terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Conde de Monte Cristo - Capítulo 63



LXIII

O JANTAR




E
ra evidente que ao entrarem na sala de jantar o mesmo sentimento dominava todos os convivas. Perguntavam a si próprios que estranha influência levara todos àquela casa, e, no entanto, por mais surpreendidos e até inquietos que alguns estivessem por ali se encontrar, não desejariam de modo algum lá não estar.
Contudo, relações de fresca data, bem como a posição excêntrica e isolada e a fortuna desconhecida e quase fabulosa do Conde, impunham aos homens o dever de serem circunspectos e às mulheres a regra de não entrarem numa casa onde não havia mulheres para as receber. Mas mesmo assim, homens e mulheres tinham passado por cima, uns da circunspecção e as outras das conveniências. A curiosidade, espicaçando-os com o seu aguilhão irresistível, prevalecera sobre tudo.
Até os Cavalcanti, pai e filho, apesar do constrangimento de um e da desenvoltura do outro, pareciam preocupados por se encontrarem reunidos, em casa de um homem cujo objetivo não compreendiam, com outros homens que viam pela primeira vez.
A Sra. Danglars fizera um movimento ao ver, a convite de Monte Cristo, o Sr. de Villefort aproximar-se dela para lhe oferecer o braço, e o Sr. de Villefort, sentira a vista turvar-lhe detrás dos óculos de ouro ao sentir o braço da baronesa pousar no seu.
Nenhuma destas duas reações escapara ao Conde.
Aliás, o simples contato estabelecido entre os indivíduos possui já para o observador da cena o maior interesse. O Sr. de Villefort tinha à sua direita a Sra. Danglars e à sua esquerda Morrel. O Conde estava sentado entre a Sra. de Villefort e Danglars. Os outros lugares estavam ocupados por Debray, sentado entre Cavalcanti pai e Cavalcanti filho, e por Château-Renaud sentado entre a Sra. de Villefort e Morrel.
A refeição foi magnífica.
Monte Cristo tomara a peito alterar completamente as normas parisienses e dar ainda mais à curiosidade do que ao apetite dos seus convivas o alimento que ela desejava. Ofereceu-lhes um festim oriental, à maneira como poderiam sê-lo os festins das fadas orientais.
Todos os frutos que as quatro partes do mundo podem lançar, intactos e saborosos, na cornucópia da abundância da Europa se empilhavam em pirâmides em vasos da China e taças do Japão. As aves raras, com a parte brilhante da sua plumagem, os peixes monstruosos deitados em chapas de prata, todos os vinhos do Arquipélago, da Ásia Menor e do Cabo, encerrados em frascos de formas extravagantes que pareciam aumentar-lhes ainda o sabor, desfilaram como numa dessas revistas que Apício passava com os seus convivas diante dos parisienses, que compreendiam perfeitamente que se pudessem gastar mil luíses num jantar de dez pessoas desde que, como Cleópatra, se comessem pérolas ou, como Lourenço de Médici, se bebesse ouro derretido. Monte Cristo viu a surpresa geral e desatou a rir e a ridicularizar-se em voz alta.
— Meus senhores — disse — Decerto concordam com o que lhes vou dizer. Não é verdade que, quando se atinge certo grau de fortuna, não há nada mais necessário do que o supérfluo, da mesma maneira que, como estas senhoras admitirão, atingindo certo grau de exaltação, não há nada mais positivo do que o ideal? Ora, prosseguindo com o raciocínio, que é o maravilhoso? O que não compreendemos. Que é um bem realmente desejável? Um bem que não podemos ter. Por isso, ver coisas que não posso compreender e adquirir coisas impossíveis de possuir, tal é o desejo de toda a minha vida. E satisfaço-o com dois meios: o dinheiro e a vontade. Ponho em satisfazer um capricho, por exemplo, a mesma perseverança que o senhor, meu caro Danglars, emprega para criar uma linha de trilho de ferro; o senhor, meu caro Villefort, para que um homem seja condenado a morte; o senhor, meu caro Debray, para pacificar um reino; o senhor, meu caro Château-Renaud, para agradar a uma mulher, e o senhor, meu caro Morrel, para domar um cavalo que ninguém consegue montar. Assim, por exemplo, vejam estes dois peixes, nascidos um a cinqüenta léguas de São Petersburgo e o outro a cinco léguas de Nápoles: não é interessante reuni-los na mesma mesa?
— Como se chamam esses dois peixes? — perguntou Danglars.
— Aqui está o Sr. de Château-Renaud, que viveu na Rússia, que lhes dirá o nome de um — respondeu Monte Cristo — E aqui está o Sr. Major Cavalcanti, que é italiano, que lhes dirá o nome do outro.
— Este — disse Château-Renaud — Se me não engano, um esturjão.
— Exato.
— E aquele — disse Cavalcanti — Se não estou em erro, uma lampréia.
— Isso mesmo. Agora, Sr. Danglars, pergunte àqueles dois senhores onde se pescam estes peixes.
— Os esturjões — respondeu Château-Renaud — Pescam-se exclusivamente no Volga.
— E águas que dêem lampréias deste tamanho — disse Cavalcanti — Só conheço as do lago Fusaro.
— Exato, um veio do Volga e o outro do lago Fusaro.
— Impossível! — exclamaram em uníssono todos os convivas.
— Ora é isso precisamente que me diverte — perguntou Monte Cristo — Sou como Nero: cupitor impossibilium. E também o que os diverte neste momento. Eis, enfim, o que faz com que esta carne, que na realidade talvez não valha mais do que a da perca e a do salmão, lhes vá parecer deliciosa daqui a pouco, só porque no espírito de todos era impossível consegui-la. E, no entanto ela aqui está...
— Mas como foi possível transportar esses dois peixes para Paris?
— Oh, meu Deus, nada mais simples! Os dois peixes foram transportados cada um numa grande barrica, uma revestida de caniços e ervas do rio e a outra de juncos e plantas do lago, ambas embarcadas num furgão feito de propósito. Viveram assim o esturjão doze dias e a lampréia oito. E ambos viviam perfeitamente quando o meu cozinheiro tomou conta deles para fazer morrer um em leite e o outro em vinho. Não acredita, Sr. Danglars?
— Duvido, pelo menos — respondeu Danglars, sorrindo forçadamente.
— Baptistin! — chamou Monte Cristo — Mande trazer o outro esturjão e a outra lampréia, aqueles que vieram nas outras barricas e que ainda estão vivos.
Danglars arregalou os olhos de espanto; os restantes convivas bateram palmas.
Quatro criados trouxeram duas barricas guarnecidas de plantas marinhas, em cada uma das quais palpitava um peixe idêntico aos que estavam na mesa.
— Mas porquê dois de cada espécie? — perguntou Danglars.
— Porque um podia morrer — respondeu simplesmente Monte Cristo.
— O senhor é realmente um homem prodigioso — reconheceu Danglars — E os filósofos escusam de dizer o contrário, pois é soberbo ser rico.
— E, sobretudo ter idéias — acrescentou a Sra. Danglars.
—Oh, não me atribua a honra desta, minha senhora! É uma honra que pertence aos Romanos. Plínio conta que se mandavam de ôstia para Roma, por meio de mudas de escravos, que os transportavam à cabeça, peixes da espécie do chamado mulus, e que, segundo a descrição que dele existe, é provavelmente a dourada. Era também um luxo conservá-lo vivo e um espetáculo deveras interessante vê-lo morrer, pois ao morrer mudava três ou quatro vezes de cor e, como um arco-íris que se evapora, passava por todos os cambiantes do prisma, depois do que o mandavam para as cozinhas. A sua agonia fazia parte do seu mérito. Se não o vissem vivo, não o queriam morto.
— É verdade — confirmou Debray — Mas também de ôstia a Roma são apenas sete ou oito léguas.
— De acordo — concordou Monte Cristo — Mas onde estaria o mérito de vivermos mil e oitocentos anos depois de Lúculo se não fizéssemos melhor do que ele?
Os dois Cavalcanti arregalavam muito os olhos, mas tinham o bom senso de não dizer nada.
— Tudo isso é muito amável — declarou Château-Renaud — No entanto, o que mais admiro, confesso, é a admirável prontidão com que o senhor é servido. Não é verdade, Sr. Conde, que só comprou esta casa há cinco ou seis dias?
— Sim, quando muito — respondeu Monte Cristo.
— Pois bem, estou certo de que em tão pouco tempo sofreu uma transformação completa. Se me não engano, ela tinha outra entrada como esta e o pátio estava calcetado e vazio, enquanto que hoje tem um magnífico relvado orlado de árvores que parecem centenárias.
— Que quer, aprecio a verdura e a sombra — respondeu Monte Cristo.
— Com efeito — interveio a Sra. de Villefort — Antes se entrava por uma porta que dava para a estrada, e no dia da minha milagrosa salvação foi pela estrada, recordo-me, que o senhor me trouxe para casa.
— É verdade, minha senhora — confirmou Monte Cristo — Mas depois preferi uma entrada que me permite ver o Bosque de Bolonha através do portão.
— Em quatro dias, é um prodígio! — exclamou Morrel.
— De fato — disse Château-Renaud — Transformar uma casa velha numa casa nova é coisa miraculosa. Porque ela era muito velha e até muito triste. Recordo-me de ter sido encarregado pela minha mãe de a visitar quando o Sr. de Saint-Méran a pôs à venda, há dois ou três anos.
— O Sr. de Saint-Méran? — admirou-se a Sra. de Villefort — Mas esta casa pertencia ao Sr. de Saint-Méran antes de o senhor a comprar?
— Parece que sim — respondeu Monte Cristo.
— Parece?... Não sabe a quem a comprou?
— Palavra que não. É o meu intendente que se ocupa de todos esses pormenores.
— É certo que havia dois anos, pelo menos, que não era habitada — prosseguiu Château-Renaud — E causava uma grande tristeza vê-la com as persianas fechadas, as portas trancadas‚ o pátio cheio de ervas. Na verdade, se não tivesse pertencido ao sogro de um procurador régio poderia ser tomada por uma dessas casas malditas onde se cometeu qualquer crime.
Villefort, que até ali não tocara nos três ou quatro copos de vinhos extraordinários colocados diante de si, pegou num ao acaso e bebeu-o de um só trago. Monte Cristo deixou passar um instante. Depois, no meio do silêncio que se seguiu às palavras de Château-Renaud, disse:
— É estranho, Sr. Barão, mas tive o mesmo pensamento da primeira vez que entrei. A casa pareceu-me tão lúgubre que nunca a teria comprado se o meu intendente a não tivesse adquirido por mim. Provavelmente, o maroto recebeu algumas “luvas” do tabelião...
— É provável — balbuciou Villefort, tentando sorrir — Mas acredite que não meti prego nem estopa nesse suborno. O Sr. de Saint-Méran quis que esta casa, que faz parte do dote da neta, fosse vendida porque, se permanecesse mais três ou quatro anos desabitada, cairia em ruínas.
Foi a vez de Morrel empalidecer.
— Havia, sobretudo um quarto — continuou Monte Cristo — Oh, meu Deus, um quarto aparentemente muito simples, um quarto como todos os quartos forrado de damasco vermelho, que me pareceu, não sei porquê, deveras dramático!
— Dramático?... Dramático por quê? — perguntou Debray.
— Não costumam ter a percepção das coisas instintivas? — perguntou Monte Cristo — Não é verdade que há lugares onde parece que se respira naturalmente a tristeza? Por quê? Ninguém sabe nada a tal respeito. Mas isso acontece, quer por um encadeamento de recordações, quer por um capricho do pensamento que nos conduz a outros tempos, a outros lugares sem qualquer relação com os tempos e os lugares onde nos encontramos. Tanto assim que aquele quarto me recordava admiravelmente o quarto da marquesa de Ganges ou o de Desdemona. Olhem, uma vez que já acabamos de jantar, quero que o vejam. Depois desceremos para tomar o café no jardim. Depois do jantar, o espetáculo.
Monte Cristo fez um sinal como se consultasse os seus convidados. A Sra. de Villefort levantou-se, Monte Cristo imitou-a e todos lhe seguiram o exemplo. Villefort e a Sra. Danglars ficaram um instante como que pregados no seu lugar. Interrogavam-se com a vista, frios, mudos e aterrorizados.
— Ouviu? — perguntou a Sra. Danglars.
— Temos de ir — respondeu Villefort, levantando-se e oferecendo-lhe o braço.
Todos já tinham se espalhado pela casa, impelidos pela curiosidade, pois pensavam que a visita não se limitaria ao tal quarto e que ao mesmo tempo percorreriam o resto daquele pardieiro que Monte Cristo transformara num palácio. Todos correram, portanto para as portas abertas. Monte Cristo esperou pelos dois retardatários. Depois, quando eles também saíram, fechou o cortejo, com um sorriso que, se o pudessem compreender, apavoraria muito mais os convivas do que o quarto onde iam entrar.
Começaram, com efeito, por percorrer os aposentos, os quartos mobiliados à oriental, com divãs e almofadas a servirem de cama e cachimbos e armas a fazerem as vezes de móveis; as salas com as paredes cobertas dos mais belos quadros dos velhos mestres; os boudoirs revestidos de tecidos da China, de cores caprichosas e desenhos extravagantes, maravilhosos; por fim, chegaram ao famoso quarto. Não tinha nada de especial, exceto a circunstância de, apesar de o dia estar morrendo, se não encontrar iluminado e se apresentar em toda a sua vetustez, quando todos os outros quartos haviam sido arranjados de novo.
Estas duas causas bastavam, efetivamente, para lhe dar um aspecto lúgubre.
— Oh, é horrível, com efeito! — exclamou a Sra. de Villefort.
A Sra. Danglars procurou balbuciar algumas palavras, que ninguém ouviu.
Cruzaram-se várias observações cujo resultado foi concluir-se que na verdade o quarto de damasco vermelho tinha um aspecto sinistro.
— Não é verdade? — perguntou Monte Cristo — Vejam como a cama está estranhamente colocada e como é sombrio e sangrento o damasco das paredes! E aqueles dois retratos a pastel, que a umidade desbotou, não parecem dizer, com os seus lábios lívidos e os seus olhos esgazeados: “Eu vi!”
Villefort perdeu por completo a cor e a Sra. Danglars caiu num canapé colocado perto da lareira.
— Oh! — exclamou a Sra. de Villefort, sorrindo — Tem a coragem de se sentar nesse canapé, onde talvez o crime foi cometido?...
A Sra. Danglars levantou-se vivamente.
— Mas isto não é tudo... — disse Monte Cristo.
— Que mais temos? — perguntou Debray, a quem a comoção da Sra. Danglars não escapara.
— Sim, que mais temos ainda? — secundou-o Danglars — Porque, até agora, confesso que não vi grande coisa. E o senhor, major Cavalcanti?
— Oh! — exclamou o interpelado — Nós temos em Pisa a torre de Ugolino, em Ferrara a prisão de Tasso e em Rimini o quarto de Francisca e Paulo...
— Pois sim, mas não têm esta escadinha — atalhou Monte Cristo, abrindo uma porta disfarçada na parede — Vejam-na e digam o que lhes parece.
— Que escada em caracol mais sinistra! — exclamou Château-Renaud, rindo.
— A verdade é que — confessou Debray — Não sei se é o vinho de Chio que me põe melancólico, mas não há dúvida de que acho esta casa muito soturna.
Quanto a Morrel, desde que ouvira falar do dote de Valentine, ficara triste e não proferira uma palavra.
— Imaginem — sugeriu Monte Cristo — Um Otelo ou um abade de Ganges qualquer descendo passo a passo, numa noite escura e tempestuosa, esta escada, com qualquer lúgubre fardo que tem pressa de furtar à vista dos homens, senão ao olhar de Deus...
A Sra. Danglars semi-desmaiou nos braços de Villefort, que por sua vez foi obrigado a encostar-se à parede.
— Meu Deus, senhora! — gritou Debray — Que tem? Como está pálida!
— O que ela tem é muito simples — interveio a Sra. de Villefort — Está morta de medo. É o resultado do Sr. Conde de Monte Cristo se pôr a contar-nos histórias horríveis, na intenção de nos aterrorizar.
— Claro — concordou Villefort — De fato, Conde, o senhor aterroriza as senhoras...
— Que tem? — repetiu baixinho Debray à Sra. Danglars.
— Nada, nada — respondeu ela, fazendo um estorço — Preciso apenas de ar...
— Quer descer ao jardim? — perguntou Debray, oferecendo o braço à Sra. Danglars e encaminhando-se para a escada secreta.
— Não, não — disse ela — Prefiro ficar aqui.
— Na verdade, minha senhora, esse terror é verdadeiro? — perguntou Monte Cristo.
— Não, senhor — respondeu a Sra. Danglars — Mas o senhor tem uma maneira de supor as coisas que dá à ilusão o aspecto da realidade.
— Oh, meu Deus, tem razão! — exclamou Monte Cristo, sorrindo — Tudo isto não passa de imaginação... afinal, por que motivo não havemos antes de imaginar este quarto como um bom e respeitável quarto de mãe de família? E esta cama, com os seus cortinados cor de púrpura, como uma cama visitada pela deusa Lucina? E esta escada misteriosa como a passagem por onde, devagarinho, para não perturbar o sono reparador da parturiente, entra o médico ou a ama, ou o próprio pai, para levar o filho que dorme?...
Desta vez, a Sra. Danglars, em vez de se tranqüilizar com tão suave visão, soltou um gemido e desmaiou por completo.
— A Sra. Danglars encontra-se mal — balbuciou Villefort — Talvez seja melhor transportá-la para a sua carruagem.
— Oh, meu Deus, e eu que me esqueci do meu frasco...! — lamentou-se Monte Cristo.
— Mas eu tenho o meu — disse a Sra. de Villefort.
E passou a Monte Cristo um frasco cheio de um licor vermelho idêntico àquele cuja benfazeja influência o Conde experimentara em Edouard.
— Ah!... — exclamou Monte Cristo, recebendo-o das mãos da Sra. de Villefort.
— Sim — murmurou esta — Experimentei de acordo com as suas indicações e...
— E conseguiu?
— Creio que sim.
Tinham transportado a Sra. Danglars para o quarto contíguo. Monte Cristo deitou-lhe nos lábios uma gota do licor vermelho e ela voltou a si.
— Oh, que sonho horrível! — exclamou.
Villefort apertou-lhe fortemente o pulso para lhe fazer compreender que não sonhara. Procuraram o Sr. Danglars. Mas, pouco propenso às impressões poéticas, descera ao jardim e conversava com o Sr. Cavalcanti pai acerca de um projeto de trilho de ferro de Liorne a Florença.
Monte Cristo parecia desesperado. Deu o braço à Sra. Danglars e conduziu-a ao jardim, onde encontraram o Sr. Danglars a tomar o café entre os Srs. Cavalcanti pai e filho.
— Na verdade, minha senhora, assustei-a assim tanto? — perguntou Monte Cristo à Sra. Danglars.
— Não, senhor. Mas, como sabe, as coisas impressionam-nos conforme a disposição de espírito em que nos encontramos.
Villefort esforçou-se por rir.
— E então, compreende, basta uma suposição, uma quimera...
— No entanto, acreditem ou não, se quiserem, estou convencido de que foi cometido um crime nesta casa — teimou Monte Cristo.
— Cautela — recordou a Sra. de Villefort — Temos aqui o procurador régio...
— Bom, já que as coisas estão neste pé, aproveito a oportunidade para fazer a minha declaração — perguntou Monte Cristo.
— A sua declaração? — repetiu Villefort.
— Sim, e diante de testemunhas.
— Tudo isto é deveras interessante — disse Debray — E se houve realmente crime, vamos fazer admiravelmente a digestão.
— Houve crime — insistiu Monte Cristo — Venham por aqui, meus senhores. Venha, Sr. de Villefort. Para que a declaração seja válida, deve ser feita às autoridades competentes.
Monte Cristo pegou no braço de Villefort, ao mesmo tempo que apertava debaixo do seu o da Sra. Danglars, e arrastou o procurador régio até ao plátano, onde a sombra era mais espessa.
Todos os outros convidados os seguiram.
— Veja — disse Monte Cristo — Aqui, precisamente aqui — e batia na terra com o pé — Aqui, para rejuvenescer estas árvores, já velhas, mandei cavar a terra e adubá-la. Pois bem, os meus trabalhadores, ao cavarem, desenterraram um cofre, ou antes, as ferragens de um cofre, no meio das quais estava o esqueleto de uma criança recém-nascida. Espero que não tomem isto como fantasmagoria...
Monte Cristo sentiu retesar-se o braço da Sra. Danglars e tremer a mão de Villefort.
— Uma criança recém-nascida? — repetiu Debray — Diabo, parece-me que o caso esta ficando sério...
— Bom — interveio Château-Renaud — Não me enganava, portanto quando afirmava há pouco que as casas tinham uma alma e um rosto como os homens e que na sua fisionomia transparecia um reflexo do seu íntimo. A casa era triste porque tinha remorsos, e tinha remorsos porque ocultava um crime.
— Quem diz que é um crime? — contrapôs Villefort, tentando um derradeiro esforço.
— Como, uma criança enterrada viva num jardim não é um crime? — exclamou Monte Cristo — Como designa então essa ação, Sr. Procurador Régio?
— Mas quem diz que foi enterrada viva?
— Para quê enterrá-la aqui se estivesse morta? Este jardim nunca foi um cemitério.
— Que fazem aos infanticidas neste país? — perguntou ingenuamente o major Cavalcanti.
— Meu Deus, cortam-lhes muito simplesmente o pescoço! — respondeu Danglars.
— Ah, cortam-lhes o pescoço!... — repetiu Cavalcanti.
— Parece-me... não é assim, Sr. de Villefort? — perguntou Monte Cristo.
— É, Sr. Conde — respondeu o interpelado num tom que já não tinha nada de humano.
Monte Cristo viu que as duas personagens para as quais preparara aquela cena não podiam suportar mais. E como não queria levá-las demasiado longe, mudou de assunto:
— Então o café, meus senhores? Parece-me que o esquecemos!
E levou os convidados para a mesa colocada no meio do relvado.
— Na verdade, Sr. Conde — disse a Sra. Danglars — Tenho vergonha de confessar a minha fraqueza, mas todas essas histórias horríveis me perturbaram. Deixe-me sentar, peço-lhe.
E caiu numa cadeira.
Monte Cristo cumprimentou-a e aproximou-se da Sra. de Villefort.
— Creio que a Sra. Danglars ainda precisa do seu frasco... — disse-lhe.
Mas antes de a Sra. de Villefort se aproximar da amiga, já o procurador régio dissera ao ouvido da Sra. Danglars:
— Preciso de lhe falar.
— Quando?
— Amanhã.
— Onde?
— No meu gabinete... no tribunal, se não se importa. É ainda o lugar mais seguro.
— Irei.
Neste momento, a Sra. de Villefort aproximou-se.
— Obrigada, querida amiga — disse a Sra. Danglars, procurando sorrir — Isto não é nada e já me sinto muito melhor.




continua...





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Primeira Lei de Murphy: "Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará".
Comentário de Churchill sobre o homem: "O homem pode ocasionalmente tropeçar na verdade, mas na maioria das vezes ele se levanta e continua indo na mesma direção".

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel - Capítulo 5


— Capítulo V —
Conspiração Desmascarada




— Agora é melhor irmos para casa também — disse Merry — Essa história está meio esquisita, mas vai ter de esperar até chegarmos lá.
Desceram a alameda da balsa, que era reta e bem-cuidada, ladeada por grandes pedras caiadas. Cerca de cem metros dali, ficava a margem do rio, onde havia um largo ancoradouro de madeira. Uma balsa grande e rasa estava atracada. Os tocos em que eram amarradas as embarcações, próximos à beira da água, brilhavam na luz de duas lamparinas suspensas em postes altos. Atrás deles a neblina, subindo do solo plano, já cobria as cercas-vivas, mas a água à frente era escura, com apenas alguns chumaços de névoa que se enrolavam como vapor por entre os juncos na margem. Parecia haver menos neblina no outro lado.
Merry conduziu o pônei até a balsa por um passadiço, e os outros o seguiram. Então, Merry empurrou a balsa com uma vara comprida, afastando-a vagarosamente do ancoradouro.
Brandevin fluía lento e largo diante deles. A margem oposta era íngreme, e por ela subia uma trilha sinuosa que começava no outro ancoradouro. Ali havia luzes piscando. Atrás se erguia a Colina Buque, onde brilhavam muitas janelas redondas, verdes e amarelas, por entre tufos perdidos de neblina. Eram as janelas da Sede do Brandevin, antiga residência dos Brandebuques.
Muito tempo atrás, Gorbendad Velhobuque, chefe da família Velhobuque, uma das pessoas mais velhas do Pântano e mesmo do Condado, tinha atravessado o rio, que era a fronteira original do lado Leste. Ele construiu (e escavou) a Sede do Brandevin, mudando seu nome para Brandebuque, e por ali ficou, vindo a se tornar senhor do que era virtualmente um país independente. A família cresceu mais e mais, e depois de sua época continuou crescendo, e a Sede do Brandevin passou a ocupar toda a parte baixa da colina, com três grandes portas de entrada, muitas portas laterais e cerca de cem janelas. Os Brandebuques, e sua numerosa prole, começaram a fazer tocas, e mais tarde casas, por todo o lugar.
Esta foi a origem da Terra dos Buques, uma faixa densamente habitada entre o rio e a Floresta Velha, um tipo de colônia do Condado. Sua aldeia principal era Buqueburgo, que se amontoava nas encostas e ladeiras atrás da Sede do Brandevin. 
O povo do Pântano tinha boas relações com os moradores da Terra dos Buques, e a autoridade do Senhor da Sede (como era chamado o chefe da família Brandebuque) ainda era reconhecida pelos fazendeiros da região entre Tronco e Juncal. Mas a maioria das pessoas do velho Condado achava os moradores da Terra dos Buques peculiares, meio estrangeiros, por assim dizer. Embora, na realidade, eles não fossem muito diferentes dos outros hobbits das quatro Quartas. A não ser por uma coisa: gostavam de barcos e alguns sabiam nadar.
Originalmente, essa terra não era protegida do lado Leste, mas ali providenciaram uma cerca-viva: a Sebe Alta. Plantada há muitas gerações, estava agora alta e espessa, pois era constantemente cuidada. Estendia-se desde a Ponte do Brandevin, descrevendo um grande arco que se afastava do rio, até Fim-da-Sebe (onde corria o Voltavime vindo da floresta para desaguar no Brandevin): eram cerca de vinte milhas de ponta a ponta. Mas é claro que a proteção não era completa. A floresta se aproximava da cerca em muitos pontos. Os moradores da Terra dos Buques mantinham as portas trancadas depois de escurecer, e isso também não era comum no Condado.
A balsa ia lentamente através da água. O porto da Terra dos Buques se aproximou, Sam era o único do grupo que nunca tinha estado do outro lado do rio. Foi tomado por um sentimento estranho, ao observar a corrente que borbulhava ao passar: sua vida antiga lá atrás, envolta pela neblina, à sua frente, sombrias aventuras. Coçou a cabeça, e por um momento desejou que o Sr. Frodo pudesse ter continuado a viver tranquilamente em Bolsão.
Os quatro hobbits desceram da balsa. Merry estava amarrando a balsa, e Pippin já ia conduzindo o pônei pela trilha, quando Sam (que tinha ficado olhando para trás, como a dizer adeus ao Condado) disse num suspiro rouco:
— Olhe para trás, Sr. Frodo! Vê alguma coisa?
No ancoradouro distante, sob as luzes longínquas, conseguiam apenas adivinhar uma figura: parecia um escuro fardo preto que tinha ficado para trás. Mas quando olharam melhor, parecia que a figura se movia de um lado para o outro, como se examinasse no chão. Depois foi se arrastando, se agachando de volta para a escuridão além das lamparinas.
— Que raios pode ser aquilo? — exclamou Merry.
— Alguma coisa que está nos seguindo — disse Frodo — Mas não pergunte mais nada agora! Vamos sair daqui imediatamente! — apressaram-se pela trilha até o topo da margem, mas quando olharam para trás novamente, o outro ancoradouro estava coberto pela neblina, e não se podia ver nada.
— Ainda bem que vocês não mantêm barcos na margem Oeste! — disse Frodo — Cavalos conseguem atravessar este rio?
— Poderiam avançar umas vinte milhas ao Norte, até a Ponte do Brandevin, ou poderiam nadar — respondeu Merry — Embora eu nunca tenha ouvido falar de cavalos cruzando este rio a nado. Mas o que os cavalos têm a ver com isso?
— Depois eu lhe conto, vamos entrar em casa e assim poderemos conversar.
— Tudo bem! Você e Pippin sabem o caminho, então vou com o pônei na frente, dizer a Fatty Bolger que vocês estão chegando. Vamos preparar a ceia e as outras coisas.
— Já ceamos mais cedo, com o Sr. Magote — disse Frodo — Mas poderíamos cear de novo.
— Então, vamos lá! Me dê essa cesta! — disse Merry, cavalgando para dentro da escuridão.
O Brandevin ficava a uma certa distância da nova casa de Frodo em Cricôncavo. Passaram pela Colina Buque e a Sede do Brandevin à sua esquerda, e nos arrabaldes de Buqueburgo pegaram a estrada principal da Terra dos Buques que ia da Ponte em direção ao Sul. Depois de caminharem meia milha nessa estrada rumo ao norte, encontraram uma alameda que se abria à direita. Seguiram por ela algumas milhas, subindo e descendo em direção ao campo.
Finalmente depararam com uma cerca-viva e um portão estreito. Na escuridão, não se via nada da casa, que ficava afastada da alameda, no meio de um amplo círculo coberto de grama e circundado por uma faixa de árvores baixas no interior da cerca externa. Frodo tinha escolhido esse lugar por que ficava num ponto do campo onde não passava muita gente, e não havia outras habitações por perto, Podia-se entrar e sair sem ser notado. A casa tinha sido construída muito tempo atrás pelos Brandebuques, para o uso de convidados, ou de membros da família que desejassem escapar da vida agitada da Sede do Brandevin por uns tempos. Era antiga e com jeito de casa de campo, o mais parecida possível com uma toca hobbit: comprida e baixa, sem pavimentos superiores, e tinha um telhado de turfa, janelas redondas e uma grande porta, também redonda.
Andando pelo caminho verde que conduzia do portão até a casa, não se podia ver nenhuma luz, as janelas estavam escuras e fechadas. Frodo bateu na porta e Fatty Bolger abriu. Uma luz amistosa projetou-se para fora. Entraram rápido e se trancaram por dentro junto com a luz. Estavam agora numa sala ampla, com portas dos dois lados, à frente, um corredor conduzia ao centro da casa.
— Bem, o que acha? — perguntou Merry, vindo pelo corredor — Nesse curto espaço de tempo, fizemos o possível para que a casa parecesse um lar. Afinal de contas, Fatty e eu só chegamos aqui com a última carroça de bagagem ontem.
Frodo olhou em volta. A aparência era de um lar. Muitas de suas coisas favoritas — ou das coisas favoritas de Bilbo (que nesse novo ambiente faziam lembrar muito dele) — estavam arrumadas do modo mais semelhante possível à sua antiga disposição em Bolsão. Era um lugar agradável, confortável, acolhedor, e Frodo se viu desejando que realmente estivesse chegando para se acomodar num retiro tranquilo. Parecia-lhe injusto fazer com que os amigos tivessem todo esse trabalho, e ele começou de novo a imaginar como poderia dizer que devia partir tão breve, na verdade, imediatamente. Mas isso teria de ser feito naquela mesma noite, antes de irem dormir.
— Está encantador! — disse ele com esforço — Mal percebo que me mudei.
Os viajantes penduraram suas capas, e empilharam as mochilas no chão.
Merry os conduziu pelo corredor e escancarou a última porta. A luz do fogo, e uma onda de vapor, vinham lá de dentro.
— Um banho! — gritou Pippin — Ó magnífico Meriadoc!
— Em que ordem vamos tomar banho? — perguntou Frodo — Mais velhos primeiro, ou mais rápidos primeiro? De qualquer modo, você vai ficar por último, Mestre Peregrin.
— Deixem que eu arranjo as coisas de um modo melhor! — disse Merry — Não podemos começar a vida aqui em Cricôncavo com uma discussão sobre banhos. Naquela sala, há três banheiras e um caldeirão cheio de água fervendo. Também há toalhas, tapetes e sabão. Entrem e sejam rápidos!
Merry e Fatty entraram na cozinha do outro lado do corredor, e se ocuparam com os preparativos finais para a ceia. Pedaços de canções concorrentes vinham do banheiro, misturados com o ruído dos hobbits espirrando água para todo lado. De repente a voz de Pippin ficou mais alta que as outras, cantando uma das canções de banho favoritas de Bilbo.

 

Cantemos o banho do fim do dia que da sujeira nos alivia!

Tonto é quem cantar não tente.

Ah! Coisa nobre é Água Quente.

Doce é o som da chuva que cai,

e do riacho que saltando vai;

melhor que chuva ou riacho ondulante é

Água Quente e vaporizante.

Água fria podemos mandar

goela abaixo e nos alegrar,

melhor é Cerveja no copo da gente e lombo abaixo

Água bem Quente.

Bela é a Água do alto a saltar

em fonte limpa suspensa no ar,

mas nunca fonte, tão doce és como

Água Quente debaixo dos pés.

 

Um grito de oooh!
Houve um barulho estrondoso de água espirrando, e como se Frodo estivesse parando um cavalo. A banheira de Pippin mais parecia uma fonte com água jorrando para o alto.
Merry apareceu na porta:
— Que tal uma ceia e cerveja no gogó? — chamou ele.
Frodo saiu, secando o cabelo.
— Tem tanta água no ar que vou terminar isto na cozinha — disse ele.
— Caramba! — disse Merry. O chão de pedra estava uma poça — Vai ter de passar um esfregão em tudo antes de tocar na comida, Peregrin — disse ele — Rápido! Ou não esperaremos você.
Cearam na cozinha, numa mesa perto do fogo.
— Suponho que não vão querer repetir de novo? — disse Fredegar, sem muitas esperanças.
— Claro que vamos! — gritou Pippin.
— Os cogumelos são meus! — disse Frodo — Dados a mim pela Sra. Magote, a rainha das mulheres de fazendeiros. Tire as mãos gulosas daí, que eu sirvo.
Os hobbits têm uma paixão por cogumelos, que ultrapassa mesmo o desejo mais voraz de uma pessoa grande. Um fato que explica em parte as longas expedições do jovem Frodo às renomadas plantações do Pântano, e a ira do injuriado Magote.
Nesta ocasião, havia o suficiente para todos, mesmo dentro dos padrões dos hobbits. Também havia muitas outras coisas, e, quando terminaram, até mesmo Fatty Bolger soltou um suspiro de satisfação. Empurraram a mesa e aproximaram as cadeiras do fogo.
— Arrumamos tudo depois — disse Merry — Agora, contem-me tudo! Suponho que estiveram metidos em aventuras, o que não foi justo sem minha presença. Quero um relatório completo, e acima de tudo quero saber qual foi o problema com o velho Magote, e por que ele falou comigo daquele jeito. Até parecia que estava com medo, se é que isto é possível.
— Todos nós tivemos medo — disse Pippin, depois de uma pausa, durante a qual Frodo ficou olhando para o fogo, sem dizer nada — Você também teria, se tivesse Cavaleiros Negros no seu encalço por dois dias.
— E que são eles?
— Figuras negras montando cavalos negros — respondeu Pippin — Se Frodo não quiser falar, eu lhe conto a história toda desde o começo — fez então um relatório completo da viagem, desde que deixaram Vila dos Hobbits.
Sam fez vários sinais afirmativos com a cabeça, e soltou exclamações apoiando Pippin.
Frodo permanecia em silêncio.
— Eu pensaria que estão inventando tudo isso — disse Merry — Se não tivesse visto aquela figura negra no ancoradouro e ouvido o tom estranho na voz de Magote. O que acha de tudo isso, Frodo?
— O primo Frodo tem estado muito fechado — disse Pippin — Mas chegou a hora de se abrir. Até agora, não nos foi oferecida nenhuma informação, a não ser a suposição de Magote: de que isso tem a ver com o tesouro do velho Bilbo.
— Aquilo foi só suposição — disse Frodo de repente — Magote não sabe de nada.

— O velho Magote é um sujeito astuto — disse Merry — Há muita coisa escondida que aquele rosto redondo não deixa transparecer quando fala. Ouvi dizer que numa época costumava ir à Floresta Velha, e ele tem a reputação de conhecer muitas coisas estranhas. Mas pelo menos, Frodo, você pode nos dizer se a suposição dele é ou não infundada.
— Eu acho — respondeu Frodo devagar — Que a suposição tem fundamento, pelo menos até onde chega. Existe uma ligação com as antigas aventuras de Bilbo, e os Cavaleiros estão empreendendo uma busca, ou talvez deva dizer perseguição, tentando pôr as mãos em cima dele, ou de mim. Também acho, se querem saber, que isto não é nenhuma brincadeira, e que não estou a salvo nem aqui e nem em qualquer outro lugar.
Frodo olhou à sua volta, para as janelas e paredes, como receando que de repente tudo desabasse. Os outros olhavam-no em silêncio, também trocando olhares significativos entre si.
— Acho que agora ele vai falar — cochichou Pippin para Merry.
Merry concordou, balançando a cabeça.
— Bem! — disse Frodo finalmente, endireitando-se na cadeira, como se tivesse tomado uma decisão. — Não posso esconder isto por mais tempo. Tenho uma coisa para dizer a todos vocês. Mas não sei por onde começar.
— Acho que posso ajudá-lo — disse Merry calmamente — Contando uma parte eu mesmo.
— Que quer dizer? — perguntou Frodo, olhando-o ansiosamente.
— Apenas isto, meu querido e velho Frodo: você está desolado, porque não sabe como dizer adeus. Você pretendia deixar o Condado, é claro. Mas o perigo lhe sobreveio antes do que esperava, e agora está se decidindo a partir imediatamente. E não quer fazê-lo. Sentimos muito por você.
Frodo abriu a boca, e a fechou novamente. Sua cara de surpresa era tão cômica que todos riram.
— Querido e velho Frodo! — disse Pippin — Você realmente achou que tinha jogado poeira em nossos olhos? Não foi cuidadoso ou esperto o suficiente para isso! É óbvio que vem planejando partir e dizer adeus a tudo e a todos desde Abril. Nós o vimos constantemente resmungando: “Será que um dia verei aquele vale novamente?”, e coisas assim. E fingindo que começava a ficar sem dinheiro, e realmente vendendo seu adorado lar, Bolsão, para aqueles Sacola-Bolseiros. E todas aquelas conversas secretas com Gandalf.
— Céus! — disse Frodo — Pensei que tinha sido cuidadoso e esperto. Não sei o que Gandalf diria. Então, todo o Condado está comentando a minha partida?
— Ah, não! — disse Merry — Não se preocupe com isso. É claro que o segredo não vai durar muito, mas no momento só é conhecido por nós, conspiradores, eu acho. Afinal de contas, deve se lembrar que o conhecemos bem, e sempre estamos com você. Geralmente conseguimos adivinhar o que está pensando. Eu também conhecia Bilbo. Para falar a verdade, tenho ficado de olho em você desde que ele partiu. Achei que iria atrás dele, mais cedo ou mais tarde, e ultimamente temos estado muito ansiosos. Tínhamos pavor que nos pudesse passar a perna, e ir embora de repente sozinho, como ele fez. Desde a Primavera, estamos de olhos abertos, e fazendo muitos planos por nossa própria conta. Você não vai escapar tão facilmente!
— Mas preciso ir — disse Frodo — Isso não pode ser evitado, queridos amigos. É terrível para todos nós, mas não adianta ficarem tentando me impedir. Já que adivinharam tanta coisa, por favor me ajudem, e não me atrasem.
— Você não está entendendo — disse Pippin — Você precisa ir, portanto nós precisamos ir também. Merry e eu vamos com você. Sam é um sujeito excelente, e pularia dentro da garganta de um dragão para salvá-lo, se não tropeçasse nos próprios pés, mas você precisará de mais de um companheiro nessa aventura perigosa.
— Meus queridos e idolatrados hobbits! — disse Frodo, profundamente emocionado — Não posso permitir que façam isso. Tomei a decisão há muito tempo, também. Vocês falam de perigos, mas não entendem. Isso não é nenhuma caça ao tesouro, nenhuma viagem de lá-e-de-volta. Estou fugindo de um perigo mortal, em direção a outro perigo mortal.
— Claro que entendemos — disse Merry firmemente — É por isso que decidimos ir. Sabemos que o Anel não é brincadeira, mas faremos o possível para ajudá-lo contra o Inimigo.

— O Anel! — disse Frodo, agora completamente aturdido.
— Sim, o Anel — disse Merry — Meu querido e velho hobbit, você não leva em consideração a curiosidade dos amigos. Sei da existência do Anel há muitos anos, desde antes de Bilbo partir, na verdade, mas já que ele obviamente considerava isso um segredo, guardei para mim o que sabia, até que formamos nossa conspiração. É claro que não conhecia Bilbo como conheço você, eu era muito jovem, e também ele era mais cauteloso, mas não o suficiente. Se quiser saber como descobri, eu lhe conto.
— Continue! — disse Frodo baixinho.
— A armadilha foram os Sacola-Bolseiros, como já se poderia esperar. Um dia, um ano antes da Festa, eu por acaso estava caminhando pela estrada, quando vi Bilbo mais adiante. De repente, na distância, os Sacola-Bolseiros surgiram, vindo em nossa direção. Bilbo diminuiu o passo, e então de súbito desapareceu. Fiquei tão assustado que não tive capacidade de me esconder de um modo mais usual, mas entrei na cerca-viva e caminhei ao longo do campo, do lado de dentro. Estava espiando a estrada, depois que os Sacola-Bolseiros tinham passado, e olhando direto para Bilbo quando ele reapareceu. Pude ver o reflexo de um objeto de ouro quando ele colocou alguma coisa de volta no bolso da calça. Depois disso, mantive os olhos abertos — continuou Merry — Na verdade, confesso que espionei. Mas deve admitir que a coisa era muito intrigante, e eu era apenas um adolescente. Devo ser o único no Condado, além de você, Frodo, que já leu o livro secreto do velho camarada.
— Você leu o livro! — gritou Frodo — Puxa vida! Então nada pode ser guardado a salvo?
— Não perfeitamente a salvo, eu acho — disse Merry — Mas eu só dei uma olhada rápida, e isso já foi difícil. Ele nunca deixava o livro jogado por aí. Fico imaginando o que foi feito dele. Gostaria de dar mais uma olhada. Você está com ele, Frodo?
— Não, não estava em Bolsão. Bilbo deve tê-lo levado.
— Bem, como ia dizendo — continuou Merry — Guardei para mim o que sabia, até esta Primavera, quando as coisas ficaram sérias. Então formamos nossa conspiração, e como também estávamos levando isso a sério, e falávamos a sério, não fomos escrupulosos demais. Você é um osso duro de roer, e Gandalf é ainda pior. Mas se quiser conhecer nosso investigador-chefe, posso apresentá-lo.
— Onde está ele? — perguntou Frodo olhando ao redor, como se esperasse que uma figura mascarada e sinistra saísse de dentro do armário.
— Um passo à frente, Sam! — disse Merry, e Sam se levantou com o rosto vermelho até as orelhas — Aqui está nosso coletor de informações! E ele coletou muitas, posso lhe garantir, antes de ser finalmente pego. Depois do que, posso dizer, pareceu julgar que estava comprometido com sua palavra de honra, e simplesmente ficou mudo.
— Sam! — gritou Frodo, sentindo que a surpresa não poderia ser maior, e não podendo decidir se estava zangado, aliviado, achando graça ou simplesmente fazendo papel de bobo.
— Sim, senhor! — disse Sam — Peço desculpas, senhor! Mas não quis lhe fazer mal, Sr. Frodo, nem ao Sr. Gandalf, falando nisso. Ele é sensato, veja bem, e quando o senhor disse ir sozinho, ele disse não! Leve alguém em quem possa confiar.
— Mas isso não quer dizer que eu possa confiar em qualquer um — disse Frodo.
Sam lançou-lhe um olhar triste.
— Tudo depende do que você deseja — interrompeu Merry — Pode confiar em nós para ficarmos juntos com você nos bons e maus momentos, até o mais amargo fim. E pode confiar também que guardaremos qualquer um de seus segredos, melhor ainda do que você os guarda para si. Mas não pode confiar que deixaremos que enfrente problemas sozinho, e que vá embora sem dizer uma palavra. Somos seus amigos, Frodo. De qualquer modo, é isto: sabemos a maior parte do que Gandalf lhe disse. Sabemos muito sobre o Anel. Estamos com um medo terrível, mas iremos ao seu lado, seguiremos você como cães.
— E, afinal de contas, senhor — acrescentou Sam — O senhor deveria seguir o conselho dos elfos. Gildor lhe disse que deveria levar pessoas que estivessem dispostas. E nós estamos, isso não se pode negar.
— Eu não nego — disse Frodo olhando para Sam, que agora sorria — Não nego, mas nunca mais vou acreditar que está dormindo, quer você ronque ou não. Vou dar-lhe um chute forte para ter certeza. Bando de patifes enganadores! — disse ele, virando-se para os outros — Mas ainda bem que tenho vocês! — disse rindo, levantando-se e acenando os braços — Desisto. Vou seguir o conselho de Gildor. Se o perigo não fosse tão grande dançaria de alegria. Mas mesmo assim, não consigo evitar a felicidade que sinto, felicidade que há muito não sentia. Temia muito por esta noite.
— Bom! Está combinado! Três brindes para o Capitão Frodo e Companhia! — gritaram eles, dançando em volta de Frodo.
Merry e Pippin começaram uma canção, que aparentemente tinham aprontado para a ocasião. Foi feita seguindo o modelo da canção dos anões que lançou Bilbo em sua aventura muito tempo atrás, e ia na mesma melodia:

 

Adeus vamos dar à casa e ao lar!

Pode chover e pode ventar,

Vamos embora antes da aurora,

Mata e montanha atrás vão ficar.

A Valfenda vamos onde elfos achamos

Em descampados e por entre ramos,

Por trechos desertos seguimos espertos,

O que vem depois nós não divisamos.

Na frente o inimigo, atrás o perigo.

Dormindo ao relento, o céu por abrigo.

Até que por sina a dureza termina,

Finda a jornada, cumprido o castigo.

Vamos embora! Vamos embora!

Vamos partir antes da aurora!

 

— Muito bem! — disse Frodo — Mas neste caso há muito o que fazer antes de irmos dormir, sob um teto, pelo menos por hoje.
— Oh! Aquilo era poesia! — disse Pippin — Você realmente quer partir antes do dia raiar?
— Não sei — respondeu Frodo — Tenho medo daqueles Cavaleiros Negros, e tenho certeza de que não é seguro ficar num só lugar por muito tempo, principalmente num lugar para onde se sabe que eu estava indo. Também, Gildor me aconselhou a não esperar. Mas eu gostaria muito de ver Gandalf. Pude perceber que até Gildor ficou perturbado quando soube que Gandalf não tinha aparecido. Depende de duas coisas. Em quanto tempo os Cavaleiros conseguiriam chegar a Buqueburgo? E em quanto tempo poderíamos partir? Temos muitos preparativos a fazer.
— A resposta para a segunda pergunta — disse Merry — É que poderíamos partir dentro de uma hora. Já preparei praticamente tudo. Há seis pôneis num estábulo do outro lado do campo; os mantimentos e equipamentos estão todos embalados, com a exceção de roupas extras e da comida perecível.
— Parece que a conspiração foi muito eficiente — disse Frodo — Mas e os Cavaleiros Negros? Seria seguro esperar Gandalf mais um dia?
— Tudo isso depende do que você acha que os Cavaleiros fariam, se o encontrassem aqui — respondeu Merry — Eles poderiam já ter chegado até aqui, é claro, se não tivessem parado no Portão Norte, onde a Cerca desce até a margem do rio, exatamente deste lado da Ponte. Os guardas do portão não os deixariam entrar à noite, embora eles pudessem forçar a entrada. Mesmo durante o dia, tentariam mantê-los fora daqui, eu acho, pelo menos até conseguirem enviar uma mensagem para o Senhor da Sede, pois não iriam gostar da aparência dos Cavaleiros, e certamente teriam medo deles. Mas, é claro, a Terra dos Buques não pode resistir a um ataque determinado por longo tempo. E é possível que, de manhã, até mesmo a um Cavaleiro Negro que subisse e perguntasse pelo Sr. Bolseiro fosse permitido entrar. Muita gente sabe que você está vindo morar em Cricôncavo.
Frodo ficou sentado por um tempo, pensando.
— Já me decidi — disse ele finalmente — Parto amanhã, assim que o dia nascer. Mas não vou pela estrada: seria ainda menos seguro do que esperar aqui. Se for através do Portão Norte, minha partida da Terra dos Buques será imediatamente do conhecimento de todos, em vez de ser um segredo por vários dias no mínimo, como deve acontecer. Além do mais, a Ponte e a Estrada Leste perto da fronteira serão certamente vigiadas, quer algum Cavaleiro entre na Terra dos Buques quer não. Não sabemos quantos são, mas há pelo menos dois, e possivelmente mais. A única coisa a fazer é partir numa direção totalmente inesperada.
— Mas isso só pode significar que o caminho é o da Floresta Velha! — disse Fredegar horrorizado — Não pode estar pensando em fazer isso. A Floresta é quase tão perigosa quanto os Cavaleiros Negros.
— Nem tanto — disse Merry — Parece uma atitude desesperada, mas acho que Frodo tem razão. É o único jeito de partirmos sem sermos seguidos imediatamente. Com sorte, poderemos conseguir uma boa vantagem.
— Mas vocês não vão ter sorte na Floresta Velha — objetou Fredegar — Ninguém tem sorte ali. Vão se perder. As pessoas não entram lá.
— Entram sim! — disse Merry — Os Brandebuques entram, ocasionalmente, quando lhes dá na telha. Temos uma entrada particular. Frodo entrou uma vez, há muito tempo. Já estive lá várias vezes: geralmente de dia, é claro, quando as árvores estão com sono e bastante tranquilas.
— Bem, faça como achar melhor! — disse Fredegar — Tenho mais medo da Floresta Velha do que de qualquer outra coisa que conheço: as histórias que contam são um pesadelo, mas meu voto conta pouco, pois não vou nessa viagem. Mesmo assim, fico feliz em pensar que alguém vai ficar para trás, alguém que possa contar a Gandalf o que fizeram, quando ele aparecer, como tenho certeza de que fará logo.
Apesar de gostar muito de Frodo, Fatty Bolger não tinha vontade de deixar o Condado, nem de ver o que havia fora de lá. Sua família era da Quarta Leste, do Vau Budge, nos Campos da Ponte, na verdade. Mas nunca atravessara a Ponte do Brandevin. A tarefa que lhe cabia, segundo o plano original dos conspiradores, era ficar e dar conta dos curiosos, mantendo a farsa de que o Sr. Bolseiro ainda morava em Cricôncavo o máximo possível. Tinha até trazido algumas roupas velhas de Frodo para tornar mais real a encenação. Eles nem imaginavam o perigo que essa encenação acabaria representando.
— Excelente! — disse Frodo, quando entendeu o plano — De outro modo, não poderíamos deixar qualquer mensagem para Gandalf. É claro que não sei se esses cavaleiros sabem ler ou não, mas não ousaria deixar uma mensagem escrita, pois poderiam entrar e revistar a casa. Mas se Fatty está disposto a ficar na retaguarda, posso ter certeza de que Gandalf saberá por onde fomos, e isso decide o assunto. A primeira coisa a fazer amanhã é entrar na Floresta Velha.
— Bem, então é isso — disse Pippin — Somando tudo, prefiro nossa tarefa à de Fatty, esperar aqui até que os Cavaleiros Negros cheguem.
— Espere até ter avançado bastante na floresta — disse Fredegar — Vão desejar estar de volta aqui comigo antes de 24 horas.
— Não adianta ficar discutindo isso — disse Merry — Ainda temos de arrumar umas coisas e terminar de empacotar tudo antes de dormir. Chamo vocês antes do dia nascer.
Quando finalmente se deitou, Frodo não conseguiu dormir por um tempo. As pernas lhe doíam. Sentia-se feliz em pensar que iriam cavalgando no dia seguinte.
Finalmente caiu num sonho vago, no qual parecia estar olhando por uma janela alta sobre um mar escuro de árvores emaranhadas. Lá embaixo, entre as raízes, ouvia-se o som de criaturas se arrastando e farejando. Sabia que mais cedo ou mais tarde sentiriam seu cheiro. Depois escutou um ruído distante. A princípio, pensou ser um vento forte vindo sobre as folhas da floresta. Então percebeu que não era o vento, mas o som do Mar ao longe, um som que nunca ouvira quando acordado, embora com frequência lhe perturbasse os sonhos. De repente descobriu que estava fora de casa, ao relento. Não havia árvore alguma no fim das contas. Estava numa charneca escura, sentindo no ar um estranho cheiro salgado. Olhando para cima, viu uma torre branca e alta, que se erguia solitária sobre um penhasco. Sentiu um enorme desejo de subir na torre e ver o Mar.
Começou a subir com dificuldade: mas de repente um raio cruzou o céu, e houve um barulho de trovão.




 continua...






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Primeira Lei de Murphy: "Se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará".
Comentário de Churchill sobre o homem: "O homem pode ocasionalmente tropeçar na verdade, mas na maioria das vezes ele se levanta e continua indo na mesma direção".