terça-feira, 4 de setembro de 2012

Harry Potter e o Enigma do Príncipe - Capítulo 11





— CAPITULO ONZE —
A Ajudinha de Hermione



TAL COMO HERMIONE PREVIRA, os períodos livres do sexto ano não eram as horas de abençoada descontração imaginadas por Rony, mas aquelas em que se tentava dar conta da vasta quantidade de deveres que eram passados.
Não somente eles estavam estudando como se tivessem exames diariamente, mas as aulas em si estavam exigindo mais do que nunca. Harry mal entendia metade do que a Profª. McGonagall dizia ultimamente, até Hermione precisava lhe pedir para repetir as instruções uma ou duas vezes.
Por incrível que pudesse parecer, e para a raiva crescente de Hermione, de repente Poções se tornara a matéria em que Harry se saía melhor, graças ao Príncipe Mestiço.
Agora esperavam que os alunos realizassem feitiços não-verbais, não apenas em Defesa Contra as Artes das Trevas, mas em Feitiços e Transfiguração também.
Era frequente Harry olhar para os colegas na Sala Comunal, ou à hora das refeições, e constatar que o esforço os deixava púrpura, como se tivessem exagerado em o-aperto-você-sabe-onde, embora ele soubesse que, na realidade, estavam tentando realizar feitiços sem pronunciar os encantamentos em voz alta.
Era um alívio ir para as estufas, em Herbologia estavam lidando com plantas mais perigosas que nunca, mas pelo menos tinham permissão de xingar em voz alta se um dos Tentáculos Venenosos os agarrasse inesperadamente pelas costas.
Um dos resultados da enorme carga de trabalho e das horas frenéticas em que praticavam feitiços não-verbais foi que Harry, Rony e Hermione não tinham arranjado tempo para visitar Hagrid até aquele momento. Ele parara de fazer refeições à Mesa dos Professores, um mau sinal, e, nas poucas ocasiões em que tinham se encontrado nos corredores ou nos jardins, misteriosamente ele não os vira nem ouvira seus cumprimentos.
— Precisamos ir nos explicar — disse Hermione, olhando para a enorme cadeira vazia de Hagrid, à Mesa dos Professores, ao café da manha do Sábado seguinte.
— Hoje de manhã temos os testes de quadribol! — lembrou Rony — E devíamos estar praticando o Feitiço Aguamenti para o Flitwick! Mas, afinal, explicar o quê? Como é que vamos dizer a ele que detestávamos aquela matéria idiota?
— Não detestávamos! — protestou Hermione.
— Fale por você, eu ainda não me esqueci dos explosivins — replicou Rony de mau humor — E vou dizer uma coisa, escapamos por pouco. Você não ouviu Hagrid falando daquele irmão retardado dele: se tivéssemos ficado, íamos acabar ensinando o Grope a amarrar os cordões dos sapatos.
— Odeio essa história de não falar com o Hagrid — exclamou Hermione aborrecida.
— Iremos até lá depois dos testes de quadribol — Harry tranquilizou-a. Ele também sentia falta de Hagrid, embora, como Rony, achasse que estavam melhor sem o Grope em suas vidas — Mas, pelo número de pessoas que se inscreveram, os testes podem levar a manhã toda — sentia-se ligeiramente nervoso com a ideia de enfrentar sua primeira tarefa como capitão — Não sei por que de repente a equipe ficou tão popular.
— Ah, fala sério, Harry — impacientou-se Hermione — Não foi o Quadribol que ficou popular, foi você! Você nunca foi tão interessante e, para ser sincera, nunca foi tão desejável.
Rony engasgou com um pedaço grande demais de peixe salgado. Hermione lançou-lhe um olhar de desprezo e retomou a conversa com Harry.
— Agora todo o mundo sabe que você esteve dizendo a verdade, não é? O mundo bruxo teve de admitir que você estava certo sobre o retorno de Voldemort e que realmente o enfrentou duas vezes nos últimos dois anos, e sobreviveu às duas. E agora estão chamando você de “o Eleito”: bem, fala sério, você não entende por que as pessoas estão fascinadas por você?
De repente Harry começou a achar o Salão Principal muito quente, embora o teto ainda se apresentasse frio e chuvoso.
— E sofreu toda aquela perseguição do Ministério que tentou passar a imagem de que você era instável e mentiroso. Ainda dá para ver as marcas das detenções em que aquela mulher maligna fez você escrever com o próprio sangue, mas você sustentou sua história...
— Ainda dá para ver as marcas deixadas pelos cérebros que me agarraram no Ministério, olhe — disse Rony, sacudindo as mangas para cima.
— E não foi nada mal você ter crescido uns trinta centímetros no verão — concluiu Hermione, sem dar atenção a Rony.
— Eu sou alto — insistiu Rony ilogicamente.
O correio-coruja chegou, as aves mergulharam pelas janelas salpicadas de chuva, espalhando pingos de água em todo o mundo. A maioria dos alunos estava recebendo mais correspondência que o normal, pais ansiosos queriam saber notícias dos filhos e, por sua vez, tranquilizá-los de que tudo corria bem em casa.
Harry não recebera nada desde o início do trimestre, seu único correspondente habitual agora estava morto e, embora ele tivesse alimentado esperanças de que Lupin fosse lhe escrever ocasionalmente, até ali tinha se desapontado. Ficou, portanto, muito surpreso, ao ver a alvíssima Edwiges circular entre as corujas castanhas e cinzentas. A ave pousou diante dele trazendo um embrulho grande e quadrado. Um instante depois, um embrulho idêntico foi deixado à frente de Rony, esmagando sob o seu peso sua coruja minúscula e exausta, Pichitinho.
— Ah! — exclamou Harry abrindo o embrulho e encontrando um exemplar novo de Estudos Avançados no Preparo de Poções enviado pela Floreios e Borrões.
— Que bom — disse Hermione, satisfeita — Agora você pode devolver aquele exemplar rabiscado.
— Ficou maluca? Não vou devolver nada! Olhe, estive pensando...
Harry tirou o exemplar velho de dentro da mochila e deu um toque de varinha na capa, murmurando: “Diffindo!”. A capa se soltou. Ele fez o mesmo com o exemplar novo (Hermione ficou escandalizada). Trocou então as capas, deu um toque de varinha em cada uma e disse: “Reparo!”. Ali estava o exemplar do Príncipe, disfarçado de livro novo, e o exemplar novo da Floreios e Borrões, parecendo de segunda mão.
— Vou devolver o novo a Slughorn. Ele não pode se queixar, custou nove galeões.
Hermione comprimiu os lábios, expressando sua raiva e desaprovação, mas foi distraída por uma terceira coruja que pousou à sua frente trazendo o exemplar do Profeta Diário. Abriu-o depressa e correu os olhos pela primeira página.
— Morreu alguém conhecido? — perguntou Rony num tom deliberadamente displicente, fazia a mesma pergunta toda vez que a amiga abria o jornal.
— Não, mas houve novos ataques de dementadores. E uma prisão.
— Excelente, de quem? — perguntou Harry, pensando em Belatriz Lestrange.
— Stanislau Shunpike — informou Hermione.
— Quê? — exclamou Harry pasmo.
“Stanislau Shunpike, condutor do popular transporte bruxo Nôitibus, foi preso sob suspeita de atividades ligadas aos Comensais da Morte. O Sr. Shunpike, 21 anos, foi detido ontem à noite após uma blitz na casa dos Clapham...”
— O Lalau, Comensal da Morte? — admirou-se Harry lembrando o rapaz espinhento que conhecera três anos antes — Nem pensar!
— Ele podia estar dominado por uma Maldição Imperius — argumentou Rony — Nunca se sabe.
— Parece que não — replicou Hermione, que continuava lendo — Diz aqui que ele foi preso depois que o ouviram conversar sobre os planos secretos dos Comensais da Morte em um bar — ela ergueu a cabeça com uma expressão perturbada no rosto — Se estivesse mesmo dominado por uma Maldição Imperius, ele jamais ficaria por aí fofocando sobre os planos deles, não é?
— Pelo jeito, ele estava tentando fingir que sabia mais do que realmente sabia — falou Rony — Não foi ele que disse que ia ser Ministro da Magia quando estava paquerando aquelas veelas?
— É, foi — respondeu Harry — Não sei que brincadeira é essa de levarem o Lalau a sério.
— Provavelmente o Ministério quer mostrar serviço — comentou Hermione franzindo a testa — As pessoas estão aterrorizadas: você soube que os pais das gêmeas Patil querem que elas voltem para casa? E já tiraram Heloísa Midgeon da escola. O pai a levou ontem à noite.
— Quê! — exclamou Rony arregalando os olhos para Hermione — Mas Hogwarts é mais segura do que a casa dos alunos, tem de ser! Temos aurores e todos aqueles feitiços de proteção a mais, e temos Dumbledore!
— Acho que não temos Dumbledore o tempo todo — replicou Hermione muito baixinho, olhando para a Mesa dos Professores por cima do Profeta — Você ainda não reparou? Na semana passada a cadeira dele esteve vazia tantas vezes quanto a de Hagrid.
Harry e Rony olharam para a mesa dos professores. A cadeira do diretor estava de fato desocupada. Agora que parava para pensar, Harry não via Dumbledore desde a aula particular da semana anterior.
— Acho que ele saiu para resolver algum assunto na Ordem — arriscou Hermione em voz baixa — Quero dizer... as coisas parecem bem sérias, não é?
Harry e Rony não responderam, mas Harry sabia que estavam pensando a mesma coisa. Acontecera um incidente horrível na véspera: tinham chamado Ana Abbott na aula de Herbologia para lhe informar que a mãe fora encontrada morta. Desde então, não tinham mais visto a colega.
Quando deixaram a mesa da Grifinória, cinco minutos depois, para ir ao campo de quadribol, passaram por Lilá Brown e Parvati Patil. Harry, lembrando o comentário de Hermione de que os pais das gêmeas Patil queriam tirá-las de Hogwarts, não se surpreendeu ao ver as duas grandes amigas cochichando, aflitas.
O que o surpreendeu foi ver Parvati de repente cutucar Lilá, quando Rony emparelhou com elas, e Lilá se virar e dar um enorme sorriso para o garoto. Rony piscou e, hesitante, retribuiu o sorriso. Instantaneamente, mudou o seu modo de andar, empertigando-se como um pavão.
Harry resistiu à tentação de rir, lembrando que o amigo também se controlara quando Malfoy lhe quebrara o nariz, Hermione, no entanto, assumiu um ar frio e distante durante a descida para o estádio sob a chuva fria e nevoenta, e saiu para procurar um lugar nas arquibancadas, sem desejar boa sorte a Rony.
Conforme Harry previra, os testes ocuparam a maior parte da manhã.
Metade dos alunos da Grifinória parecia ter comparecido, desde os do primeiro ano, que seguravam nervosos uma seleção de horríveis vassouras velhas de escola, até os do sétimo, que, por serem muito mais altos que os demais, aparentavam um ar tranquilo e superior. Este último grupo incluía um rapaz robusto de cabelos duros que Harry imediatamente reconheceu do Expresso de Hogwarts.
— A gente se encontrou no trem, no compartimento do velho Slugue — disse ele, confiante, destacando-se da multidão para apertar a mão de Harry — Córmaco McLaggen, goleiro.
— Você não fez teste o ano passado, fez? — perguntou Harry, notando a corpulência de McLaggen e considerando que ele provável mente bloquearia os três aros de gol sem sequer se mexer.
— Eu estava na Ala Hospitalar quando fizeram os testes — disse McLaggen, expressando segurança — Comi meio quilo de ovos de fada mordente para ganhar uma aposta.
— Certo — disse Harry — Bem... se puder esperar lá...
Ele apontou para a lateral do campo, perto do lugar em que Hermione estava sentada. Pensou ter visto uma ligeira contrariedade perpassar a fisionomia de McLaggen, e ficou imaginando se o colega esperava um tratamento preferencial pelo fato de serem ambos favoritos do “velho Sluguinho”.
Harry resolveu começar por um teste básico, pedindo aos candidatos para se dividirem em grupos de dez e voarem uma vez em volta do campo.
Foi uma boa decisão: os dez primeiros eram calouros e não poderia ter ficado mais claro que não estavam habituados a voar. Apenas um dos garotos conseguiu se manter no ar por mais de alguns segundos, e foi tal a sua surpresa que ele em seguida bateu em uma das balizas.
O segundo grupo era formado por dez das garotas mais bobas que Harry já encontrara na vida e que, quando ele apitou, simplesmente ficaram rindo demais e se agarrando umas nas outras. Entre elas, Romilda Vane. Quando mandou-as sair do campo, obedeceram muito contentes e foram sentar nas arquibancadas, de onde ficaram perturbando todo o mundo.
O terceiro grupo engavetou na metade da volta em torno do campo.
A maior parte do quarto grupo não tinha trazido vassouras.
O quinto grupo era formado por alunos da Lufa-Lufa.
— Se tiver mais alguém aqui que não seja da Grifinória — berrou Harry, que estava começando a se sentir seriamente aborrecido — Por favor, se retire agora!
Fez-se silêncio e logo dois aluninhos da Corvinal saíram correndo do campo, abafando risadinhas.
Depois de duas horas, muitas reclamações e vários acessos de raiva, um deles envolvendo uma Comet 260 acidentada e vários dentes partidos, Harry descobrira três artilheiros: Cátia Bell, que voltava ao time após um excelente teste, uma novata, Demelza Robins, particularmente ágil em se desviar de balaços, e Gina Weasley, que voara melhor que todos os candidatos e, de quebra, marcara dezessete gols. Harry, embora satisfeito com suas escolhas, ficara rouco de tanto gritar com os muitos descontentes, e agora estava enfrentando batalha semelhante com os batedores recusados.
— Esta é a minha decisão final, e se não desimpedirem o campo para os goleiros, vou azarar todos vocês — urrou ele.
Nenhum dos batedores selecionados possuía a antiga genialidade de Fred e Jorge, mas Harry ficou razoavelmente satisfeito: Jaquito Peakes, um terceiranista baixo, mas de peito largo que conseguira fazer um galo do tamanho de um ovo na nuca de Harry batendo um balaço com ferocidade, e Cadu Coote, que parecia franzino mas tinha boa pontaria. Eles agora tinham ido se reunir aos outros nas arquibancadas para acompanhar a seleção do último membro da equipe.
De propósito, Harry deixara o teste dos goleiros para o fim, na esperança de ter um estádio menos cheio e menos pressão sobre os envolvidos. Infelizmente, porém, todos os candidatos recusados e um bom número de pessoas que aparecera para assistir aos testes depois de um demorado café da manhã tinham engrossado a multidão, agora maior que nunca. Quando um goleiro voava até as balizas, a multidão incentivava ou vaiava com igual disposição.
Harry olhou para Rony, que não conseguia controlar seu nervosismo. Tivera esperança de que a vitória na partida decisiva do semestre anterior o curasse, mas agora via que não: um delicado tom de verde coloria o rosto do amigo.
Nenhum dos primeiros cinco candidatos pegou mais de dois gols cada. Para grande desapontamento de Harry, Córmaco McLaggen defendeu quatro dos cinco lançamentos. No último, no entanto, voou exatamente na direção oposta, a multidão riu e vaiou, e o rapaz voltou para o chão rangendo os dentes.
Rony parecia prestes a desmaiar, quando montou a sua Cleansweep Onze.
— Boa sorte! — gritou uma voz das arquibancadas.
Harry se virou esperando ver Hermione, mas era Lilá Brown. Ele teria gostado muito de tapar o rosto com as mãos, como fez a garota pouco depois, mas achou que, como capitão, devia demonstrar um pouco mais de coragem, e preparou-se para assistir ao teste de Rony.
Não precisava ter se preocupado: o amigo defendeu uma, duas, três, quatro, cinco penalidades seguidas. Feliz e se contendo a custo para não fazer coro aos gritos da multidão, Harry se voltou para McLaggen para lhe comunicar que, infelizmente, Rony o vencera, mas deparou com a cara vermelha do rapaz a centímetros da sua. Recuou rápido.
— A irmã dele não se empenhou de verdade — disse McLaggen em tom de ameaça. Havia uma veia latejando em sua têmpora como a que Harry muitas vezes admirara no Tio Válter — Ela facilitou para o irmão.
— Besteira — replicou Harry friamente. — Esse foi o que ele quase perdeu.
McLaggen chegou mais perto de Harry, que desta vez enfrentou-o.
— Me dá outra chance.
— Não, você teve a sua chance. Defendeu quatro. Rony defendeu cinco. Rony é o goleiro, ele conquistou o lugar honestamente. Saia da minha frente.
Harry pensou por um momento que o rapaz fosse lhe dar um soco, mas ele se contentou em fazer uma careta e se afastou, enfurecido, aparentemente vociferando ameaças para o ar.
Quando Harry se virou, encontrou a nova equipe sorrindo para ele.
— Parabéns — disse rouco — Vocês voaram realmente bem...
— Você foi genial, Rony!
Desta vez era realmente Hermione que vinha correndo das arquibancadas, Harry viu Lilá sair do campo com Parvati, com uma expressão mal-humorada no rosto.
Rony parecia extremamente prosa e até mais alto do que o normal ao se virar sorrindo para a equipe e para Hermione.
Depois de marcar o primeiro treino para a Quinta-Feira seguinte, Harry, Rony e Hermione se despediram do resto da equipe e se dirigiram à casa de Hagrid.
Um sol aguado tentava romper as nuvens, agora que finalmente parara de chuviscar. Harry sentia muita fome, esperava que houvesse alguma coisa para comer na casa de Hagrid.
— Pensei que ia perder o quarto pênalti — comentou Rony contente — Foi um arremesso esperto da Demelza, você viu, com um ligeiro efeito...
— Foi, foi, você foi magnífico — disse Hermione, parecendo achar graça.
— Fui melhor que o McLaggen — disse ele em tom muito satisfeito — Vocês viram ele saindo na direção oposta no quinto? Parecia que tinha sido confundido...
Para surpresa de Harry, Hermione ficou muito vermelha ao ouvir isso. Rony não notou, estava ocupado demais descrevendo carinhosamente cada uma das penalidades em detalhe.
O enorme hipogrifo cinzento, Bicuço, estava amarrado à frente da cabana de Hagrid. Bateu o afiadíssimo bico quando os garotos se aproximaram virando a cabeçorra para eles.
— Nossa! — exclamou Hermione nervosa — Ele ainda dá medo, não acham?
— Fala sério, você já montou nele! — disse Rony.
Harry se adiantou e fez uma profunda reverência para o hipogrifo, mantendo o contato visual com o animal, sem piscar. Segundos depois, Bicuço se curvou também.
— Como vai indo? — perguntou Harry em voz baixa, aproximando-se para acariciar as penas de sua cabeça — Sente falta dele? Mas você está bem aqui com o Hagrid, não é verdade?
— Oi! — gritou uma voz.
Hagrid saíra de um canto da cabana usando um grande avental florido e trazendo um saco de batatas na mão. Seu enorme cão, Canino, que o acompanhava de perto, deu um tremendo latido e avançou para os garotos.
— Para trás! Ele vai comer seus dedos... ah, são vocês.
Canino cumprimentava Hermione e Rony aos pulos, tentando lamber suas orelhas.
Hagrid parou, olhou-os por uma fração de segundo, e depois virou as costas e entrou na cabana batendo a porta.
— Ah, não! — exclamou Hermione, apreensiva.
— Não se preocupem — disse Harry mal-humorado, indo até a porta e batendo com força — Hagrid! Abre, queremos falar com você!
Não houve resposta dentro da casa.
— Se você não abrir a porta, vamos arrombá-la! — ameaçou Harry puxando a varinha.
— Harry! — exclamou Hermione chocada — Não é possível...
— É, sim! — retrucou Harry — Cheguem para trás...
Mas, antes que pudesse continuar a falar, a porta se escancarou e Hagrid surgiu com um ar agressivo e, apesar do avental florido, decididamente assustador.
— Sou um professor! — urrou para Harry — Um professor, Potter! Como se atreve a ameaçar arrombar minha porta!
— Peço desculpas, senhor — disse Harry, sublinhando a última palavra enquanto guardava a varinha no bolso interno das vestes.
Hagrid pareceu confuso.
— Desde quando você me chama de “senhor”?
— Desde quando você me chama de “Potter”?
— Ah, muito esperto — rosnou Hagrid — Muito engraçado. Ganhou, não é? Muito bem, então entrem, seus ingratinhos...
Resmungando sombriamente, ele recuou para deixá-los passar. Hermione entrou depressa atrás de Harry, muito assustada.
— Então — disse Hagrid rabugento, enquanto Harry, Rony e Hermione se sentavam à sua enorme mesa de madeira.
Canino descansou imediatamente a cabeça no joelho de Harry, babando-lhe as vestes.
— Que foi? Sentiram pena de mim? Concluíram que eu estava solitário ou outra coisa qualquer?
— Não — retorquiu Harry — Queríamos ver você.
— Sentimos saudades de você — disse Hermione, trêmula.
— Sentiram saudades, foi? — perguntou Hagrid, bufando — Tá. Tá bem.
Ele andou pisando forte pela casa, preparando o chá em sua enorme chaleira de cobre, entre resmungos. Por fim, bateu na mesa, diante dos garotos, três canecas, verdadeiros baldes, cheias de chá escuro, e um prato de bolinhos duros com frutas secas. A fome de Harry era suficiente até para encarar a comida de Hagrid, e ele se serviu logo.
— Hagrid — arriscou Hermione timidamente, quando ele veio se sentar à mesa e começou a descascar batatas com uma violência tal que sugeria que cada uma lhe fizera uma grande afronta — Nós queríamos continuar a estudar Trato das Criaturas Mágicas, sabe.
Hagrid deu outro enorme bufo pelo nariz. Harry pensou ter visto algumas melecas irem parar nas batatas e intimamente agradeceu que não fosse ficar para jantar.
— Queríamos, sim! — insistiu Hermione — Mas não conseguimos encaixar sua matéria nos nossos horários!
— É, sei — tornou a concordar Hagrid.
Houve um estranho ruído de sucção e todos se viraram para olhar: Hermione deixou escapar um gritinho, e Rony saltou da cadeira, deu a volta à mesa e foi examinar uma barrica a um canto, em que tinham acabado de reparar. Estava cheia de bichos que se contorciam e lembravam larvas de trinta centímetros de comprimento, brancas e viscosas.
— Que é isso, Hagrid? — perguntou Harry, tentando parecer interessado em vez de enojado, mas largando o seu bolinho.
— Vermes gigantes — respondeu ele.
— E quando eles crescem viram...? — indagou Rony, apreensivo.
— Não viram nada, comprei esses para alimentar Aragogue.
E, inesperadamente, ele caiu no choro.
— Hagrid! — exclamou Hermione, levantando-se e contornando a mesa para evitar a barrica e abraçar o amigo pelos ombros trêmulos — Que aconteceu?
— Ele... — Hagrid engoliu em seco, seus olhos de besouro vertendo lágrimas ao mesmo tempo que enxugava o rosto com o avental —... Aragogue... acho que está morrendo... ficou doente no verão e não melhorou... não sei o que vou fazer se ele... se ele... estamos juntos há tanto tempo...
Hermione deu palmadinhas carinhosas no ombro de Hagrid, parecendo completamente perdida, sem saber o que dizer. Harry sabia como ela estava se sentindo. Já tinha visto Hagrid presentear um dragão-bebê feroz com um ursinho de pelúcia, já o tinha visto ninar enormes escorpiões com sugadores e ferrões, tentar argumentar com o brutamontes estúpido que era seu irmão, mas esta agora talvez fosse a sua fantasia com monstros mais incompreensível: Aragogue, a gigantesca aranha falante que morava no âmago da Floresta Proibida e da qual ele e Rony tinham escapado por um triz fazia quatro anos.
— Tem alguma... tem alguma coisa que a gente possa fazer? — perguntou Hermione, desconsiderando os frenéticos acenos de cabeça e caretas de Rony.
— Acho que não, Hermione — respondeu Hagrid com a voz sufocada, tentando conter o dilúvio de lágrimas — Sabe, o resto da tribo... da família de Aragogue... está ficando meio esquisita, agora que ele está doente... meio intratável...
— Sei, acho que conhecemos um pouco esse lado deles — insinuou Rony.
—... acho que não seria seguro para ninguém, a não ser eu, se aproximar da colônia neste momento — concluiu Hagrid, assoando o nariz com força no avental e levantando a cabeça — Mas obrigado pelo oferecimento, Hermione... significa muito...
Depois disso a atmosfera ficou bem mais leve, porque ainda que Harry e Rony não tivessem manifestado a menor disposição de levar os gigantescos vermes para a aranha assassina e gargantuélica, Hagrid pareceu acreditar que teriam gostado de fazê-lo, e voltou ao seu natural.
— Ãh, eu sempre soube que vocês teriam dificuldade em me encaixar nos seus horários — disse rouco, servindo-os de mais um pouco de chá — Mesmo que requisitassem Vira-tempos...
— O que não poderíamos ter feito — explicou Hermione — Destruímos o estoque inteiro de Vira-tempos do Ministério quando estivemos lá no verão. Deu no Profeta Diário.
— Ah, então. Não tinha jeito de encaixar... desculpe eu ter sido... entendem... andei muito preocupado com Aragogue... e me passou pela cabeça que se o professor fosse a Grubbly-Plank...
Ao que os três afirmaram categórica e mentirosamente que a Profª. Grubbly-Plank, que substituíra Hagrid algumas vezes, era uma péssima professora; em consequência, quando se despediram, ao anoitecer, Hagrid parecia muito contente.
— Estou morto de fome — disse Harry depois que a porta se fechou e eles saíram apressados pelos jardins escuros e desertos, ele largara o bolinho duro quando ouviu um ruído agourento de rachadura em um dente molar — E tenho aquela detenção com o Snape hoje à noite. Não vai sobrar muito tempo para jantar.
Quando chegaram ao castelo viram Córmaco McLaggen entrando no Salão Principal. O garoto fez duas tentativas de passar pelas portas, na primeira, ricocheteou no portal. Rony meramente riu, pretensioso, e entrou no salão atrás do colega, mas Harry pegou Hermione pelo braço e a fez parar.
— Que foi? — exclamou ela em tom defensivo.
— Se alguém me perguntasse — disse ele em voz baixa — Eu diria que pelo visto McLaggen foi confundido. E ele estava bem diante do lugar em que você se sentou.
Hermione corou.
— Ah, tudo bem, fiz isso, sim — sussurrou ela — Mas você devia ter ouvido o que ele estava falando de Rony e Gina! De qualquer modo, ele é genioso, você viu a reação dele quando não entrou para a equipe: você não ia querer um jogador assim.
— Não. Não, suponho que não. Mas não foi uma desonestidade, Hermione? Quero dizer, você é monitora, não é?
— Ah, calado! — protestou ela, fazendo-o rir.
— Que é que vocês dois estão fazendo? — quis saber Rony, reaparecendo à porta do Salão Principal, desconfiado.
— Nada — responderam os dois juntos apressando-se a seguir Rony.
O cheiro do rosbife fez o estômago de Harry doer de fome, mas não tinham chegado a dar três passos em direção à mesa da Grifinória quando o Prof. Slughorn apareceu, bloqueando o seu caminho.
— Harry, Harry, exatamente a pessoa que eu queria ver — cumprimentou o professor cordialmente com o seu vozeirão, enrolando as pontas dos bigodes de leão-marinho e empinando a enorme barriga — Eu estava na esperança de encontrá-lo antes do jantar! Que é que você me diz de fazer uma pequena ceia nos meus aposentos? Vamos dar uma festinha com meia dúzia de astros e estrelas em ascensão. Estarão lá o McLaggen, o Zabini e a encantadora Melinda Bobbin, não sei se você a conhece. A família é proprietária de uma grande cadeia de farmácias; e, naturalmente, gostaria muito que a Srta. Granger me desse o prazer de comparecer também.
Slughorn fez uma breve reverência para Hermione ao concluir.
Era como se Rony não estivesse presente, o professor nem olhou para ele.
— Não posso ir — apressou-se a dizer Harry — Tenho de cumprir uma detenção com o Prof. Snape.
— Ai, ai, ai! — exclamou Slughorn com uma cômica expressão de desapontamento — Que pena, eu estava contando com você! Bom, então vou dar uma palavrinha com o Snape explicando a situação, tenho certeza de que conseguirei convencê-lo a adiar a detenção. É, vejo vocês dois mais tarde!
E saiu rápido do salão.
— Ele não tem a menor chance de convencer Snape — comentou Harry, assim que o professor se afastou o suficiente para não ouvir — Essa detenção já foi adiada uma vez, Snape fez um favor a Dumbledore, mas não fará a mais ninguém.
— Ah, eu gostaria que você fosse. Não quero ir sozinha! — disse Hermione ansiosa.
Harry sabia que ela estava pensando em McLaggen.
— Duvido que você fique sozinha. Gina provavelmente será convidada — retorquiu Rony, que não aceitou de boa vontade o fato de ter sido ignorado por Slughorn.
Depois do jantar, os três voltaram à Torre da Grifinória. A Sala Comunal estava apinhada, porque a maioria dos alunos já terminara o jantar, mas os garotos conseguiram arranjar uma mesa desocupada e se sentaram. Rony, que ficara mal-humorado desde o encontro com Slughorn, cruzou os braços e ficou olhando para o teto de testa franzida. Hermione apanhou um exemplar do Profeta Vespertino que alguém largara em uma cadeira.
— Alguma notícia nova? — perguntou Harry.
— Nova mesmo, não... — Hermione abriu o jornal e passou os olhos pelas páginas internas — Ah, olhe, o seu pai está aqui, Rony, mas não é nada de ruim! — acrescentou depressa, porque o garoto olhara assustado — Só diz que ele foi visitar a casa dos Malfoy. “A segunda busca na residência dos Comensais da Morte aparentemente não produziu resultados. Arthur Weasley, da Seção para Detecção e Confisco de Feitiços Defensivos e Objetos de Proteção Forjados diz que sua equipe agiu em função de uma informação confidencial”.
— Foi minha! — disse Harry — Contei a ele na estação de King’s Cross sobre o Malfoy e aquela coisa que ele estava tentando fazer o Borgin consertar! Bom, se não está na casa deles, então o Malfoy deve ter trazido o tal objeto para Hogwarts...
— Mas como poderia ter feito isso, Harry? — perguntou Hermione, baixando o jornal, surpresa — Todos fomos revistados quando chegamos, não é?
— Você foi? — admirou-se Harry — Eu não!
— Claro que você não foi, esqueci que chegou mais tarde... bem, Filch fez uma varredura em todos nós com sensores de segredos quando pisamos no Saguão de Entrada. Qualquer objeto das Trevas teria sido encontrado, sei que ele confiscou uma cabeça mumificada do Crabbe. Então, Malfoy não pode ter trazido nada perigoso!
Momentaneamente desarmado, Harry ficou apreciando Gina brincar com Arnaldo, o Mini-Pufe, até poder contornar aquela objeção.
— Então alguém mandou o objeto por correio-coruja. A mãe ou outra pessoa qualquer.
— Todas as corujas estão sendo verificadas também — replicou Hermione — Foi o que Filch nos disse quando estava enfiando aqueles sensores em todo lugar ao seu alcance.
Realmente atordoado, Harry não encontrou o que dizer. Parecia não haver meios de Malfoy ter trazido um objeto perigoso ou das Trevas para a escola. Ele olhou esperançoso para Rony, que estava sentado de braços cruzados, olhando para Lilá Brown.
— Você consegue pensar em algum meio de Malfoy...?
— Ah, esquece, Harry — disse Rony.
— Escute aqui, não é minha culpa que Slughorn só tenha convidado nós dois para essa festinha idiota, nem queríamos ir, sabe! — exclamou Harry se irritando.
— Bom, como não sou convidado para festa nenhuma — retrucou Rony se levantando — Acho que vou dormir.
E saiu mal-humorado em direção à porta do dormitório dos garotos, deixando Harry e Hermione de olhos arregalados.
— Harry? — chamou a nova artilheira Demelza Robins, aparecendo de repente ao seu lado — Tenho um recado para você.
— Do Prof. Slughorn? — perguntou Harry, esticando-se esperançoso.
— Não, do Prof. Snape — Harry desapontou-se — Ele manda dizer para você ir ao escritório dele às oito e meia para cumprir sua detenção... ah... não interessa quantos convites para festas você tenha recebido. E ele quer que você saiba que vai separar vermes bons dos podres para serem usados na aula de Poções, e... e diz também que não precisa levar luvas de proteção.
— Certo — disse Harry chateado — Muito obrigado, Demelza.








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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Novidade no T.World




?



Tem novidade chegando no T.World,




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Harry Potter e o Enigma do Príncipe - Capítulo 10





— CAPITULO DEZ —
A Casa de Gaunt



NAS DEMAIS AULAS DE POÇÕES da semana, Harry continuou a seguir as instruções do Príncipe Mestiço sempre que divergiam das de Libatius Borage, e, em consequência, por volta da quarta aula, Slughorn estava delirante com a capacidade de Harry, e comentava que raramente ensinara a alguém tão talentoso.
Nem Rony nem Hermione ficaram muito satisfeitos com isso.
Embora Harry oferecesse compartilhar o livro com ambos, Rony teve mais dificuldade em decifrar a caligrafia do que ele, e não poderia ficar pedindo ao amigo que lesse o texto em voz alta sem levantar suspeitas. Nesse meio tempo, Hermione enfrentava resolutamente o que ela chamava de instruções “oficiais”, mas tornava-se cada vez mais mal-humorada, pois obtinha resultados mais medíocres do que os do Príncipe.
Harry se perguntava sem grande interesse quem teria sido o tal Príncipe Mestiço. Embora a quantidade de deveres de casa que tinham recebido o impedisse de ler todo o exemplar de Estudos Avançados no Preparo de Poções, ele o folheara o suficiente para ver que não havia praticamente página alguma em que o Príncipe não tivesse feito anotações, que nem sempre se referiam ao preparo de poções. Aqui e ali havia instruções para feitiços que pareciam inventados por ele mesmo.
— Ou ela mesma — rebateu Hermione irritada, escutando Harry mostrar alguns para Rony na Sala Comunal, Sábado à noite — Pode ter sido uma garota, acho que a letra parece mais feminina do que masculina.
— Chamava-se o Príncipe Mestiço — disse Harry — Quantas meninas são príncipes?
Hermione não soube responder. Apenas amarrou a cara e puxou o trabalho que estava fazendo sobre “Os Princípios da Rematerialização”, para longe de Rony, que tentava lê-lo de cabeça para baixo.
Harry consultou seu relógio e guardou depressa na mochila o velho exemplar de Estudos Avançados no Preparo de Poções.
— São cinco para as oito, é melhor eu ir andando ou vou chegar atrasado no Dumbledore.
— Ooooh! — exclamou Hermione, erguendo imediatamente a cabeça — Boa sorte! Vamos esperar acordados, queremos saber o que ele vai lhe ensinar!
— Espero que tudo corra bem — disse Rony, e os dois ficaram observando Harry passar pelo buraco do retrato.
Harry atravessou os corredores desertos, embora tenha precisado se esconder ligeiro atrás de uma estátua quando a Profª. Trelawney surgiu, de repente, numa curva do corredor, murmurando e misturando as cartas de um baralho ensebado que lia enquanto andava.
— Dois de espadas: conflito — murmurou ao passar pelo lugar em que Harry se escondera agachado — Sete de espadas: mau augúrio. Dez de espadas: violência. Valete de espadas: um rapaz moreno, possivelmente perturbado, que não gosta da consulente.
Ela parou de repente, do lado oposto da estátua de Harry.
— Bem, não pode estar certo — disse contrariada, e Harry ouviu-a embaralhar energicamente ao recomeçar a caminhada, deixando atrás de si apenas um aroma de xerez barato para uso culinário.
Harry esperou até se certificar de que ela se fora, então recomeçou a correr até chegar ao ponto do corredor do sétimo andar em que havia apenas uma gárgula na parede.
— Acidinhas — disse Harry.
A gárgula saltou para o lado, a parede oculta se abriu, e surgiu uma escada circular de pedra, na qual Harry pôs os pés para ser levado até a porta com a aldrava de latão que dava acesso ao escritório de Dumbledore.
Harry bateu.
— Entre — ouviu-se a voz do diretor.
— Boa noite, senhor — cumprimentou Harry, entrando no escritório.
— Ah, boa noite, Harry. Sente-se — disse Dumbledore, sorrindo — Espero que sua primeira semana na escola tenha sido prazerosa.
— Foi, obrigado, senhor.
— Deve ter andado muito ocupado, já recebeu uma detenção!
— Ãa... — começou Harry sem jeito, mas Dumbledore não parecia muito severo.
— Combinei com o Prof. Snape que você cumprirá sua detenção no próximo Sábado.
— Certo — respondeu Harry, que tinha assuntos mais urgentes em sua cabeça do que a detenção de Snape, e agora procurava disfarçadamente alguma indicação do que Dumbledore pretendia fazer com ele naquela noite.
O escritório circular tinha a aparência de sempre: os delicados instrumentos de prata sobre mesinhas de pernas finas soltavam fumaça e zumbiam, os antigos diretores e diretoras cochilavam em seus quadros, e a magnífica fênix do diretor, Fawkes, no poleiro atrás da porta, observava Harry com vivo interesse. Pelo visto, Dumbledore nem sequer abrira um espaço para duelar.
— Então, Harry — disse o diretor em tom objetivo — Você certamente tem se perguntado o que planejei para as suas... por falta de uma palavra melhor... aulas.
— Tenho, senhor.
— Bem, agora que você sabe o que induziu Lorde Voldemort a tentar matá-lo há quinze anos, concluí que já é tempo de lhe passar certas informações.
Houve uma pausa.
— O senhor disse, no fim do último trimestre, que ia me contar tudo — lembrou Harry.
Era difícil eliminar um quê de acusação em sua voz.
— Senhor — acrescentou.
— E de fato contei — concordou Dumbledore placidamente — Contei-lhe tudo que sei. Daqui para frente, estaremos deixando o terreno firme dos fatos para viajar juntos pelos turvos alagados da memória e nos embrenhar pelo matagal das suposições mais absurdas. Deste ponto em diante, Harry, posso estar lamentavelmente tão enganado como Humphrey Belcher, que acreditou que havia aceitação para caldeirões de queijo.
— Mas o senhor acha que está certo?
— Naturalmente que sim, mas como já provei a você também, erro como qualquer outro homem. De fato, sendo, perdoe-me, bem mais inteligente do que a maioria, os meus erros tendem a ser proporcionalmente maiores.
— Senhor — perguntou Harry hesitante — O que vai me contar tem a ver com a profecia? Vai me ajudar a... sobreviver?
— Muita relação com a profecia — respondeu Dumbledore, displicentemente, como se Harry tivesse lhe perguntado que tempo faria no dia seguinte — E tenho esperanças de que o ajude a sobreviver.
O diretor ergueu-se, contornou a escrivaninha e passou por Harry, este se virou pressuroso e viu Dumbledore curvar-se para o armário ao lado da porta.
Quando o diretor se endireitou, segurava uma conhecida bacia de pedra, com estranhas marcas na borda. O bruxo colocou a Penseira na escrivaninha, diante de Harry.
— Você parece preocupado.
Realmente Harry observava a bacia com apreensão. Suas experiências anteriores com o estranho objeto que guardava e revelava pensamentos e lembranças, embora extremamente instrutivas, tinham sido bastante desconfortáveis. A última vez em que ele agitara o seu conteúdo, vira muito mais do que teria desejado.
Mas Dumbledore estava sorrindo.
— Desta vez, você vai entrar na Penseira comigo... e, o que é ainda mais incomum, tem permissão para isso.
— Aonde vamos, senhor?
— Fazer uma viagem pelos caminhos da memória de Beto Ogden — respondeu Dumbledore, tirando do bolso um frasco de cristal contendo uma substância branco-prata que rodopiava.
— Quem foi Beto Ogden?
— Foi funcionário do Departamento de Execução das Leis da Magia. Morreu há algum tempo, mas não antes que eu o tivesse localizado e convencido a me confidenciar essas lembranças. Vamos acompanhá-lo em uma visita que fez no desempenho de suas funções. Se puder se levantar, Harry...
Mas Dumbledore estava tendo dificuldade para destampar o frasco de cristal: sua mão machucada parecia rígida e dolorida.
— Me dá... me dá licença, senhor?
— Não se incomode, Harry.
Dumbledore apontou a varinha para o frasco e a rolha saltou fora.
— Senhor... como foi que machucou a mão? — Harry perguntou mais uma vez, olhando os dedos escurecidos com uma sensação de horror e dó.
— Agora não é hora de contar essa história, Harry. Ainda não. Temos um encontro com Beto Ogden.
Dumbledore despejou na Penseira o conteúdo do frasco, que girou e refulgiu, nem líquido nem gasoso.
— Primeiro você — disse ele, indicando a bacia.
Harry se inclinou, inspirou profundamente e mergulhou de cara na substância prateada. Sentiu seus pés deixarem o piso do escritório; foi caindo, caindo, por um torvelinho escuro, e então, inesperadamente, se viu piscando sob um sol ofuscante.
Antes que seus olhos se acostumassem, Dumbledore aterrissou ao seu lado. Estavam de pé em uma estradinha rural ladeada por cercas vivas emaranhadas, sob um céu de verão vivo e azul como miosótis. A uns três metros deles, achava-se um homem baixo e gorducho que usava óculos com lentes tão grossas que reduziam seus olhos a sinaizinhos de nascença. Estava lendo um letreiro de madeira que se projetava da cerca selvática do lado esquerdo da estrada. Harry sabia que aquele devia ser o Ogden, era a única pessoa à vista, e usava a estranha variedade de roupas que muitas vezes os bruxos inexperientes escolhem para se disfarçar de trouxas; no caso, casaca e polainas por cima de uma roupa de banho listrada e inteiriça. Antes, porém, que Harry tivesse tempo para outra coisa que não registrar sua bizarra aparência, Ogden saiu andando com rapidez pela estrada.
Dumbledore e Harry seguiram-no. Ao passarem pelo letreiro de madeira, Harry olhou para as duas setas. Na que apontava para o lado de onde tinham vindo leu: Great Hangleton, 8 km. Na que apontava para Ogden leu: Little Hangleton, 1,6 km. Caminharam uma pequena distância sem nada ver exceto as cercas, a vastidão do céu azul e a figura de casaca à frente, então, a estrada fez uma curva para a esquerda e despencou, íngreme, descendo a encosta do morro, permitindo que, inesperadamente, descortinassem o panorama de um vale inteiro.
Harry viu uma aldeia, sem dúvida Little Hangleton, aninhada entre dois morros escarpados, a igreja e o cemitério bem aparentes. Do outro lado do vale, engastada na falda do morro oposto, havia uma bela casa senhorial rodeada por um vasto e veludoso gramado.
Ogden diminuiu a marcha diante do acentuado declive da ladeira. Dumbledore aumentou seus passos e Harry tentou acompanhá-lo. Imaginou que Little Hangleton fosse o destino final e se perguntou, como fizera na noite em que localizaram Slughorn, por que tinham de começar de tão longe. Logo, porém, descobriu que se enganara em pensar que se dirigiam à aldeia. A estrada fazia uma curva para a direita e, quando a contornaram, viram a ponta da aba da casaca de Ogden desaparecendo por uma abertura na cerca.
Dumbledore e Harry continuaram a segui-lo por uma trilha estreita, ladeada de cercas vivas ainda mais altas e mais desordenadas do que as que tinham deixado para trás. O caminho era torto, rochoso e esburacado, descia o morro como o anterior e parecia conduzir a um arvoredo, sombrio um pouco mais abaixo.
De fato, o caminho logo desembocou no arvoredo, e Dumbledore e Harry pararam atrás de Ogden, que se detivera para puxar a varinha.
Apesar do céu desanuviado, as velhas árvores projetavam sombras profundas, escuras e frescas, e Harry levou alguns segundos para enxergar a casa semi-oculta entre seus troncos. Pareceu-lhe um lugar estranho para se construir uma casa, ou então uma decisão curiosa a de deixar as árvores crescerem próximas, bloqueando toda a luz e a visão do vale.
Ele se perguntou se seria habitada, as paredes estavam cobertas de musgo e havia caído tantas telhas que em alguns pontos as traves estavam visíveis. Cresciam urtigas a toda volta e suas hastes alcançavam as janelas pequenas e grossas de sujeira. Quando acabara de concluir que era impossível que fosse habitada, uma das janelas se abriu com estrépito e deixou sair um fio de vapor ou de fumaça, como se alguém estivesse cozinhando.
Ogden se adiantou em silêncio e, pareceu a Harry, com cautela. Quando as sombras escuras das árvores o encobriram, ele tornou a parar com os olhos fixos na porta de entrada, à qual tinham pregado uma cobra morta.
Ouviu-se, então, um farfalhar e um estalo, e um homem andrajoso despencou da árvore mais próxima, caindo de pé diante de Ogden, este pulou para trás tão rápido que pisou nas abas da casaca e se desequilibrou.
Você não é bem-vindo.
O homem à frente deles tinha cabelos espessos tão entremeados de sujeira que não dava para distinguir a cor. Faltavam-lhe vários dentes na boca, e os olhos, pequenos e escuros, olhavam em direções opostas. Sua aparência poderia ter sido cômica, mas não era, produzia um efeito assustador, e Harry não podia censurar Ogden por recuar mais alguns passos antes de falar.
— Ãh... bom dia. Sou do Ministério da Magia...
Você não é bem-vindo.
— Ãh... desculpe... não estou entendendo — respondeu Ogden nervoso.
Harry achou que Ogden estava sendo extremamente obtuso, em sua opinião, o estranho fora muito claro, principalmente porque brandia uma varinha em uma das mãos e uma faca de lâmina curta, ensanguentada, na outra.
— Você com certeza está entendendo, não, Harry? — indagou Dumbledore em voz baixa.
— Claro que estou — respondeu ele um pouco confuso — Por que Ogden não...?
Mas quando tornou a olhar a cobra na porta, repentinamente compreendeu.
— Ele está falando a linguagem das cobras?
— Muito bom — assentiu Dumbledore, sorrindo.
O homem andrajoso agora avançava para Ogden, a faca em uma das mãos e a varinha na outra.
— Escute aqui — começou Ogden, mas tarde demais: ouviu-se um estampido e ele foi parar no chão, apertando o nariz, que espirrava entre os seus dedos uma gosma amarelada e feia.
— Morfino! — gritou uma voz.
Um homem mais velho saiu depressa da casa batendo a porta ao passar e fazendo a cobra balançar pateticamente. Este homem era mais baixo do que o primeiro e tinha estranhas proporções, os ombros eram muito largos e os braços compridos demais, o que, juntamente com os olhos vivos e castanhos, os cabelos espessos e curtos e o rosto enrugado, dava-lhe a aparência de um macaco idoso e forte. Parou ao lado do homem com a faca, que agora soltava gargalhadas ao ver Ogden no chão.
— Ministério é? — perguntou o homem mais velho, olhando Ogden com arrogância.
— Correto! — confirmou ele com raiva, limpando o rosto — E o senhor, presumo, é o Sr. Gaunt?
— Isso. Ele acertou seu rosto, foi?
— Foi! — retorquiu Ogden.
— O senhor não deveria ter anunciado sua presença? — perguntou Gaunt agressivamente — Isto é uma propriedade privada. Ninguém pode ir entrando e esperar que o meu filho não se defenda.
— Defenda de quê, homem? — contestou Ogden, se levantando.
— Bisbilhoteiros. Invasores. Trouxas e ralé.
Ogden apontou a varinha para o próprio nariz, de onde continuava a escorrer uma abundante secreção semelhante a pus, e estancou o corrimento. O Sr. Gaunt disse a Morfmo, pelo canto da boca.
Entre. Não discuta.
Desta vez, alertado, Harry reconheceu a língua que o homem falava, ao mesmo tempo que entendia o que era dito, distinguia o estranho sibilado que era só o que Ogden podia ouvir. Morfmo deu a impressão de que ia discordar, mas, quando o pai ameaçou-o com um olhar, ele mudou de ideia, saiu em direção à casa com uma estranha ginga e bateu a porta, fazendo a cobra balançar tristemente.
— Foi o seu filho que vim ver, Sr. Gaunt — explicou Ogden, enxugando o resto de pus da frente da casaca — Aquele era o Morfino, não?
— Ah, era o Morfino — confirmou o velho, indiferente — O senhor tem sangue puro? — perguntou repentinamente agressivo.
— Isto não vem ao caso — respondeu Ogden com frieza, e Harry sentiu o seu respeito pelo bruxo crescer.
Aparentemente isto fazia diferença para Gaunt. Ele estudou o rosto de Ogden e resmungou em um tom decididamente ofensivo.
— Pensando bem, já vi narizes iguais ao seu na aldeia.
— Não duvido nada, se o senhor costuma soltar seu filho contra eles. Que tal continuarmos essa discussão dentro de casa?
— Dentro?
— É, Sr. Gaunt. Já disse que estou aqui por causa de Morfino. Enviamos uma coruja...
— Não estou interessado em corujas. Não abro cartas.
— Então o senhor não tem razão para reclamar que as visitas apareçam sem avisar — retrucou Ogden, mordaz — Estou aqui porque ocorreu uma séria violação das leis bruxas nas primeiras horas desta manhã...
— Está bem, está bem, está bem! — berrou Gaunt — Entre na maldita casa, então, mas não vai lhe adiantar muito!
A casa parecia conter três cômodos minúsculos. Havia duas portas no cômodo principal, que servia de sala e cozinha. Morfino estava sentado em uma poltrona imunda ao lado do fogão enfumaçado, enrolando uma cobra entre os dedos grossos enquanto cantava baixinho em sua linguagem.

Silva, silva, serpinha,
Serpeia pelo soalho
Seja sempre boazinha
Ou Morfino crava você.

Ouviu-se um arrastar de pés no canto ao lado da janela aberta, e Harry notou que havia mais alguém na sala, uma garota cujo vestido cinzento e rasgado era exatamente da cor da parede de pedra encardida às suas costas. Estava em pé ao lado de uma panela que fumegava em um fogão negro, e mexia na prateleira com panelas e caçarolas de aspecto miserável mais acima. Seus cabelos eram escorridos e sem vida e o rosto comum, pálido e feioso. Seus olhos, como os do irmão, eram divergentes. Parecia um pouco mais limpa do que os dois homens, mas Harry avaliou que nunca vira ninguém tão arrasado.
— Minha filha Mérope — Gaunt apresentou-a de má vontade, quando Ogden lançou à garota um olhar indagador.
— Bom dia — cumprimentou-a Ogden.
Ela não respondeu, lançando um olhar assustado ao pai, deu as costas à sala e continuou a trocar as panelas de lugar na prateleira.
— Bem, Sr. Gaunt, para ir direto ao assunto, temos razões para acreditar que seu filho Morfino executou um feitiço diante de um trouxa no final da noite de ontem.
Ouviu-se um estrondo metálico. Mérope deixara cair uma panela.
— Apanhe isso! — berrou Gaunt para a filha — Isso, fuce o chão como uma trouxa porca, para que serve a sua varinha, seu saco de estrume?
— Sr. Gaunt, por favor! — pediu Ogden em tom chocado, enquanto Mérope, que já apanhara a panela, com o rosto malhado de rubor, tornou a soltá-la e puxou a varinha do bolso, apontou-a para o objeto e murmurou um feitiço apressado e inaudível que fez a panela voar para longe dela, bater na parede oposta e rachar ao meio.
Morfino soltou sua gargalhada demente.
Gaunt gritou:
— Conserte isso, sua imprestável, conserte isso!
Mérope saiu tropeçando pela sala, mas, antes que tivesse tempo de erguer a varinha, Ogden empunhou a dele e ordenou com firmeza:
Reparo!
E a panela se consertou instantaneamente.
Por um momento, pareceu que Gaunt ia gritar com Ogden, mas deve ter pensado melhor, em vez disso, caçoou da filha:
— Que sorte o homem bonzinho do Ministério está aqui, não é? Quem sabe ele tira você das minhas mãos, quem sabe ele não se incomoda com Abortos nojentos...
Sem olhar para ninguém ou agradecer a Ogden, Mérope apanhou a panela e devolveu-a, com as mãos trêmulas, à prateleira. Postou-se, então, muito quieta, as costas apoiadas na parede entre a janela muito suja e o fogão, como se o seu único desejo fosse afundar na pedra e sumir.
— Sr. Gaunt — recomeçou Ogden — Como eu ia dizendo, a razão da minha visita...
— Ouvi da primeira vez! — retrucou Gaunt — E daí? Morfino deu a um trouxa o que estava merecendo; o que é que o senhor vai fazer?
— Morfino violou a lei bruxa — disse Ogden com severidade.
— Morfino violou a lei bruxa — Gaunt imitou a voz de Ogden, num tom pomposo e cantado.
Morfmo gargalhou outra vez.
— Deu uma lição a um trouxa nojento, isso agora é ilegal, é?
— É. Receio que seja.
Ogden tirou do bolso interno um pequeno rolo de pergaminho e abriu-o.
— E isso aí, é o quê, a sentença dele? — perguntou Gaunt, alteando a voz inflamado.
— É uma intimação para comparecer a uma audiência no Ministério...
— Intimação! Intimação? Quem o senhor pensa que é para intimar meu filho a comparecer a algum lugar?
— Sou o chefe do Esquadrão de Execução das Leis da Magia.
— E o senhor acha que somos ralé, é isso? — gritou Gaunt, e avançou para Ogden, com o dedo de unha suja e amarela apontando para o seu peito — Ralé que se apresenta correndo quando o Ministério manda? Sabe com quem está falando, seu Sangue-Ruim nojento?
— Eu tinha a impressão de que estava falando com o Sr. Gaunt — respondeu ele cauteloso, mas irredutível.
— Exatamente! — urrou Gaunt.
Por um instante, Harry pensou que ele fazia um gesto obsceno, mas percebeu que apenas mostrava o feio anel de pedra negra que usava no dedo médio, e que agitava na cara de Ogden.
— Está vendo isso aqui? Está vendo isso aqui? Sabe de onde veio? Está há séculos na nossa família, tão antiga ela é, e de sangue sempre puro! Sabe quanto já me ofereceram por isso, com o brasão dos Peverell gravado na pedra?
— Não faço a menor ideia — replicou Ogden, piscando para o anel a centímetros do seu nariz — E não é pertinente, Sr. Gaunt. O seu filho cometeu...
Com um uivo de fúria, Gaunt correu para a filha. Por uma fração de segundo, Harry pensou que ia esganá-la, quando o viu agarrá-la pelo pescoço, mas ele apenas arrastou-a até Ogden pela corrente de ouro que usava.
— Está vendo isso aqui? — berrou, sacudindo o pesado medalhão para Ogden, enquanto Mérope engasgava e procurava respirar.
— Eu estou vendo, eu estou vendo! — apressou-se ele a dizer.
— Vem de Slytherin! — gritou Gaunt — De Salazar Slytherin! Somos os seus últimos descendentes vivos. Que me diz disso, eh?
— Sr. Gaunt, sua filha! — avisou Ogden assustado, mas o bruxo já largara Mérope, ela se afastou cambaleando de volta ao seu canto, massageando o pescoço e engolindo em seco para respirar.
— É o que eu queria dizer! — exclamou Gaunt triunfante, como se tivesse acabado de provar de modo irrefutável urna complicada questão — Não venha falar conosco como se não chegássemos aos seus pés! Gerações de sangue puro, todos bruxos, o que, tenho certeza, é mais do que o senhor pode dizer!
E cuspiu no chão aos pés de Ogden.
Morfino soltou mais gargalhadas. Mérope, encolhida ao lado da janela, a cabeça oculta pelos cabelos escorridos, permaneceu calada.
— Sr. Gaunt — insistiu Ogden — Receio que nem os seus antepassados nem os meus tenham a menor relação com o nosso caso. Estou aqui por causa do Morfino, Morfino e o trouxa que ele abordou ontem à noite. A informação que temos é que Morfino lançou um feitiço ou uma azaração no tal trouxa, causando-lhe uma urticária extremamente dolorosa.
Morfino riu.
Quieto menino — rosnou Gaunt em linguagem de cobra, e Morfino tornou a se calar — E se lançou, qual é o problema? — retorquiu Gaunt em tom de desafio — Espero que o senhor tenha limpado a pele do trouxa e, de quebra, a memória dele...
— O problema é bem outro, não é, Sr. Gaunt? Foi um ataque gratuito a um indefeso...
— Ah, achei que o senhor tinha cara de amigo dos trouxas assim que o vi — desdenhou Gaunt, tornando a cuspir no chão.
— Esta discussão não está nos levando a nada — disse Ogden com firmeza — Pela atitude do seu filho, está muito claro que não sente remorso algum pelo que fez.
E olhando para o rolo de pergaminho.
— Morfmo deverá comparecer a uma audiência no dia 14 de Setembro, para responder às acusações de usar magia diante de um trouxa e causar ao dito trou...
Ogden calou-se.
Entravam pela janela ruídos de metal, cascos de cavalos e risos humanos. Aparentemente, a estrada tortuosa para a aldeia passava muito próxima do arvoredo onde se situava a casa. Gaunt congelou, escutando de olhos arregalados. Morfmo sibilou e virou o rosto para o lado dos ruídos, a expressão voraz. Mérope ergueu a cabeça. Seu rosto, Harry viu, estava absolutamente branco.
— Meu Deus, que monstruosidade! — ouviu-se uma voz de garota, claramente audível pela janela aberta como se estivesse na sala —Será que seu pai não podia mandar remover esse casebre, Tom?
— Não é nosso — respondeu uma voz jovem — Tudo do outro lado do vale nos pertence, mas essa casa pertence a um velho pobretão chamado Gaunt e aos filhos dele. O rapaz é bem maluco, você devia ouvir as histórias que contam na aldeia...
A moça riu. Os sons de metal e cascos aumentaram.
Morfmo fez menção de levantar da poltrona.
— Fique sentado — disse o pai em tom de aviso, em linguagem de cobra.
— Tom — falou a moça, agora tão próximo que deviam estar ao lado da casa — Será que me enganei ou alguém pregou uma cobra naquela porta?
— Santo Deus, você tem razão! — disse a voz masculina — Deve ter sido o filho, eu não disse que ele não era bom da cabeça? Não olhe, Cecília, querida.
Os sons de metal e cascos foram se distanciando.
Querida — murmurou Morfino naquela linguagem, olhando para a irmã — Chamou a moça de querida. Então não ia mesmo querer você.
Mérope estava tão pálida que Harry teve certeza de que ela ia desmaiar.
Que foi, Morfmo? — perguntou Gaunt rispidamente, na mesma linguagem, seus olhos indo do filho para a filha — Que foi que você disse, Morfino?
Ela gosta de olhar o trouxa — com uma expressão cruel, Morfino encarou a irmã, que agora parecia aterrorizada — Sempre no jardim quando ele passa, espiando pela cerca, não é? E a noite passada...
Mérope sacudiu a cabeça freneticamente, implorando, mas Morfino continuou sem se condoer:
—... Pendurada na janela esperando ele voltar para casa, não é?
Pendurada na janela para olhar um trouxa? — disse Gaunt em voz baixa.
Os três Gaunt pareciam ter se esquecido de Ogden, que assistia ao mesmo tempo pasmo e irritado a essa nova erupção de silvos e estridências.
É verdade? — perguntou Gaunt implacável, dando uns passos em direção à filha apavorada — Minha filha, uma pura descendente de Salazar Slytherin, suspirando por um trouxa nojento de veias imundas?
Mérope sacudiu a cabeça com veemência, comprimindo-se contra a parede, aparentemente incapaz de falar.
Mas eu peguei ele, pai! — disse Morfino às gargalhadas — Peguei quando passou por aqui e ele não ficou nada bonito coberto de urticária, ficou, Mérope?
Sua bruxinha abortada nojenta, sua traidorazinha do sangue! — urrou Gaunt, descontrolado, apertando o pescoço da filha.
Harry e Ogden berraram “Não!” ao mesmo tempo.
Ogden ergueu a varinha e ordenou:
Relaxo!
Gaunt foi lançado para longe da filha, tropeçou em uma cadeira e estatelou-se de costas. Com um rugido de fúria, Morfino saltou da poltrona e avançou para Ogden, brandindo a faca ensanguentada e disparando, indiscriminadamente, azarações com a varinha. Ogden fugiu desabalado.
Dumbledore fez sinal que deviam segui-lo, e Harry obedeceu, os gritos de Mérope ecoando em seus ouvidos.
Ogden disparou pela trilha e irrompeu pela estrada principal, os braços protegendo a cabeça, e colidindo com o lustroso cavalo de um rapaz muito bonito, de cabelos castanhos. Ele e a linda moça que cavalgava ao seu lado caíram na risada ao verem Ogden bater na ilharga do cavalo, quicar e retomar a corrida errante pela estrada, a casaca voando, coberto de pó da cabeça aos pés.
— Acho que já basta, Harry — disse Dumbledore, batendo em seu braço.
No momento seguinte, os dois estavam voando imponderáveis pela escuridão, por fim, aterrissaram de pé no escritório de Dumbledore, agora iluminado pelo crepúsculo.
— Que aconteceu com a garota na casa? — foi a primeira pergunta de Harry quando Dumbledore acendia mais lâmpadas com um toque de varinha — Mérope, ou o nome que fosse.
— Ah, ela sobreviveu — respondeu o diretor, se acomodando à escrivaninha e fazendo sinal para que Harry se sentasse também — Ogden aparatou até o Ministério e voltou, quinze minutos depois, com reforços. Morfino e o pai tentaram lutar, mas os dois foram subjugados, levados da casa e, mais tarde, condenados pela Suprema Corte dos Bruxos. Morfino, já fichado por ataques a trouxas, foi condenado a três anos em Azkaban. Servoleo, que ferira vários funcionários do Ministério além de Ogden, recebeu uma pena de seis meses de prisão.
— Servoleo? — repetiu Harry em tom de indagação.
— Exato — respondeu Dumbledore, aprovando-o com um sorriso — Fico satisfeito que esteja acompanhando.
— O velho era...?
— O avô de Voldemort. Servoleo, seu filho Morfino e sua filha Mérope foram os últimos Gaunt, uma família bruxa muito antiga conhecida por sua índole instável e violenta que se transmitiu através de gerações devido ao hábito de casarem entre primos. A falta de juízo associada à mania de grandeza redundou na dissipação do ouro da família muitas gerações antes de Servoleo nascer. Ele viveu, como você bem viu, em condições sórdidas e miseráveis, dono de um péssimo gênio e uma arrogância e um orgulho desmedidos, além de alguns objetos de família que ele valorizava tanto quanto o filho e muito mais do que a filha.
— Então Mérope — perguntou Harry, curvando-se para a frente e encarando Dumbledore — Então Mérope era... senhor, quer dizer que Mérope era... a mãe de Voldemort?
— Exato. E por acaso vimos de relance o pai de Voldemort. Você registrou?
— O trouxa que Morfino atacou? O homem a cavalo?
— Muito bem — elogiou Dumbledore com um largo sorriso — Aquele era Tom Riddle, pai, o trouxa bonitão que passava cavalgando pela casa dos Gaunt e por quem Mérope nutria uma paixão ardente e secreta.
— E eles acabaram se casando? — perguntou Harry, incrédulo e incapaz de imaginar duas pessoas com menos probabilidade de se apaixonarem.
— Acho que você está esquecendo — acrescentou Dumbledore — Que Mérope era bruxa. Acredito que os seus poderes mágicos não se manifestassem favoravelmente enquanto esteve aterrorizada pelo pai. Mas uma vez que Servoleo e Morfino foram trancafiados em Azkaban, uma vez que ela se viu livre e sozinha pela primeira vez na vida, estou certo que pôde dar rédeas à sua capacidade e planejar sua fuga da vida desesperada que levara durante dezoito anos. Você não consegue pensar em nada que Mérope pudesse ter feito para obrigar Tom Riddle a esquecer a companheira trouxa e se apaixonar por ela?
— A Maldição Imperius? — arriscou Harry — Ou uma poção de amor?
— Muito bom. Pessoalmente, me inclino mais para a poção de amor. Estou certo de que teria parecido a Mérope mais romântico e não teria sido muito difícil, em um dia de calor, quando Riddle estivesse cavalgando sozinho, persuadi-lo a beber uma água. Em todo caso, alguns meses depois da cena que acabamos de presenciar, a aldeia de Little Hangleton deliciou-se com um espantoso escândalo. Você pode imaginar o falatório que houve quando o filho do senhor das terras locais fugiu com Mérope, a filha do vagabundo. Mas o choque dos aldeões não se comparou ao de Servoleo. Ele voltou de Azkaban, imaginando que encontraria a filha aguardando obediente o seu retorno, com uma refeição quente à mesa. Em vez disso, encontrou bem uns três centímetros de poeira e um bilhete de adeus, em que ela explicava o que fizera. Pelo que pude descobrir, daquele dia em diante ele nunca mais mencionou o nome da filha ou a sua existência. O choque de sua deserção talvez tenha contribuído para sua morte prematura... ou talvez ele simplesmente nunca tivesse aprendido a preparar a própria comida. Azkaban o enfraquecera muito, e Servoleo não viveu o bastante para ver o regresso de Morfino a casa.
— E Mérope? Ela... ela morreu, não foi? Voldemort não foi criado em um orfanato?
— É verdade. Aqui, temos de usar um pouco a imaginação, embora não ache que seja difícil deduzir o que aconteceu. Alguns meses depois de fugir para casar, Tom Riddle reapareceu na casa senhorial de Little Hangleton sem a mulher. Correu pela vizinhança o boato de que alegava ter sido “ludibriado” e “abusado em sua boa-fé”. O que quis dizer, sem dúvida, é que estivera enfeitiçado e finalmente se libertara, embora eu presuma que não se atrevesse a usar os termos exatos com medo de que o julgassem louco. Quando souberam da sua história, os aldeões imaginaram que Mérope tivesse mentido a Tom Riddle, fingindo que ia ter um filho dele, razão pela qual o rapaz se casara.
— Mas ela teve realmente um filho dele.
— Teve, mas somente um ano depois de casarem. Tom Riddle deixou-a quando ainda estava grávida.
— Qual foi o problema? — perguntou Harry — Por que passou o efeito da poção de amor?
— Mais uma vez, estou imaginando — explicou Dumbledore — Mas acredito que Mérope, que estava profundamente apaixonada pelo marido, não suportou a idéia de continuar a escravizá-lo por artes mágicas. Acredito que tenha decidido parar de lhe dar a poção. Talvez estivesse convencida de que, àquela altura, a paixão já fosse mútua. Talvez pensasse que ele não a deixaria por causa do bebê. Se assim foi, enganou-se em ambos os casos. Ele a abandonou, nunca mais a viu e nunca se preocupou em descobrir o que acontecera ao filho.
O céu lá fora estava nanquim, e as luzes no escritório de Dumbledore pareciam brilhar mais fortemente do que antes.
— Acho que já é o suficiente, por hoje, Harry — disse Dumbledore instantes depois.
— Sim, senhor.
Harry se pôs de pé, mas não se retirou.
— Senhor... é importante conhecer tudo isso sobre o passado de Voldemort?
— Muito importante, acho.
— E... tem alguma coisa a ver com a profecia?
— Tem tudo a ver com a profecia.
— Certo — aceitou Harry um pouco confuso, mas ainda assim mais tranquilo.
Virou-se para sair, então lhe ocorreu mais uma pergunta, e ele deu meia-volta.
— Senhor, tenho permissão para contar a Rony e Hermione tudo que o senhor me contou?
Dumbledore estudou-o por um momento e em seguida respondeu:
— Tem, acho que o Sr. Weasley e a Srta. Granger se provaram dignos de confiança. Mas, Harry, vou pedir que recomende a eles para não repetirem nada disso para mais ninguém. Não seria uma boa idéia se vazasse o quanto sei ou suspeito dos segredos de Lorde Voldemort.
— Não, senhor, vou garantir que apenas Rony e Hermione saibam. Boa noite.
Ele deu as costas e estava quase na porta quando o viu. Em cima de uma das mesinhas de pernas finas que suportavam tantos objetos de prata de aparência frágil havia um feio anel de ouro com uma enorme pedra negra e rachada.
— Senhor — comentou Harry fixando o objeto — Aquele anel...
— Sim?
— O senhor estava usando-o na noite em que visitamos o Prof. Slughorn.
— De fato estava — concordou o bruxo.
— Mas não é... senhor, não é o mesmo anel que Servoleo Gaunt mostrou a Ogden?
Dumbledore assentiu.
— O mesmíssimo.
— Então como é...? O senhor sempre o teve?
— Não, eu o adquiri muito recentemente. Aliás, poucos dias antes de ir buscá-lo na casa de seus tios.
— Teria sido mais ou menos na época em que o senhor feriu sua mão, senhor?
— Mais ou menos naquela época, sim, Harry.
Harry hesitou.
Dumbledore estava sorrindo.
— Senhor, como foi exatamente... ?
— É muito tarde, Harry. Você ouvirá a história outro dia. Boa noite!
— Boa noite, senhor.










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domingo, 2 de setembro de 2012

MUNDO DOS DINOSSAUROS - PARTE 19





O Projeto Mundo dos Dinossauros, apelidado de Projeto DINO, é um conjunto de documentários sobre uma raça de gigantes pré-históricos que viveram sobre a mesma terra nós, que beberam a mesma água que nós. Mas milhões de anos atrás eles se tornaram extintos. Eu sempre fui fascinado por eles, e fiquei ainda mais feliz, algumas semanas atrás, quando descobri que haviam vários vídeos e documentários sobre os dinossauros na internet.



Luta Jurássica
Monstros da Era do Gelo

PARTE ÚNICA

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sábado, 1 de setembro de 2012

Sessão Premier: A Madrasta - Capítulo 20




DIM-DOM
SÀO 19:00 HORAS
Chega agora a Sessão Premier:
A Madrasta


Maria foi condenada pelo assassinato de sua amiga Patrícia, apesar de sempre ter se dito inocente. Após Vinte Anos, Maria é libertada e agora ela quer reaver o amor de seus filhos, de quem foi afastada pelo ex-marido Estevão, julgando que a sua ex-esposa fosse mesmo uma assassina. Mas agora ela está de volta, e além de seus filhos, Maria quer encontrar o verdadeiro criminoso e limpar o seu nome. De uma bondosa mulher, Maria torna-se fria e cruel em sua cruzada para ter vingança contra os supostos amigos, amigos esses que são também os principais suspeitos da morte de Patrícia.

ÚLTIMO CAPÍTULO

APRESENTANDO HOJE:
Capítulo 20 - Enfim, o final feliz!


ASSISTA ONLINE:




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