terça-feira, 2 de outubro de 2012

Harry Potter e o Enigma do Príncipe - Capítulo 30




— CAPÍTULO TRINTA —
O TÚMULO BRANCO



TODAS AS AULAS FORAM SUSPENSAS, todos os exames adiados. Alguns estudantes foram retirados às pressas de Hogwarts, pelos pais, nos dois dias que se seguiram, as gêmeas Patil partiram antes do café na manhã após a morte de Dumbledore, e Zacarias Smith saiu do castelo acompanhado pelo arrogante pai.
Por outro lado, Simas Finnigan recusou-se terminantemente a voltar para casa com a mãe, discutiram aos gritos no Saguão de Entrada, e só resolveram a questão quando a mãe concordou que ele ficaria para os funerais. Ela teve dificuldade em encontrar acomodação em Hogsmeade, Simas contou a Harry e Rony, porque acorriam à aldeia bruxos e bruxas, preparando-se para prestar as últimas homenagens a Dumbledore.
Houve alguma excitação entre os alunos mais jovens que nunca tinham visto aquilo, a carruagem azul-clara do tamanho de uma casa, puxada por doze enormes palominos alados, que surgiu no céu, no fim da tarde, antes dos funerais e aterrissou na orla da Floresta. Harry observou de uma janela uma mulher gigantesca e bela, de pele morena e cabelos negros, descer os degraus da carruagem e se atirar nos braços de Hagrid, que a aguardava.
Entrementes, uma delegação de funcionários do Ministério, inclusive o próprio Ministro da Magia, foi acomodada no castelo. Harry evitava diligentemente o contato com qualquer de seus membros, tinha certeza de que mais cedo ou mais tarde tornariam a lhe pedir contas do último passeio de Dumbledore fora de Hogwarts.
Harry, Rony, Hermione e Gina passavam todo o tempo juntos. O tempo bonito parecia zombar deles, Harry imaginava como teria sido se Dumbledore não tivesse morrido e eles contassem com todo aquele tempo juntos no finalzinho do ano, os exames de Gina já concluídos, a pressão dos deveres escolares aliviada...
E, hora a hora, ele adiava dizer o que sabia que devia dizer, fazer o que sabia que era certo fazer, porque era difícil abrir mão de sua maior fonte de consolo.
Eles visitavam a Ala Hospitalar duas vezes por dia: Neville recebera alta, mas Gui continuava sob os cuidados de Madame Pomfrey. As cicatrizes não indicavam melhora, na verdade, Gui agora apresentava uma nítida semelhança com Olho-Tonto Moody, embora, felizmente, tivesse os olhos e as pernas inteiras e sua personalidade continuasse o que sempre fora. O que parecia ter mudado é que agora ele passara a gostar muito de bifes malpassados.
—... e é um sorrte que ei vá se casarr comigue — disse Fleur, feliz, afofando os travesseiros de Gui — Porrque as brritanique cozinhe demás a carrne, eu semprre disse isse...
— Acho que simplesmente vou ter de aceitar que Gui vá mesmo casar com ela — suspirou Gina mais tarde naquela noite, quando ela, Harry, Rony e Hermione se sentaram ao lado da janela aberta da Sala Comunal da Grifinória contemplando os jardins ao crepúsculo.
— Ela não é tão ruim — comentou Harry — Mas é feia — acrescentou depressa, quando Gina ergueu as sobrancelhas e deu uma risadinha relutante.
— Bem, suponho que se mamãe pode suportar, eu também posso.
— Morreu mais alguém que conhecemos? — perguntou Rony a Hermione, que passava os olhos no Profeta Vespertino.
Hermione fez uma careta ao ouvir a forçada frieza na voz dele.
— Não — respondeu em tom de censura, dobrando o jornal — Ainda estão procurando Snape, mas nem sinal...
— Claro que não — retrucou Harry, que se irritava toda vez que tocavam neste assunto — Não acharão Snape enquanto não acharem Voldemort, e, considerando que nunca conseguiram fazer isso até hoje...
— Vou me deitar — bocejou Gina — Não tenho dormido bem desde... bem... estou bem precisada de um soninho.
Ela beijou Harry (Rony desviou o olhar oportunamente), fez um aceno com a mão para os outros dois e foi para o dormitório das garotas. Assim que a porta se fechou atrás dela, Hermione se curvou para Harry com uma expressão bem hermionesca no rosto.
— Harry, descobri uma coisa hoje de manhã na Biblioteca...
— R.A.B.? — perguntou Harry se aprumando na cadeira.
Ele não se sentiu como tantas vezes antes, excitado, curioso, doido para chegar ao fundo do mistério, ele simplesmente sabia que a tarefa de descobrir a verdade sobre a Horcrux genuína tinha de ser concluída antes que ele pudesse avançar pelo caminho escuro e tortuoso que se estendia à sua frente, o caminho que ele e Dumbledore tinham iniciado juntos, mas que, agora, ele sabia que teria de trilhar sozinho. Talvez ainda houvesse umas quatro Horcruxes em algum lugar lá fora, e cada uma precisaria ser encontrada e destruída para que houvesse sequer possibilidade de Voldemort ser liquidado. Ele não parava de recitar seus nomes mentalmente, como se listando-os pudesse trazer as Horcruxes para o seu alcance: “o medalhão... a taça... a cobra... alguma coisa de Gryffindor ou de Ravenclaw... o medalhão... a taça... a cobra... alguma coisa de Gryffindor ou de Ravenclaw...”Este mantra parecia perpassar sua mente quando ele adormecia, e seus sonhos eram coalhados de taças, medalhões e objetos misteriosos que ele não conseguia pegar, embora Dumbledore lhe oferecesse prestimosamente uma escada de corda que se transformava em cobras no instante em que começava a galgá-la...
Ele mostrara a Hermione a nota no interior do medalhão na manhã seguinte à morte de Dumbledore, e, embora a amiga não tivesse reconhecido imediatamente as iniciais como pertencentes a algum bruxo obscuro sobre quem lera, desde então ela corria à Biblioteca com maior frequência do que seria estritamente necessário a alguém que não tinha deveres de casa a preparar.
— Não, Harry, estou tentando — respondeu ela, triste — Mas ainda não encontrei nada... há uns dois bruxos razoavelmente famosos com essas iniciais: Rosalinda Antígona Bungs... Roberto Axebanger Brookstanton, o “Machadada”... mas aparentemente não se enquadram. Pelo bilhete, a pessoa que roubou a Horcrux conhecia Voldemort, e não consigo encontrar o menor indício de que Bungs ou Axebanger tenham tido qualquer relação com ele... não, na realidade, eu queria falar sobre.... bem, Snape.
Ela parecia nervosa até de mencionar aquele nome.
— Que tem ele? — perguntou sombriamente, recostando-se na cadeira.
— Bem, é que eu tinha certa razão naquela história do Príncipe Mestiço — começou ela hesitante.
— Você tem de insistir nesse assunto, Hermione? Como é que você acha que eu me sinto com relação a isso agora?
— Não... não... Harry, não me referi a isso! — apressou-se ela a corrigir, olhando em volta para verificar se havia alguém ouvindo — É que eu tinha razão sobre a Eileen Prince ter sido dona do livro. Sabe... ela era a mãe do Snape!
— Eu bem que achei que ela não era grande coisa — comentou Rony.
Hermione não lhe deu atenção.
— Continuei a examinar o resto dos Profetas antigos e encontrei uma pequena nota anunciando o casamento de Eileen Prince com um tal Tobias Snape, e mais tarde, outra anunciando que tinha dado à luz um...
—... homicida — completou Harry com violência.
— Bem... é — concordou Hermione — Então eu tinha certa razão. Snape devia sentir orgulho de ser “meio príncipe”, entende? Tobias Snape era trouxa segundo a informação do Profeta.
— É, isso se encaixa — admitiu Harry — Ele daria destaque ao lado puro-sangue para poder fazer amizade com Lúcio Malfoy e os outros... ele é como Voldemort: mãe de sangue puro, pai trouxa... vergonha dos pais, tentando ser temido pelo uso das Artes das Trevas, arranjou um novo nome imponente... Lord Voldemort, o Príncipe Mestiço, como é que Dumbledore não percebeu...?
Harry se calou, olhando para fora. Não conseguia deixar de pensar na confiança indesculpável de Dumbledore em Snape... mas, como Hermione inadvertidamente acabara de lembrá-lo, ele, Harry, também fora enganado... apesar da crescente maldade dos feitiços anotados, recusara-se a fazer mau juízo do garoto tão inteligente que o ajudara tanto... Ajudara-o... era um pensamento quase insuportável agora...
— Eu ainda não entendo por que ele não denunciou você por estar usando aquele livro — comentou Rony — Ele devia saber de onde você estava tirando tudo aquilo.
— Ele sabia — explicou Harry com amargura — Soube quando usei o Sectumsempra. Não precisou realmente de Legilimência... talvez soubesse até antes, ouvindo o Slughorn comentar como eu era brilhante em Poções... ele não devia ter deixado seu antigo livro no fundo daquele armário, não é?
— Mas por que ele não denunciou você?
— Acho que ele não queria ser associado àquele livro — respondeu Hermione — Acho que Dumbledore não teria gostado muito se soubesse. E o próprio Snape fingiu que o livro não tinha pertencido a ele, Slughorn teria reconhecido a caligrafia na mesma hora. De qualquer forma, o livro foi deixado na antiga sala de aula de Snape, e aposto como Dumbledore sabia que a mãe dele se chamava “Prince”.
— Eu devia ter mostrado o livro a Dumbledore — concluiu Harry — O tempo todo ele esteve me mostrando como Voldemort era maligno, mesmo quando frequentava a escola, e eu tinha uma prova de que Snape também era...
— “Maligno” é uma palavra forte — comentou Hermione baixinho.
— Era você quem vivia me dizendo que o livro era perigoso!
— O que estou tentando dizer, Harry, é que você está se culpando demais. Eu achei que o Príncipe tinha um senso de humor perverso, mas nunca imaginei que fosse um homicida potencial...
— Nenhum de nós poderia ter imaginado que o Snape... sabe — acrescentou Rony.
Os três silenciaram, cada qual absorto nos próprios pensamentos, mas Harry tinha certeza de que seus amigos, tal como ele próprio, estavam imaginando a manhã seguinte, quando Dumbledore seria enterrado.
Harry nunca fora a um enterro, não tinha havido corpo para enterrar quando Sirius morreu. Ele não sabia o que esperar, e estava um pouco preocupado com o que poderia ver, com o que poderia sentir. Perguntou-se se a morte de Dumbledore seria mais real para ele quando terminassem os funerais. Embora houvesse momentos em que a brutal realidade do acontecido ameaçasse esmagá-lo, havia lacunas de insensibilidade durante as quais ele ainda encontrava dificuldade em acreditar que Dumbledore realmente partira, apesar de não falarem em outra coisa no castelo. Reconhecia que não procurara desesperadamente uma brecha, um jeito de Dumbledore voltar, ao contrário do que fizera no caso de Sirius... ele apalpou no bolso a corrente fria da falsa Horcrux, que agora carregava para toda parte, não como um talismã, mas como um lembrete do que custara e do que ainda faltava fazer.
No dia seguinte, Harry levantou cedo para fazer as malas, o Expresso de Hogwarts estaria partindo uma hora após os funerais. Embaixo, no Salão Principal, encontrou o ambiente anormalmente quieto. Todos usavam vestes formais, e ninguém parecia ter muita fome. A Profª. McGonagall deixara vazio o cadeirão ao centro da mesa dos professores. A cadeira de Hagrid também estava desocupada: Harry achou que ele talvez não tivesse conseguido enfrentar o café da manhã, o lugar de Snape, no entanto, fora ocupado, sem a menor cerimônia, por Rufo Scrimgeour.
Harry evitou seus olhos amarelados esquadrinhando a sala, teve a incômoda sensação de que Scrimgeour o procurava. Na comitiva do Ministro, Harry identificou os cabelos ruivos e os óculos de aros de tartaruga de Percy Weasley. Rony não demonstrou ter percebido a presença do irmão, exceto pela virulência com que espetava o peixe defumado.
A mesa da Sonserina, Crabbe e Goyle cochichavam. Corpulentos como eram, pareciam estranhamente solitários sem a companhia da figura alta e pálida de Malfoy entre os dois, despachando ordens. Harry não pensara muito em Malfoy. Toda a sua animosidade convergia para Snape, mas não esquecera o medo na voz de Malfoy no alto da Torre, nem o fato de que ele baixara a varinha antes de chegarem os outros Comensais da Morte.
Harry não acreditava que Malfoy teria matado Dumbledore. Continuava a desprezar o garoto por sua fascinação pelas Artes das Trevas, mas uma minúscula gotinha de piedade já se misturava ao seu desagrado. Perguntava-se onde estaria Malfoy agora, e o que Voldemort estaria obrigando-o a fazer, sob ameaças de morte a ele e à família.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma cotovelada de Gina em suas costelas.
A Profª. McGonagall ficara de pé, e os murmúrios tristes no Salão Principal tinham cessado prontamente.
— Está quase na hora — começou ela — Por favor, acompanhem os diretores de suas Casas até os jardins. Alunos da Grifinória, venham comigo.
Eles deixaram seus bancos disciplinadamente, quase em silêncio.
Harry viu Slughorn, de relance, à frente da fila da Sonserina, trajando magníficas vestes verde-esmeralda, bordadas com fios prateados. O garoto nunca vira a Profª. Sprout, diretora da Lufa-Lufa, com uma aparência tão limpa, não havia um único remendo em seu chapéu e, quando chegaram ao Saguão de Entrada, encontraram Madame Pince parada ao lado de Filch, ela usando um véu negro e grosso até os joelhos, e ele, uma gravata e um terno antiquado cheirando fortemente a naftalina.
Todos seguiam, conforme Harry constatou ao descer os degraus de pedra da entrada, em direção ao lago. Ele sentiu o sol morno acariciar seu rosto, enquanto acompanhava em silêncio a Profª. McGonagall ao lugar em que tinham disposto centenas de cadeiras enfileiradas com uma passagem pelo centro, havia uma mesa de mármore à frente das cadeiras.
Fazia um belíssimo dia de verão.
Uma variedade extraordinária de pessoas já se acomodara em metade das cadeiras; malvestidas e bem-vestidas, velhas e jovens. A maioria Harry nunca vira, mas reconheceu algumas, entre elas membros da Ordem da Fênix: Kingsley Shacklebolt, Olho-Tonto Moody, Tonks, seus cabelos milagrosamente tinham recuperado o tom rosa-berrante, Remo Lupin, com quem ela parecia estar de mãos dadas, o Sr. e a Sra. Weasley, Gui amparado por Fleur e seguido por Fred e Jorge, usando paletós pretos de pele de dragão. Estavam também presentes Madame Maxime, que, sozinha, ocupava duas cadeiras e meia, Tom, o taberneiro do Caldeirão Furado, Arabela Figg, a bruxa abortada vizinha de Harry, a guitarrista cabeluda do grupo bruxo As Esquisitonas, Ernesto Prang, motorista do Nôitibus, Madame Malkin, da loja de vestes no Beco Diagonal, e outras pessoas que Harry só conhecia de vista, como o barman do Cabeça de Javali e a bruxa do carrinho de lanches do Expresso de Hogwarts.
Os fantasmas do castelo também estavam lá, quase invisíveis ao sol forte mas discerníveis quando se moviam, tremeluzindo incorporeamente no ar luminoso.
Harry, Rony Hermione e Gina tomaram os últimos assentos na fila ao lado do lago. As pessoas sussurravam entre si, o som lembrava o farfalhar da brisa na grama, mas o canto dos pássaros se sobrepunha a tudo. A multidão continuava a crescer.
Sentindo um arroubo de afeição pelos dois, Harry viu Luna ajudando Neville a se sentar. Tinham sido os únicos de toda a Armada a responder à convocação de Hermione na noite em que Dumbledore morrera, e Harry sabia por quê: eram os que sentiam maior falta do grupo... provavelmente, os únicos que verificavam regularmente as moedas na esperança de que houvesse outra reunião...
Cornélio Fudge passou por eles em direção às filas mais à frente, com uma expressão de infelicidade, girando o chapéu-coco como era seu hábito, em seguida, Harry reconheceu Rita Skeeter, e enfureceu-o ver um bloco de notas naquelas mãos de garras vermelhas; e, com um surto de fúria ainda mais forte, Dolores Umbridge, com uma expressão de tristeza pouco convincente em sua cara de sapo, um laço de veludo negro no alto dos cachos azulados. Ao ver o centauro Firenze, que estava parado como uma sentinela à margem do lago, ela se sobressaltou e correu rápido para uma cadeira bem distante.
Os professores finalmente se sentaram. Harry viu Scrimgeour, com ar grave e digno, na primeira fila ao lado da Profª. McGonagall. O garoto questionava se Scrimgeour ou quaisquer daqueles figurões lamentava realmente que Dumbledore tivesse morrido. Ouviu, então, uma música estranha e sobrenatural e esqueceu sua antipatia pelo Ministério, olhando para os lados à procura de sua origem. Ele não foi o único: muitas cabeças se viraram, olhando um pouco assustadas.
— Lá dentro — sussurrou Gina no ouvido de Harry.
Então ele os viu nas águas verdes banhadas de sol, a centímetros da superfície, lembrando-o aflitivamente dos Inferi, um coro de sereianos cantava em uma língua que ele não entendia, seus rostos pálidos ondeando, seus cabelos arroxeados boiando à volta. A música deixou arrepiados os cabelos na nuca de Harry, embora não fosse desagradável. Falava muito claramente de perda e desespero. Ao olhar os rostos ferozes dos cantores, o garoto teve a sensação de que os sereianos, pelo menos, lamentavam a morte de Dumbledore.
Então Gina tornou a cutucá-lo, e ele se virou para olhar.
Hagrid vinha andando pela passagem entre as cadeiras. Chorava silenciosamente, seu rosto brilhava de lágrimas, e trazia nos braços, envolto em veludo roxo salpicado de estrelas douradas, o que Harry sabia ser o corpo de Dumbledore. Ao vê-lo, o garoto sentiu uma dor aguda na garganta: por um momento, a música estranha e a consciência de que o corpo do diretor estava tão próximo pareceram roubar todo o calor do dia. Rony estava branco e chocado. Caíam lágrimas copiosas no colo de Gina e Hermione.
Os garotos não conseguiam ver com clareza o que acontecia à frente. Hagrid parecia ter colocado o corpo cuidadosamente sobre a mesa. Agora retirava-se pela passagem, assoando o nariz ruidosamente e atraindo olhares escandalizados de algumas pessoas, inclusive, Dolores Umbridge...
Mas Harry sabia que Dumbledore não teria se importado. Ele tentou fazer um gesto simpático quando Hagrid passou, mas os olhos do amigo estavam tão inchados que era de admirar que conseguisse sequer ver aonde ia. Harry olhou para a última fila, à qual se encaminhava o amigo, e entendeu o que o orientava, ali, calça e paletó, cada peça do tamanho de uma tenda, encontrava-se o gigante Grope, sua enorme e feia cabeça de pedregulho curvada, dócil, quase humano.
Hagrid sentou-se ao lado do meio-irmão, que lhe deu fortes palmadas carinhosas na cabeça, fazendo as pernas de sua cadeira enterrarem no chão. Harry sentiu um impulso momentâneo e maravilhoso de rir.
Então, a música parou, e ele tornou a se virar para frente.
Um homenzinho com os cabelos em tufos e simples vestes pretas se erguera e agora estava parado diante do corpo de Dumbledore.
Harry não conseguia distinguir o que ele dizia. Chegavam-lhe palavras estranhas por cima das centenas de cabeças. “Nobreza de espírito... contribuição intelectual... grandeza de coração...” não significavam muita coisa. Não tinham muito a ver com o Dumbledore que Harry conhecera. De repente, o garoto se lembrou da versão de Dumbledore de algumas palavras: “Pateta” “Chorão” “Desbocado” “Beliscão”, e mais uma vez ele precisou reprimir o riso... que estava acontecendo com ele?
Houve um ruído de água revolvida à esquerda, e ele viu que os sereianos tinham vindo à tona para ouvir, também. Harry se lembrou de Dumbledore agachando à beira do lago dois anos antes, muito próximo do lugar em que Harry estava sentado, conversando em Serêiaco com a líder desse povo. Harry se perguntou onde Dumbledore teria aprendido aquela língua. Havia tanta coisa que nunca perguntara, tanta coisa que deveria ter dito...
E, então, subitamente, a terrível verdade o devassou, mais completa e inegavelmente do que até aquele momento. Dumbledore estava morto, partira... ele apertou o medalhão com tanta força que doeu, mas não pôde impedir que lágrimas quentes saltassem dos seus olhos, desviou o olhar de Gina e dos outros e fixou-o ao longe, na direção da Floresta, enquanto o homenzinho de preto continuava a falar... percebeu um movimento entre as árvores.
Os centauros tinham vindo prestar suas homenagens também. Não saíram a céu aberto, mas Harry os viu parados, quietos, meio encobertos pelas sombras, observando os bruxos, os arcos pendurados do lado do corpo.
E Harry lembrou-se do pesadelo que fora sua primeira ida à Floresta, a primeira vez que encontrara a coisa que então era Voldemort, e como a enfrentara, e como, pouco tempo depois, ele e Dumbledore tinham discutido as razões de se travar uma batalha perdida.
Era importante, dissera Dumbledore, Lutar, e recomeçar a lutar, e continuar a lutar, porque somente assim o mal poderia ser acuado, embora jamais erradicado...
E Harry, sentado ali sob o sol quente, percebeu com muita clareza como as pessoas que gostavam dele tinham se colocado à sua frente, um por um, sua mãe, seu pai, seu padrinho e, finalmente, Dumbledore, todos decididos a protegê-lo, mas, agora, isso acabara.
Não podia mais deixar ninguém ficar entre ele e Voldemort, tinha de abandonar definitivamente a ilusão que já devia ter perdido com um ano de idade: que a proteção dos braços paternos significava que nada poderia atingi-lo. Neste pesadelo não haveria despertar, não haveria sussurro tranquilizante no escuro dizendo-lhe que, na realidade, estava seguro, que era tudo sua imaginação, o último e maior de seus protetores morrera, e ele estava mais sozinho do que jamais estivera.
O homenzinho de preto parara finalmente de falar e retomara seu lugar. Harry aguardou que mais alguém se levantasse, esperava discursos, provavelmente do Ministro, mas ninguém se mexeu. Então várias pessoas gritaram. Vivas chamas irromperam em torno do corpo de Dumbledore e da mesa em que jazia: cada vez mais altas, ocultando seu corpo. Subiram espirais de fumaça branca no ar, desenhando estranhas formas: Harry pensou, por um momento de sustar o coração, que estava vendo uma fênix voar feliz para o infinito, mas, no segundo seguinte, o fogo desaparecera. Em seu lugar havia um túmulo de mármore branco, encerrando o corpo de Dumbledore e a mesa em que repousara.
Ouviram-se mais alguns gritos de espanto quando uma saraivada de flechas voou pelo ar, mas elas caíram muito aquém da multidão. Era, Harry entendeu, a homenagem dos centauros: viu quando eles deram as costas e tornaram a desaparecer entre as árvores sombrias. De modo semelhante, os sereianos imergiram lentamente nas águas verdes e desapareceram de vista.
Harry olhou para Gina, Rony e Hermione: o rosto do amigo estava franzido como se a claridade do sol o cegasse. O de Hermione estava vidrado de lágrimas, mas Gina já não chorava. Sustentou o olhar de Harry com aquela mesma expressão decidida e intensa que ele vira quando a garota o abraçara depois de conquistar a Copa de Quadribol em sua ausência, e ele soube que naquele momento os dois se compreendiam perfeitamente, e quando lhe contasse o que ia fazer agora, ela não diria “Cuidado” nem “Não faça isso”, mas aceitaria sua decisão porque não esperava dele outra atitude. Então, ele se revestiu de coragem para dizer o que sabia que teria de dizer, desde que Dumbledore morrera.
— Gina, escute... — começou em voz muito baixa, em meio ao burburinho de conversas que crescia à sua volta e às pessoas que começavam a se levantar — Não posso mais namorar você. Temos de parar de nos ver. Não podemos ficar juntos.
Ela disse, com um sorriso estranhamente enviesado:
— É por algum motivo nobre e idiota, não é?
— Essas últimas semanas com você têm parecido... parecido fazer parte da vida de outra pessoa — explicou Harry — Mas não posso... não podemos... tem coisas que preciso fazer sozinho agora.
Ela não chorou, olhou-o apenas.
— Voldemort usa as pessoas chegadas aos seus inimigos. Já usou você de isca uma vez, e foi só por ser irmã do meu melhor amigo. Pensa no enorme perigo que poderá correr se continuarmos a namorar. Ele saberá, ele descobrirá. Ele tentará me atingir através de você.
— E se eu não me importar? — perguntou Gina impetuosamente.
— Eu me importo. Como é que você acha que eu me sentiria se hoje fosse o seu enterro... e a culpa fosse minha...?
Ela desviou o olhar em direção ao lago.
— Eu nunca desisti de você. Não de verdade. Sempre tive esperança... Hermione me disse para tocar a minha vida, talvez sair com outra pessoa, me descontrair um pouco perto de você, porque eu nunca conseguia falar quando você estava na sala, lembra? E ela achou que talvez você prestasse um pouco mais de atenção em mim se eu fosse mais... eu mesma.
— Menina esperta, essa Hermione — comentou Harry tentando sorrir. — Eu só queria ter convidado você para sair antes. Poderíamos ter tido séculos... meses... anos talvez...
— Mas você esteve muito ocupado salvando o mundo bruxo — replicou Gina, quase sorrindo — Bem... não posso dizer que esteja surpresa. Eu sabia que isto aconteceria um dia. Eu sabia que você não seria feliz se não estivesse caçando o Voldemort. Vai ver é por isso que eu gosto tanto de você.
Harry não aguentou ouvir essas coisas, e achou que não manteria sua decisão se continuasse sentado ao lado de Gina. Viu que Rony abraçava Hermione e acariciava seus cabelos enquanto ela soluçava em seu ombro, e que escorriam lágrimas da ponta do seu nariz comprido. Com um gesto angustiado, Harry ficou de pé, deu as costas a Gina e ao túmulo de Dumbledore, e saiu andando pela margem do lago. Andar parecia bem mais suportável do que ficar sentado: da mesma forma que partir o mais cedo possível para procurar as Horcruxes e liquidar Voldemort o faria sentir-se melhor do que esperar para fazer isso...
— Harry!
Ele se virou. Rufo Scrimgeour vinha mancando ligeiro em sua direção, margeando o lago, apoiando-se na bengala.
— Eu estava na esperança de poder dar uma palavra... você se incomoda se eu caminhar um pouco com você?
— Não — respondeu Harry, com indiferença, retomando a caminhada.
— Harry, foi uma horrível tragédia — começou o bruxo em voz baixa — Nem sei lhe dizer o horror que senti quando soube. Dumbledore era um bruxo extraordinário. Tínhamos as nossas desinteligências, como você bem sabe, mas ninguém melhor do que eu...
— Que é que o senhor quer? — perguntou Harry sem emoção.
Scrimgeour pareceu contrariado, mas, como antes, alterou rapidamente sua expressão para mostrar pesarosa compreensão.
— Naturalmente, você está arrasado. Sei que era muito ligado a Dumbledore. Imagino que você talvez tenha sido o aluno de quem ele mais gostou na vida. Os laços entre os dois...
— Que é que o senhor quer? — repetiu Harry, parando.
Scrimgeour parou também, apoiou-se na bengala e encarou Harry, sua expressão agora astuta.
— Dizem que você estava com Dumbledore quando se ausentou da escola na noite de sua morte.
— Quem diz?
— Alguém estupefez um Comensal da Morte no alto da Torre depois que Dumbledore morreu. Havia também duas vassouras lá. O Ministério sabe somar dois mais dois, Harry.
— Que bom ouvir isso. Bem, aonde eu fui com Dumbledore e o que fizemos é unicamente da minha conta. Ele não queria que as pessoas soubessem.
— Tal lealdade, naturalmente, é admirável — disse Scrimgeour, que parecia conter com dificuldade sua irritação — Mas Dumbledore se foi, Harry. Ele se foi.
— Ele só terá ido desta escola quando ninguém mais aqui for leal a ele — respondeu Harry, com um sorriso forçado.
— Meu caro rapaz... nem mesmo Dumbledore é capaz de ressurgir da...
— Não estou afirmando que ele seja. O senhor não entenderia. Mas não tenho nada a lhe dizer.
Scrimgeour hesitou. Então, num tom que evidentemente pretendia que fosse gentil, disse:
— O Ministério pode lhe oferecer todo tipo de proteção, sabe, Harry. Eu teria prazer em colocar uns dois aurores a seu serviço...
Harry riu.
— Voldemort quer me matar pessoalmente, e os aurores não poderão detê-lo. Então muito obrigado pelo oferecimento, mas não vou aceitar.
— Então — disse Scrimgeour, seu tom frio — O pedido que lhe fiz no Natal...
— Que pedido? Ah, sim... aquele para eu anunciar ao mundo que o senhor está fazendo um ótimo trabalho em troca de...
— Levantar o moral de todos! — concluiu Scrimgeour com rispidez.
Harry estudou-o por um momento.
— Já soltaram o Lalau Shunpike?
O rosto de Scrimgeour tingiu-se de um púrpura intenso que lembrou muito o do Tio Válter.
— Vejo que você é...
— Por inteiro um homem de Dumbledore — completou Harry — Com certeza.
Scrimgeour olhou-o aborrecido por mais um momento, deu-lhe as costas e se afastou, mancando, sem dizer mais nada. Harry viu Percy e o restante da delegação à espera do Ministro lançando olhares nervosos na direção de Hagrid e Grope, que soluçavam ainda sentados.
Rony e Hermione correram ao encontro de Harry e passaram por Scrimgeour, indo em direção oposta, o garoto se virou e continuou sua caminhada devagar, dando tempo para os amigos o alcançarem, o que finalmente aconteceu embaixo de uma bétula onde costumavam sentar em épocas mais felizes.
— Que é que Scrimgeour queria? — sussurrou Hermione.
— O mesmo que queria no Natal — respondeu Harry, sacudindo os ombros — Queria que eu desse informações confidenciais sobre Dumbledore e virasse o novo garoto propaganda do Ministério.
Rony pareceu lutar intimamente por um momento, então anunciou em voz alta para Hermione:
— Olha, me deixa voltar para dar um murro no Percy.
— Não — disse ela com firmeza, segurando-o pelo braço.
— Mas eu vou me sentir melhor!
Harry riu.
Até Hermione esboçou um sorriso, que desapareceu quando ela ergueu os olhos para o castelo.
— Não consigo suportar a ideia de que talvez nunca voltemos — disse ela baixinho — Como é que Hogwarts pode fechar?
— Talvez não feche — falou Rony — Não corremos maior perigo aqui do que em casa, não é? Está igual em toda parte. Eu diria até que Hogwarts está mais segura, há mais bruxos para defender o lugar. Que é que você acha, Harry?
— Não vou voltar nem que reabra.
Rony olhou-o boquiaberto, mas Hermione disse com tristeza:
— Eu sabia que você ia dizer isso. Mas, então, o que vai fazer?
— Vou voltar mais uma vez à casa dos Dursley, porque era o que Dumbledore queria. Mas será uma visita breve, e então partirei para sempre.
— Mas aonde é que você vai, se não voltar para a escola?
— Pensei talvez em voltar para Godric’s Hollow — murmurou Harry.
Vinha ruminando esta ideia desde a noite em que Dumbledore morrera.
— Para mim, tudo começou ali. Tenho a sensação de que preciso ir até lá. E posso visitar os túmulos dos meus pais, gostaria de fazer isso.
— E depois? — perguntou Rony.
— Depois tenho de rastrear as outras Horcruxes, não é? — respondeu Harry, os olhos no túmulo branco de Dumbledore refletido nas águas do lago — É o que ele queria que eu fizesse, por isso é que me contou tudo que sabia sobre elas. Se Dumbledore estiver certo, e tenho certeza de que está, ainda há quatro Horcruxes por aí. Preciso encontrar todas e destruí-las, e depois correr atrás da sétima porção da alma de Voldemort, a que ainda habita o corpo dele, e sou eu quem vai matá-lo. E se eu encontrar Severo Snape pelo caminho — acrescentou Harry — Tanto melhor para mim, tanto pior para ele.
Fez-se um longo silêncio.
A multidão quase toda se dispersara, os poucos remanescentes guardavam uma imensa distância da figura de Grope consolando Hagrid, cujos uivos de dor ecoavam pelo lago.
— Estaremos lá, Harry — disse Rony.
— Quê?
— Na casa dos seus Tios — respondeu Rony — Então acompanharemos você, aonde for.
— Não — disse Harry depressa, não contara com isso, tentara fazer os amigos entenderem que ia empreender essa perigosíssima viagem sozinho.
— Você já nos disse uma vez — disse Hermione em voz baixa — Que havia tempo para desistir, se a gente quisesse. Tivemos tempo, não é mesmo?
— Estamos com você para o que der e vier — afirmou Rony — Mas, cara, você vai ter de passar na casa dos meus pais antes de qualquer outra coisa, até mesmo de Godric’s Hollow.
— Por quê?
— O casamento de Gui e Fleur, lembra?
Harry olhou para ele, espantado, a ideia de que algo normal como um casamento ainda pudesse existir parecia inacreditável e, contudo, maravilhosa.
— Ah é, não devemos perder esta festa por nada — disse ele por fim.
Sua mão fechou automaticamente em torno da falsa Horcrux, mas, apesar de tudo, apesar do caminho escuro e tortuoso que ele via estender-se à sua frente, apesar do encontro final com Voldemort, que ele sabia que teria de ocorrer, fosse em um mês, um ano ou dez, ele sentiu um novo ânimo ao pensar que restava um último e dourado dia de paz para aproveitar com Rony e Hermione.









________________________


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Harry Potter e o Enigma do Príncipe - Capítulo 29




— CAPITULO VINTE E NOVE —
O LAMENTO DA FENIX



— VEM CÁ, HARRY...
— Não.
— Você não pode ficar aí, Harry... agora vem...
— Não.
Ele não queria sair do lado de Dumbledore, não queria ir a lugar nenhum. A mão de Hagrid em seu ombro tremia.
Então, outra voz disse:
— Harry, vamos.
Uma mão menor e mais quente envolvera a dele e puxava-o para cima. Ele cedeu à pressão, sem realmente pensar. Somente quando estava atravessando, às cegas, o aglomerado de pessoas percebeu, por um leve perfume floral no ar, que era Gina quem o levava de volta ao castelo.
Vozes incompreensíveis o bombardearam, soluços, gritos e lamentos perfuraram a noite, mas Harry e Gina seguiram andando, subiram os degraus de pedra para o saguão: rostos flutuavam na periferia da visão de Harry, pessoas o espiavam, sussurrando, se questionando, e os rubis da Grifinória cintilavam no chão como gotas de sangue quando se dirigiram à escadaria de mármore.
— Vamos à Ala Hospitalar.
— Não estou ferido — respondeu Harry.
— São ordens da McGonagall — argumentou Gina — Todos estão lá, Rony, Hermione, Lupin, todo o mundo...
O medo tornou a se agitar no peito de Harry, esquecera-se dos vultos inertes que deixara para trás.
— Gina, quem mais morreu?
— Não se preocupe, não foi nenhum dos nossos.
— Mas a Marca Negra... Malfoy disse que passou por cima de um corpo...
— Passou por cima de Gui, mas tudo bem, ele está vivo.
Havia, no entanto, alguma coisa na voz dela que Harry identificou como um mau agouro.
— Você tem certeza?
— Claro que tenho... ele está meio... meio avariado, é só. Greyback o atacou. Madame Pomfrey diz que ele não será mais o mesmo... — a voz de Gina tremeu um pouquinho — Não sabemos realmente quais serão as sequelas... quero dizer, Greyback é um lobisomem, mas na hora estava sob forma humana.
— Mas os outros... vi outros corpos no chão...
— Neville está na Ala Hospitalar, mas Madame Pomfrey acha que vai se recuperar totalmente, e o Prof. Flitwick foi nocauteado, mas está bem, só um pouco abalado. Ele insistiu em sair para cuidar do pessoal da Corvinal. E há um Comensal morto, foi atingido por uma Maldição da Morte que o louro grandalhão estava lançando para todo lado... Harry, se não tivéssemos a sua Felix Felicis, acho que teríamos sido mortos, mas tudo parecia se desviar de nós...
Tinham chegado à Ala Hospitalar, quando empurraram as portas, Harry viu Neville deitado, aparentemente adormecido, em uma cama próxima. Rony, Hermione, Luna, Tonks e Lupin estavam agrupados em torno de outra cama, no extremo oposto da enfermaria.
Ao ouvirem as portas se abrindo, todos se viraram. Hermione correu para Harry e abraçou-o, Lupin se adiantou também, ansioso.
— Você está bem, Harry?
— Estou ótimo... e o Gui?
Ninguém respondeu. Harry olhou por cima do ombro de Hermione e viu um rosto irreconhecível no travesseiro de Gui, tão cortado e despedaçado que parecia grotesco. Madame Pomfrey aplicava em seus ferimentos um unguento verde de cheiro acre. Harry lembrou-se de Snape fechando com simples acenos de varinha os ferimentos produzidos pelo Sectumsempra em Malfoy.
— A senhora não pode fechar os ferimentos com um feitiço ou outra coisa qualquer? — perguntou Harry à enfermeira.
— Não tem feitiço que dê resultado. Já experimentei tudo que sei, mas não há cura para mordidas de lobisomem.
— Mas ele não foi mordido na lua cheia — lembrou Rony, que fixava o rosto do irmão, como se pudesse forçar a cura só de olhar — Greyback não estava transformado, então, com certeza, Gui não vai virar um... um verdadeiro...?
O garoto olhou inseguro para Lupin.
— Não, não acho que Gui vá virar um lobisomem de verdade — concordou Lupin — Mas isto não significa que não haja alguma contaminação. São ferimentos malditos. Provavelmente não cicatrizarão totalmente... e Gui talvez adquira alguma característica lupina daqui para a frente.
— Dumbledore talvez saiba alguma coisa que dê jeito — falou Rony — Cadê ele? Gui lutou contra aqueles maníacos por ordem dele. Dumbledore tem obrigações para com ele, não pode deixar meu irmão assim...
— Rony... Dumbledore está morto — disse Gina.
— Não! — Lupin olhou desvairado de Gina para Harry, como se esperasse que o garoto a desmentisse, mas ao ver que Harry não o fez, Lupin desmontou em uma cadeira ao lado da cama de Gui, as mãos cobrindo o rosto.
Harry nunca vira Lupin se descontrolar, teve a sensação de estar invadindo algo privado, indecente. Ele virou a cabeça e deparou com Rony, com quem trocou um olhar silencioso que confirmava o que Gina acabara de dizer.
— Como foi que ele morreu? — sussurrou Tonks — Como foi que aconteceu?
— Snape o matou — respondeu Harry — Eu estava lá e vi. Voltamos direto para a Torre de Astronomia porque vimos a Marca lá... Dumbledore estava mal, fraco, mas acho que percebeu que era uma armadilha quando ouviu passos rápidos subindo a escada. Ele me imobilizou, não pude fazer nada, estava coberto pela Capa da Invisibilidade... então, Malfoy entrou e desarmou Dumbledore...
Hermione levou as mãos à boca, e Rony gemeu. A boca de Luna tremeu.
—... chegaram mais Comensais da Morte... depois Snape... e Snape o matou. A Avada Kedavra... — Harry não conseguiu prosseguir.
Madame Pomfrey caiu no choro.
Ninguém lhe deu atenção a não ser Gina, que sussurrou:
— Psiu! Escute!
Engolindo em seco, Madame Pomfrey apertou a boca com os dedos, olhos arregalados.
Em algum lugar lá fora, na escuridão, uma Fênix cantava de um jeito que Harry jamais ouvira: um lamento comovido de terrível beleza. E ele sentiu, como antes sentira ao ouvir o canto da fênix, que a música vinha de dentro e não de fora dele: era o seu próprio pesar que se transformava magicamente em canto, ecoava pelos jardins e entrava pelas janelas do castelo.
Quanto tempo ficaram ali escutando, ele não sabia, nem por que o som do próprio luto parecia aliviar um pouco sua dor, mas pareceu ter decorrido um longo tempo até a porta do hospital se abrir e a Profª. McGonagall entrar. Como os demais, ela apresentava marcas da batalha recente: tinha arranhões no rosto e as vestes rasgadas.
— Molly e Arthur estão a caminho — anunciou ela, e o encanto da música se quebrou: todos despertaram como se saíssem de um transe, tornaram a se virar para Gui, ou então esfregaram os olhos, ou sacudiram a cabeça — Harry, que aconteceu? Segundo Hagrid, você estava com o Prof. Dumbledore quando ele... quando aconteceu. Ele diz que o Prof. Snape esteve envolvido em alguma...
— Snape matou Dumbledore — respondeu Harry.
Ela o encarou por um momento, então seu corpo balançou de modo alarmante, Madame Pomfrey, que parecia ter se controlado, acorreu depressa, e, do nada, conjurou uma cadeira que empurrou para baixo de McGonagall.
— Snape — repetiu McGonagall com um fio de voz, desabando na cadeira — Todos nos perguntávamos... mas ele confiava... sempre... Snape... não consigo acreditar...
— Snape era um Oclumente excepcionalmente talentoso — comentou Lupin, sua voz anormalmente áspera — Sempre soubemos disso.
— Mas Dumbledore jurou que ele estava do nosso lado! — sussurrou Tonks — Sempre pensei que Dumbledore soubesse alguma coisa de Snape que ignorávamos...
— Ele sempre insinuou que tinha uma razão inabalável para confiar em Snape — murmurou a Profª. McGonagall, agora secando as lágrimas nos cantos dos olhos com um lenço debruado em tecido escocês — Quero dizer... com o passado de Snape... é claro que as pessoas duvidavam... mas Dumbledore me confirmou, de modo explícito, que o arrependimento de Snape era absolutamente sincero... não queria ouvir uma palavra contra ele.
— Eu adoraria saber o que Snape disse para convencê-lo — comentou Tonks.
— Eu sei — disse Harry, e todos se viraram, encarando-o — Snape passou a Voldemort a informação que fez Voldemort caçar meus pais. Então, Snape disse a Dumbledore que não tinha consciência do que estava fazendo, que lamentava realmente o que tinha feito, lamentava que eles tivessem morrido.
— E Dumbledore acreditou nisso? — perguntou Lupin incrédulo — Acreditou que Snape lamentava a morte de Tiago? Snape odiava Tiago...
— E achava que minha mãe também não valia nada porque tinha nascido trouxa... “Sangue-Ruim”, foi como a chamou...
Ninguém perguntou como Harry sabia disso. Todos pareciam estar absortos no horror da revelação, tentando digerir a verdade monstruosa do que acontecera.
— É tudo minha culpa — disse subitamente a Profª. McGonagall. Ela parecia desorientada, torcia o lenço molhado nas mãos — Minha culpa. Mandei Filio chamar Snape esta noite, mandei buscá-lo para vir nos ajudar! Se eu não tivesse alertado Snape para o que estava acontecendo, talvez ele nunca tivesse se reunido aos Comensais da Morte. Acho que ele não sabia que estavam na escola até Filio lhe contar, acho que Snape não sabia que eles vinham.
— Não é sua culpa, Minerva — disse Lupin com firmeza — Todos queríamos mais ajuda, ficamos contentes quando soubemos que Snape estava a caminho...
— Então, quando chegou ao lugar do confronto, ele se passou para o lado dos Comensais da Morte? — perguntou Harry, que queria saber cada detalhe da duplicidade e infâmia de Snape, reunindo febrilmente mais razões para odiá-lo, para lhe jurar vingança...
— Não sei exatamente como aconteceu — disse a Profª. McGonagall perturbada — É tudo tão confuso... Dumbledore tinha nos dito que ia se ausentar da escola por algumas horas e que devíamos patrulhar os corredores só por precaução... Remo, Gui e Ninfadora viriam se reunir a nós... então patrulhamos. Tudo parecia tranquilo. Todas as passagens secretas para fora da escola estavam vigiadas. Sabíamos que ninguém poderia entrar pelo ar. Havia poderosos encantamentos sobre cada entrada do castelo. Continuo sem saber como é possível que os Comensais da Morte tenham entrado...
— Eu sei — interpôs Harry, e explicou brevemente a existência do par de Armários Sumidouros e a passagem mágica que formavam — Eles entraram pela Sala Precisa.
Quase involuntariamente, ele olhou para Rony e Hermione, que pareciam arrasados.
— Meti os pés pelas mãos, Harry — disse Rony sombriamente — Fizemos o que você pediu: consultamos o Mapa do Maroto e não vimos o Malfoy, e pensamos que devia estar na Sala Precisa, então eu, Gina e Neville fomos montar guarda... mas Malfoy conseguiu passar por nós.
— Ele saiu da Sala mais ou menos uma hora depois que começamos a vigiar — acrescentou Gina — Estava sozinho, segurando aquele horrível braço seco...
— A Mão da Glória — explicou Rony — Só o portador enxerga, lembram?
— De qualquer forma — continuou Gina — Ele devia estar conferindo se a barra estava limpa para deixar os Comensais saírem, porque, no momento em que nos viu, ele lançou alguma coisa no ar e ficou tudo escuro como breu...
— Pó Escurecedor Instantâneo do Peru — esclareceu Rony, com amargura — Do Fred e do Jorge. Vou ter uma conversinha com eles a respeito das pessoas que eles deixam comprar os produtos da loja.
— Tentamos tudo: Lumus, Incêndio — explicou Gina — Nada penetrou a escuridão, só nos restou sair tateando pelo corredor, enquanto ouvíamos gente passar correndo por nós. É óbvio que Malfoy estava enxergando por causa da tal Mão da Glória, e orientou os Comensais, mas não nos atrevemos a lançar feitiços nem nada, com medo de atingirmos a nós mesmos, e até chegarmos a um corredor iluminado, eles já tinham ido embora.
— Sorte a de vocês — disse Lupin rouco — Rony, Gina e Neville toparam conosco quase em seguida e nos contaram o que tinha acontecido. Encontramos os Comensais da Morte minutos depois, a caminho da Torre de Astronomia. É óbvio que Malfoy não esperava que houvesse mais gente vigiando, pelo jeito, tinha esgotado o suprimento de Pó Escurecedor. Lutamos, eles se dispersaram e nós os perseguimos. Um deles, Gibbon, escapou e subiu a escada da Torre...
— Para lançar a Marca? — perguntou Harry.
— Deve ter feito isso, sim, eles devem ter combinado antes de deixarem a Sala Precisa — disse Lupin — Mas acho que Gibbon não gostou da ideia de esperar lá em cima por Dumbledore, sozinho, porque voltou correndo para se juntar aos que estavam lutando e foi atingido por uma Maldição da Morte, que por pouco não me atingiu também.
— Então, enquanto Rony estava vigiando a Sala Precisa com Gina e Neville — perguntou Harry, virando-se para Hermione — Você estava...?
— Na porta do escritório de Snape — sussurrou Hermione, com os olhos cintilantes de lágrimas — Com Luna. Ficamos lá um tempão, e nada... não sabíamos o que estava acontecendo lá em cima, Rony tinha levado o Mapa do Maroto... já era quase meia-noite quando o Prof. Flitwick desceu correndo para as masmorras. Gritava que havia Comensais da Morte no castelo, acho que nem registrou que Luna e eu estávamos ali, adentrou o escritório de Snape e nós o ouvimos dizer ao professor que precisava acompanhá-lo para ir ajudar, então ouvimos um baque forte e Snape saiu disparado da sala e nos viu e... e...
— E aí? — instou Harry.
— Fui tão idiota, Harry! — lamentou Hermione num sussurro agudo — Ele disse que o Prof. Flitwick tinha desmaiado e que devíamos cuidar dele, enquanto ele... enquanto ele ia ajudar a combater os Comensais da Morte...
A garota cobriu o rosto, envergonhada, e continuou a falar por trás dos dedos, o que abafou sua voz.
— Entramos no escritório para ver se podíamos ajudar o Prof. Flitwick e o encontramos inconsciente no chão... e, ali, é tão óbvio agora, Snape deve ter estupefeito Flitwick, mas não percebemos, Harry, não percebemos, deixamos o Snape escapar!
— Não é sua culpa — disse Lupin com firmeza — Hermione, se você não tivesse obedecido e saído do caminho, Snape provavelmente teria matado você e Luna.
— Então ele subiu — continuou Harry, que visualizava Snape correndo pela escadaria de mármore acima, suas vestes negras esvoaçando às costas como sempre, puxando a varinha de baixo da capa enquanto subia — E encontrou o lugar onde todos lutavam...
— Estávamos num apuro, estávamos perdendo — disse Tonks em voz baixa — Gibbon estava fora de combate, mas os outros Comensais pareciam dispostos a lutar até a morte. Neville tinha sido atingido, Gui atacado ferozmente pelo Greyback... estava tudo escuro... voavam feitiços para todo lado... o garoto Malfoy desaparecera, devia ter saído despercebido e subido para a Torre... então outros Comensais correram para acompanhá-lo, mas um deles bloqueou a escada depois de passar com algum feitiço... Neville avançou para a escada e foi atirado no ar...
— Nenhum de nós conseguiu passar — disse Rony — E aquele Comensal grandalhão continuava a disparar feitiços para todo lado, que ricocheteavam nas paredes e por um triz não nos atingiam...
— Então, Snape estava ali — completou Tonks — E em seguida não estava...
— Vi quando vinha correndo em nossa direção, mas logo depois o feitiço daquele enorme Comensal passou por mim, sem me atingir, me abaixei e perdi noção do que estava acontecendo — contou Gina.
— Vi Snape atravessar correndo a barreira mágica como se ela não existisse — disse Lupin — Tentei segui-lo, mas fui jogado para trás exatamente como Neville...
— Ele devia conhecer um feitiço que desconhecíamos — sussurrou McGonagall — Afinal de contas... ele era o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas... presumi que estivesse correndo no encalço dos Comensais da Morte que tinham fugido para o alto da Torre.
— E estava — falou Harry com selvageria — Mas para ajudar, não para deter os Comensais... e aposto como era preciso ter uma Marca Negra para atravessar aquela barreira... então que aconteceu quando ele voltou?
— Bem, o Comensal grandalhão tinha acabado de disparar um feitiço que fez metade do teto ceder, e também desfez o feitiço que bloqueava a escada — relembrou Lupin — Todos avançamos, pelo menos os que ainda estavam de pé, então Snape e o garoto saíram do meio da poeira, obviamente nenhum de nós os atacou...
— Simplesmente os deixamos passar — disse Tonks, quase inaudivelmente — Pensamos que estavam sendo perseguidos pelos Comensais, e, no momento seguinte, os outros Comensais e Greyback estavam voltando e recomeçando a lutar, pensei ter ouvido Snape dizer alguma coisa, mas não entendi...
— Ele gritou “Acabou” — disse Harry — Tinha feito o que pretendia.
Todos se calaram.
O lamento de Fawkes ainda ecoava pela propriedade às escuras. E, enquanto a música ressoava no ar, pensamentos involuntários, indesejáveis, invadiram, sorrateiros, a mente de Harry... será que já tinham retirado o corpo de Dumbledore do pé da Torre? Que será que aconteceria ao corpo em seguida? Onde será que repousaria? Ele apertou as mãos nos bolsos com força. Sentiu a pequenez fria da falsa Horcrux contra as juntas de sua mão direita.
As portas da Ala Hospitalar se abriram de repente, sobressaltando a todos: o Sr. e a Sra. Weasley vinham entrando pela enfermaria, Fleur logo atrás, seu belo rosto aterrorizado.
— Molly... Arthur... — disse a Profª. McGonagall, levantando-se, depressa, para cumprimentá-los — Lamento muito...
— Gui — sussurrou a Sra. Weasley, passando direto pela professora ao avistar o rosto desfigurado do filho — Ah, Gui!
Lupin e Tonks tinham se levantado, ligeiros, e se afastaram para o casal poder se aproximar da cama.
A Sra. Weasley curvou-se para o filho e levou os lábios à testa dele.
— Você disse que Greyback o atacou? — perguntou o Sr. Weasley, aflito, à Profª. McGonagall — Mas não estava transformado? Então, que significa isso? Que acontecerá ao Gui?
— Ainda não sabemos — respondeu a professora, olhando desamparada para Lupin.
— É provável que haja certa contaminação, Arthur — explicou Lupin — É um caso raro, provavelmente único... não sabemos qual será o comportamento dele quando acordar...
A Sra. Weasley tirou o unguento de cheiro acre das mãos de Madame Pomfrey e começou a aplicá-lo nos ferimentos de Gui.
— E Dumbledore... — disse o Sr. Weasley — Minerva, é verdade... ele realmente...?
Quando a Profª. McGonagall confirmou, Harry sentiu um movimento de Gina ao seu lado e se virou. Os olhos da garota ligeiramente apertados estavam fixos em Fleur, que olhava Gui com uma expressão atemorizada no rosto.
— Dumbledore se foi — sussurrou o Sr. Weasley, mas sua mulher só tinha olhos para o filho mais velho, ela começou a soluçar, as lágrimas caindo no rosto mutilado de Gui.
— É claro que a aparência não conta... não é r-realmente importante... mas ele era um g-garotinho tão bonito... e ia se... se casar!
— E qu é qu a senhorr querr dizerr com isse? — perguntou Fleur, repentinamente, em alto e bom som — Qu querr dizerr com “ei ia se casarr”?
A Sra. Weasley ergueu o rosto manchado de lágrimas, parecendo espantada.
— Bem... só que...
— A senhorra ache qu Gui vai desistirr de casarr comigue? — quis saber Fleur — A senhorra ache qu porr cose desses morrdides, ei non vai me amarr?
— Não, não foi o que eu...
Porrqu ele vai! — afirmou Fleur, empertigando-se e jogando seus longos cabelos prateados para trás — Serra prrecise mais qu um lobisome para fazerr Gui deixarrr de me amarr!
— Bem, claro, tenho certeza — respondeu a Sra. Weasley — Mas pensei que talvez... visto que... que ele...
— A senhorr penso qu eu non ia querrerr casarr com ei? U err' esse a su esperrance? — desafiou Fleur, com as narinas tremendo — Qu me imporrte a aparênce dei? Ache qu sou bastante bonite porr nós dois! Todes esses marrcas mostrram qu me marride é corrajose! E eu é qu vou fazerr isse! — acrescentou com ferocidade, empurrando a Sra. Weasley para o lado e arrebatando o unguento das mãos dela.
A Sra. Weasley recuou para junto do marido e ficou observando Fleur tratar dos ferimentos de Gui, com uma expressão muito curiosa no rosto. Ninguém disse nada. Harry nem sequer ousou se mexer. Como os demais, ficou aguardando a explosão.
— Nossa tia-avó Muriel — disse a Sra. Weasley após um longo silêncio —... Tem uma linda tiara, feita pelos duendes... e estou segura que posso convencê-la a lhe emprestar para o casamento. Ela gosta muito do Gui, entende, e a tiara ficaria muito bonita em seus cabelos.
— Muite obrrigade — respondeu Fleur formalmente — Tan certez de qu ficarrá bonite!
E então, Harry não viu direito como aconteceu, as duas mulheres estavam chorando e se abraçando. Completamente desnorteado, pensando que o mundo enlouquecera, o garoto se virou. Rony manifestava tanto aturdimento quanto o que Harry sentia, e Gina e Hermione trocavam olhares chocados.
— Está vendo! — exclamou uma voz cansada.
Tonks olhava aborrecida para Lupin.
— Ela ainda quer casar com Gui, mesmo que ele tenha sido mordido! Ela não se incomoda!
— É diferente — respondeu Lupin, quase sem mover os lábios, parecendo subitamente tenso — Gui não será um lobisomem típico. Os casos são completamente diferentes...
— Mas eu também não me incomodo, nem um pouco! — retrucou Tonks, agarrando Lupin pela frente das vestes e sacudindo-o — Já lhe disse isso um milhão de vezes...
E o significado da alteração no Patrono de Tonks e seus cabelos sem cor, e a razão por que viera correndo procurar Dumbledore quando ouvira falar que alguém fora atacado por Greyback, tudo se tornou repentinamente claro para Harry, afinal não tinha sido por Sirius que Tonks se apaixonara...
— E eu já disse a você um milhão de vezes — respondeu Lupin evitando os olhos dela, encarando o chão — Que sou velho demais para você... pobre demais... perigoso demais...
— E tenho lhe dito o tempo todo que a sua atitude é ridícula, Remo — interpôs a Sra. Weasley por cima do ombro de Fleur, em quem dava palmadinhas carinhosas.
— Não estou sendo ridículo — respondeu Lupin com firmeza — Tonks merece alguém jovem e saudável.
— Mas ela quer você — interpôs o Sr. Weasley com um sorrisinho — Afinal de contas, Remo, os homens jovens e saudáveis não permanecem sempre assim.
Ele fez um gesto triste para o filho, deitado entre eles.
— Este não... não é o momento para discutir o assunto — replicou Lupin, evitando os olhares de todos e olhando, aflito, para os lados — Dumbledore está morto...
— Dumbledore teria se sentido o mais feliz dos homens em pensar que havia um pouco mais de amor no mundo — disse secamente a Profª. McGonagall, no momento em que as portas da enfermaria tornaram a se abrir e Hagrid entrou.
A pequena parte de seu rosto que não estava sombreada por cabelos ou barba estava molhada e inchada; o pranto o sacudia, na mão trazia um enorme lenço manchado.
— Fiz... fiz o que mandou, professora — disse com a voz sufocada — Re-removi ele. A Profª. Sprout fez a garotada voltar para a cama. O Prof. Flitwick está descansando, mas diz que logo estará bem, e o Prof. Slughorn diz que o Ministério foi informado.
— Obrigada, Hagrid — a Profª. McGonagall se levantou imediatamente e voltou sua atenção para o grupo em torno da cama de Gui — Terei de ver o pessoal do Ministério quando chegar, Hagrid, por favor avise os diretores das Casas... Slughorn pode representar a Sonserina... de que quero vê-los sem demora no meu escritório. Gostaria que você se reunisse a nós, também.
Ao ver Hagrid assentir, dar as costas e sair da enfermaria arrastando os pés, ela olhou para Harry.
— Antes de me reunir com o Ministério, eu gostaria de dar uma palavrinha rápida com você, Harry. Se quiser me acompanhar...
Harry se ergueu, murmurou um “vejo vocês daqui a pouco” para Rony, Hermione e Gina, e saiu da enfermaria com a Profª. McGonagall. Os corredores estavam desertos, e o único som era o distante canto da Fênix. Passaram-se vários minutos até Harry tomar consciência de que não estavam seguindo para o escritório da Profª. McGonagall, mas para o de Dumbledore, e mais alguns segundos até ele se lembrar que, claro, ela era subdiretora... e, pelo visto, agora a diretora... portanto, a sala atrás da gárgula agora lhe pertencia...
Em silêncio, eles subiram a escada móvel em espiral e entraram no escritório redondo. Ele não sabia o que esperar: que a sala tivesse cortinas pretas, talvez, ou mesmo que o corpo de Dumbledore estivesse ali. De fato, a sala estava quase exatamente igual ao que era, quando ele e Dumbledore a deixaram apenas horas antes: os instrumentos de prata zumbiam e soltavam fumaça sobre as mesas de pernas finas, a espada de Gryffindor, em sua caixa de vidro, refulgia ao luar, o Chapéu Seletor estava na prateleira, atrás da escrivaninha. Mas o poleiro de Fawkes estava vazio, a fênix continuava a cantar o seu lamento nos jardins.
E um novo retrato se reunira às fileiras de diretores e diretoras de Hogwarts já falecidos... Dumbledore dormia em uma moldura dourada sobre a escrivaninha, seus oclinhos de meia-lua encarapitados no nariz torto, parecendo em paz e despreocupado.
Depois de olhar uma vez para o retrato, a Profª. McGonagall fez um gesto estranho, como se estivesse se revestindo de coragem, e, em seguida, contornou a escrivaninha para olhar de frente para Harry, seu rosto tenso e enrugado.
— Harry — disse ela — Eu gostaria de saber o que você e o Prof. Dumbledore estiveram fazendo hoje à noite quando se ausentaram da escola.
— Não posso responder, professora — ele já esperava a pergunta e tinha a resposta pronta.
Fora ali, naquela mesma sala, que Dumbledore lhe recomendara que não confiasse o teor de suas aulas a ninguém, exceto a Rony e Hermione.
— Harry, talvez seja importante.
— E é muito, mas ele não queria que eu contasse a ninguém.
A professora lançou-lhe um olhar penetrante.
— Potter — Harry registrou o uso do seu sobrenome — À luz da morte do Prof. Dumbledore, acho que você deve entender que a situação mudou um pouco...
— Acho que não — respondeu Harry, encolhendo os ombros — O Prof. Dumbledore nunca me disse que parasse de seguir suas ordens se ele morresse.
— Mas...
— Mas tem uma coisa que a senhora precisa saber antes que o Ministério chegue aqui. Madame Rosmerta está dominada pela Maldição Imperius, esteve ajudando Malfoy e os Comensais da Morte, foi assim que o colar e o hidromel envenenado...
— Rosmerta? — exclamou a Profª. McGonagall incrédula, mas, antes que pudesse prosseguir, ouviram uma batida na porta e os professores Sprout, Flitwick e Slughorn entraram na sala, seguidos por Hagrid, que ainda chorava copiosamente, seu corpanzil sacudindo de pesar.
— Snape! — exclamou Slughorn, que parecia abaladíssimo, pálido e suado — Snape! Fui professor dele! Pensei que o conhecia!
Antes, porém, que algum deles pudesse reagir, uma voz enérgica falou do alto da parede: um bruxo de rosto macilento e franja preta e curta acabara de regressar ao seu quadro vazio.
— Minerva, o Ministro estará aqui dentro de segundos, ele acabou de desaparatar do Ministério.
— Obrigada, Everardo.
E a Profª. McGonagall se virou imediatamente para os professores.
— Quero falar sobre o que acontecerá com Hogwarts antes que ele chegue — disse depressa — Pessoalmente, não estou convencida de que a escola deva reabrir no próximo ano. A morte do diretor pelas mãos de um de nossos colegas é uma mácula terrível na história de Hogwarts. É abominável.
— Tenho certeza de que Dumbledore teria querido manter a escola aberta — disse a Profª. Sprout — Acho que se um único aluno quiser frequentá-la, a escola deverá estar aberta para este aluno.
— Mas será que teremos um único aluno depois disso? — perguntou Slughorn, agora secando a testa suada com um lenço de seda — Os pais vão querer manter os filhos em casa, e não posso culpá-los. Pessoalmente, acho que não corremos maior perigo em Hogwarts do que em qualquer outro lugar, mas não se pode esperar que as mães pensem o mesmo. Vão querer manter suas famílias reunidas, o que é muito natural.
— Concordo — disse a Profª. McGonagall — De qualquer forma, não é verdade que Dumbledore nunca tenha considerado uma situação em que Hogwarts pudesse fechar. Quando a Câmara Secreta reabriu, ele cogitou fechar a escola: e devo dizer que o homicídio do Prof. Dumbledore, para mim, é mais chocante do que a ideia do monstro de Slytherin vivendo à solta nas entranhas do castelo...
— Devemos ouvir o conselho diretor — propôs o Prof. Flitwick, com a sua voz fininha, tinha um grande hematoma na testa, mas, sob outros aspectos, parecia não ter sido afetado pela queda no escritório de Snape — Precisamos seguir os procedimentos de praxe. Não se deve tomar uma decisão precipitada.
— Hagrid, você ainda não disse nada — observou a Profª. McGonagall — Qual é a sua opinião, Hogwarts deve permanecer aberta?
Hagrid, que, durante a conversa, estivera chorando silenciosamente no grande lenço manchado, agora ergueu os olhos inchados e vermelhos e respondeu, rouco:
— Não sei, professora... os diretores das Casas e a diretora da escola é que devem decidir...
— O Prof. Dumbledore sempre prezou as suas opiniões — tornou a Profª. McGonagall gentilmente — E eu também.
— Bem, eu vou continuar aqui.
Grandes lágrimas ainda vazavam pelos cantos de seus olhos e escorriam para a barba emaranhada.
— É a minha casa, tem sido minha casa desde os treze anos. E se tiver garotos querendo aprender comigo, eu vou ensinar. Mas... não sei... Hogwarts sem Dumbledore...
Ele engoliu em seco e desapareceu mais uma vez por trás do lenço, e todos silenciaram.
— Muito bem — disse a Profª. McGonagall, espiando os jardins pela janela para ver se o Ministro já vinha chegando — Então concordo com Filio que o certo será ouvir o conselho diretor, que tomará a decisão final. Agora, quanto a mandar os estudantes para casa... há razões em favor de antecipar em vez de adiar a partida. Poderíamos programar o Expresso de Hogwarts para amanhã se for necessário...
— E os funerais de Dumbledore? — perguntou Harry, finalmente falando.
— Bem... — disse a Profª. McGonagall, perdendo um pouco de sua vivacidade ao sentir a voz tremer — Eu... eu sei que era desejo de Dumbledore ser enterrado aqui, em Hogwarts...
— Então, é o que acontecerá, não? — perguntou Harry impetuosamente.
— Se o Ministério achar apropriado. Nenhum outro diretor jamais foi...
— Nenhum outro diretor jamais contribuiu tanto para esta escola — resmungou Hagrid.
— Hogwarts deveria ser a morada final de Dumbledore — disse o Prof. Flitwick.
— Sem a menor dúvida — concordou a Profª. Sprout.
— E, neste caso — argumentou Harry — A senhora não deveria mandar os estudantes para casa até terminarem os funerais. Eles vão querer se...
A última palavra ficou presa em sua garganta, mas a Profª. Sprout completou a frase para ele.
— Despedir.
— Bem observado — esganiçou-se o Prof. Flitwick — Realmente bem observado! Nossos estudantes deveriam prestar homenagens, seria acertado. Podemos providenciar o transporte para casa depois.
— Apoiado — bradou a Profª. Sprout.
— Presumo... sim... — disse Slughorn, agitado, enquanto Hagrid concordava, deixando escapar um soluço estrangulado.
— Ele está chegando — anunciou a Profª. McGonagall de repente, olhando para os jardins — O Ministro... e, pelo visto, trouxe uma delegação.
— Posso ir, professora? — perguntou Harry na mesma hora.
O garoto não tinha o mínimo desejo de ver Scrimgeour, ou ser interrogado por ele, essa noite.
— Pode, e vá depressa.
Ela andou até a porta e abriu-a para Harry. Ele desceu ligeiro a escada espiral e continuou pelo corredor deserto, deixara a Capa da Invisibilidade na Torre de Astronomia, mas não fazia diferença, não havia ninguém nos corredores para vê-lo passar, nem mesmo Filch, Madame Nora ou Pirraça. Não encontrou vivalma até virar para o corredor que levava à Sala Comunal da Grifinória.
— É verdade? — sussurrou a Mulher Gorda quando ele se aproximou — É realmente verdade? Dumbledore... morto?
— É.
Ela soltou um lamento e, sem esperar pela senha, girou para admiti-lo.
Tal como Harry suspeitara, a Sala Comunal estava lotada. E silenciou quando ele passou pelo buraco do retrato. Ele notou Dino e Simas sentados em um grupo próximo: isto significava que o dormitório devia estar vazio ou quase. Sem falar com ninguém, nem olhar diretamente para colega algum, Harry passou direto pela sala e pela porta que levava aos dormitórios dos garotos.
Conforme desejara, Rony o aguardava sentado na cama, e ainda vestido. Harry se acomodou na própria cama e, por um momento, eles apenas se encararam.
— Estão falando em fechar a escola — disse Harry.
— Lupin falou que fariam isso — comentou Rony.
Houve uma pausa.
— Então? — perguntou Rony muito baixinho, como se achasse que a mobília poderia estar ouvindo — Vocês encontraram uma? Conseguiram pegá-la? Uma... uma Horcrux?
Harry sacudiu negativamente a cabeça. Tudo que se passara naquele lago escuro parecia agora um pesadelo muito antigo, teria mesmo acontecido, e apenas há algumas horas?
— Não conseguiram pegá-la? — Rony pareceu desconcertado — Não estava lá?
— Não — respondeu Harry — Alguém já tinha levado e deixado uma imitação no lugar.
— Já tinha levado...?
Em silêncio, Harry tirou o medalhão falso do bolso, abriu-o e entregou-o a Rony. A história completa poderia esperar... não tinha importância essa noite... nada tinha importância exceto o fim, o fim de sua aventura sem sentido, o fim da vida de Dumbledore...
— R.A.B. — sussurrou Rony — Mas quem é?
— Não sei — respondeu Harry, deitando-se na cama inteiramente vestido e olhando para o teto estupidamente.
Não sentia a menor curiosidade pelo tal R.A.B., duvidava que voltasse a sentir curiosidade na vida. Deitado ali, ele percebeu subitamente que os jardins estavam silenciosos.
Fawkes parara de cantar.
E ele soube, sem saber como sabia, que a fênix partira, deixara Hogwarts para sempre, da mesma forma que Dumbledore deixara a escola, deixara o mundo... deixara Harry.







________________________