrar na moldura do retrato e desapareceu de vista no mesmo instante em que a porta do aposento se abriu.
Fred, Jorge e Gina vieram acompanhados pela Profª. McGonagall, os três parecendo amarfanhados e em estado de choque, ainda vestindo as roupas de dormir.
— Harry... que é que está acontecendo? — perguntou Gina, que parecia amedrontada — A Profª. McGonagall disse que você viu papai ser ferido...
— Seu pai foi ferido durante um serviço para a Ordem da Fênix — informou Dumbledore antes que Harry pudesse falar — Foi levado para o Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos. Vou mandar vocês para a casa de Sirius, que é muito mais próxima do hospital do que A Toca. Vocês vão se encontrar com sua mãe lá.
— Como é que nós vamos? — perguntou Fred, abalado — Pó de Flu?
— Não. No momento o Pó de Flu não é seguro, a rede está sendo vigiada. Vocês vão usar uma Chave de Portal — ele indicou a velha chaleira que descansava inocentemente sobre a escrivaninha — Estamos apenas aguardando as informações de Fineus Nigellus... quero ter certeza de que não há perigo para despachar vocês...
Apareceu uma labareda bem no meio do aposento, depois uma única pena dourada que flutuou suavemente até o chão.
— É o aviso de Fawkes — disse Dumbledore, recolhendo a pena quando caiu — A Profª. Umbridge já deve saber que vocês estão fora de suas camas... Minerva, vá distraí-la, conte-lhe qualquer história...
A Profª. McGonagall saiu num ruge-ruge de tecido escocês.
— Ele diz que ficará encantado — disse uma voz cheia de tédio atrás de Dumbledore, o bruxo chamado Fineus reaparecera diante de sua bandeira da Sonserina — Meu trineto sempre teve um gosto esquisito em termos de hóspedes.
— Venham aqui, então — falou Dumbledore a Harry e aos Weasley — E depressa, antes que mais alguém apareça.
Harry e os outros se agruparam em torno da escrivaninha de Dumbledore.
— Vocês já usaram uma Chave de Portal antes? — perguntou ele, e os garotos confirmaram com a cabeça, cada um esticando a mão para tocar em alguma parte da chaleira enegrecida — Ótimo. Quando eu contar três, então... um... dois...
Aconteceu em uma fração de segundo: na pausa infinitesimal antes de Dumbledore dizer “três”, Harry olhou para ele, estavam todos muito juntos, e os olhos azul-claros do diretor passaram da Chave do Portal para o rosto do garoto. Na mesma hora, a cicatriz de Harry queimou como se fosse tocada por um ferro em brasa, como se a velha cicatriz tivesse se rompido, e involuntário, indesejado, mas apavorantemente forte, nasceu em Harry um ódio tão poderoso que o fez sentir naquele instante que só queria atacar... morder... enterrar as presas no homem à frente dele...
—... Três.
Harry sentiu um forte puxão atrás do umbigo, o chão sumiu sob seus pés, sua mão colada à chaleira, colidiu com os outros enquanto avançavam velozmente em uma voragem de cores e uma lufada de vento, a chaleira puxando-os para diante... até que seus pés bateram no chão com tanta força que seus joelhos dobraram, a chaleira caiu no chão com estrépito, e em algum lugar ali perto alguém falou:
— De volta, os pirralhos do traidor do sangue. É verdade que o pai deles está morrendo?
— FORA! — vociferou uma segunda voz.
Harry se levantou depressa e olhou à volta, tinham chegado à sombria cozinha do porão do Largo Grimmauld, doze. As únicas fontes de luz eram o fogão e uma vela derretida, que iluminavam os restos de um jantar solitário.
Monstro ia desaparecendo pela porta do corredor, lançando-lhes olhares malévolos ao mesmo tempo que repuxava a tanga, Sirius veio correndo ao seu encontro, parecendo ansioso. Estava barbado e com as roupas que usara durante o dia, havia nele também um ligeiro bafo de bebida que lembrava Mundungo.
— Que é que está acontecendo? — perguntou, estendendo a mão para ajudar Gina a se levantar — Fineus Nigellus falou que Arthur está gravemente ferido...
— Pergunte ao Harry — respondeu Fred.
— É, quero ouvir isso com os meus próprios ouvidos — disse Jorge.
Os gêmeos e Gina olhavam fixamente para o amigo.
Os passos de Monstro haviam parado na escada.
— Foi — começou Harry, isso era pior do que contar a McGonagall e a Dumbledore — Tive uma... uma espécie de... visão...
E contou a todos o que vira, embora alterasse a história para parecer que assistira dos bastidores quando a cobra atacou, e não através dos olhos da própria cobra.
Rony que continuava muito pálido, lançou a Harry um olhar fugaz, mas não fez comentários. Quando Harry terminou, Fred, Jorge e Gina continuaram de olhos nele. Harry não sabia se estava ou não imaginando, mas achou que havia um quê de acusação no olhar dos garotos. Bom, se iam culpá-lo só por ver o ataque, estava contente de não ter contado que na hora ele estava dentro da cobra.
— Mamãe já chegou? — perguntou Fred, virando-se para Sirius.
— Provavelmente ela ainda nem sabe o que aconteceu — disse Sirius — O importante era vocês virem antes que a Umbridge pudesse interferir. Espero que Dumbledore esteja avisando a Molly agora.
— Temos de ir ao St. Mungus — disse Gina em tom urgente. E olhou para os irmãos, eles, é claro, ainda estavam de pijama — Sirius, você pode nos emprestar capas ou outra coisa qualquer para vestir?
— Esperem, vocês não podem sair correndo para o St. Mungus! — falou Sirius.
— Claro que podemos ir ao St. Mungus se quisermos — disse Fred, com uma expressão obstinada — Ele é nosso pai!
— E como é que vocês vão explicar como souberam que Arthur foi atacado antes mesmo do hospital avisar a mulher dele?
— Que diferença faz? — perguntou Jorge exaltado.
— Faz diferença, porque não queremos chamar atenção para o fato de que Harry está tendo visões de coisas que acontecem a quilômetros de distância! — disse Sirius aborrecido — Vocês têm ideia do que o Ministério faria com essa informação?
Fred e Jorge fizeram cara de quem não se importava nem um pouco com o que o Ministério pudesse fazer com coisa alguma. Rony continuava extremamente pálido e silencioso.
Gina disse:
— Alguém poderia ter nos contado... poderíamos ter sabido o que aconteceu por outra pessoa que não o Harry.
— Quem, por exemplo? — perguntou Sirius impaciente — Escutem, seu pai foi ferido a serviço da Ordem da Fênix e as circunstâncias já são bastante suspeitas sem os filhos dele saberem o que aconteceu segundos depois, vocês poderiam prejudicar seriamente a Ordem...
— Não estamos interessados nessa Ordem idiota! — gritou Fred.
— Estamos falando do nosso pai que está morrendo! — berrou Jorge
— Seu pai sabia no que estava se metendo e não vai agradecer a vocês por estragarem as coisas para a Ordem! — retorquiu ele igualmente zangado — É assim que é, e é por isso que vocês não pertencem à Ordem, vocês não entendem, há coisas pelas quais vale a pena morrer!
— E fácil para você falar, preso aqui! — urrou Fred — Não vejo você arriscando o seu pescoço!
O pouco colorido que restava no rosto de Sirius desapareceu. Por um momento, pareceu que sua vontade era bater em Fred, mas quando voltou a falar, foi em um tom deliberadamente calmo.
— Sei que é difícil, mas todos temos de agir como se ainda não soubéssemos de nada. Temos de ficar quietos, pelo menos até sua mãe dar notícias, está bem?
Fred e Jorge continuavam rebelados. Gina, porém, foi até a cadeira mais próxima e se afundou nela. Harry olhou para Rony, que fez um movimento engraçado entre um aceno de cabeça e uma sacudidela de ombros, e sentaram-se também. Os gêmeos continuaram a olhar feio para Sirius por mais um minuto, então se acomodaram um de cada lado de Gina.
— Muito bem — disse Sirius animando-os — Andem, vamos todos tomar alguma coisa enquanto esperamos. Accio cerveja amanteigada!
Ele ergueu a varinha, e meia dúzia de garrafas vieram voando da despensa em direção a eles, espalhando os restos da refeição de Sirius e parando em ordem diante de cada um dos seis. Todos beberam e por algum tempo os únicos sons foram a crepitação das chamas no fogão da cozinha e as batidas surdas das garrafas na mesa.
Harry só estava bebendo para ocupar as mãos com alguma coisa. Seu estômago estava cheio de remorsos que ferviam e borbulhavam. Não estariam aqui se não fosse ele, todos ainda estariam dormindo em suas camas. E não adiantava dizer a si mesmo que ao dar o alarme permitira que encontrassem o Sr. Weasley, porque havia ainda a questão inevitável de ter sido ele quem atacara o Sr. Weasley, para começar.
Não seja idiota, você não tem presas, disse mentalmente, tentando se acalmar, embora a mão que segurava a garrafa de cerveja tremesse, Você estava deitado na cama, não estava atacando ninguém...
Mas, então, que foi que aconteceu na sala de Dumbledore?, perguntou-se. Senti vontade de atacá-lo também...
Repôs a garrafa na mesa, com um pouco mais de força do que pretendia, e derramou-a. Ninguém lhe prestou atenção. Então uma erupção de chamas no ar iluminou os pratos sujos diante deles e, enquanto gritavam assustados, um pergaminho caiu com um baque surdo na mesa, acompanhado por uma única pena da cauda da fênix.
— Fawkes! — exclamou Sirius na mesma hora, apanhando o pergaminho — Não é a letra de Dumbledore: deve ser uma mensagem de sua mãe, tome...
Ele entregou a carta na mão de Jorge, que rompeu o lacre e leu em voz alta:

Papai ainda está vivo. Estou indo para o St. Mungus agora.
Fiquem onde estão. Mandarei notícias assim que puder.
Mamãe!

Jorge olhou para todos.
— Ainda está vivo... — disse lentamente — Mas dá a impressão que...
Ele não precisou terminar a frase. Harry também teve a impressão de que o Sr. Weasley estava entre a vida e a morte. Ainda excepcionalmente pálido, Rony ficou olhando para o verso da carta da mãe como se o pergaminho pudesse dizer alguma coisa que o consolasse. Fred puxou-o da mão de Jorge e leu, depois olhou para Harry, que sentindo novamente a mão tremer na garrafa de cerveja amanteigada, apertou-a com mais força para parar o tremor.
Não se lembrava de ter jamais feito uma vigília noturna mais longa. Sirius sugeriu uma vez, sem muita convicção, que fossem todos dormir, mas os olhares de desagrado dos Weasley foram resposta suficiente.
A maior parte do tempo ficaram em silêncio ao redor da mesa, observando o pavio da vela minguar aos poucos até desaparecer na cera líquida, levando ocasionalmente uma garrafa à boca, falando apenas para saber as horas, perguntar em voz alta o que estaria acontecendo, e tranqüilizar um ao outro que se houvesse más notícias eles as saberiam na hora, porque a Sra. Weasley já devia ter chegado havia muito tempo no St. Mungus.
Fred cochilou, a cabeça balançando frouxamente sobre o pescoço. Gina se enrascou como um gato na cadeira, mas mantinha os olhos abertos, Harry os via refletir as chamas do fogão. Rony deitara-se com a cabeça nas mãos, era impossível dizer se acordado ou adormecido. Harry e Sirius se entreolhavam de vez em quando, intrusos no pesar da família, esperando... esperando...
Às cinco e dez da manhã, pelo relógio de Rony, a porta da cozinha abriu e a Sra. Weasley entrou. Estava muito pálida, mas quando todos se viraram e Fred, Rony e Harry fizeram menção de se levantar das cadeiras, ela deu um sorriso abatido.
— Ele vai ficar bom — disse com a voz enfraquecida pelo cansaço — Agora está dormindo. Podemos ir vê-lo mais tarde. Gui está lhe fazendo companhia no momento, vai tirar a manhã de folga.
Fred tornou a se sentar com as mãos no rosto. Jorge e Gina se levantaram, correram a abraçar a mãe. Rony deu uma risada muito trêmula e virou o resto de sua cerveja amanteigada de uma vez.
— Café da manhã! — anunciou Sirius em voz alta e feliz, levantando-se de um salto — Onde anda aquele maldito elfo doméstico? Monstro! MONSTRO!
Mas Monstro não atendeu ao seu chamado.
— Ah, esquece — resmungou Sirius, contando as pessoas presentes — Então, é café da manhã para... vejamos... sete... bacon e ovos, acho, chá e torradas...
Harry se levantou depressa e foi para o fogão ajudar. Não queria se intrometer na alegria dos Weasley e temia o momento em que a Sra. Weasley iria lhe pedir para contar sua visão. Porém, mal acabara de apanhar os pratos no armário e ela já os tirava de sua mão e o puxava para um abraço.
— Não sei o que teria acontecido se não fosse você, Harry — disse Molly com a voz abafada — Não teriam encontrado Arthur tão cedo, e então seria tarde demais, mas graças a você ele está vivo e Dumbledore pôde pensar em uma boa desculpa para Arthur estar onde estava, senão você nem faz idéia da encrenca em que ele se meteria, veja o que aconteceu com o coitado do Estúrgio...
Harry mal conseguia suportar essa gratidão, mas felizmente ela o soltou e se virou para Sirius para lhe agradecer ter tomado conta dos seus filhos a noite inteira. Sirius disse que se alegrava de poder ajudar, e esperava que todos ficassem ali até o Sr. Weasley sair do hospital.
— Ah, Sirius, fico tão agradecida... acham que ele vai ficar hospitalizado durante algum tempo, e seria maravilhoso estar mais perto... naturalmente isto talvez signifique passar o Natal aqui.
— Quanto mais melhor! — disse Sirius, com uma sinceridade tão óbvia que a Sra. Weasley sorriu para ele radiante, vestiu um avental e começou a ajudá-lo a fazer o café da manhã.
— Sirius — murmurou Harry, incapaz de agüentar mais um minuto sequer — Posso dar uma palavrinha? Ah... agora?
Ele entrou na despensa escura e Sirius o seguiu. Sem preâmbulo, contou ao padrinho cada detalhe da visão que tivera, inclusive o fato de que ele próprio fora a cobra que atacara o Sr. Weasley. Quando parou para tomar fôlego, Sirius perguntou:
— Você contou isso a Dumbledore?
— Contei — disse Harry impaciente — Mas ele não me disse o que significava. Bom, ele não me diz mais nada.
— Tenho certeza de que teria dito se fosse caso para se preocupar — disse Sirius com firmeza.
— Mas não é só isso — disse Harry, num tom só um pouquinho acima de um sussurro — Sirius, acho... acho que estou ficando doido. Na sala de Dumbledore, pouco antes de embarcarmos na Chave de Portal... por uns dois segundos pensei que era uma cobra, me senti como uma cobra, minha cicatriz doeu muito quando eu olhei para Dumbledore, Sirius, tive vontade de atacá-lo!
Ele só conseguia enxergar uma nesga do rosto de Sirius, o resto estava escuro.
— Isso deve ter sido conseqüência da visão, nada mais — disse Sirius — Você ainda estava pensando no sonho ou qualquer coisa assim...
— Não foi isso, não — replicou Harry balançando a cabeça — Foi como se uma coisa despertasse dentro de mim, como se houvesse uma cobra dentro de mim.
— Você precisa dormir — falou Sirius com firmeza — Você vai tomar café e subir para dormir, depois do almoço poderá ir ver o Arthur com os outros. Você está em estado de choque, Harry, está se culpando por uma coisa que apenas presenciou, e foi uma sorte ter presenciado ou Arthur teria morrido. Pare de se preocupar.
Ele deu uma palmada no ombro de Harry e saiu da despensa, deixando o afilhado sozinho no escuro.
Todos, menos Harry, passaram o resto da manhã dormindo. Ele subiu para o quarto que dividira com Rony nas últimas semanas de férias, mas enquanto seu amigo se enfiou na cama e adormeceu em poucos minutos, ele se sentou completamente vestido, encostou-se nas frias barras metálicas da cama, intencionalmente sem conforto, decidido a não cochilar, aterrorizado com a perspectiva de se transformar em cobra durante o sono e quando acordasse descobrir que atacara Rony, ou então de sair rastejando pela casa em busca de mais alguém...
Quando Rony acordou, Harry fingiu ter dado um cochilo restaurador também.
Os malões dos garotos chegaram de Hogwarts enquanto estavam almoçando, para poderem se vestir de trouxas e ir ao hospital. Todos menos Harry estavam desmedidamente felizes e tagarelas quando trocaram as vestes por jeans e camisetas.
Quando Tonks e Olho-Tonto chegaram para acompanhá-los a Londres, os garotos os receberam com alegria, achando graça no chapéu-coco que Olho-Tonto usava, desabado para o lado para esconder o olho mágico, e lhe garantiram que Tonks, cujos cabelos estavam curtos e rosa vivo outra vez, atrairia muito menos atenção do que ele na viagem de metrô.
Tonks estava muito interessada na visão que Harry tivera do ataque ao Sr. Weasley, assunto que ele não estava nem remotamente interessado em discutir.
— Não há sangue de Vidente em sua família, há? — perguntou ela curiosa, quando se sentaram lado a lado no trem que sacudia em direção ao centro da cidade.
— Não — respondeu Harry, pensando na Profª. Trelawney e se sentindo insultado.
— Não — disse Tonks pensativa — Não, suponho que não seja realmente profecia o que você está fazendo, não é? Quero dizer, você não está vendo o futuro, está vendo o presente... é esquisito, não é, não? Mas é útil...
Harry não respondeu, felizmente eles desembarcaram na estação seguinte, uma estação bem no centro de Londres, e, na afobação de descerem do trem, ele conseguiu deixar Fred e Jorge se colocarem entre ele e Tonks, que ia à frente do grupo. Todos a seguiram na subida da escada rolante, Moody mancando atrás, o chapéu-coco inclinado e uma das mãos nodosas enfiada entre os botões do casaco, apertando a varinha. Harry pensou sentir o olho tampado fixo nele. Tentando evitar mais perguntas sobre seu sonho, perguntou a Olho-Tonto onde ficava escondido o St. Mungus.
— Não é muito longe, não — resmungou Moody, quando saíam para o ar gélido de inverno em uma rua larga, cheia de lojas apinhadas de gente que fazia compras de Natal. Ele empurrou Harry para sua frente, e se colocou imediatamente atrás do garoto.
Harry sabia que o olho estava girando em todas as direções sob a aba inclinada do chapéu.
— Não foi fácil encontrar um bom local para um hospital. Não havia nenhum bastante grande no Beco Diagonal e não podíamos construí-lo embaixo da terra como fizemos com o Ministério: não seria saudável. Por fim, conseguiram encontrar um edifício à superfície. Em teoria, os bruxos doentes poderiam ir e vir e se misturar com a multidão.
Ele segurou o ombro de Harry para impedir que fossem separados por um grupo animado que fazia compras e tinha a visível intenção de chegar a uma loja de material elétrico próxima.
— Aqui vamos nós — disse Moody logo depois.
Haviam chegado a uma loja de departamentos, grande, antiquada, em um edifício de tijolos aparentes, chamada Purga & Sonda Ltda. O lugar tinha um aspecto malcuidado, miserável, as vitrines exibiam meia dúzia de manequins lascados com as perucas tortas, dispostos aleatoriamente, vestindo roupas de pelo menos dez anos atrás. Grandes letreiros em todas as portas empoeiradas avisavam: “Fechado para Reforma”.
Harry ouviu uma mulher corpulenta carregada de sacas plásticas comentar com a amiga ao passar:
— Esse lugar não abre nunca...
— Muito bem — disse Tonks, chamando-os para uma vitrine onde não havia nada, exceto um manequim feminino particularmente feio. Suas pestanas estavam soltando e ela vestia uma bata de náilon verde — Todos preparados?
Todos assentiram, agrupando-se em torno dela.
Moody deu mais um empurrão nas costas de Harry para ele ficar mais à frente, e Tonks se encostou no vidro, olhando para o manequim horroroso, sua respiração embaçando o vidro:
— E aí, beleza! — cumprimentou — Estamos aqui para visitar Arthur Weasley.
Harry achou um absurdo Tonks esperar que o manequim a ouvisse falando tão baixo através do vidro, com ônibus rodando às suas costas e a poeira de uma rua cheia de gente. Então lembrou que, de qualquer modo, manequins não ouviam. No momento seguinte sua boca se abriu de espanto quando o manequim fez um leve aceno com a cabeça e um sinal com o indicador, e Tonks segurou Gina e a Sra. Weasley pelos cotovelos, atravessou o vidro e desapareceu.
Fred, Rony e Jorge entraram em seguida.
Harry deu uma olhada na multidão que se acotovelava ao seu redor, aparentemente nenhum transeunte se dava o trabalho de olhar para vitrines feias como as do Purga & Sonda Ltda., nem reparavam em seis pessoas que tinham acabado de se dissolver à sua frente.
— Vamos — rosnou Moody, dando mais uma cutucada nas costas de Harry, e juntos atravessaram algo que lhes lembrou uma cortina de água fria, embora emergissem secos e aquecidos do outro lado.
Não havia sinal do feio manequim ou do espaço que ocupara. Encontravam-se em uma recepção movimentada, em que havia filas de bruxos e bruxas sentados em instáveis cadeiras de madeira, alguns pareciam perfeitamente normais e folheavam exemplares antigos do Semanário das Bruxas, outros exibiam medonhas deformações como trombas de elefante ou mãos sobressalentes saindo do peito.
A sala não era menos barulhenta do que a rua lá fora, porque vários pacientes faziam ruídos muito estranhos: uma bruxa de rosto suado no meio da primeira fila, que se abanava energicamente com um exemplar do Profeta Diário, não parava de soltar um silvo agudo e vapor pela boca, um bruxo com cara encardida a um canto badalava como um sino toda a vez que se mexia e, a cada badalada, sua cabeça vibrava horrivelmente e ele precisava levar a mão às orelhas para fazê-las parar.
Bruxos e bruxas de vestes verde-claras iam e vinham pelas filas fazendo perguntas e anotações em pranchetas como a da Umbridge. Harry reparou que usavam um emblema bordado no peito: uma varinha e um osso cruzados.
— Eles são médicos? — perguntou a Rony, com ar de espanto.
— Médicos? Aqueles trouxas doidos que cortam o corpo das pessoas? Nam, são Curandeiros.
— Aqui! — chamou a Sra. Weasley, tentando se sobrepor às renovadas badaladas do bruxo no canto, e eles a acompanharam até a fila que se formara diante de uma bruxa gordinha e loura, a uma mesa marcada Informações.
Na parede atrás dela, havia uma quantidade de avisos e cartazes do tipo: UM CALDEIRÃO LIMPO IMPEDE QUE AS POÇÕES VIREM VENENO e NÃO SE DEVEM USAR ANTÍDOTOS A NÃO SER APROVADOS POR UM CURANDEIRO QUALIFICADO.
Havia ainda um grande retrato de uma bruxa com longos cachos prateados com uma placa:

Dilys Derwent
Curandeira do St. Mungus 1722-1741
Diretora da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts 1741-1768

Dilys examinava o grupo dos Weasley como se os contasse, quando seu olhar encontrou o de Harry, a bruxa lhe deu uma piscadela, deslocou-se para o quadro ao lado e desapareceu.
Entrementes, na fila à frente, um jovem bruxo executava um estranho improviso de jiga e tentava, entre ganidos de dor, explicar sua situação à bruxa da recepção.
— São esses... ui... sapatos que meu irmão me deu... ai... estão comendo os meus... UI... pés... olhe só para eles, devem ter algum tipo de... ARRRRE... azaração neles e não consigo ARRRRRRE... tirá-los — ele pulava de um pé para o outro como se dançasse sobre carvões em brasa.
— Os sapatos não o impedem de ler, ou impedem? — disse a bruxa loura, apontando irritada para um quadro à esquerda de sua mesa — Você precisa ir a Danos Causados por Feitiços, no quarto andar. Exatamente como está listado no quadro dos andares. Próximo!
Quando o bruxo saiu dançando e mancando de lado, os Weasley avançaram alguns passos e Harry leu o quadro:

ACIDENTES COM ARTEFATOS                                                   Térreo
Explosão de caldeirão, retroversão de
feitiço, acidentes com vassouras etc.

FERIMENTOS CAUSADOS POR BICHOS                                     1º. andar
Mordidas, picadas, queimaduras,
espinhas encravadas etc.

VÍRUS MÁGICOS                                                                         2º. andar
Doenças contagiosas, tais como
varíola dragonina, doenças evanescentes,
escrofúngulos etc.

ENVENENAMENTO POR PLANTAS E POÇÕES                            3º. andar
Urticárias, regurgitação, acessos
contínuos de riso etc.

DANOS CAUSADOS POR FEITIÇOS                                           4°. andar
Azarações e feitiços irreversíveis,
feitiços malfeitos etc.

SALÃO DE CHÁ DOS VISITANTES/LOJA DO HOSPITAL            5° andar

SE NÃO TIVER CERTEZA AONDE SE DIRIGIR,
NÃO CONSEGUIR FALAR NORMALMENTE
OU NÃO SE LEMBRAR DE QUEM É,
A NOSSA BRUXA-RECEPCIONISTA TERÁ PRAZER EM ORIENTÁ-LO.

Um bruxo muito velho e curvado com uma trompa para surdos arrastara-se até o primeiro lugar da fila.
— Estou aqui para visitar Broderico Bode — disse num sussurro asmático.
— Enfermaria quarenta e nove, mas receio que esteja perdendo o seu tempo — respondeu ela, dispensando-o — Está completamente confuso, entende, ainda acha que é uma chaleira. Próximo.
Um bruxo atarantado segurava pelo tornozelo a filhinha, que se agitava em volta de sua cabeça usando imensas asas de penas que saíam das costas da roupa.
— Quarto andar — disse a bruxa com a voz entediada sem perguntar nada, e o homem desapareceu pelas portas duplas ao lado da mesa, segurando a filha como se fosse um balão de formato extravagante — Próximo!
A Sra. Weasley se aproximou da mesa.
— Olá, meu marido, Arthur Weasley, deveria ter sido transferido para outra enfermaria hoje pela manhã, pode nos dizer...?
— Arthur Weasley? — repetiu a bruxa, correndo o dedo por uma longa lista à sua frente — Foi, primeiro andar, segunda porta à direita, Enfermaria Dai Llewellyn.
— Obrigada. Vamos gente.
Eles a seguiram pelas portas duplas e pelo corredor longo e estreito enfeitado com mais retratos de bruxos famosos, iluminados por bolhas de cristal cheias de velas que flutuavam junto ao teto e lembravam gigantescas bolhas de sabão.
Mais bruxas e bruxos de vestes verde-claras entravam e saíam pelas portas por onde passavam, um gás amarelo e malcheiroso invadiu o corredor quando emparelharam com uma das portas, e de vez em quando eles ouviam gritos distantes.
Subiram um lance de escadas e chegaram ao corredor de Ferimentos Causados por Bichos, onde a segunda porta à direita estava sinalizada com o letreiro: Enfermaria Dai Llewellyn para Acidentes “Perigosos”: Mordidas Graves.
Logo abaixo, havia um cartão em uma moldura de latão no qual alguém escrevera:

Curandeiro Responsável: Hipócrates Smethwyck.
Curandeiro Estagiário: Augusto Pye.

— Vamos aguardar aqui fora, Molly — disse Tonks — Arthur não vai gostar de receber tantas visitas ao mesmo tempo... primeiro entra a família.
Olho-Tonto resmungou sua aprovação à idéia e se postou à porta com as costas apoiadas na parede do corredor, o olho mágico girando em todas as direções.
Harry se afastou também, mas a Sra. Weasley esticou o braço e puxou-o pela porta, dizendo:
— Não seja tolo, Harry, Arthur quer lhe agradecer.
A enfermaria era pequena e um tanto escura, porque a única janela era estreita e ficava no alto da parede oposta à porta. A maior parte da iluminação vinha de mais bolhas de cristal agrupadas no meio do teto. As paredes eram forradas de painéis de carvalho, e havia na parede um retrato de um bruxo de cara maligna em cuja placa se lia: Urquhart Rackharrow, 1612-1697, Inventor do Feitiço para Expelir Tripas.
Só havia três pacientes.
O Sr. Weasley ocupava a cama ao fundo da enfermaria ao lado da janelinha. Harry ficou satisfeito e aliviado ao ver que ele estava recostado em vários travesseiros lendo o Profeta Diário, à luz do solitário raio de sol que incidia sobre sua cama. Arthur ergueu os olhos quando o grupo se encaminhou para ele e, vendo quem eram, abriu um grande sorriso.
— Olá! — falou, pondo o Profeta de lado — Gui acabou de sair, Molly, precisou voltar ao trabalho, mas diz que passa para vê-la mais tarde.
— Como é que você está, Arthur? — perguntou a Sra. Weasley, curvando-se para lhe dar um beijo na bochecha, e examinando com ansiedade o seu rosto — Você ainda está bem abatido.
— Estou me sentindo perfeitamente bem — respondeu o marido animado, esticando o braço ileso para abraçar Gina — Se pudessem retirar as bandagens, eu estaria pronto para ir para casa.
— Por que é que não podem retirá-las, papai? — perguntou Fred.
— Bom, começo a sangrar como louco todas as vezes que tentam — explicou o Sr. Weasley animado, apanhando a varinha sobre o armário ao lado da cama e acenando para conjurar seis cadeiras do lado de sua cama, e acomodar todos — Parece que havia um veneno incomum nas presas daquela cobra que mantém as feridas abertas. Mas eles têm certeza de que encontrarão um antídoto, dizem que já tiveram casos piores do que o meu, nesse meio-tempo só preciso beber uma Poção para Repor o Sangue de hora em hora. Já aquele sujeito ali — disse baixando a voz e indicando com a cabeça a cama do lado oposto, na qual um homem de aspecto verdoso e doentio olhava fixamente para o teto — Foi mordido por um lobisomem, coitado. Não tem cura.
— Lobisomem? — sussurrou a Sra. Weasley, fazendo uma cara assustada — Não tem perigo ele ficar em uma enfermaria coletiva? Não devia estar num quarto particular?
— Faltam duas semanas para a lua cheia — lembrou-lhe o Sr. Weasley, calmo — Estiveram conversando com ele hoje de manhã, os Curandeiros, sabem, tentando convencê-lo de que poderá levar uma vida quase normal. Eu disse a ele, não mencionei nomes, é claro, mas disse que conhecia pessoalmente um lobisomem, um sujeito muito bom, que acha fácil administrar esse problema.
— E que foi que ele respondeu? — perguntou Jorge.
— Que me daria mais uma mordida se eu não calasse a boca — disse o Sr. Weasley tristemente — E aquela mulher lá adiante — ele indicou a outra cama ocupada ao lado da porta — Não quis contar aos Curandeiros o que foi que a mordeu, o que faz a gente pensar que devia estar mexendo com alguma coisa ilegal. Mas, fosse o que fosse, arrancou-lhe um pedaço da perna, o cheiro é muito ruim quando removem os curativos.
— Então, o senhor vai nos contar o que aconteceu, papai? — perguntou Fred, aproximando a cadeira da cama.
— Bom, vocês já sabem, não? — disse o Sr. Weasley, dando um sorriso expressivo para Harry — É muito simples, eu tive um dia muito longo, cochilei, fui apanhado e mordido.
— Saiu no Profeta que você foi atacado? — perguntou Fred apontando para o jornal que o pai pusera de lado.
— Não, é claro que não — respondeu o Sr. Weasley com um sorriso amargurado — O Ministério não iria querer que todos soubessem que uma enorme cobra me...
— Arthur! — alertou-o a Sra. Weasley.
—... me... ah... mordeu — completou ele apressadamente, embora Harry não tivesse muita certeza de que era aquilo que ele pretendia dizer.
— Então onde é que você estava quando isso aconteceu, papai? — perguntou Jorge.
— Isso é só da minha conta — respondeu o pai, embora dando um sorrisinho.
E apanhando o jornal, sacudiu-o para abrir as páginas e disse:
— Eu estava lendo sobre a prisão de Willy Widdershins quando vocês chegaram. Sabem que descobriram que era ele quem estava por trás daqueles banheiros que regurgitaram no verão? Uma das azarações saiu pela culatra, o vaso sanitário explodiu e ele foi encontrado, inconsciente, nos destroços que o cobriram dos pés à cabeça em...
— Quando você diz que estava “em serviço” — interrompeu-o Fred em voz baixa — Que é que você estava fazendo?
— Você ouviu o que seu pai disse — sussurrou a Sra. Weasley — Não vamos discutir isto aqui! Continue a história do Willy Widdershins, Arthur.
— Bom, não me pergunte como, mas o fato é que ele se livrou da acusação do banheiro — comentou o Sr. Weasley, carrancudo — Só posso supor que correu ouro...
— Você estava guardando ela, não era? — perguntou Jorge em voz baixa — A arma? A coisa que Você-Sabe-Quem está procurando?
— Jorge, cale a boca! — repreendeu-o a Sra. Weasley.
— Em todo o caso — disse o Sr. Weasley alteando a voz — Agora Willy foi apanhado vendendo a trouxas maçanetas que mordem, e acho que desta vez ele não vai conseguir se livrar tão fácil porque, segundo o jornal, dois trouxas perderam os dedos e agora estão no St. Mungus para recuperar os ossos e apagar a memória. Imagine só, trouxas no St. Mungus! Em que enfermaria será que estão?
E ele olhou a toda volta, como se esperasse ver um letreiro.
— Você não disse que Você-Sabe-Quem tem uma cobra, Harry? — perguntou Fred, com os olhos no pai para observar sua reação — Uma cobra enorme? Você a viu na noite em que ele voltou, não foi?
— Já chega — disse a Sra. Weasley, aborrecida — Olho-Tonto e Tonks estão no corredor, Arthur, querem entrar para vê-lo. E vocês podem esperar lá fora — acrescentou ela para os filhos e Harry — Podem vir se despedir depois. Vão andando.
Os garotos saíram em fila para o corredor.
Olho-Tonto e Tonks entraram e fecharam a porta da enfermaria ao passar.
Fred ergueu as sobrancelhas.
— Ótimo — disse calmamente, vasculhando os bolsos — Que assim seja. Não nos contem nada.
— Está procurando isso? — indagou Jorge, mostrando um emaranhado de fios cor de carne.
— Você leu meus pensamentos — disse Fred, sorrindo — Vamos ver se o St. Mungus põe Feitiços de Imperturbabilidade nas portas das enfermarias?
Ele e Jorge desembaraçaram os fios, separaram cinco Orelhas Extensíveis e as distribuíram entre todos. Harry hesitou em apanhar a sua.
— Vamos, Harry, apanhe uma! Você salvou a vida de papai. Se alguém tem o direito de escutar atrás da porta é você.
Sorrindo contrafeito, Harry apanhou uma ponta do fio e inseriu-a no ouvido, como haviam feito os gêmeos.
— Ok, agora! — sussurrou Fred.
Os fios cor de carne se agitaram como longos fiapos de vermes e deslizaram por baixo da porta. A princípio, Harry não ouviu nada, em seguida se assustou quando escutou Tonks sussurrando claramente como se estivesse ao seu lado.
—... eles vasculharam a área toda, mas não conseguiram encontrar a cobra em lugar algum. Parece ter desaparecido depois de atacar você, Arthur... mas Você-Sabe-Quem não poderia ter esperado que uma cobra entrasse, poderia?
— Calculo que a tenha mandado para vigiar — rosnou Moody — Porque até agora ele não teve sorte, não é? Imagino que esteja tentando formar um quadro mais claro do que precisa enfrentar, e, se Arthur não estivesse lá, a fera teria tido muito mais tempo para espionar. Então, Potter diz que viu tudo acontecer?
— É — respondeu a Sra. Weasley. Parecia bastante inquieta — Sabe, Dumbledore chegou a me dar a impressão de que estava aguardando que Harry visse uma coisa dessas.
— Ah, bom — disse Moody — Tem alguma coisa estranha no menino Potter, todos sabemos.
— Dumbledore se mostrou preocupado com Harry quando falei com ele hoje de manhã — cochichou a Sra. Weasley.
— Claro que está preocupado — engrolou Moody — O garoto está vendo coisas de dentro da cobra de Você-Sabe-Quem. Obviamente, Potter não compreende o que isso significa, mas se Você-Sabe-Quem estiver possuindo ele...
Harry arrancou a Orelha Extensível do ouvido, o coração martelando disparado e o calor afluindo ao seu rosto. Ele olhou para os outros.
Todos o encaravam, os fios ainda pendurados nas orelhas, os rostos repentinamente amedrontados.






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