domingo, 6 de maio de 2012

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban - Capítulo 4








— CAPÍTULO QUATRO —
O Caldeirão Furado



HARRY LEVOU VÁRIOS DIAS para se acostumar àquela estranha liberdade nova. Nunca antes ele pudera se levantar quando quisesse nem comer o que lhe desse vontade. Podia até ir aonde desejasse, desde que não saísse do Beco Diagonal, e como essa longa rua de pedras era repleta das lojas de magia mais fascinantes do mundo, Harry não sentia desejo algum de romper a palavra dada a Fudge e voltar ao mundo dos trouxas.
Todas as manhãs ele tomava o café no Caldeirão Furado, onde gostava de observar os outros hóspedes: bruxas do interior, franzinas e engraçadas, que vinham passar o dia fazendo compras; bruxos de aspecto venerável discutindo o último artigo do Transfiguração Hoje; bruxos de ar amalucado; anões de voz roufenha; e, uma vez, alguém, que tinha a aparência suspeita de uma bruxa malvada, pedira um prato de fígado cru, o rosto semiescondido por uma carapuça de lã.
Depois do café Harry saía para o pátio dos fundos, puxava a varinha, batia no terceiro tijolo a contar da esquerda, acima do latão de lixo, e se afastava enquanto se abria na parede o arco para o Beco Diagonal.
O garoto passou os dias longos e ensolarados explorando as lojas e comendo à sombra dos guarda-sóis de cores vivas à porta dos cafés, em que os seus companheiros de refeição mostravam uns aos outros as compras que tinham feito (“É um lunascópio, meu amigo, é o fim dessa história de mexer com tabelas lunares, me entende?”) ou então discutiam o caso de Sirius Black (“Pessoalmente, não vou deixar nenhum dos meus filhos sair sozinho até que ele esteja outra vez em Azkaban”).
Harry não precisava mais fazer os deveres de casa debaixo das cobertas, à luz de uma lanterna. Agora podia se sentar à luz do sol, na calçada da Sorveteria Florean Fortescue, terminar suas redações e até contar com a ajuda ocasional do próprio Florean, que, além de conhecer a fundo as queimas de bruxas em fogueiras, ainda oferecia a Harry, a cada meia hora, sundaes de graça.
Depois de ter reabastecido a carteira com galeões de ouro, sicles de prata e nuques de bronze retirados do seu cofre no Gringotes, Harry precisava se controlar muito para não gastar tudo de uma vez. Precisava se lembrar o tempo todo de que ainda lhe faltavam cinco anos de escola e que se sentiria mal em pedir dinheiro aos Dursley para comprar livros de bruxaria, e se segurou para não comprar um belo conjunto de bexigas de ouro maciço (um jogo de bruxos parecido com o de bolas de gude, em que as bolas espirram um líquido fedorento na cara do outro jogador quando ele perde um ponto). Harry se sentiu tentadíssimo, também, por um modelo perfeito de uma galáxia em movimento, dentro de um grande globo de vidro, e que teria significado que ele jamais precisaria assistir a uma aula de astronomia na vida.
Mas a coisa que mais testou a força de vontade de Harry apareceu em sua loja preferida, a Artigos de Qualidade para Quadribol, uma semana depois do menino ter chegado ao Caldeirão Furado. Curioso para saber a razão do ajuntamento diante da loja, Harry foi entrando com jeitinho e se espremendo entre as bruxas e bruxos até conseguir ver um tablado recentemente erguido, em que haviam montado a vassoura mais deslumbrante que ele já vira na vida.
— Acabou de ser lançada... um protótipo — comentava um bruxo de queixo quadrado para o companheiro.
— É a vassoura mais rápida do mundo, não é, papai? — perguntou a vozinha aguda de um menino mais novo do que Harry, que se pendurava no braço do pai.
— O time internacional da Irlanda acabou de mandar um pedido para sete desses vassourões! — informou o proprietário da loja aos presentes — E o time é o favorito para a Copa Mundial!
Uma bruxa corpulenta, na frente de Harry, se mexeu e o menino pôde ler o cartaz ao lado da vassoura:

FIREBOLT
Fabricada com tecnologia de ponta, a Firebolt possui um cabo de freixo, superfino e aerodinâmico, acabamento com resistência de diamante e número de registro entalhado na madeira. As cerdas da cauda, em lascas de bétula selecionadas à mão, foram afiladas até atingirem a perfeição aerodinâmica, dotando a Firebolt de equilíbrio insuperável e precisão absoluta. A Firebolt atinge 240km/Hora em dez segundos e possui um freio encantado de irrefreável ação. Cotação a pedido...

Cotação a pedido... Harry nem queria pensar quanto ouro a Firebolt custaria. Jamais desejara tanto alguma coisa em toda a sua vida, mas jamais perdera uma partida de Quadribol com a sua Nimbus 2000, e qual era a vantagem de esvaziar seu cofre no Gringotes para comprar uma Firebolt, quando já possuía uma excelente vassoura? Harry não pediu a cotação, mas voltou, quase todos os dias depois disso, só para admirar a Firebolt.
Havia, no entanto, coisas que Harry precisava comprar.
Ele foi à Botica para reabastecer seu estoque de ingredientes para poções e, como agora suas vestes escolares estavam vários centímetros mais curtas nos braços e nas pernas, ele visitou a Madame Malkin, Roupas para Todas as Ocasiões, e comprou novos uniformes. E, o mais importante, tinha que comprar os novos livros para o ano letivo, que incluiriam duas novas matérias: Trato das Criaturas Mágicas e Adivinhação.
Harry teve uma surpresa quando parou para olhar a vitrine da livraria. Em vez da decoração habitual com livros de feitiçaria gravados a ouro, do tamanho de lajotas, havia uma grande gaiola de ferro com uns cem exemplares de O Livro Monstruoso dos Monstros. Páginas arrancadas voavam para todo o lado, enquanto os livros se agrediam e se atracavam em furiosas lutas livres e mordidas agressivas.
Harry puxou a lista de livros do bolso e consultou-a pela primeira vez. O Livro Monstruoso dos Monstros estava arrolado como o livro-texto para a matéria Trato das Criaturas Mágicas. Agora ele compreendia por que Hagrid dissera que o livro futuramente seria útil. Sentiu alívio: andara imaginando se o amigo ia querer ajuda para cuidar de um novo bicho de estimação apavorante.
Quando Harry entrou na Floreios e Borrões, o gerente veio correndo ao seu encontro.
— Hogwarts? — perguntou o homem sem rodeios — Veio comprar os seus livros?
— Vim. Preciso...
— Saia do caminho — disse o gerente empurrando Harry para o lado com impaciência.
Em seguida, puxou um par de luvas muito grossas, apanhou um bengalão nodoso e rumou para a porta da gaiola em que estavam os exemplares de O Livro Monstruoso dos Monstros.
— Espere aí — disse Harry depressa — Já tenho um desses.
— Já? — uma expressão de imenso alívio espalhou-se pelo rosto do gerente — Graças a Deus! Já fui mordido cinco vezes esta manhã...
Um barulho alto de papel rasgado cortou o ar: dois livros monstruosos tinham agarrado um terceiro e começavam a destruí-lo.
— Parem com isso! Parem com isso! — exclamou o gerente, enfiando a bengala pelas grades e separando os livros à força — Nunca mais vou ter essas coisas em estoque, nunca mais! Tem sido uma loucura! Pensei que já tínhamos visto o pior quando compramos duzentos exemplares de O livro Invisível da Invisibilidade, custaram uma fortuna e nunca achamos os livros... bem... tem mais alguma coisa em que possa lhe servir?
— Tem — disse Harry, consultando a lista de livros — Preciso de Esclarecendo o Futuro de Cassandra Vablatsky.
— Ah, vai começar a estudar Adivinhação? — perguntou o gerente descalçando as luvas e conduzindo Harry ao fundo da loja, onde havia um canto reservado para esse assunto.
Em uma mesinha estavam empilhados livros como Prevendo o imprevisível, Proteja-se Contra Choques e Bolas Rachadas, Quando a Sorte se Transforma em Azar.
— Aqui está — disse o gerente, que subira em um escadote para apanhar um livro grosso, encadernado de preto — Esclarecendo o Futuro. Um bom guia para todos os métodos básicos de adivinhação do futuro, quiromancia, bolas de cristal, tripas de aves...
Mas Harry não estava escutando. Seu olhar havia pousado em outro livro, que fazia parte de um arranjo em outra mesinha: Presságios de Morte: o que fazer quando se sabe que vai acontecer o pior.
— Ah, eu não leria isso se fosse você — disse o gerente de passagem, procurando ver o que Harry estava olhando — Você vai começar a ver presságios de morte por todo lado. Só isso já é suficiente para matar a pessoa de medo.
Mas Harry continuou a encarar a capa do livro, tinha um cão preto do tamanho de um urso, com olhos brilhantes, que lhe parecia estranhamente familiar...
O gerente pôs nas mãos de Harry o livro Esclarecendo o Futuro.
— Mais alguma coisa? — perguntou.
— Sim — respondeu Harry, desviando o olhar dos olhos do cão e consultando, meio atordoado, a lista — Ah... preciso de Transfiguração para o Curso Médio e de O Livro Padrão de Feitiços, 3º série.
Harry saiu da Floreios e Borrões dez minutos depois, com os livros debaixo do braço, e tomou o rumo do Caldeirão Furado sem reparar aonde ia, esbarrando em várias pessoas. Subiu as escadas fazendo barulho, entrou em seu quarto e despejou os livros em cima da cama. Alguém estivera ali limpando o quarto, as janelas abertas deixavam entrar o sol. Harry ouviu os ônibus passarem lá embaixo, na rua dos trouxas que ele não via, e o som dos transeuntes invisíveis no Beco Diagonal. Viu de relance o seu reflexo no espelho acima da pia.
— Não pode ter sido um presságio de morte — disse à sua imagem em tom de desafio — Eu estava entrando em pânico quando vi aquela coisa na Rua Magnólia... provavelmente era apenas um cão sem dono...
Ele ergueu a mão automaticamente e tentou achatar os cabelos.
— Você está empenhado em uma batalha perdida, meu querido — disse sua imagem com a voz rouca.

* * *

À medida que os dias se passavam, Harry começou a procurar por todo lugar aonde ia um sinal de Rony ou de Hermione. Muitos alunos de Hogwarts vinham ao Beco Diagonal agora, com a proximidade do ano letivo.
Harry encontrou Simas Finnigan e Dino Thomas, companheiros da Grifinória, na Artigos de Qualidade para Quadribol, onde eles também haviam parado para namorar a Firebolt. Encontrou também o verdadeiro Neville Longbottom, um menino de rosto redondo e muito desmemoriado, à porta da Floreios e Borrões. Harry não parou para conversar, Neville parecia ter extraviado a lista de livros e estava levando um carão da avó, uma senhora de aparência colossal. Harry desejou que a senhora jamais descobrisse que ele fingira ser Neville quando estava fugindo do Ministério da Magia.
Harry acordou no último dia de férias, com o pensamento de que finalmente iria se encontrar com Rony e Hermione no dia seguinte, no Expresso de Hogwarts. Levantou-se, se vestiu e saiu para dar uma última espiada na Firebolt, e estava pensando onde iria almoçar, quando alguém gritou seu nome e ele se virou.
— Harry! HARRY!
E ali estavam eles, os dois, sentados na calçada da Sorveteria Florean Fortescue. Rony parecendo incrivelmente sardento, Hermione muito bronzeada, os dois acenando para ele freneticamente.
— Finalmente! — exclamou Rony, rindo-se enquanto o amigo se sentava — Fomos ao Caldeirão Furado, mas disseram que você tinha saído, fomos à Floreios e Borrões, à Madame Malkin e...
— Comprei todo o meu material escolar na semana passada — explicou Harry — E como é que vocês sabiam que eu estava hospedado no Caldeirão Furado?
— Papai — disse Rony com simplicidade.
O Sr Weasley, que trabalhava no Ministério da Magia, é claro que soubera da história toda que acontecera com a Tia Guida.
— É verdade que você transformou a sua tia em um balão? — perguntou Hermione num tom muito sério.
— Eu não tive intenção — respondeu Harry, enquanto Rony rolava de rir — Simplesmente... perdi o controle.
— Não tem a menor graça, Rony — disse Hermione rispidamente — Francamente, fico admirada que Harry não tenha sido expulso.
— Eu também — admitiu Harry — E nem expulso, pensei que ia ser preso.
E olhou para Rony.
— Seu pai não sabe por que Fudge não me castigou, sabe?
— Provavelmente porque era você, não é? — Rony sacudiu os ombros ainda rindo — O famoso Harry Potter e tudo o mais. Eu nem gostaria de ver o que o Ministério faria comigo se eu transformasse minha tia em balão. Mas não se esqueça, eles teriam que me desenterrar primeiro, porque mamãe já teria me matado antes. Em todo o caso, pode perguntar ao papai hoje à noite. Estamos hospedados no Caldeirão Furado, também! Assim você pode ir para a estação de King´s Cross conosco amanhã! Hermione também está lá!
A garota confirmou com a cabeça, radiante.
— Mamãe e papai me deixaram lá hoje de manhã com todas as minhas coisas de Hogwarts.
— Fantástico! — exclamou Harry feliz — Então você já comprou os livros e todo o resto?
— Olhe só para isso — disse Rony, tirando uma caixa comprida e fina de uma sacola e abrindo-a — Uma varinha nova em folha. Trinta e cinco centímetros e meio, salgueiro, contendo um fio de cauda de unicórnio. E compramos todos os nossos livros... — ele apontou para uma grande saca embaixo da cadeira — E aqueles livros monstruosos, hein? O balconista quase chorou quando dissemos que queríamos dois.
— E isso tudo o que é, Mione? — perguntou Harry, apontando não para uma, mas para três sacas estufadas na cadeira junto à amiga.
— Bem, é que vou fazer mais matérias novas do que vocês, não é? Comprei os livros de Aritmancia, de Trato das Criaturas Mágicas, de Adivinhação, de Estudo das Runas Antigas, de Estudo dos Trouxas...
— Para que é que você vai fazer Estudo dos Trouxas? — perguntou Rony, revirando os olhos para Harry — Você nasceu trouxa! Sua mãe e seu pai são trouxas! Você já sabe tudo sobre trouxas!
— Mas vai ser fascinante estudar os trouxas do ponto de vista dos bruxos — disse Hermione muito séria.
— Você está planejando comer ou dormir este ano, Mione? — perguntou Harry, enquanto Rony dava risadinhas abafadas.
A garota não ligou para os dois.
— Ainda tenho dez galeões — disse ela examinando a bolsa — É meu aniversário em Setembro, e mamãe e papai me deram um dinheiro para eu comprar um presente de aniversário antecipado.
— Que tal um bom livro? — perguntou Rony inocentemente.
— Não, acho que não — disse Hermione controlando-se — O que eu quero mesmo é uma coruja. Quero dizer, Harry tem a Edwiges e você tem o Errol...
— Não tenho, não — respondeu Rony — Errol é uma coruja de família. Meu mesmo só tenho o Perebas — e tirou o rato de estimação do bolso — Quero mandar examinar ele — acrescentou, pousando Perebas na mesa a que estavam sentados — Acho que o Egito não fez bem a ele.
Perebas estava mais magro do que de costume, e seus bigodes pareciam decididamente caídos.
— Tem uma loja para criaturas mágicas ali — disse Harry, que agora conhecia o Beco Diagonal como a palma da mão — Você podia ver se eles têm algum produto para o Perebas, e Mione podia comprar a coruja.
Assim dizendo, eles pagaram os sorvetes e atravessaram a rua para ir a Animais Mágicos.
Não havia muito espaço dentro da loja. Cada centímetro das paredes estava escondido por gaiolas. Era malcheirosa e barulhenta porque os ocupantes das gaiolas guinchavam, gritavam, palravam, sibilavam.
A bruxa ao balcão estava ocupada ensinando a um bruxo como cuidar de um tritão com dois rabos, por isso Harry, Rony e Hermione aguardaram, examinando as gaiolas.
Havia dois enormes sapos roxos que engoliam, com um ruído aquoso, um banquete de moscas-varejeiras mortas. Uma tartaruga gigante, o casco incrustado de pedras preciosas, cintilava junto à janela. Lesmas venenosas, cor de laranja, subiam lentamente pela parede do seu aquário, e um coelho branco e gordo não parava de se transformar em cartola de cetim e novamente em coelho, com um grande estalo. Havia ainda gatos de todas as cores, uma gaiola barulhenta de corvos, uma cesta de engraçadas bolas de pêlo creme que zuniam alto, e, em cima do balcão, um gaiolão de ratos negros e luzidios que brincavam de dar saltos se apoiando nos longos rabos lisos.
O bruxo do tritão de dois rabos saiu e Rony se aproximou do balcão.
— É o meu rato — disse à bruxa — Ele tem andado meio indisposto desde que voltamos do Egito.
— Põe ele aqui no balcão — pediu a bruxa, tirando do bolso um par de pesados óculos de armação preta.
Rony catou Perebas do bolso interno e depositou-o ao lado da gaiola dos seus companheiros de espécie, que pararam os saltitos e correram para as grades para ver melhor.
Como todo o resto que Rony possuía, Perebas, o rato, era de segunda mão (pertencera ao irmão de Rony, Percy) e era um pouco maltratado. Ao lado dos reluzentes ratos na gaiola, ele parecia particularmente lastimável.
— Hum — fez a bruxa, levantando Perebas — Que idade tem esse rato?
— Não sei — respondeu Rony — Ele é bem velho. Foi do meu irmão.
— Que poderes ele tem? — perguntou a bruxa, examinando Perebas atentamente.
— Ah...
A verdade é que Perebas jamais revelara o menor vestígio de poderes interessantes, o olhar da bruxa se deslocou da orelha esquerda e esfiapada de Perebas para a pata dianteira, que tinha um dedinho a menos, e deu um muxoxo alto.
— Este aqui já sofreu muito na vida — disse ela.
— Já estava assim quando Percy me deu — respondeu Rony se defendendo.
— Não se pode esperar que um rato comum ou rato de jardim como esse, viva mais do que uns três anos — disse a bruxa — Agora se o senhor estiver procurando alguma coisa mais resistente, talvez goste de um desses...
Ela indicou os ratos negros, que imediatamente recomeçaram a saltar.
Rony resmungou:
— Exibidos.
— Bem, se o senhor não quiser outro, pode experimentar um tônico para ratos — disse a bruxa, levando a mão embaixo do balcão e apanhando um frasquinho vermelho.
— Está bem. Quanto...
Rony se encolheu quando uma coisa enorme e laranja saiu voando do teto da gaiola mais alta e aterrissou na cabeça dele, e em seguida avançou e bufou com violência para Perebas.
— NÃO BICHENTO, NÃO! — gritou a bruxa, mas Perebas escapuliu entre as suas mãos como uma barra de sabão molhado, aterrissou de pernas abertas no chão e disparou para a porta.
— Perebas! — berrou Rony, correndo atrás do rato, Harry seguiu-o.
Os dois levaram quase dez minutos para recuperar Perebas, que se refugiara embaixo de um latão de lixo à porta da Artigos de Qualidade para Quadribol. Rony tornou a enfiar o rato trêmulo no bolso e se endireitou, massageando os cabelos.
— Que foi aquilo?
— Ou um gato muito grande ou um tigre muito pequeno — disse Harry.
— Aonde foi a Mione?
— Provavelmente comprando a coruja.
Eles refizeram o caminho pela rua apinhada de gente até a Animais Mágicos. Quando iam chegando, viram Hermione sair, mas ela não trazia coruja alguma. Seus braços envolviam com firmeza, um enorme gato laranja.
— Você comprou aquele monstro? — perguntou Rony, boquiaberto.
— Ele é lindo, não é? — disse Hermione radiante.
Era uma questão de opinião, pensou Harry. A pelagem do gato era espessa e fofa, mas ele decididamente tinha pernas arqueadas e uma cara de poucos amigos, estranhamente amassada, como se tivesse batido de frente numa parede de tijolos. Agora que Perebas não estava à vista, porém, o gato ronronava satisfeito nos braços de Hermione.
— Mione, essa coisa quase me escalpelou! — reclamou Rony.
— Foi sem querer, não foi, Bichento? — perguntou Hermione.
— E o que vai ser do Perebas? — disse o menino apontando para o calombo no bolso do peito — Ele precisa de descanso e sossego! Como é que vai ter isso com esse bicho por perto?
— Isto me lembra que você esqueceu o seu tônico para ratos — disse Hermione, batendo o frasco vermelho na mão de Rony — E pare de se preocupar, Bichento vai dormir no meu dormitório e Perebas no seu, qual é o problema? Coitado do Bichento, a bruxa disse que ele está na loja há séculos; ninguém quis o gato.
— Por que será? — perguntou Rony com sarcasmo, a caminho do Caldeirão Furado.
Encontraram o Sr. Weasley sentado no bar, lendo o Profeta Diário.
— Harry! — exclamou ele, erguendo a cabeça e sorrindo — Como vai?
— Bem, obrigado — respondeu o garoto enquanto ele, Rony e Hermione se reuniam ao Sr. Weasley com todas as compras que tinham feito.
O Sr. Weasley pôs o jornal de lado e Harry viu a foto de Sirius Black, agora muito sua conhecida, encarando-o.
— Então eles ainda não pegaram o homem? — perguntou.
— Não — respondeu o Sr. Weasley, parecendo muito sério — O Ministério nos tirou do nosso trabalho normal para tentar encontrá-lo, mas até agora não tivemos sorte.
— Nós receberíamos uma recompensa se o apanhássemos? — perguntou Rony — Seria bom ganhar mais um dinheirinho...
— Não seja ridículo, Rony — disse o Sr. Weasley, que a um olhar mais atento parecia muito tenso — Black não vai ser apanhado por um bruxo de treze anos. Os guardas de Azkaban é que vão levá-lo de volta, escreva o que digo.
Naquele momento a Sra. Weasley entrou no bar, carregada de sacas e acompanhada pelos gêmeos, Fred e Jorge, que iam começar o quinto ano em Hogwarts, Percy, o recém eleito monitor-chefe, e Gina, a caçula e única menina da família.
Gina, que sempre teve um xodó por Harry, pareceu ainda mais constrangida do que de costume, talvez porque o menino lhe salvara a vida no ano anterior, em Hogwarts. Ela ficou muito corada e murmurou um “olá”, sem olhar para Harry. Percy, porém, estendeu a mão solenemente como se ele e o colega jamais tivessem se encontrado e disse:
— Harry. Que prazer em vê-lo.
— Olá, Percy — respondeu Harry, tentando conter o riso.
— Você está bem, espero? — continuou Percy pomposo, durante o aperto de mãos. Parecia até que estava sendo apresentado ao prefeito.
— Muito bem, obrigado...
— Harry! — exclamou Fred, empurrando Percy com os cotovelos e fazendo uma grande reverência — É simplesmente esplêndido encontrá-lo, meu caro...
— Maravilhoso — disse Jorge, empurrando Fred para o lado e, por sua vez, apertando a mão de Harry — Absolutamente maravilhoso.
— Agora chega — interrompeu-os a Sra. Weasley.
— Mãe! — exclamou Fred como se tivesse acabado de avistá-la, apertando-lhe a mão também — É realmente formidável encontrá-la...
— Eu já disse que chega — disse a Sra. Weasley, descansando as compras em uma cadeira vazia — Olá, Harry, querido. Suponho que tenha sabido das nossas eletrizantes novidades?
Ela apontou para o distintivo de prata novinho em folha no peito de Percy.
— É o segundo monitor-chefe na família! — exclamou, inchada de orgulho.
— E o último — resmungou Fred para si mesmo.
— Não duvido nada — disse a Sra. Weasley, franzindo a testa de repente — Estou reparando que até hoje vocês dois não foram promovidos a monitores.
— E para que é que nós queremos ser monitores? — perguntou Jorge, parecendo se indignar até com a própria idéia — Isso tiraria toda a graça da vida.
Gina abafou o riso.
— Vocês deviam dar um exemplo melhor para sua irmã! — ralhou a Sra. Weasley.
— Gina tem outros irmãos para lhe dar exemplo, mãe — disse Percy com altivez — Vou mudar de roupa para o jantar...
Ele desapareceu e Jorge deixou escapar um suspiro.
— Bem que a gente tentou trancar ele numa pirâmide — disse a Harry — Mas a mamãe flagrou a gente no ato.
O jantar àquela noite foi muito agradável. Tom, o dono do bar-hospedaria, juntou três mesas na sala, e os sete Weasley, Harry e Hermione traçaram cinco pratos maravilhosos.
— Como vamos para a estação de King´s Cross amanhã, papai? — perguntou Fred quando enfiavam a colher em um suntuoso pudim de chocolate.
— O Ministério vai mandar dois carros — disse o Sr. Weasley.
Todos ergueram os olhos para ele.
— Por quê? — perguntou Percy, curioso.
— Por sua causa, Percy — disse Jorge, sério — E vão botar bandeirinhas em cima dos capôs, com as letras TC...
—... significando Tremendo Chefão — completou Fred.
Todos, à exceção de Percy e da Sra. Weasley, deram risadinhas baixando o rosto para os pudins.
— Por que é que o Ministério vai mandar carros, pai? — Percy repetiu a pergunta, num tom muito digno.
— Bem, como não temos mais nenhum — disse o Sr. Weasley — E como trabalho lá, eles vão me fazer esse favor...
Sua voz era displicente, mas Harry não pôde deixar de notar que as orelhas do Sr. Weasley tinham ficado vermelhas, iguais às de Rony quando o pressionavam.
— E ainda bem — disse a Sra. Weasley, animada — Vocês fazem idéia de quanta bagagem têm juntos? Que bela figura vocês fariam no metrô dos trouxas... todo mundo já está de mala pronta ou não?
— Rony ainda não guardou todas as coisas novas no malão — disse Percy, com voz de sofredor — Largou tudo em cima da minha cama.
— É melhor você subir e guardar tudo direito, Rony, porque não vamos ter tempo amanhã cedo — disse a Sra. Weasley alto, para o filho sentado mais longe.
Rony amarrou a cara para Percy.
Depois do jantar todos se sentiram satisfeitos e cheios de sono. Um a um foram subindo para os quartos para verificar as coisas para o dia seguinte.
Rony e Percy estavam hospedados no quarto ao lado de Harry. Ele acabara de fechar e trancar seu malão quando ouviu vozes zangadas através da parede, e foi ver o que estava acontecendo.
A porta do quarto doze estava entreaberta e Percy gritava:
— Estava aqui, em cima da mesa-de-cabeceira, eu o tirei para polir...
— Eu não peguei, está bem? — berrava Rony em resposta.
— Que está acontecendo? — perguntou Harry.
— Meu distintivo de monitor-chefe sumiu — respondeu Percy virando-se irritado para Harry.
— E o tônico para ratos de Perebas também — falou Rony, jogando as coisas para fora do malão para procurá-lo — Acho que deixei o frasco no bar...
— Você não vai a lugar nenhum até achar o meu distintivo — berrou Percy.
— Eu vou buscar o remédio do Perebas. Já fiz a mala — disse Harry a Rony, e desceu.
Harry estava no corredor a meio caminho do bar, agora mal iluminado, quando ouviu outras duas vozes zangadas que vinham da sala. Um segundo depois, ele as reconheceu como sendo as do Sr. e da Sra. Weasley. Hesitou, sem querer que eles soubessem que os ouvira discutindo, mas a menção do seu nome o fez parar, e, num segundo momento, se aproximar da porta da sala.
—... Não faz sentido não contar a ele — o Sr. Weasley dizia, veemente — O garoto tem o direito de saber. Tentei dizer isso a Fudge, mas ele insiste em tratar Harry como criança. O menino já tem treze anos e...
— Arthur, a verdade iria aterrorizar Harry! — disse a Sra. Weasley com a voz esganiçada — Você quer mesmo mandar Harry de volta à escola com essa ameaça pairando sobre a cabeça dele? Pelo amor de Deus, ele está feliz sem saber de nada!
— Não quero fazê-lo infeliz, quero deixá-lo de sobreaviso! — retrucou o Sr. Weasley — Você sabe como são o Harry e o Rony andando por aí sozinhos, já foram parar na Floresta Proibida duas vezes! Mas Harry não pode fazer isto este ano! Quando penso o que poderia ter acontecido a ele na noite em que fugiu de casa! Se o Nôitibus não o tivesse apanhado, aposto que ele estaria morto antes do Ministério encontrá-lo.
— Mas ele não está morto, está são e salvo, então qual é o sentido...
— Molly, dizem que Sirius Black é doido, e talvez seja, mas ele foi suficientemente esperto para fugir de Azkaban, e isto é uma coisa que todos supõem que seja impossível. Já faz três semanas e nem sinal dele, e não dou a mínima para o que Fudge vive declarando ao Profeta Diário, estamos tão próximos de apanhar Black quanto estamos de inventar uma varinha que funcione sozinha. A única coisa de que temos certeza é que Black está atrás de...
— Mas Harry está perfeitamente seguro em Hogwarts.
— Achávamos que Azkaban era perfeitamente segura. Se Black foi capaz de sair de Azkaban, então é capaz de entrar em Hogwarts.
— Mas ninguém tem realmente certeza de que Black esteja atrás de Harry...
Ouviu-se um baque seco na mesa e Harry não teve dúvida de que o Sr. Weasley tinha dado um soco na mesa.
— Molly, quantas vezes preciso lhe dizer a mesma coisa? A imprensa não noticiou porque Fudge não queria que houvesse escândalo, mas Fudge foi até Azkaban na noite em que Black fugiu. Os guardas lhe disseram que Black andava falando durante o sono havia algum tempo. Sempre as mesmas palavras: “Ele está em Hogwarts... ele está em Hogwarts”. Black é desequilibrado, Molly, e quer ver Harry morto. Se você quer saber, ele acha que se matar Harry vai trazer Você-Sabe-Quem de volta ao poder. Black perdeu tudo naquela noite em que Harry deteve Você-Sabe-Quem, e passou doze anos sozinho em Azkaban pensando nisso...
Fez-se silêncio.
Harry chegou mais perto da porta, desesperado para ouvir mais.
— Bem, Arthur, você deve fazer o que acha que é certo. Mas está se esquecendo de Alvo Dumbledore. Acho que nada poderá fazer mal a Harry em Hogwarts enquanto Dumbledore for o diretor. Suponho que ele esteja sabendo de tudo isso.
— Claro que sabe. Tivemos que lhe perguntar se se importava que os guardas de Azkaban tomassem posição junto às entradas da escola. Ele não ficou muito satisfeito, mas concordou.
— Não ficou satisfeito? Por que não ficaria satisfeito, se os guardas estão lá para agarrar o Black?
— Dumbledore não gosta dos guardas de Azkaban — disse o Sr. Weasley deprimido — Nem eu, se você quer saber... mas estar lidando com um bruxo como Black, por vezes a gente tem que se aliar com gente que se prefere evitar. Se eles salvarem Harry... então nunca mais direi uma palavra contra eles — disse o Sr. Weasley cansado — Já está tarde, Molly, é melhor subirmos...
Harry ouviu as cadeiras serem mexidas. O mais silenciosamente que pôde, correu pelo corredor até o bar e desapareceu de vista.
A porta da sala se abriu, e alguns segundos depois o ruído de passos lhe informou que o Sr. e a Sra. Weasley estavam subindo as escadas.
O frasco de tônico para ratos estava debaixo da mesa à qual o grupo se sentara mais cedo. Harry esperou até a porta do quarto do Sr. e da Sra. Weasley se fechar, depois tornou a subir levando o vidro. Encontrou Fred e Jorge agachados nas sombras do patamar, rindo a mais não poder de ouvir Percy desmontar o quarto que ocupava com Rony, à procura do distintivo.
— Está conosco — sussurrou Fred a Harry — Andamos dando uma melhorada nele.
No distintivo agora se lia Tremendo Chefão.
Harry forçou uma risada, foi entregar a Rony o frasco de tônico para ratos, depois se trancou em seu quarto e foi se deitar.
Então Sirius Black estava atrás dele.
Isto explicava tudo. Fudge ter sido indulgente porque ficara aliviadíssimo de encontrá-lo vivo. Fizera Harry prometer não sair do Beco Diagonal onde havia um grande número de bruxos para vigiá-lo. E ia mandar dois carros do Ministério para levá-los à estação no dia seguinte, de modo que os Weasley pudessem cuidar de Harry até ele embarcar no trem.
Harry ficou deitado ouvindo a gritaria abafada no quarto vizinho e imaginando por que não se sentia mais apavorado. Sirius Black matara treze pessoas com uma maldição. O Sr. e a Sra. Weasley obviamente pensavam que Harry entraria em pânico se soubesse da verdade. Mas, por acaso, Harry concordava inteiramente com o Sra. Weasley que o lugar mais seguro da terra era aquele em que Alvo Dumbledore acontecesse de estar. As pessoas não diziam sempre que Dumbledore era a única pessoa de quem Lord Voldemort já tivera medo? Com certeza Black, sendo o braço direito de Voldemort, não teria também igual medo do diretor?
E agora havia os guardas de Azkaban de quem todos não paravam de falar. Eles pareciam deixar as pessoas paralisadas de pavor e, se estavam de prontidão a toda volta da escola, as chances de Black entrar lá pareciam muito remotas.
Não, considerando tudo, a coisa que mais incomodava Harry era o fato de que suas chances de visitar Hogsmeade agora eram zero. Ninguém iria querer que Harry deixasse a segurança do castelo até Black ser apanhado, aliás, Harry suspeitava que todos os seus movimentos seriam atentamente vigiados até que o perigo passasse.
Olhou zangado para o teto escuro. Será que achavam que ele não sabia se cuidar? Já escapara de Lord Voldemort três vezes; não era um completo inútil...
Sem que ele quisesse, a imagem do animal nas sombras da Rua Magnólia perpassou sua mente. Que é que se faz quando se sabe que o pior está por vir...
— Eu não vou ser morto — disse Harry em voz alta.
— É assim que se fala, querido — disse seu espelho, cheio de sono.









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