segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 21





— CAPÍTULO VINTE E UM —
O CONTO DOS TRÊS IRMÃOS



HARRY OLHOU PARA RONY E HERMIONE. Os dois tampouco pareciam ter entendido o que Xenófilo dissera.
— As Relíquias da Morte?
— Isso mesmo — respondeu o bruxo — Nunca ouviram falar? Não é surpresa. Pouquíssimos bruxos acreditam nelas. Veja aquele rapaz cabeçudo no casamento do seu irmão — disse ele, indicando Rony — Que me atacou por usar o símbolo de um conhecido bruxo das Trevas! Quanta ignorância! Não há nada ligado às Trevas nas Relíquias, pelo menos não em um sentido rudimentar. A pessoa usa o símbolo para se dar a conhecer a outros crentes, na esperança de que possam ajudá-lo na busca.
Ele pôs vários torrões de açúcar na infusão de raiz-de-cuia e tomou um gole.
— Desculpe — disse Harry — Continuo sem entender.
Por educação, tomou um golinho de sua xícara e quase engasgou: a bebida era nojenta, como se alguém tivesse liquefeito feijõezinhos de todos os sabores com sabor de bicho-papão.
— Bem, como veem, os crentes procuram as Relíquias da Morte — explicou Xenófilo, estalando os lábios, visivelmente aprovando a infusão de raiz-de-cuia.
— Mas que são as Relíquias da Morte? — perguntou Hermione.
Xenófilo pôs de lado a xícara vazia.
— Suponho que estejam familiarizados com “O Conto dos Três Irmãos”?
Harry respondeu que não, mas tanto Rony quanto Hermione responderam afirmativamente.
Xenófilo assentiu, sério.
— Ora, muito bem, Sr. Potter, tudo começa com “O Conto dos Três Irmãos”... tenho um exemplar aqui em algum lugar... — ele correu os olhos pela sala, procurando-o nas pilhas de pergaminhos e livros, mas Hermione interrompeu-o:
— Tenho o conto, Sr. Lovegood, trouxe-o comigo.
E ela tirou Os Contos de Beedle, o Bardo da bolsinha de contas.
— O original? — perguntou Xenófilo vivamente, e, quando a garota confirmou, ele disse — Então por que não o lê em voz alta? É o melhor meio de assegurar que todos entendemos.
— Ah... está bem — disse Hermione, nervosa. Abriu o livro e Harry viu que o símbolo que estavam pesquisando encimava a página, ela pigarreou e começou a ler:

“Era uma vez três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer...”

— À meia-noite foi como nossa mãe contou — disse Rony, que esticara os braços para trás da cabeça, para ouvir.
Harry lançou-lhe um olhar aborrecido.
— Desculpe, acho que dá mais medo se for meia-noite! — Rony replicou.
— É, estamos realmente precisando de um pouco mais de medo em nossas vidas — disse Harry, sem conseguir se conter.
Xenófilo não parecia estar prestando muita atenção e olhava o céu pela janela.
— Continue, Hermione.

“Depois de algum tempo, os irmãos chegaram a um rio fundo demais para vadear e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos, porém, eram versados em magia, então simplesmente agitaram as mãos e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Já estavam na metade da travessia quando viram o caminho bloqueado por um vulto encapuzado.
E a Morte falou...”

— Desculpe — interrompeu-a Harry — Mas “a Morte falou”?
— É um conto de fadas, Harry!
— Certo, desculpe. Continue.

“E a Morte falou. Estava zangada por terem lhe roubado três vítimas, porque o normal era os viajantes se afogarem no rio. Mas a Morte foi astuta. Fingiu cumprimentar os três irmãos por sua magia, e disse que cada um ganhara um prêmio por ter sido inteligente o bastante para lhe escapar.
Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu a varinha mais poderosa que existisse: uma varinha que sempre vencesse os duelos para seu dono, uma varinha digna de um bruxo que derrotara a Morte! Ela atravessou a ponte e se dirigiu a um vetusto sabugueiro na margem do rio, fabricou uma varinha de um galho da árvore e entregou-a ao irmão mais velho.
Então, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos.
Então, a Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade”.

— A Morte tem uma Capa da Invisibilidade? — Harry tornou a interrompê-la.
— Para poder se aproximar sorrateiramente das pessoas — disse Rony — Às vezes ela se cansa de atacá-las agitando os braços e gritando... desculpe, Hermione.

“Então, a Morte se afastou para um lado e deixou os três irmãos continuarem viagem e foi o que eles fizeram, comentando, assombrados, a aventura que tinham vivido e admirando os presentes da Morte. No devido tempo, os irmãos se separaram, cada um tomou um destino diferente.
O primeiro irmão viajou uma semana ou mais e, ao chegar a uma aldeia distante, procurou um colega bruxo com quem tivera uma briga. Armado com a varinha de sabugueiro, a Varinha das Varinhas, ele não poderia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Deixando o inimigo morto no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem, onde se gabou, em altas vozes, da poderosa varinha que arrebatara da própria Morte, e de que a arma o tornava invencível. Na mesma noite, outro bruxo aproximou-se sorrateiramente do irmão mais velho enquanto dormia em sua cama, embriagado pelo vinho. O ladrão levou a varinha e, para se garantir, cortou a garganta do irmão mais velho.
Assim, a Morte levou o primeiro irmão.
Entrementes, o segundo irmão viajou para a própria casa, onde vivia sozinho. Ali, tomou a pedra que tinha o poder de ressuscitar os mortos e virou-a três vezes na mão. Para sua surpresa e alegria, a figura de uma moça que tivera esperança de desposar antes de sua morte precoce surgiu instantaneamente diante dele. Contudo, ela estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, seu lugar não era ali, e ela sofria. Diante disso, o segundo irmão, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela.
Então, a Morte levou o segundo irmão.
Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada foi que o irmão mais moço despiu a Capa da Invisibilidade e deu-a de presente ao filho. Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida”.

Hermione fechou o livro. Passou-se um momento até Xenófilo perceber que a garota terminara a leitura, então desviou o olhar da janela e disse:
— Eis a explicação.
— Desculpe? — disse Hermione, parecendo confusa.
— Essas são as Relíquias da Morte — confirmou Xenófilo.
Ele apanhou uma pena na mesa atulhada de objetos, ao lado do seu cotovelo, e puxou um pedaço rasgado de pergaminho entre mais livros.
— A Varinha das Varinhas — disse ele, desenhando uma linha vertical no pergaminho — A Pedra da Ressurreição — e acrescentou um círculo no alto da linha — A Capa da Invisibilidade — terminou, circunscrevendo a linha e o círculo em um triângulo, completando o símbolo que tanto intrigara Hermione — Juntas — disse ele — As Relíquias da Morte.
— Mas não há menção das palavras “Relíquias da Morte” na história — disse Hermione.
— Bem, é claro que não — respondeu Xenófilo, irritantemente presunçoso — Isso é uma história para crianças, contada para divertir e não para instruir. Aqueles de nós versados nessas questões, porém, reconhecem que a história antiga se refere a três objetos, ou Relíquias, que, se unidas, tornarão o seu dono Senhor da Morte.
Fez-se um breve silêncio em que Xenófilo olhou para fora. O sol já ia baixo no céu.
— Logo Luna terá dilátex suficientes — disse ele, baixinho.
— Quando o senhor diz “Senhor da Morte”... — começou Rony.
— Senhor — explicou ele, acenando levemente com a mão — Conquistador. Vencedor. O termo que você preferir.
— Mas então... o senhor quer dizer... — tornou Hermione, lentamente, e Harry percebeu que estava tentando eliminar qualquer vestígio de ceticismo de sua voz — Que o senhor acredita que esses objetos, essas Relíquias, realmente existem?
Xenófilo ergueu as sobrancelhas.
— Claro que sim.
— Mas — replicou Hermione, e Harry pôde ouvir a sua prudência começar a ruir — Sr. Lovegood, como é possível o senhor acreditar...?
— Luna me contou tudo sobre você, minha jovem — disse Xenófilo — Você é, pelo que entendi, inteligente, mas penosamente limitada. A mente estreita. Fechada.
— Talvez você devesse experimentar o chapéu, Hermione — sugeriu Rony, indicando com a cabeça o toucado ridículo. Sua voz tremia com o esforço para não rir.
— Sr. Lovegood — recomeçou Hermione — Todos sabemos que Capas da Invisibilidade existem. São raras, mas existem. Mas...
— Ah, mas a terceira Relíquia é a verdadeira Capa da Invisibilidade, Srta. Granger! Estou querendo dizer que não é uma capa de viagem impregnada com um Feitiço da Desilusão, ou dotada com uma Azaração de Ofuscamento, ou, ainda, tecida com pelo de seminviso, que, de início, ocultarão a pessoa, mas, com o tempo, se dissiparão até a capa se tornar opaca. Estamos falando de uma capa que real e verdadeiramente torna o seu usuário invisível, e dura para todo o sempre, ocultando-o de forma constante e impenetrável, seja quais forem os feitiços que se lancem sobre ela. Quantas capas assim já viu em sua vida, Srta. Granger?
Hermione abriu a boca para responder e tornou a fechá-la, parecendo mais confusa que nunca. Ela, Harry e Rony se entreolharam, e Harry percebeu que estavam todos pensando a mesma coisa. Acontece que uma capa exatamente como a que Xenófilo acabara de descrever estava com eles ali na sala, naquele exato momento.
— Precisamente — concluiu Xenófilo, como se os tivesse vencido em uma discussão racional — Nenhum de vocês jamais viu coisa igual. Seu dono seria desmesuradamente rico, não é mesmo?
Ele tornou a olhar para a janela. O céu agora se tingia com levíssimos tons de rosa.
— Certo — disse Hermione desconcertada — Digamos que a capa existisse... e a pedra, Sr. Lovegood? Essa que o senhor chama de Pedra da Ressurreição?
— Que tem ela?
— Bem, como pode ser real?
— Prove que não é.
Hermione mostrou-se indignada.
— Mas isso... me desculpe, mas é completamente ridículo! Como é possível eu provar que não existe? O senhor espera que eu recolha... recolha todas as pedras do mundo e faça um teste com elas? Quero dizer, a pessoa poderia afirmar que qualquer coisa é real se a única base para se crer nela fosse ninguém ter provado a sua inexistência!
— Sim, poderia — disse Xenófilo — Fico satisfeito de ver que a sua mente está um pouquinho mais receptiva.
— Então, a Varinha das Varinhas — perguntou Harry depressa, antes que Hermione pudesse objetar — O senhor acha que também existe?
— Ah, bem, neste caso há inumeráveis vestígios. A Varinha das Varinhas é a Relíquia mais facilmente encontrável, pelo modo com que passa de mão em mão.
— E qual é? — perguntou Harry.
— O dono da varinha deve capturá-la do dono anterior, se quiser ser o seu verdadeiro senhor. Certamente, você já ouviu falar de como a varinha passou para Egbert, o Egrégio, depois que matou Emeric, o Mal, não? Como Godelot morreu em sua própria adega de vinhos depois que o filho, Hereward, lhe tomou a varinha? Do terrível Loxias, que se apossou da varinha de Barnabás Deverill, a quem matou? O rastro sangrento da Varinha das Varinhas mancha as páginas da História da Magia.
Harry olhou para Hermione. Ela franzia a testa para Xenófilo, mas não o contradisse.
— Então, onde o senhor acha que essa varinha está agora? — perguntou Rony.
— Ai de mim, quem sabe? — respondeu Xenófilo, espiando pela janela — Quem sabe onde se esconde a Varinha das Varinhas? O rastro se esfria com Arco e Lívio. Quem sabe dizer qual dos dois realmente derrotou Loxias e qual levou a varinha? E quem sabe dizer quem pode tê-los derrotado? A história infelizmente não nos diz.
Houve uma pausa.
Finalmente, Hermione perguntou muito formalmente:
— Sr. Lovegood, a família Peverell tem alguma ligação com as Relíquias da Morte?
Xenófilo pareceu surpreso, e alguma coisa se agitou na memória de Harry, mas ele não conseguiu localizá-la. Peverell... ouvira aquele nome antes...
— Mas você esteve me iludindo, minha jovem! — exclamou Xenófilo, agora se empertigando na cadeira e arregalando os olhos para Hermione — Pensei que você fosse uma novata na busca das Relíquias! Muitos de nós acreditam que os Peverell têm tudo, tudo a ver com as Relíquias!
— Quem são os Peverell? — perguntou Rony.
— Esse era o nome no túmulo com a marca, em Godric’s Hollow — respondeu Hermione, ainda observando Xenófilo — Ignoto Peverell.
— Exatamente! — exclamou Xenófilo erguendo pedantemente o dedo indicador — O símbolo das Relíquias da Morte no túmulo de Ignoto é uma prova conclusiva.
— De quê? — perguntou Rony.
— Ora, de que os três irmãos da história eram, na realidade, os três irmãos Peverell, Antíoco, Cadmo e Ignoto! De que eles foram os primeiros donos das Relíquias!
Com outra espiada para a janela, ele se levantou, apanhou a bandeja e se dirigiu à escada em caracol.
— Vocês ficarão para jantar? — perguntou, ao desaparecer mais uma vez no andar de baixo — Todo o mundo sempre pede a nossa receita de sopa de dilátex de água doce.
— Provavelmente para levar à enfermaria de Venenos no St. Mungus — disse Rony, baixinho.
Harry esperou até ouvirem Xenófilo se movimentando na cozinha embaixo antes de falar.
— Que acha? — perguntou a Hermione.
— Ah, Harry — disse, preocupada — Isso é um monte de besteiras. Não pode ser realmente o significado do símbolo. Deve ser a versão excêntrica dele. Que perda de tempo.
— Suponho que esse seja o homem que descobriu os Bufadores de Chifre Enrugado — comentou Rony.
— Você também não acredita nele? — perguntou Harry ao amigo.
— Bah, essa história é uma dessas coisas que se conta às crianças para ensinar lições de vida, não é? Não saia procurando encrenca, não compre brigas, não mexa com coisas que é melhor deixar em paz! Mantenha a cabeça abaixada, cuide de sua vida e você viverá bem. Pensando bem — acrescentou Rony — Talvez essa história seja para explicar por que varinhas de sabugueiro dão azar.
— Do que você está falando?
— É uma dessas superstições, não? “Bruxa nascida em Maio com trouxa irá casar”. “Feitiço ao anoitecer desfaz ao amanhecer”. “Varinha de sabugueiro, azar o ano inteiro”. Você já deve ter ouvido. Minha mãe sabe uma porção.
— Harry e eu fomos criados por trouxas — lembrou-lhe Hermione — Aprendemos outras superstições — ela deu um profundo suspiro ao mesmo tempo em que um aroma penetrante subia da cozinha. A única coisa boa em sua exasperação com Xenófilo foi que a fizera esquecer que estava aborrecida com Rony — Acho que você tem razão — disse-lhe — É só um conto moral, é óbvio qual é o melhor presente, qual a pessoa escolheria...
Os três falaram ao mesmo tempo; Hermione disse “a capa”, Rony, “a varinha”, e Harry, “a pedra”. Eles se entreolharam com um ar de surpresa e divertimento.
— Eu sabia que você ia dizer capa — disse Rony a Hermione — Mas você não precisaria ser invisível, se tivesse a varinha. Uma varinha invencível, ah, Hermione, qual é!
— Já temos uma Capa da Invisibilidade — disse Harry.
— E tem nos ajudado um bocado, caso você não tenha reparado! — protestou Hermione. — Enquanto que a varinha só serviria para atrair encrencas...
—... só se você ficasse anunciando — argumentou Rony — Só se você fosse retardado e saísse dançando por aí, agitando a varinha no alto e cantando: “Tenho uma varinha invencível, venha enfrentá-la se acha que é fera”. Desde que o cara ficasse de boca fechada...
— Sei, mas e o cara conseguiria ficar de boca fechada? — disse Hermione, com o ar cético — Sabem, a única coisa verdadeira que ele nos disse foi que há centenas de anos contam-se histórias de varinhas extraordinariamente poderosas.
— Contam-se? — perguntou Harry.
Hermione demonstrou irritação: a expressão era tão carinhosamente conhecida de Harry e Rony que eles riram um para o outro.
— A Varinha da Morte e a Varinha do Destino surgem sob diferentes nomes através dos séculos, em geral, nas mãos de algum bruxo das Trevas que está se gabando de possuí-las. O Prof. Binns mencionou algumas, mas... ah, é tudo besteira. As varinhas são tão poderosas quanto o bruxo que as usa. Alguns só querem se gabar que a deles é maior e melhor que a dos outros.
— Mas como é que você sabe — indagou Harry — Que essas varinhas, a da Morte e a do Destino, não são a mesma que reaparece através dos séculos com nomes diferentes?
— E se todas forem realmente a Varinha das Varinhas fabricada pela Morte? — perguntou Rony.
Harry riu: a ideia estranha que acabara de lhe ocorrer era, afinal, ridícula. Sua varinha, lembrou-se, tinha sido de azevinho e não de sabugueiro, e fabricada por Olivaras, apesar do que fizera naquela noite em que Voldemort o perseguira pelo céu. E se fosse invencível, como poderia ter se partido?
— Então, por que você preferiu a pedra? — perguntou-lhe Rony.
— Bem, se fosse possível trazer as pessoas de volta, poderíamos ter Sirius... Olho-Tonto... Dumbledore... meus pais...
Nem Rony nem Hermione sorriram.
— Mas, segundo Beedle, o Bardo, eles não iriam querer voltar, não é? — continuou Harry, pensando no conto que tinham acabado de ouvir — Suponho que não tenha havido muitas histórias sobre uma pedra que é capaz de ressuscitar os mortos, houve? — perguntou ele a Hermione.
— Não — respondeu ela, triste — Acho que ninguém, exceto o Sr. Lovegood, se iludiria achando isso possível. Beedle, provavelmente, tirou a ideia da Pedra Filosofal, sabe, em vez de uma pedra que o torna imortal, uma pedra que reverte a morte.
O aroma da cozinha se intensificava: lembrava cuecas queimadas. Harry se perguntou se seria possível comer o suficiente da sopa que Xenófilo estava preparando para evitar magoá-lo.
— Mas e a capa? — perguntou Rony, devagar — Vocês não percebem que ele tem razão? Me acostumei tanto a usar a capa do Harry e a achá-la útil que nunca parei para pensar. Nunca ouvi falar em outra igual a do Harry. É infalível. Nunca nos detectaram embaixo dela...
— Claro que não: somos invisíveis embaixo dela, Rony!
— Mas todo o resto que ele disse sobre outras capas, e elas não custam exatamente dez por um nuque, você sabe que é verdade! Nunca me ocorreu antes, mas já ouvi falar de capas cujos feitiços desgastam com o tempo, ou são rompidas por feitiços que deixam buracos. A de Harry pertenceu ao pai dele, portanto, não é exatamente nova, não é, mas está... perfeita!
— Sei, tudo bem, mas, Rony, a pedra...
Enquanto discutiam aos cochichos, Harry andou pela sala prestando apenas meia atenção à conversa. Ao chegar à escada circular, ergueu os olhos distraidamente para o andar acima e se perturbou. O seu próprio rosto se refletia no teto do aposento.
Passado um momento de perplexidade, ele percebeu que não era um espelho, mas uma pintura. Curioso, começou a subir a escada.
— Harry, que é que está fazendo? Acho que você não devia ficar olhando a casa quando ele não está presente!
Harry, porém, já alcançara o andar de cima.
Luna decorara o teto do quarto dela com cinco rostos belamente pintados: Harry, Rony, Hermione, Gina e Neville. Eles não se moviam como os quadros de Hogwarts, mas, ainda assim, possuíam certa magia: Harry achou que respiravam. O que pareciam ser apenas finas correntes de ouro passadas em volta das imagens, entrecruzando-as, após um exame mais atento, Harry percebeu que formavam uma palavra, mil vezes repetida em tinta dourada: amigos... amigos... amigos...
Harry sentiu uma grande onda de afeição por Luna. Correu os olhos pelo quarto. Havia, ao lado da cama, uma grande foto de Luna criança, com uma mulher muito parecida com ela. Estavam abraçadas. A garota, muito mais bem cuidada nessa foto do que Harry jamais a vira na vida. A foto estava empoeirada. Ele achou isso estranho. Olhou melhor o quarto.
Havia alguma coisa esquisita. O tapete azul-claro também estava coberto de poeira. Não havia roupas no guarda-roupa, cujas portas estavam entreabertas. A cama dava a impressão de frieza e hostilidade, como se ninguém dormisse nela havia semanas. Uma única teia de aranha se estendia sobre a janela mais próxima, cortando o céu tinto de sangue.
— Que aconteceu? — perguntou Hermione, quando Harry desceu.
Mas, antes que ele pudesse responder, Xenófilo, vindo da cozinha, chegou ao último degrau, agora trazendo uma bandeja carregada de tigelas.
— Sr. Lovegood — perguntou Harry — Onde está Luna?
— Desculpe?
— Onde está Luna?
Xenófilo parou no patamar.
—Já... já lhe disse. Foi à Ponte de Baixo, pescar dilátex.
— Então, por que preparou a bandeja apenas para quatro?
Xenófilo tentou falar, mas não emitiu som algum. O único ruído era o que vinha da máquina impressora e uma leve vibração da bandeja quando as mãos de Xenófilo tremeram.
— Acho que Luna não está em casa há semanas. As roupas dela não estão aqui, a cama não tem sido usada. Onde está? E por que o senhor fica todo o tempo olhando para a janela?
Xenófilo deixou cair a bandeja: as tigelas balançaram e quebraram. Harry, Rony e Hermione sacaram as varinhas: o bruxo congelou, a mão quase alcançando o bolso. Naquele momento, a prensa produziu um enorme estrépito e vários exemplares d’O Pasquim começaram a descer da máquina para o chão por baixo da toalha, a prensa finalmente silenciou. Hermione se abaixou e apanhou uma revista, a varinha ainda apontando para o Sr. Lovegood.
— Harry, veja isso.
Ele se aproximou o mais rápido que pôde desviando dos numerosos objetos. A capa d’O Pasquim tinha a sua foto, cortada pelas palavras Indesejável Número Um e, na legenda, o prêmio por sua captura.
— O Pasquim vai mudar de diretriz, então? — perguntou Harry, com frieza, seu cérebro funcionando agilmente — Era isso que o senhor estava fazendo quando foi ao jardim, Sr. Lovegood? Enviando uma coruja ao Ministério?
Xenófilo umedeceu os lábios.
— Eles levaram a minha Luna — sussurrou — Por causa do que andei escrevendo. Levaram minha Luna e não sei onde está, o que fizeram com ela. Mas talvez me devolvam minha filha se eu... se eu...
— Entregar Harry Potter? — Hermione terminou a frase por ele.
— Nada feito — disse Rony, taxativo — Saia da frente, estamos indo embora.
Xenófilo ficou lívido, um século mais velho, seus lábios se repuxaram em um pavoroso esgar.
— Estarão aqui a qualquer momento. Preciso salvar Luna. Não posso perder Luna. Vocês não devem ir.
Ele abriu os braços diante da escada, e Harry teve uma súbita visão de sua mãe fazendo o mesmo diante do seu berço.
— Não nos obrigue a feri-lo — disse Harry — Saia do caminho, Sr. Lovegood.
— HARRY! — gritou Hermione.
Vultos montados em vassouras passaram voando pelas janelas. No momento em que a atenção dos três se desviou, Xenófilo sacou a varinha. Harry percebeu o erro ainda em tempo: atirou-se de lado, empurrando Rony e Hermione para longe quando o Feitiço Estuporante voou pela sala e atingiu o chifre de erumpente.
Houve uma explosão descomunal. O som produzido pareceu destruir a sala: pedaços de madeira e papel e entulho voaram em todas as direções, erguendo uma nuvem impenetrável de densa poeira branca. Harry foi arremessado no ar e, em seguida, se estatelou no chão, cego pelos destroços que choviam sobre ele, os braços protegendo a cabeça. Ele ouviu Hermione gritar, o berro de Rony e uma série de nauseantes baques metálicos, que indicavam que a explosão arrebatara Xenófilo do chão e o atirara de costas escada abaixo.
Meio soterrado pelo entulho, Harry tentou se levantar: mal conseguia respirar ou enxergar por causa da poeira. Metade do teto cedera e uma parte da cama de Luna pendia pelo rombo.
O busto de Rowena Ravenclaw jazia ao seu lado com metade do rosto destruído, fragmentos de pergaminho flutuavam no ar e a maior parte da prensa tombara de lado, bloqueando a escada para a cozinha. Então, outra forma branca se aproximou e Hermione, coberta de poeira como uma segunda estátua, levou o dedo aos lábios.
A porta no térreo foi posta abaixo.
— Não lhe disse que não precisávamos ter pressa, Travers? — disse uma voz áspera — Não lhe disse que esse matusquela estava delirando como sempre?
Houve um estampido e o grito de dor de Xenófilo.
— Não... não... lá em cima... Potter.
— Eu lhe disse na semana passada, Lovegood, que não viríamos a não ser que você tivesse alguma informação concreta! Lembra-se da semana passada? Quando você quis trocar a sua filha por aquela bosta daquele toucado idiota? E na semana anterior (outro estampido, mais um guincho), quando você achou que nós a devolveríamos se você oferecesse prova de que existem Bufadores (estampido) de Chifre (estampido) Enrugado?
— Não... não... eu suplico! — soluçou Xenófilo — É realmente Potter! Verdade!
— E agora vemos que só nos chamou aqui para tentar nos explodir! — rugiu o Comensal da Morte, e ouviu-se uma rajada de estampidos entremeados por guinchos agônicos de Xenófilo.
— A casa parece que vai desabar, Selwyn — disse outra voz calma, que ecoou pela escada desconjuntada — A escada está totalmente bloqueada. Posso tentar desobstruí-la? Talvez a casa desabe de vez.
— Seu mentiroso nojento — gritou o bruxo chamado Selwyn — Você nunca viu Potter na vida, viu? Pensou em nos atrair aqui para nos matar, foi? E acha que vamos lhe devolver sua filha assim?
—Juro... juro... Potter está lá em cima!
— Homenum revelio! — disse a voz ao pé da escada.
Harry ouviu Hermione ofegar e teve a estranha sensação de que alguma coisa estava mergulhando sobre ele, absorvendo seu corpo na própria sombra.
— Tem alguém lá em cima, sim, Selwyn — disse o segundo homem, bruscamente.
— É Potter, estou lhes dizendo, é Potter! — soluçou Xenófilo — Por favor... por favor... me tragam Luna, me devolvam Luna...
— Você terá a sua filhinha, Lovegood — disse Selwyn — Se subir essa escada e me trouxer Harry Potter. Mas, se isto for uma conspiração, se for um truque, se tiver um cúmplice esperando lá em cima para nos atacar, tentaremos guardar um pedacinho de sua filha para você enterrar.
Xenófilo soltou um grito de medo e desespero. Ouviram-se passos apressados e coisas sendo arrastadas: Xenófilo estava tentando passar pelos destroços na escada.
— Vamos — sussurrou Harry — Temos que dar o fora daqui.
Ele começou a se desenterrar acobertado pelo barulho que Xenófilo fazia na escada. Rony era quem estava enterrado mais fundo: Harry e Hermione subiram, o mais silenciosamente que puderam, nos destroços em que ele jazia e tentaram retirar uma pesada cômoda de cima de suas pernas. Quando as batidas e arrastos de Xenófilo foram se tornando mais próximos, Hermione conseguiu soltar Rony com o auxílio de um Feitiço de Levitação.
— Tudo bem — sussurrou Hermione, quando a prensa quebrada que bloqueava o alto da escada começou a estremecer, Xenófilo estava apenas a alguns passos. A garota continuava branca de poeira — Você confia em mim, Harry?
Harry assentiu.
— Ok, então — murmurou Hermione — Me dê a Capa da Invisibilidade. Rony, você vai vesti-la.
— Eu? Mas Harry...
— Por favor, Rony! Harry, aperte a minha mão, Rony, segure o meu ombro.
Harry estendeu a mão esquerda. Rony desapareceu sob a capa. A prensa que bloqueava a escada sacudia: Xenófilo tentava removê-la usando o Feitiço de Levitação. Harry não sabia o que Hermione estava aguardando.
— Segurem firme — sussurrou ela — Segurem firme... a qualquer segundo agora...
O rosto de Xenófilo, branco como um papel, apareceu por cima da superfície do aparador.
— Obliviate! — ordenou Hermione, apontando a varinha, primeiro para o rosto dele e, em seguida, para o andar de baixo — Deprimo!
Ela acabara de explodir uma abertura no soalho da sala de visitas. Eles caíram como pedras, Harry ainda segurando a mão da amiga, como se disso dependesse sua vida, ouviram um grito embaixo e o garoto vislumbrou dois homens tentando escapar da vasta quantidade de entulho e móveis quebrados, que choveram sobre eles do teto despedaçado. Hermione rodopiou no ar e o ribombar da casa desabando ecoou em seus ouvidos enquanto a amiga arrastava-o mais uma vez para a escuridão.







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sábado, 3 de novembro de 2012

[SESSÃO PREMIER] FormiguinhaZ




DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora na Sessão Premier, o filme:
FormiguinhaZ



FICHA TÉCNICA:
Nome Original: Antz
Gênero: Animação
Ano de Lançamento: 1998
Qualidade: DVDRip
Duração: 1h 19min
Áudio: Português
Legenda: S / L
Tamanho685 mb

SINOPSE: A formiguinha Z é apenas um operário, que sonha roubar o coração da princesa Bala. Para isso, convence seu amigo soldado a trocar de lugar com ele, o que faz com que tenha que enfrentar o impiedoso General Mandíbula, que planeja uma grande ataque contra o formigueiro.



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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

AVISO T.WORLD



Em respeito ao caráter religioso do feriado de amanhã (principalmente para os cristãos), NÃO HAVERÁ postagens no dia 02 de Novembro de 2012. Desde já eu agradeço a compreensão.

E não percam, no próximo sábado, dia 03 de Novembro, outro grande sucesso do cinema na nossa Sessão Premier.



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Harry Potter e as Relíquias da Morte - Capítulo 20





— CAPÍTULO VINTE —
XENÓFILO LOVEGOOD



HARRY NÃO ESPERAVA QUE A IRA DE HERMIONE se abrandasse da noite para o dia, portanto não se surpreendeu que ela se comunicasse principalmente por olhares indignados e silêncios contundentes na manhã seguinte. Rony reagiu mantendo um comportamento anormalmente sério na presença dela, como um sinal externo de seu continuado remorso. De fato, quando os três estavam juntos, Harry se sentia como o único não enlutado em um enterro com poucos acompanhantes.
Nos raros momentos que passava sozinho com Harry (apanhando água e procurando cogumelos no mato rasteiro), no entanto, Rony se mostrava descaradamente alegre.
— Alguém nos ajudou — ele não parava de dizer — Alguém mandou aquela corça. Alguém está do nosso lado. Uma Horcrux a menos, colega!
Estimulados pela destruição do medalhão, eles começaram a debater a possível localização das demais Horcruxes, e, embora tivessem discutido o assunto tantas vezes anteriormente, Harry se sentia otimista, certo de que outros avanços se seguiriam ao primeiro. O mau humor de Hermione não conseguia estragar o seu alto astral: a súbita virada era sua sorte, a aparição da misteriosa corça, a recuperação da Espada de Gryffindor e, principalmente, o retorno de Rony faziam Harry tão feliz que era até difícil ficar de cara séria.
No final da tarde, ele e Rony fugiram mais uma vez da presença negativa de Hermione e, a pretexto de procurar amoras silvestres nos espinheiros desfolhados, continuaram a interminável troca de notícias. Harry conseguira finalmente contar ao amigo as várias viagens que ele e Hermione tinham feito até a história completa do que acontecera em Godric’s Hollow. Agora Rony estava pondo Harry ao corrente de tudo que descobrira sobre um mundo bruxo mais amplo nas semanas que estivera fora.
—... e como foi que você descobriu a respeito do Tabu? — perguntou a Harry, depois de explicar as numerosas e desesperadas tentativas de nascidos trouxas para fugir do Ministério.
— O quê?
— Você e Hermione pararam de dizer o nome de Você-Sabe-Quem!
— Ah, sim. Foi um mau hábito que adquirimos — respondeu Harry — Mas não tenho problema em chamá-lo de V..
— NÃO! — berrou Rony, fazendo Harry pular para dentro das amoreiras e Hermione (de nariz enterrado em um livro à entrada da barraca) olhar feio para os dois — Desculpe — disse Rony, puxando Harry para fora dos galhos espinhosos — Mas o nome foi azarado, Harry, é assim que eles rastreiam as pessoas! Usar o nome dele rompe os feitiços de proteção, provoca uma espécie de perturbação mágica... foi como nos encontraram na Tottenham Court!
— Porque usamos o nome dele?
— Exatamente! Você tem que dar a eles o merecido crédito, faz sentido. Somente as pessoas que se opunham seriamente a ele, como Dumbledore, é que se atreviam a usar o nome de Você-Sabe-Quem. Agora que impuseram um Tabu ao nome, qualquer pessoa que o diga é rastreável: um modo rápido e fácil de encontrar membros da Ordem. Quase apanharam o Kingsley...
— Você está brincando!
— Foi, Gui me contou que um grupo de Comensais da Morte o encurralou, mas ele deu combate e escapou. Agora está fugindo como nós — Rony coçou o queixo com a ponta da varinha, pensativo — Você não acha que Kingsley poderia ter mandado aquela corça?
— O Patrono dele é um lince, nós o vimos no casamento, lembra?
— Ah, é...
Os dois foram acompanhando as amoreiras e se distanciando da barraca e de Hermione.
— Harry... você acha que poderia ter sido o Dumbledore?
— Dumbledore o quê?
Rony ficou um pouco sem graça, mas disse em voz baixa:
— Dumbledore... a corça. Quero dizer — Rony observava Harry pelo canto do olho — Foi ele quem teve a espada verdadeira por último, não foi?
Harry não riu de Rony, porque entendeu bem demais o desejo implícito na pergunta. A ideia de que Dumbledore conseguira voltar, que os estava protegendo, seria indizivelmente confortadora.
Harry balançou a cabeça.
— Dumbledore está morto. Vi acontecer, vi o corpo. Ele partiu para sempre. Mas, seja como for, o Patrono dele era uma fênix e não uma corça.
— Mas os Patronos podem mudar, não? — perguntou Rony — O da Tonks mudou, não foi?
— É, mas se Dumbledore estivesse vivo, por que não se mostraria? Por que simplesmente não nos entregaria a espada?
— Aí você me pegou. Pela mesma razão por que não lhe entregou quando estava vivo? A mesma razão por que lhe deixou um velho pomo e à Hermione um livro de histórias para crianças?
— E qual é a razão? — perguntou Harry, se virando para encarar Rony de frente, desesperado por uma resposta.
— Não sei. Às vezes, quando estava meio aborrecido, pensava que ele estava se divertindo ou... ou queria dificultar as coisas. Mas acho que não, não mais. Ele sabia o que estava fazendo quando me deixou o desiluminador, concorda? Ele... bem — as orelhas de Rony ficaram vermelhíssimas, e o garoto fingiu estar absorto em um tufo de capim a seus pés, que cutucou com a ponta do calçado — Ele devia saber que eu abandonaria vocês.
— Não — corrigiu-o Harry — Ele devia saber que você sempre iria querer voltar.
Rony olhou-o agradecido, mas ainda desconcertado. Em parte para mudar de assunto, Harry disse:
— Por falar em Dumbledore, você ouviu falar da biografia dele, que a Skeeter escreveu?
— Ah, claro — respondeu ele, imediatamente — É só o que as pessoas estão comentando. Lógico, se as coisas fossem diferentes, seria um grande furo a amizade de Dumbledore e Grindelwald, mas, no momento, é só uma piada para quem não gostava de Dumbledore e um tapa na cara de todos que achavam que ele era um cara legal. Mas não creio que seja nada de mais. Ele era realmente jovem quando...
— Da nossa idade — interpôs Harry, da mesma forma com que retorquira a Hermione, e alguma coisa em seu rosto pareceu fazer Rony encerrar o assunto.
Havia uma grande aranha parada no meio de uma teia congelada no espinheiro.
Harry fez pontaria com a varinha que Rony lhe dera na noite anterior e que Hermione tinha condescendido em examinar e concluir que era feita de ameixeira-brava.
— Engorgio!
A aranha estremeceu, balançando de leve a teia. Harry tentou novamente. Desta vez, a aranha cresceu mais um pouco.
— Pare com isso — disse Rony, com aspereza — Desculpe ter dito que Dumbledore era jovem, ok?
Harry esquecera o horror de Rony a aranhas.
— Desculpe... Reducio!
A aranha não encolheu. Harry olhou para a varinha de ameixeira-brava. Cada pequeno feitiço que lançara até o momento lhe parecera menos eficaz do que os que produzia com a varinha de fênix. A nova varinha lhe dava a sensação de ser um apêndice estranho, como se tivessem costurado a mão de alguém ao seu braço.
— Você só precisa praticar — disse Hermione, que se aproximara silenciosamente por trás e ficara observando Harry tentar aumentar e reduzir a aranha — É só uma questão de confiança, Harry.
Ele sabia por que a amiga queria que desse certo: ainda se sentia culpada por ter quebrado sua varinha. Ele reprimiu a resposta que lhe subira aos lábios: que ela poderia ficar com a varinha de ameixeira se achava que não fazia diferença, e ele aceitaria a dela em troca. Desejoso de que voltassem a ser amigos, no entanto, ele concordou. Quando Rony ensaiou um sorriso para Hermione, porém, ela se afastou e desapareceu por trás do livro mais uma vez.
Os três voltaram à barraca ao cair da noite, e Harry cumpriu a primeira vigia. Sentado à entrada, experimentou fazer com que a varinha levitasse as pedrinhas aos seus pés: mas sua magia continuava a parecer mais inepta e menos potente do que fora antes. Hermione estava deitada na cama lendo, enquanto Rony, depois de lhe lançar muitos olhares ansiosos, apanhou um pequeno rádio de madeira na mochila e tentou sintonizá-lo.
— Tem um programa — disse a Harry, em voz baixa — Que irradia as notícias como realmente são. Todos os outros estão do lado de Você-Sabe-Quem e seguem a diretriz do Ministério, mas este... espere até ouvir, é o máximo. Só que não pode ir ao ar toda noite, o pessoal tem que mudar constantemente de lugar para não ser pego, e a gente precisa de uma senha para sintonizar... o problema é que perdi o último...
Ele deu leves batidas no rádio com a varinha, murmurando, baixinho, palavras soltas. Deu olhadelas furtivas para Hermione, visivelmente temendo nova explosão de fúria, mas, pela atenção que a garota lhe dava, era como se ele nem estivesse presente. Durante uns dez minutos, mais ou menos, Rony bateu e murmurou, Hermione virava página a página o seu livro, e Harry continuava a praticar com a varinha de ameixeira-brava.
Finalmente Hermione desceu da cama.
Rony parou de batucar na mesma hora.
— Se estiver incomodando você, eu paro! — disse nervoso a Hermione.
Ela nem se dignou a responder, e se dirigiu a Harry.
— Precisamos conversar — falou.
O garoto olhou para o livro que ela ainda segurava: A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore.
— Quê? — exclamou, apreensivo.
Ocorreu-lhe por um instante que havia um capítulo sobre ele, certamente não estava com disposição para ouvir a versão de Rita sobre sua amizade com Dumbledore. A resposta de Hermione foi completamente inesperada.
— Quero visitar Xenófilo Lovegood.
Harry arregalou os olhos.
— Desculpe?
— Xenófilo Lovegood. O pai de Luna. Quero falar com ele!
— Ah... por quê?
Ela inspirou profundamente, como se tomasse coragem e disse:
— Aquela marca, a marca no Beedle, o Bardo. Olhe para isto!
Ela empurrou A Vida e as Mentiras de Alvo Dumbledore sob os olhos relutantes de Harry, e ele viu a foto do original da carta que Dumbledore escrevera a Grindelwald, na caligrafia fina e inclinada do diretor. Harry detestou ver a prova indiscutível de que Dumbledore escrevera aquelas palavras, que não tinham sido invenção de Rita Skeeter.
— A assinatura — disse Hermione — Veja a assinatura, Harry!
Ele obedeceu. Por um momento, não entendeu o que a amiga queria dizer, mas, examinando a foto mais atentamente com auxílio da varinha, viu que Dumbledore substituíra o “A” de Alvo por uma minúscula versão da mesma marca triangular inscrita em Os Contos de Beedle, o Bardo.
— Ah... que é que vocês...? — ensaiou Rony, mas Hermione o fez calar com um olhar, e voltou-se para Harry.
— Não para de aparecer, não é? Sei que Vítor disse que era a marca de Grindelwald, mas, sem a menor dúvida, estava naquele velho túmulo em Godric’s Hollow, e as datas na lápide eram muito anteriores ao nascimento de Grindelwald! E agora isto! Bem, não podemos perguntar a Dumbledore nem a Grindelwald o que significa, nem sei se ele ainda está vivo, mas posso perguntar ao Sr. Lovegood. Ele estava usando o símbolo no casamento. Tenho certeza de que isto é importante, Harry!
Harry não respondeu logo. Olhou para o rosto veemente e ansioso de Hermione e, em seguida, para a escuridão ao redor, refletindo. Depois de uma longa pausa, disse:
— Hermione, não precisamos de outra Godric’s Hollow. Nos convencemos de ir lá e...
— Mas isso não para de aparecer, Harry! Dumbledore me deixou Os Contos de Beedle, o Bardo, como saber se não queria que descobríssemos mais a respeito do símbolo?
— Lá vamos nós outra vez! — Harry se sentiu ligeiramente exasperado — Ficamos todo o tempo tentando nos convencer de que Dumbledore nos deixou sinais e pistas secretos...
— O desiluminador acabou sendo muito útil — falou Rony — Acho que Hermione tem razão, acho que devemos procurar Lovegood.
Harry lançou-lhe um olhar mal-humorado. Percebera com absoluta segurança que o apoio de Rony a Hermione não tinha muito a ver com o significado da runa triangular.
— Não será como Godric’s Hollow — acrescentou Rony — Lovegood está do seu lado, Harry, O Pasquim tem apoiado você desde o começo, vive apregoando que todo mundo tem de ajudá-lo!
— Tenho certeza de que isso é importante! — insistiu Hermione.
— Mas você não acha que se fosse, Dumbledore teria me dito alguma coisa antes de morrer?
— Talvez... talvez seja alguma coisa que você precisa descobrir sozinho — respondeu Hermione, com um leve ar de quem se agarra a uma palha.
— É — concordou Rony, bajulando-a — Isso faz sentido.
— Não, não faz — retorquiu Hermione — Mas continuo achando que devíamos conversar com o Sr. Lovegood. Um símbolo que liga Dumbledore, Grindelwald e Godric’s Hollow? Harry, tenho certeza de que a gente precisa saber o que é!
— Acho que devíamos votar — sugeriu Rony — Os que são a favor de procurar Lovegood...
A mão dele se ergueu antes da de Hermione. Os lábios dela tremeram de forma suspeita quando levantou a mão.
— Perdeu a votação, Harry, lamento — disse Rony, dando-lhe palmadinhas nas costas.
— Ótimo — respondeu Harry, entre irritado e divertido — Mas depois de vermos Lovegood, que tal tentarmos encontrar mais algumas Horcruxes? Afinal, onde moram os Lovegood? Algum de vocês sabe?
— Sei, não é muito longe da minha casa — disse Rony — Não sei o lugar exato, mas minha mãe e meu pai sempre apontam para os morros quando falam neles. Não deve ser difícil descobrir.
Quando Hermione voltou para a cama, Harry baixou a voz:
— Você só concordou para tentar sair da lista negra da Hermione.
— Vale tudo no amor e na guerra — respondeu Rony, animado — E isto é um pouco dos dois. Anime-se, são as férias de Natal, Luna estará em casa!

* * *

Tiveram uma excelente vista da aldeia de Ottery St. Catchpole da encosta exposta ao vento na qual desaparataram na manhã seguinte. Do alto, a aldeia parecia uma coleção de casas de brinquedo, raios de sol se alongavam até a terra nos intervalos das nuvens. Pararam uns minutinhos para olhar A Toca, as mãos sombreando os olhos, mas conseguiram divisar apenas as sebes altas e as árvores do pomar, que protegiam a casinha torta dos olhares dos trouxas.
— É esquisito estar tão perto, mas não fazer uma visita — disse Rony.
— Bem, até parece que você não acabou de vê-los. Passou lá o Natal — comentou Hermione com frieza.
— Não estive n’A Toca! — protestou ele com uma risada de incredulidade — Acham que eu ia voltar lá e contar que abandonei vocês? É, Fred e Jorge teriam ficado muito entusiasmados. E Gina teria sido realmente compreensiva.
— Então onde esteve? — perguntou Hermione, surpresa.
— Na nova casa de Gui e Fleur. Chalé das Conchas. Gui sempre foi correto comigo. Ele... ele não ficou bem impressionado quando soube o que eu fiz, mas não ficou falando. Entendeu que eu estava realmente arrependido. O resto da família não soube que estive lá. Gui disse a mamãe que eles não iam passar o Natal em casa porque queriam passá-lo sozinhos. A primeira festa depois de casados, entende-se. Acho que Fleur não se importou. Vocês sabem como ela detesta Celestina Warbeck.
Rony deu as costas À Toca.
— Vamos tentar ali em cima — disse ele, subindo à frente para o alto da montanha.
Caminharam algumas horas, Harry, por insistência de Hermione, oculto pela Capa da Invisibilidade. O grupo de morrotes parecia desabitado exceto por um pequeno chalé, em que não se viam moradores.
— Acham que é o dos Lovegood e eles foram viajar no Natal? — perguntou Hermione, espiando pela janela de uma cozinha pequena e arrumada com gerânios no parapeito.
Rony bufou.
— Escute, tenho a impressão de que você saberia quem são os donos da casa se espiasse pela janela dos Lovegood. Vamos tentar o outro grupo de morros.
Eles desaparataram, então, para alguns quilômetros mais ao norte.
— Ah-ah! — gritou Rony, quando o vento açoitou cabelos e roupas. Ele apontava para o topo do morro no qual tinham aparatado, onde havia uma casa estranhíssima que se erguia verticalmente contra o céu da tarde, um cilindro negro com uma lua fantasmagórica por trás — Tem que ser a casa da Luna, quem mais moraria em um lugar desse? Parece um roque colossal!
— Não estou ouvindo rock nenhum — comentou Hermione, franzindo a testa, intrigada.
— Estou falando de um roque de xadrez — respondeu Rony — Para você, uma torre.
As pernas de Rony eram as mais compridas, e ele chegou ao topo do morro primeiro. Quando Harry e Hermione o alcançaram, sem fôlego, comprimindo as pontadas nos músculos do abdome, encontraram-no rindo de orelha a orelha.
— É deles — disse Rony — Olhem.
Três letreiros pintados à mão estavam presos a um portão desmantelado.
O primeiro dizia “O Pasquim. Editor: X. Lovegood”, o segundo “Traga o seu próprio visgo”, e o terceiro “Não se aproxime das ameixas dirigíveis”.
O portão rangeu quando o abriram. O caminho em ziguezague que levava à porta da casa tinha um emaranhado de plantas estranhas, inclusive um arbusto coberto com os frutos cor de laranja, semelhantes ao rabanete que, por vezes, Luna usava como brinco.
Harry pensou ter reconhecido um Arapucoso, e passou ao largo do toco seco. Duas velhas macieiras-bravas, vergadas pelo vento, desfolhadas, mas ainda carregadas de frutinhas vermelhas, e densas coroas de visgo com bolinhas brancas montavam guarda dos lados da porta de entrada. Uma coruja com a cabeça ligeiramente achatada, lembrando um gavião, espiou-os de um galho.
— É melhor você tirar a Capa da Invisibilidade, Harry — disse Hermione — É você que o Sr. Lovegood quer ajudar, e não a nós.
Harry aceitou a sugestão e lhe entregou a capa para guardar na bolsinha de contas. Ela, então, bateu três vezes na grossa porta preta cravejada de pregos de ferro com uma aldraba em forma de águia.
Não demorou nem dez segundos, a porta se escancarou e viram Xenófilo Lovegood, descalço, com uma roupa que parecia um camisão de dormir todo manchado. Seus longos cabelos de algodão doce estavam sujos e malcuidados. Decididamente, Xenófilo estivera mais elegante no casamento de Gui e Fleur.
— Quê? Que é isso? Quem são vocês? Que querem? — indagou com uma voz aguda e rabugenta, olhando primeiro para Hermione, depois para Rony e finalmente para Harry, ao que sua boca se abriu em um perfeito e cômico “o”.
— Olá, Sr. Lovegood — disse Harry, estendendo a mão — Sou Harry, Harry Potter.
Xenófilo não apertou a mão de Harry, embora o olho que não apontava vesgamente para o nariz corresse direto para a cicatriz na testa de Harry.
— O senhor nos deixaria entrar? — perguntou Harry — Tem uma coisa que gostaríamos de lhe perguntar.
— Não... não tenho certeza de que isto seja aconselhável — sussurrou Xenófilo. Ele engoliu em seco e deu uma rápida olhada pelo jardim — É um choque... palavra... eu... eu receio que não devia realmente...
— Não vamos demorar — respondeu Harry, ligeiramente desapontado com a recepção pouco calorosa.
— Eu... ah, está bem, então. Entrem rápido. Rápido!
Mal tinham cruzado o portal e Xenófilo batia a porta às suas costas. Estavam na cozinha mais esquisita que Harry já vira na vida.
O cômodo era perfeitamente circular, dando a impressão de que se estava dentro de um gigantesco pimenteiro. Tudo era curvo para se encaixar nas paredes: o fogão, a pia e os armários, e tudo tinha sido pintado com flores, insetos e pássaros em fortes cores primárias. Harry pensou ter reconhecido o estilo de Luna: o efeito em espaço tão pequeno era ligeiramente avassalador.
No meio do piso, uma escada de ferro em caracol levava aos andares superiores. Ouviam-se muitas batidas e atritos vindos de cima: Harry ficou imaginando o que Luna poderia estar fazendo.
— É melhor subirem — disse Xenófilo, ainda muito constrangido, mostrando o caminho.
O cômodo superior parecia uma combinação de sala de estar e oficina e, como tal, era mais atravancado do que a cozinha. Embora muito menor e inteiramente circular, a sala lembrava um pouco a Sala Precisa na ocasião inesquecível em que se transformara em um gigantesco labirinto formado por séculos de objetos escondidos. Havia pilhas e mais pilhas de livros e papéis sobre todas as superfícies. Modelos delicados de criaturas que Harry não reconheceu pendiam do teto, todas batendo as asas e abrindo e fechando os maxilares.
Luna não estava ali: a origem do estardalhaço era um objeto de madeira com rodas dentadas que giravam magicamente. Parecia uma cria bizarra de uma bancada de oficina com uma velha estante, mas, passado um instante, Harry deduziu que devia ser uma antiquada prensa tipográfica, uma vez que estava produzindo exemplares d’O Pasquim.
— Com licença — disse Xenófilo e, dirigindo-se à máquina, puxou uma toalha de mesa suja debaixo de uma imensa quantidade de livros e papéis que rolaram no chão e atirou-a sobre a prensa, abafando um pouco as batidas e atritos.
Virou-se, então, para Harry.
— Por que veio aqui?
Antes que Harry pudesse responder, porém, Hermione deixou escapar um gritinho assustado.
— Sr. Lovegood... que é aquilo?
Ela estava apontando para um enorme chifre espiral e cinzento, não muito diferente do chifre de um unicórnio, que fora montado na parede e se projetava mais de um metro sala adentro.
— É o chifre de um Bufador de Chifre Enrugado.
— Não, não é! — contestou Hermione.
— Hermione — murmurou Harry, constrangido — Agora não é o momento...
— Mas, Harry, é um chifre de Erumpente! É material comerciável classe B, e é um objeto extraordinariamente perigoso para se ter em casa!
— Como sabe que é um chifre de erumpente? — perguntou Rony afastando-se do chifre o mais rápido que pôde, dado o extremo atravancamento da sala.
— Tem uma descrição dele em Animais Fantásticos & Onde Habitam! Sr. Lovegood, o senhor precisa se livrar disso imediatamente, o senhor não sabe que pode explodir ao menor toque?
— O Bufador de Chifre Enrugado — retrucou Xenófilo claramente, com uma expressão de teimosia no rosto — É um animal tímido e excepcionalmente mágico, e seu chifre...
— Sr. Lovegood, estou reconhecendo os sulcos em torno da base, é um chifre de erumpente e é incrivelmente perigoso, não sei onde o senhor o conseguiu...
— Comprei-o — disse Xenófilo, dogmático — Há duas semanas, de um jovem bruxo encantador que soube do meu interesse pelo raro Bufador. Uma surpresa de Natal para a minha Luna. Então... — perguntou, virando-se para Harry — Por que exatamente o senhor veio aqui, Sr. Potter?
— Precisamos de ajuda — respondeu Harry, antes que Hermione pudesse recomeçar.
— Ah — disse Xenófilo — Ajuda. Hum — seu olho perfeito girou mais uma vez para a cicatriz de Harry.
O bruxo pareceu, ao mesmo tempo, aterrorizado e hipnotizado.
— Sei. O problema é... ajudar Harry Potter... muito perigoso...
— Não é o senhor que vive dizendo a todos que seu primeiro dever é ajudar Harry? — perguntou Rony — Naquela sua revista?
Xenófilo olhou para trás onde se achava a prensa coberta, ainda batendo e produzindo atritos sob a toalha.
— Ãh... sim, expressei esse ponto de vista. Entretanto...
—... estava se referindo aos demais e não à sua pessoa? — comentou Rony.
Xenófilo não respondeu. Não parava de engolir em seco, seu olhar ia e vinha entre os meninos. Harry teve a impressão de que ele estava se debatendo em um doloroso conflito interior.
— Onde está Luna? — perguntou Hermione — Vejamos o que ela acha.
Xenófilo engoliu ruidosamente. Parecia estar tomando coragem. Por fim, disse com uma voz quase inaudível por causa do barulho da prensa.
— Luna está lá embaixo no rio, pescando dilátex de água doce. Ela... ela gostará de ver vocês. Vou chamá-la e então... sim, muito bem. Vou tentar ajudá-los.
O bruxo desapareceu pela escada em caracol e eles ouviram a porta da frente abrir e fechar. Entreolharam-se.
— Muquirana covarde — disse Rony — Luna tem dez vezes mais peito que ele.
— Ele provavelmente está preocupado com o que pode acontecer se os Comensais da Morte descobrirem que estive aqui — lembrou Harry.
— Concordo com o Rony — disse Hermione — Um velho hipócrita nojento, dizendo a todo o mundo para ajudar você e tentando fugir da raia. E, pelo amor de Deus, fiquem longe desse chifre.
Harry foi até a janela do lado oposto da sala. Viu o rio, uma fita estreita e luminosa lá embaixo no sopé do morro. Estavam muito alto, uma ave passou adejando pela janela, quando ele olhava na direção d’A Toca, agora invisível atrás de outras elevações. Gina se achava ali em algum lugar. Hoje estavam mais próximos um do outro do que tinham estado desde o casamento de Gui e Fleur, mas ela não poderia fazer ideia de que estava olhando para ela, pensando nela. Supunha que devesse se alegrar com isso, qualquer um com quem entrasse em contato corria perigo, e a atitude de Xenófilo confirmava isso.
Harry deu as costas à janela e seu olhar recaiu sobre outro objeto extravagante, em cima de um aparador curvo e entulhado: um busto de pedra de uma bruxa bonita, mas austera, com um toucado de aspecto bizarro. Dos lados do busto, subiam em curva objetos que pareciam trompas de ouro para surdos. Havia um par de cintilantes asas azuis na tira de couro que passava pelo alto da cabeça, e um daqueles rabanetes cor de laranja em uma segunda tira em torno da testa.
— Olhem isso aqui — falou Harry.
— Encantador — comentou Rony — Fico surpreso com que ele não tenha usado isso no casamento.
Ouviram, então, a porta da entrada fechar e instantes depois Xenófilo tornava a subir a escada circular para a sala, suas pernas finas agora metidas em botas de pescaria, trazendo na mão uma bandeja com xícaras sem par e um fumegante bule de chá.
— Ah, você descobriu a minha invenção preferida — exclamou ele, empurrando a bandeja para os braços de Hermione e se juntando a Harry, ao lado da estátua — Modelado, muito condizente com a bela cabeça de Rowena Ravenclaw. O espírito sem limites é o maior tesouro do homem!
Xenófilo indicou os objetos que pareciam trompas.
— Esses são sifões zonzóbulos para afastar todas as fontes de distração na área em torno do pensador. Aqui — ele apontou para as asinhas — Uma hélice de gira-gira para induzir a elevação da mente. Por fim — ele apontou para o rabanete cor de laranja — A ameixa dirigível, para intensificar a capacidade de aceitar o extraordinário.
Xenófilo voltou à bandeja de chá, que Hermione conseguira equilibrar precariamente em uma das mesinhas cheias de objetos.
— Aceitam uma infusão de raiz-de-cuia? — ofereceu Xenófilo — Nós mesmos a cultivamos.
Quando começou a servir a bebida, que era carmim como suco de beterraba, acrescentou:
— Luna está do outro lado da Ponte Baixa, ficou muito animada com a presença de vocês. Não deve demorar, já pescou dilátex suficientes para preparar uma sopa para todos nós. Por favor, sentem-se e se sirvam de açúcar. Então... — ele tirou uma pilha mal equilibrada de papéis de uma poltrona e se sentou, cruzou as pernas com as botas de pescaria — Como posso ajudá-lo, Sr. Potter?
— Bem — começou Harry, olhando para Hermione, que acenou encorajando-o — É aquele símbolo que o senhor estava usando no pescoço no casamento de Gui e Fleur, Sr. Lovegood. Queríamos saber o que significa.
Xenófilo ergueu as sobrancelhas.
— Você está se referindo ao símbolo das Relíquias da Morte?







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MEGAUPLOAD: ESPERANÇA RENOVADA


O Fundador do Megaupload detalha
novo serviço de compartilhamento, confira.




O fundador do Megaupload, Kim Dotcom, preso na Nova Zelândia após o fechamento do serviço em janeiro deste ano, revelou detalhes sobre o novo serviço de compartilhamento de arquivos que pretende lançar e que deve se chamar Mega. Em entrevista à Wired, Dotcom afirmou que o novo serviço aproveitaria todas as possibilidades da nuvem para evitar o acesso das autoridades aos conteúdos postados.

O funcionamento da nova ferramenta seria simples: ao fazer o upload de um arquivo, ele será criptografado e será decodificado por meio de uma senha que somente o usuário terá acesso. Assim, fica a cargo de quem subiu o arquivo a decisão sobre o compartilhamento ou não dele com outros internautas. Sem acesso a essa senha, o Mega não teria como assumir a responsabilidade pelo conteúdo armazenado pelos seus usuários.

"Se os servidores forem perdidos, se o governo entrar em um data center e violá-lo, se hackear o servidor ou roubá-lo, isso não lhes daria nada", explicou à Wired. "Tudo que for enviado para o site vai continuar fechado e privado sem a senha", disse. Dotcom acredita que mesmo a interpretação da lei que causou o fechamento do Megaupload não será capaz de derrubar o Mega. Para ele, a única forma de parar o serviço seria tornar ilegal a criptografia de dados.

"De acordo com a Carta de Direitos Humanos da ONU, a privacidade é um direito humano básico. Você tem o direito de proteger suas informações privadas e de comunicação contra a espionagem", avalia.

Autoridades dos Estados Unidos, incluindo o FBI (polícia federal americana), tiraram o Megaupload e outros 18 sites afiliados do ar em janeiro por considerar que o site fazia parte de "uma organização responsável por uma enorme rede de pirataria virtual mundial".

O Megaupload teria causado mais de US$ 500 milhões em perdas ao transgredir os direitos de propriedade intelectual de diversas companhias. As autoridades americanas consideram que por meio do site, que contava com 150 milhões de usuários registrados, e de outras páginas associadas, ingressaram cerca de US$ 175 milhões.




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